segunda-feira, 8 de julho de 2019

MEMÓRIA DA MÚSICA

ANTÔNIO PEDRO DE JESUS

Fiho de Itanhaém e de uma família de artistas - um dos seis irmãos de Benedito Calixto - o maestro Antônio Pedro fixou residência em São Vicente na rua Martim Afonso em 1906, onde mantinha uma escola regular e também uma banda musical. Era docente e regente da celebrada Banda Infantil da Escola do Povo, sempre motivo de orgulho e histórica base educativa de futuros e destacados cidadãos. Depois dessa experiência que durou cerca de dez anos, o maestro foi residir em Jaboticabal e depois em Brotas, onde exerceu com destaque a suas atividades profissionais, sob a proteção do secretário da Câmara, seu irmão Joaquim Pedro. Faleceu em 1921

Coluna dominical do jornalista e memorialista Edison Telles de Azevedo no jornal A Tribuna em 1963.


BANDA INFANTIL

São Vicente possuiu numeroso conjunto musical infantil, denominado Banda de Música Infantil “Escola do Povo". Fundada em 1904, era mantida pela Sociedade Cívica e foram seus diretores os srs. Alexandre Lopes dos Santos e Jerônimo dos Santos Moura. O instrumental foi adquirido em São Paulo, por meio de subscrição entre o público vicentino.

O maestro Antônio Pedro de Jesus atendeu a convite para organizar e conduzir os meninos que integravam a banda. Composta de 25 executantes, uniformizados e com apreciável afinação, apresentou-se em numerosos concertos, quer aqui, no antigo coreto da praça Corone Lopes, quer em Santos, nas dependências do Miramar e nas praças Jose Bonifácio e dos Andradas. Muitas vezes a bandinha era solicitada a abrilhantar festividades cívicas, religiosas ou esportivas.

Sob a batuta do maestro Antônio Pedro, a banda musical dos meninos vicentinos conseguiu projetar-se no cenário artístico quando do concurso realizado em São Paulo nos dias 5 e 7 de se 1909. Patrocinada pelo Governo do Estado, foi instituída uma competição entre bandas musicais (1.2 e 2.a classes) no Jardim da Luz, concurso que tinha por finalidade demonstrar o adiantamento artístico dos concorrentes, além de reunir fundos para o erguimento, na Capital de uma estátua de Carlos Gomes.

Quatro peças deveriam ser executadas, sendo o Hino Nacional e a sinfonia de abertura de “O Guarani”. Honrando esse certame , compareceram, ao lado de sua família, o dr. Albuquerque Lins, vice-presidente do Estado, altas autoridades, representantes da Imprensa e grande massa popular. Das sete bandas de música de 1.a classe que concorreram no dia 7 (São Paulo com duas, Itu e São Roque com uma cada, e Santos com duas), a de São Vicente era a única infantil, classificando-se como vice-campeã. O primeiro lugar foi atribuído à Banda Humanitária, de Santos, sob a regência do maestro Patrício Soares. A Banda Infantil “Escola do Povo” foi premiada com diploma e medalha de prata, sendo festivamente recebida, no seu regresso a São Vicente.

Pena que a aplaudida banda musical tivesse que interromper, decorridos seis anos de vida, sua atuação, por motivo da mudança de residência, para a Capital, do sr. Alexandre Lopes dos Santos, seu principal colaborador administrativo e financeiro. Sem esse apoio, desaparecia aos poucos, depois de tantos esforços e conquistas, uma obra cultural que honrou sobremaneira a cidade. Para o maestro Antônio Pedro esse melancólico final desfez um dos mais prediletos enlevos de sua carreira artística. (Vultos Vicentinos).



O Maestro Antônio Pedro de Jesus  e a Banda Infantil da Escola do Povo


NILCE LASSALVIA



A belíssima e talentosa cantora lírica vicentina Nilce Lassalvia, destaque na capa da revista santista Flama, edição Novembro-Dezembro de 1952.

Pesquisa e colaboração de Waldiney La Petina, genealogista e Membro nº3 do CALUNGAH-Coletivo dos Historiadores de São Vicente.
Acervo digital da Biblioteca Nacional.


ORQUESTRA SINFÔNICA  E CORAL VICENTINO




A ORQUESTRA SINFÔNICA DE SÃO VICENTE E CORAL VICENTINO no encerramento do II Congresso de Municípios, em 1952, no salão do Ilha Porchat Clube, sob a regência do Maestro Azevedo Marques. A apresentação teve como destaque a pianista santista Stella Malvar e a soprano vicentina Nilce Lassalvia. O evento foi organizado por Silvio Correa da Silva e Zina de Castro Bicudo. A foto e a reportagem foi um registro da revista santista Flama. O texto da reportagem exaltava a vocação e sensibilidade cultural do prefeito Charles Dantas Forbes, que institucionalizou o coral e a orquestra como entidades artísticas da cidade. A revista destaca ainda que o prefeito pretendia reconhecer e oficializar o regente Azevedo Marques, célebre autor musical do Hino de São Vicente, com cargo efetivo desses dois núcleos musicais.

Pesquisa do genealogista Waldiney La Petina, Membro nº 3 do CALUNGAH-Coletivo dos Historiadores de São Vicente.


EDUARDO SOUTO





 A ESQUINA DA SAUDADE


(Da Sucursal de São Vicente)

Quem não se lembra, nas décadas de 20 ou 30, das valsas, cateretês, maxixes, tangos à moda brasileira, fox-trot e marchas carnavalescas de um cidadão chamado Eduardo Souto?

