terça-feira, 9 de julho de 2019

ACIMA DE TUDO- Fantasia Histórica

Especial  de Raul Lellis* para a edição histórica de O Cruzeiro, de janeiro de 1932, em comemoração do IV Centenário da fundação de São Vicente. Ilustrações de M. Cavalleiro. 


No amplo pateo da casa senhorial, casa de largas taboas e tapetado de relva macia, formou-se  a comitiva: os cavaleiros, que a custo soffreavam os corcéis inquietos; os escravos –negros- e índios – que conduziam a carga numerosa; a liteira elegante e de cortinas bordadas; e, por último, fechando a retaguarda, um punhado de arcabuzeiros.

Eram seis horas da manhã. São Vicente, o primeiro lampejo de civilização atirada à solidão verde do Brasil, começava a despertar. Uma janella se abria de quando em quando e, de longe em longe, um escravo, passando rápido na praça lamacenta e ampla, arriscava um olhar curioso pelo largo portão que dava entrada ao pateo da casa do capitão mor.

Um jovem envergando a farda lusidia de tenente das guardas reaes approximou-se  de um grupo de fidalgos que cerca a liteira.

- Estamos prontptos, falou elle, dirigindo-se ao mais velho, um nobre de figura arrogante figura e alvos cabelos. Partiremos  quando Vossa Mercê o ordenar.

O fidalgo relanceou o olhar pela coluna de escravos e de homens armados que se estendia do portão até as cavalariças e, tomando o official pelo braço. Afastou-se com ele do grupo. Uma funda ruga fendeu-lhe do cenho, quando elle falou:

- Eu vos entrego uma carga duplamente preciosa, dom Luiz, por isso que dona Maria, com ser minha única sobrinha, é também a noiva de meu filho...

A viagem  que ides fazer, don, não é longa, mas eu vos peço que estejaes sempre attento, afim de evitar riscos que possam aparecer. Dizem por ahi que os bugres estão assanhados e, embora ninguém os tenha visto e armas nestes últimos meses, sempre é de temer que nos façam uma surpreza de um momento para o outro. Se vos for possível, deixai de dormir até o momento em que tenhaes entregue a dona Maria em casa dos Paes, junto à cabeceira de minha irmã  que, segundo sei, agoniza...

- farei como dizei!!!

O velho fidalgo poz a mão, familharmente, no ombro do jovem militar

- Apesar de toda a confiança que vós e a vossa bravura mereceis, eu gostaria de acompanhar pessoalmente minha sobrinha ou de que meu filho o fizesse, mas o governador deve chegar aqui amanhã ou depois, vindo de Cananéia e da Vila de João Ramalho e é necessário que aqui estejamos para dar notícia dos negócios da capitania. Eu vos dou o maior número de homens armados de que posso dispor no momento. Mas não posso daqui  afastar, agora, pois bem sabeis que os franceses não nos dão tréguas.

- Descanse que esses me bastarão.

-Sabeis como deveis fazer: às três da tarde alcançareis a quinta fortificada da Garcia Pimenta; lá pernoitareis para continuar viagem ao amanhecer do dia seguinte. Os vossos batedores levam uma hora de avanço sobre a comitiva e vos darão notícia de qualquer perigo no caminho; se algum imprevisto aparecer, despachaes logo um mensageiro a dar-me notícia ou a pedir-me auxílio.

- Faremos como acabas de dizer.

Então, em marcha, e que Deus vá convosco... Eis que dona Maria acaba de subir para a liteira...

O velho fidalgo caminhou rápido ao encontro de um rosto de mulher que aparecia entre as cortinas bordadas. Tomou de uma pequenina mão que lhe era estendida e beijou-a forcejando por sorrir entre as lágrimas da moça:

- Enxugae vossos lhos, dona Maria, que não há razão para pranto. Deus há de permitir que a moléstia de vossa mãe e minha irmã não tenha maior importância e ainda nos riremos do alarme feito.

A  jovem sacudiu a cabeça mimosa de louros cabellos revoltosos, ao mesmo tempo em que enxugava as lágrimas com o pequenino lenço de cambraia rendada.

- Meu pai não sujeitaria ao risco de uma viagem feita às pressas se não visse que era realmente grave o estado de minha mãe!... Pra à Virgem que eu ainda chegue a encontrá-la com vida...

- Por Deus, não vos desespereis, minha filha!

Doana Maria abafou um soluço e indagou, como se quizesse desviar o assunpto:

- Não vindes comigo?

-Bem sabeis que não é possível... Esperamo o governador amanhã ou depois e minha presença é necessária aqui. – E tão pouco virá D. Francisco, vosso filho.

- E vosso noivo, sublinhou o fidalgo.

