terça-feira, 9 de julho de 2019

GRATAS LEMBRANÇAS - Mirtes dos Santos Silva Freitas




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Catiapoã, meu recanto

Lembro- me do Catiapoã*, a partir dos meus oito anos, em 1954. Antes, aos seis e sete anos, eu conhecia só o início da rua Pérsio de Queiroz Filho, pois acompanhava minha mãe e irmãos ao Posto de Puericultura que funcionava na primeira casa à esquerda. Ali, profissionais da Saúde cuidavam das crianças, pesando- as e aplicando a vacina BCG, que era oral. Era o tempo do " Concurso de Robustez Infantil".Os bebês mais rechonchudos, símbolo de crianças saudáveis, eram premiados.


De 1954 a 1963, nossa família frequentou a casa dos meus tios e padrinhos. Quando morávamos na rua 3, Vila " Matteo Bei", íamos a pé por um trecho da rua Martins Fontes, atrás da Vidrobrás. Depois, pegávamos a rua Pérsio. Nós a conhecíamos como rua, não como avenida. Até a entrada do Golf Club, conhecido como Campo dos ingleses, ela era movimentada.Havia as casas da Sorocabana que ficavam do lado esquerdo. Ali residiam os funcionários da ferrovia. Do lado direito, lembro- me de um grande terreno arenoso, com uma casa quase que totalmente demolida. Uma placa indicava: " Espólio de Vicente Gil". Meu irmão cita uma fábrica de sapólio. Não me recordo. Mais adiante, havia algum comércio. Até a entrada do Golf Club, havia casas de ambos os lados. Ocorre que o campo de golfe é muito extenso. Então a rua continuava, ladeando- o. Por esse motivo, havia casas somente do lado direito. Eram construções simples: chalés mistos e alguns barracões. Para alcançarmos a casa dos meus padrinhos, andávamos muito. Hoje o caminho encurtou porque a rua é calçada. Naquela época, havia um areal que dificultava o caminhar. Já no final, antes do Jardim Nosso Lar, virávamos à direita e, em seguida, à esquerda. Ali, numa rua estreita e curta, de lamaçal eterno, moravam meus padrinhos. Não é que a lama não secasse. Com o sol, esturricava e formava sulcos. O beco era quase intransitável.

A casa era um chalé misto. Em São Vicente, havia muitíssimas como ela. Comprida, tinha os quartos ao lado da varanda aberta. Era alta, construída sobre pilares de tijolos, embora houvesse casas erguidas sobre estacas de madeira, como as de palafita. Todas tinham um porão baixo. A varanda terminava na entrada da sala. Anexa a ela, ficava a cozinha de tijolos, mais baixa, havendo um ou dois degraus entre ela e o chalé. Enquanto que os demais cômodos eram assoalhados, a cozinha tinha piso acimentado.No caso, o piso era cinzento, com a cor natural do cimento, mas havia pisos vermelhos, tingidos com vermelhão. Geralmente, as visitas entravam pelos fundos e ali permaneciam. Era mais aconchegante.

O terreno dos meus padrinhos era permanentemente úmido. Havia, porém, um local inesquecível. Naquele espaço, minha madrinha cultivou algumas mudas de plantas que se desenvolveram muito.
Acho que aquele solo tinha bastante húmus, resultante da decomposição da vegetação existente há séculos. Por incrível que pareça, antigos moradores, como nós, construíram suas casas em terra virgem, outrora só habitadas pelos indígenas. As plantas eram apenas quatro, mas faziam toda a diferença. Eram três arbustos e uma trepadeira. Lembro- me delas, como se fosse hoje. Representavam, a meu ver, as quadras da vida. O urucuzeiro, o jasmineiro, a viúva- alegre e o bucheiro marcavam presença naquele quintal. O urucuzeiro tinha folhas viçosas, cápsulas com espinhos maleáveis, prestes a explodir. Enfeitava- se com flores róseas. Mais parecia uma menina, no tempo em que quase todas se vestiam de rosa. Consta que Pero Vaz de Caminha fez referência à planta, na carta enviada ao rei D. Manuel, em 1500. Ela já causava assombro na infância do nosso país. O jasmineiro era um moçoilo, ereto, perfumado. Lá no alto, abria sua copa sempre florida. Tinha, porém, ao seu lado, a viuvinha- alegre, roxa de paixão, tentando enlaçá- lo com suas gavinhas. Pálido, assustado, ele tentava afastá- la, desprendendo seu inebriante perfume. O oposto ocorria. Extasiada, ela se achegava a ele, mais e mais. Finalmente, o bucheiro. Inseguro, agarrava- se à cerca, tentando permanecer de pé. Era um ancião. As grandes buchas dependuradas compunham os fios de sua barba. As flores amarelas e as folhas ressequidas insinuavam o fim da jornada. Às vezes, recebia uma rajada de meninice do urucuzeiro. Era quando as cápsulas explodiam, espalhando seus dentinhos vermelhos. Minha madrinha aproveitava para colhê- los. Amassava as bolinhas, transformando- as num pó chamado colorau. Coloria seus deliciosos pratos. Nossa! Devaneei!

Voltando ao beco charcoso, devo dizer que não havia só ele para chegarmos à casa dos meus tios. Um caminho secreto, conhecido por poucos, também existia. Eu o utilizava quando morávamos no Jardim Nosso Lar. Não sei quem abriu uma vala no meio do lodaçal que havia no Catiapoã, certamente, para drenar alguns terrenos. Quem passava pela rua Pérsio desconhecia sua existência. Ficava no meio de uma minifloresta de caxetas existente naquele mangue. Com a terra retirada para aprofundar a vala e depositada em toda a sua extensão, formou- se um caminho. Marias- sem- vergonha, multicores, por ali se multiplicavam. O local, para minha imaginação sonhadora, era um paraíso.
Por ali, ninguém passava. Só eu, o Papillon vicentino.

Minha mãe sempre dizia:
---Mirtes, vá pela rua. Não vá pelo atalho. É perigoso.
Eu era obediente, " pero no mucho". Queria chegar logo. Então tirava o calçado e " voava", pois tinha medo. Era adrenalina pura. Jamais vi alguém naquele ermo. Hoje teria pavor!
A beleza daquele lugar, tão desprovido de tudo, não terminava ali. Deixei o melhor para o final.

Nos fundos do quintal do meu padrinho, havia uma clareira. Capim seco, terreno em que se podia caminhar. Após o pequeno descampado, o mangue povoado de caxetas salpicadas de flores brancas, a perder de vista.Na tal capoeira, em um dos lados, um grande rabicó grunhia no chiqueiro. Seria um marquês disfarçado? Do outro lado, um maracujazeiro se enroscava numa árvore anã. Flores belíssimas! Flores da paixão, uma das minhas preferidas. Dava frutos pequenos, roxos, quase pretos. Azedíssimos.

A passarinhada recreava-se por aquelas bandas. Ali meu padrinho armava uma arapuca de gravetos feita por ele. Ficávamos à espreita. De repente, o incauto chegava, explorando o entorno. Depois, via a isca dentro da armadilha. Olhinhos para lá, para cá....saltitando, entrava. Pisava na forquilha armada com precisão e.....a captura se concretizava. Quase sempre era um coleirinha ou um sabiá. Que lindo! Tínhamos pena do bichinho. Após um rápido reconhecimento, era hora de devolvê- lo à natureza. Talvez, naquele momento, alguma emissora de rádio estivesse transmitindo a música " Sabiá lá na gaiola", grande sucesso de Carmélia Alves. A composição relatava a história de um sabiá que fez um furo na gaiola e voou. Sua dona, uma menina, " chorou, chorou, chorou, chorou..." Diferente do meu caso. Eu era toda satisfação!

Às aves, a amplidão. Asas abertas no azul.

* Do tupy "o mato em que os canários cantam".

Mirtes dos Santos Silva Freitas.
11/7/2021

29

São Pedro e as chaves do céu( Mt.16,19)



Dia de São Pedro.Junho se despede. Já sentimos saudade do mês de festividades que tanto alegram nosso povo. De norte a sul, leste a oeste, não há quem desconheça as festas juninas, outrora, denominadas joaninas. Temos a felicidade de homenagear três santos: Antônio, João e Pedro, cada qual com suas particularidades. Os três são reverenciados e fazem parte de nossas lembranças.


Cessa o vaivém no terreiro
Onde tanto se dançou
Se despede o sanfoneiro
Que as festas abrilhantou!


Minha recordação mais remota do mês de junho é de uma comemoração simples, ao lado de uma fogueira. Parodiando a escritora Maria José Dupré, "éramos seis". Sempre festejamos o São João. Foi meu pai quem trouxe o costume de armar uma fogueira. Nascido em Pernambuco, em uma localidade chamada Queimada do Milho, no município de Bezerros  (Terra do Papangu) , desde tenra idade já festejava os santos famosos. Aliás, todo o Nordeste se prepara para as datas. Devo dizer que Caruaru divide,com Campina Grande, o título de " o maior São João do mundo".  Caruaru dista pouco mais de trinta quilômetros da cidade de Bezerros. Ainda há o fato de meu pai ter pai e irmão chamados João. Tornou- se uma relação familiar.


Nossa movimentação era anterior à data. Dias antes, saíamos à procura de madeira nos terrenos baldios. Servia qualquer uma, inclusive, já em decomposição A princípio, íamos, meu pai e eu. À medida que foram crescendo, os mais novos juntaram- se a nós. Isso significa " em tenra idade". Não era preciso chegar à adolescência para prestar ajuda. Quem podia, carregava as tábuas maiores. Quem não, carregava gravetos. Além da madeira encontrada, também se acrescentava varas e bambus secos. O bambu é interessante.Seus nós estalam com o calor do fogo, causando barulho e soltando fagulhas. A madeira era armazenada no quintal. Na véspera de São João, meu pai montava a fogueira na rua, à frente de nossa casa. Alegria! Agitação! A ansiedade tomava conta de todos. Antevíamos a noite diferente. Eis meu sentimento, passados tantos anos:


Trago acesa uma fogueira
Na minha imaginação
Uma lembrança fagueira
Das noites de São João!


Minha mãe cuidava dos " comes".Nada de " bebes"; talvez, um copo de groselha.O quentão veio anos depois. Para " quentá o frio", meu pai tomava uma talagada de morrão. Apenas uma, pois era abstêmio. Ah! Ainda tinha que dar a parte do santo. Quem tomava aguardente tinha que jogar um pouquinho do líquido no chão. Era para o santo que ali estivesse à espera.

Voltemos às iguarias, econômicas, na década de 1950. Pipoca, amendoim torrado, bolo de fubá com coco ralado e erva- doce. A espiga de milho maduro e a batata- doce, assados na brasa da fogueira, não podiam faltar. Eram os prediletos do meu pai.


Acesa a fogueira, ninguém mais parava. A tarde se despedia e as estrelas já cintilavam no céu. O frio, companheiro do inverno, colaborava para que ficássemos em movimento. Um ou outro vizinho se achegava para dar um dedo de prosa com meu pai. Risos e correria. Entrávamos e saíamos. Na cozinha, o rádio ligado transmitia músicas tocadas por Luiz Gonzaga, o sanfoneiro " rei do baião". Também havia músicas alegres, festivas, tocadas por Mário Zan, em seu acordeão. Cantávamos todas as músicas, com grande disposição.



Nunca fizemos bandeirolas ou outros enfeites. Meus pais eram parcimoniosos quanto aos gastos. Eram tempos de vacas magras. Lembro- me, apenas, de um artefato em forma de espiral que ele pregava na cerca. Aceso com um fósforo, ia queimando, aos poucos, soltando estrelinhas. Também havia um palito, como se fosse uma bombinha. Aceso, também soltava estrelinhas, enquanto era girado no ar. Não me recordo de bombinhas e buscapés, mas sei que soltamos traques, que estalavam quando jogados no chão acimentado.

Lá pelas tantas, minha mãe acabava com a folia das crianças. Mandava todos para dentro, alegando que faríamos xixi na cama, se ficássemos muito tempo ao lado do fogo. Tiro e queda! Sempre alguém acordava molhado.


Na década de 1960, a festa se diversificou. Minha mãe, grande quituteira, passou a fazer cural, canjica, cuscuz, cocada, pinhão, fora os que fazia antes, pois gostava de tratar bem os participantes que, àquela altura, tinham aumentado. Eram vizinhos e agregados. Foi com alguns desses convivas que conhecemos a " galinha morta", uma brincadeira com jornal amassado, unido nas extremidades.
Com as pontas acesas, era suspenso ao lado da fogueira. Impulsionado pelo calor, subia ,rapidamente, causando admiração. Nessa hora, tudo era alegria. A animação aumentava, auxiliada pelos copos de quentão servidos por dona Rita, a dona da festa.


Agora, lembrei- me das simpatias. Sei que as moças casadoiras faziam pedido para Santo Antônio. Em casa, minha mãe fazia, apenas,uma simpatia. Era um pedido de cura para alguém que estivesse doente. No dia treze de junho, colocava aparas das unhas da pessoa no tronco da bananeira. Que eu saiba, nunca funcionou. Sei agora, que a bananeira não tem tronco nem caule, mas pseudocaule. Vivendo e aprendendo. Por falar em treze de junho, lembro- me de uma vizinha, devota de Santo Antônio, cujo filho tinha o mesmo nome. Às seis da manhã, soltava potentes rojões, homenageando o padroeiro.


Agora, os astros da noite: os balões! Que maravilha! Coloridos, salpicavam o céu.
Na época, não atentávamos para o perigo que representavam. Não pensávamos na destruição que poderiam causar: incêndios, devastações...Eram pequenos, mantinham- se no espaço por pouco tempo.


Não sei de onde surgiam tantos moleques. Quando um balão começava a cair, corriam descalços pelas ruas e quintais. Não respeitavam as casas. Subiam nos telhados. A cachorrada latia. Na maioria das vezes, o trunfo pegava fogo no ar ou era despedaçado por diversas mãos. No dia seguinte, lá estava o dono do telhado, a reparar o estrago!



Ao lado de uma fogueira
Aqueci meu coração
Saúdo a trinca festeira
Antônio, Pedro e João!


*Trovas: autora
Mirtes dos Santos Silva Freitas.
29/6/2021

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O poço e a estudante


Foto: ( Zilda Mendes, 1971)

Ela está conosco em todos os momentos. Como tudo o que está presente e fácil, não nos detemos a pensar sobre o assunto.Abrimos a torneira e ela jorra! Também cai do céu, com bastante frequencia, em vários pontos do nosso país, exceto no semiárido nordestino e no norte de Minas Gerais. Corre, perene, por muitos dos nossos rios. Quem vive no litoral ainda a vê , num bailado incessante, maravilhosa! Como tudo o que está presente, não lhe damos a devida atenção.


Em 1948, meus pais e eu nos mudamos para São Vicente. Viemos de Santos, onde nasci. Como eu tinha, somente, dois anos, não tenho recordações da época. Minha irmã Neuza nasceu no final do ano. Um detalhe: rua Projetada, sem número. Beleza! Interessante é que muitíssimas ruas tinham o mesmo nome. Como poderíamos ser encontrados? Ah! Talvez, se meus pais dissessem: Vila Sapo, já clareasse um pouco. Creio, porém, que em matéria de sapos e rãs, outros locais poderiam ter o mesmo apelido. Restava- nos, então, a localização do rio Sapeiro, Sopeiro ou Sapateiro, pois havia um córrego nas imediações da Fábrica de Vidros. Hoje, a rua tem nome: Avenida Martins Fontes. O chalé verde onde a Neuza nasceu não mais existe. Foi tombado. Tombado pelo tempo. Não era um barco, mas adernou, adernou até cair. Que pena!


Poucos meses após o nascimento da Neuza, mudamo- nos para a rua 3, na Vila Matteo Bei, também sem número. O terreno era localizado pela indicação da quadra e do lote, apenas. Inicialmente, havia um quarto e cozinha. Agora...pasme! Sem água e sem luz! Velas e lamparinas iluminavam nossas noites. Na verdade, vivíamos nas sombras. O bruxulear da vela dava um ar fantasmagórico ao ambiente. O quintal e a rua eram de breu. O céu era digno do poema de Gonçalves Dias, " nosso céu tem mais estrelas..." Certo. Nas noites friíssimas de junho, num manto azul de veludo, milhares( ou milhões) de cristais swarovski hipnotizavam nossos olhos. Bem...até é possível romancear a respeito da iluminação, quando a conversa é sobre o passado. Sem rádio, sem ferro elétrico ou qualquer outro eletrodoméstico, sem tevê, sem transporte, estávamos mais para um eremitério da Serra do Caraça. Não...ainda não disse tudo, pois meu objetivo de reflexão está no título: água!!!


Naquele tempo...assim começam as histórias d' antanho...muitos bairros não tinham água encanada. Como o líquido é imprescindível à existência humana, os habitantes providenciavam um poço no quintal. Creio que todos, em nosso bairro, possuíam um. Não me recordo de ver pessoas carregando baldes d' água pelas ruas, na Vila Matteo Bei. Havia, por isso, a profissão de poceiro, pois era necessário saber onde escavar, como escavar e construir um poço. Assim que nos mudamos, meu pai providenciou o nosso. Tinha alguns metros de profundidade e nos serviu, diariamente, durante anos.


Nosso poço era simples, sem nenhum artifício. Diz a Bíblia: " Com o suor do teu rosto comerás o teu pão."(Gênesis 3:19). Pois eu acrescento: e com o suor do nosso rosto tivemos nossa água pois, para suprir os gastos diários de uma família, era necessário o esforço de carregar baldes e baldes de água, puxados por uma corda lá das profundezas, sem reclamar. Outras pessoas tinham um sistema mais sofisticado, com manivela. Os mais afortunados possuíam quase uma hidrelétrica ( brinco), com poços semi- artesianos, que não eram para a plebe.


Não me recordo se ocorreu em 1956 ou 1957...apenas sei que, num belo dia, chegou- nos a notícia: teríamos água encanada! Durante algum tempo , namoramos a tubulação e os canos, que nos inseririam à civilização moderna. Água!!! Pois ela jorrou de nossas torneiras, trazendo- nos alegria. Ah! Esqueci- me de dizer que foram instalados um chuveiro de lata, de onde caía água fria e uma caixa de descarga, acionada por uma cordinha.


Num outro belo dia, deixamos a comodidade da água encanada e da luz elétrica, indicadoras do progresso, e partimos para o Jardim Nosso Lar. Mal comparando com " Vidas Secas", do grande Graciliano, penso que meu pai era o Fabiano, minha mãe, a Sinhá Vitória, eu, a Menina mais velha e meus irmãos, as meninas e o menino. Na falta da cachorra Baleia, levamos a Chaninha, uma gata. Para dar mais veracidade à história, vale lembrar que meu pai era nordestino, não das Alagoas como o grande escritor, mas do Agreste de Pernambuco.


1958- Jardim Nosso Lar. Por incrível que pareça, sem água e sem luz. Minha mãe, uma cantante, dava vida a uma marchinha de 1954:"Rio de Janeiro, cidade que nos seduz, de dia falta água, de noite falta luz". Nosso Lar não se rebaixava. Primava pela ausência de água e luz, noite e dia. Poço? Impossível.
A água do subsolo não era boa. Luz? Ainda bem que o vizinho dos fundos tinha conexão com outras casas que, sucessivamente, iam emprestando a energia elétrica. De empréstimo em empréstimo, chegou até a nossa. Sem força, a iluminação era precária. As lâmpadas eram as incandescentes, de quarenta ou sessenta watts. Eletrodomésticos? Só o rádio, o ferro de passar roupas( uso diurno) e uma jarra elétrica, abandonada, logo depois. Chuveiro? Impossível, pois não tínhamos água encanada.


O bairro era despido de tudo: transporte, escola, comércio...para não zerar, tínhamos um bar e uma padaria. Como não comprávamos bebidas, restava a padaria. Tínhamos, porém, algo curioso: uma portuguesa, dona Eva, vendedeira de peixes. Todos os dias, saía com sua mercadoria numa cesta, equilibrada na cabeça. Baixinha, gordinha, com sua saia rodada, num passo ligeiro e miudinho, era uma figura. Em Portugal, chamar-se-ia " varina".Aqui, era uma peixeira.


Alguns hão de perguntar: ---Mas....e a água? Explico. Lá, conheci o barril, ou quinto, como dizia minha mãe. Éramos puxadores de barril, à noite. Pois é...havia uma torneirinha cedida pela PMSV, três ou quatro quadras distantes de nossa casa. Era para o uso da reduzida população. A água só tinha força à noite. Então, fazíamos uma fila, cada qual com seu barril. Uma mangueira ia da torneira até ele, que tinha, mais ou menos, um metro de altura. Eu gostava daquela reunião noturna, já que nossa vida era, como se diz hoje, " cada um no seu quadrado". Brincávamos e ríamos, enquanto ali estávamos. Quando o barril estava cheio, colocávamos um tampão para vedá- lo. Depois, com um empurrão, ele tombava, ficando no jeito de ser rolado. Enganchávamos um aro de ferro num artefato preparado para tal e, simulando um carro de boi, íamos à frente, puxando- o até em casa. No caso, éramos os bois. A Neuza ajudava, empurrando- o. O Beto, vez ou outra, colaborava, carregando uma vasilha. A Zilda, com cinco anos, não se lembra de ter ajudado. Em casa, meu pai o colocava deitado sobre um estrado. Havia uma torneirinha, nele instalada. A água serviria, no dia seguinte, para as nossas necessidades. Banho? Um balde com água morna e uma canequinha ou a grande bacia que minha mãe flambava com álcool, após areá- la com palha de aço. Bombril já existia, mas não sei se já conhecíamos suas "1001 utilidades".
Algum tempo levou, para que a água encanada chegasse até nossa casa, na rua Ataliba Leonel. E a energia elétrica? Saímos de lá, sem tê- la.


