segunda-feira, 8 de julho de 2019

OS IRMÃOS AURELI - AVENTURA E LITERATURA



WILLY  AURELI E O RIO DA SOLIDÃO


AFONSO SCHMIDT*


Há muitos anos, São Vicente não passava de uma cidade pobre e quieta, onde todos os habitantes se conheciam. Suas casas já tinham nascido velhas; pareciam do tempo dos Capitães-Mores. 

Os pontos mais concorridos eram a Biquinha, o cinema Anchieta, a Matriz, a estação de passageiros da "City" e os jogos de futebol na Praça 22 de Janeiro. 

Nos dias feriados, havia festa no "stand" do Bugre. E era só. Entre as famílias de calungas ou vicentinos, havia uma que nos era particularmente, simpática: a dos Aureli. Pai italiano, mãe austríaca e filhos santistas. 

Estava-se na primeira Grande Guerra, quando Victor Emanuel e Francisco José se colocaram em campos opostos. Multa gente pensou que o casal se desaviesse... Mas na casa dos Aurell tudo continuou como dantes. Foi nesse tempo, ou logo depois, que o jovem Willy encontrou o seu destino. Conforme ele próprio conta no livro "Bandeirantes do Oeste", que tanto êxito alcançou, “buscava ansiosamente em sua juventude emoções fortes pelas terras ainda pouco habitadas da imensa Praia Grande, ou nos cerrados, além da Ponte dos Barreiros". Tempos passados, escrevia nas "Folhas". Dali por diante, sua vida repartiu-se entre as excursões arriscadas e as reportagens cheias de interesse jornalístico. Como caçador, conheceu palmo a palmo a Serra de Cubatão; como homem de imprensa, publicou reportagens sensacionais, que lhe valeram dois prêmios então instituídos pela secretaria da Segurança.

Animado pelos primeiros triunfos meteu-se em 1937 pelo sertão, sertão de verdade, escrevendo depois obras que lhe grangearam popularidade, como "Roncador'', "Sertões bravios", "Léguas sem fim" "Bandeirantes do Oeste" e "Terras sem sombra". Tornou-se um nome entre os viajantes procuraram redescobrir o Brasil. Ao mesmo tempo um nome entre os escritores que souberam transmitir ao público as suas vicissitudes em terras pouco conhecidas, ou mesmo desconhecidas de todo. As suas entradas pelo mapa multiplicaram-se. Na incursão que fez ao Brasil Centra realizou o levantamento oro-hidro-topográfico da bacia pré-amazônica, enriquecendo assim a cartografia nacional, ainda incompleta nesse setor, onde havia lacunas. No ano seguinte, após memorável jornada, fixou nas cartas a serra do Roncador, tão cheia de mistérios como discutida. Não perdeu o tempo. Realizou colheitas glotológicas, mensurações antropológicas de várias tribos, coletas botânicas, estudos de clima e de solo. 

A "Bandeira Piratininga", de que Willy Aureli foi fundador e comandante, realizou difícil circunavegação da ilha do Bananal, no rio Araguaia, em Goiás, a maior ilha fluvial do mundo. Esse gigantesco périplo realizou-se em 1945 a 1946 e mereceu do Marechal Mariano Cândido da Silva Rondon uma carta de aplauso em que o ilustre militar dizia:

"Com o seu traballho, transformou completamente a fisionomia topográfica de toda a região".

Willy Aureli encontrou os maiores obstáculos quando penetrou no Rio da Solidão, por ele descoberto em 1945 . Ainda assim, teimou em percorre-lo até às suas nascentes, por achá-lo de importância capital na imensa rede hidrográfica do alto de Mato Grosso. No entanto, só conseguiu alcançar os seus desígnios de 1952 a 1953. Esse belo feito, levado a cabo depois da descoberta das nascentes do Rio Liberdade, inutilmente tentado por outras expedições, resultou na obra "o Rio da Solidão", que está. despertando a mais viva curiosidade entre os milhares de admiradores de Willy Aurel!, o Jack London dos sertões brasileiros. Oito vezes, partiu de São Paulo a "Bandeira Piratininga", rasgando novos horizontes na direção

Oeste. Foi um belo serviço prestado àquela vasta região brasileira que, depois de conhecida, começa a povoar-se rapidamente. Há vinte anos, apenas, era uma sucessão de desertos, onde o mistério assustava mais do que a distancia, os mosquitos, as feras, os índios e as endemias. O vicentino sertanista, como os desbravadores do passado, fundou povoados, plantou roças, abriu estradas e caminhos que hoje são percorridos pelos primeiros habitantes.

