quarta-feira, 10 de julho de 2019

Á BOCA DO COFFRE - SÃO VICENTE EM 1909



RETRATO URBANO DE SÃO VICENTE- 1909 E 1910
FAMÍLIAS, RUAS, AVENIDAS, LARGOS, PRAÇAS E LINHA DE BONDE



TEXTO E PESQUISA

DALMO DUQUE DOS SANTOS

MESTRE EM COMUNICAÇÃO E CULTURA-BACHAREL EM HISTÓRIA

WALDINEY LA PETINA

GENEALOGISTA




CAPA E ARTE. Dalmo Duque dos Santos, releitura digital do bico de pena de Edison Telles de Azevedo. Vultos Vicentino, 1972.  Residência do Cel. Júlio Maurício (gravura acima) na esquina da Praça Bernardino de Campos (Praça das Lavadeiras) com a rua João de Souza ( antiga Travessa da Flôres). 




UM DOCUMENTO IMPORTANTE



Este documento faz parte do acervo da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo- ALESP. Um simples edital de chamamento de dívidas tributárias municipais que poderia passar despercebido aos olhos comuns, foi localizado num rotineira pesquisa genealógica, olhar específico que mudou totalmente o grau de importância dessa peça de arquivo.

São Vicente em 1909 era pequena e restrita ao que atualmente é somente a região central. O povoado tinha reduzido número de famílias e moradores, muitos com ascendência do período colonial, tendo algumas delas pisado em território brasileiro quando aqui desembarcaram na histórica expedição de Martim Afonso, iniciada um ano antes em Portugal. Encontramos também muitos sobrenomes estrangeiros, de técnicos e executivos do setor  comercial portuário e dos serviços das ferrovias e eletricidade que chegavam na região. 

No edital não constam apenas valores tributários e informações sobre a regularização dos débitos. Constam os nomes dos proprietários e moradores de 551 lotes em 32 logradouros (ruas e praças), membros das principais famílias da cidade. Era uma São Vicente ainda provinciana, recém liberta da condição de dependência política de Santos, com apenas dois núcleos de habitação insular: o centro e um pequena parte da orla. Na área continental predominavam os sítios distantes do Jauí, Praia Grande, Acaraú e Samaritá.  Hoje, na ilha e no contimente, São Vicente tem mais de  cinco mil ruas e praças distribuidas em 45 bairros.

Na lista de propriedades (terrenos e edificações) constam nomes e sobrenomes que sobreviveram através dos seus descentes e que também deram denominação às novas ruas que surgiram com a expansão de loteamentos urbanos.

Nesse início do século XX e da república, além dos estrangeiros, notadamente europeus que vieram trabalhar no comércio portuário, bem como os aristocratas paulistanos, é possível que entre esses nomes publicados no edital estejam membros do mais antigo povoamento aqui existente, fundado por degredados e náufragos no final do século XV. A expedição de Martim Afonso chegou num lugar que tinha nome europeu dado por Américo Vespúcio (São Vicente, 1502, na expedição de André Gonçalves) e também a denominação Tumyaru, a mais antiga de todas.

Observando cada dos nomes e logradouros, é possível redimensionar esses dados de identificação civil para fatos históricos, de significado e expressão muito mais ampla. Nessas informações simples revelam-se raízes, ligando e explicando as relações de causa e efeito entre o presente e o passado. 

Um outro aspecto desse documento é que ele atesta, por si só, a importância do patrimônio histórico, arquitetônico e urbanístico da cidade, já bastante danificado pela ação do tempo e também pelas ações descaracterizantes que ignoram o valor cultural dos logradouros e suas edificações antigas. Sabe-se que, apesar das muitas perdas e danos, São Vicente ainda conserva valiosíssimas peças e pontos geográficos a serem preservados e que testemunham  milênios de pré-história, o recente período pré-colombiano, bem como seus mais de cinco séculos de história de ocupação europeia e nacional. No subsolo da nossa área insular, onde a presença civilizatória europeia foi mais intensa, certamente há muitos vestígios materiais, verdadeiros tesouros à espera das pesquisas arqueológicas e paleontológicas que comprovam essa ocupação. Em cada rua e em cada esquina permanece viva a memória da vila mais antiga do Brasil, cheia de indagações, em busca de respostas sobre o nosso passado. 

Este é o papel da Genealogia e da História aqui reunidas nesta publicação e que poderá servir de fonte para muitas outras pesquisas e sínteses historiográficas.

Os autores


 

CHAMAMENTOS  E MODERNIZAÇÃO MUNICIPAL





Em 31 de outubro de 1909 o prefeito de São Vicente, Capitão Antão Alves de Moura, publicou em edital (arquivo da ALESP) um aviso aos proprietários de imóveis com débitos tributários de prédios e terrenos do perímetro urbano. Ele mesmo aparece na lista como dono de vários imóveis, convocando seus pares e propondo a regularização tributária “Á bocca do coffre”. Supomos que a rotina e o rigor da cobrança dos impostos provavelmente esteve suspensa por alguns anos em virtude de algum fato não revelado no edital, como por exemplo a recente mudança do regime, com a proclamação da república, 20 anos antes; ou então ao fato de São Vicente ter se elevado à categoria de cidade, também há apenas pouco mais de dez anos, o que pode ter causando uma incerteza nos contribuintes e confusão na organização fazendária local; ou ainda, como sempre foi de costume, o atraso proposital dos devedores, que esperavam acumular os débitos para depois negociar um parcelamento, um desconto mais vantajoso ou até mesmo uma anistia de multa, como consta no edital.

O BRASIL E O MUNDO DA ÉPOCA

As cronologias afirmam que 1909 foi um ano comum. Todavia, no plano internacional, as nações industrializadas já estavam divididas em duas grandes alianças antagônica, lideradas pela Inglaterra (Entente Cordialle) e pelo império alemão (Tríplice Aliança), vivendo o tenso período de "paz armada". Cinco anos depois explodiria a sangrenta I Guerra Mundial, da qual o Brasil não participou diretamente e até se beneficiou com a instalação de indústrias estrangeiras no país. É nessa época que São Vicente vai receber diversas famílias europeias, fugindo de crises econômicas e do próprio conflito que se anunciava. Algumas dessas famílias já viviam na cidade em função de atividades portuárias e ao comércio do café. E algumas outras que imigraram, se tornaram vicentinas que foram habitar a chamada Vila dos Estrangeiros, próxima à orla do Itararé. E havia um bom motivo para isso.

A ilha de São Vicente e seu entorno regional ainda vivia os primeiros anos da República Velha, nos quais as autoridades e personalidades políticas locais exibiam garbosamente seus títulos de bacharelado ou então da velha Guarda Nacional do Império, mantida pela nova aristocracia civil republicana. Os títulos de capitão e coronel eram os mais comuns, destinados aos chefes provincianos mais destacados e fiéis ao poder central. Essas eram as bases e ferramentas de perpetuação da aristocracia rural no poder após a queda da monarquia: política do café com leite (supremacia de São Paulo e Minas); Convênio de Taubaté (protecionismo alfandegário e cambial de exportação e socialização das perdas, quando a sociedadee arcava com os prejúizos dos exportadores); política dos governadores, acordos na sucessão presidencial, nos estados e nas cidades; e finalmente, na base das bases, o voto aberto, controlado e manipulado nos pleitos eleitorais (coronelismo e voto de cabresto).



Em 1909 Brasil era governado por Nilo Peçanha (foto acima), elevado ao cargo após morte do presidente Afonso Pena. Seu mandato foi exercido entre 14 de junho de 1909 e 15 de novembro de 1910. Era maçom e seus seguidores tinham o apelido de “niilistas”.

A província de São Paulo era governada por Manuel Albuquerque Lins, do famoso PRP-Partido Republicano Paulista, tendo exercido seu mandato entre 1 de maio de 1908 a 1 de maio de 1912, “presidente eleito em comícios populares”. Lins era alagoano, advogado, foi juiz, vereador, era casado como uma filha da família aristocrática rural dos Queirós; foi senador por São Paulo e fazendeiro capitalista. Governou São Paulo no ápice das exportações de café, tendo realizado notáveis obras de construção civil e institucionalizações na Capital e no interior.


A Chapa Rui Barbosa/Albuquerque Lins em 1910

Em 1907 estáva sendo concluída a primeira obra sanitária de Saturnino de Brito na região: o canal 1, hoje avenida Pinheiro Machado. Santos era uma cidade insulabre e muito vulnerável a doenças infecto-contagiosas. Na última década do século XIX  mais da metade da população da cidade faleceu por causa da febre amerela, afentando também apopulação de São Vicente.  No início do século seguinte foram mais de seis mil mortes. O porto era a principal porta de entrada de uma onda de doenças que se alastravam rapidamente devido clima tropical e a falta de estrurura santinária. As famílias mais abastadas que tinha negócios em Santos  moravam em São Paulo ou se refugiavam em chácaras em São Vicente, que tinha um clima mais ameno, poucos habitantes e longe do contato dos bairros alagadiçõs próximos da área portuária.   Saturnino Brito passa a comandar a comissão de saneamento, projetando os canais  e o duto de esgoto que seria lançado na Ponta do Itaipu em Praia Grande. A Ponte Pênsil teria como função sustentar o duto sanitário na passagem da ilha para o contimente.

A vizinha cidade portuária de Santos, que divide com os calungas a Ilha de São Vicente desde 1540, era governada pelo Intendente Coronel Carlos Augusto Vasconcelos Tavares. A intendência e vice intendência foram cargos da modernização republicana de 1891, que corresponderia depois aos cargos de prefeito e vice. Em São Vicente, o Capitão Antão Alves de Moura era na verdade Intendente, entre 1906 e 1915. Ele atuava como mandatário através da Câmara Municipal, tendo como pares os vereadores Theotônio Gonçalves Corvello, Salvador Malaquias Leal, Joaquim José Leite, Alberto Martins de Oliveira e Antônio Militão de Azevedo.



Theotônio Gonçalves Corvello, Salvador Malaquias Leal,  Alberto Martins de Oliveira. Bico de pena de Edison Telles de Azevedo. Vultos Vicentinos.


Este foi um período no qual a Província de São Paulo vivia uma nova interiorização ou onda de desmatamento,  fenômeno de expansão econômica pelas ferrovias; a criação de centenas de municípios no interior e no litoral, em função dos negócios regionais; e a criação de linhas-ramais e estações ferroviárias denominadas “patrimônios”.

São Vicente vinha recuperando gradualmente a sua autonomia (submetida juridicamente a Santos) ainda no século XIX, quando foi elevada à condição de cidade pela lei municipal de 31 de dezembro de 1895, tornando distrito-sede em 1911. Era a intenção de de alguns grupos políticos Santos anexar definitivamente o território vicentino, unificando territorialmente a ilha. Mas sempre houve forte resistência dos vicentinos mais antigos, apesar das ações favoráveis de alguns moradores, principalmente os que trabalhavam na cidade vizinha.

A moeda corrente em 1909 era o Mil Réis (Rs), criada por Pedro II em 8 de outubro de 1833 e mantida em vigor a 31 de outubro de 1942. Rs 2$500 equivalia a 1/8 de ouro de 22K. Segundo da revista Veja SP ( de 27/11/2017) “A partir da Proclamação da República, a moeda continuou sendo o real, com a emissão de novas cédulas. Mil réis era praticamente o nome da moeda, já que ela valia mil dos antigos reais do império”.

O novo sistema cartorial republicano modernizou e estabeleceu regras para criação novas cidades. O edital publicado e assinado por Antão Alves de Moura e Antônio Augusto Rios Carneiro, respectivamente “prefeito municipal” e “official da secretaria”, tinha como objetivo legitimar e manter o novo status quo político-territorial. Essa medida era vital para preservar a autonomia do município. As publicações legais atestavam publicamente a perfeita sintonia com os quatro itens exigidos na lei para obter a elevação e a organização das novas municipalidades:

“A Lei 1.038 de 1906, que tratou da organização dos municípios, estabeleceu condições para os distritos solicitarem a elevação. Além de uma população mínima de dez mil habitantes, seria necessário:

"a) ter a séde do novo municipio pelo menos cem predios bons, população minima de mil habitantes e estar situada em local de facil saneamento;

b) ter predios para a municipalidade, duas escholas (uma para cada sexo) e cadeia publica;

c) preceder representação dos habitantes da zona, ao Congresso, solicitando esse beneficio;

d) prova de que a zona destinada a novo municipio produz, de impostos expressamente auctorizados por esta lei, uma renda nunca inferior a vinte contos de réis annuaes."

(As cidades do interior de São Paulo no início do século XIX- Exposição Cenários. ALESP www.al.sp.gov.br/cenarios/linha-do-tempo/republicavelha.html)

 


Capitão Antão Alves de Moura


Foto: Impressões do Brazil no Século Vinte, 1913 (página 716).



Nasceu na cidade de Penafiel, Portugal, a 28 de dezembro de 1865. Veio para o Brasil com 17 anos, na companhia dos seus irmãos Antero e Adão. Comerciante e político, prestou grandes serviços à coletividade vicentina Participou não só na criação, como no levantamento do edifício da Escola do Povo. Por serviços prestados durante a Revolução da Armada, recebeu do presidente da República, Floriano Peixoto, a patente de capitão honorário do Exército brasileiro. O Legislativo vicentino contou com a sua participação, desde 1900, como vereador, primeiro-secretário da Câmara. Como participante da Comissão de Obras Públicas, Poderes e Justiça e Contas, teve atuação positiva nos problemas como a Lei da Pena D'Água, Instalação da Luz Elétrica, e sobre o caso das Vertentes do Voturuá. Com o afastamento simultâneo do presidente e vice-presidente da Câmara, Antão Alves de Moura foi conduzido à presidência. No triênio 1905-7, foi elevado ao cargo de vice-presidente. Em 1906 foi o intendente de São Vicente. Nesse cargo dá mostras de grande administrador, com a instalação da Ponte Pênsil, prolongamento até São Vicente da linha de bondes, serviço de canalização de água, ampliação das instalações elétricas, a abertura da estrada de Praia Grande, e na comunicação pela praia, com Santos, e outros melhoramentos. Faleceu em Santos em maio de 1931, com 66 anos de idade.

Vultos Vicentinos. Edison Telles de Azevedo, 1972. Revista dos Tribunais.


SÃO VICENTE MORREU E RESSUCITOU 

A pequena vila de São Vicente do prefeito Antão Alves de Moura não era  a mesma dos tempos afonsinos. A vila que ele e seu irmão Antero e Adão encontraram quando imigraram de Portugal no final do século XIX já havia falecido em todos os aspectos de minicipalidade . O declínio vicentino havia levado a vila à uma condição de profunda decadência urbana, praticamente sem vida e destinada à morte caso não tivesse sido alvo de interesse de estrangeiros que perceberam seu potencial turistico-bucólico tão em moda e à gosto dos europeus cansados das metrópoles fétidas e sanitariamente perigosas. São Vicente, que havia morrido no final do século XVIII,  ressucitou milagrosamente um século depois, reconstruída lentamente, como num trabalho de jardinagem e paisagismo natural.  

A lendária moradia de Martim Afonso fotografada durante uma visita de Pedro II a São Vicente. Nela aparece um dos seus netos.  A casa foi descrita pelo vice-presidente de São Paulo num verbete do Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, em 1885 

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Relatório do Dr Joaquim Antônio Pinto Júnior – vice-presidente da Província de São Paulo-1885


"A pequena villa de S. Vicente que conheci desde 1829, e que tive a ocasião de visitar muitas vezes durante os 40 anos que residi naquella bella província, era então a aglomeração de pequenos casebres, mal construídos, e quase em completa ruína, tendo apenas uma rua regular, a que passa pela frente da igreja matriz, e essa mesma com poucas casas e n mesmo estado de ruína. Hoje ela está dividida em quarteirões regulares, tendo ruas espaçosas, e em todas ellas se notão modernas, seguras e elegantes casas, pintadas no gosto moderno e forradas de papel, tendo algumas na frente lindíssimos alegretes e jardins.

A rua do Porto é uma sequência de casas todas novas e mais ou menos elegantes.

Há em São Vicente, na rua que passa por detraz da igreja matriz, um pequeno prédio despido de todo o reboco, quase em pedra seca, fendido e partido no ângulo frontal direito pelas raízes de uma figueira brava que ali nasceu; este prédio, cuja porta é estreita e baixa, cujas janellas não têm mais de 3 palmos de altura e 2 de largura, affirma a tradição que fora a residência do primeiro capitão-mó de S. Vicente. Quizera que a civilizasão moderna respeitasse este monumento da antiguidade, e o conservasse intacto para servir de contraste com as modernas habitações; à porta desta casa, se tal nome se lhe pode dar, estava sentada uma parda velha cercada de creanças, a qual não se não tem mais de 100 annos, deve andar por muito perto delles (1).

- Quer vender esta casa, senhora? Perguntei-lhe eu.

- Não, senhor (respondeu-me Ella com mau modo). Esta casa não se vende!

“ Os arrabaldes de S. Vicente, são agradáveis, e encuntrão-se a pequena distancia curraes de peixe e estabelecimentos de pesca a qual é ali abundantíssima.

“As montanhas próximas da vila, de esplendido verde esmeralda, de uma primavera continua, estão cobertas de saboroso palmito conhecido pelo nome de gerivá, e de outro não menos saboroso, porém amargo, denominado guariroba, além do palmito commum, chamado palmito doce; as várzeas são ricas de baunilha, bem coo são as da praia de Embaré, mais conhecidas por praia da barra, e encontrão-se nella as mais lindas e variadas Orchideas (parasitas), principalmente Cattlexas e Oncidenms de um esplendor admiravel, incluindo nesse número a tão estimada Clattexa Labéata, oriundo do Brazil e a que o Dr. Lendley dá tão merecidamente o título de Rainha da Orchuidéas”.

A familia das Bromelaceas é ali numerosa e variada, desde o Ananaz bravio, ostentando os mais vistsos fructos, até os mais delicados exemplares simulando artefactos de tartaruga.

Em 1854, segundo o relatório do vice-presidente da província o Dr. Antonio Roberto de Almeida, era a população d município de S. Vicente de 669 almas livres e escravos 297; e segundo o ultimo recenseamento geral do Imperio, em 1871, era a população de 1569 almas, sendo livres 1370, escrvos 198.

Prepara-se a camara municipal do atual quatriennio para emprehender o recenseamento da população do seu município.

S. Vicente tem uma igreja, a Matriz da Villa.

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(1) Maria da Cruz, falleceu em outubro de 1883 tendo 93 annos de idade, entretanto que lhe davão a de 104 anos.

Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro 1885


RUÍNAS da Casa de Pedra de Martim Afonso. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra6211/ruinas-da-casa-de-pedra-de-martim-afonso. Acesso em: 28 de agosto de 2021. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7 


A VILA DE SÃO VICENTE EM 1870



A vila afonsina, naquela época, tinha um precário meio de conducão entre Santos e São Vicente: o "troyle” e a "caleça", que transitavam pela praia, via “Boqueirão da Barra", ou pela velha Estrada Provincial (Caminho de Dentro), que passava pelos sítios dos Erasmos (Engenho dos Erasmos), Taxinho, São Jorge, Voturuá e Caneleira.

A Vila de São Vicente, que ainda conservava as suas características coloniais, era constituída apenas pelas seguintes vias públicas: rua Direita (hoje rua 15 de Novembro), uma via estreita com um punhado de casas, com grandes beirais, portas e janelas toscas; Largo da Matriz (ex-Largo Santo Antônio, hoje praça João Pessoa), onde se achava erigida a “Casa da Câmara e Cadeia” e vestígios das ruínas do “Convento de Santo Antônio", que nos tempos coloniais serviu de "Casa do Conselho"; rua do Porto (hoje rua Marquês de São Vicente), onde residia a maioria dos pescadores; rua da Praia (hoje rua Padre Manoel), que atravessava a atual praça 22 de Janeiro, terminando no jundu, no canto da Biquinha; rua dos Velhacos (ex-rua Conselheiro Nébias, hoje rua do Colégio). A histórica Biquinha, que também era chamada "Fonte dos Jesuítas”, já fornecia à população vicentina água potável, e ao lado esquerdo havia uma outra nascente em forma de cachoeira, onde as famílias mandavam suas escravas lavar a roupa branca. A água era fornecida à população mais abastada, por uma pipa, conduzida em carroça, sendo vendida a três vinténs cada barril. O líquido, entretanto, jorrava dia e noite, à disposição dos interessados.

Naquele tempo, poucas eram as famílias de destaque que moravam em São Vicente; existiam apenas duas escolas primárias: uma de ao sexo feminino, instalada na sacristia da Igreja, regida pero Antonio Santana, então vigário da paróquia; a outra, para o masculino, instalada num velho prédio na então rua da Praia Padre Manoel), regida pela professora d. Mafalda, irmão do mestre Tomaz Antônio de Azevedo, pai de Antônio Militão de Azevedo nosso saudoso genitor). Edison Telles de Azevedo. Vultos Vicentinos.


SÃO VICENTE EM 1873


(...) A vila de S. Vicente decaiu completamente depois que fundou-se a de Santos, e a sua população hoje é de 805 habitantes. A sua dificultosa barra concorreu para que parte de seus primeiros habitantes a abandonassem. Possui uma igreja com a invocação de S. Vicente, em péssimo estado, assim como uma cadeia que serve de casa de Câmara, que ainda não está concluída. Tem uma fonte mal preparada, porém de água excelente. Tem duas aulas de primeiras letras, uma para o sexo masculino e outra para o feminino. Depois da morte do pároco, padre Manoel da Ascenção Costa, ficou sua igreja sujeita à freguesia de Santos.

Nenhum comércio tem, e sua lavoura é quase nula. Abunda ali muito peixe e algumas frutas. Em homenagem às suas tradições históricas tem-se-lhe conservado a categoria de vila. sua população, além de ser diminuta, é disseminada pelos sítios, de modo que falece o pessoal habilitado para os empregos públicos. Durante a estação calmosa a decadente povoação se anima pela concorrência das pessoas que de Santos e mesmo do interior da província ali vão gozar de seu ameno clima e fazer uso dos banhos do mar. Ao entrar o inverno, os visitantes a abandonam e a decrépita vila volta à vida própria e triste de sempre.

Câmara Municipal -Presidente - João Marcellino de Azevedo.Vereadores – Joaquim Antonio da Luz. José Marcellino de Camargo. Manoel Pedro de Almeida. Fernando José Augusto Bittencourt. Antonio Gonçalves da Silva. Americo Marcellino Rodrigues.Secretário - Indalecio Constancio Ferreira.Procurador - Antonio Gonçalves de Freitas.Fiscal - Antonio Gonçalves da Silva.Porteiro - Bento Antonio Marcellino.

Instrução primária. Inspetor -Professor público - Indalecio Constantino Ferreira.Professora pública - D. Mafalda Virginia das Dores.

Vigário- ......... Os sacramentos são administrados pelo vigário da cidade de Santos. Igreja - Matriz, sob a invocação de S. Vicente.Sacristão - Indalecio Constancio Ferreira. Irmandades - Santíssimo Sacramento. Nossa Senhora do Amparo. Nossa Senhora do Rosário.

Subdelegado - Arlindo José das Neves.Suplentes - 1º, Joaquim Manoel das Neves; 2º, Manoel Antonio das Neves. 3º, José Marcellino de Camargo.Escrivão - Damaso Maria Gomes.Juízes de paz - Arlindo José das Neves. João Baptista Passos. José Francisco Pinheiro. Bento Antonio dos Santos.Escrivão - ...............Oficial de justiça e carcereiro - Martiniano Gonçalves da Silva.