Em 1962, como " o bom filho a casa torna", regressamos. Então, como num passe de mágica, esquecendo os percalços e o suor, compartilhamos uma grande alegria: rua com nome de papa, cinema com nome de santo, uma casa confortável, construída no velho terreno. Tínhamos água, luz, eletrodomésticos e chuveiro elétrico. Quem diria! Finalmente, o progresso chegara.

O velho poço foi aposentado, mas não destruído. Sua utilidade mudou. Acimentado, com uma tampa removível, era aberto, esporadicamente. Sua água era usada para lavar o quintal ou molhar as plantas. Nas horas de folga, servia de banco para apreciarmos a rua.

Chegado o tempo de fartura, é normal esquecermos as agruras da vida. A água jorra de nossas torneiras. Quando a concessionária interrompe o fornecimento para alguns reparos é que nos lembramos dela. Aí, o "0800" congestiona. Em uníssono, gritamos:-----Água!!!

A água sustenta a vida. A leitura alimenta a alma.

Mirtes dos Santos Silva Freitas
20/6/2021



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O guarda seu Luiz



Conheço poucas pessoas que têm unanimidade quanto ao seu estilo de vida; pessoas que são admiradas, não pelo que possuem em bens materiais ou pelo cargo que ocupam; pessoas que, pela empatia e urbanidade, gravaram seu nome, para sempre, na memória dos que a conheceram. O senhor Luiz era uma delas.

Luiz Galvão Vieira nasceu em 8/9/1937, em Alagoas, mas foi registrado como tendo nascido em 28/9/1937. Apenas nasceu naquele estado, por circunstâncias, já que seus pais tinham viajado para lá. Na verdade, passou toda a infância e adolescência no estado de Pernambuco. Orgulhava- se de ser pernambucano.

Em 1957, o senhor Luiz veio morar no estado de São Paulo. Ingressou na Polícia Militar, em 22/9/1959. Inicialmente, trabalhou na Radiopatrulha, atendendo, em viatura, às ocorrências transmitidas por uma central da PM. 

Continuou trabalhando naquela função, por algum tempo, época em que se casou com a jovem Laci Almeida Souza.

O enlace matrimonial ocorreu em 12/5/1962.



Não me recordo da época em que conheci o senhor Luiz. Ele já atuava comandando o trânsito, quando ingressei no Magistério, em 1967, no Grupo Escolar Municipal " Matteo Bei".

Nossa amizade foi imediata, pois era impossível não notar o comportamento daquele homem, no exercício de sua profissão.

Seu Luiz, como era chamado, tinha o sorriso largo e espontâneo. Todos os dias, invariavelmente, lá estava ele na calçada, defronte a Escola. Naquela época, a rua Frei Gaspar tinha mão dupla. Por ela, trafegavam todos os tipos de veículos: bicicletas, motos, carroças, automóveis, ônibus, caminhões. A atenção para atravessar a rua tinha que ser total. Semáforo, caso houvesse, não adiantaria já que, infelizmente, alguns motoristas não o obedecem. Apenas uma autoridade, atenta a todos os movimentos, poderia controlar o trânsito. Em todos os momentos, lá estava seu Luiz.

A felicidade que todos tivemos por ter um policial de trânsito nos auxiliando a atravessar uma rua tão movimentada, não foi só essa. Sob aquela farda, descobrimos, prontamente, que havia uma personalidade ímpar.

Na calçada, alguns alunos esperavam por sua ordem. Era aí que se dava a diferença. Ao seu sinal, os veículos paravam. Então, bondosamente, de braços dados, ele atravessava a rua com os estudantes. Todos queriam receber sua atenção e seu toque. Para todos, ele tinha sempre uma palavra carinhosa. As crianças retribuíam aquele desvelo, com sorrisos de satisfação.Enquanto isso, os motoristas aguardavam, observando- o com admiração. Quem por ali trafegava, rotineiramente, não se apressava. Poucas vezes ouvimos seu apito de atenção. Apenas as mãos eram usadas, no código de trânsito.

Em 1972, para a alegria de todos, seu Luiz anunciou o nascimento de sua filha, Elaine Cristina Almeida Galvão. Professores, funcionários e alunos se regozijaram com tão boa notícia.

Seu Luiz foi um palestrante muito requisitado pela diretora, senhora Dinah Rossi. Ela percebeu sua inclinação natural para agregar valores e influenciar, beneficamente, o comportamento dos alunos. Quando as filas estavam formadas no pátio, ela o levava até lá.

Ao vê- lo, os olhos infantis brilhavam. Todos se aquietavam, esperando por suas palavras. Amigavelmente, com a simplicidade de sempre, ele conversava com os estudantes. Tornava- se um pai, um protetor, discorrendo sobre os cuidados que todos deveriam ter na preservação da vida. Conselhos eram transmitidos e ouvidos com atenção. Ele também dizia como devia ser o comportamento escolar, cada um respeitando o outro, independente da hierarquia.Todos se beneficiavam, grandemente, com a palestra proferida.

Por falar em palestra, havia um dia em que seu Luiz a proferia com propriedade. Era o dia vinte e cinco de agosto, " Dia do Soldado". Seu Luiz homenageava seu xará, Luís Alves de Lima e Silva.

Após vinte e quatro anos de convivência com o "Matteo", seu Luiz se aposentou. Foi em 1988. Acumulou uma legião de fãs, que até hoje cantam uma música dedicada a ele. Desconheço a autoria da composição que imortalizou nosso querido amigo.


" O guarda de trânsito ensina a criança
A atravessar a rua na faixa de segurança

Eu olho pra esquerda, pra direita com atenção
Respeito o sinal verde para a minha proteção

Refrão: O guarda de trânsito...........

Na rua eu não brinco, só brinco na calçada
Assim estou seguro(a), não serei atropelado(a)

Refrão: O guarda de trânsito.............

Na hora da entrada e da saída sou feliz
Pois tenho um grande amigo que é o guarda seu Luiz

Refrão: O guarda de trânsito..............."


Luiz Galvão Vieira faleceu em 18/4/2000. Deixou esposa, filha e um neto recém- nascido, Matheus Luiz, que não chegou a conhecer porque estava hospitalizado. Posteriormente, nasceu Maria Eduarda.
Seus familiares, por certo, perpetuarão a imagem de tão nobre criatura.


Mirtes dos Santos Silva Freitas.
19/6/2021




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A  Sétima Arte




Nossos domingos eram dias felizes.Acordávamos um pouco mais tarde. Pela manhã, lá pelas oito, nossa mãe abria a janela, cantando:"Abre a janela, Maria, que é dia/ são oito horas, o sol já raiou/ os passarinhos fizeram seus ninhos/ na janela do teu bangalô."( Ilha de Capri).O sol, quando havia, batia em nossos rostos. Daí, nada de sentir preguiça. No dia anterior, não sobrara pedra sobre pedra. Faxina geral. Então, após o café, folgávamos. Era só brincadeira, falatório.


Após o almoço caprichado, se o dia estava bom, íamos ao cinema. Quando morávamos na rua 3, íamos ao Cine Tamoio, na rua Frei Gaspar, 2426, perto de casa. Para falar a verdade, fomos poucas vezes. Não me recordo desse tempo, mas a Zilda, a caçula, lembra- se de que foi com meu pai, quando tinha quatro anos. Assistiu a um filme mudo. O Beto também se lembra de ter ido, aos seis anos, assistir à Paixão de Cristo. Disse- me que chorou muito ao ver o sofrimento de Jesus. Fazendo as contas, as duas idas devem ter ocorrido em 1957. Se eles foram, eu e a Neuza também fomos.


Em 1958, fomos para o Jardim Nosso Lar. Os cinemas mais próximos eram o Maracanã, no Centro, e o Petrópolis, na Vila Cascatinha. Para irmos ao Maracanã, pegávamos a rua Pérsio de Queiroz Filho.Depois, atravessávamos a via férrea, por um pontilhão de ferragem e madeira. Havia muitos degraus. A maioria das pessoas preferia passar por entre os trens, que manobravam naquele ponto. Era perigoso. Andando mais duas quadras, chegávamos ao cinema, situado na rua Campos Sales, 222. Outro cinema que frequentávamos era o Petrópolis. Para chegarmos lá, íamos pela Cap. Luiz Hourneaux, no Jardim Guassu, ou pela Américo Martins dos Santos, no Jardim Paraíso. Ele ficava na Av. Antonio Emmerich, número 665. Havia outros cinemas, mas tínhamos o costume de ir, somente, aos dois.


Sempre fomos às "matinées". As " soirées" não eram para crianças, embora houvesse filmes com entrada livre. Como íamos sozinhos, só podíamos ir à tarde. Naquela época, os jovens que frequentavam o cinema, à noite, tinham que comprovar a idade.


No cinema, que alegria! Os filmes começavam às 14 horas e terminavam às 17 horas. Chegávamos esbaforidos. Sem relógio, não tínhamos como controlar o tempo. Não podíamos nos atrasar. Chegávamos antes e escolhíamos o melhor lugar. Tinha que ser do meio para os fundos. A frente era desconfortável para os olhos e o som era muito alto.


O filme era precedido de um seriado.Era o bang- bang. Todos os domingos, passavam um pedaço. Gostávamos daquele embate entre o mocinho e o bandido. Também havia "Tarzan, o rei das selvas", e sua Jane. "A marca do Zorro" também era um seriado. Torcíamos, como se aquilo fosse real. Muitos batiam palmas, quando o mocinho levava a melhor. No momento do maior suspense, o filme era cortado. Só na próxima semana, a história teria continuidade. Ficávamos com um gosto de " quero mais". Bem, esqueci- me de dizer que, também, havia um curto documentário. Geralmente, sobre futebol.


O ápice de nossa emoção ocorria quando, na tela, aparecia a marca que iria apresentar o filme. Podia ser a da Colúmbia Pictures Industries, a Paramount, a Companhia Vera Cruz ou a nossa preferida: Metro-Goldwin- Mayer.
Sim, adorávamos ver aquele belo leão, com seu rugido a ecoar pela sala. Todos nos posicionávamos em nossos assentos. O espetáculo ia começar!


O cinema sonoro teve início na década de 1930. Antes, os filmes eram mudos, em preto e branco. Charles Chaplin, " Carlitos",foi o mestre genial daquela época. Beirando os anos sessenta, assistíamos a filmes com diálogos, embora tenhamos visto películas com os Três Patetas e o Gordo e o Magro, pastelões que muito nos divertiram. Com suas mímicas, eles não precisavam falar. A comicidade das personagens alegrava a sala inteira. Também havia o Cantinflas, o Oscarito e o Grande Otelo, comediantes excelentes!


Recordo- me de um filme daquela época, muito profundo:" Marcelino, pão e vinho", protagonizado pelo menino Pablito Calvo. Gostei demais!


Alguns filmes eram de longa metragem. Quando eram curtos, havia dois, com um intervalo entre eles. Permanecíamos na poltrona, esperando pelo segundo. Muitos se levantavam. Iam ao " toilette" ou à lojinha, para comprar pipoca ou outra guloseima. Os donos faturavam com o pequeno comércio. Nada comprávamos. Íamos com o dinheiro exato para o bilhete da entrada. Até hoje, não tenho o hábito de consumir no cinema.


Um fato digno de nota era o respeito que todos tinham pelo lugar alheio. Se alguém se ausentava, deixava um lenço ou um objeto guardando o lugar. Quando voltava, o lugar estava desocupado.Fico pensando: se agíamos assim, por que as gerações posteriores não seguiram nosso exemplo? Hoje, independente da classe social, quase ninguém respeita o próximo.


Ainda nos tempos do Petrópolis e do Maracanã, lembro- me da Roma antiga. Eu admirava demais aqueles homens que usavam saiotes e sandálias douradas e aquelas mulheres com os olhos pintados. A Cleópatra era uma delas. Fiquei feliz demais quando minha mãe comprou uma sandália semelhante à que um deles usava. E aquela corrente dourada com uma grande medalha furta- - cor? Eu me sentia fazendo parte do Império romano. Seria eu a esposa do Spartakus, de algum Augusto ou, então, Helena, mulher de Flavius Claudius Julianus? Só pelo nome desse último, já me apaixonei! Aqueles filmes me fazem lembrar dos livros de História Geral, com Tibério, Calígula, Nero, Nabucodonosor, Nabopolassar... Nossa! Como era difícil decorar os nomes daquelas antiquíssimas pessoas, seus feitos e desfeitos, tão diferentes de nossas vidas! Os filmes, pelo menos, mostravam objetos que eu poderia usar. Com eles, eu me sentia " Mirtes, a Grande"!


Em 1962, retornamos. A rua já não se chamava "3" e o número não era o da ligação da energia elétrica. Por falar em mudança, até o nome do cinema mudou.. Já não era Tamoio. Virou São Jorge. Cine São Jorge! Tinha tantas pulgas que foi cognominado de " pulgueiro"! Devo acrescentar, também, que as fitas costumavam enguiçar. Aí, as luzes eram acesas e tínhamos que esperar, impacientemente, pela retomada do filme.


O gosto pelas matinées continuou. O campeão de bilheteria, à tarde e à noite, era o Mazzaropi. No Brasil, não há cineasta igual a ele. Era ator, humorista, cantor, produtor, diretor...um fenômeno! Sua companheira de filmes era Geny Prado. Os filmes do " matuto" Mazzaropi arrastavam multidões. Aquele pedaço da rua Frei Gaspar era pequeno para a fila. Ela dobrava pela rua Tamoios. Todos sonhavam entrar no cinema que, é claro, tinha espaço limitado. Às vezes, alguns ficavam de fora. Voltavam para casa, desalentados. Os títulos dos filmes foram muitos, mas três vêm à minha mente: Jeca Tatu, Tristeza do Jeca e O Corintiano. Todos, porém, foram apreciadíssimos! Mazzaropi costumava cantar plangentes melodias. Lembro- me bem de uma: " A dor da saudade" ( Elpídio dos Santos). Cantores também eram convidados. Dentre eles, Tony e Celly Campelo, Ângela Maria, Agnaldo Rayol...Esse último ainda é vivo. Tem mais de setenta anos de vida artística! Toda a obra do famoso Jeca está reunida no " Museu Mazzaropi", em Taubaté. 

Em 1960, Mazzaropi filmou " Zé do Periquito" em Itapecerica da Serra, Santos e...São Vicente!


Muitos e muitos filmes fizeram grande sucesso. Naquela época Hollywood exportava excelentes artistas que, além de bons, eram belíssimos. Homens e mulheres arrebataram corações. Omar Sharif, Kirk Douglas, Alan Delon, Yul Brynner, Sophia Loren, Elizabeth Taylor, Brigitte Bardot, Gina Lollobrigida, e muitos outros, ditaram a moda e os costumes. Era um tempo em que muitos fumavam. As pessoas imitavam seus gestos, sentindo- se o suprassumo da elegância e do poder. A baforada tinha um quê de superioridade. Internamente, gargantas e pulmões resmungavam. Haja vista o pigarro de rejeição.


Houve filmes para todos os gostos. Alfred Hitchcock foi o rei do terror. Também havia o " Zé do Caixão", causando grande impacto. Era amedrontador. As histórias eram macabras!


A molecada apreciava os filmes de bang- bang americano. Quase todos os meninos brincavam de mocinho e bandido. Alguns tinham revólver de espoleta, que soltava um estalido. Outros, como meu irmão, tinham o mais simples, que era apontado na direção do rival, com uma imitação de tiro feita com a boca. Como " quem não tem cão caça como o gato", alguns usavam um cabo de vassoura para se fingir de atirador. Escondiam- se atrás de um poste ou de um monte de areia. Atingidos, imaginariamente, tombavam feridos no capim. Eram os hollywoodianos jecas- tatus.


Não sei como se sentiam as mocinhas. Eu, particularmente, saía do cinema, levitando. Encarnava aquela belíssima atriz ou aquela heroína. Descia a Pio XII em estado de encantamento. A Neuza, chegada no inglês, levava um tempo enrolando a língua, imaginando ser nativa dos States. Em casa, só nosso cachorro a entendia. Pudera! Chamava- se Dog!


Falar sobre filmes e não citar um, inesquecível, seria um grande descaso. Até hoje, tenho a voz de Joselito em meus ouvidos. Era um menino espanhol. Contracenou com Marisol, também criança. Ele ainda é vivo e reside em sua terra natal. Cantava em espanhol e sua voz se prolongava pelo ar, com um timbre límpido e inigualável. " La rosa y el ruiseñor". Saudade.


Mirtes dos Santos Silva Freitas
16/5/21.



25
A Menina Filomena


Há anos li, em um livro publicado por uma amiga, sobre um fato ocorrido na época em que ela cursava a segunda série ginasial no Ginásio " Martim Afonso", no ano de 1949. Ela contou que algumas alunas , que cursavam a primeira série, tiveram uma aula vaga. Como teriam prova na aula seguinte, resolveram sair da Escola e ir estudar na praia, perto dali. Chegando lá, sentaram- se em algum lugar. Tiraram os sapatos e as meias, ficando à vontade. Entre risos e brincadeiras infantis, abriram os livros e os cadernos , dispostas a revisar a matéria. Uma das meninas, porém, resolveu entrar no mar para molhar os pés, perto do Marco Padrão. É sabido que ali há muitas pedras, que formam o Ilhéu da Pedra do Mato, onde se encontra o monumento.

Embora pareça raso, quando a maré está baixa, é um lugar perigoso, pois as ondas escavam a ilhota, formando buracos. Filomena, a menina em questão, ingenuamente, dirigiu- se para aquele local. Num instante, desapareceu. As colegas ficaram desesperadas! Algumas estacaram, sem ação. Outras gritaram por socorro! Logo, apareceram pessoas, querendo saber o que tinha ocorrido, tentando ajudar. Os bombeiros foram chamados e iniciaram as buscas. Logo, a notícia foi espalhada e todos, na Escola, tomaram conhecimento. Consternação geral!

Três dias depois, o corpo de Filomena foi encontrado. Minha amiga não participou do velório, nem do enterro.

Na época, os velórios eram, geralmente, feitos em casa e o caixão, branco para os anjinhos e crianças, era levado pelas ruas, até o cemitério. As pessoas , que faziam parte do cortejo fúnebre, costumavam levar buquês de flores, colhidas nos próprios quintais. É provável que tenha acontecido assim.

Isso ocorreu há muitos anos! Poderia ter sido apagado na lembrança de todos. A vida, ou a morte, no caso, tem seus mistérios. O local, onde a menina foi enterrada, passou a ser um ponto de visitação, até pelos que não a conheceram. Como era estudante, jovens passaram a fazer pedidos para ela, a fim de serem aprovados. Como pagamento da promessa, iam ao seu túmulo, para jogar os cadernos utilizados durante o ano. Não sei se isso ainda acontece, mas sei que há plaquinhas de " Agradecimento à Menina Filomena pela graça alcançada". Eu, que não a conheci, tenho o costume de visitar sua campa, no Cemitério Municipal de São Vicente*. Acho que muitos fazem isso, pois os funcionários sabem, prontamente, indicar o local.

A história da menina continua comovendo os corações.

Mirtes dos Santos Silva Freitas
28/4/2021

24
Macatuba e o Anjo


Na década de 1980, não sei determinar a data com precisão, apareceu um homem solitário, em nosso bairro. Tinha, visivelmente, problemas mentais. Olhar vago, passo incerto, instalou- se no canteiro de um estabelecimento comercial, existente bem defronte à Praça Cesário Bastos, próximo de minha residência.

Todos os dias, eu via aquele homem. Negro, alto, com idade aproximada dos trinta anos, vivia maltrapilho. Se não bastasse sua condição de penúria, ainda havia pessoas maldosas que o ridicularizavam, dando- lhe camisolas de nylon. O coitado vestia aquelas peças, sobre o andrajo com que se vestia. Tem mais: davam chupeta para ele, que não a largava. Era deprimente. Ninguém fazia nada. Talvez, alguns se divertissem com a figura. Outros se condoíam. Para quase todos, a indiferença era o sentimento comum.

Não sei quem lhe deu o apelido: Macatuba. Tinha sido fácil. Era a única palavra que saía de sua boca, talvez, inconscientemente. Macatuba pouco comia. Às vezes, alguém colocava um pouco de comida ao lado dele. O dono da padaria contribuía com um pão.

Durante o dia, o indigente não parava. Era andarilho. Várias vezes, eu o vi, caminhando pela Avenida Nossa Senhora de Fátima, já perto do Cemitério do Saboó. À noite, porém, voltava para o seu refúgio, ao relento. Se alguém o cumprimentava, lá vinha a palavra: Macatuba!

Um fotógrafo, que tinha sua casa comercial na rua em que moro, começou a prestar atenção naquele homem. Era impossível colher alguma informação, partindo dele. Então, pensou: Macatuba!
Pesquisando, encontrou o nome de uma cidade no interior de São Paulo. Imagine...distante duzentos e oitenta quilômetros da capital, perto de Jaú, Pederneiras, Areiópolis, Lençóis Paulista...Pois ele resolveu, por conta própria, visitar a tal cidade, com a única intenção de deslindar o caso. Procurou, procurou até que descobriu. Uma família sofria pela perda de um filho, que desaparecera.  Estivera internado no Juqueri, em Franco da Rocha. Era a única informação que tinham. Não sabiam como ele tinha saído de lá. Será que teve alta e foi deixado na rua, entregue à própria sorte? Será que se evadiu, num momento de descuido? Enfim...lá estava o velho pai, já sem esperança de encontrá- lo. Pudera! Sempre andando, sem rumo, o filho se perdeu!

O fotógrafo voltou a São Vicente.Inquieto, foi à Câmara e pediu auxílio. Precisava de uma ambulância para transportar um pobre doente, até o interior de São Paulo. Também necessitava de alguém ligado à Saúde, para que ele ficasse calmo e fosse em segurança. Conseguiu o que pleiteava.

Por vários dias, as pessoas do bairro não viram o Macatuba.Fixou- se em outro local? Foi atropelado? Morreu? Nada disso. Um dia, conversando com o fotógrafo, soube do desfecho. Finalmente, Macatuba voltara ao seio familiar. Nunca mais seus entes queridos se afligiriam, sofrendo pela falta de notícias.  Agora, o ninho estava completo, para festejar Natais e aniversários.