Um jovem aproximou-se nesse instante dos que conversavam. Era garbos e forte e tinha nos olhos o mesmo brilho audacioso e no rosto os mesmos traços de energia que tanta majestade emprestavam á figura venerável do capitã-mór; o chapéu pendia-lhe da mão, com a pluma a roçar o solo.

Era Don Francisco de Souza e Góes, filho do capitão-mór, noivo D. Maria, commandante das guardas do governador. Elle falou, numk tom de voz que mais parecia de súplica do que de explicação:

- Eu já vos disse, dona Maria, dos motivos que me prendem a São Vicente neste momento. Espero que me perdoeis se vos faço companhia até o primeiro pouso e prometto-vos que estarei em Piratininga tão depressa quanto mo permita o serviço do governador.

Dona Maria inclinou a cabeça, mudamente. O capitão-mór fez um signal ao tenente. Dom Luiz  que já ia montando, tinha os olhos fixos nelle. O som de uma trompa encheu os ares. Houve no pateo um rumor de metais que se chocavam, de espadas que se baiam, de animais que escarvavam a terra. Os cavalleiros montaram. Dom Francisco foi collocar-se com seu nervoso Cavallo branco ao lado da liteira da noiva. O capitão-mór beijou a mão que a sobrinha lhe estendia através das cortinas e murmurou:

- Que a Virgem seja a vossa companheira, dona Maria...

Novamente o som da trompa dominou os ruídos do pateo e a pequena colluna se poz em marcha.

Quando o último mosqueteiro já havia transposto o largo portão e a comitiva ia longe, além dos limites da praça ampla, aproximou-se do capitão-mór:

- Não vos parece um pouco temerário esta viagem, com os rumeres que correm ahi? – indagou.

O interpelado fitou-o, com uma sombra de olhar:

- Certamente, dom Alvaro, mas, que quereis? O recado que hontem recebemos, trazido por um mensageiro despachado às pressas de Piratininga era claro e dizia que minha irmã, agonisando , queria ver a filha, de quem está separada já vai para dois anos... Não houve como evitar a viagem, tanto mais quanto Dona Maria ficou como louca... Ainda se lhe pudéssemos dar uma boa escolta! Mas numa época como a que atravessamos, com as guarnições a um terço, os franceses às portas da colônia e sem o menor auxílio do Reino...

Dom Alvaro teve um sorriso!

- Quase que se não pode saber se é melhor a sorte dos vão ou a dos que ficam...

O capitão-mór sacudiu a cabeça:

Tendes razão...

E estendeu o olhar, contemplativamente, pelas collinas baixas que o sol começava a dourar na alegria da manhã.

Às seis há a vida de São Vicente, vida pobre de Villa colonial de século XVI – começava a declinar. Terminando o completório da igreja rústica accendiam-se os fogos nas casas de alvenaria e nem mesmo o passo de um caminhante se ouvia nas ruas tortuosas do villarejo acanhado. O último sinal de vida era sempre dado, nas tardes luminosas, pelo pavilhão das quintas que lá ficava a drapejar ao vento, no topo do mastro, por cima das fortificações que Martim Afonso de Souza fizera construir ao sul da Villa, no alto do promontório que dominava o mar.

E aquella tarde teria sido igual a todas as outras monótonas, frias,, sem vida se cerca das seis horas um tirode canhão, secco,imprevisto,atroador, não tivesse quebrado o recolhimento do crepúsculo estival.

Em todas as casas assomaram cabeças à janellas, appareceram nas ruas e o próprio capitão-mór, que digeria calmamente o seu jantar, não poude deixar de chagar também à sacada rústica, investigando com o olhar as forticações que apareciam coroadas por uma nuvem branca.

-Deve haver alguma coisa! – falou elle para um escudeiro que se approximára. É pssível que o governador chegasse inesperadamente. Dá-me a capa e a espada que vou descer ao porto...

Quando, porém, ele transpoz o portão do pateo, um cavalleiro chegado em louco galope tomou-lhe o caminho.

- Que há? – indagou o fidalgo.

-Manda-me o commandante para vos dizer que estão à vista cinco nãos, vindas do sul. Estão longe demais para que para que se lhes possa ver bandeiras mas trata-se, ao que parece, de três caravellas e dois bergantins, e estes dois úlitimos bordejam, como se procurassem porto...

O capitão montou, rápido, galopando para as fortificações. Recebeu-o o comandante do forte, nervoso eagitado:

- Cá estão novamente os francezes!

- Como o sabeis?

- Já se podem ver as cores da França na maestração... Felizmente que há calmaria, pois do contrário elles teriam caído de surpresa sobre a Villa!...

- E tendes tudo pronpto para recebe-los?

-  Bem podeis ver, capitão...