Eleitor da freguesia - tenente Arlindo José das Neves.

Proprietários capitalistas - Manoel Teixeira da Silva. Antonio José da Silva Bastos. Tenente-coronel Bento Thomaz Vianna. 

Negociantes - Tenente Arlindo José das Neves. João Marcellino de Azevedo. Luiz da Costa Sol. Lino de Araujo. Joaquim da Silva Soares. Joaquim Leite.

Hotel - de João Marcellino de Azevedo.

ALMANAK DA PROVÍNCIA DE S. PAULO- organizado e publicado por Antonio José Baptista de Luné e Paulo Delfino da Fonseca, com impressão na Typographia Americana, da capital paulista


SÃO VICENTE NO INÍCIO DO SÉCULO XX



Fotografia de São Vicente em 1903, feita do alto do Morro do Barbosas pelos membros da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo. 


A Igreja Matriz - em frente ao Largo Batista Pereira e rua XV de Novembro - como destaque de uma pequena vila ainda com ares da época colonial, com casas na área central e chácaras nos arredores. No canto abaixo à esquerda ainda estava o pelourinho colocado por Martim Afonso e depois levado para Museu Paulista por Benedito Calixto, que temia pelo desaparecimento. Ao seu lado está os fundos da Câmara e Cadeira Municipal, demolida paradarlugarao Mercado Municipal em 1929. À direita a casa do Barão de Paranapiacaba ( na rua e atual Casa Martim Afonso). Benedito Calixto e seu filho Sizenando Calixto fizerem um registro fotográfico numa perspectiva oposta dessa imagem,  a partir da rua Martim Afonso, aqui ilustrada no capítulo 8

O fundo da foto registra uma vasta área ainda desocupada, compreendendo os charcos do Catiapoã, os sítio do Bugre e Guassu, o sítio Itararé, ao fundo e à direita da foto, pertencia à José Francisco Valença, cujas terras se estendiam até a antiga divisa com Santos (atual avenida e canal Jovino de Melo). Parte delas foram doadas em inventário para a Santa Casa de Misericórdia de Santos dando origem aos loteamentos: Vila Valença, Vila Melo, Jardim da Misericórdia (Independência), Vila Voturuá e Vila São Jorge. Era uma época que a natureza ainda imperava sobre a civilização industrial e a densidade urbana. São Vicente possuía uma orla quase selvagem, desabitada; e nos arredores da vila, extremos da da ilha e na parte continental serrana havia a plenitude milenar da mata atlântica. Mais de 40 rios brotavam de nascentes e corriam livremente em várias direções antes de serem canalizados e asfixiados pelos sistemas de esgotos e galerias pluviais. 

IMPRESSÕES DO BRASIL E DE SÃO VICENTE


"São Vicente fica pitorescamente situada na parte sudoeste da baía de Santos e o seu litoral é recortado por pequenas baías naturais cujas praias oferecem excelentes condições para banhos de mar. A pequenina cidade é hoje mais um bairro de moradia do que um centro comercial e o seu futuro desenvolvimento se operará neste sentido, visto estar ligada a Santos por duas linhas de tramways elétricos; em breve terá também o serviço da Southern São Paulo Railway. Na área municipal de São Vicente, a população é calculada em 10.000 habitantes, dos quais 5.000 residentes da cidade.

A administração pública é exercida pelas autoridades municipais legalmente constituídas: compreendem estas o prefeito e cinco conselheiros. A soma despendida nos serviços administrativos anda aproximadamente em Rs. 78:000$000 anuais. Desta soma, Rs. 4:000$000 são gastos com a higiene e saúde pública; Rs. 6:000$000 com a instrução (a Municipalidade mantém 4 escolas, além das 4 estaduais); Rs; 15:000$000 com a iluminação; sendo a maior verba a de luz elétrica fornecida pela City of Santos Improvement Co. Ltd. e Rs. 14:000$000 são gastos com diversas obras públicas. O sistema de esgotos será em breve melhorado, devido às obras em andamento, executadas pela Comissão de Saneamento do Governo Estadual.


Travessia do Japui. Benedito e Sizenando Calixto. Início da década de 1910. Garagem náutica do E.C. Tumyaru. Museu Paulista.


Os membros da municipalidade no ano corrente são os srs. capitão Antão Alves de Moura Penteado, prefeito; coronel Evaristo Machado Netto, presidente da Câmara; major Salvador Leal, vice-presidente; major Antonio Militão de Azevedo, 1º secretário; Alberto Martins de Oliveira, 2º secretário; e dr. Magino da Silva Bastos, vereador.

O capitão Antão Alves de Moura é prefeito de S. Vicente desde 1905. Dois anos antes, fazia parte da Câmara, como vereador. Foi nomeado capitão da Guarda Nacional em 1893 e exerceu o cargo de chefe de polícia durante 11 anos. O capitão Moura pertence ao Partido Republicano Paulista. Veio de Portugal há cerca de 30 anos; e negocia em S. Vicente, desde 1888. O sr. Machado Netto foi eleito vereador em 1910. É sócio da casa comissária de J. Machado & Cia. estabelecida em Santos.

O major Leal foi eleito intendente municipal em 1904 e foi presidente da Câmara em 1906-10. Há muitos anos é oficial da Guarda Nacional. O major Azevedo por muitos anos foi inspetor literário e, depois de exercer o mandato de vereador por 3 anos, foi eleito 1º secretário. O sr. Oliveira é 2º secretário desde 1908. O dr. Bastos entrou para a Câmara em 1911. É bacharel em Letras pela Faculdade de Direito de São Paulo". 

Impressões do Brazil no Século Vinte.  Lloyd's Greater Britain Publishing Company, Ltd. 1913


FORMAÇÃO ADMINISTRATIVA DE SÃO VICENTE


 
BRASÃO DA CAPITANIA DE SÃO VICENTE NA CONCEPÇÃO DE BENEDITO CALIXTO


Antiga povoação fundada em 22-01-1532.

Elevado à categoria de vila com a denominação de São Vicente, por Carta Régia de 20-11-1532.

Elevada à condição de cidade com a denominação de São Vicente, pela Lei Municipal n.º 31, de 31-12-1895.

Elevado à condição de sede municipal, por Carta Régia de 29-10-1700.

Em divisão administrativa referente ao ano de 1911, o município é constituído do distrito sede.

Assim permanecendo em divisões territoriais datadas de 31-XII-1936 e 31-XII-1937.

Pela Lei Estadual n.º 233, de 29-12-1948, é criado o distrito de Solemar (ex-povoado) e anexado ao município de São Vicente.

Em divisão territorial datada de 1-VII-1950, o município é constituído de 2 distritos: São Vicente e Solemar.

Assim permanecendo em divisão territorial datada de 1-VII-1960.

Pela Lei Estadual n.º 8.092, de 28 de fevereiro de 1964, transfere o distrito de Solemar do município de São Vicente para o de Praia Grande.

Em divisão territorial datada de 1-I-1979, o município é constituído do distrito sede.
Assim permanecendo em divisão territorial datada de 2009.
Fonte: IBGE



VILA DE SÃO VICENTE TORNA-SE CIDADE 363 ANOS DEPOIS DE SUA FUNDAÇÃO~




Mesmo sendo a primeira vila do Brasil, aquela que foi a primeira em tudo – ou quase tudo – berço da democracia nas Américas, da Justiça brasileira, nascedouro da primeira milícia, da agropecuária, da indústria nacional, da produção de vinho, do primeiro trapiche alfandegado e estaleiro naval e muito mais no século 16, São Vicente só veio a ser elevada a categoria de cidade em 31 de dezembro de 1895, 56 anos depois de Santos ter alcançado essa posição.

No regime imperial, o título de cidade era outorgado pelas Câmaras Provinciais por circunstâncias especiais, ou, em alguns casos, para homenagear determinadas vilas. São Vicente, acima de qualquer outra vila brasileira, deveria ter sido distinguida muito antes com o título de cidade, em razão de todos os seus pioneirismos históricos, lamentavelmente, foi preterida. Com o advento da República, a Constituição de 1891 alterou o conceito de cidade. O título passou a ser de direito à comunidade que tivesse suas atividades comerciais independentes, com plena prestação de serviços locais, religiosos, médicos, educacionais, etc. ou sede de município. Portanto, elevação à cidade era um estado de grandeza e de progresso.

A Câmara de São Vicente, em 28 de dezembro de 1895, com a presença dos vereadores Cel. Julião Caramuru, Cel. José Lopes dos Santos, Hermann Reipert e Antonio Emmerick – intendente municipal (prefeito) – aprovou a seguinte proposição do vereador Hermann Reipert:

Considerando que a vontade popular, tratando-se do interesse geral, deve ser atendida porque ela é soberana; considerando que o povo enviou a esta Câmara em 15 de novembro deste ano um abaixo-assinado para que esta Vila de São Vicente fosse elevada à categoria de cidade; considerando que em virtude do artigo terceiro da Constituição do Estado nada há que contrarie os desejos da população deste lugar, proponho que esta Câmara, em sessão de hoje, eleve esta Vila de São Vicente à categoria de Cidade decretando a seguinte lei:

A Câmara Municipal de São Vicente, usando das atribuições que a lei lhe confere, decreta:

Artigo 1 – Fica elevada à categoria de cidade de São Vicente a atual Vila do mesmo nome.

Artigo 2 – Revogam-se as disposições em contrário.

Aprovada por unanimidade, a lei nº 31 foi promulgada na sessão de 31 de dezembro daquele mesmo ano.

São Vicente caminhava para uma nova era. Já tinha ligação com Santos por meio de trem a vapor, contava com seu próprio cemitério (erguido em 1887), seu próprio matadouro (construído em 1891) e cada vez mais estrangeiros e santistas fixavam residência aqui. Caminhava-se para ver abolido o uso do lampião a querosene, dando lugar a energia elétrica, o que aconteceu em 1905.


Boletim do IHGSV.
 

Planta de Saneamento de 1895 mostra o rio Itararé, próximo ao morro e que provavelmente tenha sido canalizado da avenida Monteiro Lobato. O mesmo aconteceu com o Rio São Jorge, na direção de Santos.


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NEGÓCIOS E NEGOCIANTES 


Prédio original da Padaria Rio Branco, rua XV de Novembro esquina com a rua 13 de Maio. Imagem sem data. Acervo do IHGESV.


O Indicador Santista, de 1885,   página 448, listou as principais atividades de indústria, comércio e serviços:

Fábrica de cal - Jorge Avelino, na Fazenda das Palmeiras.

Fábrica de aguardente - António Teixeira de A. Bastos; Fernando José Augusto Bittencourt.

Ferro Carril - Empresa Emmerich & Ablas.

Rink Vicentino - propriedade de uma associação particular.

Tavernas 

Antonio de Lima Machado, Rua do Imperador; 

Arlindo José das Neves, Rua do Imperador; 

Abel Soeiro Sarmento, Largo do Baptista Pereira; 

Carneiro & Lascazas, Rua Jacob Emmerich; 

Francisco José da Silva, Rua do Imperador; 

Francisco Lapetina, Rua do Marquez de S. Vicente; 

José dos Santos Neves, Rua do Marquez de São Vicente; 

José Antonio Fernandes Guimarães, Rua do Imperador; 

João Marcelino de Azevedo, Largo de Baptista Pereira; 

Joaquim Leite Rabello, Rua do Marquez de S. Vicente; Lino de Araújo Santos, Rua do Imperador.

Lojas de fazendas 

Antonio Ritz, Rua do Imperador; 

Carneiro & Lascazas, Rua de Jacob Emmerich; 

José Antonio Fernandes Guimarães, Rua do Imperador.

Bilhar

Antonio José Monteiro Torres, largo de Baptista Pereira.

Pharmacia

José Ignácio da Glória, Largo de Baptista Pereira.

Padarias

João Hourneaux, Rua do Imperador; José Ricére, Rua do Imperador.

Sapateiros 

Domingos Naiveze, Rua do Marquez de S. Vicente; Luiz Attilio, Largo de Baptista Pereira.

Açougues

Domingos Naiveze, Largo de Baptista Pereira;

 Henrique Ablas (Herança), Rua de Jacob Emmerich.


Botica do Glória, Largo Batista Pereira. Bico de pena de Edison Telles de Azevedo.

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 A Câmara Municipal de São Vicente publicou em 1903 um relatório e registro denominado "Comércio, profissão e indústrias" constando os principais estabelecimentos. Nessa lista Antão de Moura aparece diversas vezes como proprietário de negócios. 

Os nomes que aparecem nesta publicação e no Indicador Santista de 1885, em sua maioria, são os mesmos que aparecem no edital  do prefeito Antão de Moura em 1909. Alguns estabelecimentos constam com endereço no "Porto dos Reis", bairro localizado na área contimental lado orla que corresponde ao Japui e Porto do Rei em Praia Grande, onde existiam  propriedades e comerciante de produtos agrícola


Frontaria da antiga Casa Requejo, vendo-se o proprietário Ignacio Gonzalez Requejo, o seu guarda-livros Lafayette de Oliveira, e populares, Foto: Vultos Vicentinos - Subsídios para a História de São Vicente, de Edison Telles de Azevedo (impresso na Empresa Gráfica Revista dos Tribunais S.A. - S.Paulo/SP), São Vicente/SP, 1972


Açougues  

Chrispim Simões, Largo Baptista Pereira; Chrispim Simões, Rua Martim Affonso; 

Paulino Alves de Oliveira, Largo Baptista Pereira.

Alfaiates 

Francisco Molinari, Rua 15 de Novembro; 

Luiz Flausino, Rua 15 de Novembro; 

Vicente Gil, Rua Frei Gaspar.

Barbeiros 

José Serra, Rua 15 de Novembro; 

Manoel da Costa, Rua 15 de Novembro, 37.

Bilhares - Antão de Moura, Rua Martim Affonso, 30-32; Ricardo Requejo, Rua 15 de Novembro.

Botequins

 A. Fernandes, Rua Martim Affonso; 

Antão de Moura, Rua Martim Affonso, 30-32; 

Antonio H. Ferreira, Rua 15 de Novembro; 

Antonio Ramos Junior, Rua Marquez de S. Vicente; 

Manoel José da Silva Junior, Rua Visconde Tamandaré; 

Ricardo Requejo, Rua 15 de Novembro; 

Rodrigues & C.º, Rua Martim Affonso.

Calçados 

Antonio Alves Gonçalves, Rua 15 de Novembro; 

Francisco Tochi, Rua 15 de Novembro.

Charutaria

João Richetti, Rua 15 de Novembro.

Constructor 

José Vidal, Rua Martim Affonso.

Fazendas e armarinho 

 A. L. Ritter, Rua 15 de Novembro; 

Antonio João José, Rua Marquez de S. Vicente; 

Antão de Moura, Rua Martim Affonso, 30-32; 

Joaquim Alves Bexiga, Rua Padre Manoel Aguiar, 6.

Louça 

Antão de Moura, Rua Martim Affonso, 30-32.

Officina Encyclopedica 

Joaquim Dias Bexiga, Rua Padre Manoel Aguiar, 6.

Officina Mechanica , Ferreiro e Serralheiro 

Antonio Nunes, Rua Ypiranga.

Versão arquitetônica  dos anos 1950-60 da legendária e ainda atuante Panificadora Rio Branco na rua XV de Novembro esquina com a 13 de Maio. A padaria teve vários proprietários e sócios, entre eles o pioneiro português José Cruz Leite.  O prédio original, juntamente com seus vizinhos (incluindo o orfanato e depois educandário São Gabriel) sofreram descaracterização com reformas e revestimentos de cerâmica. Foto: São Vicente de Outrora.


Padarias 

 Agostinho Pereira Pinto, Rua 15 de Novembro; 

Annunciado Silvidio, Rua Marquez de S. Vicente; 

Antonio Plotow, Rua Frei Gaspar; 

Emílio Horneaux, Rua 15 de Novembro; Couto & Costa, Rua 15 de Novembro;

Paulino Alves de Oliveira, Largo Baptista Pereira.

Pharmacias 

Arthur Augusto Pereira Magalhães, Rua 15 de Novembro; 

José Ignacio da Gloria, Rua Jacob Emmerich.

Restaurantes 

Antonio H. Ferreira, Rua 15 de Novembro; 

Ricardo Requejo, Rua 15 de Novembro.


Mercearia" existente na Rua Frei Gaspar no local onde hoje está situado o Centro Comercial Gonzaguinha no ano de 1930, de propriedade do Sr.Adão e do Sr.João Maria Horta. Acervo do IHGSV.

Seccos e Molhados 

 A. Fernandes, Rua 15 de Novembro; 

Agostinho Pereira Pinto, Rua 15 de Novembro; 

Antão de Moura, Rua Martim Affonso, 30-32; 

Anthero Alves de Moura, Porto dos Reis; 

Antonio Ferreira da Costa, Rua 15 de Novembro; 

Antonio P. de Amorim, Rua Martim Affonso; 

Antonio Roque, Rua Visconde Tamandaré; 

Costa & C.ª, Porto dos Reis; 

Francisco Lapetina, Rua Visconde Tamandaré; 

Ignacio Requejo, Largo Baptista Pereira; 

Joaquim José Leite, Rua Marquez de S. Vicente; 

José Joaquim Barrozo, Rua Capitão Mór Aguiar; 

Manoel Alves Pereira, Rua Marquez de São Vicente; 

Manoel Antonio Claro, Rua Frei Gaspar.

                                      

                 LOGRADOUROS E PROPRIETÁRIOS  CITADOS

 

1. PORTO TUMIARU

2. CAPITÃO MÓR AGUIAR

3. VISCONDE DE TAMANDARÉ

4. DR. CAMPOS SALLES

5. YPIRANGA

6. TRAVESSA DA IMPERATRIZ

7. QUINZE DE NOVEMBRO

8. MARTIM AFFONSO

9. PADRE ANCHIETA

10. VISCONDE DO RIO BRANCO

11. DR. AMÉRICO BRASILIENSE

12. DR. RANGEL PESTANA

13. PRAIA DE S. VICENTE

14. PRAIA DO ITARARÉ

15. II DE JUNHO

16. LARGO 13 DE MAIO

17. CONSELHEIRO NÉBIAS

18. LARGO BAPTISTA PEREIRA

19. MARQUEZ DE S.VICENTE

20. PADRE MANOEL

21. TRAVESSA DAS FLORES

22. LARGO DA SANTA CRUZ

23. SANTA CRUZ

24. JOSÉ BONIFÁCIO

25. JACOB EMMERICH

26. FREI GASPAR

27. JOÃO RAMALHO

28. PRAÇA CORONEL LOPES

29. LINHA DOS BONDS DA CIA CITY

30. AVENIDA MISERICÓRDIA

31 DR. HYPOLITO DA SILVA

32. DR. CÂNDIDO RODRIGUES

 

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 1
O PORTO TUMIARU


Porto Tumiaru. Fundação Arquivo e Memória de Santos. 


Na toponímia de São Vicente, organizada por Jaime Caldas e Francisco Miorim (Revista Cellula Mater) Tumiaru é identificada e definida como uma expressão tupy, para descrever um lugar onde havia de muitos judeus e desterrados europeus.

O Porto Tumiaru era uma pequena faixa de orla do Mar Pequeno entre a Ponte Pênsil e o Guamium onde havia a prática de pesca local e também acessos para outros pontos marítimos. Ali tinha também um serviço regular de travessia para o Japuí e para Porto do Rei , em Praia Grande, feito por embarcações simples e também por algumas maiores, como foi o caso do famoso Iate Etelvina, de propriedade de Luiz Pinto Amorim, trazido do sul, e que comportava maior capacidade de carga.

Outro frequentador e usuário bastante conhecido do porto, no século XIX, foi o agricultor, vereador e intendente Fernando José Augusto Bittencourt (1822-1903). Este era herdeiro do também famoso sítio de Santana de Acaraú, na área serrana e nas margens do rio Mariana, de onde trazia sua produção em barco a remo para comercializar na ilha. O vereador e intendente era conhecido por não faltar nas sessões e multar os que se ausentavam sem justificativa. Também era proprietário de uma casa na área insular. 




No edital da Câmara publicado em 1909 são citados oito proprietários, alguns donos de outros lotes vizinhos, como acontece em outros endereços. Antão Alves de Moura é o mais abastado, com quatro lotes, seguido de João Paulo de Lara, três lotes, sobrenome de uma antiga família vicentina depois radicada em Santos.  Entre os demais proprietários chama a atenção Jacob Uchillinger, nome de origem alemã.


  
O primeiro nome da lista é Antônio Militão de Azevedo, figura da política vicentina que aparece também como proprietário no Largo 13 de Maio (Praça 22 de janeiro). Em 1911 a revista santista A Fita publicava uma curiosa nota sobre este prestigiado político vicentino, ressaltando que também atuava na cidade de Santos. Antônio Militão é apresentado com o título de "coronel". Em 1935 o jornal A Gazeta de a triste e chocante notícia da sua morte num acidente na travessia de balsas para a Bocaina (Itapema), no Guarujá.



Atualmente o PortoTumiaru é ocupado pela Colônia dos Pescadores, Escola Rachel de Castro, Corpo de Bombeiros e São Vicente Praia Clube até a esquina da rua Japão.

O pintor Benedito Calixto registrou a paisagem do porto em diversos ângulos nas primeiras décadas do século XX eternizando cenas bucólicas de embarcações, pescadores, bem como o Morro dos Barbosas em relevo em destaque. Há também registros fotográficos do mesmo período. A ocupação da orla pelas construções citadas impedem o livre acesso e a visão da paisagem do antigo porto para quem transita pela Avenida Capitão Luiz Pimenta, Capitão-Mór Aguiar e Avenida Newton Prado. O mesmo aconteceu na atual entrada da rua Japão , onde foi construída a uma escola municipal, casas residenciais e diversos estabelecimentos comerciais. Nessa mesma localidade havia, no início do século passado, a chamada Rua do Porto (atual Marquês de São Vicente), que ligava o bairro ao centro da cidade.



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2
CAPITÃO-MÓR AGUIAR

Acima o início rua Capitão-Mór Aguiar (hoje avenida) no início do século XX e o Guamium.



 

Tudo indica que esta avenida teve a mesma função, em diferentes épocas, das avenidas Presidente Wilson, Antônio Emmerich e Manoel da Nóbrega: lançar e demarcar novas fases de expansão urbana por meio da ocupação dos lotes pelos investidores imobiliários e seus herdeiros. A Capitão-Mor Aguiar foi uma expansão para duas diferentes direções da cidade que ofereciam novas possibilidades de habitação e comércio: o então e distante Bitaru, cujo destaque era o velho cemitério; e os novos bairros após a rua Frei Gaspar e a linha férrea da SPR-Sorocabana. Sua concepção urbanística tem todas as características de uma marco de expansão: duas pistas largas divididas por jardins entre os cruzamentos. Ali começava uma nova parte da cidade, cuja ocupação se estenderia num primeiro momento até a Esplanada e Ponte dos Barreiros; e depois, já nos anos 1950 e 60, com os loteamentos da Vila Margarida, Planalto Bela Vista,  Beira Mar, Parque São Vicente e Cidade Náutica.

A avenida Capitão-Mor Aguiar atual divide o Centro e o Parque Bitaru, cruzando várias ruas entre esses dois bairros. Seus pontos de referência são: Centro Espírita Redenção-Colégio Henrique Oswald, Igreja São Judas Tadeu, Loja Maçônica Duque de Caxias, Igreja Metodista, Igreja de N.S. do Amparo e a Congregação Cristã. E uma feira livre de domingo. Como se observa na lista de proprietários publicada no edital, aqui viveu a famosa família Moura, matriz de músicos do Conjunto Calunga; e diversas outras famílias que tiveram grande influência na cidade e na região.