Cabe a um fotógrafo fazer reportagens, por meio de fotografias. Tive o prazer de vê- las, muitas, em um álbum. Ele me contou que, lá chegando, ligou sua máquina, clicando-a sem parar. Para mim, foi emocionante entender o que se passou. Primeiramente, vi um grande terreno de barro, em declive. Lá embaixo, numa casa, um homem na porta, à espera. Descendo a rampa, com os braços abertos, Macatuba corria. Voava em direção ao pai. O fotógrafo contou que ele começou a falar, assim que se sentiu protegido.
        
O anjo tinha cumprido sua missão.

Mirtes dos Santos Silva Freitas
21/4/2021

23
Os ciganos


1968- Vindo, não sei de onde, caiu um meteorito em São Vicente. Foi lá pelas bandas da Cidade Náutica. Para quem não sabe, temos Náutica I, II e III. Naquela época, a Náutica III ainda estava em gestação. As outras duas já existiam, porém, quase totalmente desabitadas. Quanto ao meteorito, brinco. Caiu em forma de um acampamento cigano, vindo não sei de onde. De repente,  pessoas muito diferentes começaram a circular pelos bairros. Já conhecíamos grupos iguais, que por aqui se  fixaram  em épocas anteriores, às vezes, ligados a circos. Os últimos, no entanto, mereceram uma atenção especial.

É incrível que saibamos tão pouco a respeito dos ciganos. Temos, quase sempre, informações esteriotipadas. Certamente, por serem um grupo fechado, poucos se aproximam deles. Sabemos que a maioria é nômade, mas há, também, os sedentários. Os estudiosos dizem que partiram da Índia, em direção a várias regiões do mundo, formando as etnias: Rom ou Roma, Calon ou Kalon e os Sinti. Há, no Brasil, representantes dos três grupos, mas a grande maioria pertence aos Calons. Estima- se que haja, mais ou menos, oitocentos mil ciganos em solo brasileiro. Dedicam- se às atividades artísticas: música, dança, produção de objetos de metal e ao comércio, prevalentemente.

Naquele ano, digo, naquela década, os vicentinos, que viviam afastados do Centro, tinham pouca distração. Os jovens iam à praia ou ao cinema. Os pais mais liberais permitiam que os filhos e filhas fossem a bailinhos. Era a época do rock and roll e do iê iê iê. Os rapazes também se divertiam nos campos de várzea, jogando uma pelada. Havia vários campos de futebol em São Vicente e muitos times, também. Creio que os ciganos adquiriram um status especial, devido ao marasmo em que vivíamos.

As ciganas, em grupo ou em dupla, iam de casa em casa, adquirindo peças de ouro. Compravam correntinhas e medalhas quebradas. Às vezes, propunham trocas. Causavam admiração, com suas saias coloridas, vistosas, muito rodadas. Só os pés ficavam à mostra. Na cabeça, usavam um lenço ( diklô). Pesquisando, descobri que o uso do lenço é um hábito atribuído à Santa Sara Kali, padroeira do povo cigano. Ela é homenageada no dia vinte e quatro de maio, com uma grande celebração. O mais incrível, nas ciganas,  era o sorriso. Todos os dentes de ouro!
Às vezes, puxavam as mãos das pessoas e liam a sorte. A quiromancia,  dabra, é o forte do grupo. A maioria das pessoas ficava muito impressionada com o que diziam.

Quanto aos homens, faziam o maior sucesso! Passavam pela rua Frei Gaspar em seus longos carros, ofuscando os donos dos fusquinhas. Quando os víamos, já ficávamos com a curiosidade aguçada. O condutor, quase sempre sozinho, era diferente dos rapazes que conhecíamos. Suas roupas eram extravagantes. Dentre eles, um se destacava. Passava imponente no seu rabo- de- peixe. Às vezes, preferia o cavalo, que não era nenhum pangaré. O animal estava mais para um manga- larga marchador. O cavaleiro passava devagar, desfrutando dos olhares femininos, que para ele convergiam. Cabelos soltos ao vento, orgulhoso de sua estirpe, o príncipe, ou rajá, desfilava, enquanto a turba se alvoroçava. Mocinhas que não tinham problemas cardíacos, completamente sãs, apresentavam taquicardia à visão do cigano. Quantas não segredaram sobre ele em seus diários?

Aos domingos, havia romaria até o acampamento. Lá, no  espaço de alguns terrenos baldios, de mato baixo e ralo, ficava a grande tenda. Em volta, algumas barracas. Os acampados iam e vinham, sem se preocupar com os olhares forasteiros. Devia haver muitos Adílios, Argus, Alejandros, Ciranos e Iagos. E Jades, Anabelas, Auroras, Carmelas e Dalilas. Ah! E para quem gosta de Poesia, Carmen, que tem esse significado. Sim. Os nomes ciganos são repletos de simbologia.

Durante algum tempo, não sei precisar quanto, as tardes ensolaradas tinham um destino certo: visita àquele ponto da Cidade Náutica, que se tornou ponto turístico. Faltou- nos, porém, alguém que nos esclarecesse sobre o que víamos, sem nada entender. Alguém que nos dissesse que tínhamos mais afinidade com eles do que podíamos imaginar: o amor à família, o respeito aos mais velhos... Admiramos tantos seres especiais e desconhecemos sua origem cigana: Elvis Aaron Presley, Charles Chaplin, Washington Luís, Juscelino Kubitschek, Castro Alves, Benito de Paula, Dedé Santana... e a Cecília Meireles? Não à toa escreveu o belo poema " Canto Cigano", com tanta propriedade. É, nós, os gadjós ( não ciganos), pouco sabemos sobre isso.

Escrevi, escrevi, e o tempo passou...Pisquei os olhos e não mais os vi. A Frei Gaspar voltou à monotonia de segunda- feira, sem nenhum encanto. Aos domingos, as pessoas voltaram a assistir à " Jovem Guarda", um programa de televisão de muito sucesso. Aqueles terrenos baldios foram entregues ao abandono, sem o colorido da comunidade cigana, que foi encantar outras plagas.

Eu fiquei com uma palavra, que significa um grito de força. Bravo! Olé! Salve! Pois é, tudo isso, na fala cigana:" Optchá!"

               Provérbios ciganos

"A Terra é meu lar, o céu é meu teto e a liberdade é minha religião."

" Não se pode ir reto, quando a estrada é curva."

" O que caiu da carroça deixe para trás, pois não lhe pertence mais."

Mirtes dos Santos Silva Freitas.
19/4/2021
                   


22
As vacinas


Sou suspeita para falar sobre vacinas. Desde pequena, muito pequena, aprendi que elas são benéficas.Da primeira que tomei, não tenho lembrança.Com certeza, foi antes dos quatro anos de idade. Conhecimento e contato, tive aos cinco ou seis anos, quando acompanhava minha mãe ao Posto de Puericultura, situado na primeira casa do lado esquerdo da rua Pérsio de Queiroz Filho, no Catiapoã.Ali, além da aplicação de vacina, pessoas ligadas à Saúde pesavam as crianças e aconselhavam as mães quanto aos cuidados necessários ao bom desenvolvimento infantil. Lembro- me de ver os pequenos tomando B.C.G. O líquido era acondicionado em um frasquinho, hermeticamente fechado, com tampa de borracha.Era administrado por via oral. Hoje, a vacina tem aplicação intradérmica. Naquela época, havia o Concurso de robustez. Bebê saudável era bebê acima do peso. Hoje, essa ideia não mais existe, felizmente. Quanto ao mais, o início de vida do recém- nascido era muito bom. O aleitamento materno era incentivado. Satisfeitas, as mães saíam do Posto, com a sensação de segurança.


Infelizmente, quando eu e meus irmãos éramos crianças, não existia a grande oferta vacinal que hoje existe. Praticamente, todas as crianças contraíam sarampo. Os únicos remédios eram a quarentena e o chá da flor do sabugueiro. Quando uma criança adoecia, transmitia a doença para os irmãos menores. Certamente, os mais velhos já estavam imunes, porque foram infectados, anteriormente. O sarampo era tido como uma doença benigna. Havia, porém, casos de complicação e morte. Outra doença de que ouvi falar, naquela época, foi a crupe( difteria). Conheci uma pessoa que ficou com graves sequelas, que afetaram seu desenvolvimento físico e mental.


Na metade da década de 1950, fomos acometidos pela coqueluche( tosse comprida). Meu Deus! As pessoas tossiam, convulsivamente, sem parar. Creio que a tosse durava um mês. Era um sofrimento! Acho que não havia campanha da vacina contra a coqueluche, embora saiba que foi criada em 1926.


Outra doença terrível era a poliomielite, que aleija as pessoas. Tive um colega acometido por ela. Não havia campanha de vacinação, eu creio. Tomei, sim, a antirrábica, no Hospital São José. Foram algumas injeções na barriga, porque tive contato com um cachorro louco, digo,
raivoso.


Como se vê, vivíamos à própria sorte. Morria- se, também, de causas evitáveis. Hoje, por serem procedimentos simples e grátis, não percebemos o quanto devemos agradecer aos incansáveis seres que dedicam sua vida a fazer o bem para a Humanidade. Uma picada de cobra já ceifava uma vida. Na Escola, aprendíamos sobre um médico cientista, imunologista e pesquisador, fundador do Instituto Butantan, Dr. Vital Brazil Mineiro da Campanha. Mal sabíamos que, no século seguinte, seu nome seria lembrado, pois o Instituto está, mais do que nunca, presente em nossas vidas.


Faço uma pausa, aqui, para contar um fato que muito me impressionou. Aconteceu em 1958 ou 1959. Eu era aluna do " Martim Afonso". Após ingressar na primeira série do Curso Ginasial, todos os alunos recebiam uma requisição para a aplicação da vacina antivariólica. Antes de nos dirigirmos ao Centro de Saúde, situado na rua Jacob Emerich, 686, tínhamos que comprar uma estampilha na Caixa Econômica, situada na Praça Barão do Rio Branco. O selo servia para certificar o atestado. Então, íamos tomar a vacina. O líquido era acondicionado num tubinho de vidro muito fino. A funcionária quebrava uma ponta do vidro e arranhava nosso braço, sem feri- lo, apenas tirando a camada superficial da pele. Depois, soprava a ponta do tubo, fazendo com que o líquido entrasse em contato com nossa pele. Não podíamos passar a mão, pois era necessário que ele penetrasse no local. Aquilo evitava que contraíssemos a varíola.
Os alunos iam sozinhos se vacinar, mas algumas mães " zelosas" acompanhavam seus filhos, munidas de um limão cortado ao meio, para esfregar no braço do filho, a fim de que a vacina não pegasse. Não queriam a aquisição de uma cicatriz. Era preciso que tivessem visto fotos de contaminados pela doença que, àquela época, ainda não tinha sido erradicada. É um quadro horripilante, uma tragédia, com dolorosas consequências. Só em 8/5/1980, a Trigésima terceira Assembleia Mundial da Saúde declarou, oficialmente: " O mundo e todos os seus povos estão livres da varíola"( OPAS/ OMS Brasil). Note- se que a vacina contra a varíola foi desenvolvida pelo Dr. Edward Jenner, no século XVIII.


Se consultarmos o calendário vacinal, veremos o quanto devemos aos estudiosos dos séculos anteriores ao nosso. Doenças transmitidas pelo simples contato humano ou pela picada de um inseto já não nos assustam. Certo é que ainda não há vacina contra a dengue, a zika e a chikungunya. Temos certeza, porém, de que muitos estão promovendo buscas incessantes no intuito de controlá- las ou erradicá- las.


Atualmente, sem dúvida, a grande preocupação, mundialmente falando, é a pandemia da covid-19, que assola a Humanidade. Novamente, voltamos nossos olhos para a Ciência, único meio capaz de debelar a peste invisível e mortal. Há cento e vinte anos, dois médicos se uniram para debelar uma outra peste, a bubônica, que grassava no Porto de Santos. Vital Brazil e Oswaldo Cruz , fundadores do Instituto Butantan e Fundação Oswaldo Cruz, Fiocruz, respectivamente, dedicaram suas vidas ao estudo científico, com descobertas valiosíssimas e duradouras. Quem diria que, cento e vinte anos depois, os imortais cientistas seriam relembrados ao emprestar seus nomes, na luta hercúlea do atual cenário sanitário.

Agora que os conhecemos, não podemos nos eximir do combate. Mais do que nunca, é atual a frase citada em " Os Três Mosqueteiros", escrito por Alexandre Dumas, em 1844:
" Um por todos, todos por um!"


Mirtes dos Santos Silva Freitas.
11/4/2021


21
Aleluia!!!



Todos os dias tinham um gosto especial para nós, na década de 1950. Durante a semana, inclusive aos sábados, eu e a Neuza estudávamos no Grupo Escolar. A caçula ainda era pequena e nosso irmão apenas iniciou os estudos em 1958. As aulas tinham a duração de três horas. Não cansavam. Eram uma obrigação e uma distração. Íamos e vínhamos, saltitantes. Avental branco, um grande laço branco na cabeça, imitando uma borboleta e tamancos rústicos de madeira, como aqueles usados pelos portugueses que trabalhavam no cais do Porto. Éramos duas passarinhas, com asas abertas para voar.

Em casa, além de ajudar nossa mãe em algum afazer doméstico, fazíamos as tarefas escolares. Não eram muitas. Cópia do livro de leitura, operações aritméticas simples, leitura no Caderno de Pontos de Deborah Pádua Mello Neves. Sua obra é célebre. Escreveu mais de cem livros. Soube, agora, que faleceu com cento e um anos, em 2020. Ora! Ora! Uma verdadeira Matusalém! Ela nos iniciou em História, Geografia e Ciências. Não era fácil fixar tantos conhecimentos abstratos, distantes de nossa vida. Decorar os ossos da face? E os do crânio? E os afluentes da margem esquerda do rio Amazonas? Capitais dos Estados? Certo que tínhamos menos estados, mas havia muita confusão. Só sabia de um " jipe cheio de caju"(Sergipe- Aracaju). No mais, Dona Deborah, eu tinha dez anos, somente!


Findas as tarefas, alforria! Era hora da folia. Não sabíamos para onde correr. Na verdade, corríamos pelo quintal e pelo nosso espaço de rua. Chamávamos duas coleguinhas. Pronto! Já era uma turma. Brincávamos de roda, com aquelas lindas músicas antigas: " A roseira"." A mão direita tem uma roseira/ que dá flor na primavera..."; " Terezinha de Jesus"." Terezinha de Jesus/ deu uma queda, foi ao chão..." " Ciranda, cirandinha..."," Senhora Dona Sancha...". Para descansar, havia o passa- anel e a estátua. Também, a recitação de quadrinhas.Para ficarmos tontas, vendo a Terra girar, havia o corrupio. Para gastarmos mais energia, pulávamos corda na versão " foguinho" e brincávamos de pique- esconde...Aos domingos, dia de folga, quero dizer: dia de brincadeira dobrada. Como era bom ser criança!


Uma época, porém, diferia de tudo o que relatei. Começava, já, na Quaresma. As rádios engavetavam as marchas carnavalescas e tocavam músicas lentas. Nas Igrejas, os semblantes eram tristes. O Jesus Cristinho, com seu manto roxo, repousava. Aqueles santos, com cabelos humanos, permaneciam cobertos, em recolhimento. Visitávamos a Igreja Matriz, que ficava vazia e sombria. Era uma bela Igreja. Foi destruída pelo fogo, em setembro do ano 2000. Quem a conheceu, sabe: era uma. Hoje, é outra. Bem, sabíamos que era Quaresma, porque nossa mãe nos falava. Também nos mostrava um arbusto florido, chamado canudo- de- pito ou aleluia. Aquela florada amarela representa, para mim, os últimos dias de Cristo.


Num belo domingo, víamos muitas pessoas passarem com um galho de palmeira. Ah! Era o Domingo de Ramos! Depois, a derradeira semana. Comíamos peixe, mais amiúde, comprado na Peixaria da dona Anita.


Finalmente, o dia inesquecível! Sexta- feira Santa, dia em que Jesus morreu. Dia de luto completo em nossa casa. Seriedade de minha mãe, imposta às crianças.--- Nada de rádio. Nada de cantoria. Cessem os folguedos. Hoje, não se brinca, nem se fala alto. Ninguém pega em vassoura, nem em tesoura.---Sei de famílias que não usavam o pente. Passavam o dia desgrenhadas, verdadeiras assombrações.


A quietude era tão grande, que até o tempo parava. O dia ficava estanque, frio e sombrio.O relógio descompassava. Não adiantava fazer: tique- taque, tique- taque. Aquele era o dia que tinha, no mínimo, quarenta horas. Dávamos graças, quando a noite entrava em casa. Nunca a cama fora tão esperada. Só o sono era capaz de nos livrar daquela melancolia.


Sábado? Sim! Outro dia nos sorria. Aí, era um vaivém incessante ao portão. Lá no poste, de anônima autoria, estava o boneco- homem amarrado. Calça e paletó, chapéu surrado na cabeça, pernas pendentes. Também, nesse dia, o relógio parava. Dava duas da tarde e não dava meio- dia. Opa! Falta pouco! Não sei de onde vinham tantos moleques, munidos de porretes. Doze horas! Caíam sobre o Judas, inclementes! Alguém ateava fogo naquela barriga de palha. Doze e... minutos.O coitado já estava malhado e destruído. Os algozes se dispersavam, felizes por terem se vingado do traidor de Jesus. Certos? Errados? Depende da visão de cada um. Só sei que aquele desejo de vingança já vinha no sangue. Só sei que, hoje, continua latente. O acontecimento presenciado por nós era um divertimento, mas deve servir de reflexão. A justiça se faz com a Justiça que necessita, e muito, ser aprimorada. Não deve ser feita com porretes e armas.


O dia seguinte chegava com as alvíssaras. Jesus ressuscitou! Regozijo! Introjetávamos o simbolismo cristão.
Ainda não tínhamos sido corrompidos pelos ovos de Páscoa.


Mirtes dos Santos Silva Freitas.
Domingo de Páscoa. 4/4/2021.


20
Águas de março

       Há, exatamente, sessenta e cinco anos, em mil novecentos e cinquenta e seis, as águas de março causaram duas catástrofes inesquecíveis na Baixada Santista. Uma delas foi no início do mês e a outra, no final. Tenho lembrança do dia vinte e cinco, um domingo.

       Morávamos na Rua 3, numa encruzilhada. Para os supersticiosos, já significa mau agouro. Nós não achávamos isso. Éramos felizes, sem que o básico nos faltasse.Crianças, não tínhamos expectativa quanto ao futuro. Eu e a Neuza já estudávamos no Grupo Escolar. Os dois menores só brincavam.

       Agora, preciso explicar o porquê de eu ter me referido à encruzilhada. Se fosse em outro local, não teria a mínima importância. O problema é que nossa casa, de esquina, ficava no local mais baixo que se poderia imaginar. A rua, alta nas extremidades, formava, até, um morrinho. Eram dois pontos altos, convergindo para a nossa moradia. Cruzando-a, mais um ponto alto e, ao lado da nossa casa, no sentido oposto, um brejo indo até a via férrea. Essa, por sua vez, era muito alta. Ainda por cima, os terrenos vizinhos eram alagadiços. Resultado: morávamos numa ilha.

       Bem, devo dizer que nos dias ensolarados éramos privilegiados. O pântano desabrochava. Havia lírios- do- brejo, cândidos, lindos, perfumados. Trata- se de uma planta palustre, também chamada de " mariposa", flor nacional de Cuba. Com o mesmo grau de candura, havia os copos- de- leite. E o que falar sobre as taboas, com seus pendões castanhos, que se rebentavam numa espécie de paina? Também havia o chapéu- de - couro, com suas alvas flores; os aguapés arroxeados, com manchinhas amarelas, formando um cacho delicado e vistoso; a treporava, com florinhas azuis; a erva- madre, a erva- de- bicho, a taioba comestível e a venenosa...chega! Não estou aqui para falar de Botânica!

       Antes de ir direto ao assunto, devo acrescentar que havia uma vala acompanhando o terreno. Ali, também, tínhamos de tudo: desde o insuportável pernilongo até as belíssimas e diáfanas  libélulas, ou lavadeiras. Elas sobrevoavam a água, pousando sobre o alimento vivo: as larvas. O local era um criadouro de sapos, rãs e, consequentemente, de girinos. E as cobras? Sim. Tínhamos. Em certas noites, trevosas ou enluaradas, ouvíamos o coaxar aflito das rãs. Eram as cobras, providenciando um banquete. Para terminar a descrição do nosso entorno, tenho que acrescentar a presença das sanguessugas. Elas me assustavam mais do que um filme de terror. Zé do Caixão não me meteria tanto medo.

       Retorno, agora, ao temporal. Começou à tarde, já assustador. O céu desabava. Como eu disse, com um terreno tão baixo e alagadiço nos dias chuvosos, qualquer aguaceiro nos causava apreensão. Tudo foi num crescendo. O final de tarde virou noite, antes da hora. A energia elétrica, que já nos faltava com qualquer chuvisco, foi desligada. Como isso era frequente, meus pais sempre tinham velas e a lamparina a querosene. O pavio, nela submerso, com uma linguinha para fora, alimentava a chama que alumiava os pequenos cômodos. A chuva, cada vez mais intensa, começou a nos amedrontar. A água, despejada em catadupas, vinha das partes mais altas. No terreno do brejo, permanentemente alagado, porém, não havia escoamento. Do lado oposto, a ferrovia era uma barreira intransponível. E a chuva foi aumentando. Os habitantes da vala, anteriormente delimitados pelo capim, ficaram desorientados. Desalojados do seu habitat, espalharam- se, confusos.

