HISTÓRIA DA MORTE E DO RITO FUNERÁRIO VICENTINO
As sepulturas da Igreja da Matriz e da Travessa Ana Pimentel
O velho Cemitério Municipal
Areia Branca e o novo Marco Divisório São Vicente -Santos
As Necrópoles Verticais
O CEMITÉRIO MUNICIPAL
O cemitério municipal tinha difícil acesso, dificultando os cortes fúnebres, cujo trajeto era feito por um cainho estreito e sinuoso. Entre os anos 19º0-1901 o então intendente Lima Machado determinou que fosse aberta uma rua que, partindo da avenida Capitão-mor Aguiar seguia em linha reta até o Campo Santo. Hoje essa rua te início na praça Bernardino de Campo e tem o nome do seu executor.

TEMOS ONDE CAIR MORTOS
DALMO DUQUE DOS SANTOS
Sepultar corpos é uma prática pré-histórica surgida com o sedentarismo e com os costumes desenvolvidos nas primeiras aldeias agrícolas. No período nômade os membros dos grupos que tombavam mortos, de forma natural ou em confrontos, eram deixados para trás e com seus corpos abandonados desapareciam também as memórias dessa convivência instável e sem endereço fixo. Os rituais funerários surgem exatamente quando as populações já desfrutam de hábitos coletivos num espaço comum de moradias e sobrevivência local.*
ENTERRAMENTO DA SENHORINHA ZILDA DE SOUZA AGUIAR
Em 25 de setembro de 1925 a sucursal do jornal A Tribuna registro o enterramento de uma jovem senhora de tradicional família vicentina, falecida três dias antes, com numeroso acompanhamento anotado pelo cronista composto de personalidades das antigas famílias e de destaque da politica vicentina. Provavelmente a maioria dos citados também está sepultada na mesma necrópole :
Enterro
Conforme noticiamos, realizou-se ante-hontem, no cemitério
desta cidade, o enterramento da inditosa senhorinha Zilda de Sousa Aguiar.
Do numeroso acompanhamento pudemos tomar nota das seguintes pessoas:
Luis Antônio Pimenta, Jayme e Antônio Hourneaux de Moura, Líbero
e João Pariselli, José Adelino Soares, Bruno Malegny, Eduardo Araújo dos
Santos, João Francisco Bensdorp, Ignácio, Cicero e Homero Requejo: José
Rodrigues, José Brito, José Martins Viana, Antônio Heitor, Caramuru, Eduardo do
Freitas; Didimo de Sousa Santos, Waldemar Duarte, Helli e Flávio Botto, Ernesto
Entrieri, João Rittes. José Rittes Filho, Adriano dos Santos, Germano Brume,
sargento Joaquim Alves Rodrigues, Rodolpho Plothow, Tabajara Paranhos, Euclydes
de Miranda, Rubens C. Rocha, João Baptista de Alencar, Enior Lima, Auto Dias,
João lochido, José e Francisco Antônio Fructuoso, Benedito Ferreira, Baldomero
Lopes Fernandes, Honório Pires de Camargo, Paulo Augusto Freitas, Acácio P.
Duarte, Benedicto Vieira, Bernardo Teixeira, cabo Washington Roso, Merival
Emmerich, José Serranno, Eduardo Simon, Milton Pinto Manuel Vicente de Paula,
Oswaldo da Silva Primo, Antenor Villas Boas, João Richetti, João Paulo de Lara,
Divo Raul, Sylvio de Sousa Aguiar; Antônio Joaquim, Alfeu Ortiz, Benedito Leite
de Paula, José Augusto do Oliveira e senhora, Brasillo de Sousa Moreira, Anisio
Marques, Nicolau do Moraes, Orestes Telles, Guilhermo Alves, Issac do Valle, Lao Y. Rodrigues, Antônio José
da Rocha, Domingos Marques, Issac Passos Pilho, Álvaro de Medeiros por si e
familia; João Marinho de Freitas, Antônio Pierre. E. Assumpção. Augusto Veleije
Lule Lopes, Edison Telles, Antonio Thiago de Carvalho, Lucas Alves, Antônio
Mauri, José Tumolli, José Gomes e Olegário Herculano Alves
Sobre o ataúde foram collocadas a seguintes coroas de flores
naturaes:
A boa Yaya, saudades de sua mãe e irmãos.