Não raro, para levar a efeito seus empreendimentos, Willy Aureli assumia compromissos pessoais que, de volta, satisfazia com os minguados proventos financeiros da empresa, dos livros que escrevia, dos documentários que eram exibidos em todos os cinemas do Brasil e, também das suas conferências e palestras em institutos educacionais, em Escolas Normais e Colégios de muitos Estados, inclusive do Paraná. e do Rio de Janeiro.

Assim, tornou-se ele membro de diversas sociedades sábias entre as quais a sociedade Geográfica Brasileira de São Paulo, o Instituto de Ciências de São Paulo, o Gabinete Literário de Mato Grosso e ainda outros que iria mais longe se fôssemos nomear. Mas Willy Aurell não deu por terminada a sua. obra.Alimenta o desejo de, brevemente, entrar em contato com os índios Canoeiros, até agora. tidos na conta de inabordáveis.

Assim como, em 1937, foi dos primeiros a penetrar na terrível nação dos Xavantes, trazendo para o mundo civilizado preciosas revelações, cinematograficamente documentadas, em futuro próximo ele irá conhecer a revelar ao Brasil a vida intima e social dos misteriosos canoeiros. Será, como se pode calcular, uma jornada dura, inçada de perigos e, quiçá, o encerramento com chave de ouro de um ciclo de penetrações sertanistas que beneficiaram os estudiosos do mundo inteiro.

Nessa existência, Willy Aureli perdeu vários companheiros, entre os quais seu irmão Aurelio Aureli, que hoje se encontra enterrado numa ribanceira, à sombra de certa árvore hierática, em lugar assinalado por uma cruz, na margem harmoniosa do rio Araguaia. 

No movimento de 1932, o caiçara sertanista foi sub-comandante de uma companhia: os campo do Sul, o que se encontra miudamente contado no livro "A Retirada de Macega". Suas atividades durante esse período estão narradas em diversas obras pelos cronistas daqueles dias. Seu gabinete de trabalho é um mundo. Ali nos foi mostrado o original de próximo livro a que ele deu o título de "Feras e monstros do sertão"; valerá por um compêndio de zoologia, entremeado de episódios intensamente vivido pelo autor nos áditos selváticos do sertão, da terra do homem que se veste de penas, usa cocar e traz ao pescoço colares de pedrinhas coloridas. Nessa obra, o nosso viajante trata exaustivamente dos jaguarés, jacarés, grandes serpentes, arraias, tartarugas e outros habitantes da vasta região onde os bichos chegam de longe para verem essa coisa curiosa: o homem civilizado .


A heroica viagem arriscada por Willy Aureli em 1953 às vertentes Rio da Solidão é o tema deste volume que o "Clube do Livro" está oferecendo aos seus leitores. Trata-se de narrativa singela e espontânea, relatando, numa reportagem romanceada, as suas andanças pela selva muito para lá dos pontos alcançados por outros viajantes. Ele conheceu o Brasil de que os livros não falam; a região que se segue ao ponto final dosilustres roteiros. Seu estilo é claro, útil, sugestivo. Em cada página, há uma surpresa. E o leitor, diante desse livro, acompanha o capitão da "Bandeira Piratininga" nas pegadas das epopéias seiscentistas. 

No entanto já não trata de apresar e escravizar a indiana brava, descobrir as minas de ouro, de areias de diamantes. Seu material é diferente: leva consigo cadernos de notas, lápis bem apontados, discos de gramofone para colher a linguagem dos autoctónes, câmara cinematográfica para fixar seus usos e costumes, assim como a paisagem em que vivem, e uma fita métrica para as mensurações etnográficas daqueles quase desconhecidos povos. E sementes. E remédios. E cartilhas de A B e, para alguns casos especiais. Até mesmo missangas para alertar a cobiça dos morubixabas!

Willy Aureli, o dinâmico presidente da Associação Paulista de Imprensa, nasceu em Santos. Entrou no jornalismo em 1924, iniciando a sua carreira jornalística, no "Jornal da Noite" e na· "Gazeta do Povo", daquela cidade. Em1927, entrou para as "Folhas" de São Paulo, onde permaneceu até 1952. Foi diretor do matutino paulista "A Época". Posteriormente serviu no jornal "O Tempo". Como repórter, sobressaiu-se, iniciando, em 1937, a sua caminhada pelo sertão, à testa da "Bandeira Piratininga", desbravando zonas totalmente virgens, trazendo à coletividade enorme soma de conhecimentos: realizou, entre outras coisas, o levantamento oro-hidro- topográfico de toda a bacia pré- amazônica, enriquecendo, dessa forma, a cartografia nacional. 

Realizou oito penetrações na "jungle". Publicou: "Opio, morfina e cocoína”, reportagens, 1931; "Tragédia de Ekaterinenburg", reportagem, 1931; "Roncador", viagens,1938; "Sertões bravios" viagens 1940; "Légua sem fim": viagens: 1942; "Bandeirantes do Oeste", viagens, 1946; "Dias sombrios", romance, 1952, "Terra sem Sombra", viagem, 1952; "Farrapos Humanos", romance, 1952; "Jesse James Paulista", romance, 1956. 

