terça-feira, 9 de julho de 2019

MEMÓRIA DO COMÉRCIO E NEGÓCIOS







O CURTUME CARDAMONE


O velho curtume de São Vicente, localizado na av. Tupiniquins, 727, foi construído pouco antes de 1914, pela família Cardamone. O lugar abrange uma área de 69 mil metros quadrados, dos quais 3.200 são de área construída.Composta por um conglomerado de casas, com destaque para a construção central, sede da indústria, um imponente prédio branco com janelas verdes, entre as árvores e a encosta do Morro de Paranapuan, pode ser visto por quem passa pela av. Tupiniquins. O curtume continua atraindo a atenção!

Para se chegar à sede da antiga empresa havia um longo caminho a ser percorrido. Depois, a grata surpresa de ver as casas que serviam de morada aos antigos funcionários, no mesmo padrão de pintura do edifício principal, construídas para agilizar a produção, facilitar a vida dos funcionários e propiciar um melhor inter-relacionamento das famílias. Foram também construídos, para lazer dos trabalhadores, um campo de futebol e a sede de um clube esportivo.

O curtume Cardamone funcionou em São Vicente por cerca de 60 anos. Durante esse período, chegou a empregar 400 funcionários. Seus produtos eram comercializados em todo o mundo e, numa exposição na Alemanha, recebeu o couro produzido no curtume o título de melhor do mundo.
Porém com a desativação do matadouro de gado em Santos, o estabelecimento entrou em fase de decadência devido à escassez de matéria-prima.

Desde 1991 os locatários da área deram início ao processo de recuperação do local, começando, obviamente, pela sede principal. O proprietário desde 1978, Carlos Farina, que faleceu em 16/2/91 na cidade de Jundiaí, sempre demonstrou interesse na preservação não só dos prédios como também da maquinaria. Com sua morte, porém, os imóveis deixaram de receber a manutenção necessária e se encontram bastante deteriorados.

Hoje a área está tombada pelo Parque Estadual Xixová-Japuí, através do artigo 22, Decreto-Lei 25.341/86.

FONTE: Boletim do IHGSV




Curtume do Japuí, nos documentos do SPU

Estas raras imagens do antigo Curtume do Japuí foram garimpadas nos arquivos do Serviço do Patrimônio da União (SPU) em Santos pelo arquiteto Ronney Van Opstal Martins da Costa, que as enviou a Novo Milênio em 2018. As fotos não estão datadas (possivelmente datem da década de 1950), e algumas possuem a indicação de serem de Itaquitanduva, área posteriormente incorporada na descrição do bairro Japuí. Site Novo Milênio







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TEMPOS REMOTOS E MUITO FELIZES

São Vicente nos 1950 e 1960

Neide Andrade


Praça Barão do Rio Branco, esquina com a rua Frei Gaspar.


Moro no Rio, mas nasci e me criei em São Vicente. Conheci  diversas pessoas e lugares como a Alfaiataria Argentina, em frente ao Bar Seleto ( Fuminho) , de meu padrinho José Saguir e onde meu pai , Lydio trabalhava. Ao lado existia uma garagem imensa que era a Bacal, mais tarde mudada para o lado da ponte em frente à praça (viaduto e praça da Bandeira). Esta garagem depois foi a Sears por uns dois anos.

Na Farmácia Anchieta, ao lado do Bar Esporte existia um banco onde alguns frequentadores se reuniam e era chamado de banco da calúnia ( muita fofoca era feita ali). O Sr. Novaes , dono da farmácia era uma pessoa doce e competentíssima.

Nasci no prédio onde funcionava a primeira Alfaiataria Argentina, na Rua Frei Gaspar ( entre a praça e a rua XV) em frente a loja do Sr. Abrão.

Meu padrinho  José Saguir e patrão de meu pai ,  era irmão do Jamil Saguir, dono do Mundo das Sedas em Santos. A filha do Jamil é Norah que junto com o marido, creio que Namor, abriu uma loja bem em frente à praça.

Mais tarde meu pai construiu uma casa na antiga rua 8, hoje Catalão, na Vila Voturuá onde fui criada. Lá tive uma infância muito feliz, árvores, catar peixinhos nas águas que desciam da caixa d’água, brincar nas ruas de terra.  Estudei na escola que funcionava no Horto e depois no Martim Afonso.

Bem jovem fiz curso de datilografia na escola que ficava num sobrado bem antigo na Rua XV ao lado da casa dos Hourneaux, máquinas bem antigas e duas irmãs idosas ensinando. Com isso fui trabalhar no escritório do Vittorio Fioretti no prédio em cima das Pernambucanas - do Sr. Teixeira, que também era dono da pedreira e da fábrica de blocos de concreto próximo à minha casa, ele tinha um Impala azul, lindo e passava pelo bairro.

