09/07/2019

BIOGRAFIAS VICENTINAS III



323.Calunga, gentílico de São Vicente. 
324.Vicentinos no Gonzaga.
325.O Porto Federal em Santos, Guarujá, Cubatão e São Vicente.
326. As águas e adutora do Itú.
327. O Museu de História Colonial. 
328.A Capela de São Jorge dos Erasmos. I,II e III
329. Sítios e Bananais.
330. Porto da Bananas.
331. Edifício Iguassu. Prédio Antigos de São Vicente.
332.Edifício e Conjunto Benedito Calixto. 
333.Praia Grande Bar.334.
334. A Velha Estação da Sorocabana.
335. O Corrego Sapeiro (Sapateiro)
336. São Vicente, 421 anos.
337.Necropole Vicentina.
338. Cadeias Públicas, Delegacias de Polícia e Presídios.
339.Prof. Noside
340.Museu Nacional em São Vicente.
341. O Livro de Viagens: o Rico Brasil. 
342. As Primeiras Encenações da Fundação da Vila de S. Vicente.
343.Museu à Beira do Oceano.







"De 1888 em diante, com o fim da escravidão, verificou-se em Santos a existência de aproximadamente 4 mil negros. Só o famoso Quilombo de Jabaquara, abrigava cerca de 3 mil, podendo-se calcular-se em 1.000 os que estavam distribuídos pelas famílias abolicionistas. Uma parte destes voltou para o interior; outra ficou em Santos com seus antigos senhores ou agregada a novas famílias, a pagamento, pela casa ou pela comida. Uma terceira parte, porém, procurou liberdade total, emigrando para onde havia mais abrigo natural e solidão. Foi assim que São Vicente se encheu de ex-escravos, principalmente dos mais idosos, de espírito mais rebelde, pois a cidade era apenas um pequeno núcleo concentrado junto ao morro dos Barbosas, junto das fontes e do mar, ou junto do velho Porto do Tumiarú. Assim, ao final do século 19, São Vicente abrigava os negros mais velhos que existiam em toda a região e tornou-se o refúgio dos "calungas", dos mais idosos, dos mais sofridos pela escravidão, daqueles que buscavam a tranquilidade comendo seu peixinho com farinha, felizes, em liberdade, cachimbando, sentados à sombra dos jambolões e das pitangueiras. Os "calungas" vicentinos eram daqueles que procuravam a paz." (Boletim do IHGSV). 

Em São Vicente, calunga também é o nome dos pequeninos caranguejos pretos que vivem entre as pedras encravadas no mar ou espalhadas nas praias. #323

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"Calunga grande é o mar, a enormidade de seu destino e de seu horizonte. Calunga pequeno é a terra que recebe esses corpos e os transforma em semente. Mas no caso da escravidão, reinventada no Novo Mundo, a terra tragou os corpos desses milhares de cativos, que foram antes transformados em prisioneiros, brutalizados pela violência desse sistema que supôs a posse de um homem por outro. É esse mundo "estranho" que captou a curiosidade de uma série de pintores, viajantes ou meros observadores, que retrataram os trópicos e suas gentes, tal qual um espetáculo ou, às vezes, como um intrincado laboratório racial".
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Contam os historiadores que, com a descoberta do Novo Mundo, o imaginário ocidental se voltou entre encantado e assustado para esse novo continente. Por certo a atitude era, no mínimo, ambígua. Afinal, se com relação à natureza as representações insistiam na edenização na idealização de um paraíso perdido recém-descoberto, já no que se refere aos "naturais" a maior parte das imagens reafirmavam uma certa detração ou, ao menos, a estranheza diante desses homens sem "fé, lei ou rei". Polígamos, politeístas e, sobretudo, com suas "vergonhas à mostra", esses habitantes das Américas representavam quase a não-humanidade, ainda mais quando sujeitos à mistura advinda da introdução maciça de trabalhadores negros, que, de forma compulsória, chegavam da África, alternando ainda mais padrões e costumes.
A viagem era longa; maior ainda o fastígio.

Lilia Katri Moritz Schwarcz. Professora do Departamento de Antropologia da USP
Revista de Antropologia. vol.44 no.2 São Paulo 2001.



Para milhares vicentinos que vivem nos arredores do Itararé e ilha Porchat, o Gonzaga é muito mais próximo do que para outros milhares de santistas que, por exemplo, moram depois do canal 3. É por isso que invadimos,todos os dias, não só essa praia, mas o centro e todos os bairros até o ferryboat e o porto. Não é?
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CINEMA NO GONZAGA

Em São Vicente em meados da década de 1970 haviam apenas três cinemas: o Petrópolis (na avenida Antonio Emmerich, lado do Cascatinha); o Cinemar (na rua Benjamim Constant, em frente ao Clube Tumiarú); e o Cine Jangada, um pouco mais sofisticado (na rua Martim Afonso, no centro). Nesse último vimos, entre 1975 e 1976, o lançamento de Dona Flor e seus Dois Maridos, Tubarão e a peça O Santo Inquérito, de Dias Gomes, um monólogo com Regina Duarte. Um dos meus colegas de escola e praia - o Chico - era filho do gerente do Petrópolis e do Jangada, nos quais sempre tínhamos entrada franca.

Essas eram as únicas opções de diversão noturna em São Vicente. Isso nos levava a buscar as atrações de Santos, especificamente no Gonzaga, antigo bairro balneário de casarões de milionários e hotéis de luxo. Ali era, nos anos 70, o verdadeiro esplendor de consumo e footing para jovens e adultos, local sempre muito movimentado e de muitas novidades, vitrines, luminosos, barulho de carros e motos durante a noite e na madrugada. Nas calçadas, largas e limpas, sempre havia oferta de artesanato hippie e pinturas em quadros, de todos os estilos. 

Cortado pela centenária avenida Ana Costa, o Gonzaga tinha como destaque a redonda praça Independência em torno da qual se concentrava inúmeros estabelecimentos: restaurantes especializados, rodízios de pizza, lanchonetes e casas de sucos e vitaminas, sorveterias, farmácias, grande lojas de sapatos, roupas e acessórios; galerias com muitas lojinhas da moda e de discos, boutiques de luxo, duas livrarias muitos frequentadas (Martins Fontes e Siciliano) e principalmente os cinemas, cuja frequência era altíssima nos finais de semana.

Durante o dia, como hoje, o Gonzaga funcionava como um centro de serviços com muitos consultórios, bancos e escritórios; era também o bairro dos solteiros, pois havia muitos prédios com apartamentos pequenos e kitinetes de temporada. Eu mesmo morei sozinho, entre 1984 e 1986, na rua Pereira Barreto, em frente ao atual Shopping e Hotel Miramar. Fazia minhas refeições, pasmem, numa loja da Drogaria São Paulo, na rua Floriano Peixoto, precursora das lojas de conveniência e que também era restaurante.
Durante a noite, sobretudo nos fins de semana, o bairro sofria uma transformação espetacular, tornando-se uma vitrine frequentada por uma multidão de pedestres sempre muito bem vestidos. 

De todas as atividades comerciais a que mais representava esse espírito da diversão e do passeio noturno no Gonzaga ainda eram os cinemas, que serviam, por exemplo, para demarcar o tempo de permanência dos que buscavam o bairro aos sábados e domingos. As sessões tanto poderiam ser o início, o meio quanto o final da jornada de lazer e diversões, dependendo das características e das intenções das centenas pessoas que ali passavam. As salas de cinema do Gonzaga variavam de tamanho e gosto pelos filmes ofertados: as maiores para as películas comerciais e a menores para os filmes de arte. Muitos deles faziam sessões de pré-estreia à meia noite de sexta-feira. Mas o ponto alto eram as noites de sábado, quando o bairro era invadido pelas multidões desde o período da manhã e da tarde para fazer compras e à noite para os passeios de costume. 