A' Yaya, último adeus de Divo Tuna;
A boa Yayá, saudades de Bilu Santa e filhos:
Saudades eternas da Congregação
FAZEDOR DE ATAÚDES
ALGUNS VULTOS SEPULTADOS
VICENTINOS HISTÓRICOS. Personalidades marcantes na História Contemporânea de São Vicente foram registradas em diversas obras, entre elas: Vultos Vicentinos (Edison Telles de Azevedo,1972), Guia de Ruas (Narciso Vital de Carvalho, 1978), Poliantéia (Fernando Lichti) e Á Bocca do Coffre (Dalmo Duque e Waldiney La Petina). Embora a figura másculina tenha sido predominante nas épocas passadas, as mulheres também tiveram muita influência na vida cotidiana vicentina. Outra forma que encontramos para identificar essas figuras foi o registro necrológico do Cemitério Municipal.Vicentinos memoráveis: as professoras Maria Pacheco Nobre e Adelaide Giebler Macedo;o músico Maurício Moura e o padre Paulo Horneaux de Moura.Coronel Júlio Maurício da Silva -19 de Abril de 1930 e sua esposa Maria do Carmo Jardim Maurício da Silva (Dona Mariquinhas).
Antonio Emmerich – Em 24 de junho de 1881, sepultado no Paquetá (Ordem 3ª do Carmo) em Santos, tendo seus restos mortais transladados para o Cemitério de São Vicente em campa particular da família. E sua esposa Dona Filipina Emmerich (Dona Felipa), em 1916, sendo o mausoléu um dos mais antigos da necrópole.
Pai Bento – Escravo de 105 anos, vindo aos 50 anos de Eldorado (Xirica) a mando do seu senhor para alistar-se na Guerra do Paraguai. Foi comprado piedosamente por Bento Viana, em troca de outro escravo mais novo. Com a morte de Viana, Pai Bento ficou sob a proteção de Antônio Emmerich, trabalhando espontaneamente até sua morte e vivendo num quartinho na casa do patrão e amigo.
Dr. José Rubin César- 11 de dezembro de 1897, advogado de alto prestígio em Santos e orador oficial de São Vicente.
José Fernando Antônio Bittencourt – Campa perpétua, em 18 de novembro de 1903, herdeiro dos avós e agricultor do histórico Sítio Acarau, onde nasceu o Frei Gaspar; vereador e presidente da câmara.
Alberto Martins de Oliveira – 29 de novembro de 1929, esportista, presidente da Câmara, delegado de polícia. Fundador do CR Tumiaru e Chantecler EC. Aposentou-se como funcionário da Cia. Theodore Ville, comissária de Café, em Santos. Era natural de Monte Cabrão.
José Joaquim Azevedo (Juca Morgado) -Em 27 de abril de 1933, aos 81 anos. Sua esposa Catarina Lapetina também está sepultada na mesma campa. Imigrante português, era industrial e comerciante, construtor e administrador de importantes obras públicas e monumentos da cidade.
Capitão Gregório Inocêncio de Freitas – fazendeiro, produtor e exportador de café procedente de Xirica (Eldorado), presidente da Câmara; sepultado em 22 de setembro de 1901. Túmulo 657 P, 3ª sepultura da 1ª fila da quadra 2, à direita de quem entra no cemitério, onde também está sepultada Rita Cândida de Freitas, segunda esposa do capitão. O Dr. Moura Ribeiro atestou o óbito.
João Pereira de Almeida (João do Morro)- em 30 de março de 1946, aos 103 anos. Morador do Morros dos Barbosas, próximo à Biquinha. Figura rústica e muito popular, caiçara, pescador e canoeiro que salvou do afogamento muitos banhistas que frequentavam a praia de São Vicente.Foi sepultado às expensas da família, porém a prefeitura concedeu a ele campa perpétua , lei 42, de 30 de setembro de 1948.
Maria Pacheco Nobre –em 12 de junho de 1949,aos 49 anos, sepultada em túmulo comum e anos depois seus despojos foram para do jazigo 36. Mestre-escola no Boqueirão da Praia Grande, tendo nascida no sítio do Itaipu.
Salvador Malaquias Leal - Em 12 de abril de 1931, aos 70 anos. Nascido em Santos e residente na rua Ypiranga, onde faleceu. O Dr. Atilio Pabis atestou sua morte, tendo seu corpo sido sepultado em campa perpétua397 D, quadra 7. Funcionário durante 24 anos da firma Zerrener Bullow , tornou-se depois funcionário de confiança do prefeito Francisco Bensdorp.