Na porta do Bar Seleto meu pai e o Fausto, da loja Tic Tac. A Sorveteria Paulista já havia fechado.


O Fioretti era construtor e fez diversos prédios no centro, o Laura na Rua XV , o Romiti na João Ramalho, Miramar e outros.Ele era casado com a Milena Malagoli, filha do Sr. Malagoli, irmã do Danilo e Rudgero – que estudou comigo-  e morava numa casa grande na Padre Anchieta em frente à antiga telefônica, ao lado da casa dos Politi.

 Após o Fioretti, fui admitida na Sears que estava abrindo em São Vicente, transferida para a loja de Santos e por último trabalhei como secretária na Union Carbide , quando casei e me mudei de São Vicente.

 Conheci bem aquele centro, a Alfaiataria já na Martim Afonso era um ponto de encontro, Carlos Alemão, Moacyr Dias, e muitos outros participavam das conversas.

Nos fundos do Bar Seleto morava o Beco, que consertava de tudo.

Em cima da Bacal , onde após a morte de meu padrinho, meu pai e minha mãe, Lourdes, abriram um atelier, ficava o Sr. Eloy, fotógrafo e a sala do José  Pires Nobre, despachante.

Lembro-me do Custódio, dono do Bar Esporte, elegantérrimo, cabelos grisalhos, sempre impecável, um gentleman.

Assisti ,quando muito nova, as sessões de cinema no alto da Royal, tomei muito sorvete na Paulista do Armênio, adorava as balas de alcaçus.

Eram tempos muito felizes, com pouco nos divertíamos muito. Aos domingos meu pai nos levava ao Beira Mar e nos ensinava a jogar damas, já adolescente lá mesmo  ia aos bailes ( com as mães todas nas mesas) .

RAÍZES  E UM CÍRCULO  DE 40 GERAÇÕES

Não consigo especificar um tempo marcante, todas essas fases tiveram sua importância e tenho sempre boas memórias delas. Faço 73 anos em breve e como minha família continuou morando aí, atualmente próximo ao Gonzaguinha , até hoje visito a cidade, onde estarei no mês de junho . Meus filhos, criados no Rio de Janeiro adoram São Vicente. As lembranças das visitas à avó, do tempo que eram pequenos, no quintal de meus pais, os parques de diversões na Itararé, a praia calma, os doces e o tremoço da Biquinha são objeto de divertidas lembranças quando nos juntamos.

Senti que precisava saber mais da história de meus antepassados, comecei por um levantamento do meu lado materno que chegou ao Brasil em 1914, cheguei até 1600.

 Hoje tudo está disponível na internet. 

Resolvi então fazer minha linhagem do lado paterno, surpresa e espanto, acabei chegando, comprovadamente através de documentação , arquivos da Igreja Católica disponíveis na Arquidiose de São Paulo, tratados de genealogia, crônicas de Pedro Taques ( nome da rodovia), testamentos , através de diversas linhagens , a comprovar que :

Sou descendente direta de Martim Afonso através de sua filha Isabel, de João Ramalho/Bartira através dos filhos Joana, Catarina e Andre, e  consequentemente de Tibiriçá e Guaianá A myi Paguana ( 16 gerações), de Garcia Rodrigues e Isabel Velho, que vieram para o Brasil na frota de Martim Afonso através do filho Antônio Rodrigues Velho e da filha Isabel, de Antônio Carneiro Bicudo e muitos outros personagens da história da fundação de São Vicente.

 Enfim, tenho que pedir a benção à diversas placas de rua em São Vicente.Tenho bandeirantes, alcaides, militares nas linhagens. Ao longo de 500 anos saíram de São Vicente para São Paulo, e dali pra o interior até o ramo de meu pai, os Andrades, chegar à Itatinga onde ele nasce e com vinte anos vem para São Vicente, sem ter a mínima ideia de seus laços com a cidade,  fechando o círculo.  Nesse levantamento cheguei aos antepassados até a 40ª geração. Um  mapeamento de DNA comprovou: lá estão meus índios, meus portugueses, meus espanhóis, francos, italianos, enfim toda a Europa e muitos judeus.


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CASINO 





Cassino de São Vicente. 1945. Entrada prinicipal e Salão de Jogos. 







"A foto é de 1965 e retrata a inauguração do Posto Monumento de onde derivou o hoje Monumento Shopping Car e mostra além de seu proprietário Armindo Coelho da Silva, o saudoso Monsenhor Geraldo Borowski, então Pároco da Igreja Matriz de São Vicente. Cinco anos depois era inaugurado o hoje existente Monumento Shopping Car sob o comando do mesmo próprietário e empreendedor empresário". (IHGSV)




Padaria Rio Branco. Rua XV de Novembro  esquina coma rua 13 Maio. Década de 1930.