É membro da Sociedade Brasileira de Geografia do Rio de Janeiro; Sociedade Científica de S.Paulo; Sociedade Geográfica de S. São Paulo; do Gabinete Literário de Mato Grosso; Associação de Imprensa de Honduras: Comendador da Ordem Imperatriz Leopoldina; Comandante da Bandeira Piratininga; ex-delegado do Serviço de Proteção aos Índios no Estado de São Paulo; Conselheiro do Departamento Estadual de Turismo e membro de diversas instituições culturais.


A Gazeta, São Paulo, sexta-feira, 26 de julho de 1957.



* Afonso Schmidt nasceu em Cubatão em 29 de junho de 1890 e faleceu em São Paulo em 3 de abril de 1964 aos 73 anos. Jornalista, contista, romancista, dramaturgo e ativista anarquista, autor de mais de 40 livros, peças, panfletos e  inúmeros artigos e reportagens ao logo de mais de 60 anos de carreira. Residiu em Santos por duas vezes (1906 e 1913), onde fundou o jornal Vesper. 
 
























LEMBRANÇAS DE SÃO VICENTE

À noite, ao lado do mano, algo reconfortado, retrocedemos de muitos anos em nossa palestra e confidências. Voltamos até São Vicente, na nossa vivenda, quando, crianças ainda, perambulávamos pelas praias silentes, em busca de aventuras". E recordamos a minha primeira expedição. Nos fundos do quintal de nossa casa, abria-se um charco imenso que alcançava os trilhos da então Southern São Paulo Railways. É Aurélio que rememora, cinematogràficamente, e eu fico, no escuro, ouvindo-o, silencioso, sentindo refluir, de um jato, tôda a tremenda nostalgia de eras já tão distantes! Aurélio esmiuça e eu recordo... 

Tinha 12 anos, quando realizei a minha primeira expedição. Parti montado em frágil jangada, construída com tábuas de caixas e caixões, evidenciando, desde então, minha propensão às construções... fluviais! Inútil acrescentar que, logo adiante, naufraguei, imergindo, até o peito, no lodo esverdeado onde sapos volumosos tinham vivenda preferida. Aurélio fala: 

- Lembro-me como se fôsse ontem. Trabalhamos na "construção”, recorda? Eu me incumbira de arranjar os pregos com o vendeiro e você o martelo com o vizinho... Você queria construir um mastro para o velame, tudo de acordo com os livros de Salgari e de Julio Verne... Fernanda e Parisina ajudaram também e mamãe vinha dar uma espiada de quando em vez... Quem diria que agora estamos sulcando rios imensos e vivendo tantas emoções! 

Faz uma pausa. Eu continuo calado, olhos fecha. dos, vendo estampadas no verso das palpebras todas as passagens dessa meninice feliz, barulhenta e aven 

turosa. Não mais ouço Aurélio que reinicia as suas reminiscências e afundo na época gloriosa dos nossos feitos quando, após o fracasso dessa "expedição” inicial, percorríamos as terras pouco habitadas dos cerrados até a Ponte dos Barreiros ou quando, periclitando por cima dos andaimes da Ponte Pensil, disparavamos até a Praia Grande, comboiando um grupo de petizes de nossa idade, a fim de “assaltarmos” os grandes navios atirados à solidão das areias pelos tremendos furacões oceânicos! Eramos, nessa época, pequenos flibusteiros desejosos de emular com os tigres de Mompracem” ou com os adeptos de “Sandokan”. E as praias infinitas de Itanhaém ouviam os nossos gritos de vitória quando aprisionávamos algum siri alentado ou meia dúzia de caranguejos nos pântanos marginais! Embarafustávamos pelas matas adjacentes, corações palpitando ao menor ruído, desejando, ardentemente, topar com alguma surpresa maiúscula e, ao mesmo tempo, temendo enfrentá-la! Lembro-me do susto que levamos ao depararmos com o primeiro porco-do-mato que pôs asas em nossas pernitas, fazendo-nos descambar com velocidade extraordinária, ribanceira abaixo... 

Com o tempo, o âmbito de nossas incursões se dilatava. Já fartos de matas, iamos à ilha Porchat, nessa época bem diferente do que é hoje. Galgando, como macacos, as enormes pedras, os monólitos, iamos até o extremo Leste a fim de penetrarmos numa caverna soturna, quando da maré baixa, arriscando inconscientemente, as nossas vidas, para descobrirmos os "segredos e mistérios” da “casa dos tubarões”... Não havia lapa, toca, caverna, mata, praia, enseada que nós desconhecessemos. 

BANDEIRANTES DO OESTE.