       Dentro de casa, a preocupação deu lugar às providências necessárias. O desastre já se avizinhava. Meus pais, aflitos. Nós não sabíamos, ao certo, o que estava acontecendo. A hora chegou, de repente. Primeiro, a cozinha, que era mais baixa, foi inundada. Rapidamente, a água subiu dois degraus e se espalhou pela casa. Era um rio. Meus pais deixaram a porta da cozinha aberta, para facilitar o escoamento. Qual! A correnteza era voraz. O cenário, com a luz bruxuleante das velas, era fantasmagórico!

       Nós quatro fomos colocados sobre a mesa da cozinha. Era de madeira. Aguentou- nos. Ficamos quietos, observando nossos pais na correria, tentando salvar o que podiam. As roupas foram entrouxadas e colocadas sobre o guarda- roupa. Minha mãe retirou os alimentos do guarda- comida. Colocou- os bem no alto, a salvo. As xícaras, azuis, azuis, com bordas e asas douradas,que estavam numa prateleira baixa, resolveram escapulir. Seguiram na enxurrada, porta afora. Viraram barquinhos. Isso, porém, foi pouco. O grande mesmo foi o que aconteceu com minhas pernas. Eu já tinha nove anos. Meio porque mal cabíamos os quatro sentados sobre a mesa, meio porque queria balançá- las na água gelada, deixei- as dependuradas. Não pensei que algo ruim pudesse acontecer. Mas aconteceu! Quando olhei para baixo, vi enormes pintas pretas coladas nas pernas. Aí...berros! Berros lancinantes!  Eram as sanguessugas. Eu sabia que elas só desgrudariam quando estivessem fartas de sangue, do meu sangue! Salvou- me meu pai. Rapidamente, derramou álcool sobre elas, que se desgrudaram e desapareceram na corredeira.

       Após o triste episódio, homens altos e desconhecidos surgiram na cozinha, para nos resgatar. Na verdade, um deles era nosso vizinho. Saímos, os três mais velhos, nos braços deles, na escuridão. Havia,  apenas,  a ajuda de uma lanterna.

       -----A cisterna! Cuidado com a cisterna! Por aqui! Por aqui!-----gritava o vizinho.

       Sim.Num lado do caminho havia uma cisterna. Naquela época, era uma palavra desconhecida por mim. Inferi, então, que se tratava do nosso poço. Coitado! Sua tampa de madeira , também, resolveu fugir. Estava escancarada uma boca, pronta a nos engolir. Isso não aconteceu, felizmente.

       Fomos levados para a casa desse vizinho, num ponto mais alto daquele trecho sem saída.

       Uma vizinha, há não muito tempo, contou- me que, naquele dia, tarde da noite, ouviu gritos.  Era minha mãe, com a caçula no colo e um relógio- despertador na mão, pedindo guarida. Meu pai, certamente, estava com ela.

       Os moradores das partes altas pouco se incomodaram com a força da chuva. Admiraram- se ao saber , no dia seguinte, que uma legião de desabrigados foi acolhida nas Escolas, nas Sociedades de Bairro, no Hospital São José.

       Morros desabaram. Pai e mãe, que tinham ido ao Cine Anchieta( SV), ao chegarem em casa, só encontraram uma avalanche de pedras e barro. Cinco dos filhos, com idades entre quatro e catorze anos, foram soterrados! Destruição e dor!

       Voltando ao dia seguinte, acordamos em casa alheia. Meu irmão tem uma lembrança nítida daquele momento. Chegando ao terraço, apenas viu um lago, um grande lago, sobrepujando toda a vida vegetal que descrevi no início. Na inocência dos seus cinco anos, já com uma queda para o romantismo, exclamou:

       -----Que lindo!

 

Mirtes dos Santos Silva Freitas.

21/3/2021





Formandas do magistério do I.E. Martim Afonso em 1966. 



Publicação original  em rede social do  Grupo Amigos do Martim Afonso. 2020


19
Um professor.....O Professor

1958. Durante os onze primeiros anos de minha vida, eu era uma cunhantã que vivia junto a um pequeno afluente, viajando em uma casca de noz. Circulava por um restrito quadrilátero, explorando o entorno do meu bairro. Estudava num Grupo Escolar com, apenas, quatro salas de aula. É o que se costuma dizer hoje: vivia no meu quadrado.

De repente, dei um salto.Caí num grande, imenso rio. Amazonas? Talvez. Conheceria, em breve, as emoções da pororoca. Silêncio! Reconheço essa música. Ela surge de minhas remotas lembranças. É a lenda da " Cobra Grande".(Waldemar Henrique da Costa Pereira)

      " Credo! Cruz!

      Lá vem a Cobra Grande

      Lá vem a boiúna de prata

      A danada vem rente à beira do rio

      E o vento grita alto no meio da mata

      Credo! Cruz!".......................................

       Curioso! Eu teria aulas de Música. A disciplina tinha o nome de Canto Orfeônico e o professor se chamava Luiz Gomes Cruz. Foi ele quem nos ensinou a música da Amazônia lendária e cheia de mistérios. Encantada, comecei a nutrir um profundo respeito por aquele que me acompanharia pelos anos seguintes, até minha partida, em 1966.

        As aulas do Professor Cruz eram diversificadas. Quando o sinal tocava, lá vinha ele, confiante, com uma mansidão estampada no rosto e nos gestos. Nunca levantou a voz para chamar nossa atenção e se preocupava, sempre, em saber se estávamos aprendendo.

       Naquela época, os professores trajavam camisa social e terno. O Professor Cruz usava , predominantemente, terno cinza, claro ou escuro. Outros usavam cores diferentes.As professoras usavam saia e blusa ou vestido. Nenhuma usava calça comprida, considerada traje masculino. Mulheres não podiam utilizar tal vestimenta em Órgãos Públicos, inclusive, na Igreja.

       Após a chamada nominal, o Professor Cruz iniciava a aula. Empenhado em nos iniciar em Educação Musical, desenhava a pauta na lousa, com as linhas suplementares inferiores e superiores. Colocava as claves de Sol e de Fá. As notas passeavam pelas linhas e espaços. Distinguíamos a nota  naquele solfejo ritmado. Ele nos apontava a semibreve, com sua batuta. Ta- a-a-a. Agora, era a mínima quem se apresentava: Ta-a! A lousa, antes despida de significado, sob seu comando, sugeria o passeio daquela barquinha de noz, flutuando nas ondas dos sons musicais.

       Nem só de solfejo vivíamos. A emoção estreitava o laço entre aquelas meninas, a cada música que ele nos ensinava. Primeiro, ele usava o diapasão, para fixar o lá e, dali, afinar toda a melodia. E era "A Preta do Acarajé", de Dorival Caymmi, que muito me impressionava: " Dez horas da noite/ Na rua deserta/ A preta mercando/ Parece um lamento/ Ê o abará.".......ou, então, " God bless América ----Deus salve a América", de Irving Berlin: " Quando nuvens negras/ como um negro véu/ descem sobre as serras/ empanando o céu...."Como era bom ter aquela pessoa dedicada e constante, lapidando nossa sensibilidade! E os Hinos do nosso amado Brasil? Maravilhosos! E os cânones? " Mestre Sapo"...." Meu sininho".....

       Tive a sorte e a honra de ter convivido com aquele Professor que só me fez bem e de quem guardo ótimas lembranças. Ele foi a única pessoa que nos falou sobre o Esperanto, a Língua Universal que congraçaria todos os povos.

       O Professor Cruz nasceu em 1907. Começou a lecionar em 1925.Foi maestro, compositor de hinos escolares, poeta.

 Escreveu para jornais e revistas.Foi membro da Associação Santista de Teatro Amador. Lecionou em mais de uma dezena de Escolas. Ingressou no " Martim Afonso", em 1943. Deixou- nos um grande legado: O " Hino do Martim Afonso" e o " Hino da Normalista". Ainda sinto a emoção de recordá- los, ligados àquele senhor baixo, simpático e amigável que nos viu crescer.

       No final de 1966, as meninas, agora moças, partiram para o futuro deixando, para trás, o velho professor. Qual teria sido o sentimento dele? Com certeza, o sentimento do dever cumprido. E o que mais? Saudade de uma turma preparada para difundir seus ensinamentos.

       Em 2016, quando completamos cinquenta anos de Magistério, cantamos, emocionadas, o " Hino da Normalista". Também homenageamos o Professor Cruz, com uma medalha personalizada, que enviamos ao seu filho Luís. Ele já tinha partido. Fora encarregado de reger um coral de anjos, com sua velha batuta, imortal e etérea.

       Recordo- me do meu último dia de aula no " Martim Afonso".Faço um breve retrospecto: ingressei naquele Estabelecimento em uma casca de noz. Graças ao Professor Cruz e a muitos outros, percorri o grande rio e cheguei à foz. Enfrentei a grande onda e caí no oceano. Sobrevivi. Continuo navegando........................

Em tempo: Informações a respeito do Professor Cruz encontradas em Vias Públicas de Santos/ SP- Novo Milênio. Há uma rua, em Santos, com seu nome.

 Mirtes dos Santos Silva Freitas

10/ 9/ 20.

 

18
Incêndio no I.E. MARTIM  AFONSO




Poucos hão de se lembrar do incêndio na Secretaria do " Martim Afonso", nos idos de 1958. Indiretamente, faz parte de minhas lembranças, porque agreguei um valor sentimental ao fato.Sei, hoje, por pesquisa, que colocaram fogo nos prontuários dos alunos, na noite de 13 para 14 de outubro do citado ano.

Sei que foram queimadas as escriturações dos alunos do Curso Normal.Não sei se houve danos às notas de outras turmas.

    Lembro- me bem do dia 14.Naquele dia, aprontei- me, como de costume,e almocei.Peguei os livros e cadernos e despedi- me de minha mãe.Ah! Sem esquecer a caderneta vermelha, que era carimbada, diariamente, pela Sra. Neves Prado Monteiro,uma boníssima pessoa, que era nossa Inspetora de alunos.Na tal caderneta estava anotada nossa vida escolar: comparecimentos, ausências, suspensões( Cruz credo!) e notas: azuis, as queridas, e vermelhas, as abominadas. Como ia dizendo, saí de casa em direção à minha querida Escola, orgulhosa de ser Afonsina. Saia de casemira, pregueada, blusa branca, gravata preta, meias brancas e sapatos pretos, do tipo colegial. No bolso da blusa, se não estou enganada, havia um emblema com a sigla GEMA, bordado manualmente.

   Meu caminho para o " M.A.",naquele ano, era pela Rua Pérsio de Queiroz Filho(não sei se já tinha o nome de Avenida). Ora, esqueci- me de dizer que morava  no Jardim Nosso Lar, lá no fundão do Catiapoã. A rua era extensa e parecia mais extensa ainda, porque era um imenso areal ou areião, como dizíamos. Era, quase, uma areia movediça. Nela, nossos pés afundavam e parecia que nos transformávamos nos astronautas da Lua, em câmera lenta.De um lado, o Golf Clube, todo cercado de árvores.Nas árvores, em dias quentes, um número incalculável de cigarras, cigarrinhas e cigarronas entoava seus cânones intermináveis.Até parece que eram ensaiadas pelo saudoso Prof. Luiz Gomes Cruz, que lecionava Canto Orfeônico.Para lá das árvores, no verde gramado, ricos felizardos manejavam seus tacos de golfe, mirando a bolinha branca, tão desejada por muitas crianças.Às vezes, eu via a bolinha alçar vôo e se esconder dentro dos orifícios do gramado.Seus donos sorriam, felizes. Eu apressava o passo,transpirando, naquela rua interminável.

   Agora, vamos aos fatos.Dia 14 de outubro.Como esquecer tal data? Cheguei à pracinha do Catiapoã. Por ali, moravam algumas colegas. Dali, no mesmo horário, todas saíam, aos pares ou em pequenos grupos. Rostos infantis, sorridentes, preparando- se para o futuro.Cheguei, então, à casa da primeira colega.Chamei- a.Ela se dirigiu ao portão. Estranhei, porque estava sem uniforme. Disse- me, então:

   ---Mirtes, hoje não haverá aula. Puseram fogo na Secretaria e queimaram as notas dos alunos.

   ---Como? Quem?

   ---Não sei.Meus irmãos não tiveram aula de manhã e me avisaram que não haverá aula hoje.

   Despedi- me da colega. Dei meia- volta.

   Minha passagem pela pracinha foi de júbilo. Um resquício das chamas que devoraram aqueles papéis tomou corpo em minha mente.

Que sorte! Era outubro. Eu acabara de completar doze anos e já me preparava para receber minha primeira bomba. Estava com notas vermelhas em Desenho Geométrico, Trabalhos Manuais e Latim.Aliás, nem sabia se essa Língua era prima do Grego e tia do Árabe, de tão indecifrável que era. Sim, era Latim, porque o padre rezava a missa na tal incompreensível Língua. Aliás, nosso professor, Antônio Smanhotto, alto e magro, com seu terno preto e gravata da mesma cor, parecia mesmo ser um padre.

   Eu era muito ingênua, mas aquela chama em minha mente logo se apagou.Raciocinei: se as folhas com as notas foram queimadas, vão pedir a caderneta. Não adianta.Verão que tenho notas vermelhas.

   No dia seguinte, nenhum abalo.O Diretor Edu Botelho Baraúna, como sempre, passou por nós, sem nos cumprimentar.Não houve conversa sobre o que ocorrera.Todos se comportaram, galhardamente.

   Hoje, após ter lido alguns livros de Aghata Christie e de saber sobre a existência de um certo Sherlock Holmes,não deixaria por menos.Faria minha investigação particular.

   ---Por onde entrou o maroto? Maroto, não! Criminoso! Era aluno? Era irmão de aluno? Era pai de aluno? Usava luvas? Jogou álcool ou querosene? Usou fósforos Fiat Lux ou marca Olho? Talvez isqueiro? Nada! Acho que ninguém tem respostas para isso.Espero que, pelo menos, o gajo tenha se confessado ao padre.

   Sei, hoje, que houve uma saída inteligente para que os alunos não fossem prejudicados.O Governador da época, Sr. Jânio da Silva Quadros, publicou o Decreto de número 34638, em 29/1/1959,resolvendo o caso das notas perdidas, considerando as notas dos anos anteriores. Tudo foi acertado. Só o meu caso continuou piorando.Em dezembro, foi consumada a reprovação sumária, sem direito à segunda época, já que " um é pouco, dois é bom, mas três é demais!"

   Ao chegar em casa, minha mãe perguntou:

   --- Mirtes, não houve aula hoje?

   --- Não, mãe, puseram fogo na Secretaria da Escola.

   É... só eu sei!!!

 Mirtes dos Santos Silva Freitas


17
" A farra do boi"

   

Não. Não falarei a respeito da farra do boi, um costume que há, ou havia, em Santa Catarina.Seria difícil escrever sobre algo que nunca vi. Falarei sobre a farra do boi, que havia em São Vicente.

   Durante os anos de minha infância e adolescência, bois extraviados do confinamento corriam, desnorteados, pelas ruas de São Vicente. Não se tratava das vacas  que eram criadas para fornecer leite. Eu mesma fui alimentada pelo leite de vaca de uma vacaria, que havia em uma propriedade onde, hoje, fica o Hospital Ana Costa, situado à Av. Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon.Isso aconteceu em 1948. Nossa! Como sou velha! Colhendo fatos, cá e acolá, também soube que alguém da família Bei  criava vacas num terreno situado no final da Rua 3 ( atual Pio XII), num morrinho chamado Morro do Piolho.

   Concordo que tergiversei, mas não era sobre esses bois que eu queria falar. É que o assunto foi se estendendo em minha cabeça e, de repente, formou- se uma boiada. Agora, Mirtes, concentração! Como diria o Mandetta: foco! Tanto na Vila Matteo Bei, como no Jardim Nosso Lar, em 1958, ano em que ingressei no glorioso " M.A.", e em mais alguns anos posteriores, a situação foi a mesma. Os bois soltos, desesperados, correndo pelas ruas, provocavam um misto de medo e excitação!

    Naquela época, o gado vinha em vagões, nos trens da Sorocabana. Coitados! Dava pena vê- los! Os vagões eram gradeados com umas ripas largas. Eles colocavam o focinho junto às grades, no afã de sorver o ar, espremidos e desconfortáveis. Vinham de pé, com o corpo magoado pelo balanço do vagão, sentindo calor e sede. Certamente, seus cérebros bovinos não atinavam com tamanha dor. O trajeto era longo. Certamente, vinham do interior até a Estação de Samaritá. Lá, eram colocados nos vagões e descarregados na Estação Ferroviária, no Centro, defronte ao Bairro Catiapoã. Dali, iam para o confinamento em um mangueirão. Desconheço a localização do mesmo. Lá, os animais descansavam e eram alimentados. Depois, eram levados para o Matadouro Municipal de Santos, onde eram abatidos. São Vicente não tinha Matadouro. Tivera- o, entre os anos de 1891 e 1916.

   Enquanto os bois ficavam no mangueirão, os moleques das redondezas engendravam suas estrepolias. Diziam que eram eles que abriam a porteira e davam liberdade aos bois. Talvez não fosse isso. Talvez, alguns animais aproveitassem o descuido dos condutores e fugissem, em desabalada carreira. Não sei. Só sei que um,  ou mais de um boi, fugia, desatinado. A Cidade virava um grande campo. Virava uma farra! Bois apareciam nas ruas do Centro e em vários bairros: Catiapoã, Jardim Nosso Lar, Jardim Guassu, Parque São Vicente, Jóquei Clube e não sei mais onde.

   Agora, a parte divertida. Em qualquer lugar desses bairros, se aparecesse um boi, pode ter certeza, apareciam muitos moleques. Eram  abelhas em flor adocicada. Enquanto os adultos se protegiam e trancavam suas crianças, os ousados garantiam a diversão.

Diziam que os animais não gostavam da cor vermelha. Logo, aparecia um destemido com a saia vermelha da mãe, ensaiando para toureiro.

Se o boi empacava, o tipo fugia, já se sentindo estripado. Eu e meus irmãos, aboletados na janela do chalé, quase estourávamos de tanto rir.

   Felizmente, nunca dei de frente com um desses animais. Sei que minha irmã caçula, Zilda, quando tinha sete ou oito anos, passou por maus bocados, quando, certo dia, foi ao "Grupo Escolar Duque de Caxias". Disseram a ela para tomar cuidado, que havia um boi solto. Ela, com medo, ficou dando voltas pelo quarteirão.Felizmente, nada aconteceu e conseguiu chegar à Escola, sã e salva. 

   Ah! Naquela época, mesmo sendo a Escola distante da residência, os alunos iam e vinham sozinhos. Hoje, são escoltados pelos pais, até a fase adulta.Os bois já não amedrontam.O perigo espreita, de todos os lados.

 

16
A carrocinha

   Muitos, no início, pensarão que o título nada tem a ver com os " Amigos do Martim Afonso". Esclareço: não tem, mas tem. Como assim? É que fatos que ocorreram enquanto eu estudava no glorioso " M.A" vêm à minha mente e se insurgem com tanta veemência, que não posso me furtar de narrá- los. Assim sendo, fatos como a existência da carrocinha merecem um lugar de destaque entre meus escritos.

   Antes de eu ingressar no " Martim Afonso", residia em um bairro chamado " Vila Matteo Bei", hoje, Beira Mar.A rua chamava- se Rua 3, hoje, Rua Pio XII. Recebeu o último nome, logo após o falecimento do Papa, ocorrido em 9 de outubro de 1958. Aliás, aquele foi um mês aziago.O Papa morreu e houve o incêndio na Secretaria do " Martim Afonso". Ah! Também descobri que seria reprovada, já que a caderneta escolar estava salpicada de notas vermelhas. Delongas à parte, vamos para o primeiro ato: a cachorrada. Cães livres e insanos.

   Naquele tempo, quase todas as pessoas tinham seus animais de estimação. Eu disse: estimação. Não, adoração. Não eram " pets". Simplesmente, Duque, Rex, Diana, Chimbica, Princesa, Tarzan, Lili....nós tivemos muitos, tantos, mas únicos, um de cada vez, que nosso repertório não tinha mais nome para escolher. Aí, tivemos um cachorro com nome americano,veja só: Dog! Enquanto ele existiu, nunca nos demos conta de que Dog é cachorro.

   Em nosso bairro só morava uma classe média pobre, salvando- se uns dois comerciantes, mais remediados. Os cães seguiam o ritmo dos donos. Para começar, eram vira- latas, de médio e pequeno porte. Peludos, eram hospedeiros de mil pulgas. Sei que os mais jovens nunca viram uma. Meus netos são um exemplo. Seguindo o ritmo dos donos, também eram magros, direi, normais. Esbeltos, não esquálidos. As fêmeas viviam sempre gordinhas, carregando trigêmeos, quadrigêmeos ou quíntuplos em suas barrigas. Não havia anticoncepcionais e desconhecíamos castração. Veterinários? Qual! Muitas morriam de parto.

   Em casa, os cães comiam as sobras de nossas refeições. Quando a sobra era pouca, minha mãe acrescentava, com parcimônia, um pouco de comida da panela. Vez ou outra, comprava um osso no açougue e, no jantar, quando havia sopa, o osso do tutano era uma iguaria para os dentes caninos.Ah! Ah! Embora a palavra canino se refira a cão, nem todos os dentes do cão são caninos. Pasmei! Eles possuem, até, dente siso. Por causa do contingenciamento alimentar, era melhor ter machos. Não procriavam. Não enchiam a casa de filhotes que, se ninguém aceitasse adotar, seriam criados por nós, dando mais despesa.

Naquela época, não existia Pet Shop, nem ração. Mesmo que houvesse, minha mãe diria:---Dinheiro não nasce em árvore.

   Segundo ato: nos horários em que não havia aula, nosso grande quintal era pequeno, para mim e para os meus três irmãos: Neuza, Gilberto e Zilda. A rua defronte a nossa casa era a extensão do lar. Nosso cão nos acompanhava, gozando de total liberdade. Se, no momento, fosse uma cadela, ficaria reclusa.