O ÚLTIMO CAPITÃO-MÓR

“Nascido em São Vicente em 10 de setembro de 1762, José Gonçalves de Aguiar foi batizado pelo padre Vital Gomes Freire, que está sepultado na Matriz. Além de capitão-mor, nomeado pelo rei de Portugal, José Gonçalves Aguiar foi também grande lavrador, um dos maiores produtores de farinha da região. Em 1823, ele aparece no recenseamento com uma produção de 200 alqueires. O capitão-mor também foi um dos proprietários mais importantes da Fortaleza de Itaipu. Responsável pelo recenseamento da cidade em 1813, foi ainda edil e juiz, vereador, procurador da Irmandade do Santíssimo Sacramento, juiz municipal e presidente do Senado da Câmara em 1822. Dele descendem importantes famílias vicentinas, entre elas, a de Ariel Ribas, ex-funcionário da Prefeitura. Último capitão-mor de São Vicente, José Gonçalves Aguiar faleceu em 22 de dezembro de 1843 e foi sepultado na Igreja Matriz”. (Boletim IHGSV)

 

RIO SAPATEIRO É REENCONTRADO EM SÃO VICENTE 



 "Lendário riacho é descoberto por acidente durante escavações" . Cruzamento da Av. Capitão Mór Aguiar com a rua Frei Gaspar. Ao fundo a Fábrica de Vidros.



Victor Miranda- Da Redação

Após anos sem informações oficiais, a Prefeitura de São Vicente encontrou na última semana um dos principais vilões da Cidade. O mesmo tem recebido o tratamento adequado e, em breve, estará longe do convívio com a sociedade, gerando mais segurança para seus moradores.

Embora o parágrafo acima pareça mais apropriado para o noticiário policial, ele se refere ao Rio Sapateiro, uma espécie de lenda vicentina que, durante décadas, foi apontado pelos governantes como o maior responsável pelas enchentes na região central do Município. Durante as obras de pavimentação e drenagem da Avenida Capitão-mor Aguiar, técnicos da Prefeitura se depararam com o córrego, escondido sob uma das vias mais movimentadas da Cidade.

Ressurgimento – Ao cavar o solo para providenciar a substituição das manilhas no trecho em que a avenida se encontra com a Rua Frei Gaspar, chamou a atenção dos operários a quantidade de água que corria por ali, por um estreito sistema de drenagem que aparenta ter mais de 80 anos (ao invés de sustentação de concreto armado, paredes de tijolinho protegiam o equipamento subterrâneo, o que indica uma antiga preocupação com as enchentes).

Não demorou muito para os mais atentos detectarem: aquele ali era o Rio Sapateiro (embora essa seja a denominação oficial, chamar de rio, aliás, é um exagero, sendo que o termo correto é córrego). A constatação confirmou a versão dos vicentinos mais velhos, que sempre disseram que as ruas do Centro escondiam esse curso d'água. Até mesmo um mapa de 1852, assinado pelo pintor Benedito Calixto, confirma que o traçado do córrego serpenteia o Centro de São Vicente. O problema é que, como há apenas dois pontos em que a água é aparente – a fonte do Ipupiara e um pequeno corredor na lateral do Marco Padrão, na praia da Biquinha – sempre houve a dúvida sobre seu real traçado. Situação que fica ainda mais incerta graças às suas várias ramificações. Nem mesmo a nascente é conhecida, podendo ser na região próxima da Avenida Capitão-mor Aguiar (mais provável), perto da Rua Aleixo Garcia, no Bairro Catiapoã, ou até mesmo em um terceiro lugar.

Independentemente do ponto exato de onde surge seu traçado, o fato é que é provável que o curso esteja relacionado à Bacia do Catiapoã, que compreende os canais das avenidas Alcides de Araújo e da Lourival Moreira do Amaral.

Culpado – Justamente por ter seu traçado exato desconhecido e por possuir um status de lenda, em que todos acreditam que ele corre pelo Centro, mas poucos têm provas concretas, o Rio Sapateiro sempre foi relacionado às enchentes que assolaram o Município no decorrer de décadas. Não foram poucos os governantes que, ao encarar uma enchente, acusaram a baixa vazão e o sumiço do córrego como responsáveis pela cheia.

De fato, o sufocamento do rio, somado ao estado deteriorado das manilhas utilizadas em seu curso, podem contribuir para alguns alagamentos. Tanto que bastou o Rio Sapateiro ser detectado para que houvesse uma mudança no material utilizado na drenagem, que precisou ser mais específico e de dimensões mais largas.

"Para nós, de verdade, foi uma surpresa. Quando encontramos aquelas manilhas aterradas, não entendemos o que era. Depois é que a ficha caiu. Por conta disso, vamos utilizar manilhas de concreto ainda mais largas, para ver se reduz o impacto causado nesse rio no decorrer dos anos", explica o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano e Manutenção Viária, Léo Santos.

Segundo a secretaria, as obras de drenagem e pavimentação da Avenida Capitão-mor Aguiar não vão interferir diretamente no curso do rio. A única ação vai ser aumentar a vazão do mesmo, que será praticamente dobrada.

CENTRO

Pavimentação – As obras da Avenida Capitão-mor Aguiar tiveram início há cerca de um mês. Em princípio, os serviços serão feitos no trecho compreendido entre as ruas Frei Gaspar e Marquês de São Vicente, onde os bloquetes de concreto sextavados serão substituídos por pavimentação asfáltica. O investimento no recapeamento do piso é de R$ 1.370.000,00. Os recursos são originários do Departamento de Apoio ao Desenvolvimento das Estâncias (Dade), órgão da Secretaria de Turismo do Estado. Posteriormente, o trecho da Rua Marquês de São Vicente com destino à Avenida Capitão Luiz Pimenta também será contemplado. Ao todo, serão 680 metros de via asfaltados, que devem levar seis meses para serem concluídos. (A Tribuna, na sexta-feira, 12 de agosto de 2011, página A-12)


RIOS DE SÃO VICENTE

Patrimônio natural escondido e esquecido que precisa ser lembrado



Local onde o ria Sapateiro, hoje canalizado, desaguava na Praia do Gonzaguinha.

SAPATEIRO

Um estreito córrego, com suas inúmeras ramificações corta, desde as imediações da rua Frei Gaspar, junto à vidraçaria Santa Marina, longitudinalmente, a cidade, vindo desaguar no mar ao lado do Monumento do IV Centenário da Fundação da Vila de São Vicente.

Até o final do século XIX, talvez em função do elevado número de batráquios que povoavam suas águas e margens, ele ficou conhecido como Rio dos Sapeiro. Esse antigo Rio Vicentino nascia nas imediações da Av. Capitão-Mór Aguiar e atravessava o centro da cidade, com várias ramificações, hoje canalizadas, atravessando as ruas Visconde de Tamandaré, Campos Salles e Ipiranga em direção à rua XV de Novembro e as praças João Pessoa e 22 de Janeiro (hoje Ypupiara) a qual atravessava em superfície para desaguar na baía vicentina, junto ao Marco Padrão (Monumento Comemorativo do IV Centenário da Fundação da Vila de São Vicente).

Ocorre, porém que, às suas margens foi instalada a 1ª oficina de consertos de calçados da cidade, de propriedade do Ernesto Intrieri, figura muito conhecida e estimada na São Vicente antiga. Assim sendo, não demorou muito para a pequena população da cidade alterar o nome do riacho de Sapeiro para Sapateiro, em função das atividades profissionais exercidas pelo prestante cidadão Ernesto Intrieri, denominação, aliás, que permanece até os dias de hoje.


Ribeirão das Areias – Lança-se à margem direita do Rio Branco ou Boturoca.

Rio Ameijá – É um braço do Rio Branco ou Boturoca, formando uma ilha à margem direita deste.

Rio Bochoró – O divisor que contorna as águas deste rio e as do Córrego Guapiruvu, determina a divisão de São Vicente com o município de Itanhaém.

Rio Boipeva ou Botupuca – Nasce perto do povoado Tabalharu, junta-se com o Rio Itinga e lança-se na Praia Grande.

Rio Boturoca – Rio Branco

Rio Branco de Cima – Nasce na Serra do Mar, fazendo divisa com o município de São Paulo e com o município de Itanhaém, na confluência do Rio Claro.

Rio Branco ou Vargem Branca – Nasce no Morro Pai Matias e deságua no Rio Branco.

Rio Cacheta – Nasce perto do povoado Barreiros e o sítio Boa Vista e desemboca no Lagamar do Pombeva, em frente à ilha Pompeva.

Rio Capivari – A confluência deste rio determina o começo da divisa de São Vicente com o município de São Paulo.

Rio Caraú de Baixo – Nasce no Morro Pai Matias e lança-se à margem esquerda do Rio Branco ou Boturoca.

Rio Caraú ou da Cebola – Veja Rio da Cebola.

Rio Catarina de Moraes – Nasce na zona suburbana da cidade (Vila Nossa Senhora do Amparo) e desemboca no Rio dos Bugres.

Rio Cubatão – Nasce na Serra do Mar, percorre em grande parte o município de São Vicente e deságua no Lagamar do Canéu, no município de Cubatão.

Rio da Avó – Nasce no extremo da zona suburbana do Parque Bitarú e desemboca no Mar Pequeno, no Canal de São Vicente, em frente às Ilhas Sapomim.

Rio da Cebola ou Caraú – Nasce perto do Acaraú dos Mendes e desemboca no Rio Piaçabuçu.

Rio da Cruz – Nasce nas proximidades da Vila Sílvia e deságua no Rio Piaçabuçu.

Rio das Areias – Nasce no Morro do Vieira e lança-se no Rio Branco, à margem esquerda.

Rio das Cabras ou Das Caixas – Nasce no Morro Pai Matias e lança-se à margem esquerda do Rio Branco.

Rio dos Bugres – É formado na foz dos rios da Divisa Sambaiatuba e Catarina de Moraes, desembocando no Rio Casqueiro, próximo ao Lagamar do Pombeva. Este rio determina parte da divisa com o município de Santos.

Rio dos Moços – Desemboca nas proximidades da foz do Rio Branco.

Rio dos Pilões – Nasce na cachoeira de Itutinga em São Bernardo do Campo. Este rio faz divisa com São Vicente, São Bernardo do Campo e Cubatão, na confluência dele com o Passareúva.

Rio dos Queirozes – Este rio determina a divisa de Cubatão com São Vicente.

Rio Emigdio, Emidio ou Ermidia – É formado por um braço do Rio Piaçabuçu quase à sua foz, formando uma ilhota e desemboca no lagamar do São Vicente, perto das Ilhas Sapomim.

Rio Grajaú ou Gragaú – É formado por um braço do Rio Mariana e depois de fazer um círculo desemboca no mesmo formando uma pequena ilha.

Rio Guaramar – Desemboca perto da foz do Rio Piaçabuçu.

Rio Iguá – Deságua no Rio Grajaú, ambos engrossando o Rio Mariana.

Rio Imbuguaçu – Nasce próximo ao povoado Jagari, deságua no mar de Praia Grande.

Rio Indaiúva – Nasce nas proximidades da Vila Oceânica e deságua no Rio Piaçabuçu.

Rio Itinga – Nasce na serra de Mongaguá e deságua no mar, na Praia Grande.

Rio Mariana – Deságua no lagamar de São Vicente nas proximidades do lagamar Pombeva.

Rio Mongaguá – Nasce na serra de Mongaguá e desemboca no mar, próximo onde era a estação ferroviária de Praia Grande. Serve de divisa com o município de Itanhaém.

Rio Piaçabuçu – Desemboca no lagamar de São Vicente em frente às ilhas Sapomim.

Rio Piaçamirim – Deságua no Rio Piaçabuçu.

Rio Pompeva – Desemboca no lagamar de São Vicente em frente à ilha do mesmo nome.

Rio Preto – Nasce na serra de Mongaguá e desemboca no Rio Branco ou Boturoca.

Rio Santana – Este rio determina as divisas entre Cubatão e São Vicente.

Rio São Jorge – Nasce no Morro do Cotupê e desemboca no Rio Casqueiro em Santos, perto do antigo Matadouro.

Rio Siriri – Pequeno rio que deságua nas proximidades da foz do Rio Mariana.

Rio Taguá – Nasce no Morro da Mãe Maria e lança-se à margem esquerda do Rio Branco ou Boturoca.

Rio Taquimboque ou Tanquinho – Nasce nas sproximidades de Barreirinhos e deságua no Rio Mariana.

Rio Negro - Começa e termina no rio Piaçabuçu formando uma ilha de mangue

Boletim do IHGSV –“O Monumento, da CDL de São Vicente.

 


Linha do Bonde da rua Capitão Mór Aguiar e Porto Tumiaru


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3
 VISCONDE DE TAMANDARÉ




Jacob Emmerich, imigrante alemão, e seu filho Antonio Emmerich, proprietário do número 31 da rua Visconde de Tamandaré. Outros Emmerich aparecem como proprietários em outras ruas. Essa família marcou época com a implantação do sistema de transporte coletivo por bondes desde o século XIX. O pai é nome de rua citada neste edital e o filho, algumas décadas depois, deu nome à principal avenida que liga São Vicente e Santos na zona noroeste (da Praça das Bandeiras até à divisa do Tambores) e que antes era a linha 1 Via Matadouro).



A FAMÍLIA DE ANTÔNIO EMMERICH

O nosso biografado de hoje era filho de Jacob Emmerich, alemão, que contraiu casamento, em Santos, com d. Filipina Kinitel. Ele faleceu em 24-6-1881, com mais de 70 anos, sendo sepultado na Quadra da Ordem 3ª do Carmo, no Paquetá (depois seus restos mortais foram transladados para o cemitério de São Vicente, em campa perpétua da família). D. Filipina Emmerich (também chamada “Dona Felipa”) nasceu em 3-3-1816, tendo falecido em São Vicente, em 30-9-1895. Essa dama era um coração aberto para os desafortunados. Foi quem doou a cachoeira do Voturuá à Prefeitura local. Seu mausoléu é um dos mais antigos da necrópole de São Vicente. O casal teve os seguintes filhos: Catarina, batizada em 17-7-1836; Jorgiana, batizada em 1-1-1838; Adão (1), batizado em 6-8-1839; Tiago, nascido a 14-7-1842, batizado em 25-7-1842 e falecido em 8-11-1879; Antônio (o nosso biografado de hoje), nascido a 10-7-1844 e falecido em S. Vicente, em 21-8-1916; Adão (II), batizado em 12-9-1847; Margarida, nascida em 17-12-1848, batizada em 31-12-1849 e falecida em Santos a 16-5-1930; Henrique, nascido em.. 16-4-1850 e batizado em 22-6-1850; André, nascido em 30-11-1851 e batizado em 14-12-1851; José (1), nascido em 19-2-1855 e batizado em 13-5-1855; Maria, nascida em 2-11-1856 e batizada em 30-11-1856; José (II), nascido em 16-9-1858 e batizado em 13-10-1858, e João, nascido em 12-11-1861 e batizado em 25-12-1861. D. Filipina Emmerich de Miranda nasceu em S. Vicente a 7-6-1846 e faleceu em Santos a 13-10-1921, foi casada com o estimado cidadão Alexandre Páscoa de Miranda. Era costume dos antigos batizarem seus filhos após o sétimo dia do nascimento, para se livrarem do “mal dos sete dias” (do umbigo). (Vultos Vicentinos- Edison Telles de Azevedo)



Cachoeira do Voturuá, doada à prefeitura por Dona Felipa Emmerich.



Nos registros mais antigos dos século XIX é citada inúmeras vezes como "Rua do Porto", indicando um caminho de ligação entre o Centro, Tumiaru e o Guamium, na orla do Mar Pequeno. A rua Visconde de Tamandaré atual começa na rua do Colégio - junto ao Morro dos Barbosas- e termina na rua Frei Gaspar, no portão da Fabrica de Vidros, que ao logo dos anos teve vários nomes: Vicri, Vidrobrás, Santa Marina e hoje Saint-Gobaim. No edital do prefeito Antão de Moura aparecem somente os imóveis devedores (em aberto), do número 60 ao 115 , indicando que a rua ia somente até o cruzamento da rua Santa Cruz, ou então que os demais imóveis na direção da Frei Gaspar eram terrenos ainda não loteados; ou ainda que todos os demais estavam quites com a fazenda pública municipal. Algumas famílias eram proprietárias de diversos lotes nas mesmas ruas e também constam somente como herdeiros, provavelmente aguardando a conclusão de inventário e partilha de bens. Pelos números lançados como vocativos e impostos, percebe-se diferença da metragem e valores dos terrenos. 

Embora não tenha sido citado no edital do prefeito Antão de Moura, sabe-se que  o número 13 dessa rua (Vultos Vicentinos) foi habitada pelo Alferes Marcolino Xavier de Carvalho, figura folclórica da cidade, que aparece fardado com uniforme da Guarda Nacional no dia da inauguração da Ponte Pênsil.


O ALFERES MARCOLINO foi destaque no corte da fita inaugural da Ponte Pênsil. Imortalizado em bico de pena no livro Vultos Vicentinos, o Alferes Marcolino Xavier de Carvalho aparece na foto da revista A Fita em 1914, três anos antes de falecer. Marcolino era uma figura folclórica das cerimônias públicas usando uniforme da Guarda Nacional e exigindo que os militares lhe batessem continência. Era nessas ocasiões que se impunha como figura popular, apesar de simples e pobre. Edson Telles de Azevedo lembra que Marcolino fazia da sua vida sempre um motivo de heroísmo, civismo e caridade para com os mais necessitados, como por exemplo, construindo ataúdes para os desprovidos. Marcolino era músico de banda (tocador de bombo), dono de boteco, mesário de eleições, sineiro, oficial de justiça, laçador de bois, fiscal da Câmara e investigador de policia. Foto rara de uma cena histórica vicentina. (São Vicente na Memória)



Casario da rua Visconde de Tamandaré e da rua Santa Cruz





comerciante Francesco Lapetina e sua filha Maria Helena Lapetina em foto de 1925, na rua Visconde de Tamandaré, 40. Também foi citado no edital como proprietário de lote na avenida Capitão Mor Aguiar, 22. Francesco era natural de Tramutola, Potenza, Itália, onde nasceu em 1844. Imigrou para São Vicente em 1879. Segundo o Almanaque Santista (1885), era um dos comerciantes mais antigos em atividade, tendo primeiramente uma taverna, secos e molhados e depois uma pedreira. Foi pai de 12 filhos, 10 vicentinos e dois italianos. Sua filha Maria Helena (foto) casou-se com Antônio Pinto Amorim (irmão de Luiz Pinto Amorim, dono do famoso Iate Etelvina, que fazia a travessia para Praia Grande, no Porto Tumiaru), com quem teve sete filhos. O caçula dessa prole de Maria Helena e Antônio foi o famoso médico Dr. João Amorim, que fez brilhante carreira científica e gestora em importantes núcleos da medicina paulistana, incluindo os hospitais Pérola Byington, Matarazzo e Pro-Matre. 

Dados e foto: Waldiney La Petina, pesquisador genealogista.

Nota: o sobrenome original italiano é LA PETINA; no Brasil ficou registrado LAPETINA.

 

Hermenegildo Lapetina, de chapéu claro, durante a inauguração da Delegacia de Polícia  de São Vicente em 1930. 



Hermenegildo Lapetina nasceu em São Vicente no dia 7 de de junho de 1888, filho de Francesco Lapetina e Maria Rosa Branda Lapetina, sendo batizado na Igreja Matriz pelos padrinhos Hermengildo da Silva Ablas  e Dona Margarida Emmerich Ablas. Era o sexto filho de uma família de onze filhos, estudou na Escola do Povo dos dez aos dezessete anos, trabalhou nos estabelecimentos comerciais do seus pai, um empório na rua do Porto (rua Marquês de São Vicente, uma taverna na rua Visconde de Tamandaré e uma pedreira no Morro dos Barbosas. Em 1906 passou a exercer a profissão de despachante da Alfândega de Santos. Casou-se com em 9 de julho de 1908 com Clara Emília Bastide, filha de Benedicta Maria Bastide e de um engenheiro alemão, Paulino Emílio Bastide, que trabalhava para o governo da Província de São Paulo. Paulino Emílio Bastide nasceu em Berlin, Alemanha, em 25 agosto 1841. Benedicta Maria Bastide nasceu em Juquiá, São Paulo em  1860. Dessa união nasceram nove filhos. 



Retrato de Paulino Bastide feito em Santos no estúdio do fotógrafo Carlos Hoenen




Em 1911 Hermengildo Lapetina  fez parte da diretoria de um curioso  filantrópico, o Clube dos Em Pé,  cujo sócio era em suas maioria eram comerciantes e políticos vicentinos. Hermenegildo era músico e tocava na banda Musical aos domingos no coreto da Praça Coronel Lopes. Foi m ativo da Irmandade do Hospital São José, entre 1919 e1921, usando seu prestígio na Alfândega de Santos para conseguir muitas doações para a entidade. Em 1922 saiu do serviço de despachante para assumir o cargo de escrivão de polícia na delegacia de polícia em 1930, acumulando a função de delegado e carcereiro. Aposentou-se em 1953 e faleceu em fevereiro de 1955.  (Vultos Vicentinos. Edison Telles de Azevedo, 1972).  








Planta genealógica demonstrando a ligação de duas antigas famílias vicentinas: os Bastide e os Lapetina.   No edital da rua Visconde de Tamandaré Benedita Maria Bastide aparece como proprietária do nº 39.


CARLOS MIRABELLI


Diário de Santos - segunda-feira, 1 de outubro de 1917. Notícia sobre uma sessão espírita realizada na rua Visconde de Tamandaré, 36, marcando ali a inauguração do Centro Espírita São Luiz.


Ruínas da casa onde residiu Mirabelli - rua Visconde de Tamandaré, 36, onde funcionou o Centro Espírita São Luiz. O imóvel na esquina também já foi demolido.


Carlos Mirabelli veio residir em São Vicente  buscando um refúgio após passar por  graves dificuldades pessoais resultantes dos seus podêres psíquicos. Foi preso e também sofreu uma intensa perseguição por meio do jornal Gazeta Popular, porém era defendido pelo Correio Palistano.  Ele havia sido internado na Colônia Psiquiatrica do Juqueri e obteve um dignóstico favorável de dois médicos, que lhe recomendaram um período de repouso em lugar traquilo e próximo da natureza, fugindo das polêmicas eagressões. Porém, esse período de tranquilidade durou pouco, pois Mirabelli seria desafiado por circunstâncias e fatos que fugiam do seu controle.  Em certa ocasião, em função dos fenômenos que produzia (atravessava e permancia por longo tempo em fogueiras na festas de São João) Mirabelli foi espancado por um grupo de fanáticos enquanto caminhava pela orla vicentina. Foi também nessa época que o famoso médium fundou o Centro Espírita São Luiz, na rua Visconde de Tamandaré, 36. A inauguração do centro espírita aconteceu em 25 de agosto de 1917 e que foi marcado por um curioso "fenômeno de bilocação":

"Conta-se que certa vez ele estava, com um grupo de pessoas na Estação da Luz em São Paulo e pretendia viajar para Santos. Um pouco antes de o trem sair ele desapareceu, para assombro de todos, sendo cientificada a sua presença em São Vicente, mais tarde, por telefone, ficando provado que ele foi encontrado na cidade que distava 90 Km da Estação da Luz, exatamente dois minutos após o seu desaparecimento". 