Contando da praia do Gonzaga em direção ao centro, existiam na avenida Ana Costa os seguintes cinemas: Atlântico I e II (Hoje lojas C&A, Mc Donald e Americanas, próximos ao bulevard da rua Othon Feliciano); Iporanga I e II (salas grandes) e Iporanga III (sala de arte), vizinhos do Clube Sírio-Libanês, todos demolidos para dar lugar ao atual shopping denominado Pátio Iporanga. Na sequência havia o Cine Roxy (talvez o maior de todos, até hoje em funcionamento e com rede nos shoppings do litoral); e por último o Cine Indaiá, conjugado ao hotel com o mesmo nome, próximo ao Colégio São José. Na rua paralela, atrás do Indaiá, tinha o pequeno Cine Alhambra, também só para exibição de películas de arte e voltado para um público seleto. 

Mesmo com essas diferenças de público e salas, não havia distinção de preços nos ingressos para filmes comerciais e de arte.

Na década de 1980 Santos também teve a fase dos cine-clubes, porém de uma forma diferente. Como a cidade sempre teve e ainda conservava boa parte das suas salas de cinema, o Cine Clube de Santos funcionava alternadamente em diversos pontos, como espaço locado em horários ociosos ou de baixa frequência. A ideia era do conhecido cinéfilo Maurice Legeard, que exibia seus filmes preferidos sobretudo no Iporanga 3, Alhambra e mais tarde no Cine Indaiá. Marcando o fim de um ciclo de uma antiga e imensa paixão dos santistas pelo cinema, Maurice faleceu em 1997 quando sua obra cultural circulante e seu gigantesco acervo de milhares de filmes, equipamentos e impressos permaneciam guardados na sede da famosa Cinemateca de Santos, que funcionava inicialmente num sobrado no Gonzaga e anos mais tarde incorporado como patrimônio gerido pela Secretaria de Cultura da Cidade no CIne Posto 3. (Dalmo Duque) #324

PS. Para voltar de madrugada do Gonzaga a S. Vicente, íamos andando pela praia até que surgisse o útimo Zeffir que vinha de São Paulo e sempre nos dava de carona até o início da Presidente Wilson. 



Muito antes da chegada de Américo Vespúcio (1502), que aqui deixou alguns degredados e deu nome à ilha que hoje habitamos, São Vicente, já era conhecida como Tumiaru. O porto dos escravos pré-colonial, que também poderia ser chamado de porto das sereias, cujo ponto de parada  era sedutor em todos os aspectos para os navegantes que aqui passavam, torna-se porto do açúcar, mantendo-se nesse formato até que as atenções dos negócios  se voltassem para a exploração de ouro e diamantes em Minas e Goiás. 

A "PORTAGEM" COMO AÇÃO CIVILIZATÓRIA.  

A "portagem", prática portuária, existente desde a Antiguidade, surgida juntamente com a civitas e polis,  reunia todas atividades econômicas mercantis envolvendo os negócios privados e também do Estado por meio da arrecadação tributária e distribuição pública dos recursos. Essa prática foi mantida nos feudos medievais por mais de mil anos. Os portos eram literalmente as portas de entrada e saída territoriais de mercadorias, secas ou molhadas, isto é, os "pedágios" perto ou afastados dos rios e mares, locais do exercício de arrecadação: 

"Um pedágio ou portagem é um direito de passagem pago mediante taxa ou tarifa a autarquia ou concessionária delegada, respectivamente, para ressarcir custos de construção e manutenção de uma via de transporte. Tradicionalmente, os pedágios/portagens rodoviárias têm sido cobrados só em estradas rurais ou interurbanas"

No Brasil a expressão "portagem" não se consolidou como termo jurídico oficial nem popular, mas em Portugal, até hoje, "portagem" significa ação tributária em muitos sentidos. Por aqui predominou o vocabulário fiscalista colonial, prevalecendo os termos "alfândega" e "imposto". 

Por esse motivo escolhemos a "portagem" como conceito e percurso narrativo, isto é,  a cronologia dos portos e da civilização marítima que os portugueses criaram na Ilha de São Vicente e parte da área continental a partir dos acontecimentos da longínqua Revolução de Avis (1385) e que se expandiram nos séculos XV e XVI no Atlântico, Indico e Pacífico:

O Porto do Pau-Brasil e o Porto dos Escravos, do período pré-colonial;

O Porto do Açúcar, no período colonial: capitania, semarias e vilas.

O Porto do Café e das Ferrovias, durante o Império e da Primeira República;

O Porto das Indústrias e das Rodovias, incluindo o rápido ciclo da bananicultura produzida na região até meados do século XX; e o atual maior exportador do mundo da indústria alimentícia de laranja, açúcar e café em grãos. 

No início do século XXI toda a região do litoral paulista e da extensa Bacia de Santos foi sacudida pela promessa dos negócios da produção petrolífera e já se articulava  para viver um longo período de operações logísticas do Porto do Pré-Sal, interrompido com a crise política de 2016, com o impeachment da presidente Dilma e prisão do presidente Lula.

Esses são os principais temas e narrativas norteadoras dessa historiografia, que influíram e influem  em importantes eventos da vida regional e brasileira. 

TERRITÓRIO PORTUÁRIO FEDERAL

O porto, comumente citado e conhecido popularmente não pertence exclusivamente ao município de Santos. É um território federal, restrito  de segurança nacional e alfandegado, com duas margens, abrangendo Guarujá e Cubatão. Como porto seco, vai além desses limites municipais. Todos os órgãos reguladores e fiscalizadores e de arrecadação são da União. 

A expressão geográfica  “Porto de Santos” se refere amplamente à Bacia Marítima de Santos e não restritamente à cidade, que apenas está mais próxima desse território federal, que também controla a margem continental. É um equipamento e ponto estratégico regional controlado pela Receita (Alfândega) e Polícia Federal, defendido por dois quartéis do Exército- em São Vicente e Praia Grande, uma base da Aeronáutica no Guarujá e forças de segurança do estado e municípios próximos. 

Nenhuma autoridade municipal da região tem poder direto sobre o porto. Todas as grandes decisões são do governo do estado e da União. 

No início do porto organizado muitos executivos e autoridades portuárias moraram em São Vicente. Havia bondes exclusivos para eles, que moravam na Vila Betânia. Nessa época Santos era considerada uma cidade insalubre e perigosa para se morar.  Já a massa popular de estivadores e demais funcionários comuns sempre foi composta de moradores de Santos e São Vicente e demais cidades próximas.#325


Vereadores e Prefeitura Vistoriam Avanço no Abastecimento da Cachoeira de Itu e Rio Mariana

Em visita técnica realizada na última [dia da semana], vereadores da comissão de obras, acompanhados de engenheiros e funcionários da Prefeitura, inspecionaram os avanços das obras de saneamento e captação de água na região da Cachoeira de Itu e passagens pelo Rio Mariana. Está sendo finalizada a instalação de tubos de aço de 10 e 14 polegadas de diâmetro, destinados a reforçar o sistema de abastecimento local. O trabalho de soldagem dos tubos submersos está sendo realizado com solda a eletrodo revestido, garantindo a vedação e a resistência necessária para a pressão da água. A equipe conferiu a fixação dos canos no leito do rio, um trabalho complexo que visa garantir a perenidade do serviço.

A comitiva destacou que, na ocasião, o investimento total na obra já ultrapassa a marca de 11 milhões, demonstrando o compromisso do Poder Público com a infraestrutura sanitária da área, que há anos necessitava de modernização. Os representantes municipais reafirmaram que as obras devem ser concluídas dentro do prazo, garantindo melhorias imediatas para a população.

O PREFEITO AGUARDOU A COMITIVA NO RIO MARIANA

Quando os excursionistas regressavam da cachoeira de Itu, rumo à cidade, foram esperados no Rio Mariana pelo prefeito, dr. Charles de Souza Dantas Forbes, que se fez acompanhar do sr. México
Rossi, suplente de vereador e de vários funcionários da Prefeitura.