Francisco Xavier dos Passos – 22 de agosto de 1915, aos 77 anos. Bem como sua esposa Laurinda Marcelina dos Passos, em 14 de julho 1919. Chico Botafogo era puxador rezas, coroinha da Matriz e zelador de capela. Sitiante, músico da banda. Foi um dos primeiros arruadores durante a expansão urbana moderna e figura muito popular na cidade. Seu funeral foi uma mais concorridos de então, com a presença da banda musical da qual era membro.
Theotônio Gonçalves Corvelo – Faleceu durante um passeio de Praia Grande em 10 de maio de 1916. Era comerciante, guarda-livros e dedicou-se à política como presidente da Câmara. Muito culto e voltado para as artes, foi o mecenas que financiou os estudos musicais da menina Georgina Moura, mãe dos famosos músicos Maurício e Mauricy Moura. Georgina foi reconhecida professora de piano e mestra, entre outros, do grande musico Cesar Camargo Mariano ( futuro marido de Elis Regina) quando este residia na rua Frei Gaspar.
Adelaide Giebler Macedo. Faleceu em 6 de dezembro de 1965 no Hospital São José e foi sepultada na campa perpétua 963 “O”, onde também foram enterradas sua irmã, falecida em 1922; e sua mãe, falecida em 1919. Mestre-escola atuante, juntamente com sua irmã Isabel Giebler, fundadoras de uma conhecida e simples escola primária, mantida com grande dificuldade.
Coronel José Lopes dos Santos – Está sepultado em campa perpétua doada pela prefeitura, bem como sua esposa Gabriela Carneiro Lopes (Maninha), aos 97 anos. Era membro da Guarda Nacional, político e grande benfeitor vicentino. Faleceu em São Paulo na tarde de 21 de maio de 1896, na Estação da Luz em São Paulo, enquanto aguardava o trem de volta para Santos. “ À passagem do féretro, muitos circunstantes se ajoelharam em respeitosa postura, em reconhecimento pelo muito que o Cel. Lopes dedicou a sua existência aos humildes e enjeitados da sorte”.
Eduardo Vitor de Freitas – Em 03 de julho de 195, aos 96 anos de idade e sepultado na campa perpétua 267- L. Sua esposa, Dona Amância Gonçalves, com quem teve 18 filhos, faleceu em 25 de maio de 1939. Além dos filhos, cuidavam de diversas crianças pobres que os pais não tinham condições de criar. Foi servidor público em Santos na Recebedoria de Rendas e funcionário de duas administrações municipais vicentinas.
João José de Souza – em 20 de março de 1957. E também sua esposa Laudelina Emmerich, neta de Jacob Emmerich e Felipina Emmerich. Era genro de Thiago Emmerich. Foi Juiz de paz, desportista de destaque, na patinação e no bilhar.
Marcílio Dias do Nascimento – em 23 de maio de 1940, ao 57 anos de idade, em suas residência, à rua Jacob Emmerich, 920. Foi sepultado em túmulo doado pela prefeitura em reconhecimento aos serviços comunitários , como dentista e colaborador de iniciativas filantrópicas.
Anadir Dias de Carvalho – Em 11 de novembro de 1954, tendo comparecido ao seu funeral uma massa de amigos e admiradores. Fundador do CR Tumiaru em 1905 e presidente do clube em vários mandatos, tendo sido um dos atletas e líderes esportivos mais celebrados da época. Era funcionário federal, tendo sido guarda aduaneiro no Porto e fiscal da Alfândega.
Paulino José Ribeiro Ratto- Em 23 de fevereiro de 1924, três dias após uma queda acidental no jardim de sua casa. Está sepultado na campa perpétua 79 C, na quadra 1. Comerciante cafeeiro e dono de grande fortuna, residia em ampla residência , na rua Frei Gaspar, 67. Foi vereador e autor de vários projetos de melhorias da urbanização da cidade.
Capitão Luiz Horneaux – Em 24 de abril de 1920, em sua residência, na rua Martim Afonso, 23. Era figura de destaque no comércio aduaneiro e no esporte de regatas. Seu féretro teve o acompanhamento de grande multidão de amigos e admiradores, chocados com sua morte prematura por pneumonia dupla, após ingerir bebida gelada no Bar do Esporte após longo percurso de bicicleta sob sol escaldante. Está sepultado na campa perpétua 171 C, quadra 2. Sua irmã Isabel Horneaux (Titina) era casada com Antero de Moura, unindo dessa forma duas conhecidas famílias vicentinas.