 

Fonte: Coleção Carmine Mirabell- Federação Espírita do Rio Grande do Sul. Editora Francisco Spinell




Carmine Mirabelli, o médium de efeitos físicos que assombrou São Paulo e o mundo no início do século XX.  Na cidade de Santos, recebeu homenagem e diploma por sua contribuição à pesquisa científica em parapsicologia. 

Fotos: Em São Vicente, com ex-governador e amigo Washington Luiz.; registro de um fenômeno de levitação em Santos; momentos de lazer com a família; e uma recente coleção editorial. O prefeito de São Vicente, Rodolpho Mikulash foi o seu principal biógrafo, com relatos de suas experiências psíquicas.

"Mirabelli já foi manchete nos mais importantes jornais brasileiros. Mesmo fora de transe, com sua aproximação, móveis se arrastavam, sem contato humano, garrafas voavam, xícaras se quebravam. Pesquisadores estrangeiros vieram ao Brasil para examiná-lo. Carmilo - por muito tempo pensou-se que seu nome fosse Carmine - Mirabelli nasceu em Botucatu - SP, em 05 de dezembro 1888. Seu pai, que teve 28 filhos, era sapateiro e ministro protestante. Infelizmente o médium não pôde estudar por falta de recursos. Ainda adolescente, trabalhou na loja de calçados Clark, no Centro de São Paulo, de onde foi logo despedido pelo fato de que as caixas desciam das prateleiras e os sapatos caminhavam sobre o balcão, sem contato humano, diante do gerente e dos fregueses. Houve quem o considerasse o médium mais completo do mundo e de todos os tempos. Diria que quase completo, pois só não possuía mediunidade de cura. Foi médium pintor (deixou 300 telas mediúnicas: 50 foram expostas na Holanda), psicofônico (em transe falava 26 idiomas), psicografava em 28 línguas, vivas e mortas, e enquanto o fazia conversava, animadamente, em outra língua! Foi também médium musical (em transe tocava piano e violino e cantava com voz de tenor, barítono e baixo, árias em vários idiomas). Era telepata, clarividente e médium de precognição e retrocognição. Possuía também três outras modalidades mediúnicas poderosas na área dos chamados fenômenos objetivos: materialização, desmaterialização e levitação. Vejam que interessante: sua mediunidade dispensava a penumbra e os fenômenos físicos por ele produzidos foram observados por mais de 500 pessoas de elevado nível cultural, entre elas 72 médicos e 105 estrangeiros. Jamais alguém o apanhou em fraude. Em São Paulo, no centro da cidade, foi vaiado e achincalhado pelo povo. E a sua casa apedrejada. E em São Vicente, reconhecido através dos jornais por um grupo de fanáticos religiosos, foi barbaramente espancado. Com menos de 21 anos foi levado como louco ao Hospício de Juqueri (hoje Franco da Rocha), sendo examinado por Franco da Rocha e outros, que eram sumidades no campo da psiquiatria. Fenômenos se processaram à luz do dia, deixando atônita a junta médica. Alguns dos pareceres médicos foram divulgados pelos jornais e fazem parte da obra "O Médium Mirabelli", resultado de um Inquérito, editado em 1926 na cidade de Santos, por Rodolfo Mikulasch. Este livro é difícil de ser encontrado, talvez possa ser encontrado em algum sebo. O próprio Mirabelli criou várias instituições no Rio de Janeiro e em São Paulo para o exame de sua fenomenologia mediúnica, como, por exemplo, a Academia Brasileira de Metapsíquica, o Centro de Estudos Psíquicos César Lombroso e o Instituto Psíquico Brasileiro. O escritor, advogado e deputado Eurico de Góes fez uma pesquisa que durou cerca de vinte anos em torno dos fenômenos medianímicos de Mirabelli. Publicou em 1937 o livro “Pródigos da Biopsíquica obtidos com o Médium Mirabelli”, reproduzindo as atas das sessões, rubricadas por importantes personalidades. Durante uma sessão, o médium se desmaterializou por completo, diante dos presentes, ouvindo-se, em seguida, um barulho no compartimento contíguo. Uma determinada pessoa abre a porta e todos deparam com Mirabelli suspenso no ar, a três metros do solo, sem qualquer apoio. O fenômeno foi fotografado. Descobriu-se que não apenas Espíritos familiares de Mirabelli, como seu pai, a tia, a irmã, mas também Espíritos famosos como Victor Hugo, Lombroso, Toistoi e outros se manifestavam através do médium. Às vezes, Espíritos inferiores, moralmente falando, se infiltravam nas sessões, provocando tumultos. Conta Eurico de Góes que viu Mirabelli ser levantado da cama e, em seguida, jogado contra um guarda-roupa por mãos invisíveis, causando-lhe ferimentos. Ao entrar numa casa, os objetos se moviam, voavam, quebravam-se devido a esses Espíritos atrasados. O livro O Espiritismo à Luz dos Fatos, de Carlos Imbassahy, fala um pouco sobre este famoso médium. As louças de Imbassahy também se quebraram com a aproximação de Mirabelli. No dia primeiro de maio de 1951, Carmilo Mirabelli desencarnou atropelado na Avenida Nova Cantareira, na cidade de São Paulo, quando voltava para casa. Tinha, então, 62 anos de idade".

Fonte: Revista Reformador - FEB. novembro, 2001 - páginas 28 e 29.


Rodolfo Mikulasch. autor da obra "O Médium Mirabelli", resultado de um Inquérito, editado em 1926 na cidade de Santos. Mikulash foi prefeito de São Vicente entre 1938 e 1945. No edital de nomes listados na rua Ypiranga aparece como proprietário dos lotes 26 e 28 o Sr. Francisco Mikulasch.

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DR. CAMPOS SALLES



Além do prefeito Antão de Moura e outros antigos moradores vicentinos, chama a atenção na lista de proprietários o nome João Bensdorp. Trata-se do imigrante holandês Jan Franciscus Bensdorp, nascido em Antuérpia, que exerceu o mandato de prefeito de São Vicente por três vezes.

Portarias do prefeito João Francisco Bensdorp, de 5 de fevereiro de 1917 organizando o serviço de obras públicas; e de 26 de fevereiro do mesmo ano organizando o funcionamento do Matadouro Municipal, por meio de acompnhamento médico-sanitário. Na portaria 1 o prefeito justifica a medida em função "dos rigores da estação calorosa que estamos atravessando". Acervo familiar: Suely Bensdorp Palmieri

“PREFEITO HOLANDÊS. Curiosa pesquisa documental sobre o prefeito João Francisco Bensdorp, nascido em Amsterdã em 1878 e imigrado para o Brasil com o pai Pieter Bensdorp. Era filho de Sofia Helena Van Deene. O pai era carpinteiro e o filho engenheiro, segundo as anotações de documentos de registro de nascimento. Seu nome era uma homenagem ao avô Johannes Franciscus Bensdorp. João Francisco Bensdorp veio residir em São Vicente e aqui casou-se com a jovem vicentina Maria das Dores, uma das fundadoras do Hospital São José. João Francisco governou São Vicente por três mandatos sucessivos (12 anos), entre 1917 e 1928. Sua naturalização ocorreu em 1933. Em uma de suas administrações deu início à construção da avenida Presidente Wilson, definindo seu traçado e colocando os meios-fios. Também no seu mandato foi responsável pela ornamentação e pavimentação da avenida que levaria mais tarde o nome Getúlio Vargas, contornando o Morro dos Barbosas até a Ponte Pênsil. Bensdorp faleceu em 1965, no Hospital São José, aos 84 anos”. Comentário do advogado José Roberto Frutuoso, antigo morador vicentino: “Fez o loteamento da Vila Pedro Duarte, que é a avenida Mota Lima. Lembro desse senhor na década de 50, bem velhinho, ir receber as prestações do terreno do meu pai onde já morávamos num chalé. Tenho a caderneta com as assinaturas dele”.



Certidões de nascimento e óbito de João Francisco Bensdorp. Pesquisa de Waldiney La Petina. Fonte: Arquivo Nacional , Rio de Janeiro. Departamento de Estrangeiros. (Publicação São Vicente na Memória)



A rua Dr. Campos Salles, homenagem ao ilustre campineiro, quarto presidente da república e falecido em Santos, começa na Praça Bernardino de Campos (antigo Largo das Lavadeiras) e termina atualmente na rua Benjamin Constant, nos muros da Fábrica de Vidros e no acesso principal da antiga Estação da E.F. Sorocabana. A estação foi demolida durante a construção da VLT e transformada numa praça para prática de “skate board”. A rua sofreu muitas mudanças nos imóveis devido à sua proximidade com o centro comercial entre as ruas João Ramalho e Frei Gaspar. No trecho entre Jacob Emmerich e a 13 de maio, ainda sobrevivem algumas construções do início do século passado, quando a região era marcadamente residencial. A numeração antiga publicada no edital vai do número 116 ao 141. Atualmente vai até o 420, com intensa ocupação comercial. No número 418, ainda existe (25 de julho de 2021) uma pequena casa revestida de pedras e muro baixo, atestando a antiga função residencial do bairro. Ela se encontra espremida entre uma agência bancária e um conjunto de salas comercais e apartamentos. Atrás ainda se vê n foto, registrada em 2019, uma chaminé, já demolida, da Fábrica de Vidros.



Casa da rua Campos Salles na altura do número 418, próximo à rua João Ramalho e Benjamin Constant.



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YPIRANGA 

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TRAVESSA DA IMPERATRIZ




Encravada há séculos no centro antigo vicentino, a rua Ypiranga recebeu essa denominação por causa do grito da Independência, não nessa época, mas em virtude de algum evento cívico já republicano, com a intenção de substituir uma denominação mais antiga. O processo de denominação é de 1965. Muitas ruas da cidade tiveram seus nomes modificados por esse e outros motivos contextuais, visando a exploração ideológica aristocrática e também a captação de votos populares. Muitos nomes ligados ao Império - é o caso da Travessa da Imperatriz - foram trocados para contemplar figuras republicanas, assim como muitos nomes do período colonial receberam denominações do movimento de Sete de setembro de 1822. Para as famílias proprietárias pouco importava os nomes que se dava às ruas e praças. O que valia era preservar e valorizar seus imóveis. Entre os nomes mais conhecidos e que se destacam como proprietários nessa rua estão membros de famílias que tiveram atuação política significativa como os Horneaux, Reipert e Mikulash.

A antiguidade da rua Ypiranga pôde ser atestada quando, em meados de 1997, foi feita uma descoberta ocasional de um muro de pedras durante a realização de uma obra de construção civil em estacionamento de veículos e máquinas da Codesavi - Companhia de Desenvolvimento de São Vicente. Esse tipo de construção era muito comum no período colonial e imperial, sendo também encontrado em outras ruas centrais. Na época, um diretor do Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente, Carlos Fabra, tentou explorar cientificamente a descoberta em parceria com pesquisadores da Unisantos, porém logo a pesquisa foi abandonada por falta de recursos e interesse do poder público. O imóvel localizado entre as rua 13 de maio e Jacob Emmerich foi adquirido para a construção da Igreja de Jesus Cristo dos Últimos Dias.

 




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QUINZE DE NOVEMBRO





Na medida em que as ruas se aproximam do centro da cidade, aumentam o número de proprietários e mudam os valores vocativos e dos tributos. A mudança também vai ser registrada nas propriedades próximas da orla, chácaras e sítios de lazer, geralmente de santistas e paulistanos abastados, caracterizadas pelas grandes dimensões em metros quadrados. Os nomes de proprietários tracionais persistem no edital, aparecendo, entre muitos outros, João Horneaux, os Rossi, Ablas, Rittes, H.M. Whitt, Victor Mayer, Antônio Lima Machado (sitiante e criado de vacas leiteiras no Beco do Machado e também no Japui), Ricardo Requejo, Rosalina Telles, Gertrudes Ribas da Costa e Theotônio Gonçalves Corvello, este último conhecido comerciante em Santos, juntamente com seu irmão.

ASYLO E CHÁCARA DOS INNOCENTES

Na quadra formada pelas ruas Quinze de Novembro, Ypiranga, Frei Gaspar e João Ramalho havia no centro vicentino um conjunto de obras de caridade patrocinadas pela conhecida benfeitora espírita Dona Anália Emíla Franco, a primeira mulher jornalista do Brasil, abolicionista e ativista da promoção social. Era a Creche e Asylo de São Vicente e também a Chácara dos Innocentes. Como todas as obras de Dona Anália, espalhadas pela Capital e pelo interior do estado, as duas instituições dependiam constantemente de donativos e para  isso empreendia atividades artesanais e artísticas para arrecadar fundos. As obras surgiram em meados do século XIX para acolher toda sorte de marginalizados, sobretudo filhos de mulheres escravizadas abandonados nas ruas das cidades pelos fazendeiros atingidos pela lei do ventre livre. A imprensa aristocrática os chamava de "os negrinhos de Dona Ana", indignada com o movimento dessas crianças nas praças e pontos comerciais sobrevivendo como pedintes. Essa crítica ou denúncia foi uma das causas da entrada de Anália Franco no ativismo de imprensa, rebatendo seus críticos, cobrando medidas humanitárias das autoridades e a compaixão das classes abastadas. Em São Vicente as obras não tiveram vida longa e foram acolhidas pela sociedade santista (Terra da Caridade e da Liberdade), na avenida Ana Costa. Com a mudança para a cidade vizinha e a disponibilidade de enorme área, organiza-se rapidamente um grupo de beneméritos para empreender a criação, fundação e construção do Hospital São José. Toda a região ainda sofria os efeitos da gripe espanhola e São Vicente ainda não possuía um estabelecimento de saúde capaz de suprir as necessidades da população.


Chácara dos Inocentes. Fundada por Anália Franco. Rua XV de Novembro número 53, atual Maternidade do Hospital São José. Tinha uma Banda Musical Feminina que se apresentava em festas e solenidades cívicas. Revista A Fita, maio de 1914. Acervo digital da Biblioteca Nacional. Corpo Cênico de Theatro Infantil se apresentando em ação beneficente da Creche e Asylo de São Vicente. A FITA. 1916. Acervo Digital da Biblioteca Nacional.

A revista santista A Fita, de fevereiro de 1914, destacava a atuação de uma entidade filantrópica em São Vicente que cuidava da educação das crianças carentes, já que as vagas das escolas públicas não eram suficientes. A entidade vivia de doações, cuja arrecadação na cidade não era suficiente e apelava para a população de Santos para auxiliar na obra.



RUA DO IMPERADOR

A rua XV de Novembro, antes da proclamação da república, chamava-se rua do Imperador, começando no largo da Matriz ( Batista Pereira, Santo Antônio e depois Praça João Pessoa) até os trilho da E.F. Sorocabana, posteriormente indo prolongando-se no Catiapoã pela antiga rua Ca-a-oby. No guia Rua de São Vicente, organizado por Narciso Vital de Carvalho, consta que a rua finda na rua Alemanha, no mesmo bairro. Atualmente é uma rua tomada praticamente de pequenos prédios comerciais de lojas, serviços e de apartamentos residenciais Está localizada no centro nervoso do comércio vicentino e utilizada pela maioria da linhas de ônibus locais e intermunicipais. É uma das laterais do Hospital São José e tem como referência, há décadas, o 1º Distrito Policial, na esquina da rua João Ramalho. Recente recebeu na esquina da rua Benjamin Constant, a primeira torre de escritórios comerciais do cidade, com mais de 30 andares, aos mesmo tempo destacando-se e destoando completamente na paisagem de edificações de pequeno porte.



Rua XV de Novembro, no Catiapoã esquina com Martins Fontes, onde ainda se vê um antigo chalé de madeira contrastando com a torre de escritório do outro lado da linha do VLT. 


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8
MARTIM AFFONSO




Vários nomes e sobrenomes vicentinos continuam a chamar a atenção dos observadores dessa parte do edital, sobretudo quando aparecem figuras que destoam das atividades comerciais comuns; ou herdeiros de famílias que se repetem como proprietários em outras ruas como os Horneaux, Emmerich, Corvello, Moura, Ratto e Pinto Amorim. Dos que destoam deles, se destacam duas figuras, uma do esporte e outra das artes. O primeiro é Theodoreto Souto, fundador do Esporte Clube Tumyaru, em 1905. Ele é citado na reportagem do jornal a Tribuna, de 22 de dezembro de 1960, quando o clube comemorava 55 anos de fundação. Na ata de fundação, além de Theodureto Souto, que já era mais maduro e treinador das equipes de remo, aparecem como fundadores do Tumyaru nomes e sobrenomes de vários jovens com estreito grau de parentesco com proprietários que aparecem neste edital da rua Martim Affonso: "Salvador Malaquias Leal, Manoel Geraldo Forjaz Júnior, Manoel da Costa, Mário da Cunha Nogueira, Gaspar Manga, Henrique Wright, Luiz Hourneaux, Leopoldo Magalhães de Matos, João da Silva Santos, Bloen Martins e Olegário Herculano Alves. Foi aclamado para presidir os trabalhos o sr. Mário da Cunha Nogueira, que convidou para secretários os srs. Antero Bloen Martins e Manoel Geraldo Forjaz Júnior".



Antônio Lima Machado, Theodoreto Souto e Benedito Calixto



A outra figura de destaque da lista do edital do prefeito é o famoso pintor e historiador Benedito Calixto de Jesus, morador do número 16. Calixto e seu filho Sizenando eram pintores e fotógrafos. São autores dessas imagens da rua Martim Affonso. Na propriedade de Calixto seria construída décadas mais tarde um conjunto de residencial de apartamentos que ocupa quase toda a quadra entre as ruas Jacob Emmerich e José Bonifácio. 

Nesse documento abaixo, da Câmara Municipal, o pintor recebe uma homenagem e no texto do requerimento o propositor  expõe uma ligeira biografia de Calixto, cita a sua escolha de São Vicente como residência fixa e aponta os endereços que ocupou antes que sua casa definitiva fosse construída, como ilustram as fotos feitas por ele e seu filho nesse período. É provável que o autor do requerimento seja o vereador Jaime Horneaux de Moura, cuja família tinha relações de amizade com Calixto. No requerimento aparecem particularidades desconhecidas e não citadas em suas biografias como, por exemplo, a atuação   de Calixto como membro de grupo musicais vicentinos. 

Moção honrosa ao pintor Benedito Calixto nos anos 1960, identificando seus endereços em São Vicente.  

  
 
"São Vicente por volta de 1902. Pequena rua que ligava a rua Martim Afonso à rua Direita, hoje 15 de Novembro. Na foto os feudos da Matriz com seus telhado original, hoje desaparecido. O sobrado em frente à Igreja era dos 'Seu Gonçalves', que tinha a única sapataria de São Vicente. O casarão à direita, com janelas em arcos, foi a primeira casa em São Vicente que residiu Benedito Calixto, e que ali residiu até construir em 1915 sua residência própria, numa chácara na rua Martim Afonso, onde residiu até sua morte em 1927" - Museu Paulista-USP



 
 
"Rua Martim Afonso em São Vicente em 1912 ou 13. Junto ao Largo da Biquinha, hoje Praça 22 de Janeiro. Ao fundo o Morro dos Barbosas onde, dizia, existiam ruínas do Colégio dos Jesuítas e a Bica dos Padres". Museu Paulista-USP


O casarão da esquina da rua Martim Afonso com a Praça 22 de janeiro, exatamente no local onde havia a velha casa do período afonsino, e que se vê à esquerda na fotografia feita por Calixto, foi edificada pelo Barão de Piracicaba como casa de veraneio.  Antônio Pais de Barros (1791—1876) e depois seu filho, Rafael Tobias de Aguiar. 





Outro ocupante da casa foi Benigno Antonio Pimenta, negociante descrito na obra Vultos Vicentinos como um figura difrencida na sociedade vicentina: 

"Môço ainda, deixou sua terra natal, a antiga Vila de Mangaratiba, no Estado do Rio, e, pleno de coragem para defrontar-se com as asperezas da luta pela vida, percorreu como caixeiro-viajante cidades várias dos Estados de Minas Gerais e São Paulo. Fixou-se, depois, em São Carlos, com loja de rendas e armarinho. Mais tarde, por volta de 1892, transferiu-se para Santos, dedicando-se ao comércio de café, fundando, então, a casa comissária Pimenta & Cia. Data dêste tempo sua residência em S. Vicente, primeiro na ex-rua do Pôrto (hoje rua Marquês de São Vicente), depois no Largo da Matriz (agora praça João Pessoa), esquina da atual rua Erasmo Schtez, onde está funcionando o Seminário Diocesano, e transferindo-se para o casarão da rua Martim Afonso, esquina do ex-Largo do Monumento, ex-praça 13 de Maio (hoje praça 22 de Janeiro), onde habitava em companhia de uma santa senhora, d. Ambrosina, sua finada cunhada, e de seus sobrinhos"

 


Benigno Antonio Pimenta. Bico de Pena de Edison Telles de Azevedo. 


Solar da Casa da Família Wright, Biquinha e Ilha Porchat], 1916. Benedito Calixto
Óleo sobre tela. 100,00 cm x 56,50 cm. Enciclopedia Itaú Cultural. 



Essa casa família Wright, cujo solar foi imortalizado por Benedito Calixto - morador do número 16 - aparece no edital do prefeito Antão Moura como  lote número 2 da rua Martim Afonso ( antiga Rua Nova) cujo proprietário era  o Sr. John Wrigh, tendo como vizinhos  Ana Peixoto (1), Ana Cândida M. Linier (3), Manoel Dias Anastácio (40) e João Horneaux (5). 

A rua Martim Afonso atual não lembra em nada essas paisagem bucólicas e silenciosas do início do século XX. Antes de ter esse nome histórico ela se chamava Rua Municipal. Nos anos 1930 ela teve o apogeu com o Alto Falantes Royal, na esquina com a Praça Barão; e também sua Era Broadway e Hollywoody, com os Cines Anchieta e Cine Teatro Jangada. Atualmente, entre a Praça 22 de Janeiro até a Praça Coronel Lopes, ela é um calçadão coberto com os pontos comerciais muito disputados no centro, sobretudo entre as ruas Frei Gaspar e Jacob Emmerich, onde também está velha Praça Barão do Rio Branco, antiga garagem de bondes da Companhia City.

CLUBE DOS EM PÉ



Em 01 de janeiro de 1913 foi fundado em São Vicente uma curiosa agremiação. O memorialista Costa e Silva Sobrinho relata em suas anotações que um grupo de rapazes se reunia à noite num imóvel na rua Martim Afonso e todos permaneciam por horas seguidas em pé e resistindo ao cansaço. Nesse tempo promoviam calorosos debates sobre diversos assuntos. O jornal A Tribuna, através da sua sucursal vicentina reproduziu em sua edição a festa do 1º aniversário do clube e identificou todos os membros presentes.



“CLUB DOS EM PÉ"

Este club celebrou na noite de ante-hontem, a passagem do eu primeiro anniversario, offereando aos seus associados, convidados e representantes da imprensa local e de Santos, no Rink Vicentino una lauta ceia.

Antes, porém, dessa refeição, foi constituida, por acclamação, a directoria que tem de gerir os destinos sociaes no anno vigente.

O sr. Heraldo Lapetina, presidente dessa sympathica aggremiacão recreativa, tendo aberto e sessão em que deveria ser eleita a directoria, convidou para assumir a presidencia dr. Pinto Paccs, que, accedendo ao convite e assumindo a direcção dos trabalhos, recebeu calorosa salva de palmas.

Por proposta do sr. Santos Amom, foi acclamada a seguinte diretoria:

Presidente, Heraldo Lapetina; Vice-presidente, Guilherme Figueiredo.

Secretários, Manoel Freiro de Carvalho, Benedicto Ribeiro.