VÁRIAS NOTAS

Justo é destacar o gesto do dr. Celso Santos, coproprietário da Vicri S. A.,doando à Prefeitura toda a faixa de terra onde passa a adutora.

As chapas de aço para os tubos são de Volta Redonda e calhandradas em Honório Gurgel, no Rio. Os tubos são revestidos de esmalte, à base de betume, e conforme o terreno são colocados canos com revestimentos adequados.

Vem a E.F. Sorocabana colaborando com a Prefeitura, para o completo êxito do abastecimento da água. Muito ttêmm trabalhado os drs. Roberto Magano, engenheiro residente, Raul Cavalcanti. subdiretor das operações e Humberto Nobre Mendes, encarregado do reforço da ponte dos Barreiros. Estão sendo empregados tratores e duas motoniveladoras para a preparação do terreno. A abertura e fechamento de valas é feito por empreitada.

O cano de duas polegadas colocado para facilidade do serviço está sendo substituído pelos tubos de aço de 16 polegadas. Durante todo o trabalho, registou-se a perda de uma vida. Por sua própria imprudência, Mário Joviniano, pereceu afogado virando de uma canoa, ao transpor o rio Mariana.#326,

A TRIBUNA. Quinta-feira,23-4-1953
Hemeroteca Digital BN 



Como complemento da campanha de resgate histórico das relíquias religiosas do Engenho dos Erasmos, o jornalista Edson Telles de Azevedo propôs na sua coluna semanal de A Tribuna a criação do primeiro museu de história colonial do Brasil. O colunista sugeriu que esse novo equipamento cultural fosse construído no Largo de Santa Cruz, onde já existia uma pequena capela devocional:

(...) Estas linhas servem para lembrar local para a ereção do 1º Museu de História Colonial de S. Vicente. Por ser um lugar também histórico e próximo ao centro da cidade, citamos o antigo Largo de Santa Cruz, hoje Praça Bernardino de Campos que, em época recuada, também se chamou Largo da Lavanderia. Este último nome dava-se devido à existência de uma lavanderia pública, que grande parte da população pobre utilizava, emprestando vivos traços de pitoresco aquele local. Existiu nessa praça uma rústica capela a de Santa Cruz onde mãos piedosas, frequentemente, acendiam velas, onde também corações crentes depositavam esmolas, por força de promessas feitas e como reconhecimento de graças alcançadas. Nessa capela, todos os anos no dia de Santa Cruz realizavam grandes festejos, ficando o antigo Largo de Santa Cruz todo embandeirado, e regorgitante de pessoas em volta de fogueiras e das mesas dos leilões de prendas. Depois tudo foi transformado. O que era tradicional, o que se dizia do passado histórico, foi desaparecendo paulatinamente. #327

Edison Telles de Azevedo. A Tribuna, domingo, 29 de janeiro de 1950. Acervo Digital da BN.7



Ruinas históricas e completamente desprezadas pelas autoridades existem aqui, bem pertinho de nós e próximas à antiga fazenda de São Jorge. Essas ruínas sempre pertenceram a São Vicente. Entretanto, quando do arbitramento feito em 1905, para as divisas com Santos, os responsáveis, desconhecendo a verdade histórica apresentaram um traçado errôneo no laudo, prejudicando o nosso patrimônio territorial. São Vicente foi esbulhada e perdeu aquelas relíquias. Trata-se das ruinas da capela de São Jorge, do cemitério e do Engenho dos Erasmos, que pertenciam ao município desde a sua fundação (1532).

Conta-nos a história que Martim Afonso de Souza e seu irmão Pero Lopes de Souza fizeram um contrato com João Venist, Francisco Lobo e Vicente Gonçalves, para a instalação de um engenho para fabricação de açúcar, contrato esse feito em 1534. Acredita-se que nessa oсаsião foram construídos a capela de São Jorge e o cemitério anexo, cujas ruinas ainda existem e foram por nós fotografadas (vide clichês). Vários historiadores não fazem referência à capela e ao cemitério, mas a verdade é que existiram, como se pode provar com os nichos nas ruínas da capela e a escavação procedida há 6 meses, na parte do cemitério, onde foram encontradas ossadas. Era costume, conforme acentuamos em artigo anterior, fazerem-se os sepultamentos nas igrejas e capelas e em tôrno delas.

A imagem de São Jorge (também fotografada), não podemos afirmar seja daquela época (1534). Parece-nos porém bastante antiga. Soubemos dos atuais e antigos moradores do sítio São Jorge ter sido encontrada num buraco de pedra nas ruinas do engenho, após abandonada a capela e caídas suas paredes. A imagem, pequena (15 centímetros de altura), é feita de barro e tem sido venerada há longos anos pelos sitiantes. Duma feita, um morador levou-a e, após protestos e reclamações de fiéis, devolveu-a. Sem que ninguém visse, colocou-a novamente no seu primitivo lugar, isto é, no buraco de pedra da parede do engenho. Hoje, está ela sob a guarda da família de João Chagas, que toma conta das ruinas, por ordem do Sr. Otávio Ribeiro de Araujo, não faltando, diariamente, as velas acesas em seu louvог
importantes ocorridos na capela de São Jorge. Benedito Calixto afirmava que, em atenção ao seu pedido. o cel. Almeida Morais, presidente da Câmara de Santos, mandou colocar uma placa de bronze numa das paredes da vetusta capela, cujas inscrições atestaram sua importância como relíquia. Tudo isso fol feito com plena ciência e autorização da Câmara de São Vicente e do proprietário do terreno. Não vimos essa placa e ignoramos o seu paradeiro. Frei Gaspar da Madre de Deus, em suas "Memórias", relata que Martim Afonso de Souza mandou construir a capela dedicada a São Jorge e bem assim o engenho, para que os lavradores pudessem moer as canas doces.

Consta que vão ser construídos o engenho e a capela, através de um movimento encabeçado pela Universidade de Filosofia de São Paulo. O sr. Otávio Ribeiro de Araujo já abriu um crédito de um milhão de cruzeiros, em favor dessa finalidade. #328

-No clichê, as ruinas da capela, com as setas mostrando os nichos; e a imagem de São Jorge.

A Tribuna, domingo, 21 de abril de 1957
Acevo Hemeroteca Digital BN


Martim Afonso de Sousa, fundador da "Cellula Mater", foi o introdutor da cana-de-açúcar no Brasil, instalando em S. Vicente o primeiro engenho. Desde o início, em que era o açúcar a moeda corrente. Os documentos antigos nos relatam que João Ramalho "pagaria as despesas em Portugal com açúcar vicentino". Eis o motivo por que vemos o brasão de armas da cidade ornado com duas hastes de cana de açúcar, o que evidencia sua importância, ao ser assim representado na simbologia heráldica.

Rememorando-se esse acontecimento, ainda se vêm plantados, nas adjacências e nas fraldas dos Morros Itararé e São Jorge, vários canaviais. Essa cultura tomou grande incremento naquela época e a consequência disto foi multiplicarem-se os engenhos, o que possibilitou a São Vicente exportar não pequena quantidade de açúcar para outras capitanias e para Portugal. Vários foram os apelidos do engenho, por terem sido também diversos os seus donos em tempos diferentes: no princípio chamavam-no "Engenho do Senhor Governador", por ser do Donatário; depois, "Engenho dos Armadores", e ultimamente "São Jorge dos Erasmos". Martim Afonso, Francisco Lobo e o piloto-mor Vicente Gonçalves venderam suas partes ao alemão Erasmo Schetz (existe em São Vicente uma rua com o seu nome, situada entre as Praças João Pessoa e Bernardino de Campos); seus filhos compraram também o quinhão de João Venist, por isso ficou chamado o "Engenho São Jorge dos Erasmos". Isso nos relata Frei Gaspar da Madre de Deus, em suas "Memórias". "Das terras de Rui Pinto" vinham as canas para sustentar o engenho. Alguns historiadores discordam de que o Engenho de São Jorge dos Erasmos tenha sido o primeiro do Brasil. Outros afirmam que Martim Afonso de Sousa mandou buscar na Ilha da Madeira, em Portugal, as primeiras canas de açúcar e gado vaccum, há, ainda, os que acreditam ter "cana doce" vindo de algum lugar bem mais próximo de São Vicente.