Lançamento do empreendimento Belvedere Mar Pequeno no Japui, nos anos 1960. O loteamento foi realizado na propriedade de Luiz Antônio Barreiros, bananicultor e ex-presidente da Associação Comercial, Agrícola e Industrial de São Vicente. Atrás da placa de lançamento vê-se ainda parte do bananal cuja produção era exportada para o Uruguai e Argentina. Empreendimento , segundo familiares, não teve o resultado esperado por ter sido lançado no início de 1964, perído de granbde instabilidadae politica e econômica no Brasil.

Acervo familiar: Lilian de Santana Botelho.






Antônio Luiz Barreiros e o genro e engenheiro Ismar de Santana Azevedo, de paletó e gravata, acompanhados de autoridades no lançamento do empreendimento Belvedere Mar Pequeno.









OS BANANAIS DE ANTÔNIO LUIZ BARREIROS


A biografia de Luiz Antonio Barreiros (1890-1971) confirma que os portugueses continuaram sendo os grandes propulsores do desenvolvimento de São Vicente, em diversos contextos históricos após a colonização. Por iniciativa do vereador Jaime Horneux de Moura, recebeu no ano de 1971 o título de Cidadão Vicentino, em reconhecimento aos serviços prestados à comunidade. Era casado em primeiras núpcias com Isabel da Encarnação Barreiros e em segunda núpcias com Ana de Deus Barreiros, tendo muitos filhos, netos e bisnetos.

Lílian de Santan Botelho, neta, lembra do avô como pioneiro, empreendedor e com reverência aos antepassados:

"Sou filha de Prazeres Barreiros de Santana Azevedo , sua filha mais velha , que ele tinha um imenso orgulho por ser a primeira médica da Baixada santista. Mamãe se formou em 1953 na então capital do país, Rio de Janeiro na UFRJ. Mamãe foi também uma pintora premiada. E eu sou médica como ela e meu irmão Sérgio Barreiros de Santana Azevedo, diplomata casado com a embaixadora atual da Guatemala,. Sua descendência inclui quatro netos da mamãe e inúmeros outros dos outros filhos".

O neto Sérgio Azevedo guarda na memória a imagem forte e influenciadora do agricultor vicentino:

"É meu avô. Era um sujeito extraordinário. Chegou ao Brasil com tostões no bolso e em 10 anos já era um dos maiores exportadores de banana para a Europa. Venceu na raça e na coragem como muitos que ajudaram a construir o Brasil..."

Comentando as lacunas da nossa postagem sobre o agricultor na página São Vicente na Memória, em 17 de fevereiro de 2021, a neta Tânia Mara identificou assim as raízes europeias do pioneiro:

“Meu avô nasceu em 11 de setembro de 1890, em Seixo do Coa, Guarda, Portugal. Faleceu em março de 1971. Seus filhos da primeira núpcias eram Prazeres, Rosa e Miguel. Da segunda núpcias, Gloria, ainda viva . Sou filha dela”.

Radicado em São Vicente desde o início do século XIX e morador do bairro do Japui, Antônio Luiz Barreiros tornou-se o principal proprietário daquelas terras da área continental , lado orla , e também na área insular onde adquiriu parte das terras que já eram conhecidas como Esplanada e Caminho dos Barreiros, desde a época do Império. Tornou-se o maior produtor e exportador de banana de São Vicente, atividade econômica que era uma das mais importantes da Baixada Santista e cidades do litoral sul entre as décadas de 1910 e 1960.





























Na mesma postagem, comentando sobre alguns equívocos do texto sobre a relação do avô com a São Paulo Railway, a outra neta, Rosa Maria Louza, esclareceu que o avô não utilizava a ferrovia para transportar a produção de banana nem tinha relação alguma com a Ponte dos Barreiros:

“As bananas eram transportadas por caminhões. As filhas dirigiam dentro do sítio e meus tios levavam para o porto. Naquela época não tinha estufa e, quando o navio entrava na barra, os funcionários e família embalavam. Acho que o Cardamone, Rene Cocito entre outros tinham até uma parte no sítio, que era do Parque Balneário (arrendado, em troca meu avô tirava todo o lixo do Hotel e a lavagem da cozinha, que servia para alimentar os porcos) e acho que do Santos futebol Clube, onde ficava a olaria. Na época ele tinha duas filhas que moravam no Rio de Janeiro,onde uma delas fazia medicina. Ela foi a primeira médica do sexo feminino em São Vicente. Elas tinham que vir para o sítio para ajudar no embarque das bananas porque se não ajudassem não tinha dinheiro para voltar. Vinham de avião e desciam na base aérea do Guarujá”

Na década de 1940, já bem estabelecido, Antônio Luiz Barreiros torna-se figura muito expressiva na sociedade vicentina como amigo e benfeitor da cidade. Foi um influente parceiro na administração do prefeito José Monteiro. Nesse período participa da fundação do Esporte Clube Beija-Flor, do qual foi seu segundo presidente. No Japui também foi de certa forma responsável pela criação da escola estadual que leva o seu nome, tendo sido o doador do terreno onde o estabelecimento foi construído. Também foi um dos fundadores e 2° Presidente da Associação Comercial, Agrícola e Industrial  de São Vicente, representando a bananicultura. 