"Tatu subiu no pau/é mentira de mecê/lagarto ou lagartixa/isso sim que pode sê", é uma delas. e da campeã do carnaval de 1928? "Quando me lembro do meu tempo antigo/daquele tempo que passei contigo/daquele tempo que não volta mais/é que saudade que saudade me traz". Ou ainda da grande campeã do carnaval de 1932, de parceria com João de Barro: "Ô... Ô.... noi somo é memo do amô/moreninha querida/da beira da praia/que brinca na areia/por todo o verão/varia como as ondas do teu coração".

Se você não se lembra de nenhuma dessas músicas, certamente se recorda da melodia do Despertar da Montanha, também de autoria de Eduardo Souto, maestro e compositor que nasceu em São Vicente a 14 de abril de 1882 (há 90 anos) e falecia no Rio de Janeiro a 18 de agosto de 1942. Segundo o historiador-jornalista Édison Telles de Azevedo, em seus Vultos Vicentinos, desde menino Eduardo demonstrou incrível tendência para a música, o que levou seu pai, Guilherme Souto, filho do visconde de Souto, a transferir-se para a antiga Capital Federal. Aos 35 anos de idade, no máximo de sua produção artística, Eduardo Souto convergia para seu estabelecimento musical, na Rua do Ouvidor, 153, os compositores populares e eruditos da época.

Ainda segundo Édison Telles de Azevedo, "Eduardo Souto desempenhou os cargos de diretor artístico das gravações da Casa Edison (Discos Odeon e Parlophon), estimulando os novos valores. Foi o lançador de Almirante, como intérprete e, numa simbiose feliz, ligou a poesia de Noel Rosa à melodia de Oswaldo Cogliano (Vadico), parceria que se notabilizou através de numerosos sucessos. Foi idealizador do Coral Brasileiro, interpretado por famosas personalidades do mundo artístico, como Bidu Saião, Nascimento Silva, Zaira de Oliveira e tantos mais; foi paciente e incansável organizador de orquestras, que fizeram época. Regente e orquestrador de música sinfônica, realizou concertos no Rio e em São Paulo. Escreveu música para revistas, entre elas Zig-Zag, de parceria com o maestro Antônio Lago, com original de Bastos Tigre (1926)".

Esquina da Saudade 

Uma placa de metal meio gasta pelo tempo na parede de um bar na confluência das ruas Visconde de Tamandaré com Frei Gaspar, em frente ao portão da Vidrobrás, marca a "Esquina da Saudade", onde Eduardo Souto, já famoso, reunia os amigos junto à casa da pianista Mafalda Medeiros de Albuquerque para as serestas. Sua vinda a São Vicente era freqüente para rever os amigos e matar as saudades.

Por isso, nesta mesma esquina, na noite do dia 14, quando se comemoram os 90 anos de nascimento do autor do Despertar da Montanha, vai haver seresta à moda de Eduardo Souto. Dois violões de sete cordas, com Zeferido e Dédo; violão centro de quatro cordas, Jaime; flauta, Caetano; clarinete, Vidal; pandeiro, Miguel; surdo, Neguça; e reco-reco, Paulo, integram o Conjunto Velha Guarda, encarregado de reviver todas aquelas músicas gostosas: Viver... morrer... por amor; Evocação; A ternura do mar; Cacareco; Pemberé; O puladinho; Marabá; E a pobre guitarra morreu; Conheceu, Papudo?; Olhos brejeiros e tantas outras.

Por iniciativa do maestro Jesus de Azevedo Marques, diretor de Cultura Artística do Município, a Orquestra Vicentina de Concertos, o Coral da Santa Casa de Santos e o Conjunto Velha Guarda gravam dia 13 um tape na TV Record, programa Manoel de Nóbrega, a ser transmitido dia 14 em rede nacional. O filho e o neto de Eduardo Souto também participarão do programa, um ao piano e outro regendo a OVC em número especial. E o concurso? - Concurso Eduardo Souto, versando sobre a vida e a obra "desse compositor vicentino e que será realizado anualmente no mês de novembro, sob a supervisão da Diretoria de Cultura Artística do Município", é lei municipal proposta em agosto de 1968 pelo então interventor estadual Jorge Conway Machado, aprovada pela Câmara por unanimidade e ainda não cumprida. Este certame prevê a inscrição de estudantes do último ano dos cursos instrumentais mantidos por estabelecimentos de ensino musical sediados em São Vicente. Os trabalhos, em duas partes, uma versando sobre a vida e a obra de Eduardo Souto (contendo dados biográficos e referências de sua atuação artística em São Vicente, Santos e Rio de Janeiro), e outra fazendo análise de duas composições para piano, compreendendo tendência melódica, rítmica e harmônica contemporânea, e influência de escola, devem ser julgados por uma comissão de cinco membros nomeados pelo chefe do Executivo. Para os cinco primeiros trabalhos, prêmios em diplomas e obras literárias versando sobre a vida de compositor ou artista músico brasileiro.

A lei aí está e o momento é oportuno para ser cumprida. Afinal, São Vicente tem tão poucos filhos com a fama de um Eduardo Souto... ( A Tribuna, 9 de abril de 1972)




Eduardo Souto (o terceiro, sentado, da esquerda para direita) com sua orquestra de cordas durante uma apresentação surpresa para o Rei da Bégica em visita ai Rio de janeiro em 1920.