A fazenda onde funcionou o engenho, a capela de São Jorge e o cemitério passaram por diversos proprietários. Tivemos em mãos uma escritura de 22 de outubro de 1804, na qual aparecem o alferes Manoel Marques do Vale e sua mulher, Maria Conceição, vendendo o sítio "São Jorge" ao Sargento-Mor das Milícias, Manoel José da Graça. No inventário do dr. João Floriano Martins, falecido em 18 de dezembro de 1881, conforme certidão do Arquivo Nacional, consta que o sítio denominado "San Jorge, no distrito da Villa de San Vicente, por sentença de 2 de outubro de 1879, esse Imóvel foi avaliado em quinhentos mil réis", com casa de morada muito estragada, um rancho grande com paredes de pedra e cal, coberto de telha e terras respectivas.

CERTIDÕES DO PADRE MANOEL (1856)

A Repartição de Estatística e Arquivo do Estado de São Paulo forneceu uma certidão, a pedido do sr. Edgard de Toledo, residente no Rio de Janeiro, na petição do dr. José de Costa e Silva Sobrinho, após rever o livro de "Registro de Terras da Paróquia de São Vicente" na qual declara os possuidores das terras de São Jorge, na Vila de São Vicente, em 31 de maio de 1256. E aparece o vigário Manoel de Assunção Costa assinando a referida certidão. Esse sacerdote assinou outro documento certificando a declaração que fez Gabriel da Silva e Oliveira, Curador do doente padre João Nepomuceno Neves, do sítio Cachoeira, que o mesmo possuiu na Vila de São Vicente, com data de 25 de maio de 1856, e assinada pelo citado vigário de São Vicente, padre Manoel, e pelo escrivão do Registro, Pacífico Antonio de Sousa.

O imóvel São Jorge pertenceu também ao Sargento-Mor Francisco de Pauta Martins, passando, por falecimento dos cônjuges, a sua filha d. Ana Margarida da Graça. Esta casou-se, em segundas núpcias, com o conselheiro Joaquim Floriano de Toledo. Ao casal ficou pertencendo o referido imóvel. Falecendo o conselheiro, foram os bens por ele deixados, entre os quais se achava o de "São Jorge", adjucado ao de João Floriano Martins de Toledo, pai do sr. Edgard de Toledo. Por morte do dr. Floriano, "São Jorge" foi partilhado entre seus dois filhos, Edgar e Heitor, este último falecido antes de 1927.

FESTAS EM LOUVOR A S. JORGE.

Na capela que funcionou junto ao Engenho dos Erasmos, São Jorge foi muito festejado, especialmente nas solenidades que se realizavam dia 23 de abril, data consagrada pelo calendário cristão ao martirológio desse santo querido e cultuado por verdadeiras legiões de fiéis e devotos. Vários milagres foram constatados por pessoas que invocavam o nome de São Jorge, nos momentos mais difíceis. Dissemos em artigo anterior que a imagem fora encontrada num buraco de pedra no engenho, após abandonada a capela e caídas as suas paredes. Hoje publicamos a foto, mostrando a imagem no lugar do encontro.

No "cliché". as ruinas tente do Engenho São Jorge dos Erasmos, e a imagem no buraco de pedra onde foi encontrada pelos antigos moradores.

A Tribuna. Domingo, 28 de abril de 1957.
Acervo: Hemeroteca Digital BN 


AS TERRAS DE S. JORGE
Para conseguirmos subsídios inéditos para a história de São Vicente, consultamos documentos antigos em cartórios e temos conversado com velhos moradores. Ainda com referência às terras de São Jorge, onde estão as relíquias que vimos abordando, deparamos num documento sobre as suas divisas: 'e, da referida pedra para baixo parte-se pela mesma cachoeira abaixo a sair no rio São Jorge, chamado rio da Igreja", o que vem provar a importância da capela de São Jorge, naquela época.

CERTIDÕES DE 1708, 1768, 1798 e 1804
Tivemos em mãos certidões de próprio punho, dos anos de 1708, 1768, 1798 e 1804, todas referindo-se as terras de São Jorge. A de 1708, é fornecida, e assinada pelo escrivão Firmino de Quadros Aranha, em 21 de janeiro daquele ano, do Livro de Notas que serviu na Vila de São Vicente. Aparece a venda do sítio São Jorge, com terras de outeiros e atlas, pelo tte. Miguel Lopes de Aguiar como procurador de José de Morais Gois ao alferes Jacinto Muniz de Gusmão, ao preço de quinhentos mil réis, e o escravo de nome Felipe, crioulo muito estimado. Escritura de 1798, Manoel Marques do Vale e sua mulher, d. Maria da Conceição, vendeu o sítio Cachoeira vizinho ao de São Jorge, ao cap. Manoel Cardoso.

CEMITÉRIO DE S. JORGE
Vimos confirmar hoje, o encontro das ossadas, no lugar onde existiu o cemitério, anexo à capela de São Jorge. O sr. Otavio Ribeiro de Araújo ordenou a dois empregados seus, que fizessem uma escavação em forma de L. Isso foi feito há seis meses, e, de fato, foram encontrados crânios, maxilares perfeitos e ossos dos membros superiores e inferiores. A quem pertenceriam essas assadas?

ROMARIA PARA CONHECER A IMA-GEM E AS RUÍNAS
Depois das nossas notas, com referência à imagem de São Jorge e às ruinas do engenho, da capela e do cemitério, muitas pessoas têm se dirigido ao local. Ainda dia 1.0, o número de visitantes foi bastante acentuado.

NOSSOS APELOS HÁ VÁRIOS ANOS
Quando das datas comemorativas ao dia da fundação de São Vicente, há vários anos, vimos fazendo veementes apêlos às autoridades locais e do Estado. Ainda no dia 22 de janeiro de 1957, repetimos: "Embora já não mais estejam dentro do nosso município as ruinas do primeiro engenho sul-americano estão ameaçadas de desaparecer. Portanto, que se proceda à chamada patriótica de restauração do histórico engenho. Reconstrua-se o Engenho dos Erasmos para que o povo e os forasteiros, em peregrinação no local, possam prestar suas homenagens a esse Monumento Nacional.

Que a Câmara e o Governo Estadual intercedam junto aos usineiros do Estado e do Brasil, no sentido de ser erguido, no local do primeiro engenho, algo em defesa de nosso patrimônio histórico".

É preciso, realmente, que as tradições de glória de São Vicente sejam rememoradas e reverenciadas com entusiasmo e o civismo próprios das coletividades a que jamais faltou o culto de veneração pelas coisas grandiosas e pelos vultos eminentes do seu passado.

SERÃO RESTAURADOS O ENGENHO E A CAPELA?
Lemos na semana passada, um artigo na "A Gazeta", de São Paulo. a propósito da carta do Bispo de Santos, provocada pela recente entrevista do sr. Mariano Laet Gomes, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Santos, e com referência às ruinas do engenho e da capela de São Jorge dos Erasmos. Estão dispostos a Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, a de Arquitetura e Urbanismo, a Associação dos Usineiros Paulistas e o chefe do 4.º Distrito do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional a restaurar essas relíquias, tornando o local também ponto turístico.

Na referida carta, s. excia. revdma. D. Idílio José Soares mostra-se entusiasmado com a iniciativa, dando o seu apoio. Justo, entretanto, reafirmarmos que o proprietário das terras, sr. Otávio Ribeiro de Araujo, está no firme propósito de doar a área onde estão situadas as ruinas, no valor de um milhão de cruzeiros!
Seja como för, a história de São Vicente é digna de ser exaltada sempre e merece a apoteótica consagração de todos os brasileiros. Que se restaure esse patrimônio, para que fique perpetuado o passado da 1.a capitania do Brasil e as glórias de São Paulo.

