terça-feira, 9 de julho de 2019

VULTOS E FANTASMAS Contos e crônicas de Dalmo Duque


 



PARTE I - Vultos e Fantasmas


SÃO VICENTE 
2020-2021 




ADVERTÊNCIA 


Estas são as histórias das gerações que nasceram no Porto Tumiaru, na Vila Afonsina, na Ilha Vicentina e nos territórios continentais da Capitania de São Vicente, desde o final do século XV até nos nossos dias. São os lugares habitados pelos europeus mais antigos do Brasil. 

Tumiaruense é a denominação indígena para os judeus – degredados ou náfragos - que construíram na Ilha do Sol ou Morpion as primeiras casas e negócios na América. 

Vicentino é o gentílico nascido e registrado oficialmente em São Vicente, nome dado por Américo Vespúcio para essa região, desde a chegada dos portugueses em 1501. 

Calunga é o apelido popular dos tumiaruenses e vicentinos, desde a chegada dos primeiros africanos trazidos por traficantes de escravos, empressão que significa lugar de liberdade, comportamento livre e informal. 

São Vicente , 9 de fevereiro de 2020. 

O autor. 



Centro de São Vicente no ínicio do século XX. Óleo sobre tela de Benedito Calixto. CD Room da Biblioteca Benedito Calixto. Santos-SP.


SONHOS E LEMBRANÇAS

Na minha adolescência sonhei diversas vezes com essa antiga paisagem vicentina. Sonho vivo, no qual perambulava por esses lugares, com o coração apertado, porém bastante familiarizado com tudo que via ao meu redor. Era uma cidade silenciosa, muito verde, sem barulho de automóveis ou de multidões. Nem os bondes eram barulhentos e também não havia muitos cavalos circulando. Tudo era muito perto e tranquilo, assim como registraram os pincéis de Benedito Calixto nessa tela onde aparece o Morro dos Barbosas, a rua do Colégio e alguns velhos edifícios da Vila Afonsina (hoje todos desaparecidos), o campo onde seria criada a Praça 22 de Janeiro e finalmente a Biquinha de Anchieta. Interessante que nesse primeiro período no qual morei em São Vicente, de 1874 a 1985,  não frequentava esses lugares. Fui conhecer a Biquinha quase meio século depois, mesmo morando há apenas algumas quadras dali. Via as fotos e cartões postais, mas não me interessava. Essa tela do Calixto só conheci em 2020, há poucos meses, quando escrevia essas histórias. Isso me fez lembrar outra curiosidade. No início dos anos 1980, quando recebemos a visita de amigos argentinos e uruguaios, andando pelas ruas próximas à orla, uma das visitantes nos disse que minha mãe já havia vivido em São Vicente em outra época e que andava nesses mesmos lugares os quais estavam visitando. Minha mãe não se lembra de nada. Talvez tenha sonhado muitas vezes, como eu, mas achava que era apenas sonho.


SUMÁRIO 


1. ALVORADA 

2. O MONSTRO 

3. O PADRE 

4. CANANEUS 

5. CINEMATOGRÁFICA 

6. O VISITANTE 

7. O PARANORMAL 

8. A ESCULTORA 

9. SERTANISTAS 

10. LINHAS DE SANGUE 

11. A PONTE 

12. O REMADOR 

13. O APÓSTOLO 

14. TAMBORES 

15. SÃO JORGE, ÍNDIOS E PRETOS-VELHOS 

16. INOCENTES 

17. CAPITÃO DO FÓRUM 

18. POSTO DE ESCUTA 

19. MOLHES 

20. SINAGOGA ESPÍRITA 

21. LEGIÃO NEGRA 

22. CALUNGA 

23. O GRÁFICO 

24. ESCOLA BEM ASSOMBRADA

25. RAIMUNDÃO 

26. AMIGO 

27. TARTARUGAS 

28. CAMINHOS 

29. O PIANISTA 

30. DISCOS VOADORES 

31. O MÉDICO 

32. ESCOLA BEM ASSOMBRADA 

33. PERTO DA SERRA, LONGE DO MAR. 

34. FICAR EM PÉ 

35. CAFÉ DE SOLDADO

36. BUQUÊ DE FLORES

37. BRANQUINHA

38. O CENTRO CÍVICO E O GENERAL

39. OS LIVROS E CADERNOS DA MENINA FILOMENA

40. QUEM É O MIGUEL DE VOCÊS DOIS?

41. NA BOCA DO SAPO. 

42. ROSE MAURA

43. ANOS 80, ENTRE SÃO VICENTE E SÃO PAULO

44. AVENIDA PARIS





ALVORADA 




SOU DO TEMPO em que São Vicente era Pindorama e só havia índios carijós habitando essa região. Eu e Poty conhecíamos cada pedaço da ilha e também as terras da Serra, onde mora Tibiriba, a nossa amiga de caminhadas e aventuras da imaginação. Entre os índios, como acontece em toda a raça humana, imaginar é construir o que vai acontecer. O que passou fica na lembrança e deve servir sempre de alerta para o que está acontecendo. Mas o que vai acontecer é pura imaginação. Lembro de tudo o que vivi em São Vicente, desde quando não existia uma só casa de pedras e tijolos. Vi muitas chegadas e  partidas e tenho lembrança de todas as pessoas que, como eu, aqui viveram e reviveram suas fantasias na infância, as ilusões na juventude, as desilusões adultas e a resignação da velhice. 