A LOJA   J. CORVELLO. 



Benedito Calixto. Óleo sobre tela de 45x70 cm, que mostra as antigas ruas Meridional e Setentrional, que depois dariam lugar à Praça da República, tendo ao centro a loja de armarinhos do comerciante J. Corvelo, imigrante açoariano vindo para Santos em 1855 cujos filhos, também nascidos em Açores (Terceira Ilha), herdaram a loja e depois a liquidaram. O prédio foi demolido. Raimundo Gonçalves Corvello permaneceu na cidade, destacando no comércio e na sociedade santista; e Theotônio Gonçalves Corvello estabeleu-se em São Vicente, também com grade destaque comercial, político e humanitário. Aqui investiu seu capital basicamente no ramo imobiliário, como por exemplo a esquina da Praça Barão com a rua Martim Afonso.


OS IRMÃOS CORVELO. Theotônio Gonçalves Corvello e Raimundo Gonçalves Corvello nasceram em Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, arquipélago dos Açores. Eram filhos de João Gonçalves Corvello e Luzia Corvello. A família veio para Santos por volta de 1855, estabelecendo-se com loja de fazendas e armarinhos. A Casa Corvello & Filho ficava inicialmente na Rua Septentrional n. 20. Sucedendo ao pai e, depois, liquidando a firma, Raimundo estabeleceu-se no Largo do Carmo com um armazém, negociando também com bilhetes lotéricos. No mesmo largo, montou depois o chalé denominado "Casa da Fortuna", especializado em loterias. Theotônio veio para São Vicente, aplicando seu capital no ramo imobiliário.Os dois irmão eram muito cultos e voltados para as artes, incentivando eventos e protegendo artistas. A pianista Georgina Moura (mãe de de maurício e mauricy Moura; também professora de César Camargo Mariano, que ná época residia no centro, na rua Frei Gaspar) foi umas das tuteladas de Theotônio Corvello.


DA FOME EM PORTUGAL AO SUCESSO EM SV





















Os irmãos portugueses Ulisses (direita) e Celestino (esquerda) escaparam da fome e mudaram de vida no Brasil. Foto: Rodrigo Montaldi/DL. 



Diário do Litoral, 26 de junho de 2017 


As ruas do Centro de São Vicente ainda eram de terra quando o jovem português Ulisses Alves Domingues, então com 15 anos, chegou à primeira vila do Brasil. O ano era 1961 quando ele deixou em Portugal o pai, a mãe, cinco irmãos e a fome para trabalhar na mercearia de um tio distante no Brasil. Mais de meio século depois daquela viagem de 10 dias de navio e o sonho de uma vida melhor, o rapaz, que tinha apenas o quarto ano do primário, se tornou um importante empresário e dono de um dos principais supermercados do município, o ‘Ao Fiel Barateiro’. 

“A miséria era muito grande em Portugal, que ficou arrasada depois da guerra. Minha mãe dividia uma lata de sardinha para nós, isso quando tinha. A gente não tinha muita opção naquela época. Tinha de trabalhar ou estudar. Eu tive que trabalhar bem cedo na lavoura para ajudar o meu pai. A gente não tinha muita coisa, mas éramos muito felizes”, disse Ulisses. Preocupado com o futuro do filho mais velho, o pai de Ulisses enviou cartas para parentes em outros países, na esperança que alguém pudesse lhe ajudar. “Foi para um que morava na África e outra para um tio do meu tio que morava no Brasil. O do Brasil respondeu e disse que eu poderia vir para trabalhar”, relembrou o empresário. Com uma carta na mão, Ulisses embarcou rumo ao Brasil de navio. Até então nunca havia saído da aldeia onde nasceu e foi criado. Foi recebido por esse tio no Porto de Santos e com ele foi morar no Centro de São Vicente, onde imediatamente começou a trabalhar na mercearia da família, que ficava na esquina das ruas XV de Novembro e João Ramalho. “Não tinha salário. Tinha comida e casa para dormir. Trabalhava dia e noite. Fazia de tudo. Empacotava, entregava compra de bicicleta. Naquela época só tinha o bonde que passava na Rua Frei Gaspar. O trem carregava os bois que iam lá para o Matadouro. A maioria das lojas que tinha no Centro era de portugueses”, disse. 