Joaquim Dias Bexiga –Em 28 de fevereiro de 1930, aos 68 anos, em sua residência na avenida Capitão Mór Aguiar, 365. Está sepultado em campa perpétua, nº 192 D, bem como sua esposa Flora Gonçalves Bexiga, falecida em 1965, aos 98 anos. Bexiga era um comerciante inquieto, mistura de engenheiro, inventor e cientista experimental. Sua loja de ferragens era batizada de Oficina Enciclopédica, que resumia suas ideias e atividades tecnológicas.
Capitão Luiz Antônio Pimenta – Em 8 de agosto de 1936, aos 68 anos, sepultado na campa perpétua 455 E, Quadra 4. Casado com Olímpia Rubin Cesar, filha do famoso advogado e orador. Foi dirigente esportivo, vereador e destacado membro do Partido Republicano Paulista.
Ignacio Gonzalez Requejo – Em 14 de novembro de 1944. Faleceu no Hospital São José, deixando inúmeros descendentes, a maioria comerciantes como ele e outros dedicados a profissões de formação acadêmica. Imigrante espanhol, era proprietário da famosa Casa Requejo. Foi um dos sustentáculos da obra social Chácara dos Inocentes, dedicada aos órfãos e inspirada e dirigida por Anália Franco. Sua esposa Eulâmpia Requejo também está sepultada na antiga necrópole da cidade.
"O filosofo espiritualista Pietro Ubaldi, 86 anos, morreu na madrugada de segunda-feira, em São Vicente, vítima de um efizema pulmonar, dois dias depois de terminar de escrever o seu último livro da serie A Grande Síntese. Ubaldi foi enterrado no Cemitério de São Vicente às 17 horas, com a presença de grande numero de pessoas, membros do Núcleo Ubaldiano de Metafísica e o representante do prefeito Jonas Rodrigues.
Estava internado há 35 dias no Hospital São José, para tratamento cardíaco. Durante esse tempo, iniciou o seu último livro, declarando aos médicos que morreria logo após o termino da obra. Sexta-feira, terminando a obra. Teve grande melhora no seu estado de saúde, segundo declarações do médico Ivan Coelho Maciel. Sábado pela manhã, entrou em agonia, falecendo aos 45 minutos de segunda-feira, sem recuperar a consciência. A morte surpreendeu o médico.
Pietro Ubaldi foi sepultado na tumba n° 948, onde está enterrada, desde 1963, a sua esposa Maria Antonieta Solfanelli Ubaldi. Sua filha - que preparará a edição do seu último livro - não presenciou o enterro, porque ficou em repouso absoluto, seguindo ordens médicas.
Durante o enterro, o presidente do Núcleo Ubaldiano, sr. Claudio Picazo, leu uma mensagem espiritual datada de 11 de fevereiro, na qual o espírito de Domingos Alves de Carvalho previa a morte do filósofo. A mensagem foi recebida pela médium Izilda C. Pinna e diz: "uma grande alma deixa o corpo e caminha para Jesus".
Quando tinha 75 anos, Ubaldi escreveu o livro Profecias, no qual previa a própria morte para 1972, descrevendo as circunstâncias da morte e o local.
"Logo que terminar de escrever meu último livro vou morrer, para fazer cumprir as palavras de Jesus Cristo. Ele disse que terminando a minha obra terrena, eu iria a seu encontro".
Segundo o médico Ivan Coelho Maciel, era surpreendente a força de vontade do filósofo.
"Ele escrevia dois dias seguidos e piorava. Parava dois dias para tratamento e reiniciava a obra. Eu o proibi de ditar o livro ao gravador, porque se emocionava bastante. Por isso, passou a escrever. No último capitulo, explicou, à sua maneira, o que estava sentindo e qual a sua doença. Ubaldi tornou-se meu amigo e sua morte, no ponto de vista da medicina, foi uma coisa extraordinária; apresentava um quadro clínico satisfatório. Antes de entrar em coma, ainda escreveu duas cartas. Depois, não disse mais nada. Sua família assistiu comigo aos seus últimos instantes.