Quem vive em São Vicente, por mínimo que seja o tempo da existência, tem seu destino traçado por orientadores de Alvorada Nova, um mundo paralelo, das causas, que guarda todas as nossas memórias e define o tipo de experiência teremos que realizar no mundo fenomenal dos efeitos. Alvorada Nova tem portais de acesso e retorno em vários pontos da região, desde Peruibe até a Bertioga. Foi imaginada e erigida por europeus, indígenas e africanos que já ultrapassaram barreiras dos sentidos físicos e vivem livres e senhores de si mesmos. É ao mesmo tempo um Céu, um Pindorama e um Kalunga. Eles pensam em conjunto e as coisas ficam prontas e luminosas, sem dificuldades, com as suas mentes limpas e cheias de virtudes. Alvorada Nova também tem uma parte escura, que reflete as mentes sujas e impuras, ainda dominadas instintos e pelas escolhas errôneas, vivendo ali os que têm os corações oprimidos pelos sentimentos ruins e sentem falta da privacidade e das ilusões da carne. Na luz vivem os nossos orientadores, pessoas boas e alegres, como o Padre Vicenzo, as educadoras Anália Franco, Escolástica Rosa e Irmã Dolores, o farmacêutico Cairbar Schutel, o médico e poeta Martins Fontes e muitas outras almas de ciência e empreendimento, conhecidas e desconhecidas de quem está na carne. Na escuridão de Alvorada Nova, nos umbrais, ainda vivem os perdidos na erraticidade, os criminosos, os orgulhosos e presunçosos, os preguiçosos e todos os egoístas e ressentidos, nossos irmãos, de todas as raças, que ainda não conseguem amadurecer o suficiente para voltar à luz depois dos erros e do desperdício do tempo da existência. Eu que o digo, por tudo que vi, tudo que passei e ainda estou passando. Tem também os que vivem nas paragens medianas, do lusco-fusco, gente sem maldade no coração, mas ainda escravos de costumes, crenças e ideias, que aos poucos vão se iluminando. Eu vivo nessa faixa, ora embriagado de luz, ora derrotado pelas paixões. Nos finais de tarde, quando trabalhava em numa escola no Solemar, apareciam por lá os condutores dos mortos vagantes. Eles não podiam ser vistos pelos seres perdidos e estes os conduziam pelo sopro nos ouvidos. Sopravam também nos meus, para que os socorressem. 

“Aponte para aquelas nuvens que estão em próximas da montanha e ordene a eles que olhem naquela direção. Digam que eles devem ir para lá... Diga que obedeçam e que se dirijam para a montanha, que é a portão da volta para casa”. 

Alguns iam rapidamente desaparecendo nas nuvens. Outros tinham dificuldades, mas depois conseguiam. Nesse portal do Solemar, perto da cidade da Criança e junto à serra, sempre se formam o arco-iris, anunciando a migração de almas dos umbrais para as esferas mais altas. 

Tenho nome, mas não posso e não devo revelar porque, apesar da minha idade avançada, desta minha última jornada cronológica, no tempo da consciência, ainda sou criança, sem o domínio da Mente Maior, fruto que ainda não foi ao chão e não caiu em si. Minha bússola diz que ainda não chegou o momento da minha ruptura – para não voltar mais ao mundo fenomenal – e entrar definitivamente no outro lado da Vida, no mundo pleno. Por isso, como a maioria da humanidade, ainda existo, incompleto, oscilante; ora no astral - o mundo dos sentimentos e das emoções-; ora na carne, aprendendo a pensar e criar coisas puras quando habito o éter; e também quando nos corpos sanguíneos, desviando-me das ilusões, lutando para controlar os impulsos e os instintos. Sou Espírito comum e iniciante, mais inclinado aos erros do que nos acertos. Pertenço à uma grande família do ramo tupy, desde a longa caminhada que nos trouxe das terras frias da Ásia para esses lugares quentes do sul do continente americano. As linhas dos nossos destinos foram traçadas há muitos milênios e numa delas houve, em tempos muitos remotos, um cruzamento acidental com as tribos celtas que ocupariam a península ibérica. Nesse período de contato, de luta entre a força e a harmonia, adquirimos compromissos mútuos que o tempo se encarregaria de ajustar. É nessa família que tenho as raízes e os vínculos mais antigos e na qual posso viver e reviver, sempre que necessário, no recôndito do ventre de mães generosas da nossa raça. Outras vezes, com a permissão e gentileza de outras famílias afins, encontro abrigo no seio de outras etnias que aceitam heroicamente a tarefa de iluminar o meu pobre espírito. 

Assim, de tempos em tempos, mergulho na carne, existo por alguns anos, entre o gosto amargo das provas e o gozo dos prazeres. Mas guardo na memória todas as cenas e acontecimentos e conservo delas as experiências que têm valor para a alma. As demais eu esqueço ou então volto ao mundo físico para que se desfaçam em outras provas de dor e longe das tentações. 

Poti e Tibiriba, almas amigas, sempre me acompanham nessas idas e vindas à carne, por necessidade e também por amor e vontade de me ajudar. Elas já se purificaram mais do que eu e nem precisam existir mais nessa minha frequência e, mesmo assim, gostam de rever-me nos mesmos cenários, em situações diferentes, só para ver como eu me saio em novas provas; e também para rirmos juntos das minhas trapalhadas. 

Um dia não vou ser mais criança. Vou dormir Curumim e acordar no meio da longa noite transformado e maduro, revelando o meu nome verdadeiro, dado a mim quando fui criado por Tupã e que está guardado no coração de Yara. Aí então vou poder pronunciá-lo com a minha própria boca e dizer quem eu sou sem receio e aparências. 

Hoje é sábado, 11 de janeiro de 2020 e são 8 horas da manhã. 




O MONSTRO 




NESSE INSTANTE minha mente está cheia de recordações. Meus olhos estão olhando para o chão molhado pela chuva de verão e meus ouvidos ouvem os repetidos trovões que anunciam que vai chover o dia inteiro, espantando os turistas que caminham pelo calçadão da praia e os que aproveitavam os últimos minutos de sol deitados sobre a areia. 