Tesoureiro, Alvaro dos Santos Barbosa.

Conselho deliberativo: capitão Anthero de Moura, major Joaquim Neves Figueiredo Junior, cel. Francisco de Souza Junior, José Leite Forjaz, Carlos José da Rocha.

Acclamada a directoria, o sr. Guiherme Figueiredo, fazendo uso da palavra, agradeceu a sua reeleição, prometteu trabalhar, como até aqui, com todos os seus esforços em prol do "Club dos Em Pé" e incitou os seus companheiros a seguirem-no nesse mesmo esforço.

O dr. Pinto Paoca, numa bella allocução, discorreu sobre o "Club dos Em Pé", animando os associados a proseguiren sempre пеssa união demonstrativa da sociabilidade vicentina,

Os srs. Benedicto Ribeiro, Miguel Barcalla, Santos Amorim e outros fizeram uso da palavra, referindo-se a commemoração que fazia o "Club dos Em Pé".

A festa anniversaria dessa associação, como era esperada, decorreu com muito enthusiasmo. À mesa, em forma de T, sentaram-se as 28 seguintes pessoas: Anthero de Moura, João Lapetina. Franklin Alves de Moura, José P. Martins, Luiz Pimenta, Genaro Fernando Otero. Benedicto Ribeiro, dr. Gustavo Pluto Pacca, Antonio C. Bibeiro, Álvaro dos Santos Barbosa, dr. Rocha Carvalho. Heraldo Lapetina, Ramiro Calheiro, Estácio de Moura, Antônio Santos Amorim, Antônio Bruno. Sebastião Bittencourt, Lydio de Almeida, Affonso Lopes Fernandes, José Carmo Neves. Julio Teixeira Junior, Antonio Emmerich Junior, Angelo Richetti, Guilherme A. de Figueiredo. Armando Requejo, Miguel Barcalla, Francisco Rienze, Manoel Freire de Carvalho. Antonio da Rocha Carvalho, Idelfonso A. de Oliveira e J. de Santiago,

por esta succursal".



Júlio Teixeira Junior, um dos membros do Clube dos Em Pé. Trabalhava com seu pai Júlio Teixeira Candido no popular comércio "Ao Bom Café" que ficava na rua Martin Afonso em frente  a Estação do Bonde. Acervo de família. 

 

O jovem Heraldo Lapetina - à esquerda-  e seu cunhado Juca Morgado em passeio de automóvel na Praia de São Vicente . Vultos Vicentinos. 

 HORNEAUX,  MOURA, LAPETINA, EMMERICH, ABLAS


 
Luiz Horneaux, filho de João Honeaux e Gabrielle Rosse du Barry Horneaux. Bico de Pena de Edison Telles de Azevedo. Vultos Vicentinos. 

Segundo o Padre Paulo, os Horneaux são de origem francesa e vieram para São Vicente como refugiados na passagem do século XVIII para o XIX durante a Revolução Francesa, informação do pesquisador Francisco Carbala. Os Moura são de origem portuguesa e os Lapetina (a grafia original é La Petina) são de origem italiana.   Essas três antigas famílias vicentinas ficaram bastante conhecidas porque seus membros criaram entre laços conjugais e descendentes comuns numa São Vicente pequena e provinciana, alguns se tornando personalidades de destaque na região, como foi o caso do Padre Paulo Horneaux de Moura, figura religiosa muito atuante e popular em Santos e na sua terra natal.   Os patriarcas Antero de Moura e  João Horneaux aparecem no edital publicado pelo prefeito Antão como proprietários em diversos logradouros

O Padre Paulo era neto de Antero de Moura, imigrante português que se radicou em São Vicente aos 20 anos de idade,  juntamente com seus dois irmãos Antão de Moura e Adão de Moura. Adão faleceu muito cedo e Antão, como já vimos na abertura desse opúsculo, tornou-se figura empresarial e política de grande destaque.

Antero de Moura  também era empresário, mantendo  diversos negócios  e principalmente explorando a travessia do canal entre o Morro dos Barbosas e a a agricultura no Porto do Campo, em Praia Grande. Antero casou-se com Izabel Horneaux (Dona Titina).

Dona Titina era filha de João Horneaux e Gabrielle Rosse du Barry Horneaux. Além de Izabel,  o casal João e Gabrielle  teve o filho Luiz Horneaux, conhecido jovem esportista –fundador do E.C. Tumyaru- e que mais tarde se tornaria militar e passa a usar a patente de capitão. 

Do casamento entre Antero e Izabel nasceram 14 filhos, entre eles o varão Paulo Horneaux de Moura, figura também muito conhecida na região, atuando como despachante aduaneiro, dirigente do Santos F.C. e também como jornalista em A Tribuna. Casou-se com Antonieta La Petina, com quem teve as filhas Clélia e Célia e o caçula Paulo Horneaux de Moura Filho, o famoso Padre  Paulo.   



O Capitão Antero de Moura; o médico e deputado Olavo Horneaux de Moura; o advogado e jornalista  Paulo Horneaux de Moura; e o Padre Paulo Horneaux de Moura Filho. 



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PADRE ANCHIETA
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VISCONDE DO RIO BRANCO
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DR. AMÉRICO BRASILIENSE



Residência de Robert Barhan, na rua Visconde do Rio Branco.




A primitiva rua Padre Anchieta, a partir da Praça 22 de janeiro (antiga praça 13 de maio). Cartão postal da décad de 1920. Autor desconhecido. 


Pulando a atual rua Tibiriçá ( que nasce na rua José Bonifácio), essas três ruas citadas no edital nascem sucessivamente na Praça 22 de Janeiro, na rua Jacob Emmerich e na rua Frei Gaspar, cruzam a avenida Presidente Wilson (antiga avenida Misericórdia) e terminam na avenida Quintino Bocaiuva, junto aos trilhos do VLT (antiga E.F. Sorocabana).  O imóvel de número 13 da rua Padre Anchieta era de Maria Rubin César ( sobre nome grafado Rubino). Provavelmente tratava-se de Maria Madalena Teodora Xavier, nome de solteira, e que tornou-se esposa do Dr. José Rubim César, antigo morador da rua do Porto (depois rua Visconde de Tamandaré). A casa, salvo engano, foi comprada pelo Fóro de Santos e presenteada à viúva do célebre advogado e orador, após seu falecimento em 1897. Olímpia Rubim César, filha mais velha do célebre advogado herdou a casa e ali morou por muitos anos com sua família. Ela era casa com o Capitão Luiz Antonio Pimenta.  Rubim César era membro da loja maçônica santista Fraternidade e dos mais extremados ativistas e colaboradores para a construção da Escola do Povo em São Vicente.  O número 14 da rua Padre Anchieta pertencia a João Richetti, carpinteiro e musica da banda da cidade. Era casado como Dona Joaquininha (Joaquina),  filha do famoso farmacêutico José Ignácio da Glória e Josefina Lopes dos Santos. (Vultos Vicentinos)



Pelos valores dos tributos e alguns sobrenomes, vê-se que eram endereços sofisticados, ocupado por mansões e casas bem construídas pertencentes a uma elite de alta renda, a maioria paulistanos. Algumas dessas edificações sobreviveram à febre turística dos anos 1960 e 70 mantendo-se imponentes e dando um ar de aparente paz e tranquilidade ao bairro. Um exemplo é a Casa do Barão , sede atual do Instituto Histórico e Geográfico, que ocupa a metade da quadra das ruas Frei Gaspar, Visconde do Rio Branco e João Ramalho. Com a construção de um shopping center, o restante das mansões foram demolidas, restando somente as casas menores, à espera de compradores, já que seus proprietários e herdeiros não se arriscam a residir nelas. Algumas já foram ao chão restando somente terrenos murados.

 
O centro vicentino próximo à orla nos anos 1950. Predomínio das mansões aristocráticas dos anos 30 e 40. À esquerda, a rua Jocab Emmerich; e à direita, a rua Frei Gaspar. Ao centro da foto os terrenos
onde foi construído um shopping center. Foto do IBGE.



Consulesa da Grã-Bretanha, Sra. Consuelo Marguerite Gomm Kealman, formada na Sourbonne/França junto de seu premiadissimo cão da raça Dálmata, o Campeão Mean Mr.Mustard of Gypsy Rose VII. O bucólico cenário era o escritório do Consul Donald Alexander Kealman, em linda mansão que foi demolida e que existia na confluência das Avenida Presidente Wilson com Rua Visconde do Rio Branco. A Sra. Consuelo Kealman, nossa homenageada, foi membro e dirigente do Movimento de Arregimentação Feminina, da Sociedade Protetora dos Animais de Santos e São Vicente, da União Internacional Protetora dos Animais entre tantas outras organizações....uma inesquecível personalidade que marcou com sua elegância e fina educação a história da Cellula Mater da Nacionalidade. Está sepultada no cemitério municipal vicentino. IHGSV.

Nota. Na rua Jacob Emmerich, os imóveis nºs 18 e 20 estavam registrados em nome de Alexandre Kealman, pai de Donald Alexander Kealman.


Registros do casal Donald Alexandre e Consuelo Kealman: em 1936 como passageiros do navio "Paraguay" entre Nova York e Santos;  nos anos 1950 durante um almoço com o então prefeito Charles Dantas Forbes e sua esposa no antigo restaurante Panela de Barro; e já idosos nos anos 1980.  

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 PRAIA DE S. VICENTE
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 PRAIA DO ITARARÉ
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II DE JUNHO


Imagem da primeira década do século XX. Acervo familiar de Waldiney La Petina




Na imagem das praias que abrangem essas três ruas aparecem características curiosas desses endereços da orla: a horizontalidade absoluta das propriedades; pequena quantidade de imóveis e poucos proprietários. É necessário lembrar que, ao contrário de hoje, o hábito de frequentar "praias de banhos salgados", expressão da moda na época, era muito raro entre os brasileiros e já muito cultivado entre os estrangeiros. Tanto a ilha Porchat quanto as duas praias urbanas de São Vicente eram quase desertas o ano todo. Havia alguns hotéis e dois ou três estabelecimentos comerciais. O que predominava eram as mansões aristocráticas, como do governador e ex-presidente Whashington Luiz, já na década de 1920, e a do casal Quito e Sinhá Junqueira, fazendeiros de Franca e Ribeirão Preto.

Outra curiosidade das fotos é a inexistência da avenida Presidente Wilson (Misericórdia) e o completo vazio habitacional além da linha férrea, onde seria funda as vilas Valença, Misericórdia (Jardim Independência), Voturuá e São Jorge. A maioria desses terrenos pertencia ao português Francisco Valença e no seu inventário foram transferidos para a Santa Casa de Santos. Essa entidade santista, como proprietária e muitos terrenos na cidade, empreendia e denominava as vilas e ruas, como é caso da denominação Misericórdia. Na praia de São Vicente ocorreu um fenômeno interessante: a rua Miguel Presgrave - na chamada Praia dos Milionários - desaparecia completamente em função da expansão das marés, já que muitas dessa propriedades foram construída sobre as praias. Ela consta até hoje nos mapas oficiais.



Praia do Itararé e Praia de São Vicente (Gonzaguinha) vistas a partir do topo da Ilha Porchat provavelmente na década de 1930. Autor desconhecido.



Dia de São Calixto, 14 de outubro de 1924, aniversário de Benedito Calixto, recebe a visita de seus amigos Capistrano de Abreu e Domingos Jaguaribe. Na foto está o seu genro Engº João Pedro de Jesus Neto, casado com sua filha Fantina. Capistrano vinha todos os anos passar as férias na chácara de Jaguaribe (Praia de S, Vicente s/n), médico cearense e fundador do em São Paulo do Instituto Psico Fisiológico.

A ocupação da orla foi sendo ampliada pelas criação de ruas paralelas e seguidos cruzamentos formando nelas a Vila Betânia, hoje Boa Vista. As duas áreas inicialmente foi ocupada por aristocratas paulistanos, como se vê no edital, com destaque para Raymundo de Oliveira e Domingos Jaguaribe, que tinha chalés nas areia sobre o a vegetação de jundú, como consta em registro de alguns quadros de Benedito Calixto. Neste registro abaixo aparece a Ilha Porchat.




"Casa que pertenceu ao Dr. Domingos Jaguaribe em São Vicente, na Praia. No seu livro 'Antiguidades Americanas', edição de 1910, vem reproduzido este quadro de Benedito Calixto com a seguinte legenda:'Barra de S. Vicente no seu estado atual. A casa que se vê no primeiro plano pertence ao autor deste livro, e está situada bem em frente a pequena enseada onde foi fundada a primeira Vila de de S. Vicente, por Martim Afonso. O Dr. Jaguaribe comprando esse terreno da Câmara, passou a ser o primeiro possudor, depois de Martim Afonso.' Nesta casa, mais tarde rodeada de imensa chácara, se reuniam sempre os três grandes amigos: Jaguaribe, Capistrano de Abreu e Benedito Calixto."  Museu Paulista.


Cartão postal da Vila Betânia (Vila dos Estrangeiros ou ainda Boa Vista) retratada do Morro do Iatararé nos anos 1940.  Autor desconhecido. O logradouro que divide o bairro é atual rua Pero Correia, que inicia da rua Quintino Bocaiuva, passando pelas ruas Cel. Pinto Novaes, Freitas Guimarães, Presidente Wilson, 11 de Junho, até a Praia de São Vicente, na avenida Miguel Presgrave, desaparecida  com uma ressaca em 1947, mas que consta até hoje nos mapa digital do Google. .



Posteriormente a Vila Betânia foi sendo ocupada por alemães, franceses, suíços e até dinamarqueses, quase todos comerciantes de café e executivos de companhia de vapores. Havia uma linha de bonde para transportar os moradores que trabalhavam no porto, incluindo uma especial para o horário de almoço. Na época a Câmara Municipal fazia legalmente doação de terrenos para fossem construídas casas e estabelecimentos em prazo determinado por lei. Dos nomes que parecem na lista da chamada Vila dos Estrangeiros chama a atenção o de Th. Nobling, família da famosa artista plástica e escultura Elisabeth Nobling. A artista, nascida em São Vicente e formada em escolas superiores da Alemanha, fez parte do conhecido Grupo dos Sete, era catedrática da USP e foi a autora dos elementos decorativos da Torre do Relógio da Cidade Universitária. No período em que voltou a residir em São Vicente, Elisabeth foi assistente do escultor Victor Brecheret, que mantinha residência e estúdio na rua José Bonifácio, quase na esquina da rua Martim Afonso.

Nota ilustrada e uma entrevista no Correio Paulistano em 1936 sobre uma exposição de Elisabeth Nobling em São Paulo. O jornal trás várias reportagens de exaltação ao regime nazista Alemanha fazendo comparações negativas com o Brasil. Na entrevista concedida ao jornal, a artista vicentina sofre questionamentos sobre a influência da cultura africana em suas obras e se esquiva do tom racista das perguntas do entrevistador, explicando seus verdadeiros objetivos artísticos.



 

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LARGO 13 DE MAIO
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CONSELHEIRO NÉBIAS



Largo 13 de Maio no ínicio do século XX. Óleo sobre tela de Benedito Calixto. CD Room da Biblioteca Benedito Calixto. Santos-SP. É possível que a rua lareal de acesso ao largo seja a Rua do Colégio, antes denominada Conselheiro Nébias.



A escolha dos nomes das ruas faz parte de um ritual político e administrativo que envolve fatores explícitos e implícitos, ocultos e transparentes. Isso explica, em parte, porque muitos nomes de personalidades replicam em várias cidades sem que os homenageados tenham qualquer vínculo ou raiz com essas localidades. Muitas vezes é um modismo causado por algum fato que tornam essas personalidades heróis, mitos; ou ainda um evento mais amplo, desses que, da noite para dia, lançam nomes no rol da fama.

O guia de rua elaborado por Narciso Vital de Carvalho em 1978 informa que o Largo 13 Maio, que homenageava a abolição da escravatura, foi substituído pela luxuosa Praça 22 de Janeiro, com dimensões de um parque, escolhida para comemorar os 400 anos do descobrimento do Brasil. A mudança de nome foi acompanhada de uma reforma paisagística aparentemente simples e colocou no centro da mesma um monumento especialmente projetado por Benedito Calixto, exaltando as virtudes cívicas daquele acontecimento. O endereço sequente no edital, que ostentava o nome da figura do Conselheiro Nébias, personalidade santista e também nome de avenida em sua terra natal, foi trocado por rua do Colégio, exaltando a instituição histórica dos jesuítas com a sua segunda organização escolar mais antiga em nosso país.

No edital dos devedores de impostos dessas duas localidades constam 15 nomes e neles logo vem à tona as figuras de Antônio Militão de Azevedo, o qual já destacamos como proprietário no Porto Tumiaru,  e de Francisco Xavier dos Passos.



O primeiro é figura histórica da política conhecida entre historiadores e memorialistas, sobretudo Edison Telles de Azevedo, seu filho. Militão aparece como proprietário do lote número 5 do Largo 13 de Maio. Aparece também como primeiro nome do edital e da lista do Porto Tumiaru. Na edição de sábado do Correio Paulistano, de 11 de julho de 1914, seu nome aparece na coluna de Notas - que não era oficial, porém de destaque e em tom de denúncia ou mesmo ajuda ao prejudicado:

"O Sr. Antônio Militão Azevedo pediu à Secretaria da Agricultura a indenização de dez contos, pela occupação de um trecho dos morro dos Barbosas, de sua propriedade, com a collocação de cabos da ponte pênsil de S. Vicente".

A construção da ponte tinha sido iniciada em 2010, com tratativas entre o estado e a prefeitura, tendo na época sido negociada a transferência de garagens náuticas particulares e de um clube de regatas para outras localidades, como esclarece esse trecho da biografia do E.C. Tumiaru. Tudo indica que tais negociações não contemplaram Antônio Militão de Azevedo, que tomou providências para que fosse ressarcido em seus prejuízos, quatro anos depois do início das obras. A ponte foi aberta e inaugurada entre 21 e 24 de julho de 1914, sendo este acontecimento explorado durante meses na maioria das publicações jornalísticas da época.



Verbete do guia Conheça as Ruas de sua Cidade, de Narciso Vital de Carvalho, de 1978.



Notícia da morte trágica de Antonio MIlitão de Azevedo na Gazeta Popular de Santos. 01 de  abril de 1935.





"Um lindo aspecto da Praça 22 de Janeiro, em São Vicente, completamente remodelada na administração do sr. Polidoro Bittencourt". Foto-legenda: revista Flama, janeiro de 1944 (ano XXIII, nº 1). Site Novo Milênio. Editado por Carlos Pimentel. 


 CHICO BOTAFOGO



Francisco Xavier dos Passos em bico de Pena de Edson Telles de Azevedo



O segundo nome de destaque no edital do Largo 13 de Maio era Francisco Xavier dos Passos, lote número 2, um figura muito popular, de origem africana, conhecido com Chico Botafogo, músico de banda e puxador de rezas nas solenidades e festas religiosas. Foi imortalizado em bico de pena por Edison Telles de Azevedo e também como cidadão benemérito popular na obra Vultos Vicentinos. Na sequência de proprietários, no lote número 4, aparece o nome do proprietário Izaque Xavier dos Passos.

Chico Botafogo foi morador do Morros dos Barbosas e, segundo seu biógrafo, doou seu terrenos à Câmara por ocasião da construção do reservatório de água que alimenta a Biquinha de Anchieta. Seus vizinhos não tiveram a mesma esperteza e por isso foram intimados a prestar contas das suas propriedades. Eram os próprios Barbosas, descritos por Costa e Silva Sobrinho num artigo humorístico (que hoje seria facilmente atacado como racista) relatando o assédio e humilhação sofrida por membros dessa família no episódio de prestação de contas sobre seus terrenos. O memorialista os chama de "pardos forros" e classifica ironicamente a atitude deles diante das autoridades de "arrojo" :


"O problema da água é mais que secular nessa cidade; pois surgiu ele em 1822, quando a Câmara tratou de adquirir metade do Morro dos Barbosas. Pertencia este a diversos pardos forros, como Caetano Barbosa, Raimundo Barbosa, Domingos Barbosa, José Mariano Barbosa, Maria Barbosa, Inácia Barbosa e Mariana Barbosa. Intimados todos eles pelo Senado da Câmara para exibir o seu título de domínio e assinar um termo pelo comprometessem a não fazer novas plantações, e nem derrubar pau algum nas redondezas da fonte ali existente, recusam-se a apresentar o referido documento e não quiseram assinar termo algum. O juiz presidente e os vereadores estranharam esse tamanho “arrojo”, com que se atreveram eles a faltar às ordens do Senado e, por isso, mandaram que os recolhesse à enxovia. No mesmo instante um deles principiou a dizer que padecia de um reumatismo teimoso, outro que sofria de asma, outro que tinha uma lesão no coração, uma das mulatas, caipira esquiva como uma onça nova, pôs-se a chorar; e, em conclusão, acabaram acrescentando que não tinham dúvidas em assinar o termo que o Senado da Câmara determinasse e daquela hora em diante jamais plantariam nem cortariam árvores alguma na dita metade do morro. O morro inteiro lhes tinha custado 12$000. Para que não fossem prejudicados pagou-lhes a Câmara a metade dele 6$400. E assim conservou São Vicente, sob um docel verde de ramarias, a frescura das águas cantantes da fonte chamada outrora “dos jesuítas”.

Um correspondente do “Diário de Santos”, proclamando em 25 de dezembro de 1872, à excelência dessa água, escrevia:

'Muito me tem descontentado o estado em que se acha o nosso chafariz. Ali se encontra a melhor água conhecida, e não houve que não ficasse surpreendido, ao prová-la. É de tal forma leve e cristalina, que merece a atenção dos poderes públicos. Em vez de torneira, exite uma bica, fechada com um batoque de madeira, e o que mais me indigna é ver que em razão da enorme procura, do meio dia em diante, vai se manifestando bem sensível redução na água desse chafariz. Não se fez até hoje um reservatório, e estou vendo o momento em que ficamos de todos sem esse recurso. Em 1883 o Governo Provincial promulgou várias leis sobre canalização de água potável na vila de São Vicente. Em 1887 foi encarregado de fazer estudos a esse respeito o engenheiro dr. Luiz Coelho. A matéria, como se vê, poderá ministrar uma bela página à história da cidade; sem ficar no esquecimento que a história se repete e... os Barbosas se copiam'.


Costa e Silva Sobrinho, "Cenas e figuras do passado vicentino". Poliantéia Vicentina, 1982.


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 LARGO BAPTISTA PEREIRA



Largo Batista Pereira no início do século XX, com destaque para o prédio da Câmara-Cadeia e Ambulatório Médico, todos demolidos para a construção do Mercado Municipal. Ao fundo, o Morro dos Barbosas.


O Largo Batista Pereira tem um histórico secular de transformações e mudança de nome. Aqui foi o famoso Largo Santo Antônio da Igreja Matriz no século XVIII. No início do século XVIII recebeu os prédios da Câmara Municipal e Ambulatório Médico. No início do século ganha estação e linha de bondes com destino a Santos. No edital da prefeitura aparece o nome José Antonio da Silva Bastos,  (citado em 1873 pelo Almanak da Provincia de S. Paulo  como "proprietário capitalista"), titular do lote número 4.  

Posteriormente, já na segunda república, o largo é transformado em Praça João Pessoa, em homenagem ao famoso candidato a vice na chapa e Getúlio Vargas e cujo assassinato na Paraíba precipitou a Revolução de 1930. Nessa época, teve início a construção do Mercado Municipal, que ocupou o espaço da Câmara-Cadeia e Ambulatório, demolidos para este fim em 1929. 