Era bem o costume machista de uma tia nossa que dizia:---Prendam suas cabras, que meus bodes estão soltos. Até hoje, sinto ojeriza por essa frase. Quase não a escrevi, de tanta raiva. Com as cadelas, porém, é preciso cuidado.

   Volta e meia, indo ou vindo da Escola, tínhamos que nos desviar daqueles ajuntamentos, que se formavam em torno de uma cadela no cio. Eram dez cães, ou mais, brigando por causa da infeliz. Não eram gentis. Havia luta corporal, num embate físico de titãs.

Tínhamos que nos desviar. O pior acontecia quando um levava dentadas da matilha. Eram bocas arreganhadas, dentes buscando sangue, chumaços de pelos pretos, brancos, cremes, malhados....bem, exagerei!

   Por essas e outras, principalmente, pela transmissão da raiva canina, é que havia a necessidade do saneamento feito pela carrocinha.

   O caso dos cães doentes, raivosos, merece uma outra história, com o desfecho sempre triste.

   Terceiro ato: entra em cena....a carrocinha!

Foi tão importante a existência dela, que o grande Mazzaropi até fez um filme, colocando- a como coadjuvante, em 1955.

  Voltemos. Num belo dia ensolarado, lá em cima, no início da rua, ela aparecia, sem alarde. Vinha conduzida por um motorista e por um funcionário, que, já adianto, seria maldito por todos. Digo lá em cima, porque morávamos na parte baixa da rua, após uma pirambeira. Por ela, os carros não passavam.

   Se o dia estivesse bom, havia crianças brincando na rua, em pequenos grupos. Estávamos, todos, aproveitando nossa longa infância, com variadas brincadeiras. De repente, os gritos!!! Solidários, todos percebiam o perigo iminente. Gritavam, empurrando seus cães para dentro. Alguns, espertos, já sabiam do que se tratava. Outros, bobocas, fugiam dos pequenos donos, indo em sentido contrário.

Aí, atentas aos gritos, surgiam as mães. Coitadas! Trintonas ou quarentonas, às vezes, já tinham o corpo de matronas, sem nenhum preparo físico. Barriga de tanquinho? Qual o quê! A barriga só ralava no tanque cheio de roupas. Silicone? Não! Tudo caía, sob o peso da gravidade. Musculação, só com o escovão, para dar brilho ao assoalho, emplastado com a cera em lata. Isto não importa. O importante era o cãozinho ser salvo da captura e escapar, assim, da câmara de gás. Então, era largar os chinelos e correr pela rua. Descalços, já estávamos todos nós, que adorávamos andar livres, sempre com os pés no chão.

   O ator principal, o protagonista, era o laçador. Quanta destreza! Quanto empenho! Hoje, muitos se exibem em campeonatos de tiro, acertando um alvo imóvel. Pura jactância! Pois o laçador conseguia lançar seu laço, lá adiante,  capturando o cão em plena fuga. Calculava o exato instante em que a cabeça do animal iria se encaixar no seu instrumento de trabalho. Era um boiadeiro urbano. Atente, porém, que após cair no laço, não havia choro nem vela.

Entrava no camburão. O dono tinha três dias para resgatá- lo, após o pagamento de uma multa. Muitos não tinham dinheiro para a despesa inesperada. Lacrimejante, via seu cãozinho se afastar, encostado na grade, pedindo para ficar.

   Finalmente, no quarto ato, o laçador da carrocinha, funcionário,  que ganhava seu dinheiro, sendo execrado em todos os lugares por onde passava, mas sendo obrigado a mostrar serviço, lá se ia com sua carga que, dizem, se não fosse liberta pelo dono, viraria sabão. Era uma carga perecível.Fatalmente, alguns iriam morrer.

   Sei, agora, que esse costume continuou até a primeira década do século XXI. Muitos se condoeram, durante décadas, com a situação. Até existe uma música, cantada pelo palhaço Carequinha, que começa assim:"A carrocinha pegou três cachorros de uma vez....."

    Tempos que já vão longe....lembranças de minha meninice.

 Mirtes dos Santos Silva Freitas


15
A carrocinha( uma variante)

   Esta é uma história fictícia, quase impossível de ter acontecido, por seu teor inusitado.

    Farei um breve relato da situação, já que discorri a respeito no texto anterior. Tudo poderia ter acontecido na antiga Rua 3, atual Pio XII. A rua era de terra, como a maioria das ruas de São Vicente. As pessoas eram pobres e a maioria tinha filhos. Havia famílias de quatro filhos, como a nossa, e com bem mais: sete, oito. Quase toda família tinha um cão, ou mais. Juntando tudo, racionais e irracionais, a população era grande e a rua, movimentada.

   Num belo dia ensolarado, eis que surgiu, bem defronte à venda da Dona Cândida, a indesejada. Já era nossa conhecida. Tinha prazer em nos visitar, embora fosse sempre mal recebida. Era a carrocinha. Foi aquele frisson! Conhece telefone sem fio? Pois é...funciona. Logo, logo, houve grande correria dos participantes diretos e dos simples espectadores. No olho do furacão, o laçador de cães.

   Houve um primeiro momento, que representou bem a situação. Sim. No momento em que o laçador enrolou a corda no braço e segurou o laço com a outra mão. Parece que todos os movimentos se congelaram. Foi surreal. Nem Dalí, nem Picasso, teriam pensado em eternizar uma cena como aquela. No exato instante, um portão se abriu. Dele saiu, correndo, um enorme cão preto, em direção ao pobre homem. Era um cão nunca visto por nós. Deveria pesar mais do que eu e a Neuza juntas. Surgiu sanhoso, com sangue nos olhos, disposto a praticar a legítima defesa da honra de todos os caninos da redondeza.

   No momento em que o gigante já se erguia para atacar o apavorado laçador, surgiu uma menina loirinha. Ela gritou:--- Quieto, Rin-Tin-Tin! Sente- se!---Ninguém vai acreditar. Ele obedeceu e ficou imóvel. Imóveis, também, ficaram todos os participantes daquele inesquecível dia. Sabe aquela brincadeira de " estátua", da qual tanto gostávamos? Pois todos se quedaram, pasmos,quando a menina deu a ordem ao cão. Cada qual ficou duro, na posição em que se encontrava. Passado o enorme susto, o laçador correu e entrou na carrocinha. A carroceria estava aberta.Foi lá mesmo que ele entrou, no lugar em que ficavam os animais capturados. Um minuto depois, a carrocinha já virava a esquina, em direção à Rua Frei Gaspar.

   Nós todos, então, cercamos a menina e seu cão, com muito receio da imensa fera. Quisemos saber mais a respeito dos dois. Muito afável, ela nos disse que era recém- chegada à nossa rua. Disse- nos, também, que seu cão, Rin- Tin- Tin, apelidado de Rinty, era um pastor- alemão, descendente daquele famoso cão, artista americano da televisão e de filmes. Nós não conhecíamos, ainda, a televisão. Se já a conhecêssemos, teríamos apelidado a menina de Cabo Rusty, embora Rusty fosse um menino. Creio que ela não se zangaria, pois seria uma homenagem ao seu Rinty.

   Hoje, Rin- Tin- Tin já morreu, mas sua dona é viva. Ambos permanecem em nossa memória. Ele, como Herói e ela, como Protetora dos nossos animais.

   Ah!!! Esqueci- me de dizer que o nome dela é Elizabeth.

   Qualquer coincidência é mera especulação.

 Mirtes dos Santos Silva Freitas


14
O trem



" Trem de ferro"

" Café com pão

   Café com pão

   Café com pão

   Virge Maria o que foi isto maquinista?"

  

 Quem não se recorda do famoso poema escrito por Manuel Bandeira, em 1936? Foi o primeiro poema que ouvi e que me encantou.

O trem sempre esteve presente em minha vida.

Faz parte de minhas gratas lembranças, na infância e na juventude.

   Nasci em Santos. Quando tinha dois anos, meus pais e eu viemos morar em São Vicente. Meses depois, a Neuza nasceu, ainda em 1948.Endereço: Rua Projetada, sem número.Acho  essa informação muito interessante. Excetuando as ruas do Centro, dezenas e dezenas de ruas eram Projetadas.Quem as denominou assim, não pensou na dificuldade de se localizar um endereço.Detalhe: sem o nome do bairro.

Moramos lá, por algum tempo.

   Agora, localizando a rua, devo dizer que, hoje, chama- se Avenida Martins Fontes. Foi duplicada e a casa onde moramos ficava bem atrás da Fábrica de Vidros, defronte à Via Férrea. Se, no nascimento, a Neuza não teve importância, teve depois. Ela foi a única a ter a casa tombada. É....? Sim. Tombada pelo tempo. Ruiu.

   O primeiro presente de Natal do qual tenho lembrança é, justamente, no ano em que a Neuza nasceu. Minha tia Gentillina e minha prima Neide foram conhecer o nenê e presentearam- me com um trenzinho de ferro.

Ora, ora! Vejam só! E eu morava a poucos metros da ferrovia. Os trens passavam apitando, já avisando que estavam chegando à Estação de São Vicente, poucos metros adiante.

   Saindo da Rua Projetada( certamente, projetada pela suma inteligência de algum beócio), fomos morar na Rua 3, que ainda não tinha número, nem energia elétrica. Verdade. Não havia luz elétrica nas casas. Só vela e lamparina, a esposa do lampião. A lamparina era a querosene, mas a vela era imprescindível. Minha mãe a transportava no prato, para lá e para cá. Sua luz bruxuleante alumiava, fracamente, o ambiente. Nos dias de aflição ( criança doente ou temporal), minha mãe dedicava uma vela ao santo ou à santa. Tempestades mereciam o espelho coberto com um lençol. Relâmpagos, aquele grito: ---Valei- me, Santa Bárbara! Também havia os que queimavam ramos trazidos da Missa de Ramos.

   Nos dias ensolarados, ao ouvirmos o apito do trem, saíamos para vê- lo. Isso poderia ser feito nos fundos do quintal ou na esquina. Para lá do pântano, víamos a via férrea, bem alta, ladeada pelo capim gordura, sempre florido. Em questão de pântano, éramos pródigos.Tínhamos três: dois à frente do terreno e um na lateral. Era desse ponto que víamos o trem, apitando, apitando. Naquela época, levava passageiros. Os privilegiados iam com a cabeça fora da janelinha, acenando para as figurinhas que viam ao longe.

   Sempre gostei de acenar para o trem. Penso que há uma deferência especial em sentir que o outro, lá longe, está se importando conosco. Talvez não seja nada disso. Talvez o outro vá garboso, orgulhoso de sua fraçãozinha de importância e nos acene , sem se importar conosco. Conjeturas minhas. A alma é cheia de nuanças, dobras e dobrinhas. É difícil de ser destrinchada.

   No intervalo entre um trem e outro, de vez em quando, passava um trole pela linha. Era uma placa de madeira, creio eu, sobre rodas de ferro, parecendo um enorme carrinho de rolimã. Em cima, viajavam dois funcionários da ferrovia, impulsionando o veículo com uma vara. Pareciam remadores. Penso que verificavam se os dormentes e os trilhos estavam em perfeito estado de conservação.

   Nós não sabíamos mas, partindo de Santos, da Estação Ana Costa, havia muitas paradas: São Vicente, Dr. Alarico, Samaritá, Pedro Taques, Solemar, Mongaguá, Agenor de Campos, Suarão, Itanhaém, Camburiú, Taniguá,  Peruíbe, Ana Dias, Raposo Tavares, Itariri, Pedro de Toledo, Manuel da Nóbrega, Musácea, Pedro Barros, Jaraçatiá, Miracatu, Biguá, Oliv. Barros, Cedro e Juquiá. De uma ponta à outra, a viagem demorava cinco horas.

Só tive esta informação agora, por uma pesquisa feita pelo Beto, meu irmão.( Santos- Juquiá- Trens de passageiros do Brasil).

   A pesquisa acima citada, refere- se às viagens da Sorocabana, no entanto, nas primeiras vezes em que viajei de trem foi pela " Santos a Jundiaí". Antes, o nome era SP Railway. Servia para fazer conexão entre as cidades do Interior e o Porto de Santos. Havia trens cargueiros e de passageiros.  No nosso caso, íamos à casa dos padrinhos da Zilda, em Ribeirão Pires. Parecia uma viagem infindável, para uma menina de oito anos.

   Demorei alguns anos para, novamente, viajar de trem. Aí, aos quinze anos, fui com uma amiga, também estudante do " Martim Afonso",

visitar um rapazinho e uma mocinha, também estudantes, que moravam em uma das casas junto à Estação Dr. Alarico. A Estação ficava de um lado da via férrea e meia dúzia de casas de alvenaria do outro. O pai do Jairo e da Delfina era chefe de Estação.

   Havia, no local, apenas as residências. Nenhum comércio, Escola, nada. A família era Evangélica, da Primeira Igreja Batista de São Vicente. A vida social dos jovens resumia- se ao Ginásio e à Igreja. É pouco? É pouco. Pois lá em casa havia pouca diferença. Escola, de segunda a sábado. Matinê, às vezes, aos domingos.Não tínhamos, ainda, tevê. A grande diferença era o movimento da cidade. O local onde moravam era ermo, só movimentado pelo apito do trem.

   Acho que só fizemos duas visitas aos colegas. Sem ter aonde ir, exploramos o entorno. Solo arenoso, arbustos retorcidos, troncos finos, poucas folhas...senti- me em plena caatinga. Perdoem- me os geógrafos, mas foi a ideia que tive daquele bioma. Sei que estou longe de acertar, mas de ilusão também se vive. A lembrança que tenho daquelas visitas refere- se ao rapaz. Foi ele quem me apresentou um cipó enroscado num tronco, com uma vagem e disse:----Mirtes, este é um pé de baunilha.---- Amei! Minha mãe colocava baunilha nos bolos e eu via que eram gotinhas. Agora, ali estava a responsável pelo cheiro delicioso que impregnava nossa cozinha. Se eu fosse militar, prestaria continência a ela.

   Voltando de Dr. Alarico, descemos na Estação próxima à Vila Sorocabana, defronte ao Bairro Catiapoã. Ali, havia uma vila de casas,  onde moravam os funcionários da ferrovia.

   O prédio da Estação, térreo, foi construído em 1957. Tinha várias salas, totalizando 330 metros quadrados. Não me recordo do anterior.

   O embarque e desembarque de carga e passageiros, fazia com que houvesse diversas manobras, de máquinas e vagões. As pessoas atravessavam entre eles, expondo- se a acidentes. Foi necessário, então, construir uma passarela que ligasse o Centro ao Catiapoã. Foi feita com ferros galvanizados e tábuas.Era muito alta, motivo pelo qual, a maioria das pessoas não a utilizava,  preferindo se expor ao perigo.

   Poucos anos se passaram. Casei- me, ainda cursando o Normal, e continuei residindo no mesmo local. Só voltei a viajar de trem, quando foi inaugurada a Estação Vila Margarida. Aí, nosso amor por ele se solidificou. Começamos, então, a fazer piqueniques, no verão. O destino era uma das praias do litoral.

   Nossa alegria começava no sábado. Quanta azáfama!  Primeiro, era saber quem iria. Geralmente, umas dez pessoas: os de casa e os quase da família. Depois, a lista do que levar: roupas de banho, bebida e comida. Ah! O guarda- sol, a bola e a peteca.

   Lá em casa, passávamos o dia, arrumando as coisas, com muita alegria. Era um ir e vir, com a Sonata tocando nossas músicas preferidas. ( Hoje o aparelho é considerado retrô) A Neuza gostava do Chico e do Elvis Presley. A Zilda e eu, do Chico e do Taiguara. O João, do Bienvenido Granda e a Clara, do Roberto Carlos. O Beto era eclético. Não sei sobre a preferência dos outros participantes.

   À noite, eu quase não dormia. Ficava perscrutando o céu." Ora, direis, ouvir estrelas!". Bilac sabia das coisas. Antes, já perguntara ao meu pai sobre o tempo do dia seguinte. Apesar da pouca instrução formal, ele era um geógrafo nato. Além dos conhecimentos de Geografia, também entendia de Meteorologia. Eu só sabia que havia três tipos de nuvens. Hoje, sei que há seis. Também me orientava pelas nuvens do Morro Xixová, que via do nosso quintal. Meu pai, porém, ligava o tipo da nuvem ao caminho  do vento e acertava, sempre. Apesar de saber que ele estava certo ao afirmar isso ou aquilo, a ansiedade tomava conta de mim. Passava a noite, olhando para o céu. Se fosse céu de brigadeiro, que alegria! Se aparecia alguma nuvem, que aflição!

    Manhã de domingo. Manhã, não! Madrugada, quase.Quanta correria!---Pegou isso? Pegou aquilo? Olha a hora! O trem não espera!--- E lá íamos nós, apressados, saltitantes, cada qual com uma sacola, quase de mudança. Comprávamos nosso bilhete na bilheteria e, dali em diante, só tínhamos olhos para o local de onde ele viria. Aqui, uma observação: o bilhete único tinha o nome de singela. Teria origem na palavra single, do inglês? Pressa, pressa! O trem chegou!

   Naquela estação, embarcavam poucas pessoas. Entrávamos, rapidamente, procurando nossos assentos. Não me recordo se havia primeira classe, com bancos almofadados. Nosso vagão era sempre o de segunda, o que não nos humilhava. O que nos importava era aquela sensação de liberdade e o prenúncio de um domingo maravilhoso, inesquecível!

   " Passa boi, passa boiada, passa galho de ingazeira"...Nos versos de " Trem de ferro", Manuel Bandeira enumerava tudo o que o trem via pela frente. Nossa paisagem era mais modesta, mas não menos interessante. Assim que o trem começava a se afastar da estação, passávamos por um campo, à esquerda, na Esplanada dos Barreiros.A vegetação era muito baixa. Ali, plantas modestas viviam em perfeita harmonia. Podíamos ver, por instantes, o quitoco com seus botões, a carqueja, a planta carrapicheira e a macela florida, dourada. Também não posso me esquecer de uma planta chamada amor- de- homem. Dissipava- se, com o menor sopro.  Hoje, ninguém mais vê plantas em São Vicente.

   Rapidamente, chegávamos à Ponte dos Barreiros.  Aí, o trem afrouxava o passo.  Nós, só apreciando a paisagem. Tudo nos parecia maravilhoso! Nas paradas, descidas e subidas de desconhecidos.Acenos...acenos...Lá ia o trem, cumprindo sua jornada.

   Algumas vezes, descemos em Mongaguá.Outras, em Itanhaém, mas nosso ponto predileto foi, sem dúvida, Suarão.  Lá, encontramos um grande terreno, parte arenoso, parte gramado, sombreado por alguns pés de chapéu- de- sol. Que achado! 

   Num instante, esticávamos nossa toalha de mesa no chão e colocávamos os quitutes: pães, patês, frutas, uma vasilha com arroz, outra com frango e farofa. Não é à toa que quem faz piquenique é chamado farofeiro. Bebida...acho que água e uma ou duas garrafas de café com leite. Pratos, copos e talheres de alumínio.

   Depois de ajeitarmos nossas sacolas, corríamos para o mar. Já íamos vestidos com a roupa de banho. Era só tirarmos a de cima. As ousadas usavam duas peças. Eu, conservadora renitente, nunca abandonei meu comportado maiô.

   O dia transcorria, deliciosamente. Alternávamos o mergulho no mar, com as brincadeiras na areia. O sol nos tocava de maneira diferente. Eu virava bronze, ainda de manhã. Os brancos avermelhavam. Isto significava que, à tardinha, já teriam arrepios de frio e febre. A pele se transformaria em pururuca e, nos dias seguintes, as costas ficariam cheias de bolhas líquidas e dolorosas.  Protetor solar? Desconhecíamos.

   À tardinha, recolhíamos nossas coisas, sem deixar qualquer tipo de lixo. Aí, fazíamos o caminho inverso, pois o trem, logo, logo, chegaria.

   Saíamos de Suarão, salgados e satisfeitos.

O sol sorria, sonolento.

 Mirtes dos Santos Silva Freitas


13
O bonde

   Até os onze anos, não me recordo de ter viajado de bonde. De ônibus, só quando muito necessário. Vez ou outra, fui ao médico,em Santos. Às vezes, íamos ao Casqueiro para visitar meus tios e primos.Só. No mais, ou saíamos a pé, ou ficávamos em casa. Nosso bairro era nosso pequeno burgo.

   Meu pai trabalhava nas Docas e, logicamente, utilizava o ônibus. Já utilizara o bonde, no início. Minha mãe só saía por necessidade médica ou para fazer alguma compra, mas era raro. Se comprava fazenda( tecido), ia às Pernambucanas. Se precisasse comprar calçado para nós, media nosso pé com um barbante e comprava um centímetro a mais. Nunca errava. Ah! A compra dos presentes do Papai Noel era sagrada! Cada um recebia o seu, achado sob a cama, no dia 25 de dezembro.Eu já não cria no " bom velhinho", desde os seis anos, mas não abdicava do meu presente. Em todas essas situações, minha mãe dizia que ia " à cidade". Era o costume da época.

   Em março de 1958, mudamo- nos para o Jardim Nosso Lar. O " Martim Afonso" ficava muito distante e meus pais decidiram que eu iria de bonde. Compraram o passe escolar e traçaram a rota por onde eu deveria ir, até a parada do bonde.

   Saindo do bairro, após andar algumas quadras, eu passava por uma ponte sobre o Canal " Dr. Alcides de Araújo". Naquele tempo, o canal não tinha esse nome, porque o médico ainda era vivo( penso eu). Agora, preciso discorrer sobre a ponte. Sustentada por vários caibros dentro d' água, permitia a passagem de um lado para o outro, por cima de umas tábuas mal pregadas. O sol e a chuva já a danificara. As tábuas estavam empenadas e podres. Havia buracos nas mesmas, o que nos possibilitava ver a camada de iguapés floridos, em todo o leito do canal. Sempre gostei daquelas flores arroxeadas, pintalgadas de amarelo. Um luxo!