Os ritmos da natureza ainda são a suprema força que movimenta o planeta. A chuva, o vento e os trovões despertam em mim a vontade de ver o mar e a arrebentação das ondas. É irresistível e faço isso há séculos. Antes tinha muito medo dos raios. Hoje sei que eles ainda caem por perto, mas conto com abrigos dos quiosques ou das marquises dos prédios perto da orla. 

Saio de casa e em poucos minutos estou lá olhando o mar. Mais alguns minutos e duas ou três trovoadas são suficientes para eu ver a praia com outros olhos. Não tem calçadão, quiosques, não tem avenida asfaltada e edifícios altos. Não estão lá também os moles de pedras construídos para conter as ressacas, quebrando a mureta e inundando a rua. Ao redor só areia e o jundú rasteiro sobre as ondulações de terra. É a Mahuá, a pequena praia entre o Morro da Biquinha e a Ilha do Mudo, na qual deságuam alguns riachos, cavando sulcos na areia. Do outro lado da baía vejo o Morro do Japui e parte da floresta do Xixová. 

Já fazem duas décadas que o novo século começou e São Vicente está praticamente a mesma desde quando fui morar em São Paulo em 1985. Vejo na internet fotografias antigas da cidade, em diferentes épocas, e percebo que houve poucas mudanças nos pontos mais importantes. Algumas delas são repetitivas e banais, como o os cartões postais. Outras me causam sensações mais profundas, talvez porque registraram momentos, lugares e pessoas que conheci. Essas são emotivas e despertas muitas lembranças. Tenho essa habilidade natural de ler fotografias com o terceiro olho e parece que entro naquela cena registrada e tudo passa a ter três dimensões. Achei que era um fenômeno sobrenatural, mas logo desfiz essa impressão ao ler o livrinho de Boris Cosoy, catedrático do assunto, teórico e prático. O jeito como ele analisa as fotografias são descobertas de diferentes dimensões da mesma imagem. Com ele parece ser fria e racional; comigo acontece de forma temperamental e perturbadora. O mesmo acontece quando passo em algum lugar no qual sou tomado por desequilíbrios, coisa incontrolável, como um transe psíquico ou sonambúlico. 

Sigo caminhando e conforme me aproximo do Itararé a paisagem retoma sua aparência de cidade grande e ouço barulho de carros em alta velocidade em direção a Santos. No fim da calçada entro na Praia dos Milionários, que está vazia de banhistas e com apenas alguns trabalhadores ciclistas que cortam caminho para evitar o trânsito da rua 11 de junho. Ali fico um bom tempo apreciando a baía, onde reina uma certa paz, proporcionada pelo silêncio do mar. Tento me recompor desses transes de memória, dos quais já me acostumei e que me deixam até mais senhor de mim mesmo. Antes ficava assustado e com a impressão de que a loucura havia se instalado em minha mente. Mesmo assim fico apreensivo porque, quando isso acontece, algo em seguida surge algo inesperado e só passa quando o coração não fica mais apertado. 

Alguns minutos depois ouço alguém chamando repetidamente pelo meu nome. Era Isabela, filha de uma amiga que sempre encontro nesses passeios pela orla. Raramente conversamos e somente trocamos uma rápida saudação de reconhecimento. Dessa vez ela se antecipou e se dirigiu a mim de forma bem diferente. Estava sorridente e eufórica, muito inquieta. Disse que precisava me contar uma coisa. Estranhei, pois ela nunca havia me contado nada. Achei que era alguma fofoca que haviam contado sobre mim e que ela soube através da mãe. Nada disso. Me pegou pelo braço e disse que tivera à noite um sonho muito estranho. Começou a falar e já não estava mais sorrindo. Sua mão segurou mais forte o meu pulso e foi apertando na medida em que a história se desenrolava. Disse que estava na praia e foi surpreendida por uma tempestade. O céu foi ficando escuro, todos foram sumindo das ruas e ela foi ficando perdida e sozinha. Apavorada lembrou que morava por perto e dirigiu-se para o meu apartamento, já em meio ao caos que tomava conta da cidade, com chuva de vento e redemoinhos gigantescos que percorriam as ruas arrancando telhados, revirando carros, quebrado e arrancando vidraças. Já dentro da minha casa percebeu que as coisas haviam piorado com a ventania tirando pedaços dos prédios vizinhos. Os redemoinhos eram tão fortes e densos que forçavam e quebravam as janelas dos apartamentos. Ela tentava falar comigo pelo celular, pois eu não estava em casa; tentou falar com a mãe e com alguns amigos e ninguém atendia. Convenceu-se de que já estavam todos mortos. Tentando enxergar o mar, quando se aproximava da janela da sala, era logo atacada pela rajada de vento e pelas vergastadas de chuva sobre a vidraça. Ouvia muitas vozes que vinham de longe dizendo que a cidade estava sendo totalmente destruída pelo ciclone. Outros gritavam enlouquecidos: “É o Hipupiara, é o Hipupiara”. Acordou com esses gritos de desespero. Ainda era madrugada. Não dormiu mais. Só ficou mais calma quando me viu andando pela praia e pensou que eu havia tido o mesmo sonho. Percebeu que, embora não aparecesse no sonho, eu estava perto dela o tempo todo testemunhando a sua angústia. Disse, espantada, que nunca havia sonhado daquela forma tão intensa e verdadeira, embora estivesse totalmente fraca e impotente diante do que acontecia. Queria explicações. Respondi que não sabia explicar e nem soube que havia chovido tanto naquela noite, pois havia tido um sono muito profundo. Só não contei pra ela que , enquanto falava e segurava o meu pulso, vi tudo o que se passava naquela sonho, exatamente da forma como contou e como percebeu a minha presença nele. Isabela não estava inventando nem mentindo. O Hipupiara havia voltado com toda a sua fúria, a mesma fúria com que tinha destruído o Tumiaru e todas moradias da vila de Martim Afonso em 1540. Daquela vez foram somente algumas casas e o sino da igreja. Agora seriam os edifícios, os monumentos, muitos automóveis e motocicletas que iriam ser tragados pela fúria do mar. Enquanto Isabel falava e se aliviava daquele pesadelo, meu coração era tomado pelo pavor e a certeza de que a qualquer momento o mundo todo iria acabar, pois tinha visto que não era somente a cidade que foi tomada pelas águas. O mar havia chegado até a Serra, como era há cinco mil anos, antes de recuar e formar as ilhas, as praias e os morros. Depois que soltou meu pulso Isabela parecia ter tido um delírio semelhante a um transe sonambúlico que a fez esquecer tudo que me contara. Despediu-se sorrindo e saiu correndo para fugir dos pingos da chuva que voltaram após uma breve estiagem. 