UM DOS MAIS FAMOSOS DA CIDADE
A morte de Ubaldi foi lamentada pelas personalidades culturais da cidade. Foi um dos moradores mais famosos da Cidade. Costumava brincar com as crianças nos dias de sol na praça 22 de Janeiro, em São Vicente. Era visto constantemente na janela do seu apartamento em longas meditações. A noite, ficava até alta madrugada escrevendo, enquanto ouvia música clássica.
Por causa da avançada idade, já andava um pouco curvo, mas a filha afirma que ele manteve, até o ultimo instante, uma lucidez pouco comum em pessoas dessa idade. Disse certa vez que escolhera o Brasil para divulgar a sua obra, porque era a terra da promissão, o país do futuro, a terra do amor e da paz".
SUA VIDA
Pietro Ubaldi, nasceu na pequena cidade de Foligno, Itália, em 1886. Desde pequeno, já demonstrava uma grande necessidade de aprender. Para ele, a humanidade era egoísta e sempre lhe parecia estranha: dai surgiram suas buscas as respostas existenciais: Quem somos?
Para onde vamos? Quem é Deus? Procurando sempre nos livros. Mas eles nunca o satisfizeram.
Pietro Ubaldi formou-se em Direito em 1913, na Itália. Ele nunca chegou exercer a profissão. Mesmo sem conhecer o Brasil, sua tese de doutoramento foi a Expansão Econômica da Itália no Brasil. Apesar de ter herdado grande fortuna, não fez uso dela; achava que não tinha mérito, pois não foi conseguida por si. Preferiu lecionar inglês, para sustentar a família.
Sua carreira literária começou em 1933, com o livro A Grande Síntese, considerado uma de suas principais obras.
Veio pela primeira vez ao Brasil, em 1951, a convite da Confederação Espírita do Brasil, a fim de realizar uma série de palestras por todo o País. Entusiasmado com sua experiência, retornou em 1952 com toda a família, radicando-se definitivamente em São Vicente, dividindo seu tempo em escrever e fazer palestras.
Suas obras foram editadas em inglês, italiano. espanhol e esperanto, e por esse motivo foi indicado para o prêmio Nobel da literatura. O grande filósofo foi fundador do Núcleo Ubaldino de Metafísica, entidade com sede em São Paulo, encarregada de imprimir e divulgar seus trabalhos."
HERÓIS DE 32
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O Antigo Costume do Sepultamento nas Igrejas do Brasil
O costume de ir ao cemitério é ainda muito recente, se levarmos em conta que até princípios do século XIX, não existiam cemitérios tais como conhecemos hoje.Enterrar os mortos nas igrejas era algo comum no Brasil Colonial. No espaço sagrado das Igrejas se enterravam com seus jazigos sob os assoalhos no altar-mor, ou ainda em pequenos altares laterais adquiridos pelo próprio falecido. Assim era também nos primeiros séculos do cristianismo.
Acreditava-se que enterrado no local sagrado estaria mais próximo de Deus, tendo a garantia da salvação de sua alma. Nos preparativos do ritual era determinante o local de seu sepultamento, seu vestuário, velório, cortejo e o número de missas para salvação de sua alma.
Em tese, pessoas de qualquer condição social poderiam ser enterradas nas igrejas, mas como se num movimento natural, estabeleceu-se uma hierarquia a respeito da posição, local e tipo da sepultura. O local de sepultamento, ou da “última morada” no período colonial, dependia na maioria das vezes, da classe social a que pertencia o indivíduo: os mais ricos, membros da elite e do clero eram enterrados no interior das igrejas que, dependendo da procura, cobravam taxas altíssimas para receber o corpo; para a camada mais pobre, e mesmo para alguns membros da classe média que não possuíam dinheiro suficiente, eram reservados espaços descobertos, fronteiros ou ao lado das igrejas, que se chamavam adro.
Mas ainda no século XIX esta prática começa a mudar. Campanhas higienistas vindas da Europa chegaram a conclusão de que os sepultamentos feitos dentro das igrejas prejudicavam a saúde das pessoas, que estariam expostos há contágios diretos.