    Nos dias ensolarados, era relativamente fácil passar pela ponte, sempre com cuidado. Nos chuvosos, porém, havia risco, porque o canal inundava e a água cobria as tábuas. Ainda bem que a água não era muito suja, apenas água da chuva. O canal ainda não tinha sido receptor do esgoto não tratado, que lá existe, na atualidade. Hoje,é puro petróleo (eufemismo).

Havia, também, o caso de a água ser da maré cheia. Aí, não era preciso haver chuva. O tempo podia estar bom.

   Atravessada a ponte, lá ia eu pela Avenida Capitão Luiz Horneaux. Não me recordo de calçadas. Talvez, fossem intransitáveis. Eu transitava pelo leito carroçável. Além dos poucos carros que por ali passavam, também havia poças e poças nos dias chuvosos. Ainda há, até hoje.

   Quando chegava à metade da avenida, eu já encontrava vários colegas. Era uma alegria! Aí, toca a esperar o bonde na Antonio Emerich!

   Na hora aprazada, lá vinha ele! Elegante, educado, não saía dos trilhos.( Aqui, um adendo: saía, sim, descarrilando, às vezes). Vinha naquele balanço gostoso, parecendo meu berço, quando criança, que também era de balanço. Não me recordo se apitava quando estava chegando. Parava no local certo e aguardava nosso embarque. Vinha de Santos, pela Linha 1- Matadouro.

   Vários estudantes utilizavam- no. Eram adolescentes ordeiros e simpáticos. Tomávamos nossos assentos, com muita compostura. Íamos conversando. Era aquela parolice inocente, trocando ideias sobre aulas e preocupados com as sabatinas.

   Foi naquele início de estudos, que conheci a palavra sabatina. Li, agora, no Houaiss, que sabatina era uma " atividade escolar, geralmente realizada aos sábados, como recapitulação da matéria da semana". No nosso caso, podia ocorrer em qualquer data. Geralmente, era escrita, mas podia haver chamada oral. As provas sempre nos causavam preocupações e ansiedade.

   Agora, o assunto principal. Quem não gosta de cantar " Oh! Minas Gerais"? Bem... bem...o que tem a música a ver com o bonde? Respondo- lhe: muito, pelo menos, para mim, pois quem o conheceu " não o esquece jamais!" Para mim, ele era perfeito.

   Lá na frente, sem contato conosco, ia o motorneiro. Galhardo, movimentava o veículo, solenemente. O vagão ia atrás, supervisionado pelo cobrador( não me recordo do número de vagões, nem se tinha reboque). Ambos vestiam trajes cáqui e quepe da mesma cor. Dúvida: será que eram azuis? Quase todos os funcionários  tinham bigodes e muitos eram portugueses.

   O cobrador portava um apito para avisar ao motorneiro, quando este deveria dar a partida. O que mais chamava a atenção de todos era como ele carregava o dinheiro para dar o troco. As cédulas eram dobradas todas da mesma maneira e colocadas entre os dedos. Mal comparando, ele parecia portar um soco inglês.

   Quase todas as pessoas se apressavam para pagar suas passagens. Os estudantes pagavam com passes escolares e os outros já levavam o dinheiro trocado, para evitar atrapalhações.  Havia, porém, um ou outro " espertinho"! Esse se safava, se não fosse descoberto ou se pulasse do bonde ainda em movimento.

   No horário em que íamos à Escola não havia superlotação. Quando havia, o excedente ia do lado de fora, nos estribos, segurando nos reluzentes balaústres. Estribos eram os dois degraus do bonde, que serviam para embarcarmos no seu interior. Por lá, o cobrador se movimentava e os homens também viajavam. As moças, senhoras e crianças viajavam dentro do bonde, tendo prioridade para o assento, no caso, bancos de madeira, com encostos ripados e envernizados. Havia outro tipo de bonde, o Camarão, mas esse não trafegava nas linhas de São Vicente.

   Nos espaços livres do interior dos bondes havia muitos cartazes colados. Eram os reclames( propagandas). Aqui, alguns deles:

   Suco de Tomate Peixe

   Tônico Iracema

   Loção Juvênia

   Xarope São João

   Bromil

   Cerveja Paulista

   Biotônico Fontoura

   Regulador Xavier, o remédio de confiança da mulher

   Todos os cartazes tinham a explicação do porquê de serem indicados. Havia muitos para tosse, bronquite e rouquidão. Muitos, também, para a regeneração capilar, demonstrando que havia muita preocupação com os cabelos, femininos e masculinos. Acho que todos os cartazes eram ilustrados.

   Hoje, em tempos de pandemia, com certeza, anúncios da IVERMECTINA e da CLOROQUINA.

Quem ilustraria o último? Sei não...

    Meus preferidos, pois pois, aí vão:

   Nesta vida, tudo é passageiro, menos o cobrador e o motorneiro.

   Veja ilustre passageiro

   o belo tipo faceiro

   que o senhor tem a seu lado

   e, no entanto, acredite

   quase morreu de bronquite

   Salvou- o o Rhum Creosotado!

   Esqueci- me de dizer que, quando chovia, arriávamos as cortininhas e íamos abrigados.Agora, quando o tempo estava bom, era prazeroso sentirmos aquele ventinho! Acho que era isso que nos cativava. Tínhamos uma sensação de liberdade, que só o frescor da juventude pode nos dar. Tive muita sorte! Embora os colegas se agrupassem por afinidade, éramos todos corteses e sabíamos nos comportar.

   A viagem era curta. Logo, logo, cruzávamos a Praça Coronel Lopes e chegávamos à Praça Barão do Rio Branco. Lá, descíamos do bonde e nos dirigíamos, entusiasmados, ao "M.A". Não importava se seguíamos pela Frei Gaspar, Jacob Emerich ou José Bonifácio. Todos os caminhos nos levavam ao reino: do Saber e da Cultura. Afinal, estudávamos num Instituto de Educação!

 Mirtes dos Santos Silva Freitas


12
A fuga dos guaiamus

   Quando moramos no " Jardim Nosso Lar", tivemos dois animais de estimação. Não sei qual a data precisa.  Sei que foi por volta de 1960. Hoje, eu deveria dizer " pets", para ficar atual. Naquela época, desconhecíamos o termo.

   Ninguém sabe de onde vieram. Talvez tenham vindo de um dos dois canais que havia nos limites do bairro ou, quem sabe, residissem na " Ilha das cabras",uma ilhota lamacenta, onde um homem criava os tais bovídeos. Ele chegava ao local, em um pequeno barco. Às vezes, o solo estava seco e os animais corriam pela ilhota. Às vezes, estava alagado, pela força da maré, que inundava a ilha. Os guaiamus vieram de lugar incerto e desconhecido, para usar uma linguagem detetivesca.

   As valas do bairro eram secas, diferentes das que tivemos ao lado do nosso terreno, na Rua 3, em outro bairro. Aquela era um correr de água, que não acabava mais. Nela, vivia uma multidão de seres, cada um garantindo seu sustento na cadeia alimentar. Eram girinos, filhos de sapos, rãs e pererecas, junto aos seus pais. Eram os horríveis ratos, sempre famintos. Eram as cobras, suas ferozes predadoras. Também, havia os mosquitos, nossos algozes. Também aladas, mas um primor de beleza e candura, havia as libélulas ou lavadeiras, beijando a água e se alimentando dos pequenos seres, que ali viviam. Não posso me esquecer dos verdes grilos e dos marrons gafanhotos. À noite, era um cricrilar intermitente, que azucrinava nossos ouvidos. Para arrematar, devo dizer, que ali viviam minhas arqui- inimigas: as sanguessugas!

    Agora, imagine! O Jardim Nosso Lar era destituído de atrações. Lá, não havia árvores, nem quintais floridos. Na falta das árvores e das flores,não tínhamos pássaros, nem borboletas. Só tínhamos um coqueiro, na frente do quintal, que meu pai plantou( saudade do Nordeste). Penso que aquele solo era salgado, o que justificaria tamanha infertilidade. Eis que surgiram os guaiamus, caminhando pela vala seca.Azuis, com um forte corpo redondo e grandes patolas, eram dois belos espécimes da família dos gecarcinídeos. Assemelhavam- se a dois lutadores, usando um escudo junto ao corpo e longos braços, preparados para a contenda. Os olhos saltados observavam tudo. Eles eram poderosos!

   Logo que vimos os caranguejos, não tivemos dúvida. ---Vamos criá- los!---Aí, meu pai fez um chiqueirinho para eles, junto ao muro dos fundos do quintal. Nada sabíamos sobre a alimentação " caranguejídea". Optamos, então, pela básica, consumida por toda a família, constante de seis humanos, um canídeo e um felino: arroz, feijão, alface, banana, laranja...Agora sei que são herbívoros, sendo, alguns, carnívoros. Também tinham uma banheirinha com água.

   Não sei por quanto tempo tivemos os guaiamus. Não colocamos nomes neles, já que não sabíamos se eram machos ou fêmeas. Naquele tempo, ninguém sabia detectar a que sexo pertenciam. Hoje, meu irmão já poderia nos dizer isso, com certeza. Só sei que a fêmea do guaiamu se chama pata- choca. O porquê, meu Houaiss não revela. Incógnita!

   O final foi assim: após uma tarde ensolarada de verão, São Pedro, o guardião das chaves do céu, resolveu faxinar o salão. Começou, arrastando os pesados móveis de mogno, interferindo na fiação. Aí, foi um tal trovejamento, que nos deixou apavorados. Ele estava impossível! Acendia e apagava as luzes, causando relâmpagos. Com o esforço, suava em bicas. Logo, começou a chover, torrencialmente. Temerosos, fomos nos deitar. Cão e gato se esconderam sob a cama. Foi uma noite de terror!

    O dia seguinte surgiu,ameno e radioso.

Fizemos nosso desjejum e fomos alimentar os rastejantes, porém, o chiqueirinho estava vazio! Não havia dúvidas. Os prisioneiros, descontentes,descobriram um vão e se libertaram. Assim, ocorreu a fuga dos guaiamus!!!


Mirtes dos Santos Silva Freitas

4/8/20

Em tempo: Homenagem a Rita Rosa, minha mãe, que hoje completaria cem anos.


11
Prainha(I)

       No início de 1958, mudamo- nos para o Jardim Nosso Lar. Era muito diferente de onde morávamos anteriormente. Era um bairro solitário. As casas eram salteadas e havia muitos terrenos baldios. Não havia árvores, nem flores. Se fosse só isso, poderíamos dizer que era um bairro triste, sem pássaros e borboletas. Era carente de tudo. Só possuía uma padaria e um bar. Bar de bebidas, no qual nunca entramos.  Escola? Mercado? Feira? Lojas? Nada. Aí, descobrimos uma prainha. Maravilha! Distante do mar, nem Gonzaguinha, nem Itararé. Era uma grande bacia dágua, até com pequenas ondas, quando o vento batia...

       A prainha da qual falo, ficava no final da nossa rua, à direita. De um lado, o canal do Sambaiatuba, com duas grandes comportas e, na frente, uma embocadura que ia dar no Jardim Rádio Clube. Entre esses dois canais havia um grande volume de água, formando um lago.Não sei qual o sabor dela, mas imagino que fosse salobra. A água escoava pelo dique, circundando um manguezal. Havia, até, cardumes de peixinhos nadando na beirada da prainha.O solo era de areia meio lamacenta.

       Não me recordo das vezes em que fomos nos divertir na água. Lembro- me, porém, da última. Foi numa tarde ensolarada e quente. Vestimos nossas roupas de banho e fomos, meus irmãos e eu, com nosso pai, até lá. Era perto, talvez, uns cinco minutos. Meu pai sentou- se num barranco e ficou conversando com um desconhecido. Não sei de onde apareceu uma câmara de ar, talvez, de algum caminhão. Foi uma farra! Sentei- me na boia e pedi para que minha irmã  Zilda, de seis anos, subisse sobre minha barriga. Que sensação! Boiamos, felizes! A Neuza e o Beto ficaram por perto.

       Tudo ia muito bem, mas senti que o peso da Zilda pressionava meu estômago.Aí, o vento virou e foi nos empurrando para o canal  do Rádio Clube. Já estávamos nos afastando da margem, quando pedi para que ela descesse. Vi quando afundou e, instintivamente, levantou os braços. Só me recordo de ter visto seu dedo indicador. A Neuza correu para salvá- la.Eu ainda demorei uns minutos para me desvencilhar da boia e alcançá- la, pois meus pés afundavam no solo.

Foi tudo muito rápido. Felizmente, só um susto. Nada aconteceu com ela. Quando meu pai percebeu, já estávamos a salvo. A boia se foi, leve e solta, sumindo  pelo canal.

       Chegando em casa, contamos sobre os momentos dramáticos para nossa mãe. Estava decidido: prainha, nunca mais! Decisão sábia: " É melhor prevenir do que remediar".

       Anos depois, lembrando- me daquele agradável recanto, fui visitá- lo. Desapareceu. Vi, apenas, um grande depósito de esgoto  degradando o ambiente.

 

Mirtes dos Santos Silva Freitas

27/9/20

 

10
Prainha(II)

       " Long, long years ago..."gosto desse início de frase. Está, quase sempre, na introdução de uma história que se perdeu dentre as brumas do passado. No meu caso, a história não se perdeu. Pelo contrário, lembro- me dela, com detalhes. Nossa memória é interessante. Brinca de esconde- esconde...Às vezes, fica camuflada; às vezes, ressurge, de repente. A prainha, que não mais existe, despe sua roupa vetusta e, agora, é a jovem radiante que conheci outrora.

       Em 1956 e 1957, os padrinhos de minha irmã Zilda, a caçula, residiam em um bangalô, num local chamado, hoje, de Esplanada dos Barreiros. De vez em quando, íamos lá, com nosso pai, para visitá- los e fazermos um passeio, já que o custo era zero. Saíamos da Rua 3, onde morávamos e tomávamos o caminho da via férrea. Naquele tempo, a estrada tinha mais de quarenta anos. Os dormentes, tomando chuva e sol, já estavam apodrecidos em vários pontos. Ladeando a estrada de ferro, havia muitas touceiras de capim- cidrão e pés de carrapichos, que grudavam em nossas roupas, espetando- nos.

Para tornar o trajeto mais divertido, a Neuza e eu subíamos nos trilhos e, pé ante pé, íamos nos equilibrando de mãos dadas. Era, realmente, necessário muito equilíbrio. Uma dependia da outra; caso contrário, nós duas cairíamos.

       Relembrando, agora, posso dizer que São Vicente tinha suas peculiaridades. No Jardim Nosso Lar, as ruas eram planas e não havia vegetação. No Catiapoã, havia a Avenida Pérsio de Queiroz Filho, que não sei se era rua ou avenida, na década de sessenta. De um lado da rua havia o campo de golfe, que chamávamos de Campo dos Ingleses. Dentro, havia alguns quilômetros quadrados de grama cultivada, homogênea e sempre verde. Cercando o campo, havia árvores já velhas, nativas. Em seus galhos, prendiam- se bromélias simples, sempre floridas e com raízes expostas. As plantas eram semeadas pelos pássaros e pelo vento. Junto com as cigarras, faziam parte da paisagem. Do outro lado da rua havia moradias, ora de tijolos, ora de madeira. A rua era um imenso areal, mas nas laterais grassava uma planta perene com  margaridinhas de um amarelo resplandente, quase abóbora, às quais chamávamos de mal- me- quer. Hoje sei que seu nome é vedélia. As jovens costumavam destacar suas pétalas, dizendo: mal- me- quer, bem- me- quer.

Terminar no bem- me- quer era motivo de grande felicidade. Significava um amor correspondido.

       Voltando ao nosso passeio, lembro- me de que o terreno e a vegetação eram diferentes. Ali, não havia a contribuição humana. O vento espalhava as sementes de gramíneas e de plantas de pequeno porte. Eram as macelas, ou marcelinhas, floridas, cheirosas, que serviam para o enchimento de travesseiros. Também havia a carqueja, o picão branco, o picão preto, o quitoco, com seus duros botões, o cordão- de- frade, a serralha, a mostarda, e várias outras que não sei nomear. Muitas, ou todas, eram medicinais. Nossa preferida era o dente- de- leão ou amor- de- homem. A um sopro, se espalhava e voava com o vento. Era sempre inconsistente, como muitos outros.

       Para chegarmos à casa dos padrinhos da Zilda, tínhamos que atravessar aquele relvado.

Nos lugares onde havia um pouco de areia, fina e branca, os bicos- de- lacre gostavam de se espolinhar. Belos e pequenos passarinhos, com biquinhos vermelhos, cor do lacre com que os poderosos selavam, outrora, suas missivas. Voavam em bandos de trinta, quarenta, quando nos aproximávamos.Riam- se de nós.

       Após conversarmos com os donos da casa, íamos à prainha. Era um lugar paradisíaco! A água límpida, em ondinhas, refrescava nossos pés. Cardumes coloridos exploravam a margem. Siris caminhavam pela areia úmida, brincando de coelhinho- na- toca, mas a corrida não valia. Havia um buraco para cada um. O interessante é que corriam de lado.

       Às vezes, víamos um peixe prateado saltar, lá no meio d' água. Por ali sempre havia algumas canoas à espera de pródiga pescaria.

Os homens, quase sempre aos pares, abriam caminho nas águas, com as pás dos seus remos. Cansado de esperar sentado, algum se punha de pé e imitava aquele quadro em que Jesus caminha sobre o Mar da Galiléia. Talvez, alguns varassem a noite. Não temiam o vento frio, nem o piar das aves noctívagas. Prêmio teriam se pudessem encher o cesto.

       Do lado de lá, via- se o grande manguezal. Era uma floresta de árvores e arbustos retorcidos, com raízes à mostra, em tempos de maré baixa. O padrinho da Zilda sempre apontava para a beira do mangue, dizendo que lá havia um peixe- boi. Eu até o via: preto, redondo, estático. Por certo, era um tronco encalhado na beira da vegetação.

       Para arrematar, não posso me esquecer do sol. O poente era maravilhoso! Várias nuanças do vermelho tingiam as águas da prainha dos Barreiros. A ponte, não muito distante, avistava tudo aquilo, imponente, na sua solitude. Logo viria a noite. Se houvesse lua, a água seria prateada.

       Pena que a civilização chegou àqueles ermos e tudo destruiu.


Mirtes dos Santos Silva Freitas

04/10/20.

 

9
Prainha(III)

       / Hoje é domingo.Pede cachimbo./Aos domingos, gostávamos de repetir essa parlenda.As  últimas  frases:/ O buraco é fundo. Acabou- se o mundo!/eram gritadas,  com grande alegria. Tempos...Na verdade, os domingos eram dias de lazer, de ficarmos sentados no pequeno terraço, conversando, rindo e comendo pipoca.

       Em 1964, tínhamos um casal de pets: um peru e uma perua (glu, glu, glu!) que nos acompanhavam pelo quintal acimentado. Comiam pipoca conosco. Certa noite, alguém pulou nosso muro, que era baixo, e levou um deles. Que raiva! Comeram nosso animal de estimação! Minha mãe, que era prática e resoluta, matou o outro, para que não acontecesse o mesmo. Por obra do hábito de se comer alguma variedade, aos domingos, a ave foi o prato principal. Com certeza, " acabou- se o mundo!",para ela.

       Naquele ano, eu cursava o Primeiro Normal no "M.A". Foi o ano em que todos conhecemos a prainha. Meu irmão já tinha ido até lá, em suas andanças de moleque futebolista. Ia aonde tinha campo de várzea. Andava, assim, por lugares " nunca de antes navegados" por nós,  a bancada feminina.

       Num belo domingo ensolarado, resolvemos fazer uma incursão por aquelas plagas. Tomamos a Rua Frei Gaspar, a partir de onde morávamos. Descemos algumas quadras e enviesamos por um caminho. Confirmamos, na prática, o Teorema de Pitágoras, ensinado pelo Prof. Edmundo Capellari:" a hipotenusa é sempre menor do que a soma dos catetos". Sim. Escolhemos o caminho mais curto. Já no início, lembro- me de uma árvore. Era a única. Talvez a tenham deixado para representar, futuramente, o reino vegetal, quando todas as  florestas já tivessem sido queimadas. Credo!!! Espero que todos tenham a consciência de preservá- las, para o bem da Humanidade.

       Depois daquela árvore, num certo barranco, começava o caminho. Tinha altos e baixos. Na verdade, era uma trilha. Mato baixo, capim em volta, terreno arenoso, fazia uma curva ou outra. Em certo ponto, virou um declive. Olhando para os lados, só víamos a imensidão. Casas, não havia. Ruidosamente, rindo, felizes, chegamos ao nosso destino. Mais barrancos e vegetação baixa. Era a prainha. Várias pessoas se deliciavam no banho, jogando água, umas nas outras. Nós, sentados num barranco, só na observação. Acho que molhamos os pés. Só isso. Voltamos, já que estávamos ali só para contemplação. A tevê, nossa recente conhecida, talvez tivesse algum programa interessante, diferente daquele programa de índio, ao vivo, já que a TV Tupi também tinha horas de " programa de índio". Explico: em horários sem programação, a tela apresentava um índio, imóvel. Com certeza, pertencente à tribo tupi.

       Hoje, o cenário mudou, completamente. A prainha não mais existe.  Foi feita uma mureta de contenção, para delimitar a insurgência das águas. Várias pessoas chamam o local de " maré". Dizem:---Vou caminhar na maré.--- O grande espaço de terra foi aplainado e loteado. Surgiu um novo bairro: Náutica III, com boas casas, mercado, delegacia e duas Escolas: a Estadual tem o nome da Professora Yolanda Conte, minha querida mestra de Português e Francês, na década de 1960. A outra Escola é a " EMEI Prof. Anuar Frayha". Em vida, formaram um casal.

       Hoje, para sabermos em que local ficava a prainha, temos que ir até o Centro Comunitário da FEMCO. Mais à frente, fica o SEST SENAT, muito conhecido.