No cliché, o local anexo à capela de São Jorge que serviu de cemitério sendo assinaladas pelas duas flechas, as escavações recentes, em forma de L.

A Tribuna. Domingo, 5 de maio de 1957.
Acervo: Hemeroteca Digital BN




ESTATÍSTICA DA LAVOURA DE BANANA EM 1910. 

Total: 3.124 touceiras*. 79 Sítios em Cubatão, Santos, São Vicente,Guarujá e Bertioga:

Piassaguera e Mogy (250) 
Areiais (20).
Cubatão e Itutinga (1.100). 
Boa Vist e Nova Cintra (20) 
Morrão e Quilombo,(300)
Peruty,Itapurucaia,Pedreira (20)
Santa Rita e Santa Cruz 120) 
Jurubatuba (280)
Janden e Barnabé(80)
Rio Diana e Monte Cabrão (30)
Trindade(40)
Cabuçu (40)
Quatinga (120)
Jaheté (20)
Iriry (3)
Carauara (20)
Ribeirão,Caiubura e São João(20)
Jacareguaba (30)
Catacica (20)
Pedrinha e Buracão (20) 
33.Cachoeira (30)
Perequé Guassú e Morro Alto (20)
Morrinho,Itapema e Bocaina (20) 
Outeiros e Guayuba(20)
Matto Grosso e Canhema(40)
Pau Grande, Boa Vista e Bertioga (20)

E mais a produção englobadamente dos seguintes bairros do município vizinho - São Vicente-  que faz o seu comércio e respectiva exportação dos seus sítios pelo porto de Santos, a saber: 

Japuy, Campinas, Ituê, Prainha, Paranapoã, Sepetuba, Grajaů, Zanzalá, Mariana,Tapera, Itararé,Vuturuá, São Jorge, São Gonçalo,Piassabuçú, Imbuassu,Caramborê,Queirozes,Chico Pires, Botucupê, Sant'Anna, Pedrinhas, Itapoă,Carahu-Assú, Carahu-Mirim,Nathária,Itú,Fazenda Zerrener, José Corrêa e Várzea Grande (394).

*Nota técnica do CALUNGAH: Touceira é o conjunto formado por duas ou mais plantas originadas de um mesmo rizoma (caule subterrâneo). Uma touceira equilibrada deve seguir a regra da "família": Mãe, Filho e Neto. Mãe: A planta principal que está produzindo o cacho. Filho: O broto mais vigoroso escolhido para substituir a mãe após a colheita. Neto: O broto que surgirá do filho para garantir a terceira geração.

 #329

Acervo Digital da Biblioteca Nacional.
Imagens: Sítio Itutinga -Luis Renato Thadeu. Sítio em Cubatão. Memória Santista. 



Transporte fluvial de banana dos sítios de Cubatão para o porto de Santos no final do século XIX. O embarque era feito diretamente das barcaças no canal junto aos navios atracados. Fonte : Biblioteca do IBGE.

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No início do período republicano veio para o Brasil um grupo de imigrantes portugueses provenientes das áreas rurais da Europa e também das ilhas atlânticas portuguesas: Açores e Madeira. Eram agricultores acostumados a lidar com a terra em lugares e condições difíceis de plantio e comercialização dos seus produtos. No Brasil eles descobriram que as condições climáticas e a abundância de terras tornava a agricultura um negócio rentável e lucrativo, sobretudo nas áreas próximas aos portos onde era possível exportar a produção. Eles lideraram na baixada santista a bananicultura, lavoura de fácil adaptação ao solo tropical e de crescente demanda nos países temperados da América do Norte e da Europa. Argentina e Uruguai também estavam na lista de grandes importadores da banana brasileira
Toda extensão noroeste da Ilha de São Vicente, incluindo os morros, bem como as áreas continentais do Guarujá e Cubatão, foi ocupada pela banicultura na primeira metade do século XX. O apogeu dessa atividade agrícola se deu entre 1905 e 1911, na qual os especialistas identificaram em documentos aduaneiros um alto volume de exportações nessa época. Foi calculado que nesse curto período de seis anos a região produzia todo esse volume exportador em cerca de 3 milhões de pés de bananeiras. Cerca de 60% dessa produção era garantida pelos bananais da comerciante  Aurea Conde , espalhados no Guarujá, Cubatão e no litoral Sul, em Praia Grande, Mongaguá, Agenor de Campos e Itanhaém. Aurea foi a maior exportadora do Brasil e uma das fundadoras da Cooperativa Geral de bananicultores dos Estado de São Paulo. 

Em São Vicente a bananicultura também teve o seu apogeu a partir de 1913 com a chegada dos imigrantes portugueses.  A maioria dos sítios  do litoral sul - entre Praia Grande e Itanhaém  era controlada nesse período  por esses imigrantes. Antônio Luiz Barreiros, que se instalou com sua família no Japuí e iniciou ali o plantio das primeiras mudas do ciclo vicentino contemporâneo.  A propriedade não comportava a demanda exportadora e o agricultor teve que arrendar e fazer parcerias com outros proprietários para ampliar as áreas de plantio, como foi o caso do Curtume Cardamone e do Parque Balneário Hotel de Santos, que possuíam extensas áreas na vizinhança.
Imagem original em p&b: Novo Milênio. # 330


Imagem antiga de cartão postal colorizado do Itararé-Boa Vista, muito utilizada em publicações históricas da cidade. Em destaque as antigas casas do vila Betânia e o Edifício Iguassu,  construído nos anos 1940 na esquina rua Quintino Bocaiuva com a avenida Manoel da Nóbrega. Uma curiosidade desse prédio: foi uma das residências do filósofo, médium e escritor italiano Pietro Ubaldi, célebre autor de "A Grande Síntese", elogiado por Einstein e considerado o Evangelho da Ciência. Ubaldi também morou na Praça 22 de Janeiro, no Edifício Nova Era. Está sepultado no Cemitério Municipal. 
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EDIFICIO IGUASSU / 1945-1948 / Projeto: Engenheiro Evaristo Valadares Costa 
Este edifício residencial foi dos primeiros a ser construído na Praia do Itararé, juntamente com seu vizinho o Edifício Tamoyo. São 9 andares tipo com 4 apartamentos por andar, mais um pavimento térreo de aparência bastante robusta pelo seu tratamento de pedra, ocupado por comércio. Hoje está situado em esquina de grande movimento viário, na chegada da linha amarela junto à orla, que lhe prejudica a implantação outrora isolada, porem ainda preserva suas características e cores originais.
Fonte:Arquiteto Edison Eloi de Souza/Arquitetura e paisagem.
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O Edifício Iguaçu foi um dos primeiros arranha-céus na orla da Praia do Itararé, em São Vicente, construído na esquina com a Avenida Quintino Bocaiuva. O anúncio no jornal A Tribuna é de 1945 e promovia a incorporação pela Cia. Imobiliária Pan-Americana indicava que o edifício estava sendo construído no "melhor ponto da Praia de S. Vicente", conhecido como "Boa Vista". 
Atualmente o endereço é a Avenida Padre Manoel da Nóbrega,686. Os apartamentos foram projetados para ter uma vista magnífica para o mar e insolação perfeita, com amplos dormitórios, sala, quarto de banho, cozinha, quarto de empregada e área de serviço.
O nome "Iguaçu" (ou Iguassu) tem origem Tupi-Guarani, significando ITA (pedra) e GUASSU (grande), inspirado pelo grande rochedo próximo .
O anúncio oferecia preços entre Cr$ 170.000,00 e Cr$ 220.000,00, com condições de pagamento que incluíam 10% no ato do compromisso, prestações mensais e o restante financiado em até 15 anos pela Tabela Price, com juros de 9% ao ano. A incorporação foi feita pela Cia. Imobiliária Pan-Americana, e as vendas estavam a cargo de G. Moraes Camargo, com escritório na Praça Mauá, 25, sala 112, em Santos.
A construção do edifício ocorreu em um período de grande desenvolvimento urbano na região, logo após a inauguração da Rodovia Anchieta , que facilitou o acesso à Baixada Santista e aumentou a procura por imóveis de veraneio e moradia na orla. #331



No anúncio publicado no jornal A Tribuna - edições de março de 1957 - vê-se uma imagem bem diferente do verdadeiro conjunto residencial Benedito Calixto, que ainda está na rua Martim Afonso. Entre os dois prédios é mostrado um bulervard que talvez nunca existiu. Para os apartamentos dos fundos nos andares altos (rua Padre Anchieta) e laterais, ainda possível ver o mar da praia do Gonzaguinha. 