E o official apontava, satisfeito, as guarnições que se alinhavam atraz das peças baixas. Depois, reflectindo um instante:

- Mandaremos cincoenta homens para o sul, afim de impedir um desembarque durante a noite. Aqui sabemos bem que não teremos antes do amanhecer, a menos que elles queiram quebrar a nãos nos arrecifes da entrada...

O sino de rebate bem depressa levou a nova à última casa da Villa e em pouco todos os homens validos de São Vicente tinham accorrido para a luta. Atrás da palissadas, dentro dos reductos erguidos às pressas, todos esperavam, aferrando pistolas e adagas, durindanas e montantes, partazanas e mosquetes, o instante do ataque, dispostos a repelir o francez rapineiro.

Mas a noite desceu sem que o primeiro tiro soasse, sem que ao menos as mãos inimigas, abandonadas pelo vendo,estivesse diante da Villa.

Ao alvorecer do dia seguinte os portugueszes viram, com assombro, que os escaleres francezes, descidos durante a madrugada, apinhados de homens, estavam a poucos metros da praia.

As nãos, com o panejamento colhido a meio, alinhavam-se ante a Villa, promptas para o fogo. A luta prometia.

Um tiro partiu de terra, certeiro, para quebrar a mastreação de um bergantim e a dansa infernal teve início. As bombardas explodiam, das fotificações para as nãos e destas para a terra e os homens na praia , com os pés batidos pelas ondas, faziam descarregar as pistolas e os mosquetes.

Depois foi o aço que entrou em jogo,, com as durindanas a atravessar peitos, com  as achas das armas a esmagar craneos, com as alambardas a formar uma barreira instransponível de pontas aguçadas e brilhantes. São Vicente, tão cobiçada sempre pelos corsários de todas as bandeiras, jamais vira uma luta igual áquella! Se grande Ra o número dos francezes invasores, maior, muito maior, era o ímpeto dos portuguezes que defendiam com loucura a mais florescente  Villa do Reino em terras da América. O capitão-mór descera a dirigir a defesa. O seu montante de guerra, que de tantas glorias  se cobrira na Índia abria claros impreenchíveis entre os assaltantes e ele estava em todos os reductos, animando, encorajando, dirigindo.


Súbito houve uma mudança na face da luta. Os francezes diminuíram a intensidadae do ataque e começaram a recuar, voltando aos escaleres fazendo-se de remos para as nãos. Não era o fim, percebia-se bem, pois, que as bombardas continuavam a explodir de lado a lado e novos escaleres desciam,cheios, pelos flancos das caravellas, mas era pelos menos uma trégua que daria descanso aos sitiados.

O capitão-mor descansou a ponta da espada na biqueira da bota de couro cru e passeou os olhos pela praia onde havia homens caídos sobre a areia manchada de vermelho.

Nesse momento um soldado, sujo, Ferid e sem armas approximou-se delle:

- Capitão!

- Dizei.

- Eu venho da quinta de dom Garcia Pimenta...

O ancião fitou-o com ansiedade incontida, como se esperasse uma notícia má.

- E que trazeis?

- Vosso filho manda pedir auxílio urgente. Os bugres, em número assustador, cercaram a quinta e não lhes pode resistir por muito tempo...

O capitão enfiou a montante na bainha e fez menção de caminhar, mas não chegou a dar um passo. Prestou ouvidos às bombardas que continuavam a estourar, olhou os seus homens,que,offegantes, suarentos, continuavam à espera de novo ataque, contemplou o mar onde as náos se balouçavam e onde novos escaleres rumavam para a terra e não se moveu. Fitou o mensageiro com um brilho estranho no olhar e indagou:

- Dizei-me: achas que eu só possa adiantar alguma coisa indo lá?

O soldado vacilou um momento ante a pergunta mas acabou respondendo:

- Perdoa-me se vos digo que não, mas os tamoyos são numerosíssimos.

O fidalgo voltou a desembainhar a espada:

- Então, nada poderemos fazer. Eu não posso afastar um só homem daqui neste momento, pois estamos a serviço d’el rei...Meu filho que me perdoe!

Deu dois passos na areia e voltou-se novamente, procurando suffocar a emoção que o dominava:

- Esperemos até que finde a luta e alvez ainda seja tempo... Enquanto esperamos, vinde lutar conosco, pois que, pois que esta terra bem merece o nosso esforço...

E caminhou para a praia, ao encontro dos escaleres francezes que se aproximavam.

 

* Professor de gramática e literatura da PUC e Universidade  Santa Úrsula do Rio de Janeiro entre as décadas de 1940 e 1970; autor do famoso manual didático “Português para o Ginásio”, da Companhia Editora Nacional e  do romance  “Há sol por trás da nuvens”.