Nos anos 1950-60 praça a chegou a ter um busto do pintor Benedito Calixto (desaparecido durante algumas reformas) e alguns estabelecimentos também desaparecidos, como o Seminário Católico entre as ruas Erasmo Schetzs e Djalma Dutra. 

No início dos anos 2.000 a praça sofreu uma intervenção turística com a criação do Parque da Vila de São Vicente, quando foi construída uma réplica de uma vila colonial, mantida até hoje. A Igreja Mariz e o Mercado Municipal são imóveis tombados pelo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Artístico e Arquitetônico.

 




Largo Batista Pereira. Antiga Casa de Câmara e cadeia, construção de 1729. 
Acervo Waldiney La Petina

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MARQUEZ DE S.VICENTE



Rua Marques de São Vicente em cruzamento com a Visconde de Tamandaré. Recorte de um mapa de 1932 mostrando os principais pontos geográficos do centro de São Vicente



Durante muitos anos foi chamada de Rua do Porto (Tumiaru). Essa denominação mais antiga é anterior ao século XVIII e alguma de suas edificações do período colonial e imperial sobreviveram nas primeiras décadas dos século XX. Um exemplo é a casa número 8, próximo ao Morro dos Barbosas, onde morou e faleceu em 1897 o Dr. José Rubim César, famoso advogado e orador oficial de São Vicente. A casa foi imortalizada pelo bico de pena de Edison Telles de Azevedo nas reportagens de A Tribuna e depois no livro Vultos Vicentinos.





Esta é a rua com maior número de logradouros e proprietários, indicando que a maioria eram moradores com repleta vizinhança nos dois lados. Ela começa no centro, na Praça João Pessoa, cruza a Almirante Tamandaré e a Capitão-Mór Aguiar, entra no Parque Bitaru e vai até os limites com a Vila Margarida, hoje dividida pela rodovia dos Imigrantes. Sua numeração no edital vai até o número 400. Hoje se estende até o 1072, quando termina numa viela com o mesmo número.

Os proprietários mais conhecidos da lista são aqueles cujos nomes foram citados como autoridades públicas, no histórico de ruas levam seus nomes ou ainda na conhecida coletânea de biografias "Vultos Vicentinos".

O primeiro deles é Eduardo Victor de Freitas, proprietário do logradouro número 9. Numa publicação de rede social, em maio de 2021, seu nome foi lembrado por nós com o bico de pena feito Edison Telles de Azevedo e o título "Boa cepa vicentina" exaltando seu casamento com uma moça também de família tradicional, formando um casal prolífico e de várias gerações de descentes.








Eduardo Victor Varias. Bico de Pena de Edison Telles de Azevedo. Vultos Vicentinos. 1972. 


"Este senhor casou-se há 139 anos, em 25 de novembro de 1882, na velha Igreja Matriz do Largo Santo Antônio. O padroeiro dos casamentos e dos pobres acertou em cheio no milagre. O noivo tinha 18 anos e sua noiva 13 anos de idade e trilharam um longo caminho conjugal de seis gerações de netos, bisnetos e tataranetos que continuam semeando descendentes até hoje em São Vicente. Para preencher a ausência dolorosa dos filhos mortos ainda menores, o casal adotou diversas crianças pobres e orfãs. Moravam em ampla residência na rua Marquês de São Vicente, 35, mais tarde demolida. Sua esposa, filha de portugueses, faleceu em 1939, aos 71 anos. Ele faleceu em 1956, aos 91 anos. Sua esposa era dona D. Amância Gonçalves, casados na Matriz de São Vicente, em 1882. O casal teve 18 filhos: Arabela, João Plácido, Eduardo Vitor, Conrado Manoel, Irene, Laudelina, Arminda, Herondino, Joaquim, Antônio, Caramuru, Heitor, João Cesário, mais cinco filhos que faleceram menores. Várias crianças sem recursos foram criadas pelo casal. D. Amância e Eduardo Vitor deram origem a seis gerações de 18 netos, 30 bisnetos e 5 trinetos e muitos tataranetos".  São Vicente na Memória. Dalmo Duue dos Santos.



Joaquim Dias Bexiga. Imigrante português, autodidata e inventor. Vultos Vicentinos. Bico de Pena de Edison telles de Azevedo. 

Um dos últimos proprietários da lista é Joaquim Dias Bexiga. Nasceu em Portugal, no Algarve, em 1862, vindo para São Vicente aos 20 anos de idade, trabalhando como carpinteiro, pintor, encanador e vidraceiro. Era um autodidata e também entusiasta do ensino. Em 1905 fez em sua residência a primeira instalação na cidade de um aparelho de gás acetileno, iniciativa que teve grande repercussão em toda a região. Sua criação logo foi reconhecido e levada à Santos, realizando iluminação da Igreja de Nossa Senhora do Carmo. No ano seguinte adaptou seu aparelho para iluminação pública. Sua oficina não se restringia a consertos e reparos, sendo alvo de curiosidade da população, que ali comparecia aos sábados e domingos para assistir suas demonstrações técnicas e aparelhagens inovadoras. Era casado com Dona Flora Gonçalves da Silveira e faleceu no ano de 1930 deixando muitos descendentes na cidade.

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PADRE MANOEL
20 
TRAVESSA DAS FLORES
21 
LARGO DA SANTA CRUZ
22 
SANTA CRUZ
23 
JOSÉ BONIFÁCIO
24 
RUA 24 DE MAIO




Casa do Coronel Júlio Maurício na Travessa da Flores (atual rua João de Souza). Bico de pena de Edison Telles de Azevedo. Vultos Vicentinos. 



Esses endereços, mesmo com a descaracterização da arquitetura original, possuem até hoje os traços antigos da vila vicentina, com algumas construções das primeiras décadas do século XX. A casa do Cel. Júlio Maurício, retratada no bico de pena de Edison Telles de Azevedo e já demolida, era do século XIX ou XVIII. Seu subsolo, como em toda a vizinhança, deve esconder vestígios da época colonial e do império. As ruas ainda são estreitas e quem passa nelas durante a noite têm a nítida impressão de estar caminhando em outros tempos e até podem ter uma repentina crise "déjà-vu", sobretudo entre alguns trechos das atuais ruas João de Souza, Djalma Dutra e 13 de Maio. O mesmo acontece na Erasmo Schetz, bem como nas primeiras quadras próximas ao Morro dos Barbosas. São poucos minutos nos quais suas mentes descansam e suas memórias inconscientes lhe proporcionam emoções e sentimentos que não conseguem explicar.

Em tempo: a rua Santa Cruz antes era denominada rua das Sete Casas; e a rua 24 de Maio é hoje a rua 13 de Maio.

Aos poucos essas antigas casinhas e prédios foram desaparecendo pela força do comércio e da pressão demográfica. Mas algumas resistem bravamente e desafiam a imaginação de alguns transeuntes, que fazem questão de cortar caminho por elas, desviando das barulhentas praças e avenidas tomadas pelos automóveis e ônibus.


Rua Santa Cruz (antiga rua das Sete Casas) esquina com a avenida Capitão Mór Aguiar.


Já na rua José Bonifácio as transformações foram mais rápidas, tanto pela proximidade do centro comercial como da orla. Nas suas quatro quadras, entre a avenida da praia e a rua XV de Novembro, ainda restaram algumas casas antigas, porém nenhuma delas são do período registrado no edital do prefeito Antão Alves de Moura. Aliás, na publicação oficial de 1909 só consta um proprietário: Arthur Ricardo, número 2. Fotos aéreas de 1932, feitas pela visita da Esquadrilha de Aviação Naval, mostram que quase toda essa área da orla era desocupada, tendo apenas algumas construções horizontais. A proximidade da orla resultou também numa verticalização em alguns pontos, incluindo os dois blocos do shopping center , formando uma área de duas quadras com as rua José Bonifácio, Padre Anchieta, Tibiriçá e Frei Gaspar. Os dois blocos dessa construção são ligados por uma passarela de ferro em arco erguida sobre a rua Jacob Emmerich.


Escola do Povo na esquina da rua das Flores com o Largo Batista Pereira. Bico de pena de Edison Telles de Azevedo. Vultos Vicentinos. Abaixo, a mesma imagem registrada em fotografia durante a realização de obras públicas nos início do século XX. O móvel foi demolido para dar lugar a um edifício de lojas comerciais com apartamentos residenciais. 



Na ordem: rua Djalma Dutra na direção da Praça João Pessoa (antigo Largo Batista Pereira); rua 13 de Maio (antiga 24 de maio);  novamente Dijalma Dutra esquina com a rua João de Souza (antiga Travessa das Flores); e rua Santa Cruz na direção da Visconde de Tamandaré.  


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 JACOB EMMERICH 




Foto de encerramento do ano letivo das escolas públicas de São Vicente, em 10 de dezembro de 1904, na esquina da rua Jacob Emmerich com a rua XV de Novembro, vendo no grupo o Intendente Salvador Leal e o Inspetor Literário Militão Azevedo. (Poliantéia Vicentina, 1982)



Essa antiga rua que vai da Orla, passa pelo centro e termina no Bitaru era antigamente denominada "Rua Municipal", indicando que sofreu transformações sucessivas de extensão, cruzamento e logradouros durante várias décadas do século XX e XXI. Até o final dos anos 1970 era repleta de casas residenciais e também alguns sobrados e mansões de veraneio de famílias paulistanas, a maioria demolidas, outras escondidas atrás de novas fachadas comerciais e algumas milagrosamente preservadas, certamente porque seus terrenos não estão nos padrões da construção de edifícios altos.


Ignácio Requejo, Paulino José Ratto e Gregório Ignácio de Freitas



Aparecem na lista do edital vários nomes históricos e conhecidos: Antônio Pinto Amorim (17); Alexandre Kealman - Cônsul inglês (18 e 20), cujo filho Donald Alexandre depois residiu em uma mansão na Presidente Wilson com Visconde do Rio Branco; Paulino José Ribeiro Ratto (16); o comerciante espanhol Ignácio Requejo (24), este morava num chalé, mais tarde alugado, onde funcionou a delegacia de policia; os herdeiros de Gregório Ignácio de Freitas (26); e Leôncio Ratto. Aparece também um proprietário comercial: The City Off Santos Company, cujo número 22 provavelmente seja a garagem de bondes onde hoje é a praça Barão.

Sobre a família Ratto, a descendente Ana Maria Ratto nos concedeu essa narrativa geneológica:

"Paulino José Ribeiro Ratto (1815 e 1875 ) foi vereador na Câmara de São Vicente, casado com Constança Teixeira Ratto, tiveram os filhos Quintino Ratto, casado com Lucília Barroso Ratto; Leôncio Ribeiro Ratto casado com Honorina Cardoso; Mariana Ratto, casada com Dr. Heitor Peixoto; Ruy Ribeiro Ratto, casado com Waleska Petersen Browne (que são os meus avós), trabalhava na Bolsa do Café e ela inglesa filha de um engenheiro que veio ao Brasil construir a estrada de ferro Santos-Jundiaí, da São Paulo Railway Company. Tiveram os filhos Dr. Octavio Ribeiro Ratto, Marina R. Ratto, Flávio Ribeiro Ratto e Ruy Ribeiro Ratto, meu pai: ele nasceu na residência da rua Frei Gaspar número 67, conforme a certidão de nascimento. Ele foi atleta do Clube Tumiaru, sendo tetracampeão de Polo Aquático e competia na natação também, chegando a ser diretor esportivo do club no Vôlei". 


Mansão que foi residência da família de Ivo Roma Nóvoa, chefe da sucursal de A Tribuna em São Vicente. Já serviu de instalações de vários empreendimentos comerciais.


CONSERVATÓRIO DA TIA MIMI

Em frente ao muro dos fundos da Casa do Barão ainda existe uma casa da onde funcionou durantes muito anos a conhecida escola de música da Tia Mimi, muito frequentada pelas crianças de classe media e alta da e que marcou época na vida cultural da cidade. O músico, catedrático em filosofia e professor da Unesp, Ubirajara Rancan de Azevedo Marques, em um artigo denominado "Instantâneos" recorda esse marcante período da vida vicentina :

"Por volta dos 4 anos, passei a compor a “bandinha rítmica” de iniciação musical de Tia Mimi,Dona Mimi, Maria Guilhermina Martins Machado, querida professora de piano que, em sua residência na João Ramalho, 432, recebia com grande carinho e dedicação crianças cuja musicalidade natural ela pacientemente disciplinava. Mas não era como uma espécie de confirmação do dito: “Filho de peixe, peixinho é” que eu lá me encontrava. Muito mais do que viria a ocorrer depois, e sobretudo ocorre nos dias de hoje,um relativo grande número de meninos e meninas receber alguma educação musical era prática bastante corriqueira entre as famílias de classe média da época. Assim, embora filho do Maestro Jesus—José Jesus de Azevedo Marques, havia relativo bom tempo o Diretor de Cultura Artística da Prefeitura Municipal de São Vicente -, eu era somente mais uma criança que, antes de ser alfabetizada, aprendia aos poucos a decodificar os signos inscritos nas partituras.

Além do piano, com o qual unicamente se ocupava Tia Mimi, acordeão e violão eram os dois outros instrumentos preferenciais a que se dedicavam as criançasdaquele tempo; ao ladodeles—mas como quepor naturezavoltado exclusiva ou preferencialmente às meninas—, o balé. Ao menos de saída, não importava ter ou não talento específico para tais aprendizados, pois a questão não era de índoleartística, senão que, em sentido amplo, de natureza político-formativa.

Parte de um processo civilizatório cujo motor de arranque próximo era o desenvolvimentismo econômico, essa modelação do gosto na São Vicente dos anos 60 convivia com outros elementos remissíveis à mesma base estrutural. No caso da música, do piano, seu teclado, dir-se-ia que, fazendo-lhe contraponto,outro teclado também se mostrava então protagonista, ambos compondo a mesma cena geral desenvolvimentista-civilizadora. É assim que, embora remontando a bem antes, os muito concorridos “cursos de datilografia” serviam ao propósito de bem qualificar a crescente mão de obra do setor de serviços, tal como, na ponta oposta, os cursos de música e balé propunham-se à educação do gosto, conforme o compasso geral das novas imposiçõesda vida urbana. Com isso, os que podiam beneficiar-se duma educação musical refinada eram às vezes os mesmos que, ao diploma de piano do conservatório, juntavam-lhe o da escola de datilografia.

Evidente que ambos os teclados, escolas e objetivos podiam conviver harmoniosamente, cada qual em seu âmbito; mas é como seo da máquina de escrever- compreensivelmente, por sinal, já que tencionávamos ascender de subdesenvolvidos para em-desenvolvimento, de periféricos para emergentes—simbolizasse a atenção preferencial da grande maioria pela atividade econômica geradora de riqueza material,reforçandoa consequente estigmatização do ócio [lugarcomo que natural da música], o abandono progressivo de ritmose andamentos generosos para com uma certa criatividade musical e artística, que, juntoao [economicamente contraditório] progressivodepauperamentodo ensino formal e da cultura geral, faria logo mais com que aquela educação do gosto, numa inversão do alcance que lhe parecia originalmente reservado, deviesse cada vez mais elitizada".

CALUNGAH -História de São Vicente, Memória da Música e da Cultura.



Casa onde funcionou nos anos 1950 e 1960 o  Conservatório da Tia Mimi.


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 PRAÇA CORONEL LOPES

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LINHA DOS BONDS DA CIA. CITY




Coreto da Praça da City. Ao fundo a Escola do Povo e residências aristocráticas no entorno e na rua Padre Anchieta.


Praça construída originalmente pela Companhia City de bondes e que nas décadas seguintes ficou conhecida como Praça do Correio. 

É também a praça da Escola do Povo, a primeira edificação construída especificamente para essa função, tornando-se nas décadas posteriores sede da escola técnica Ruth Cardoso. Anteriormente teve s nome de Professora Zina de Castro Bicudo e também "Grupão". 

Bem diferente da sua função original, a praça atual ainda mantém o prédio do Correio, que divide espaço com diversos estabelecimentos comerciais. Em frente ao Correio e a na esquina da rua dos Expedicionários ainda está a sede social do E.C Tumiaru, erguida nos anos 1950. Na parte que fica de frente para a rua João Ramalho foi construído pela prefeitura o chamado "camelódromo", espaço coberto para “box” de comércio informal. Do lado oposto, de frente para a Praça da Bandeira, a praça foi ocupada por uma lanchonete com estacionamento e atendimento para clientes com veículos motorizados, também por concessão da prefeitura.

No edital constam como proprietários de imóveis na Praça Cel. Lopes dois cobradores de bondes da Linha do Bondes da City: João Wenceslau Emmerich e José dos Santos Amorim. 


A COMPANHIA CITY

Carlos Pimentel Mendes

Fundada em Londres (Inglaterra) em 1880, a The City of Santos Improvements & Company Ltd. (conhecida como a City) era destinada à exploração de serviços públicos em Santos.

Em 7 de maio de 1881, um decreto do Governo Imperial (assinado pelo ministro e secretário de Negócios e Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Manoel Buarque de Macedo) autorizou a empresa a funcionar no Brasil.

Um mês depois, a empresa incorporou ao seu patrimônio a Companhia Melhoramentos de Santos (que em 21 de fevereiro de 1870 tinha contratado com a municipalidade a prestação de serviços de distribuição de água, iluminação a gás e transporte de passageiros e cargas sobre trilhos), passando a prestar esses serviços.

Os primeiros diretores da City foram D.M. Fox (chairman), ocupando o cargo até 1916; E.J. Haloey, M.H. Mosca e o coronel João Frederico Russel, este último integrando desde 1868 a Cia. de Melhoramentos. Para gerente geral da organização foi nomeado, a 12 de dezembro de 1881, H.K. Hoyland, desempenhando o cargo até aproximadamente 1892/93.




Ampliação - Como registra o livro Poliantéia Vicentina (Editora Caudex, 1982), já em 1881, a City anunciava, através dos jornais, novas instalações de água e gás, assim como a prolongação horária de alguns dos seus serviços de bondes (até as 2 horas).

Em 1890, a City vendeu à Cia. de Melhoramentos de São Paulo algumas das linhas que recebera da Cia. Melhoramentos de Santos. Este patrimônio voltou a ser da City em 20 de fevereiro de 1904, quando adquiriu a Cia. Paulista de Viação, que tinha por sua vez incorporado as linhas da Emmerich e Ablas, da Éboli e Cia., do dr. João Éboli e da Cia. Ferro Carril Santista.

Adquiriu também, em março de 1908, a Ferro Carril Vicentina, passando a ter o monopólio do transporte urbano na orla santista. A City fez trafegar o primeiro bonde elétrico de Santos a São Vicente (via Matadouro) em 24/5/1909 (em Santos a 28/4/1909).

A Lei nº 14 de 10/3/1908 autorizou a assinatura do contrato entre a municipalidade de São Vicente e a City (firmado quatro dias depois), dando a concessão do serviço de transportes por bondes elétricos a essa empresa.



A partir de 1913, a City passou a ser gerenciada por Bernardo Browne, que iniciou grandes obras e serviços no sentido do progresso de Santos:

coreto para retretas na praia (ao lado do Canal 2);

o primeiro campo de futebol iluminado da América do Sul (na Rua Tolentino Filgueiras, inicialmente na esquina da Avenida Washington Luiz e depois mudado para a esquina da Rua José Caballero, em Santos), com campo murado. Posteriormente, desfez-se do terreno e construiu outro no bairro do Jabaquara, junto à Santa Casa, também iluminado;

jardins públicos, junto às suas estações ou subestações de bonde ou transformadoras de eletricidade, tais como na Vila Mathias, no Boqueirão, no Marapé e em outros bairros santistas;
O coreto e parte do Jardim da City em 1944,
já com manutenção feita pela prefeitura vicentina

um famoso rinque de patinação na Rua XV de Novembro, esquina com a Rua Jacob Emmerich, em São Vicente;

o belo Jardim da City, atual Praça Coronel Lopes (São Vicente), inteiramente cercado e asfaltado, com vários recantos em elevação, com muitos bancos e iluminação, tendo ao centro o coreto para retretas públicas que já existia na época, depois ampliado para receber grandes espetáculos públicos, inclusive cinema e bailes populares;

excursões de bonde aos domingos à Ilha Porchat e à Biquinha de São Vicente, bem como ao Porto Tumiaru, local muito procurado por sua produção de bananada.

O prédio-sede da City, na Praça dos Andradas (depois ocupado pela Eletropaulo, foi o primeiro da América do Sul a ter ar condicionado central, refrigerando todas as suas dependências.


Usina de gás da City, na Rua Marquês de Herval (bairro do Valongo),
que abastecia Santos de gás encanado
Foto: Poliantéia Santista

Os serviços de transportes coletivos em Santos e São Vicente foram mantidos pela City até 1951, quando Santos municipalizou o transporte através do Serviço Municipal de Transportes Coletivos (SMTC). O serviço de água funcionou até 1953 em Santos, São Vicente e Cubatão, passando ao governo estadual.

Os serviços de eletricidade, iniciados pela City na primeira década do século XX (em São Vicente, o contrato foi assinado em 5/3/1908), foram transferidos para a Light em 1967. O fornecimento de gás encanado terminou em 1965, quando da explosão do gasômetro situado na Rua Pêgo Júnior, na Vila Mathias.

ITINERÁRIOS 

Carlos Pimentel Mendes

Bonde Nº 1 - São Vicente via Matadouro
Ida - Praça dos Andradas, esquina da Rua Visc. de São Leopoldo, Rua Visc. de São Leopoldo, Largo da Saudade (Saboó), Av. Bandeirantes, Rua Nossa Senhora de Fátima (Matadouro), Av. Antonio Emerich, Praça Coronel Lopes, Rua Frei Gaspar, Rua 15 de Novembro, Rua Jacob Emerich, Praça Barão do Rio Branco.
Volta - Praça Barão do Rio Branco, Rua Martim Afonso, Praça Coronel Lopes, Avenida Antonio Emerich, Rua Nossa Senhora de Fátima (Matadouro), Av. Bandeirantes, Largo da Saudade, Rua Visc. de S. Leopoldo, Rua Visc. de Embaré, Praça dos Andradas.

Bonde Nº 2 - São Vicente via Praias

Ida - Praça Mauá (Abrigo dos Bondes), Rua Cidade de Toledo, Rua Augusto Severo, Praça Barão do Rio Branco, Praça da República, Rua Senador Feijó, Rua Rangel Pestana, Av. Ana Costa, Praça da Independência (Gonzaga), Av. Presidente Wilson (José Menino), Av. Manoel da Nóbrega (S. Vicente), Av. Presidente Wilson (S. Vicente), Rua Pêro Corrêa (S. Vicente), Rua 11 de Junho (S. Vicente), Av. Antonio Rodrigues (S. Vicente), Av. Pedro de Toledo (S. Vicente), Rua Frei Gaspar, Rua 15 de Novembro, Rua Martim Afonso (S. Vicente), Rua Padre Manoel (S. Vicente), Rua Marquês de S. Vicente, Rua Capitão Mór Aguiar, ponto final.

Volta - Rua Capitão Mór Aguiar (S. Vicente), Rua Marquês de S. Vicente (S. Vicente), Praça João Pessoa (S. Vicente), Rua Padre Manoel (S. Vicente), Rua Martim Afonso (S. Vicente), Praça Barão do Rio Branco (S. Vicente), Rua Frei Gaspar (S. Vicente), Av. Pedro de Toledo (S. Vicente), Av. Antonio Rodrigues (S. Vicente), Rua 11 de Junho (S. Vicente), Av. Manoel da Nóbrega (S. Vicente), Av. Presidente Wilson (José Menino), Av. Ana Costa (Gonzaga), Praça da Independência, Av. Ana Costa, Rua Rangel Pestana, Rua Senador Feijó, Praça José Bonifácio, Rua Amador Bueno, Rua Dom Pedro II, Praça Mauá.