Sete anos depois, o tio de Ulisses, como prometido, deu entrada em um negócio para o sobrinho, em uma loja no número 488 da Rua XV de Novembro. “Era uma mercearia também. A gente vendia creolina, sabão em pedra, sapólio, banha de lata e comida a granel. Foi ali que comecei o meu negócio”, relembrou Ulisses, que casou em 1967, e passou a trabalhar com a esposa. Ulisses trouxe o irmão Celestino, então com 14 anos, para trabalhar com ele. Ele viria a ser seu sócio depois. O negócio prosperou e, em 1983, ele comprou outro imóvel (local onde permanece até hoje) na mesma rua, onde a mercearia Ao Fiel Barateiro, nome se tornaria um grande supermercado. “Quando se tem honestidade, fé e trabalho a gente consegue vencer. Tem que saber lidar com o público. Acho que esse é o segredo. A gente já enfrentou crise econômica e a chegada das grandes redes, mas seguimos”, disse. Celestino Augusto Alves Domingues, de 64 anos, é o irmão e sócio de Ulisses. Chegou ao Brasil de avião e com uma carta de chamada na mão. “A vida da gente era muito difícil em Portugal. A cultura dos meus pais ainda era da guerra. Vim para cá com a proposta de sociedade. Desde então trabalhamos muito. No dia 19 de maio deste ano completou 50 anos que cheguei ao Brasil”. 

Trabalho 

O supermercado emprega atualmente 250 funcionários. O estabelecimento, que deve ganhar mais um prédio de estacionamento na rua lateral, chama atenção dos clientes por dar oportunidade a jovens no primeiro emprego e pessoas com idades entre 40 e 50 anos, faixa etária muitas vezes com pouca chance no mercado de trabalho. Entre os colaboradores Ulisses é chamado de pai pela forma como os trata. “Eu faço questão de pagar plano de saúde para todos do que ter um lucro maior. Se não tiver plano de saúde e for depender do hospital público morre. Eu falo para eles estudarem. Eu não estudei, mas a gente sabe que hoje o estudo é importante. Quem estuda tem oportunidade. Não quero que fiquem parados no tempo. Eles têm que se capacitar para se saírem daqui terem condições de trabalhar em outro lugar. Os meus padeiros eram todos pacoteiros (empacotadores). Temos funcionários com mais de 20 anos de casa”, destacou. 

Além dos 250 funcionários, a família de Ulisses e do irmão Celestino trabalha no supermercado. Os dois irmãos são encontrados facilmente no estabelecimento, onde são reconhecidos por clientes antigos que fazem questão de cumprimentar. A fidelidade da clientela fez o comércio, mesmo diante da chegada dos cartões de crédito e débito, manter o sistema de carnê para o pagamento das compras. Até tempos atrás eles ainda utilizavam a antiga caderneta para anotar os ‘fiados’. 

Bondade 

Ulisses não gosta de falar no assunto, acha que caridade não deve ser divulgada. Mas a Reportagem recebeu mensagens de clientes do comerciante sobre as boas ações feitas pelo empresário, que costuma ser generoso com entidades beneficentes do município. Uma igreja católica localizada no bairro Catiapoã, que leva o nome da santa de devoção da família, Nossa Senhora de Fátima, foi construída por ele. “Tive uma sobrinha muito doente. Ficou por muito tempo desenganada. Somos muito devotos de Fátima e pedimos pela sua recuperação. Ela ficou boa. Desde 1985, todo dia 13 rezamos o terço para ela. Construímos a capela para Fátima. Sou muito abençoado por Deus. O trabalho é bom e não faz mal a ninguém. Agradeço tudo o que Deus me deu”, explicou. 

A chance do primeiro emprego 

O supermercado foi o primeiro emprego de muitos funcionários. Matheus Felipe de Oliveira, de 22 anos, é um deles. Entrou no estabelecimento aos 18 anos, como empacotador, e hoje atua na padaria do comércio e é considerado um dos melhores padeiros do local. “Foi uma oportunidade que mudou a minha vida. O meu primo trabalhava aqui e falou com o ‘seu’ Ulisses que me contratou. Me dediquei vendo aqueles que faziam certo e fui me espelhando neles”, afirmou Matheus, que mora na Vila Margarida. Depois do pacote, o rapaz ficou três meses na balança e lá surgiu a oportunidade de ir para a padaria. “Perguntaram se eu queria trabalhar na padaria. Eu aceitei. Sei fazer todo tipo de pão hoje. Nunca imaginei, porque não cozinhava nada. O ‘seu’ Ulisses incentiva muito a gente a crescer”, disse. 