O JESUITA 




DALI MESMO fui até a Pedra do Sol. Ninguém por perto. Encostei numa das pedras tentando entender o que aquela pequena ventania queria me dizer. Entendi que era preciso subir a rua da Ilha Porchat, caminhando pela calçada do lado direito. Passando algumas casas , quase já no topo, tem o matagal de onde é possível ver Paranapuã e Itaquitamduba, as duas praias milagrosamente desertas, quase tão selvagem quanto na época da chegada dos primeiros europeus. 

Sentei-me na mureta e continuei olhando o movimento das ondas entre a ilha e o maciço Xixová-Itaipu. Em alguns momentos tive a impressão de ter visto enormes bancos de areia e nelas, tombadas de maneira irregular, algumas torres pontiagudas de pedras. Não é um lugar comum. É um santuário protegido por forças desconhecidas e que desestimulam qualquer tentativa de civilizar aquele local. 

Já é fim de tarde e vejo que há um movimento suspeito em Paranapuã. De longe dá prá ver que são jovens que perambulam pelas areias numa agitação alegre. São somente meninos, a maioria negros e mulatos, todos usando calção de mescla azul. Subitamente me vejo na praia junto eles e não sei como fui parar lá, no meio daquela correria. Também estava de calção, mas um calção branco meio encardido. De longe alguns homens altos e fortes, de braços cruzados, nos observam enquanto corríamos pela areia, depois do banho de vento. Ficamos ali brincando até cansar, quando alguns sentaram no chão, outros deitaram até que a euforia da brincadeira fosse vencida pelo cansaço. 

Ao sinal dos vigilantes fomos todos entrando em fila por uma trilha até chegar em uma grande construção de tijolos e concreto, que parecia ser uma escola, mas não era. Uma placa de metal segurada por caibros de madeira informava que naquele local funcionava uma unidade da Fundação do Bem Estar do Menor-FEBEM. 

Interessante que ao entrar na fila da volta da praia ninguém percebeu minha presença, a não ser alguns meninos que, como eu, estavam de calção branco e tinham feições de mamelucos e não dos mulatos e negros. Enquanto alguns se dirigiam para tomar água nos bebedouros ou tirar a areia dos pés nas torneiras, muitos permaneciam sentados num pátio onde aguardariam o jantar. Entre eles percebi que muitos não eram crianças e quando alguns deles percebiam a minha presença passavam a me olhar de forma diferente. 

Uns se envergonhavam, outros sorriam e outros me desafiavam com reprovação e ameaça. Reconheci todos eles, lembrando os nomes e de quem eram filhos. Alguns poucos eram os primeiros caçadores do Bacharel e outros eram de outras épocas e lugares próximos, mas todos capturadores e mercadores de escravos. 

Nem todos porque entre eles também estva o Padre Vicenzo, magrinho e esperto, sempre sorridente, mostrando-me um crucifixo de madeira e querendo me dizer que ali estava para aprender um pouco mais e cuidar de algumas almas queridas que ainda tinham muitos pecados para espiar. Acenei pra ele dizendo que morria de saudades das suas aulas de teatro e canto. Só não gostava da missa. Conhecia todas as famílias brancas e indígenas da região e tinha um inventário de tudo o que acontecia com elas, desde as crianças até os mais velhos. Perguntei onde estavam algumas delas e ele, em pensamento, me contou que tiveram diferentes destinos, mas sempre voltavam a São Vicente, de alguma forma. Ele as reconhecia nas ruas e tocavam em seus corações ao aproximarem e elas nem percebiam. Apenas davam gargalhadas ou então sentiam algum tipo de saudade inexplicável, como a que senti ao vê-lo sorrindo entre os meninos presos na FEBEM. Quis chorar naquele instante, porém ele me advertiu que eu poderia ser descoberto por alguns mamelucos ainda muito teimosos e revoltados, causando algum tipo de inquietação naquele local. 