Uma curiosidade: vimos algumas escrituras de apartamentos desse prédio e nelas consta como proprietário do terreno do conjunto o Sr. Sizenando Calixto, um dos filhos do pintor que deu nome ao condomínio.#332

Acervo Digital da Biblioteca Nacional.


O Praia Grande Bar, de Franklin Moura, no Boqueirão, sobreviveu na família até meados de 1960 , quando foi arrendado e posteriormente vendido. Nessa foto cedida por Mário Leitão Filho e publicada por Claudio Sterque (Historiador PG), o antigo armazém ainda tinha sua aparência original e recebia muitos veranistas paulistanos e turistas de Santos e São Vicente.

"Eu tinha por volta de 10 anos de idade quando meu pai montou nosso rancho na Praia Grande e a única lembrança que tenho é do armazém com a inscrição 'Franklin Moura'. Ficava na esquina da Dr Júlio de Mesquita Filho com a atual Presidente Castelo Branco do lado oposto ao Aero Clube. Logo foi vendido e a inscrição do proprietário passou a ser João Dória & Filhos" - Mário Leitão Filho
Um dos mais antigos estabelecimentos comerciais de Praia Grande, na época um bairro de São Vicente. Franklin Moura. O Praia Grande Bar - com esse nome e gerenciado por F. Moura - funcionou no Boqueirão até meados dos anos 1960.
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"A Vila Itaipu era formada por três ruas: uma delas, Rui Barbosa, tinha um pequeno número de casas de veraneio. Havia também, na esquina com a rua Bahia, um armazém onde se vendia de tudo um pouco. Seu proprietário, Franklin Moura, morava em São Vicente e, diariamente, vinha a Praia Grande trabalhar no seu comércio (...)"

- Circe Sanchez Toschi. Praia Grande antes da emancipação.

Antonio Carlos Barbosa:

" Meu Deus!! Eu me recordo, eu desde a minha infância eu viajava de férias para S.Vicente e ficava hospedado na residência da família do Frankilin Moura,eles tinham um bazar na rua Frei Gaspar esquina com Padre Anchieta,eles trouxeram meu pai de Portugal com 16 anos e criaram meu pai até a idade adulta. E lembro que ele tinha este bar na Praia Grande, nem iluminação tinha nas ruas, ficava a uma quadra da praia, este local chamavam de Aviação" #333


A antiga Estação Ferroviária de São Vicente, que atendia à Estrada de Ferro Sorocabana (EFS), foi um marco histórico localizado no bairro da Vila Sorocabana. Ficava próxima à Avenida Martins Fontes e à fábrica de vidros (Santa Marina), na região da Vila Sorocabana. A estação original foi inaugurada em 1913 para a Southern São Paulo Railway, sendo depois adquirida pela Sorocabana. O prédio principal que existiu até 2006 foi edificado em 1957. Esse prédio foi derrubado para a construção de novas vias, incluindo uma avenida e visando o projeto do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos). A área ficou marcada pelo abandono ferroviário antes da demolição. Fazia parte da Linha Mairinque-Santos da Sorocabana, que foi um importante corredor ferroviário de passageiros e cargas (especialmente para o Porto de Santos). #334
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Humberto Wisnik: Quando nasci, em 1941, morávamos na Rua João Ramalho 1109 (a meia quadra da Rua Campos Sales). Na frente de minha casa havia um terreno baldio (depois ocupado por uma revenda  Volkswagen) onde o SPR, São Paulo Recreativo, do Comendador Mássimo Cecchi improvisou um Campo de Futebol com jogos de  fins de semana. Em dias chuvosos eu ficava na janela do meu quarto observando as manobras dos Trens na Estação São Vicente. Eu via o trem de passageiros cheio de estudantes vindos de Samaritá, Agenor de Campos, Pedro Taques que ali desembarcavam para assistir às aulas no Grupão. Tenho saudades de meus dias de infância (anos 40) quando eu brincava na plataforma da Estação.

Suely Zozo Spilotros: Conheci essa estação de trem, por cima tinha uma ponte de madeira onde hoje faz parte da linha amarela....e pequena morava na esquina da linha do trem...hoje moro quase no mesmo lugar onde passa o VLT...tenho saudade desses tempos passados.

Thiago Teixeira: Anos atrás, enviei essa foto ao Ralph Menucci Giesbrecht. É dos poucos registros da antiga estação de São Vicente. Trata-se de um acampamento do Grupo Escoteiro Avanhandava, de São Paulo que, como era comum na época, viajou de trem e posou com seus membros em frente a placa da estação. A foto está no livro de aniversário do GE Avanhandava.

João Carlos Verissimo: saudades ia muito nessa estação. Meu pai era maquinista, ver escala de serviço, lembro que o operador de telégrafo chamava Nádir.

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As fotos a seguir foram postadas no blogue São Vicente na Memória por seu editor, Dalmo Duque dos Santos, em 10 de janeiro de 2010, com um texto explicativo:



 "(...) As velhas estações aos poucos estão desaparecendo. A de São Vicente já não existe mais e cedeu espaço para o trânsito ensurdecedor da chamada Linha Amarela, criada para aliviar o fluxo da Presidente Wilson e das avenidas do Gonzaguinha. Essas imagens mostram a região central da cidade, quando os trens ainda faziam parte do cenário urbano. Foram feitas em 1982 (não nos recordamos a época do ano) entre as 6 e as 7 horas da manhã, antes do expediente [na] São Vicente Veículos, onde trabalhávamos no escritório da oficina. Em 1982 já existia foto colorida e a revelação já era feita em processo eletrônico, porém as imagens em P&B também eram objeto e culto para os estudantes de fotografia, como nós. Essas foram feitas na época em que frequentávamos o curso do já famoso Araquém Alcântara, na fase experimental de composições em preto e branco. O filme foi revelado manualmente no Foto Embaré, no Gonzaga. Um amigo de andanças fotográficas dessa época foi o Penacho (da Valino Tintas), que nos vendeu a máquina Yashika FXD com a qual registramos a antiga e hoje desaparecida Estação de São Vicente. Com o Penacho também registramos cenas da área portuária de Santos e que, por descuido e inexperiência, perdemos os filmes numa blitz da Segurança das Docas."

Novo Milênio. O fim da estação dos trens da Sorocabana



























Um estreito córrego, com suas inúmeras ramificações corta, desde as imediações da rua Frei Gaspar, junto à vidraçaria Santa Marina, longitudinalmente, a cidade, vindo desaguar no mar ao lado do Monumento do IV Centenário da Fundação da Vila de São Vicente. 

Até o final do século XIX, talvez em função do elevado número de batráquios que povoavam suas águas e margens, ele ficou conhecido como Rio Sapeiro. 

Esse antigo rio vicentino nascia nas imediações da Av. Capitão-Mór Aguiar e atravessava o centro da cidade, com várias ramificações, hoje canalizadas, atravessando as ruas Visconde de Tamandaré, Campos Salles e Ipiranga em direção à rua XV de Novembro e as praças João Pessoa e 22 de Janeiro (hoje Ypupiara) a qual atravessava em superfície para desaguar na baía vicentina, junto ao Marco Padrão (Monumento Comemorativo do IV Centenário da Fundação da Vila de São Vicente). 

Ocorre, porém que, às suas margens, foi instalada a 1ª oficina de consertos de calçados da cidade, de propriedade do Ernesto Intrieri, figura muito conhecida e estimada na São Vicente antiga. 