O primeiro de Paulo Simões também foi o supermercado. O atual gerente do estabelecimento foi levado pela mãe aos 14 anos ao comércio, que pediu ao proprietário uma oportunidade para o filho. “Comecei no magazine, em 1991, naquela época vendia roupa aqui. Passei por todos os setores da loja. Fui até motorista. Há seis anos estou como gerente. Com 14 anos a gente não sabe nada da vida, mas hoje sei que Deus me capacitou para estar aqui. Me espelho muito no ‘seu’ Ulisses, que tem o caráter de um homem correto e de honestidade”, afirmou. Atualmente a maioria dos jovens que ingressam no supermercado como empacotador é de instituições que formam para mão de obra para o primeiro emprego. 

‘Ele financiou a obra da minha casa’ 

Conquistar a casa própria não é tarefa fácil. Mas com a ajuda do ‘patrão’ alguns funcionários do supermercado conseguiram reformar a moradia e melhorar a qualidade de vida. O ‘financiamento do sonho’ é descontado suavemente do salário e eles fazem questão de ressaltar o apoio daquele que consideram como pai. “O ‘seu’ Ulisses é como um pai. Entrei no mercado adolescente, entre 15 e 16 anos. Precisava reformar a casa, que só tinha dois cômodos. Falei com ele se poderia me ajudar. No meio da obra ele falou para os pedreiros que podia derrubar a casa e fazer tudo de novo. Ele financiou a obra da minha casa”, disse Aron Alexandre, de 45 anos. O encarregado de laticínios trabalha no estabelecimento desde 1988. O mesmo aconteceu com Geraldo Guedes, de 43 anos. O encarregado de mercearia precisava de R$ 16 mil para terminar a casa. “O tratamento dele é de pai para filho. Puxa a orelha quando tem que puxa. Tenho a minha casa do jeito que sempre sonhei por causa dele”, afirmou. 

Sonho da faculdade realizado 

A história de Patricia Pinto de Castilho, de 42 anos, tem relação com o desejo de Ulisses, que é ver o crescimento do funcionário. Ela entrou no supermercado como ajudante, aos 32 anos, e atualmente é a nutricionista responsável pela equipe que atua na padaria do estabelecimento. “Era gerente de loja, nunca trabalhei com panificação ou em padaria. Minha cunhada era confeiteira aqui e falou da vaga de ajudante. Comecei a trabalhar”, destacou Patricia. A força de vontade da funcionária chamou a atenção de Ulisses, que perguntou se ela tinha o desejo de fazer o curso de Nutrição. “Já tinha feito o curso de confeitaria. Tinha o sonho de fazer faculdade sim, mas não relacionado à comida. Ele veio com a ideia e eu achei que não fosse conseguir pagar, mas fiz o vestibular. Passei e falei para ele. Ele disse que poderia me matricular que ele pagaria 50% do curso”, afirmou. Em 2015 Patricia se formou e se tornou nutricionista. Assumiu o comando da padaria, que usa meia tonelada de farinha por dia, e atualmente coordena 18 funcionários. 

“Tive o sonho da faculdade realizada por ele. O ‘seu’ Ulisses fala, o aprendizado não é meu é seu. É muito gratificante tudo o que ele fez por mim. Ele é um grande professor. Me mostrou um caminho e hoje sou muito feliz”, destacou.




PAULINO ALVES DE OLIVEIRA







Vamos hoje relatar, a largos traços, a história de uma criatura por muitos anos nossa conterrânea, tendo aqui constituído família, e que, havendo aprendido a aumentar suas, a princípio, limitadas fôrças físicas e intelectuais, chegou a galgar posições de destaque nas atividades deste e do Município de Santos. De auxiliar do comércio de carnes e artífice autodidata, ocupações que teve no começo de sua vida de árduo trabalho, atingiu por fim, graças ao esfôrço, inteligência e estudo, sólidas posições, a princípio no comércio retalhista, na construção naval e, mais tarde, em destacados cargos públicos e administração comercial.

Falaremos, desta feita, em Paulino Alves de Oliveira. Nascido em Santos, no ano de 1872, a certa altura de sua mocidade os fadários da vida o trouxeram para nossa terra, à qual prestou apreciável parcela de labor e dedicação.