Os funerais e sepultamentos dos escravos foram previstos na legislação eclesiástica, as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, que alertavam aos senhores que haviam se servido de seus escravos em vida que não se esquecessem deles em sua morte, mandando dizer missas pela sua alma, para “atalhar a impiedade” e coibir o fato de algumas pessoas mandarem “enterrar seus escravos no campo e mato como se fossem brutos animais”, o texto determinava que nenhum defunto batizado “de qualquer estado, condição e qualidade” fosse enterrado fora do lugar sagrado. (A Terra de Santa Cruz)
Duas Sepulturas Históricas de Indígenas que participaram da fundação da Nação Brasileira
Catarina foi uma indígena Tupinambá, da região onde hoje é o estado da Bahia. Foi oferecida como esposa por seu pai, o cacique Taparica, ao náufrago português Diogo Álvares, o Caramuru, que gozava de grande proeminência entre os Tupinambás da Bahia. Adotou o nome cristão de Catarina do Brasil. Catarina e Diogo Caramuru formaram a primeira família documentada do Brasil. Catarina é considerada a mãe simbólica da nação brasileira.
Tibiriçá teve papel destacado na fundação da Vila de São Paulo de Piratininga, atual Cidade de São Paulo, em 1554. Foi convertido e batizado pelos jesuítas José de Anchieta e Leonardo Nunes. Seu nome de batismo cristão foi Martim Afonso, em homenagem ao fundador de São Vicente, Martim Afonso de Sousa. Por seu papel em proteger a Vila de Piratininga do ataque de indios hostis, Tibiriçá ganhou o título de Cavaleiro da Ordem de Cristo pelo Rei de Portugal. (A Terra de Santa Cruz)
INSCRIÇÕES TUMULARES NA IGREJA MATRIZ
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AQUI JAZ O YNNOCENTE B.T.VIANNA Fº. NÁSCEU A 18 DE Mcº DE 1872 E FALLECEO Á 30 DEANRº DE 1873
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AQUI JAZ OS RESTOS MORTAES DE D.FLORISBELLA Mª FOGAÇA DE ARAUJO. NASCEU 31 DE OUTUBRO DE 1823. CASOU-SE NESTA VILLA DE S.VICENTE EM 10 JUNHO DE 1840. AQUI FALLECEO EM 18 DE NOBEMBRO DE 1866.............SUAS VIRTUDES............SEU MARIDO JOSÉ JOAQUIM DA SILVA ARAUJO
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AQUI JAZ O CHEFE DA ESQUADRA PAOLO FREIRE DE ANDRADE. NASCEO EM 1757 - FALLECEO 1854
Existem outras duas apenas com a placa de mármore em branco sem nenhuma descrição.
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AQUI JAZEM OS RESTOS MORÁTAES DE FRANCISCO D’ ASSIS CARVALHO. EXEMPLAR DE TODA A.....................(está danificada faltando a parte inferior)
OBRA EM SV ENCONTRA OSSADAS DE 400 ANOS
AE - Agência Estado -25 de agosto de 2010
A cidade de São Vicente, no litoral de São Paulo, continua revelando detalhes da história 478 anos após a sua fundação. Foram encontradas três ossadas humanas praticamente inteiras durante escavações para uma obra onde nasceu a primeira vila do Brasil. O mais surpreendente da descoberta é que embora os corpos estejam enterrados bem ao lado da Igreja Matriz - onde comumente eram enterrados os leigos cristãos -, provavelmente os corpos são de uma população pré-colonização, de índios tupis ou tupi-guaranis.
"Esses corpos são de 500 anos para trás. Mais recente não pode ser, pois há um tratamento diferencial no sepultamento de um cristão para um indígena", explicou o arqueólogo Manoel Mateus Gonzalez.
"O corpo do cristão geralmente está estendido e, no caso do indígena, ele está na posição fetal." No entanto, só exames de DNA e carbono 14 vão determinar exatamente a etnia e a datação dos indivíduos. "Mas tem mais de 90% de chance de serem indígenas, pela curvatura dos pés."
A descoberta foi feita dois meses após o início da construção do Boulevard Ana Pimentel (mulher de Martim Afonso, fundador da cidade). Orçada em R$ 500 mil, a obra de drenagem e pavimentação de uma via ao lado da Matriz é monitorada desde o início pela equipe de Gonzalez. "Nessa escavação, para nossa surpresa, encontramos esses esqueletos inteiros e começamos a encontrar vestígios de sambaquis, que seriam sítios pré-históricos de 3 mil anos atrás, e também algumas cerâmicas tupis." Já foram retiradas mais de 1,5 mil peças do local.