Padre Vicenzo lembrou que o governo já estava pensado em desativar os reformatórios em todo o estado e encontrar outra forma de educar essas crianças. Esse formato era muito perigoso e atraia muitas almas inimigas e vingativas, como nas as prisões de adultos e hospitais psiquiátricos. Naquele momento recordava de todos os abusos e violências sofridas pelos nossos irmãos e que as mesmas coisas aconteceram com os africanos escravizados. “Até chegar a solução –disse o padre - já nos preparamos para enfrentar outras batalhas, pois os meninos já estarão adultos e poucos terão forças para se reajustarem com a lei. Daqui há algum tempo estaremos lá nas terras do Samaritá e em Mongaguá, reconduzindo as nossas almas perdidas”. Ele estava se referindo à construção dos presídios para adultos, na área Continental e no Litoral sul. Não entendi porque construir presídios ao invés de escolas. O padre sorriu e me fez entender que essas almas que acabam indo para os presídios são antigos mamelucos desviados para o crime e, por não aceitarem a educação, vão agravando seus débitos. Todas as cidades que foram fundadas a partir da corrupção e destruição de núcleos indígenas hoje abrigam esses criminosos em presídios e também nos educandários prisionais para jovens. Como é um sistema imperfeito e agravado pelo convívio pernicioso, a maioria não consegue se regenerar. Não há outra solução no momento senão a de curar pelas semelhanças. 

Padre Vicenzo vem atuando nesse setor há muitas gerações. Quando o Paraná ainda fazia parte da Capitania de São Paulo, ele foi encarregado de reeducar um grupo de soldados rebelados que foram condenados ao isolamento na colônia de Catanduvas. Os soldados eram do regimento de Santos, a maioria com idade entre 18 e 24 anos, entre eles muitos vicentinos. Desolados pela condenação injusta, aqueles soldados só puderam avaliar a gravidade dos seus gestos quando receberam a sentença que destruiria suas esperanças pelos restos de suas vidas. Pensavam em fuga ou suicídio, o que era praticamente a mesma coisa viver para sempre numa região tão distante e selvagem. Vicenzo sabia que aqueles jovens não eram tão inocentes e injustiçados quanto eles pensavam. A memória do padre ia além daquela existência frustrada pela condenação. Todos eram mamelucos que participavam de incursões criminosas para expulsar os índios de suas terras, a serviço de fazendeiros ambiciosos. As incursões eram traiçoeiras, violentas e cruéis e não poupava nem as crianças, que tinham seus crânios esmagados pelo cabo das espingardas. Viam os índios como animais que atrapalhavam a criação de gado e o plantio das lavouras. Muitos desses grupos expulsos ou mortos por eles se reuniram nessa região do Paraná e continuaram sofrendo com a ambição dos fazendeiros. Perguntei o que aconteceu com os rapazes e ele me respondeu que havia feito um plano de regeneração para cada um deles. Obteriam anistia da pena de 20 anos se constituíssem família com as mulheres indígenas da Colônia, já educadas para esse fim. Aceitando a proposta, eles receberiam terras se estabelecerem como sitiantes. Nem todos conseguiram honrar o compromisso, entretanto os que se firmaram nessa promessa colheram bons frutos naqueles dias e também em outros tempos que viriam. “E os que desertaram”? perguntei. Padre Vicenzo respondeu que alguns deles estavam ali no reformatório de Paranapuã, aguardando dias melhores. 

Acordei desse cochilo rápido e, ainda impressionado, voltei para a praia. Já estava escurecendo e meu estômago pedia um café com bolo. Na caminhada em direção ao centro, sempre com a imagem dos caçadores mamelucos e do Padre Vicenzo, vinha pensando onde iria encontrar um lugar que tivesse um bolo pronto para vender, de preferência bolo de fubá. Lá resolveria, dependo do calor, se tomaria café ou um guaraná bem gelado para acompanhar o bolo. 



CANANEUS 




VENDI O CARRO e só ando de bicicleta. Também reaprendi a andar de ônibus. Uma delicia poder ver a paisagem pelas janelas grandes sem me preocupar com o trânsito e com os carros que estão na frente. Não preciso buzinar, nem pensar onde estacionar, livre dos impostos e do combustível. No começo sofri com as lotações, por causa da bagunça. Agora a cidade tem um novo sistema de transporte, ônibus grandes com ar condicionado e com linha e horários definidos. Nos ônibus intermunicipais que vão para Santos, seguindo as duas linhas mais antigas e herdadas dos bondes, é possível dar a volta pela ilha: pelo Matadouro ou pela Praia. Nos finais de semana, quando ônibus estão mais vazios, costumo fazer esses dois percursos e sempre desço na Ponta da Praia para apreciar o movimento dos navios entrando ou saindo do porto. A bicicleta me salvou do tédio e dos custos de deslocamento para alguns lugares distantes. Só não vou na área Continental e nas cidades vizinhas, com exceção de Santos, onde percorro toda a orla até  o canal 7. Uma redescoberta fabulosa que me fez sentir livre e mais jovem. A ideia de ter uma bicicleta foi de Isabela, que também tem uma e anda com ela por todos os cantos da cidade. Sempre vamos pedalando até o Cine Posto 4, no Canal 3, e lá deixamos as bikes presas no estacionamento em frente à Concha Acústica. 

Sexta-feira à noite recebi um e-mail de uma amiga que mora em Praia Grande me informando que o Porto das Naus estava ocupado com barracos. Ela passa todos os dias pela Ponte Pênsil e pôde ver que o local vinha sendo invadido, pois as cercas de proteção haviam sido derrubadas. Fazemos parte de um grupo que estuda e protege o patrimônio histórico da cidade. No sábado de manhã, após o café, combinei com Isabela e fomos pedalando até o Japuí. Queria verificar e fotografar essa invasão. Atravessamos a ponte e logo chegamos ao local mais antigo da ilha. As ruínas de pedras onde foi a primeira alfândega do Brasil e depois onde funcionou o engenho de Jerônimo Leitão está cheio de roupas velhas espalhadas pelo gramado. Havia fios de nylon amarrados entre as árvores, servindo de varal. As cercas de arame e pilares finos de cimento estavam derrubadas. Vestígios de fogueiras e lixo urbano em abundância. Alguns moradores de rua dormiam sob às árvores e na entrada principal o Monumento da Cruz Real estava coberto pela vegetação. Fizemos algumas fotos com os nossos celulares e voltamos rapidamente para a Ilha com uma sensação de frustração e tristeza. Um lugar como aquele, de tão alta importância histórica, tombado pelos órgãos de defesa do patrimônio, abandonado e desprezado pela população. É a única prova de um dia tivemos aqui a presença de naus portuguesas e de outras nacionalidades mercantilistas do século XVI. 