COMERCIANTE RETALHISTA

Depois de aprendizado entre os criadores de gado, abatedores e retalhistas, passou, nesse ramo, a trabalhar por conta própria, estabelecendo-se, em 1899, com negócio do gênero. Tal tipo de comércio, na época, ainda não obedecia aos métodos, à organização e fiscalização de hoje, e cada comerciante retalhista dirigia-se ao curral de sua preferência, e ali adquiria a rês que, depois de ser por ele mesmo laçada, era conduzida em pé, pelas ruas, até o local do abate. Trazida a peça para o açougue, ali se iniciava o estafante trabalho de desmancho, para entregas a domicílio e atendimento à freguesia de balcão. Era atividade fatigante, que, iniciada pela madrugada, prosseguia até à noitinha, mesmo aos domingos, chovesse ou fizesse bom tempo. Mas o pior é que o ganho não compensava tamanha lida, no entender de nosso biografado, merecedor de compensação mais condizente com as legítimas aspirações de erlatura votada a melhores destinos. Essa maneira de encarar a vida levou Paulino a mudar de diretriz, e assim passou para o comércio de padaria, no mesmo local, depois das imprescindíveis adaptações. Com a denominação de "Padaria Moderna”, deu-se a inauguração em abril de 1902. Al, em outro meio mais adequado às suas qualidades de trato e tino comercial, sem demora alcançou melhor nível de vida. Procurando ser útil, o mais possível, aos que se valiam de seu espírito de bem servir, conseguiu novos amigos e apreciável conceito nos meios associativos e filantrópicos locais. Paulino Alves de Oliveira tornou-se, assim, por seus méritos de inteligência, de iniciativa e cordial empenho de entre ajuda, figura indispensável na concretização das causas meritórias Visando ao bem-estar da coletividade.



ESTALEIRO NAVAL

Impulsionado pelo natural desejo de progredir e, ao mesmo tempo, dar vazas ao espírito de empreendedora versatilidade, sem descurar de suas atividades comerciais, passou a dividi-las como principiante em construção de barcos. Montando modesto estaleiro nos fundos de sua residência, no Largo Batista Pereira, 8, com saída para o Largo da Lavandaria (hoje Praça Bernardino de Campos), ali, graças às suas qualidades natas de habilidoso artífice, e com a ajuda de um ou outro entendido na matéria, lançou-se à confecção de pequenas embarcações: canoas, botes, baleeiras e respectivos petrechos. De tal maneira desenvolveu o novo ramo de atividades, que das suas mãos, conduzidas por seu esclarecido espírito artesanal, saíram lanchas e barcos de pesca de pequeno porte, e até vários tipos de delicados barcos para regatas — canoés, ioles a 2 e 4 remos, encomendados pelos Clubes de Regatas Tumiaru e Saldanha da Gama.

Seu bom nome como construtor naval foi-se ampliando, e o Governo do Estado, em 1911, autorizou Paulino Alves de Oliveira a construir dois escaleres destinados à Repartição de Saneamento de Santos, a fim de prestarem serviços no início da montagem da Ponte Pênsil, inaugurada no ano de 1914. De outra feita, o industrial de São Paulo, Leon Jaffet, mandou confeccionar, no estaleiro de nosso biografado, lancha de amplo porte, destinada ao reboque de chatas, barcaças e outros tipos de embarcação, subordinadas à tração. Com a introdução dos motores de pôpa, a oficina naval era a mais escolhida para ali se operar a adaptação desse dispositivo propulsor, em barcos até então desprovidos do notável melhoramento.

DEDICADO AO ESTUDO

Ao mesmo tempo que se dedicava aos seus afazeres, aproveitava o parco tempo que lhe restava para ampliar seus conhecimentos. Favorecido pela inteligência e firme vontade de aprender mais e melhor, dedicava-se ao estudo de contabilidade comercial, valendo-se da perspicácia em lidar com números e em destrinçar problemas correlativos. Elegante e caprichado talhe de letra, atributo, na época, para fácil e quase decisivo acesso e promoção no terreno de contabilidade, completava suas qualidades no início da nova carreira que ansiava palmilhar, e em que antevia as mais amplas perspectivas.

Terminando, com méritos, esses estudos, conseguiu ingressar no alto comércio da praça de Santos, após negociar a padaria e passar para um seu filho homônimo a direção do estaleiro,

Seu conceito como profissional esclarecido, de ilibada probidade, foi consagrando Paulino de Oliveira no alto comércio, o que o guindou a elevados cargos de responsabilidade, em organizações de renome. Do cargos de procurador, com todos os poderes, da firma comissária de café A. Coutinho e Cia., passou, no ano de 1910, para a gerência de uma organização congênere, denominada Sampaio Peixoto e Cia., das mais acreditadas no mercado cafeeiro, por muitos anos com escritório em amplo. sobrado no ex-Largo do Rosário (hoje Praça Rui Barbosa), fazendo esquina com a Rua São Leopoldo. Ingressando, depois, na importante organização britânica, empreendedora de variadas atividades comerciais - a Brazilian Warrant Co. – ali dedicou o melhor de seus esforços, por largos anos, na contadoria dessa emprêsa, uma das mais enraizadas no conceito desse mister em todo o País. A alta direção, na matriz de Londres, galardoando os méritos de competência, esforço e assiduidade de seu antigo e dedicado auxiliar, conferiu-lhe merecida aposentadoria, antecipando-se à lei trabalhista mais tarde implantada no Brasil.