Assim sendo, não demorou muito para a pequena população da cidade alterar o nome do riacho de Sapeiro para Sapateiro, em função das atividades profissionais exercidas pelo prestante cidadão Ernesto Intrieri, denominação, aliás, que permanece até os dias de hoje. (Boletim do IHGSV) #335


Início do século XX. Córrego Sapeiro desembocando na praia do Gonzaguinha próximo ao Morro dos Barbosas. Ao fundo a Praça 22 de Janeiro e os casarões da rua Padre Anchieta.



Na sede do Clube de Regatas Tumiarů, foi realizada, quinta-feira última, a sessão solene comemorativa do 421º aniversário da fundação da cidade.

Abriu-a o presidente da Câmara, ar. Antônio Bueno Capolupo, que após convidar as autoridades civis, militares e eclesiásticas para tomar assento na mesa de honra, inclusive o conferencista dr. Amazonas Duarte e o deputado estadual Athié Jorge Coury, discursou sobre a data, apresentando em seguida o orador oficial. 

O dr. Amazonas Duarte, com a facilidade que lhe é peculiar, discorreu de improviso sobre a história da fundação da "Cellula Mater" da Nacionalidade, não perdendo a oportunidade para lançar o seu protesto contra o desmembramento da Praia Grande, pretendido por conhecido deputado paulistano. 

O dr. Amazonas Duarte, grande amigo de São Vicente, recebeu fartos aplausos pela feliz oração.
O Coral Municipal Vicentino proporcionou mais uma agradável audição, sendo aplaudido. 

O dr. Alberto Lopes dos Santos, integrante do Coral, em nome dos seus colegas, prestou homenagem ao prefeito, oferecendo-lhe um cartão de prata com significativa dedicatória.

No cliché, o Coral, e, em baixo, o dr. Amazonas Duarte, no momento em que proferia a sua apreciada conferência em homenagem à data da fundação da cidade. #336
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Edson Telles de Azevedo


O cemitério de São Vicente guarda no seu acervo tumular os restos mortais das mais antigas famílias da cidade, das simples até as mais aristocráticas. Algumas delas cuidam dos túmulos como relíquias e monumentos aos seus mortos. Se fosse melhor cuidado, o cemitério de São Vicente não ficaria devendo nada às necrópoles mais visitadas do mundo, onde foram enterradas suas celebridades. E poderia ser também ponto da curiosidade e visitas turísticas, como acontece em Paris, por exemplo, nos túmulos de Chopin, Allan Kardec e Jim Morrinson. Aliás , São Vicente deveria ter em local de destaque um Panteão dos Fundadores do Brasil, com os restos mortais ou memoriais de João Ramalho, Tibiriçá, Bartira, Cosme Fernandes, Antônio Rodrigues, Gonçalo Monteiro, Manoel da Nóbrega, Anchieta e muitos outros construtores do Tumiaru e da Vila Afonsina.#337
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Morada dos Mortos
https://peabirucalunga.blogspot.com/.../grilagem-de...
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Imagens: reprodução em IA a partir do original de Tateo Ikura, Jornal Espaço Aberto. Republicado por São Vicente de Outrora.

SEGURANÇA PÚBLICA
CADEIAS, DELEGACIAS DE POLÍCIA E PRESÍDIOS


Casa de Câmara (Conselho) e Cadeia, construída no período Imperial. Foi desativada no final do século XIX, em função da dependência administrativa e jurídica à Santos. Depois de longos anos de abandono, foi demolida no período inicial da república para dar lugar ao prédio do Mercado Municipal.
#338

Memória do Judiciário
https://peabirucalunga.blogspot.com/.../presidente...
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"Os primeiros delegados leigos foram os Srs. Coronel Júlio Maurício da Silva, Antão Alves de Moura e Alberto Martins de Oliveira. Segue-se então a gestão de Antero Alves de Moura, nomeado por decreto do governo estadual, em 17 de Março de 1906, tendo antes exercido o cargo de subdelegado de polícia. A delegacia achava-se instalada nos baixos do antigo prédio da prefeitura municipal, depois Mercado, na praça Batista Pereira (...) Antero de Moura e Heraldo Lapetina, que o substituiu em 24 de julho de 1916, sempre trabalharam no sentido de que a delegacia de polícia fosse instalada em prédio próprio, com acomodações amplas e seguras".
Polianteía, 1982


Inauguração da Delegacia de Polícia de São Vicente em 1930 com a presença de autoridades locais e regionais do setor de segurança pública. Destaca-se na imagem em IA (ver original no comentário) Hermenegildo Lapetina, de chapéu claro. Sobre essa figura histórica, encontramos na obra Vultos Vicentinos* (1972) a seguinte nota:

"Em 1911 Hermengildo Lapetina fez parte da diretoria de um curioso filantrópico, o Clube dos Em Pé, cujos sócios eram em sua maioria comerciantes e políticos vicentinos. Hermenegildo era músico e tocava na banda Musical aos domingos no coreto da Praça Coronel Lopes. Foi um ativo da Irmandade do Hospital São José, entre 1919 e 1921, usando seu prestígio na Alfândega de Santos para conseguir muitas doações para a entidade. Em 1922 saiu do serviço de despachante para assumir o cargo de escrivão de polícia na delegacia de polícia em 1930, acumulando a função de delegado e carcereiro. Aposentou-se em 1953 e faleceu em fevereiro de 1955"
.
*Edison Telles de Azevedo, 1972.
**Foto original enviada pelo genealogista Waldiney La Petina.


"Em julho de 1932, a delegacia de São Vicente foi elevada novamente a categoria de 5ª classe, com autoridades remuneradas, sucedendo-se seis mandatos, primeiramente com o delegado efetivo Dr. Eduardo Vitor de Lamare (com dois mandatos intercalados) finalizando esse período com o Dr. Antônio Lotito Salvia em 1934. A delegacia funcionou na rua XV de Novembro (mista, homens e mulheres) até 1949, quando foi transferida, apenas como delegacia comum, para uma casa alugada na rua Ypiranga (foto) onde permaneceu até 1964".

Imagem em IA a partir do original da Poliantéia, 1982. 


"A cadeia só para homens, nos últimos anos, permaneceu na rua XV, em prédio obsoleto, até que veio a ser demolido para permitir a construção do novo prédio e presídio, inaugurado em 1972 durante o governo Laudo Natel, sendo delegado o Bel. Airton Martini, que muito se empenhou para conseguir a construção do novo prédio, onde hoje funcionam a delegacia e a cadeia, à rua João Ramalho esquina com a XV de Novembro".

Nota: "A fim de suprir a necessidade carcerária em toda a Baixada Santista, foi construída uma pequena penitênciária, em Samaritá, São Vicente, na rodovia Padre Manoel da Nóbrega, km 66. Foi inaugurada em 1977 com capacidade para abrigar 200 presos".

Fonte: Poliantéia, 1982. Imagem em IA a partir de foto original da mesma publicação.



As incríveis promoções e performances do Professor Noside. Quem era capaz de decifrar os enigmas desse grande mágico vicentino.? Um doce - momento de recordação - pra quem advinhar a verdadeira identidade do Prof. NOSIDE. #339




GILBERTO FREYRE QUERIA MUSEU NACIONAL EM SÃO VICENTE 

O sociólogo e então deputado federal por Pernambuco pela UDN escreveu um artigo na revista O Cruzeiro defendendo a criação especial de um Museu Histórico Nacional em São Vicente. No artigo o famoso autor de Casa Grande & Senzala reafirma a condição de Céllula Mater de São Vicente: "... a mãe das povoações coloniais do Brasil" e também "cidade monumento". O artigo foi publicado na edição de 22 outubro de 1949. Aprovado na Câmara, o projeto foi recomendado por uma comissão e estava atrelado ao projeto regional de unificação regional das cidades de Santos, São Vicente, Cubatão e Guarujá, de autoria do engenheiro urbanista Francisco Prestes Maia. A ideia não passou no Senado.
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CONGRATULO-ME daqui – como já me congratulei na Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados – com a gente de São Vicente que, praticando o bom municipalismo e o bom tradicionalismo de que o Brasil necessita hoje, se volta carinhosamente para os valores do seu passado. Pois esses valores fazem do velho burgo cidade de significação não apenas paulista, porém regional e nacional.