       Meu irmão é o documento vivo da prainha, pois a conheceu primeiro. Ele se lembra de que havia um portinho de areia , que servia para a fabricação de vidro. Quando o conheceu, já estava desativado.

       Pesquisando, recentemente, sobre filmes antigos, encontrei uma joia: "São Paulo, Sociedade Anônima", de 1965, justamente, da época em que conhecemos a prainha. Foi estrelado por Walmor Chagas, Eva Wilma, Darlene Glória, Ana Esmeralda, Otello Zelloni e Etty Fraser, todos feras da nossa dramaturgia.  Se adiantarmos para os quarenta minutos de filmagem, veremos a prainha, ainda com a natureza selvagem, as ruínas do porto de areia e a Ponte dos Barreiros, ao fundo. O trem resolveu estrelar, também, e parece se arrastar sobre a ponte, só para ser filmado. No minuto seguinte, a moça loura já está dançando, creio que em uma marina do Japuí, que pertence a SV. Bem lá no fundo, do lado direito, vê- se a chaminé fumegante da Fábrica de Vidros.

       / Hoje é domingo. Pede cachimbo./  Pede, também, que assistamos a um filme histórico:" São Paulo, Sociedade Anônima".

Mirtes dos Santos Silva Freitas

11/10/20

 

8
A velha Barreiros




       / Lá vai o trem com o menino

       Lá vai a vida a rodar/( Trenzinho do Caipira)

       Pensar sobre a Ponte dos Barreiros, logo me faz lembrar da belíssima composição de Heitor Villa- Lobos, abrilhantada pela singeleza da letra de Ferreira Gullar. A história da Ponte centenária é digna de realce. Por si só, já é importante pela ligação da parte insular de São Vicente à área continental. Várias cidades se sobressaíram com a implantação da Estrada de Ferro, que passa sobre ela. Riquezas transitaram pela ferrovia: produtos agrícolas, animais de pequeno e grande porte, madeira, minério...

      O nome da Ponte foi uma justa homenagem a Antonio Luiz Barreiros, grande bananicultor vicentino, que utilizava a ferrovia para escoar seu produto. Enviava sua produção para vários lugares, inclusive, exportando- a para a Argentina e o Uruguai.

Foi um entusiasta participante do progresso de nossa cidade. Aqui, possuía muitas terras. Hoje, temos um bairro chamado Esplanada dos Barreiros.

       A Estrada de Ferro foi inaugurada em 25/4/1912, pela Southern San Paulo Railway.

Em 1955, foi modernizada pela Estrada de Ferro Sorocabana, passando a ter esse nome.  Em 1971, passou a pertencer à FEPASA. Serviu como meio de transporte, até julho de 1999 e de cargas, até janeiro de 2003.

       Na época em que éramos adolescentes, muitas pessoas frequentavam a prainha próxima à ponte. Era o lazer simples de quem não tinha outros meios para se divertir.

       Havia um caminho de tábuas, ao lado da ferrovia, que servia de passagem para os poucos pedestres, que se aventuravam a atravessá- la. Iam, a pé, explorar o matagal que havia por aquelas bandas. Meu irmão participou, algumas vezes, dessas incursões, desvendando os caminhos desconhecidos. Um pequeno grupo ia à  cata de coquinhos de uma palmeira alta e espinhenta, chamada tucum. Ele me contou que chegou a ir até uma parada de trem, chamada Dr.Alarico. À tardinha, todos voltavam felizes, com um saco de aniagem cheio de cachos do apreciado fruto. Havia para todos os gostos: de água, apenas;de mingau, com a polpa mole e de carne, cujo conteúdo era duro como um coco da Bahia. Por serem muito apreciados, até rendiam alguns trocados.

       Duas diversões ligadas à Ponte dos Barreiros eram a pesca e a caçada de siris. Lá, havia dois peixes perigosos: o bagre e o baiacu. O primeiro causa grande estrago, quando manuseado sem o devido cuidado, pois possui três ferrões serrilhados. Penetram na carne do desavisado, sendo necessária uma intervenção cirúrgica. Podem estar infectados, causando amputações e levando à morte, em casos extremos.O outro peixe, o baiacu,  possui um veneno capaz de matar uma pessoa, quando não  preparado de forma adequada. É preciso ser meticuloso, retirando as partes que o contêm. Esse peixe tem outra característica: quando ameaçado ou tocado, infla o corpo, parecendo uma bola.

       Uma curiosidade, digna de nota, só meu irmão presenciou. Ele viu um homem mergulhar e voltar com um peixe vivo entre os dentes. Dizem que o toureiro pega o touro à unha. Aquele homem, por certo, era um toureiro do mar. Hoje, época em que proezas transformam audaciosos em heróis, ele ganharia uma estátua ao lado da ponte, como um deus do Olimpo, o velho Poseidon.

       Agora, falemos sobre os siris. Nas tardes de sábado ou de domingo, com o tempo bom, alguns rapazes resolviam caçá- los, munidos com puçás. ---Preparem a cerveja, que logo voltaremos!---E voltavam, à tardinha. Que alegria! Os bichos vinham vivos, alvoroçados. O panelão, com a água fervente, já os esperava. Depois, uma limpeza, um após o outro. Em outra panela, o molho, muito bem preparado, já apurava. Ficava ao ponto, digo, ao ponto de querermos colocar um pouquinho dentro de um pedaço de pão, com a desculpa de experimentá- lo. ---Calma! Falta a pimenta!

       Pronto! Escureceu lá fora. Não havia iluminação elétrica em nossa rua. Dentro de casa, com aquela lâmpada incandescente, fraca, fraca, os ânimos se iluminavam. Eram risos e risos de alguns vizinhos que confraternizavam conosco. Motivo? Todos e nenhum. Como dizia minha mãe:---Qualquer paixão me diverte!

       Antes das dez horas, todos se despediam. Imperava a lei do silêncio. Junto com as despedidas, já combinavam a próxima sirizada. Local? A famosa Ponte dos Barreiros.

Felizes, todos partiam para suas casas, "cantando pela serra do luar." ( Ferreira Gullar)


Mirtes dos Santos Silva Freitas

17/10/20

  

7
O bordado( Capítulo I)

       Meu primeiro contato com o bordado aconteceu no início do segundo ano primário, quando eu tinha oito anos. As aulas tiveram início em fevereiro. O nome de minha professora era Maria Cecília Lapenna.Logo no início, ela pediu para que nossas mães providenciassem um pano para fazermos um bordado pois, no final do ano, haveria Exposição de Trabalhos Manuais. Os tempos eram bicudos, mas assim que meu pai recebeu o ordenado mensal, minha mãe comprou uma toalha de mesa para eu bordar.

       Agora, a toalha: o tecido era lilás claro, todo riscado com cachos de flores. Naquela época, era comum comprar o pano já riscado. Chamávamos risco ao desenho. Também se podia copiar um desenho no papel impermeável e transferi- lo para o tecido, com papel carbono. No meu caso, era só bordar. Bordar??? Era preciso, primeiro, que eu aprendesse a manejar a agulha. Devo adiantar que sou canhota e tive uma certa dificuldade para me situar. Depois, tive que aprender os pontos: haste e corrente. Para o trabalho, minha mãe comprou três novelos de linha com as cores: verde, lilás e amarela. A cor verde seria para os galhos e folhas, em ponto haste.A lilás, para as flores, em ponto corrente e a amarela, para os miolos, em ponto cheio.

O ideal seria fazer o rococó nos miolos, mas desconhecíamos esse ponto. As flores, em questão, chamavam-se áster.

       Uma vez por semana, mostrávamos o bordado para a professora. O meu não avançava. Seria eu uma Penélope? Não. Acontece que sempre ocorriam fatos alheios à minha vontade. Primeiro: eu tinha uma imensa vontade de brincar na rua, defronte à nossa casa. Era serelepe e saltitante como o Bambi, personagem do único livro de história que tive na infância. Segundo: cortava um fio de linha muito comprido, quase do tamanho das tranças da Rapunzel. Que exagero! Isso dificultava o  bom andamento do trabalho. Minha mãe dizia que era linha de preguiçoso. Agora, o mais importante: não tinha habilidade com a agulha e sempre picava o dedo. Também não sabia usar o dedal. Ainda bem que a agulha não era o fuso com que " A bela adormecida" se feriu. Não. Eu estava bem desperta. Apertava o dedo e saía aquela gotinha de sangue, semelhante a um rubi. Aí, minha mãe me dispensava do trabalho, pois mancharia a toalha. Mais que depressa, eu já estava na rua, pulando corda ou brincando de pique, com meus irmãos e duas amiguinhas. Que alegria!

       O bordado da toalha arrastou- se, lentamente. Penso que eram centenas de flores e galhos. Logicamente, progrediu nos últimos meses. Na data aprazada, lá estava ela, a toalha, embainhada e engomada, junto das que as colegas apresentaram, testemunhando " nossa dedicação".

       No terceiro ano, fui aluna da Professora Adelaide Simões Gallo. Novamente, foi pedido um pano riscado para o bordado. Era a época do panô. Tratava- se de um retângulo de tecido

que, bem engomado, era preso por duas varinhas e dependurado na parede, como se fosse um quadro.

       Meu panô era uma graça! No alto, como se fosse um cabeçalho, tinha o dístico: " Uma mulherzinha esperta nunca se aperta". Embaixo, o desenho de um homem, entrando na cozinha, com um enorme peixe na mão. Junto ao fogão de ferro, antiquíssimo, uma mulherzinha punha as mãos na cabeça, pois todas as bocas do fogão estavam ocupadas por panelas fumegantes. Devo dizer que o casal era holandês, pois usava roupas típicas e calçava tamancos. A mulher usava ,até, aquele gracioso chapéu batavo. Dessa vez, as letras foram bordadas em ponto arroz.

       No quarto ano primário, fui aluna da Professora Mary Menna de Araújo, já conhecida, pois  lecionara no meu primeiro ano. Era a época do ponto cruz. A toalha já vinha riscada, com um xis irregular. Era feia, por si só. Bordada, porém, até deu para disfarçar o tamanho dos pontos e, ao final, embainhada com renda de algodão, engomada e bem passada, ficou bem apresentável e bonita. As mães compareceram à Exposição e saíram satisfeitas com todos os trabalhos. No meu caso, não era conveniente ver o avesso. Eu  desconhecia o avesso perfeito. Fazia nós enormes e não sabia arrematar. Deixava fios pendentes, que formavam um grande emaranhado. Era digno de se afirmar:" As aparências enganam" ou " Por fora, bela viola. Por dentro, pão bolorento".

       De todos os trabalhinhos que fiz, o que nunca me abandonou foi a frase:"Uma mulherzinha esperta nunca se aperta". Até hoje, toda vez que me deparo com uma dificuldade e encontro a solução, repito- a, alegremente. É....cada um guarda seus fatos inesquecíveis.

       Naquela época, eu pensei que soubesse bordar. Quando ingressei no Ginásio, tudo mudou. Nascia, assim, o segundo capítulo.


Mirtes dos Santos Silva Freitas

13/9/20.           

 

6
O bordado( Capítulo II)

       Enfim......Ginásio! Uma grande etapa se iniciava. Sou a mais velha de quatro irmãos. Fui a primeira a terminar o Curso Primário.

Quando fui aprovada no Exame de Admissão ao Ginásio, meu pai gostou muito e minha mãe ficou radiante! Parabéns para mim!

       O ano letivo se iniciou com grande júbilo.Eu nada sabia a respeito do que me esperava...sabatina( prova escrita), chamada oral, vários professores e disciplinas, cadernos passados a limpo, uso da caneta de pena ( já minha conhecida) com a tinta nanquim, do normógrafo, do compasso,  exames finais( escritos e orais) e aquele sistema de peso por bimestre, tão difícil de entendimento para mim, culminando no exame final. Ainda havia a consideração da nota global. Exame de segunda época, para quem não tivesse alcançado média no exame final, em até duas disciplinas. Caso o aluno fosse reprovado dois anos consecutivos, jubilação, o que se traduz por expulsão da Escola. Também havia as aulas de Educação Física no

Clube de Regatas Tumiaru, no período matutino. O uniforme era diferente, apropriado para as práticas esportivas. Devo assinalar que me sentia ridícula naquele calção bufante, talvez usado na época das Grandes Navegações.

       Lembro- me de uma disciplina, em especial: Trabalhos Manuais. Lembra- se da música " Cobra Grande"( Waldemar H.C. Pereira), ensinada pelo Prof. Cruz?

       " Cunhantã, te esconde,

       Lá vem a Cobra Grande, ah, ah,

       Faz depressa uma oração

       Pr'ela não te levar, ah, ah".........

       Logo, a cunhantã conheceria o que é pavor.

       Em 1958, a sala de aula tinha um mobiliário desconhecido por mim. Minto. A mesa do aluno, no caso, a carteira, era normal. Quanto ao assento, era especial. Talvez tivesse feito parte da sala de aula de algum convento. Era obsoleto.  Ele era redondo, de madeira, como se fosse a banqueta de um piano. Era encaixado sobre um suporte de ferro, um cano largo, sendo esse encaixado sobre uma base, também de ferro, semelhante a um disco de vinil. O encosto era de madeira, meio côncavo, seguindo uma parte do banco.

Só podia ser arrastado, devido ao peso. O problema era que tinha várias alturas. Então, dado o sinal da entrada, eu corria, esbaforida, para procurar um assento adequado à minha altura. Se pegasse um baixo, os braços ficariam em uma posição incômoda sobre a carteira. Se pegasse o alto, os pés não se apoiariam no chão. Aí, já nervosa com a situação, imagine qual era a primeira aula. Trabalhos Manuais!

       Quando o sinal tocava para os professores,  a professora já chegava à porta. Parava por um minuto. Era o tempo de todas ficarmos de pé, posicionadas ao lado da carteira, aguardando sua passagem. Nós nos sentávamos, a uma ordem dada por ela. Esse " bater continência" ocorria quando alguém entrava na sala de aula,  sendo professor, diretor ou algum visitante ilustre. Bocas,  completamente ,cerradas.

 A disciplina do alunado, em si, não era o problema. Na época, era o sistema vigente.

Os professores não eram muito acessíveis e os mais severos eram os mais respeitados e admirados. Acontece que a professora em questão era amedrontadora, pelo menos, para mim. Hoje entendo que devia ter algum problema. Talvez sofresse dos nervos. Não sei.

Só sei que ela foi mais do que uma pedra no meu sapato. Foi uma rocha. Sua voz atroante ecoava pela sala em completo silêncio.

     Agora, a aula. O material exigido foi um retângulo de cambraia branca, tesoura, agulha, bastidor e meadas de linha Mouliné, de seis fios. Também compramos cânhamo e linha DMC, de algodão, dos quais me recordo, vagamente. Aprendemos vários pontos na cambraia, chamada de pano de amostra. Eu gostava de aprendê- los. A professora formava grupinhos e nos ensinava. Terminávamos o bordado, em casa. De vez em quando, ela via nosso trabalho. Até aí, tudo bem. Medrosa, eu me esforçava ao máximo. O problema estava nas avaliações, quero dizer, nas provas de Trabalhos Manuais. Isto merece um parágrafo à parte.

       Lembro- me de minha primeira prova de bordado. A professora mandou que levássemos um pedacinho de cambraia, com uns dez centímetros quadrados ou um pouco mais. Dado o sinal, ela entrou, imponente, como sempre. Ordenou que nos sentássemos. Eu estava preocupada com o assento.  Distraí- me. Ela sempre fazia chamada nominal, com nome e sobrenome. Naquele dia, correu os números. Eu era o 5. Quando prestei atenção, já ia longe.

Não podia reclamar. Já estava com falta. Aquilo me desarvorou. Foi como se minha cabeça estivesse em jogo. Seria u'a mácula na minha vida escolar. Agitação interior! Aí, ela tirou dois papeizinhos de uma caixa de Pandora. Sorteou os pontos. --- Desfiem o tecido. Façam uma bainha aberta e....---nomeou outro ponto. O trabalho era feito com dois fios de linha Mouliné. Tremendo, enfiei a linha na agulha. Desfiei o tecido e.... tremia! Fiz, mal e mal, os pontos pedidos e....tremia! Quando faltavam cinco minutos, veio a ordem:---Parem! Escrevam seus nomes no alto da folha e colem o bordado no papel.---Acho que colávamos o trabalhinho com goma arábica. Não vi os quadradinhos das colegas.

O meu, com certeza, não era quadrado. Transformou- se em um pano de bicos, talvez um sextavado ou alguma figura assimétrica. A sorte estava lançada. E que sorte! A moura- torta se apoderou do meu ser. Nas próximas provas, passei a repetir o mesmo comportamento. Estava instalado o trauma!

       Naquele ano, também não consegui acompanhar, satisfatoriamente, as aulas de Latim e Desenho Geométrico. No final do ano, fui reprovada " sem louvor". Não me incomodo.

Adquiri experiência e maturidade. Sei que, de qualquer forma, mesmo que tivesse sido aprovada nas demais disciplinas, o bordado me prenderia pelas mãos. O interessante é que, mais tarde, peguei gosto pelas disciplinas responsáveis por minha reprovação." Paixonei- me".

       Acho que sou um caso típico da Síndrome de Estocolmo, que leva a pessoa a se apaixonar pelo seu algoz. No mais, só Freud explica.

Mirtes dos Santos Silva Freitas

15/9/20.


5
O bordado ( Capítulo III)

       Em 1959, continuei na primeira série, pois fora reprovada em Latim, Desenho Geométrico e Trabalhos Manuais. Meu conhecimento prévio de Latim, parco, aliás, fez- me avançar um pouco e alcancei a média exigida. O Desenho Geométrico ficou mais fácil. Como o professor era um são- paulino fanático, arrisquei-me a desenhar o emblema do São Paulo no alto da folha. Aquele minúsculo símbolo, em vermelho, branco e preto, rendeu- me, sempre, meio ponto a mais. Não contei meu segredo para ninguém. Só o exponho  agora. E os Trabalhos Manuais? Tudo bem, obrigada. Bem, bem, não. Continuei com medo da professora. Pelo visto, ela não foi a nenhum psicólogo ou psiquiatra, incomuns, na época. Freud tinha morrido há, apenas, vinte anos. Carl Jung ainda vivia. Por aqui, não estavam na moda. Quem sabe a passiflora...De qualquer forma, eu já conhecia os pontos.

       Acho que na segunda série, aprendemos a fazer bichinhos de feltro. A professora levou os moldes e escolhemos o animal. Escolhi uma girafa. Era amarela, com enchimento de flocos de espuma. Talvez tivesse uns trinta centímetros de altura. Por algum motivo, as pernas não ficaram com o mesmo comprimento. Ela ficou cambaia.  Para se sustentar de pé, precisava ficar encostada em alguma árvore, se na selva vivesse. Lá em casa, ficava encostada no braço do sofá.  O bichinho mais bonito foi uma foca, com uma bola de gomos coloridos na ponta do nariz. Um primor!

       Ainda em 1959, aprendemos a fazer a aplicação de uma folha de plátano, no cânhamo. O trabalho ficou muito bonito!

       A sapatilha de napa foi ensinada em 1960.

Era do modelo mocassim. A minha era coral, cintilante, costurada como a dos índios norte- americanos. Seriam os moicanos? Pena! O calçado só ficou no plano da beleza, para contemplação, já que a sola, também de napa, além de ser escorregadia, fazia com que nos sentíssemos descalças. Qualquer grão de areia furava o material e feria nossos pés.

       Meu capítulo " O bordado" teria uma pausa, só retornando em 1966. Coisas do Sistema Educacional, que nada explica, mas exige. As aulas de Desenho Geométrico também não tiveram continuidade. Latim continuou em 1961. No final do ano, fui reprovada em duas disciplinas: Latim( Qui, Quae, Quod) e Matemática. Em 1962, no início do ano, a Inspetora de alunos entrou em nossa sala e chamou algumas alunas. Peguem suas coisas e me acompanhem. Vocês foram aprovadas, por que só foram reprovadas em Latim. Ele foi extinto no Ginásio. Estupefação!!! E eu? Apenas pensei. Nada perguntei. Tinha dado azar...

       Em tempo: pelo menos, aquela banqueta de piano foi retirada da sala. Recebemos uma " confortável" carteira. Só não podíamos nos mexer muito, para não atrapalhar a colega que se sentava atrás. Elementar !

 Mirtes dos Santos Silva Freitas

18/9/20.

  

4
O bordado( Último capítulo)

       Finalmente, término do Curso Ginasial.Apesar de ter sido reprovada por duas vezes, não posso reclamar. A reprovação era comum. Nada era mais ou menos. Os professores eram exigentes e a maioria dos alunos tinha ingressado, às cegas, embora com um bom Curso Primário. Posso afirmar que fui feliz. Não me senti diminuída pelos colegas. Havia filhos de pais de classes liberais mas, de certa forma, éramos iguais sob aquele uniforme. Grupinhos havia, como em todos os lugares. Havia os da elite, que residiam no Centro ou em Santos e os da periferia, nos bairros da região insular. No mais, vencíamos pelos próprios méritos.

       1964---Em janeiro, eu já me preparava para cursar o Clássico.Meu objetivo era a Faculdade de Direito. Queria ser Juíza e empunhar a espada da Justiça em prol dos inocentes e dos desvalidos. Meu destino, porém, já estava traçado. Minha mãe apresentou- me duas opções: ou o Curso Normal, que era gratuito, ou nada. Não tinham condição financeira para custear uma Faculdade. Naquela época, nada era público na Baixada. Nada de facilidade para alunos pobres. Diante das duas possibilidades, fiquei com a primeira.

       Ingressei no Curso Normal, já sabendo que era desprestigiado pelos próprios professores. O Clássico e o Científico eram exaltados. O Normal era o " Curso do espera-marido". Aquelas jovens, tão educadas e gentis, só serviriam para donas de casa. Caso abraçassem a profissão, deveriam fazê- lo como um sacerdócio, sem almejar retorno financeiro, já que o provedor seria o marido. O carinho das crianças seria a grata recompensa pelo desvelo a elas dispensado.