Quando o Brasil ainda era Pindorama e não havia tantos portugueses dando ordens e cobrando impostos, a nossa terra era realmente um paraíso dos trópicos. Um mar imenso, que nos dias ensolarados era verde claro, transparente e que nos dias nublados tinha a cor cinzenta de ardósia. A floresta era sempre verde e densa, refletindo sua escuridão nas águas do mar, protegendo a terra do calor e das chuvas torrenciais que aconteciam entre as estações. Quem caminhasse na praia, de dia ou de noite, olhando o azul infinito ou seduzido pelas luas, tinha a impressão de estar no paraíso, o Pindorama dos Sonhos. Mas não era impressão. Era o paraíso mesmo. 

Nessa época já se viam muitos navios passando pra lá pra cá e, de vez em quando, um deles estacionava na grande ou na pequena enseada e ali ficava por algum tempo até que alguns tripulantes descessem uma embarcação menor , entrassem dentro dela e remassem em direção à praia. Ouvia-se nesse instante alguns gritos vindos da casa do alto do mastro da embarcação indicando a direção da terra, quebrando o silêncio, indicando o rumo que o pequeno bote deveria tomar. Alguém no bote sempre gritava de volta: 

- Cala essa boca que já estamos quase na areia!!! 

A língua estranha é essa que agora falo e escrevo com naturalidade, tão natural como o tupy que todos falávamos. Só não sabíamos escrever porque não era necessário. Tudo que era necessário estava guardado na memória e os mais velhos nos ensinavam a não esquecer essas coisas importantes que mais tarde seriam uteis. Entre nós já existia alguns homens iguais ao que desciam dos navios estacionados, homens que sobreviviam aos naufrágios e viam dar na praia, desesperados, famintos e cansados de nadar. Homens marcados pelo degredo e homens do naufrágio, cujas embarcações se despedaçavam nas pedras ou simplesmente afundavam durante as tempestades. O mais calmo deles era o náufrago Ramalho, que andava nu e percorria todos os lugares atrás de riquezas e novidades. Era muito curioso e queria saber de tudo o que existia e também o que acontecia em nosso e nos outros pindoramas. Era um homem de estatura média, cabelos encaracolados e, como todos daquela época, usava uma volumosa barba que lhe servia marca de honra e coragem. Sua aparência e comportamento revelava que tinha sido alguém importante em Vouzela, sua cidade natal, pequena vila distante três horas de Lisboa. Figura misteriosa que até hoje ninguém sabe como e por quê veio parar no Brasil, se por impulso aventureiro e ânsia de vencer na vida ou por causa de um grave erro cometido ou ainda vítima de perseguição religiosa. Nessa última hipótese ele poderia ser um cristão novo ou judeu convertido, tese pouco provável pois nunca levantaram tal suspeita durante seus embates políticos ou negociatas permitida somente aos cristãos de tradição. 

Havia também o Bacharel, degredado que falava um pouco diferente do Ramalho e do Rodrigues, um sotaque mais duro e de som estridente e sibilado, que combinava muito bem com o seu jeito mandão e agressivo. Esse era o Fernandes, como o chamavam os outros brancos e depois todos nós. Cosme Fernandes era judeu-espanhol, muito ligado aos negócios do Porto de Lagos, principal porta de entrada de escravos na Europa. Fernandes olhava o tempo todo para o mar, procurando navios. Ramalho e Rodrigues olhavam o tempo inteiro para as montanhas. O Bacharel era habilidoso com as mãos e muito inteligente para fazer planos. Queria que o lugar fosse atraente e despertasse a atenção de outros navios com os quais pudesse fazer negócios de trocas. Andava sempre acompanhado de muitos de nós, que pensavam e agiam como eles, ávidos pelas novidades de ferro , panos para o corpo, armas mortais para caça e guerra. Era um pequeno exército pronto para o combate em defesa da terra e dos negócios. Junto com Fernandes eles construíram um pequeno porto atrás da Ilha do Sol, no pequeno mar, onde tinha outra saída para o Atlântico, próximo ao Piaçabuçu, o grande rio que vinha da montanha. Era um lugar seguro e protegido de tempestades e de malfeitores do mar. Junto ao morro do Japui fizeram um capão com algumas cabanas, uma grande casa de pedras e ao redor delas plantaram raízes, legumes, grãos, frutas e criavam animais que conseguiram dos navios que passaram a aportar ali com mais frequência. Ao lado do porto construíram também uma oficina de embarcações, onde faziam reparos e até outros navios, de encomenda. 