Achados arqueológicos remetem à fundação da Vila de São Vicente. Trata-se de ossadas humanas de três adultos, com partes inferiores das pernas e do pé, fragmentos de crânio e mandíbula, além de parte das costelas e peças de cerâmica. Por conta da descoberta, as obras do Boulevard tiveram de ser paralisadas, de acordo com normas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), por se tratar de uma região de grande valor histórico e por ser próxima a um monumento tombado (Matriz). Foi feito o mapeamento do local onde se iniciaram as escavações. Toda essa ação é coordenada pelo arqueólogo Manoel Gonzalez, responsável por outros achados importantes como fragmentos da primeira edificação erguida no Brasil e vários objetos que recontam fatos que aconteceram há 3.000 anos, na Casa Martim Afonso.
“O mais interessante é o fato dos ossos estarem sobrepostos e rodeados de cerâmica indígena. O que levanta teorias diferentes da origem dos achados, que podem pertencer a sepultamentos feitos pela Igreja Cristã ou de alguma aldeia indígena”, diz Gonzalez. Mas somente após uma pesquisa detalhada será definido que tipo de enterramento foi realizado no local.
O historiador e presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arquitetônico, Cultural e Turístico de São Vicente (Condephasv), Marcos Braga, ressaltou a importância do feito e o interesse do poder público na preservação da história da Cidade. “A mudança na postura da Administração Municipal, que há três anos dá apoio a essas descobertas, é fundamental para revelar partes da história ainda não conhecidas”, afirmou.
O prefeito Tercio Garcia esteve no local para conferir as escavações e garantir a preservação desses achados. “O importante agora é alterar o cronograma das obras de forma a preservar o local das descobertas e os direitos dos comerciantes”.
Para o arquiteto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN-SP), Victor Hugo Mori, essa descoberta é mais um indício da importância de São Vicente no contexto da história de desenvolvimento do Brasil. “Toda a história está no subsolo, portanto só a arqueologia pode fazer aflorar esse passado e ampliar os relatos já existentes”.
www.saovicente.sp.gov.br
A MENINA FILOMENA
Embora pareça raso, quando a maré está baixa, é um lugar perigoso, pois as ondas escavam a ilhota, formando buracos. Filomena, a menina em questão, ingenuamente, dirigiu- se para aquele local. Num instante, desapareceu. As colegas ficaram desesperadas! Algumas estacaram, sem ação. Outras gritaram por socorro! Logo, apareceram pessoas, querendo saber o que tinha ocorrido, tentando ajudar. Os bombeiros foram chamados e iniciaram as buscas. Logo, a notícia foi espalhada e todos, na Escola, tomaram conhecimento. Consternação geral!
Três dias depois, o corpo de Filomena foi encontrado. Minha amiga não participou do velório, nem do enterro.
Na época, os velórios eram, geralmente, feitos em casa e o caixão, branco para os anjinhos e crianças, era levado pelas ruas, até o cemitério. As pessoas , que faziam parte do cortejo fúnebre, costumavam levar buquês de flores, colhidas nos próprios quintais. É provável que tenha acontecido assim.
Isso ocorreu há muitos anos! Poderia ter sido apagado na lembrança de todos. A vida, ou a morte, no caso, tem seus mistérios. O local, onde a menina foi enterrada, passou a ser um ponto de visitação, até pelos que não a conheceram. Como era estudante, jovens passaram a fazer pedidos para ela, a fim de serem aprovados. Como pagamento da promessa, iam ao seu túmulo, para jogar os cadernos utilizados durante o ano. Não sei se isso ainda acontece, mas sei que há plaquinhas de " Agradecimento à Menina Filomena pela graça alcançada". Eu, que não a conheci, tenho o costume de visitar sua campa, no Cemitério Municipal de São Vicente*. Acho que muitos fazem isso, pois os funcionários sabem, prontamente, indicar o local.
A história da menina continua comovendo os corações.
28/4/2021
OS LIVROS E OS CADERNOS DA MENINA FILOMENA
Mas as coisas nem sempre foram assim.