CARGOS PÚBLICOS DE PROJEÇÃO

Apolítico por índole, sòmente graças aos seus predicados de inteligência, serenidade e justeza, Paulino Alves de Oliveira foi chamado a exercer, em duas ocasiões, o sempre espinhoso cargo de chefe de Polícia em nossa terra. Os entrechoques políticos que amiúde agitavam as correntes em litígio, agravados pelas implicações decorrentes, punham à prova a sua conduta imparcial, serena e conciliadora, algumas vezes submetida a duras provas, das quais se saía airosamente, pelo exato motivo de, inarredàvelmente, se manter fora e acima de injunções políticas.

Exerceu, também, por vários anos, a função de Juiz de Paz, sem receber qualquer remuneração, embora a lei facultasse.



OUTRAS NOTAS

Era seguidor, à risca, dos sábios preceitos da filosofia espiritualista, e assim, entre tantas outras práticas, distribuía pela pobreza, por Indleação médica, produtos homeopáticos obtidos de conceituados laboratórios. Fol um dos mais dedicados praticantes, ao lado de compa nheiros de ideal filosófico.

– Fez parte da comissão dos festejos comemorativos do IV Centená rio da Descoberta do Brasil, em maio de 1900 (Inauguração do monitmento e grande exposição do ex-Largo 13 de Maio, hoje Praça 29 de Janeiro).

- Na ata de fundação do Clube de Regatas Tumiaru (22-12-1905), aparece o seu prestigioso nome.

- Quando das festas juninas, contribuia para seu maior realce, soltando balões de todas as formas, que êle mesmo confeccionava.

– Sua distração predileta era o bilhar, e animadas reuniões davamse na Casa Requejo, tendo como parceiros: Luís Hourneaux, Manoel Lopes Fernandes, Adrião dos Santos, Alberto Martins de Oliveira, Anselmo Ferreira, Inácio Requejo, Alexandre Santos, Gaspar Manga e outros.

DADOS BIOGRÁFICOS

Nosso biografado nasceu em Santos, em 30-4-1872, filho de Inácio José de Oliveira, de São Sebastião, e da professôra Francisca Alves de Assis Oliveira, do Rio de Janeiro. Avós paternos: Manoel Pedro de Oliveira, português da Ilha da Madeira, faleceu com 94 anos, e Maria Carolina de Oliveira, brasileira, filha de índios, sucumbiu aos 78 anos; avós maternos: Isidoro Alves de Azevedo, de Macaé (RJ), faleceu com 82 anos, e Jerônima Alves de Figueiró, de Campos (RJ), faleceu com 85 anos. Paulino Alves de Oliveira casou-se em primeiras núpcias, em São Vicente, em 29-11-1890, com Belmira de Almeida (faleceu com 29 anos, em 3-3-1903); dêsse consórcio tiveram os seguintes filhos: Francisco, que foi casado com Elvira de Campos Oliveira, falecidos; Paulino, casado com Ana Botto de Oliveira, residentes em Santos; Georgina, casada com Francisco Pompeu Franco de Andrade; ele falecido; Narcisa, casada com Paulo Régis de Almeida; Inácio de Loyola faleceu com 1 ano. O nosso biografado casou-se em segundas núpcias com sua cunhada de nome Alodia, falecida, tendo desse matrimônio os seguintes filhos: Osvaldo, falecido, que foi casado com Nair Lopes dos Santos; Arnaldo, que se casou com Joana de Oilveira, falecidos; Manoel Pedro, casado com Angelina Romanelli de Oliveira, residentes em Santos; Wilson, casado com Elisa da Silva Oliveira; Noêmia, solteira; Jacinto faleceu solteiro, em São Paulo. Em terceiras núpcias, casou-se com Ester Godói de Oliveira, residente em Santo André; os filhos: Ida, casada com Osvaldo Batista; Ester, casada com Job Sapupo; Nelson, casado com Cacilda G. Oliveira.

Sua descendência: 33 netos, 73 bisnetos e 7 trinetos.

SEU FALECIMENTO

Com a saúde seriamente comprometida, buscou no clima de ille beirão Pires retempero para o mal que o afligia. Entretanto, nem og euldados médicos, tão pouco a desvelada assistência dos familiares impediram que chegasse ao fim, no llospital de Santo André, em 18 de junho de 1915, uma vida que durou 73 anos, em boa parte dedicados ao trabalho e ao bem-estar da família e de quantos podia o nosso blografado minorar os males. Foi sepultado no cemitério de Ribeirão Pires. 


EDISON TELLES DE AZEVEDO - Vultos Vicentinos. A Tribuna ,7-11-1971