Fernandes sabia recompensar os nossos irmãos que andavam com ele, dando-lhes coisas valiosas e ensinando outras que eram úteis no dia a dia. Eles o acompanhavam aos lugares próximos e distantes, para fazer negócios, como na Cananéia, quatro dias e noites para o sul, onde havia outros brancos iguais a eles. Esses cananeus eram mercadores de escravos, capturados nos pindoramas espalhados naquela região e também no Peabiru, enquanto caminhavam pela floresta. Nossos irmãos capturados, geralmente meninos e meninas, eram entregues nos navios e dali eram levados à Europa, onde eram revendidos. As meninas eram oferecidas nas casas ricas ou nos bordeís, que as transformavam em mercadorias sexuais exóticas. Os meninos ser tornavam serviçais até ficarem velhos, alcoólatras e moribundos, jogados pelas ruas das cidades portuárias da Espanha ou da França. No começo as capturas de escravos eram escondidas, para evitar o temor nos pindoramas mais próximos das praias. Com o tempo elas se tornaram mais frequentes, causando estranhamento e desconfiança em todos. Elas eram ensinadas aos nossos irmãos pelos velhos marinheiros que conheciam as artimanhas da captura. Esses marujos eram contratados nos portos do Mediterrâneo, sobretudo em Lagos. Os nossos irmãos antigos, que se misturaram com eles, foram se afastando e deixando de ser nossos irmãos, passando a nos tratar como estranhos e até inimigos. Já não falavam mais o tupy e acostumaram a usar roupas e botas. Passamos a chamá-los de mamelucos, gente traiçoeira e perigosa, doentes da cabeça e dominados pela ambição. 

A Ilha do Sol foi ficando mais distante de Gohayó. Nem o Ramalho e o Rodrigues gostavam de ir lá porque o Fernandes e seus filhos mamelucos os estranhavam. De tempos em tempos o grande chefe Tibiriçá vinha de Piratininga, depois da montanha, onde morava, até a Gohayó. Fazia muitas perguntas para Ramalho e para Rodrigues sobre o Fernandes e os mamelucos dele. Ramalho ficava quieto e contrariado, com medo que Tibiriçá os atacasse com seus guerreiros. Não gostava de Fernandes, mas não queria afastá-lo por causa dos negócios. Tibiriçá não entendia muito bem o que Ramalho lhe explicava, porém ficava intrigado, embora confiasse no seu genro. Quando isso acontecia, Ramalho procurava distrair Tibiriçá convidando-o a caminhar e mostrar as coisas que tinha descoberto. Andavam o dia inteiro sem se cansarem. Voltavam já “à tardinha”, com diziam os brancos, quando o sol estava se pondo. Tibiriçá queria saber como o Fernandes tinha feito aquela oca de pedras. Queria fazer ocas iguais no Piratininga, para ele e para seus filhos. Ramalho prometeu descobrir e ensinar, explicando que teriam que encontrar e carregar muitas pedras. 

Tibiriçá não ia a lugar nenhum sem Bartira, sua filha mais forte e atirada, que queria ser guerreira, mas por ser mulher não deveria lutar como os homens do pindorama. Foi por isso que Tibiriçá deu Bartira para Ramalho, dizendo a ela que o amigo precisava aprender a ser igual a eles e governar os pindoramas quando ele fosse morar na Manhã Nova, lugar dos mortos que ficava dentro das águas das cachoeiras. Os brancos mortos diziam que ao morrerem iriam para o céu, lugar feliz; ou para o inferno, lugar triste e escuro, onde se reuniam os maus e os mamelucos. Nossos mortos de coração limpo caminhavam até as cachoeiras e ali encontravam uma porta que os levavam ao lugar onde as manhãs só acabavam quando as noites enluaradas ocupavam o lugar do dia, cheias de encantos e mistérios. As manhã eram sempre novas, depois das noites de lua, quando reencontravam seus entes queridos que já tinham partido e também todos os animais caçados, que haviam morrido para que se alimentassem. Nem Tibiriçá nem Ramalho acreditavam muito nessas histórias, geralmente contadas por Bartira a eles, aos seus filhos e netos. Mas todos ouviam em silêncio, com curiosidade, medo e respeito, até que ela terminasse. Bartira vivia tendo sonhos premonitórios nos quais chegavam muitos navios e que neles estavam guerreiros que lutavam furiosamente contra Fernandes e os mamelucos. Nos sonhos ela e Ramalho eram gigantes e estavam no mar quando os navios passavam entre as suas pernas, sem que fossem tocados ou molestados dirigindo-se à praia com tochas de fogo em busca dos mercadores de escravos. Bartira acordava assustada querendo conversar e compreender o que significava esses sonhos, porém Ramalho a distraia com histórias sobre o lugar distante onde havia deixado seis pais e seus irmãos, dizendo que um dia todos iriam para lá visitá-los. Bartira pegava no sono novamente enquanto Ramalho permanecia acordado pensando no sonho da esposa índia e nos seus sonhos de homem branco. 




CINEMATOGRÁFICA 




DIAS DESSES fui visitar um amigo que conheci pela internet, vendo e compartilhando fotos de edifícios antigos da cidade. Ele conhece praticante todos os prédios e fez um guia no qual consta um inventário sobre as obras arquitetônicas de destaque. Paulistano, escolheu São Vicente para curtir a aposentadoria, mas depois de algum tempo enjoou e acabou voltando para a Capital, concluindo que lá, apesar da solidão, poderia desfrutar o cosmopolitismo e vida cultural de São Paulo . Na mudança se desfez de muita coisa, inclusive uns livros que me deu de presente, sobre a história vicentina. Morava no edifício Marahu, no Boa Vista, prédio ondulado com persianas amarelas, erguido bem na ponta que divide as praias do Itararé e Milionários. Sempre que subo a ilha, na volta sento na mureta em frente a esse prédio porque é um ponto onde se pode ver a Pedra do Sol e também a Praça das Bandeiras. Gosto de ficar ali em dias sem movimento, geralmente no final da tarde. 

As persianas do Marahú já estão desbotadas. Quando vim morar no litoral, em 1974, elas ainda tinham um tom de amarelo bem forte, cor que combinava com verões quentes das temporadas dos anos 60 e 70 nas quais o Itararé e o Gonzaguinha eram os principais rivais do Guarujá e ainda frequentado pela alta burguesia paulistana. Foi então que duas cenas vieram à minha mente ao olhar demoradamente para a janelas do Marahu. Cenas cinematográficas. Na verdade foram três, mas cinematográficas foram só duas. 