Reza a lenda que, certa feita, um grupo de meninas do Martim Afonso saiu da escola - que na época funciona na mesma rua, porém na instalação de antiga pensão - e foram em direção à praia para realizar alguns estudos e colocar assuntos específicos em dia. Estavam de aula vaga. Não satisfeitas com os bancos do calçadão, tiraram os sapatos e entraram na areia, sentando-se num alegre círculo, colocando os cadernos e livros no chão para ganhar tempo até quando chegasse a hora de irem para suas casas. Eram minutos preciosos de liberdade e diversão. Uma delas, em incontido e inexplicável impulso, sem que nenhuma delas discordasse e impedisse, resolveu por si refrescar os pés no vai e vem das ondas. Sob a curiosidade e até inveja de algumas, ela foi entrando lentamente no mar até que as águas cobriram seu corpo, restando somente a cabeça e os braços estendidos dos ombros em movimento de equilíbrio, dando a impressão de que flutuava. E assim permaneceu por alguns minutos até que as amigas se distraíram e não perceberam que ela havia desaparecido complemente de suas vistas. Todas em pé, algumas se aproximam da água, olham para todos os lados e busca da colega e nada avistaram. Nos rostos, a angústia e algumas lágrimas desespero, já querendo respostas para o que acabara de acontecer.
Como explicar aquele súbito desaparecimento? O que diriam aos pais dela, aos professores e às suas famílias?
Mas naquele dia fatídico e inesquecível, quando todos se retiravam do local onde ocorrera o sinistro, alguém olhou para trás e avistou alguns pertences na areia. Foi até o lugar e, no chão, onde haviam se sentado em círculo, e viu que lá ainda estavam os cadernos, os livros, o par de sapatos e as meias da colega desaparecida para sempre. O par de sapatos e as meias foram devolvidos para a família. Os livros e os cadernos foram conservados em segredo entre as colegas, que guardaram como lembrança e depois uma preciosa relíquia usada em suas orações para matar saudades da amiga e também auxílio místico em outros momentos de angústia e incerteza. Que segredos poderiam conter nas anotações dos cadernos ou notas esparsas dentro dos livros? Que força estranha e secreta teria impulsionado seu mergulho para a morte? Teria sido uma simples fatalidade, causada por um mal estar súbito, um choque de temperatura e congestão? Ou então uma queda acidental numa cava formada pela maré? Escondia ela algum segredo íntimo que se transformou em tormento e que jamais poderia ser revelado? São dúvidas que só ela ou alguém muito próximo poderiam esclarecer.
Foi assim que, aos poucos, o hábito de cultuar esses objetos entre as amigas mais íntimas da jovem estudante afogada espalhou-se como devoção popular entre mulheres religiosas, que passaram a levar livros e cadernos dos seus filhos colocando-os sobre o túmulo da Menina Filomena. Era assim que ela se chamava, talvez, em homenagem à menina martirizada aos 13 anos em Roma e que depois se tornou santa. O túmulo da menina Filomena, sem que a família pudesse ter algum tipo de controle, durante muitos anos ficava repleto de livros e cadernos no dia de Finados; e também recebia a visita em dias comuns, quando as causas e pedidos de ajuda não podem esperar o distante dia dos mortos no final do ano. Também pode ter sido por isso que, de tempos em tempos, as aulas práticas de educação física no Martim Afonso são suspensas sem maiores explicações.
"Conheci Filomena, nos chamávamos de Filó, menina magra de cabelos compridos até a cintura e sua irmã de olhos verdes muito bonita, moravam na rua Marcílio Dias do Nascimento, no Catiapoã, terceira casa descendo do lado da vila sorocabana perto da praça Walter do Amaral, seu pai sr. Tibúrcio, foi candidato a vereador mas não ganhou. Me lembro de uma passagem eu estava brigando em frente a sua casa com meu amigo Miguelzinho camisa preta por causa de bolinha de gude e ele sr. Tibúrcio saiu no portão: "Ei meninos o que vocês estão fazendo aí", entrou na briga para separar-nos e mandou todo mundo para casa. Isto aí que aconteceu com a Filó me entristeceu muito quando soube que ela tinha
morrido afogada. Eu tinha na época 14 para 15 anos, ela também quase a mesma idade; foi enterrada com seu vestido de primeira comunhão. Me lembro como se fosse hoje. Isto ocorreu mais ou menos em 1958, não em 1949. Foi um choque para todos nós. Moro em São Paulo e todas as vezes que desço à Baixada para ver meus parentes e visitar o túmulo de meus pais, visito a quadra nr. 08 do cemitério de São Vicente onde está enterrada Filó, companheira de infância. Seu túmulo está cheio de placas grudadas de (milagres) graças alcançadas".
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