       Penso que houve uma flexibilização para o ingresso no Curso Normal, devido à demanda de alunos no Curso Primário, naquele ano. Antes, havia um Vestibulinho para selecionar os candidatos, quase sempre do sexo feminino. Sei que uma colega ,no final da década de 1950, foi a única aluna aprovada. Tiveram que realizar novas provas. Para nós, isto não ocorreu. Apresentamos o Certificado de Conclusão do Curso Ginasial, tão somente.

       Havia duas classes de primeiro ano. A minha tinha cinquenta e dois alunos. Era superlotada. Acho que foi escolhido um professor para fazer uma " peneira". Foi o de Geografia. Sozinho, reprovou vinte e quatro. Foram aprovadas vinte e oito, algumas a duras penas. Houve, assim, o Segundo Normal A e o B, ambos com menos de trinta alunos. Fui selecionada para o B. A classe era feminina.

       No ano seguinte, por sermos afáveis e estudiosas, conquistamos a amizade dos professores. Alguns mantiveram contato conosco, enquanto viveram. Devo enfatizar os nomes dos queridos Mestres: José Meneses Serra Neto e Mário Totti Caleffi. Duas Professoras fazem parte do nosso Grupo e comparecem aos encontros que, até hoje, realizamos.São elas: Maria Vanda Hussmann Guimarães e Maria Zilda da Cruz. O Prof. Cruz também merece um lugar de honra em nossas lembranças. Suas músicas infantis e, sobretudo, o " Hino da Normalista", incentivaram- nos a trilhar os caminhos dos altos ideais, não esmorecendo diante das dificuldades, inúmeras, aliás. Abraçamos uma Missão Nobre.Embora alijadas do reconhecimento das políticas públicas, sempre teremos orgulho da contribuição dada ao nosso País. Escrevo no feminino, como Professora Normalista, mas incluo os homens que, embora em número reduzido, também frequentaram a Escola Normal.

       Sei que hão de perguntar:---E o bordado? Onde entram as aulas de Trabalhos Manuais?---Respondo- lhes: no terceiro ano, curiosamente, dentre as tantas disciplinas voltadas ao exercício da Profissão.

Até hoje, fico pasma com isso. Trabalhos Manuais, para uma turma que estava se formando para lecionar no Curso Primário, deveria existir para ensinar trabalhinhos que os alunos aprendessem a fazer, acessíveis às possibilidades de uma criança. Também poderiam ser ensinados enfeites para a sala de aula, como cartazes e móbiles. Certo? Não. Errado. As aulas serviram para nos ensinar a fazer peças de enxoval. Houve quem bordasse um lindo jogo de lençóis para casal. Preferi fazer um enxovalzinho para bebê: lençolzinho, fronha, camisinhas de pagão, babador e manta , tudo com rendinhas e delicados bordados em ponto matiz. Também houve peças de tricô. Iniciei um babador. Minha canhotice e a dificuldade de entender a receita dos pontos fizeram com que meu babador tivesse mais de cinquenta centímetros de comprimento, sem jamais chegar ao final. Acho que já tinha se transformado num camisolão. Aí, uma querida amiga foi a salvação. Levou- o para casa, desmanchou- o e fez a pequenina peça. A sobra do desmanche deve ter sido suficiente para fazer todo um enxoval. Por aí, vê- se minha incompetência para tricotar. Se não fosse a amiga Neusa Pimenta, eu teria sido reprovada no Terceiro Normal, mesmo tendo notas altas em todas as disciplinas. Teria morrido de vergonha, se alguém perguntasse:---Reprovada em quê?--- Resposta:--- Trabalhos Manuais.---Até hoje, penso que aquilo não era sério.

                  C' est fini.   The end.

Mirtes dos Santos Silva Freitas

20/9/20

 

3
A máquina

     Há meses, adquiri uma lavadora de roupas; eficiente, compacta, com um painel completo para as minhas necessidades que, aliás, não são muitas. Lava, enxágua, centrifuga. Bem, dirão, essas funções são básicas. Sim, eu sei, mas faz tudo isso em quinze minutos! Isto, por si só, já me deixou boquiaberta! Considero quase um milagre, ter a roupa lavada em tão pouco tempo. Só não enxuga, mas isso é irrelevante para mim. E pensar que relutei em abandonar a antiga. Coitada! Já estava reumática, com as articulações enferrujadas. Sim! Esclerosada! Também já estava no início do Alzheimer.Às vezes, cumpria tudo direitinho.Noutras, recusava- se a centrifugar. Entregava as roupas molhadas e num embolamento tão perfeito que eu custava a separar as peças. Enfim...enviei- a para um retiro. Agora, a nova, que maravilha! Só falta falar. Noutro dia, deu- me um susto! Verifiquei a tomada, forcei o comando e nada! Fiquei nervosa. Pensei logo na Assistência Técnica e na dor de cabeça que isso me daria. Espere! Vi um sinal aceso: DC. O que seria? Na falta de um socorrista, procurei o Manual. Descobri que as duas letras queriam dizer: " porta aberta". Então, era isso...a máquina fala! Fui até a área de serviço, cantarolando " Porta aberta",a famosa música do Vicente Celestino. Que alegria! Resolvido o problema, quinze minutos depois, ouvi a musiquinha, anunciando que a operação tinha sido efetuada com sucesso. Que máquina!

     Agora, pensando bem, retrocedo no tempo. Exatos setenta anos! Quase três quartéis de século! Era o segundo semestre de 1950. Eu tinha quase quatro anos. Minha mãe estava grávida de quatro meses. Relembro, agora, como se lavava roupas, naquela época.

     Há quem romanceie sobre os tempos passados, sem tê- los vivido e há quem sinta saudade, por tê- los esquecido. A vida real, às vezes, não é tão glamorosa assim. O trabalho doméstico era difícil e cansativo, antes das descobertas e da era tecnológica.

     Certo dia, minha mãe resolveu fazer um quarador. Sabendo que meu pai estava ocupado com outros afazeres, decidiu, ela própria, efetuar a empreitada. Que empreitada!

      Em casa, tínhamos um carrinho de mão feito para ser manuseado por titãs, se esses não estivessem tentando destronar Júpiter. O carrinho era pesadíssimo. Meu pai o fizera com tábuas. Os dois varais eram feitos de caibros, ligeiramente aplainados para que as mãos os segurassem com firmeza. A roda era um grande aro de ferro maciço que atolava se a areia estivesse úmida e afundava, caso houvesse lama ou areia seca. O carrinho costumava gemer e repetir o refrão de uma música lançada um ano antes:" Daqui não saio, daqui ninguém me tira"...Pois é, foi com aquele carrinho que minha mãe resolveu aterrar um retângulo do nosso quintal.

     Não sei quanto tempo foi necessário para minha mãe fazer o quarador. Meu pai fez a cercadura com madeira e ela foi preenchendo o espaço. Nosso quintal era estéril e foram necessários muitos carrinhos de terra, tirada para lá da via férrea. Era um ir e vir, ir e vir, quase interminável. Curiosa, eu ficava esperando no portão feito de varas. A cerca também era feita com elas, retiradas de uma florestinha que havia a algumas quadras dali.

Era trabalhoso encher o carrinho, pois tinha que ficar antes da via férrea. Para enchê- lo, minha mãe transportava a terra até ele, num balde de estanho. Parodiando Drummond, " havia trilhos da Sorocabana no meio do caminho". Após o aterro, era preciso gramar o espaço. Foi ela, também,quem fez isso, retirando mudas de grama de algum quintal baldio e transplantando- as. Todas as tardes, o quarador era regado com água do poço, já que não tínhamos água encanada. Como " aqui,  em se plantando, tudo dá", logo ficou tão verdinho, que dava gosto! Quando não estava sendo usado, servia para o nosso lazer. Nele dávamos gostosas cambalhotas!

     Não pense que o trabalho parou por ali. Não! Era só o começo! As etapas que a máquina executa em pequeno espaço de tempo, a manual levava horas, às vezes, uma noite e um dia, quase igual ao que a Bíblia cita no Gênesis:"Passaram- se a tarde e a manhã".No dia anterior, às sextas- feiras, minha mãe retirava as roupas de cama. Os lençóis e fronhas eram de algodão cru ou cretone branco.Também separava as toalhas de banho e de rosto. Colocava a trouxa de molho, no tanque, talvez, meio esfregadas com sabão em pedra. Acho que o sabão em pó ainda não tinha chegado ao Brasil. No dia seguinte, esfregava toda aquela roupa. Às vezes, colocava uma lata de dezoito litros cheia de água, no quintal, sobre uma pequena pilha de tijolos e acendia alguns gravetos. Fervia as roupas mais encardidas com folhas do nosso mamoeiro. O branqueamento era garantido. Isso fazia o papel da Cândida, que também desconhecíamos. Nos dias ensolarados, a roupa ensaboada ia para o quarador. Após algumas horas exposta ao sol, voltava para o tanque, para o enxágue. Na última lavagem, era colocado um pedacinho de pedra de anil, para dar aquela finalização de branco-azulado.

À tardinha, as roupas eram recolhidas e dobradas. Tinham cheiro de limpeza, ora, ora! Não estavam, porém, aptas para o uso. Logo seriam passadas com aquele pesado ferro preto, alimentado com carvão incandescente. Sim, tudo era feito com esmero, esbarrando na perfeição.

   Devo, aqui, fazer uma colocação: algumas mulheres usavam tina em vez de tanque. Acho que a dor na coluna devia ser insuportável.

     O que relatei foi, apenas, um quadrinho do que acontecia em nossa casa e em muitas outras. Se nossa vida fosse contada em uma fotonovela, cada fotinho do nosso dia a dia teria uma pitada de sacrifício e nossa mãe seria a protagonista. Sempre houve e haverá lutadoras. Foi sobre essas anônimas mulheres que o grande Milton se inspirou para escrever " Maria, Maria". Sempre " é preciso ter fé, é preciso ter força..."para trilhar um caminho cheio de dificuldades.

     Relendo o início de minha narrativa, tão admirada com o desempenho de minha máquina nova, não pude deixar de exaltar, com admiração, o trabalho de quem nunca esmoreceu a fim de proporcionar conforto e dignidade à sua família. Devo modificar o título? Talvez, devesse ser: " As máquinas".

Mirtes dos Santos Silva Freitas

29/8/20


2
Apitos e sirenes




" Quando o apito
Da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você"


Linda, essa música de Noel Rosa. Em todas as situações, ele via letras e melodias.Era romântico, versátil, irônico, brincalhão por natureza. Era inquieto.Apesar da existência fugaz, deixou uma obra que não se perdeu no tempo. Noel não morreu. " Três apitos" é uma referência à Fábrica de Tecidos Confiança. Tocava três vezes, pela manhã: às cinco e quarenta e cinco, para acordar os operários; às sete, para que se apresentassem ao trabalho e às sete e quarenta e cinco, para encerrar a tolerância de atraso.

Em São Vicente, muitos também se guiavam por sinais sonoros. Tínhamos a Fábrica de Vidros, que tocava a sirene duas vezes, pela manhã. Isso acontecia às seis e cinquenta e cinco e às sete horas. Era a entrada dos funcionários. Não me recordo se tocava em outros horários: saída para o almoço, retorno e no encerramento do dia de trabalho.

A sirene da Fábrica de Vidros foi um marco em nossa vida estudantil. Imagine quatro estudantes em uma casa pequena. Os horários tinham que ser cronometrados, pois havia um só banheiro. Qualquer demora de um acarretava atraso aos outros. Felizmente, nunca chegamos atrasados à Escola.

-Mãe, já apitou duas vezes?
-Já.
-Agitação!
-Mãe, já deu o primeiro?
-Ainda não.
-Beleza!

A Fábrica de Vidros, assim chamada pela maioria dos que a conheciam, na verdade, teve alguns nomes: Indústria Vicry (1935), Indústrias Reunidas Vidrobrás(1954), Cia. Vidraria Santa Marina( 1971) e, há alguns anos, chama- se Saint- Gobain Glass Brasil. Recolhi esses dados na Poliantéia Vicentina.

Em nossa adolescência, a Fábrica empregava muitíssimos funcionários. À tarde, quando a jornada diária terminava, a calçada que fica entre o portão de saída e a via férrea, na Rua Frei Gaspar, ficava repleta de homens. Dali, eles se dividiam, tomando o rumo de alguns bairros.Quanto aos dirigentes,já se sentiam em casa, pois foram construídas algumas boas residências para acolhê- los. As casas ficavam na outra calçada da Rua Frei Gaspar, bem defronte à Fábrica.

Hoje, as sirenes foram abolidas.A Fábrica é automatizada e necessita de poucos trabalhadores especializados, para operar as máquinas. Nosso relógio silenciou. Obsoleto, perdeu a função.

Outro tipo de alerta, que tivemos, foi o aviso das pedreiras, antes da explosão das rochas. Naquele tempo, duas funcionavam nos morros do Voturuá e do Itararé, essa última, no local onde foi construído o Carrefour. Seus nomes eram: Santa Tereza ou Maria Tereza( não sei ao certo) e O. Ribeiro, respectivamente. Pelos toques de alerta, podíamos nos orientar. Em seguida, ouvíamos o barulho da explosão. Apesar de morarmos bem longe, o som era audível.

Consultando o site Novo Milênio, encontrei a informação de que, em 1952, São Vicente possuía sete pedreiras, inclusive, uma perto do Curtume, que fica no Japuí.

O progresso acentuou os ruídos pela cidade e calou outros, já desnecessários. Não querendo demonstrar saudosismo, (conseguirei?) , termino com os versos de Noel em Estrela da Manhã:

A estrela da manhã
Quando brilha na amplidão
Faz lembrar uma saudade
Que guardei no coração

Mirtes dos Santos Silva Freitas
19/10/20


1

OUTROS CARNAVAIS.

Os antigos carnavais de São Vicente pelo olhar de uma família simples que vivia no Jardim Nosso Lar em 1960

Dia de carnaval e foto de fantasia na Praça da Cia. City. Família de Ayub Elias Simão Filho. 1935. Acervo: Jorge Simão Filho. 




" Ó Abre Alas

Que eu quero passar

Ó Abre Alas

Que eu quero passar...."



Quando Chiquinha Gonzaga compôs " Ó Abre Alas", em 1899, exaltando seu bloco preferido, Rosa de Ouro, jamais poderia imaginar que sua obra se transformaria num grito transbordante de alegria, transcendendo todos os tempos. Sua marcha de Carnaval é cantada, até hoje,sendo conhecida pelos foliões.

Carnaval! Penso que é a época mais esperada pelos brasileiros. Muitas pessoas trabalham durante o ano inteiro, num ritmo acelerado e estafante, esperando pelos poucos dias de libertação, que a data propicia. Não serão mais João nem Maria, José ou Francisca...milhões de nomes serão esquecidos. Nos quatro dias de folia, a multidão se transforma em reis ou rainhas, baianas e piratas, e em tudo o que a imaginação possa inventar.Os homens, tão machistas, rendem- se ao feminino, vestindo- se de mulher.

Quando pequena, ouvi minha mãe falar sobre o Entrudo. Era um modo de brincar o Carnaval, trazido pelos portugueses. Foi proibido antes da metade do século XIX, por ser violento e de mau gosto. Continuou , porém, até uma parte do século XX.

Outro costume, que ela também relatava, era o desfile do Corso. Carros de luxo, abertos, ornamentados, desfilavam pelas principais ruas da cidade, com foliões fantasiados, jogando confetes e serpentinas. A multidão, extasiada, aplaudia a elite, que se divertia.

Interessante é a história do Carnaval. Sua prática já existia séculos antes de Cristo, na Antiguidade, com festas dedicadas aos deuses. Depois de Cristo, ele foi atrelado como um período anterior à Páscoa. Simboliza a preparação para a Quaresma, um " adeus à carne" .É um período de abundância, que antecede dias de abstinência e jejum. As datas de todos esses acontecimentos são escolhidas após o aparecimento da lua cheia, no equinócio de março, no Hemisfério Norte. O primeiro domingo após a chegada da lua será a Páscoa. Sete dias antes, no domingo anterior, será o Domingo de Ramos, que dá início à Semana Santa. Quarenta dias antes do Domingo de Ramos, será a Terça- feira de Carnaval. Os quarenta dias representam a Quaresma. A simbologia cristã nos faz refletir sobre a existência de Cristo.

Muitas marchinhas, desde a década de 1920, são famosas até hoje. Fazem parte do cancioneiro popular. Tempos de Carmen Miranda, Dalva de Oliveira, Heitor dos Prazeres, Noel Rosa, Jararaca, Braguinha, Lamartine Babo, ah! Seu Lalá! Não temos poucas estrelas. Temos uma constelação de brilhantes autores, criativos e irreverentes.


1959- Minha lembrança do Carnaval, meio imprecisa, é anterior a essa data. Escolhi esse ano por estar mais vívido em minha memória. 

Entre 1958 e 1962, moramos no Jardim Nosso Lar, hoje, Catiapoã. Era um bairro novo, com casas esparsas e muitos terrenos baldios. Nossa casa era uma ilha. Não tínhamos vizinhos na frente, nos fundos, nem nas laterais.. Característica do bairro: não possuía árvores, nem jardins. Recentemente, tomei conhecimento de que o local , muito antes, era considerado um pântano salgado.Talvez isso explique a ausência de vegetação.


Nossos dias eram sempre iguais. Escola e casa. Nosso pai trabalhava nas Docas de Santos e minha mãe era " do lar". Distração não havia, além do rádio, motivo pelo qual conhecíamos todas as músicas e marchinhas. Não tínhamos televisão, novíssima em nosso país. Pouquíssimos a possuíam. No bairro, apenas duas famílias. No Brasil, só os privilegiados. Então, o rádio era o nosso companheiro de todas as horas.

O sábado de Carnaval, NO ANO DE 1959, ocorreu no dia sete de fevereiro e a terça- feira, no dia dez. Penso que num desses dias, nossa mãe, Rita Rosa, resolveu nos levar até a Praça Barão do Rio Branco, no Centro de São Vicente, para apreciarmos a folia. Digo apreciar, pois fomos, apenas, espectadores.

Somos em quatro irmãos; eu, a Neusa, o Gilberto e a Zilda. Para mim, foi extasiante e assustador. Quanta gente! Cordões e cordões de foliões que pulavam e cantavam. Serpentinas e confetes eram, profusamente, desperdiçados. Muitos rapazes passavam com um lança- perfume metálico, espirrando o líquido perfumado nas mocinhas em flor. Eu, a mais alta dos quatro, senti algum líquido gelado no pescoço. A Neuza recebeu algumas gotículas e ficou feliz.

A Praça fervia. No centro, havia um tablado para os que quisessem pular. Como pulavam! Por certo, não sabiam, mas foi o ex- prefeito, Dr. Charles Alexander Dantas Forbes, quem popularizou o Carnaval de rua, incentivando o desfile de blocos.

Naquela época, lá no alto do Edifício Zuffo havia um aparelho de alto- falante( ou mais de um), que animava a população, tocando as marchinhas consagradas. Era uma espécie de arauto, informando e alegrando a população vicentina. O edifício, fundado em 1935, existe até hoje, para a nossa alegria. Situa- se na esquina das Ruas Martim Afonso e Frei Gaspar, defronte à Praça Barão do Rio Branco. Durante muitos anos, de lá saíram muitas notícias importantes, , como a do término da Segunda Guerra Mundial.



Saímos de casa à tardinha, com a intenção de vermos os blocos. Já era noite, porém, não muito tarde, quando a atração tão esperada apontou na Rua Martim Afonso. Regozijo! Empurra- empurra! Primeiro, o Bloco dos Chineses do Mercado. Eram homens fantasiados com uma bonita túnica, chapelão de palha, carregando uma vara atravessada nos ombros, da qual pendiam dois cestos compridos, quiçá, transportando peixes. Os rostos eram pintados com uma cor amarela, os olhos maquiados, puxados, como os dos chineses e bigodes pretos.

Outro bloco apareceu em seguida. Era a Escola de Samba X- 9, muito bela e animada. O clima era de êxtase!

Meu irmão tem mais uma lembrança daquele dia. Disse que os músicos da cidade passaram pela Praça, tocando seus violões. Formavam um bloco de trinta homens, mais ou menos. Eram os frequentadores do " Bar dos Artistas" , que ficava em uma esquina entre as Ruas Visconde de Tamandaré e Sorocabana, bem próximo onde, hoje, funciona a Saint- Gobain Glass. Vale lembrar que a Vidraria já teve os nomes de Indústria Vicry, Indústrias Reunidas Vidrobrás e Companhia Vidraria Santa Marina. Talvez os músicos tenham se concentrado lá. Eram de uma ótima safra. Entre eles, talvez estivessem os famosos Maurício e Mauricy Moura e o inesquecível Maestro José Jesus de Azevedo Marques.

Não sei até que horas o Carnaval ocorreu.Só me recordo do encantamento e das músicas que eu conhecia. Naquele ano, porém, uma já tinha sido acrescentada. Composta em 1959, pelos irmãos: Homero, Glauco e Ivan Ferreira, "Me dá um dinheiro aí", gravada por Moacyr Franco, foi a música mais tocada no ano de 1960. Hoje, quem não a conhece?

Após algumas horas de intensa alegria, regressamos à casa, a pé, pelas ruas escuras. Agora, era ir cantando as alegres marchinhas. No céu, a "Lua branca" relembrava Chiquinha Gonzaga.

Devo acrescentar que desconhecíamos o fato de haver " matinées e soirées" nos clubes da cidade. Também, durante muitos anos, desconhecemos a existência do Bloco " Ba-Baianas sem tabuleiro".

A bucólica São Vicente era bem dividida. No Centro, a elite desfrutava da diversidade que lhe era permitida. Nos bairros distantes, a monotonia era quebrada, apenas, pelas idas ao cinema, nos domingos, à tarde. Nisso, pobres e ricos se igualavam.

Mirtes dos Santos Silva Freitas

26/02/2021