Conhecida como Pedra do Ladrão e depois demolida com as obras de urbanização da área, esta rocha dominava em 1915 a Praia do Itararé, como se nota nesta foto. Ao lado da rocha, o bonde da linha 2, que fazia a ligação entre São Vicente e Santos via praias.


LINHAS NOTURNAS:


Bonde Nº 71 - São Vicente - Via Matadouro
Ida - Praça dos Andradas (esquina da Rua Visconde S.Leopoldo), Largo da Saudade (Saboó), Av. Bandeirantes, Rua Nossa Senhora de Fátima (Matadouro), Av. Antonio Emerich, Praça Coronel Lopes, Rua Martim Afonso, R. Frei Gaspar, Rua 15 de Novembro, Rua Jacob Emerich (esquina da Rua Martim Afonso).

Volta - Rua Jacob Emerich, Rua Martim Afonso, Praça Barão do Rio Branco, Praça Coronel Lopes, Av. Antonio Emerich, R. Nossa Senhora de Fátima (Matadouro), Av. Bandeirantes, Rua Visc. de S. Leopoldo, Rua Visc. de Embaré, Praça dos Andradas.

Bonde Nº 72 - São Vicente - Via Praias
Ida - Praça Mauá (Abrigo dos Bondes), Rua Cidade de Toledo, Rua Augusto Severo, Praça Barão do Rio Branco, Praça da República, Rua Senador Feijó, Praça José Bonifácio, Rua Senador Feijó, Rua Rangel Pestana, Av. Ana Costa, Pr. da Independência, Av. Ana Costa, Av. Presidente Wilson, José Menino, Av. P. Manoel da Nóbrega, Av. Presidente Wilson, Rua Pêro Corrêa, Rua 11 de Junho, Av. Antonio Rodrigues, Av. Pedro de Toledo, Rua Frei Gaspar, Rua 15 de Novembro, Rua Jacob Emerich (esquina de Martim Afonso).
Volta - Rua Jacob Emerich, Praça Barão do Rio Branco, Rua Frei Gaspar, Av. Pedro de Toledo, Av. Antonio Rodrigues, Rua 11 de Junho, Av. Padre Manoel da Nóbrega, José Menino, Av. Presidente Wilson, Av. Ana Costa, Praça da Independência, Av. Ana Costa, Rua Rangel Pestana, Rua Senador Feijó, Praça José Bonifácio, Rua Amador Bueno, Rua Dom Pedro II, Praça Mauá.

CHEGAM OS BONDES ELÉTRICOS -1873

A viagem inaugural começou às 10 horas na Rua São Leopoldo esquina com São Bento em Santos, passou pela Avenida Ana Costa, praia do José Menino, praia do Itararé e terminou no porto Tumiaru (final da Av. Capitão-Mór Aguiar em São Vicente).





O bonde 2 na divisa de municípios Santos/São Vicente (praia santista do José Menino e vicentina do Itararé), no início do século XX.








Retrato de Alexandre Kealman feito num estúdio no balneário suiço de Montreux


Alexandre Kealman, de origem britânica, era casado com a norte-americana Maude Davies. A cerimônia de núpcias deles foi assim descrita em um jornal de Nova York: "O Sr. Alexander Kealman, que servia em Sydney, mas agora servirá em Santos, Brasil, está atualmente em lua de mel em Londres. Casou-se em 21 de abril com a Srta. Maude Davies, filha do Sr. Richard Davies, de Nova York. A cerimônia aconteceu  às 20h30, na Igreja da Paz  Celestial. O laço nupcial foi amarrado pelo Dr. Darlington, do Brooklyn, auxiliado pelo Dr. Parker Morgan, cerimônia seguida  de um jantar elaborado, servido em pequenas mesas , na casa dos pais da noiva, nº 67 West Seventy-sixth-street, segundo nota do New York Tribune. Da mesma fonte, ficamos sabendo que o vestido da noiva era de cetim marfim, enfeitado com renda point d'applique. Seu véu de tule foi fechado com espuma de diamante, um presente do noivo. Miss Alice Glebert era a dama de honra (não havendo noivas), e o Sr. Albert Davies, irmão da noiva, era o padrinho do Sr. Kealman. O feliz casal veio para a Europa pela Campânia, e daqui a um mês parte para Santos, sua futura casa".


Nota do jornal New York Tribune sobre o casamento de Alexandre Kealman e Maude Davies




 Praça e à direita a garagem dos bondes da Companhia City, atual praça Barão. Ao fundo as rua Jacob Emmerich , Martim Afonso e o Morro dos Barbosas. Novo Milênio. 


A presença de técnicos europeus em São Vicente e Santos, a partir de 1850 até as primeiras décadas do século XX, na maioria da vezes estava relacionada à implantação e construção da ampla malha ferroviária financiada pelo governo do estado. As linhas ligavam o interior à Capital e esta ao porto de Santos, principal ponto de importação e escoamento da produção cafeeira. Muitos desses técnicos e executivos de empresas estrangeiras estabeleciam residência em São Vicente em função da tranquilidade e do clima ameno da pequena vila balneária.  Na lista do edital eles aparecem em quase todas as ruas. No imóvel número 34 da Jacob Emmerich, por exemplo,  residia em 1909 o engenheiro italiano Silverio Pandozzi, nascido em Comune di Lenola, na província de Latina. Ele veio residir no Brasil para prestar serviços na construção da Estrada de Ferro Santos-Mayrink. Pandozzi chefiava uma divisão especializada na construção de túneis, atalhos que davam maior velocidade e segurança aos percursos das linhas e que exigia alta perícia de perfuração por meio de explosivos. O engenheiro fixou-se em São Vicente onde se casou  com a vicentina Carolina Maria de Barros. 

Silvério e Carolina (de Barra do Una) se conheceram e se uniram de forma curiosa, porém muito comum naquela época. Ele foi realizar alguns serviços no litoral sul e, na passagem por Peruíbe, conheceu a jovem Carolina, que 12 para 13 anos. Perguntou pela sua família e ela respondeu que não tinha família e que morava com pessoas que a criavam. Silverio percebeu  que ela precisava partir e propôs para ela que esperasse  alguns dias dizendo que levaria ela embora com ele. E realmente aconteceu. Trouxe Carolina para São Vicente e se casaram. Tiveram oito filhos: Carmela, América, Ida e Maria (gêmeas), Pascoalina, Silvério, Teresa e Galileu. (relato da bisneta Christiane Távora)


Obras da Estrada de Ferro Sorocabana, 5ª Divisão - Estudos e Construções da Linha Mayrink-Santos, Quadro de pessoal técnico, administrativo e Operário, a partir de 1º de janeiro de 1934. Silvério Pandozzi  era  administrador do Trecho S.1.  e nesta foto é o primeiro à esquerda, em pé, de chapéu e colete preto. Acervo Waldiney La Petina. 



O engenheiro Silvério Pandozzi com  filhos  no quintal da casa na rua Jacob Emmerich. A moça ao seu lado é sua filha Ida Pandozzi, que se casaria com o jovem Moacyr Lapetina, também de família  vicentina, de origem italo-brasileira. Acervo: Waldiney La Petina.  


Cópia de carta de Silvério Pandozzi de 1933 ao executivo da Ferrovia Mayrink-Santos, Dr. Guilherme Brown, solicitando uma declaração que atestasse sua função de administrador do trecho da ferrovia entre 1912 e 1914. Nessa carta, o endereço da rua Jacob Ememerich já aparece com numeração alterada, de 34 para 188. 
 



Trechos da rua Jacob Emmerich: na direção do centro. na esquina com a rua Ypiranga e  próximo à orla, esquina com visconde do Rio Branco. 


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FREI GASPAR


Bar do Esporte, na rua Frei Gaspar com a rua Martim Afonso.


Na rua Frei Gaspar, a mais extensa e que corta toda a ilha de São Vicente, da orla até o lago Pompeba, aparecem com os mesmos conhecidos nomes citados na rua Jacob Emmerich e com número bem maior de logradouros: Leôncio, Paulino e João Carlos Ratto (9, 11 e 22), a The City Of Santos Company (23) e destacados proprietários: Frederico Roth (4), Dr. José da Costa B.P. Neves (14 e 16), Julião Caramuru (34), filhos d Dr. Silva Jardim (36), Vicente Gil(do 40 ao 46), Francisco Lapetina (58), Antão Alves de Souza (48) e outros.

É interessante lembrar que o número 34 é a famosa Mansão Caramuru, cujos herdeiros de Julião Caramuru venderam para o advogado vicentino Magino Bastos. Sua viúva, Dona Maria Emília Basta e seu filho Tude Bastos (também vereador e emancipacionista de Praia Grande)  venderam o imóvel para a prefeitura em 1919. Segundo o Boletim Cléllula Mater (de fevereiro de 1998), a transação imobiliária foi feita pelo prefeito João Francisco Bendorp no 3° Tabelionato de Santos em nome do Município de São Vicente. Depois de uma reforma, ali funcionou a Câmara Municipal e Prefeitura, em 1929, permanecendo ali até nos dias atuais. 



Residência da família Wolf na rua Frei Gaspa, que tinha vizinho Julião Caramuru, cuja casa se tornaria Câmara Municipal e depoi sede da prefeitura, na esquna com a rua Tibiriçá. Acervo do IHGSV.


A rua Frei Gaspar sempre foi um endereço cobiçado pelos comerciantes e prestadores de serviços, pela sua posição intermediária no centro da cidade e de grande fluxo de transeuntes e consumidores. Até hoje tem o metro quadrado comercial vai valioso do centro da cidade, abrigando pontos de negócios estratégicos e construções históricas como o Edifício Gáudio, a Casa do Barão, o Edifício Zufo (Alto Falantes Royal) e o Café Floresta - ambos na esquina da Praça Barão -  a sede da Irmandade da Santa Casa de São Vicente e a Fábrica de Vidros. Nela também, logo após a quadra do Hospital São José,  foi fundada, nos anos 1950, a Sinagoga Espírita Cáritas, em homenagem aos comerciantes judeus anônimos que contribuíram para a aquisição do terreno e construção do prédio da entidade. A S.E. Cáritas mantinha uma obra assistencial denominada Fraternidade Cristã, com albergue noturno, clínica dentária e uma conhecida biblioteca pública para pesquisas escolares. Na época, centenas de alunos procuravam a Biblioteca Municipal de Santos para fazer suas pesquisas, se locomovendo de bonde até o centro da cidade. A biblioteca do Cáritas supriu boa parte das necessidades dos estudantes que não podiam cobrir o custo da passagem para ir até Santos.



 
Mansão Caramuru já como sede da Câmara Municipal no anos 1920. Poliantéia Vicentina (1982). 

  

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JOÃO RAMALHO


Prédio e casas da Vila Aralinda  nos anos 1960. Fundação Arquivo e Memória de Santos.  


A rua João Ramalho aparentemente não sofreu nenhuma mudança na sua extensão desde quando foi traçada e ocupada pelos seus primeiros proprietários e moradores. No edital ela está dividida em dois blocos, entre os números 507 e 508 e chama atenção pelos altos valores locativos e dos impostos, significando que os mesmos eram grandes áreas. O imóvel 36, de João Carlos Ratto é o maior da lista, atingindo o valor de 2400$000 e 144000$000 de impostos. Hoje a rua ainda é dividida entre centro e a orla, começando na rua Ypiranga e terminando na praia do Gonzaguinha. Continua sendo uma rua residencial, com pouca verticalização de moradias.  

FAMÍLIA HOLL

No edital de 1909 aparece como proprietário do lote número 8  o Sr. João Holl Júnior. Entretanto, em nota de falecimento de sua esposa D. Zoé Holl, publicada em 31 de março de 1932 na Gazeta Popular, de Santos, ele, também falecido, é citado como morador do número 14. A nota esclarece que João Holl Júnior - que trabalhou como gerente do Banco do Comércio e Indústria em São Vicente - e sua esposa tiveram os seguintes filhos: Alfredo Hirão Holl, João Júlio Holl, Eugênio, Henrique, Kurt e Roberto Holl; e das senhoras Elza e Edite Holl.




A CASA SOBREVIVENTE

Na esquina com a Visconde do Rio Branco ainda está em pé uma dessas construções antigas que serviu de residência nas décadas do século XX e depois ocupada durante muitos anos por um curso de línguas. Hoje está alugada para a Diretoria Regional de Ensino. No terreno foi construído um prédio de quatro andares, anexo à antiga mansão que foi modificada por dentro e preservada na sua parte exterior. Não se sabe se este imóvel está na lista do edital, por causa da numeração modificada e também e também porque pode ter sido vendido aos atuais proprietários.

Os bondes elétricos da City of Santos Improvements Co., sucederam os bondes puxados por burros que duraram de 1873 a 1909. A etapa seguinte, em novembro do mesmo ano, foi a implantação de um outro tipo de veículo: os bondes ainda tinham tração animal, mas corriam sobre trilhos de ferro tornando as viagens mais rápidas e confortáveis. A empresa que implantou o sistema era de Jacob Emmerich e Henrique Ablas, que, em 28 de outubro de 1875 fizeram mais uma inovação: uma linha de bitola larga entre Santos e São Vicente. No trecho final da viagem (hoje Av. Antonio Emmerich), os burros eram substituídos por máquinas a vapor.A primeira linha urbana de bondes em São Vicente foi inaugurada em 1902 por João Éboli. Três anos depois, a Câmara autoriza a Cia. Carril Vicentina a explorar uma linha de bondes de tração animal entre o porto Tumiaru e o José Menino.

Casamentos e enterros - O uso do bonde estava tão disseminado nessa época que havia bondes especiais.Os destinados a festas e casamentos eram enfeitados com cetim branco, flores de laranjeira e eram puxados por parelhas de cavalos normandos. Para os enterros, os carros levavam crepe negro e eram conduzidos por duas ou três parelhas de cavalos também, negros, empenachados e cobertos por xaréus. Haviam ainda bondes destinados ao transporte de cargas, encomendas e o bonde socorro para acidentes. (Boletim do IHGSV).

A COMPANHIA CARRIL VICENTINA

 CARLOS PIMENTEL MENDES

As máquinas fixas que tinham sido usadas pela Light & Power, em São Paulo, em 1899, foram adquiridas pela Empresa Ferro Carril Santista. Em meados de 1903, essa empresa foi reorganizada, quando passaram a diretores Júlio Conceição e James Mitchell. Nesse mesmo ano apareceram os "bondes fúnebres", que se encarregavam de levar o caixão e seus acompanhantes, até o cemitério.

Em 20 de fevereiro de 1904, a The City of Santos Improvements Company Ltda. - a City - adquiriu os bens e direitos da Empresa Ferro Carril Santista.

Em 18 de fevereiro de 1905, foi organizada nova empresa para ligar o José Menino a São Vicente, por meio de bondes.


Foto de 1910 (antes da construção da Ponte Pênsil em 1914), com o trilho do bonde junto à areia da praia em S.Vicente, área da atual Av. Pedro de Toledo

Em sessão extraordinária de 19 de março de 1905, a Câmara Municipal deu concessão aos srs. Antônio de Freitas Guimarães, Dr. Ewbank da Câmara, Alberto Drummond e Antônio Augusto dos Santos, para a construção de uma linha de bondes, partindo de São Vicente até o Itararé. A empresa denominou-se Cia. Ferro Carril Vicentina, sendo instalada no dia 6 de maio de 1905.


Bonde passa pela Pedra dos Ladrões, em 1915 (a rocha foi depois demolida)

A 14 de agosto desse ano - 1905 - os trilhos da Ferro Carril Vicentina já estavam com uma extensão de 4 quilômetros, com o assentamento de trilhos "no local denominado Pedra dos Ladrões, aquém da Ilha Porchat". Esta linha foi inaugurada em 19 de setembro de 1905.

Três anos depois, em 8 de janeiro de 1908, a assembléia geral dos acionistas da Ferro Carril Vicentina deliberou vender todo o seu acervo. A Cia. City adquiriu todos os bens em 6 de maio de 1908.


Quiosque usado pelos funcionários da Cia. City na Vila Mathias, em 1928

Bondes elétricos - A Cia. City inaugurava a 13 de maio de 1905 a linha de Vila Macuco. Pela lei nº 228, de 1º de agosto de 1906, a Prefeitura de Santos foi autorizada a contratar com a Cia. City os serviços de bondes elétricos, na cidade de Santos, que não implantou, de pronto, esse sistema.

Em meados de 1907, foi apresentada à Câmara Municipal uma proposta dos srs. Edgard de Souza e Clóvis Glicério, que se propunham a estabelecer linhas de bondes elétricos em Santos. O coronel Cincinato Costa, na época Intendente Municipal, não permitiu a assinatura desse contrato, devido à Lei nº 228, de 1906, que outorgara tal concessão à Cia. City.


Praia do Itararé e região de Boa Vista, em 1915, logo após a Pedra dos Ladrões, vendo-se ainda a baía e os morros do Tumiaru e Barbosas

Foto: álbum Exploração do Littoral - 1ª secção - Cidade de Santos á fronteira do Estado do Rio de Janeiro, da Commissão Geographica e Geologica do Estado de S. Paulo, impresso por Typographia Brazil de Rothschild Co., S. Paulo, 1915.


Foto enviada a Novo Milênio pelo jornalista Miguel Netto

A primeira linha de bondes elétricos a trafegar em Santos foi a nº 2 - São Vicente via Praia - inaugurada a 28 de abril de 1909, que saía do centro de Santos, passava pela Vila Mathias, descia a Av. Ana Costa e seguia pela praia, subia a Rua Frei Gaspar (São Vicente), fazendo ponto final na Estação da City, na praça, hoje Barão do Rio Branco, em São Vicente. O primeiro carro foi dirigido pelo sr. Augusto Batista.


Bonde 2 na divisa de municípios Santos/São Vicente, na praia do José Menino,
vendo-se ainda a ilha Urubuqueçaba

Fora da ordem - As linhas de bondes elétricos nºs 1 e 2 tomaram essa numeração pela ordem das datas programadas para suas respectivas inaugurações. A primeira linha a ser inaugurada, obviamente, seria a nº 1, que ligava o centro de Santos ao centro de São Vicente, por trás dos morros (hoje avenidas N.Sa. de Fátima e Antônio Emmerich), cujos trabalhos sofreram atrasos imprevistos, superados pela antecipação dos serviços da linha nº 2, que, assim, foi inaugurada primeiro, alguns meses antes apenas da linha nº 1.

O número de carros para o serviço elétrico era, na data da inauguração, de 18 bondes de passageiros, 3 vagões fechados para bagagens e carga, e 6 carros abertos para carga.

Nessa época, a força elétrica para o serviço de bondes era gerada por um motor fixo a vapor, que consumia carvão, localizado na Vila Mathias e que havia sido comprado pela Cia. Ferro Carril Santista em 1903, quando pretendeu instalar bondes elétricos em Santos. Esse gerador funcionou até 1913, quando a Cia. City passou a se utilizar da usina da Cia. Docas de Santos, em Itatinga.


A AVENIDA ANTONIO EMMERICH 



Construção da linha de bondes ligando São Vicente a Santos pela zona noroeste no íncio do século XX . Futuras avenidas N.S. de Fátima e Antônio Emmerich. Acervo Claudio Esterque.



É uma das vias públicas mais importantes e das mais antigas de São Vicente. Ela foi aberta como antigo caminho para o “Trem a Vapor” dos Emmerich, que ligava São Vicente ao município de Santos em 1885, construído em grande parte sobre o aterro elevado que atravessava a extensa área de mangue. Posteriormente a Companhia City adquiriu a concessão dessa linha instalando os primeiros Bondes Elétricos, então chamada como “Linha 1”, Via Matadouro (seria a primeira linha de bondes elétricos e por isso recebeu como referência o nº 1 em 1919).

Nessa área, a primeira grande ocupação foi do Clube Germânia, cuja sede, quadra de esportes compreendia a extensão hoje ocupada pelo Quartel do 2º BC (o Brasil resgatou essa área como indenização de guerra, pelo afundamento de vários navios mercantes brasileiros, pelos alemães, em 1942.)





Seu primeiro comércio se instalou entre a Praça 1º de Maio e a Praça da Bandeira.
De um simples caminho aberto, inicialmente, por trechos, a via carroçável só foi aberta, em faixa estreita, com piso de macadame, na década de 1920, acompanhando sempre o trilho do bonde nº 1.

Na década de 30 foi calçada com paralelepípedos, no trecho inicial até a Vila Melo e, alguns anos depois, em toda a sua extensão, interligando Santos a São Vicente, com uma única pista.

A segunda via foi aberta nos anos 40, mas interrompida na linha férrea da E.F.S. em razão da diferença de nível, sobre o qual existia um pontilhão de madeira para a passagem de um veículo por vez. Na gestão do prefeito Jonas Rodrigues, 1963, foi construída a ponte de concreto, permitindo o acesso às duas pistas, a partir dessa data, aberta e asfaltada até a divisa Santos. Pela linha 1de bondes, como era chamada, transitava também o bonde “R” (rápido), que saía às 12 horas da Praça dos Andradas e terminava na Estação dos Bondes, junto à Praça Barão do Rio Branco, em São Vicente. Esse bonde não fazia nenhuma parada no percurso e era destinado aos vicentinos que trabalhavam em Santos e vinham almoçar em suas casas.

Em 1939 instalou-se a sede e campo do Clube Hípico de Santos-São Vicente, recentemente desativada (deu lugar a um hipermercado).




Na década de 40 surgiu o loteamento da Vila Melo, na década de 50 sucedido pelo Jardim Três Estrelas, pela Vila Cascatinha, Jardim Guaçu, Jardim Paraíso, Vila São Jorge, Vila Valença e Jardim Independência. Hoje é uma das mais valorizadas áreas comerciais da cidade, já dispondo da sua Câmara de Dirigentes Lojistas. Conta com alguns bancos, com uma agência de atendimento da Cia. de energia elétrica, uma agência da Sabesp, um posto médico do INSS, dois supermercados, duas emissoras de TV e grande comércio de veículos. No morrote do 2ª Batalhão de Caçadores (Batalhão Martim Afonso, foi erigida uma estátua do Cristo Redentor.


O nome da avenida - Antonio Emmerich, é uma homenagem ao prestante cidadão vicentino, precursor da primeira fase de seu desenvolvimento. Nasceu no ano de 1844, vindo a falecer em 1916. (Boletim do IHGSV)

O TRAMWAY DOS EMERICH



A imagem acima, considerada raríssima, foi cedida especialmente para O Bonde pelo especialista Allen Morrison, de Nova Iorque/EUA. Segundo ele, trata-se de um bonde construído por volta de 1870 pela Metropolitan Railway Carriage & Wagon Company, em Birmingham, na Inglaterra, para trafegar em São Vicente . 


Em 1873, Jacob Emmerich e seu genro Henrique Ablas (alemães da Bavária)   obtiveram permissão do Governo da Província para estabelecer uma linha de  bondes (tração animal) sobre trilhos de ferro, entre a cidade de Santos e a Vila de São Vicente. A concessão foi firmada a 10 de novembro de 1873, perante o presidente da Província, Dr. João Theodoro Xavier, sendo procurador dos concessionários João António de Borba Cujo.