Por isso mesmo São Vicente é lugar ideal onde fundar-se ou organizar-se um Museu á maneira de que, nas cidades mais antigas dos Estados Unidos, recordam, por meio de reconstituições que até à arquitetura civil, a vida cívica, a profissional, a religiosa e até a doméstica dos primeiros povoadores europeus da América colonizada pelos ingleses. A fundação de um museu assim em São Vicente estou certo de que merecerá a simpatia de todos os bons brasileiros, tal a importância cívica e educativa que teria um centro de reconstituição histórica dos começos da sociedade e da economia brasileira, situado precisamente na cidade que foi a mãe das povoações coloniais do Brasil, isto é, das regular e oficialmente reconhecidas.

Em estudo sobre o plano regional de Santos –estudo cujo reconhecimento devo ao deputado por São Paulo, Sr. Aurélio Leite – o Engenheiro Francisco Prestes Maia, paulista ilustre e reconhecida autoridade brasileira em assuntos urbanísticos, destaca a conveniência de, dentro de um plano urbanístico, preservarem-se, na velha cidade, locais ou memórias de acontecimentos históricos, sem ter, entretanto, lhe ocorrido a ideia de, com vestígio tão dispersos, do passado como os que ali se encontram hoje, ser possível reclamar-se para São Vicente a condição de cidade-monumento. Parece-lhe, ao contrário, que São Vicente e Santo Amaro terão de constituir “por conveniências técnicas e administrativas”, uma unidade com Santos.

O que não falta a São Vicente é condição, ambiente, densidade histórica, para ser a sede de um museu onde se reconstitua a vida dos primeiros povoadores do Brasil organizados em vila ou cidade. Um museu que seja uma lição sugestiva de história colonial e não simples coleção de velharias ou relíquias.
Vitorioso já na Câmara, o projeto de lei que autoriza o Governo Federal a criar em São Vicente um museu desse gênero, é de esperar que não tarde a sua fundação. Será novo e bom aspecto da atividade educativa e não apenas técnica, de preservação ou conservação de valores do passado brasileiro, que desenvolve há anos, no nosso país, o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, sob a direção admirável do Sr. Rodrigo Melo Franco de Andrade. #340

O Cruzeiro. Edição 1, 1949.

"A MÃE DAS POVAÇÕES COLONIAIS DO BRASIL"

GILBERTO FREIRE




O "Livro de viagens do rico Brasil, Rio da Prata e Magalhães, e detalha a geografia, o comércio e os costumes do Brasil, da região do Rio da Prata ao do Estreito de Magalhães. Destaca-se São Vicente e Rio de Janeiro incluindo Salvador durante a conquista holandesa. 

Seu autor, Johan van Dorth foi nomeado Governador da Bahia pela Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais na primeira das Invasões holandesas do Brasil, que ocorreu em 1624.

Foi morto pelo capitão Francisco Padilha em uma emboscada diante do Forte de Nossa Senhora de Monte Serrat. #341

Fonte: Portal A Terra de Santa Cruz


"Livro de viagens do rico Brasil, Rio da Prata e Magalhães, e detalha a geografia, o comércio e os costumes do Brasil, da região do Rio da Prata ao do Estreito de Magalhães. 1624.
Fonte: A Terra de Santa Cruz.




Criada nos palcos do teatro amador nos anos 1940 pelo Grupo Teatral Martim Afonso,  a encenação da fundação da Vila de São Vicente foi posteriormente levada  para a orla na década de 1950. Próxima ao grande público num cenário natural, era realizada sem nenhuma tecnologia de sonorização e iluminação cenográfica. Suspensa por longos anos, a Encenação foi retomada somente em 1982, na época das comemorações dos 450 anos da chegada de Martim Afonso, praticamente no mesmo formato anterior. Duas décadas depois o evento ressurgiu em bases tecnológicas num formato de arena e ganharia nos anos seguintes o status de maior espetáculo teatral em areia de praia do mundo. O reconhecimento foi feito com a avaliação dos produtores do Livro dos Recordes Guiness. # 342

Imagens em IA a partir de um vídeo institucional da PMSV-2022



Além de edifícios com projetos arquitetônicos arrojados, São Vicente já foi alvo da vanguarda artística paulistana, que se deliciava nas praias, e que inspirava obras que deixariam a cidade imortalizada da história da arte e da cultura. Em 1952 surgiu em São Paulo a ideia do MASP, projeto modernista conjunto de Pietro Maria Bardi e Assis Chateaubriand que seria considerado o primeiro da América Latina nessa categoria. O Museu de Arte de São Paulo funcionou nas instalações dos Diários Associados até que ganhasse sede própria no Parque Trianon, na avenida Paulista. 

Mas o protótipo que deu origem ao mais conhecido museu da Capital foi um projeto elaborado em 1951 pela mesma arquiteta, Lina Bo Bardi. Era o Museu à Beira do Oceano, concebido para ser construído na praia de São Vicente ( não se sabe se seria no Gonzaguinha ou no Itararé). Na época o a cidade era governada pelo prefeito Charles Dantas Forbes, conhecido pelos seus esforços e marca pessoal em transformar São Vicente numa sofisticada estância balneária. O projeto nunca saiu do papel, talvez por falta de recursos ou falta de terreno, já que a construção sobre a faixa de areia dependia da autorização do governo federal. Mesmo assim, o projeto de Lina Bo Bardi foi desdobrado como base da nova sede do Museu de Arte de São Paulo, tornando-se objeto permanente de estudos de engenharia e arquitetura em obras especializadas no Brasil e no exterior. 

“Em seus estudos para o Museu à Beira do Oceano (1951), Lina Bo Bardi concebe um paralelepípedo elevado do solo por pórticos transversais, com a face voltada para o mar inteiramente transparente. Nas perspectivas internas a autora utiliza da mesma técnica de foto-colagem de Mies para apresentar a transparência do recinto expositivo em relação à paisagem. Entretanto, o desenho de Lina Bo Bardi se mantém fiel à sua formação italiana reproduzindo algumas características da pintura de De Chirico e de Sironi. Comparado ao desenho de Mies, o plano de piso assume uma proporção muito maior em relação às obras expostas e apresenta uma continuidade em perspectiva com o plano horizontal da paisagem. Ao acentuar o vazio, o espaço entre os objetos expostos, Lina recria a suspensão temporal da pintura metafísica. Na exposição representada encontram-se obras antigas e modernas, entre elas a mesma Guernica de Picasso reproduzida com destaque no desenho de Mies. Já comparece um objeto da cultura popular brasileira – uma carranca de barcos do Rio São Francisco, tema que viria a dominar suas preocupações no final daquela década.

Como o Museu à Beira do Oceano não foi construído, a arquiteta teria a oportunidade de experimentar a transparência total no projeto da sua residência, a Casa de Vidro. (...) O projeto do segundo Masp partiu dessa situação, com duas diferenças em relação aos projetos do Museu à Beira do Oceano e da Casa de Vidro. A primeira é a maior intensidade de ocupação da pinacoteca do Masp pelas obras dispostas nos suportes de vidro que a afasta do vazio metafísico sugerido no Museu à Beira do Oceano. A segunda é que o Masp assumiu a continuidade visual e espacial com a cidade, disfarçada na Casa de Vidro pelo enfoque na vegetação”.  #343


BARDI, Lina Bo, Museu à Beira do Oceano, Habitat, São Paulo, n. 8, e BARDI, Lina Bo. Museu de Arte di San Paolo del Brasile, in L’Architettura, Cronache e Storia, Roma, n. 210, abril;1973.



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