O contrato, em uma das 35 cláusulas, ressalva os direitos da Empresa Domingos Moutinho, garantidos pela Lei Provincial nº. 67 de 10/4/1870, nos termos da Lei nº. 42, de 3/4/1873. A ressalva era necessária, pois Domingos Moutinho havia recebido, em 27/5/1870, uma concessão (prazo de 50 anos), para operar uma linha de bondes. Mais tarde, esta concessão foi transferida para a Cia. Melhoramentos de Santos e, em 10/5/1887, transferida para Mathias Casimiro da Costa e Dr. João Éboli, por 35 anos.

O bonde (tração animal) dos Emmerich foi inaugurado em 24/10/1875, com bitola de 1.350 mm e 9 quilômetros de extensão; seu trajeto era idêntico à futura linha elétrica de número 1.

Os escritórios e oficinas da Empresa Carril de Ferro de São Vicente ficavam ao lado da Estação de São Vicente, atual Praça Barão do Rio Branco. Onde a família Emmerich tocava a ferrovia: Henrique, José, António, João, Adão e Tiago - que chefiava a equipe, e foi este que encomendou na Alemanha as locomotivas a vapor que entraram em operação em 1886.

Bonde construído por volta de 1870 pela Metropolitan Railway Carriage & Wagon Company, em Birmingham, na Inglaterra




Anúncio no Indicador Santista 1887



Percurso - O traçado do tramway seguia pelo aterrado do mangue, o trem saía da Estação de São Vicente, atravessava a Praça Coronel Lopes (na época não existiam o jardim, o coreto e a escola), e seguia pela atual Avenida Emmerich, passando pelo Matadouro, até a Estação Emmerich (em frente à Igreja Nossa Senhora de Fátima era a divisa-secção), seguia o trem em direção a Chico de Paula, Saboó, Rua Visconde de São Leopoldo, Largo do Rosário (atual Praça Rui Barbosa), Rua do Rosário (atual João Pessoa) e Rua Itororó esquina de Rua Amador Bueno (Ponto final, estação de cargas).

A Carril de Ferro de São Vicente teve seis locomotivas, sendo três de quatro rodas, do tipo fechado, e três locomotivas com caldeira e chaminé expostas. As locomotivas foram batizadas como: nº. 1 Santos, nº. 2 Democrata, nº. 3 São Vicente, nº. 4 1º de Outubro, nº. 5 Santa Maria, nº. 6 Janacopoulos. Todas queimavam carvão de pedra. Cada locomotiva puxava duas gôndolas para passageiros e um reboque do tipo Caradura, no qual os passageiros podiam transportar galinhas, cabritos e leitões.

Os condutores e fiscais usavam fardamento azul marinho com quepe, e botões amarelos na túnica. Os chefes de estação eram Bento Vieira Neto e Joaquim Vilas Boas. Os maquinistas: Rafael Frezelone, Joaquim Machado, João Proost, Jordão, Mário de Oliveira, António Silva, António Torquato, Barnabé, e Alexandre Sedin que pilotava o Trem da Carne, puxado pela locomotiva nº. 5 Santa Maria. Os foguistas: José Tomás Pereira, Noé Constâncio Ferreira, Eloi dos Passos e outros. Os cobradores: Isaac Xavier dos Passos, João Venceslau Emmerich, Noronha e José dos Santos Amorim.



Carril de Ferro de São Vicente em 1901

 

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 AVENIDA MISERICÓRDIA 

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DR. HYPÓLITO DA SILVA 

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DR. CÂNDIDO RODRIGUES





Parte de um mapa turístico de 1932 mostrando as principais ruas vicentinas e setores ainda desabitados, onde surgiriam novos bairros e vilas. A avenida Miséricordia ja havia sido rebatiza de como Presidente Wilson.



O nome Misericórdia identifica esta conhecida avenida vicentina como área de propriedade da Santa Casa de Misericórdia de Santos, entidade que recebeu na cidade muitas doações de pequenos terrenos, prédios residenciais e comerciais e até sítios e glebas, como foi caso do espólio do imigrante português Francisco Valença. Anos mais tarde a Santa Casa transformaria essas áreas em loteamentos da Vila Valença e Jardim Independência, que originalmente se chamava Vila Misericórdia.

A grande e larga avenida que corta uma parte imobiliária valiosa da cidade, como se vê no edital, é um projeto do final do século XIX e início do XX, pensado como fator de ocupação e desenvolvimento nas áreas antes e depois da linha da Estrada Ferro SPR-Sorocabana. Isso só foi possível quando foi iniciada a construção da linha de bonde e que mais tarde receberia o nome de avenida Antonio Emmerich, na direção da zona noroeste de Santos. Essa linha estimulou entre 1915 e 1930 os loteamentos da Vila Melo, Vila Pedro Duarte, sucedido pela Vila São, Cascatinha e Vila Bugre (atrás do quartel do Exército, onde era o Hotel dos Alemães) e o Jardim Gassu. Esse empreendimento mudou também os limites e divisas co0m Santos, marcando a perda territorial vicentina tanto na zono noroeste (que ia até a atual avenida Jovino de Melo) como também na orla (que ia além da Ilha Urubuqueçaba, onde foi construído o Hotel Internacional.

A avenida da Misericórdia teve seu nome modificado estranhamente para avenida Presidente Wilson, homenagem a um presidente norte americano, seguindo um modelo de denominação nada transparente e que cumpre ordens ocultas e a revelia da população. Em Praia Grande, no contexto da emancipação do município foi imposta dessa forma a denominação da mais extensa avenida da cidade o nome Presidente Kennedy. Algumas vozes vicentinas protestaram contra nome presidente Wilson, mas não foram ouvidas. Eles pretendiam dar a ela o nome Bacharel Cosme Fernandes, figura emblemática que viveu na cidade nos primórdios da colonização e que, com a chegada de Martim Afonso em 1532, foi expulso para Cananéia, onde deveria cumprir sua pena de degredo.



A Presidente Wilson mantém-se imponente como artéria urbana, sofrendo as mesmas transformações resultante da dinâmica dos negócios. Originalmente era uma avenida de mansões aristocrática, quase todas demolidas para construção de conjuntos residenciais  e estabelecimentos comerciais.

Anúncio do escritório do BNH em A Tribuna em 1964 convoncando empresas interessadas no serviço de demolição de mansão na avenidade Presidente Wilson, entre as rua Américo Brasilense e Visconde do Rio Branco. São Vicente na Memória, pesquisa de Mário Rodrigues. 


Para finalizar esta análise do edital publicado pelo prefeito Antão de Moura, observamos que essa avenida, apesar de extensa, tinha pouco logradouros e somente oito proprietários citados como devedores sendo João Antunes dos Santos o dono da maior área, avaliada em 528$000; Manoel Peixoto Ferreira da Silva com vários imóveis baldios (a construir) e os demais com terrenos padrão. Na rua Dr. Hypolito da Silva (provavelmente substituído por Amador Bueno da Ribeira) consta apenas um proprietário; e na Dr. Cândido Rodrigues, apenas dois.

 



A avenida Presidente Wilson fotografada nos anos 1950, sentido orla centro.


Essa antiga avenida é  até hoje a principal via de acesso entre São Vicente e Santos pela orla. Vai do Itararé até o Centro (praças da Bandeira e Cel. Lopes) cruzando os bairros Boa Vista e Gonzaguinha. Como já foi dito sobre as avenidas Capitão Mór Aguiar, Antônio Emmerich e Manoel da Nóbrega, ela também serviu como ponto estratégico e simbólico da expansão urbana e criação de loteamentos, nesse caso a Vila Valença, Vila Voturuá e Jardim Independência (antiga Vila Misericórdia). Originalmente, a Presidente Wilson foi uma rua residencial, com casas e sobrados de alto padrão. Foi traçada nos anos 1920 pelo prefeito João Francisco Bensdorp e recebeu nessa época a primeira estrutura de meios-fios. Nos anos 1950 e foi alargada em duas pistas dando lugar às mansões de alto padrão; a partir dos anos 1980, as residências aristocráticas foram desaparecendo e demolidas para receber edifícios de apartamentos, estabelecimentos comerciais e de serviços. A última mansão foi demolida recentemente, não antes de ser alvo de uma polêmica na imprensa sobre tombamento e preservação dessas edificações como patrimônio histórico e arquitetônico da cidade. Trata-se da propriedade da família Alexander Griec -  da Companhia de Vapores Griec e Cônsul da Noruega, já falecido - que aparece nesta foto acima, do lado direito da avenida, antes do edifício de apartamentos. Edificação de grande porte, ocupando grande parte da quadra, a mansão Griec chamou a atenção da imprensa por ser uma construção de estilo colonial e rústica, permanecendo fechada por longos anos antes da demolição. A mansão deu lugar a uma lanchonete fast-food e uma loja de convenênicias, semelhante ao que ocorreu com a casa da esquina com a rua Amador Bueno da Ribeira, que funcionou como motel e depois demolida em função da instalação de uma lanchonete de uma rede alimentícia.



Mansão de Alexander Griec, já demolida, na esquina da rua Rangel Pestana.


COMEÇAM AS NEGOCIAÇÕES E AS OBRAS DA PONTE PÊNSIL



Entre 1909 e 1910 São Vicente e Praia Grande entram na pauta das discusões sobre a grave questão sanitária que precupava a cidade de Santos e sua ampla e extensa viziança. Toda a região tornou-se uma grande área de risco e alastramento de epidemias estrangeiras que  aqui penetravam pelas docas de Santos. A zona portuária era considerada insalubre e muito próxima do centro nervoso da cidade, onde funcionava o comércio e os serviços marítimos. Nesse período a região era atingida pela febre amarela e oito anos depois viria a devastadora gripe espanhola, fenômeno mundial que ceifou milhões de vidas. No intervalo de 1905 e 1915 entra em cena na região a figura que se tornaria um emblema da engenharia e referência nacional em tecnologia sanitária: Santurnino de Brito, autor de um dos maiores planos de saneamento já emmpreendidos no Brasil. Da sua prancheta saíram os famosos canais de Santos, a linha de esgoto até a Ponta do Itaipu, em Praia Grande e, no meio da caminho - na passagem da ilha de São Vicente para o contimente, também vicentino, a famosa e mpressionante Ponte Pênsil, que teve a função original de sustentar os canos de esgoto de Santos para serem lançados nas águas então longínquas da Barra Sul de São Vicente. A ponte receberia anos mais tarde o nome oficial do seu idealizador.   A inaguração da obra aconteceu em 1914 com a presença do presidente Rodrigues Alves e inúmeras autoridades locais e da Capital e dezenas de convidados e curiosos que queriam ver de perdo e andar sobre as famosas tábuas soltas que tremulam até hoje quando os carros passam sobre elas. A ponte tornou-se o principal símbolo da cidade, bem como a única via de rápido acesso ao litoral sul. Foi ela que acelerou o processo de ocupação de Praia Grande, sua emancipação e também a autonomia das principais cidades vizinhas e que se tornariam emancipadas na décadas seguintes.  


Planta do projeto da Ponte Pênsil em exposição no Museu Saturnino de Brito em Santos.


UMA GRANDE OBRA DE ENGENHARIA

A Tribuna 25 de janeiro de 1914

Mais alguns meses, e será franqueada ao público a grande ponte pênsil que a Comissão de Saneamento está construindo em um dos mais pitorescos recantos da vetusta cidade de S. Vicente.

Trata-se de uma grande obra de engenharia, que honra sobremaneira o ilustre profissional que hoje superintende os serviços da Comissão de Saneamento de Santos, o dr. Miguel Presgreave.

A necessidade de conduzir até os Itaipus o emissário de esgotos, que deverá lançar as matérias que recolhe das redes secundárias, obrigou a Comissão de Saneamento a planejar essa grande ponte, que atravessa o denominado Mar Pequeno, na sua parte mais estreita.

Após os necessários estudos preliminares, foi encomendada a uma casa da Alemanha a grande ponte pênsil, cuja construção tem sido feita com a maior presteza e cautela.

Logo no início das obras, o dr. Miguel Presgreave e seu digno auxiliar, o dr. Mário Gambaro, atual chefe do serviço de construção da ponte, encontraram um grande obstáculo para o assentamento dos alicerces e pegões da mesma.

As sondagens efetuadas então revelaram a presença de uma enorme laje, que da ponta em que se achava nessa época a garagem do Clube de Regatas Tumiaru, avançava pelo mar adentro, em uma longa distância, e que não apresentava, infelizmente, resistência suficiente para servir de apoio ao pilar inicial da enorme ponte.

Essa dificuldade foi vencida, afinal, após ingentes sacrifícios e enorme trabalho dos escafandristas contratados pelo chefe da comissão construtora.

Terminada a construção dos pilares, foi dado começo ao lançamento da ponte, cuja beleza de linhas causa admiração a todos que a vêem.

O lançamento da ponte está sendo feito, como dissemos, sob imediata fiscalização do dr. Mário Gambaro, que tem como auxiliar o hábil engenheiro dr. Henrique Bramann, mandado para esse fim pela casa August Kloenne, fornecedora do material.

A construção da ponte vai adiantadíssima e já hoje podem os pedestres ir de S. Vicente à Praia Grande sem precisar atravessar o Mar Pequeno nas incômodas lanchas-automóveis que, em virtude de um contrato com o governo, ali fazem o serviço de transportes.

Como dissemos acima, a grande ponte foi feita para por ela passar o emissário dos esgotos da cidade, mas isso não impedirá que a City dela se aproveite para levar os seus trilhos até a Praia Grande, segundo um belo projeto dessa companhia.

Assim, pois, dentro de alguns meses já se poderá ir, então cômoda e rapidamente, do centro desta cidade à Praia Grande ou Itanhaém, em um veloz automóvel ou em uma elegante carruagem.

A Comissão de Saneamento já concluiu a abertura de uma linda avenida que, beirando o mar, conduz da praia do Itararé até o porto do Tumiaru, e outra que vai do Japuí a Itaipus.

Para a construção dessa linda obra de arte, o governo federal concorreu com a importância de 150 contos, pois essa ponte vai facilitar grandemente as comunicações com a fortaleza de Itaipus, construída na ponta do mesmo nome.

A ponte pênsil de São Vicente tem, de extremo a extremo, 275 metros de comprimento, é toda de ferro e pesa 550 toneladas, não se contando o peso da madeira nela empregada. A largura do tabuleiro é de 6,40 m.

As duas torres, às quais estão ligados os cabos de aço que sustentam o tabuleiro, têm 23 metros de altura, inclusive 8 metros que se acham enterrados em concreto, no solo.

Os cabos sustentadores do tabuleiro são em número de 16 e têm o comprimento de 286 metros. Desses cabos, 12 pesam 6 toneladas cada um e 4 atingem a 10 toneladas de peso cada um.

O comprimento do tabuleiro é de 180 metros.









CENAS DO CERIMONIAL DE INAUGURAÇÃO DA PONTE PÊNSIL Em 1914. Matéria de capa da revista A FITA. Acervo digital da Biblioteca Nacional.

SÃO VICENTE  E A LUZ  ELÉTRICA 


Inauguração da energia elétrica em São Vicente em 1916 



A cerimônia foi realizada no Largo Batista Pereira, atual Praça João Pessoa. Na foto aparecem o Intendente Salvador Malaquias Leal acompanhados de engenheiros e técnicos respensáveis pelas instalações; os vereadores Antônio Álvaro Gonçalves (1º à direita) e Antônio Militão de Azevedo (2º à esquerda). A descrição da imagem ilustrativa de acontecimento foi feita pelo memorialista Edison Telles de Azevedo (Vultos Vicentinos, 1972), encerrando com a seguinte observação histórica: "Terminava, assim, o arcaico, porém evocativo lampião a querosene, dando lugar à imortal invenção do mago de Menlo Park", referindo-se á Thomas Edson, inventor da lâmpada elétrica, que residia nesta cidade da Califórnia.


LAMPEÕES A ÓLEO,  QUEROSENE,  GÁS E OS BONDES ELÉTRICOS


Até o final do séclo XIX a iluminação pública e a energia nos estabelecimentos e casas em São Vicente era obtida pela quima de óleo combustivel de origem animal (baleia). 

Em 1886 foi inaugurada a primeira iluminação pública na Vila, por meio de lampeões a querosene. 

Em 1896 abre-se  a concorrência pública para a iluminação pública da cidade. O edital com a data de 10 de dezembro foi assinado por Antônio Augusto Rios Carneiro, oficial da secretaria da Câmara e publicado no jornal O Piratiny, editado em São Vicente.

Em 1906 o  comerciante Joaquim Dias Bexiga constrói para a prefeitura de São Vicente um aparelho
a  gás acetileno para a iluminação das festividades públicas. 

Em 1909, em 24 de abril, é inagurada a primeira linha de bondes elétricos em São Vicente. Em Santos a linha é inaugurada em 28 de abril.   A partir das mudanças ocorridas técnicas ocorridas nesse período a eletricidade passa a ser consumida gradualmente na cidade e alguns bairros continentais.  

Em 1918 é inaugurada a luz elétrica em Itanhaém.


AS USINAS DA LIGHT E A ENERGIA ELÉTRICA




I - A São Paulo Light e seu domínio geográfico

A São Paulo Light S.A. Serviços de Eletricidade, empresa a que pertencem as usinas hidrelétricas de Cubatão, iniciou suas atividades em São Paulo nos últimos anos do século passado (N.E.: século XIX), sendo a primeira na Capital Bandeirante a empregar energia elétrica em serviços de utilidade pública - transportes coletivos (1901) e iluminação (1911).

A empresa, inicialmente denominada The São Paulo Railway and Power Company Limited, modificou logo seu nome para The São Paulo Tramway Light and Power Co. Ltd., para evitar confusões com a ferrovia Santos-Jundiaí (então denominada São Paulo Railway), passando mais tarde ainda a denominar-se São Paulo Light and Power Co. Ltd.

Foi fundada no Canadá tendo sua sede em Toronto, Província de Ontario. Obteve da Rainha Vitória carta patente de incorporação a 7 de abril de 1899 e, pelo decreto nº 3.349, o presidente da República, dr. Campos Salles, autorizou seu funcionamento no Brasil. Recentemente (1956) foi transformada em sociedade anônima brasileira com sede em São Paulo, tomando então o nome de São Paulo Light S.A. Serviços de Eletricidade. A maioria das ações da companhia continua, entretanto, a pertencer a canadenses e europeus.

A São Paulo Light faz parte das Companhias Associadas Light ou simplesmente Light, como é geralmente chamada pela população de São Paulo. A Light é constituída por várias sociedades anônimas, com personalidade jurídica própria e tendo cada uma a concessão de determinado serviço de utilidade pública.

As duas principais empresas do grupo Light concessionárias de serviços de eletricidade são: Rio Light S.A. Serviços de Eletricidade e Carris (1908), que exerce sua atividade no Estado da Guanabara e região Centro-Sul do Estado do Rio de Janeiro, e a São Paulo Light S.A. Serviços de Eletricidade, esta associada a duas outras empresas - São Paulo Serviços de Eletricidade (antiga São Paulo Eletric Company) e a Companhia de Eletricidade São Paulo e Rio.




A São Paulo Light e associadas têm a concessão dos serviços de eletricidade numa vasta área do Estado de São Paulo - 20.240 km², que abrange os seguintes municípios:

a) servidos pela São Paulo Light - São Paulo, Barueri, Cajamar, Caraguatatuba, Cotia, Diadema, Embu, Ferraz de Vasconcelos, Guarulhos, Itapecerica da Serra, Itapevi, Itaquaquecetuba, Mauá, Mogi das Cruzes, Pirapora do Bom Jesus, Poá, Ribeirão Pires, Santana de Parnaíba, Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, São José dos Campos, São Sebastião, Suzano e Taboão da Serra;

b) servidos pela São Paulo Serviços de Eletricidade - Sorocaba, São Roque, Salto de Pirapora e Araçoiaba da Serra;

c) servidos pela Companhia de Eletricidade São Paulo e Rio - Itu, Salto, Jundiaí, Indaiatuba, Vinhedo, Jacareí, Guararema, Salesópolis, Santa Branca, Jambeiro, Caçapava, Pindamonhangaba, Guaratinguetá, Aparecida, Porto Feliz, Boituva, Taubaté, Tremembé, Lorena, Cruzeiro e Cachoeira Paulista.

Além disso, a São Paulo Light e associadas fornecem energia para ser distribuída pela Cidade de Santos Serviços de Eletricidade e Gás S.A. (antiga City of Santos Improvements Co.), empresa concessionária do serviço de energia elétrica nas cidades de Santos, São Vicente e Cubatão, mas que não possui instalações geradoras, executando apenas o serviço de distribuição de energia.

A área servida pela São Paulo Light e associadas é densamente povoada - 5.080.000 hab., distribuídos por 20.240 km² ou sejam 250 hab/km². O consumo de energia anual per capita é, na região, de 1.450 kWh - elevadíssimo em relação ao restante do país e equiparável ao de países considerados de alto desenvolvimento econômico.

A área de concessão da São Paulo Light abrange, além disso, municípios fortemente industrializados tais como o da Capital, Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, que desempenham papel importante na economia nacional.




Vila Light – Ao lado da Usina Henry Borden, está localizada a Vila Light, onde ficam as casas de muitos dos trabalhadores da hidrelétrica. Na vila, além da moradia dos funcionários, existe a Escola Municipal Usina Henry Borden, uma parceria com a prefeitura local. Lá também está localizada a Casa de Visitas, utilizada, antigamente, para receber convidados ilustres. Já estiveram lá Carlos Campos, presidente do Estado de SP, e também Rudyard Kipling, autor inglês ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1907. A Usina Henry Borden tem um circuito turístico e recebe visitantes.


A  AVENIDA MANOEL DA NÓBREGA 

Construção foi paga por um grupos de amigos da cidade e parceria com empresas 

 




Edital do prefeito José Monteiro em 1932



Nas três primeiras décadas do século XX a mobilidade por transporte urbano na ilha de São Vicente ainda era feita nas linhas 1 e 2 dos bondes da Emmerich-Ablas e depois pela The City of Santos Improvements Company Ltda, mais conhecida como Companhia City. Entre essas duas linhas -  1,via Matadouro e 2, via Praia - surgiu a avenida da Misericórdia, mais tarde denominada Presidente Wilson, obra inciada pelo prefeito João Francisco Bensdorp. Ele também deu início em 1918 à construção da avenida  Manoel da Nóbrega, acompanhando a linha de bonde na orla, da Pedra dos Ladrões até a praia do José Menino, na divisa com Santos. Na linha do Matadouro, na zona noroeste, surgiria nos anos 1940 a avenida Antônio Emmerich, da Praça da Bandeira até a antiga divisa, na altura da atual avenida Jovino de Melo, em Santos. Em 1932 a avenida Manoel da Nóbrega passa por uma remodelação urbana, já tardia, em função do aparecimento e necessidade de circulação de automóveis e coletivos motorizados. A circulação de automóveis e ônibus aumentou sobretudo após a conclusão da Ponte Pênsil em 1914, que buscavam lazer em São Vicente e também nas prais do litoral sul. O empreendimento da nova avenida foi conduzido pelo prefeito José Monteiro por meio de um projeto de parceria da prefeito com empresas contutoras e fornecedoras de materiais de engenharia civil e principalmente com doações de munícipes que possuiam terrenos de grande porte na cidade, provavelmente em troca de descontos nos tributos territoriais urbanos. O plano de urbanização e a lista de doadores com os respectivos valores foi publicado em 7 de março de 1932 e um edital no jornal  Gazeta Popular.  A reforma substituiu as pedras irregulares pelo paralelelepidos, enquadradas por sargetas de concreto e calçadas. As calçadas seriam ornamentada em alguns trechos pelo plantio de árvores de chapéu de sol.