Estou no Itararé andando pela areia, num dia de semana à tarde. A cidade está silenciosa e quase não se ouve barulho de carros. Meus olhos percorrem lentamente todo aquele cenário paradisíaco. O Edifício Marahu ocupa boa parte do meu olhar, exatamente igual ao que estava fazendo há pouco. Avisto de longe um caminhão velho vindo em direção à ilha Porchat. Uma algazarra na carroceria quebra o silêncio. O caminhão estaciona e todos descem e correm em direção à areia do Itararé; logo depois voltam, atravessam a rua e vão para a praia dos Milionários. De longe se vê o Gonzaguinha, com alguns edifícios em construção e algumas mansões na orla, com suas árvores grandes e vistosas. Olho para o mesmo edifício que me distraiu há poucos minutos e o vejo bem diferente. Está novinho, em folha. As persianas amarelas estão novíssimas, tão novas que ofuscam os olhos com a claridade intensa do sol. A turma do caminhão retorna para o Itararé, onde trocam de roupa e vão divertir-se no mar. A Ilha Porchat está repleta de árvores e não se vê nenhum edifício nela. Dos que desceram do caminhão reconheço apenas um adulto. Já de meia idade. Ele anda de um lado para outro, gesticula fartamente, à moda italiana, e organiza uma roda de dança que reúne todos os visitantes. Na verdade trata-se de um elenco. O homem de meia idade é Amácio Mazaroppi dirigindo uma cena do filme “O Vendedor de Lingüiça”. Estamos em 1962. As novíssimas persianas do Marahu emitem uma claridade excepcional, mas não tem cor alguma. O filme é preto e branco. 

Na sequência, como se fosse uma mudança de cena nos sonhos, vejo outras pessoas, em algazarra, no mesmo lugar. Agora é uma pequena multidão em alvoroço, dando a impressão de que alguém se afogou ou foi atropelado na rua que divide as duas praias. No meio dela surge um rapaz com toda pinta de galã de cinema. Com shorts curto e uma camiseta com listras grosas e mangas compridas. Ele procura uma garota, que logo encontra, dão as mãos e correm em direção ao mar, onde vão divertir-se. O galã é o ator Walmor Chagas. A garota é a atriz Ana Esmeralda. Tudo está em preto e branco. Ele de costas para o Ilha Porchat Club e ela de costas para os edifícios do bairro na direção de Santos. Continuo sentado vendo aquelas cenas do filme São Paulo Sociedade Anônima, gravado em 1965. São Vicente está no apogeu do “boom” imobiliário e suas praias são as mais cobiçadas do litoral, pela proximidade da Capital e fácil acesso pela rodovia Anchieta. O Itararé e o Gonzaguinha gozam de prestígio e esbanjam um charme comparado a qualquer praia elegante da Europa, do México e do Hawai. É de uma beleza simplesmente deslumbrante. Por isso são cenários de filmes, com atores de grande fama. Darlene Glória, Eva Vilma, Otelo Zeloni estrelam essa produção. Darlene aparece numa cena chegando de lancha. Antes ela tinha ido conhecer o Mar Pequeno e a Ponte dos Barreiros. Na volta a lancha passa por baixo da Ponte Pênsil , atravessa as águas tranquilas e limpas da baía e desembarca na areias da Praia do Milionários. 

Olho novamente para o Marahu, desgastado pelo tempo e pela moda que passou, e fico imaginando se aquela cena que na qual Walmor abre a persiana para dizer a Ana que a vista era maravilhosa, foi gravada no apartamento do meu amigo arquiteto. Claro, não poderia ser outro. Lembro bem. O escritório desse meu amigo antes era um quarto. Ana morre no filme, naquele apartamento, cuja cena termina com alguém cobrindo seu rosto com um lençol. Lembro que Walmor também morreu, muitos anos depois, de cabelos muito brancos, em uma pousada na Serra da Mantiqueira, atormentado por alguma coisa horrível e insuportável que o fez atirar em si mesmo com um revólver. 





O VISITANTE 






MAS AQUELA ESQUINA ainda guardaria uma outra surpresa. Passada a euforia cinematográfica, eis que a avenida e a praia se esvaziam para que outro cenário fosse montado ali como a mesma velocidade dos anteriores. Quando as coisas são governadas pelo pensamento, a imaginação não precisa de cores. A cena de destaque na ponta do Boa Vista agora tem uma dimensão política. 

Estamos em 1961, em plena Guerra Fria. Ernesto Tchê Guevara e Fidel Castro ocupam todas as manchetes dos jornais e revistas, rádio e cinema. A Revolução Cubana segue seu curso e tenta influir de forma direta nos regimes latino-americanos. Nesse universo de segredos diplomáticos e militares a espionagem é uma arma essencial e letal na guerra entre as superpotências e também entre as indústrias e organizações financeiras. O espião e o alcaguete são peças vitais para obter informações. Eles estão espalhados e infiltrados em todos os lugares e segmentos. É preciso redobrar a vigilância. Fenômeno como este só havia acontecido nos tempos da Santa Inquisição e na Europa totalitária. Alguém escondido atrás de um jornal lendo em uma esquina ou no banco da praça pública pode ser um agente ligado a inúmeros serviços secretos que atuam no mundo inteiro defendendo interesses dos EUA, da União Soviética, dos árabes ou dos judeus. Todos vivem literalmente no mundo da Lua e querem chegar nela a qualquer preço, como forma de mostrar poder científico e tecnologia de controle do futuro. O Brasil está na moda. A Bossa Nova começa despontar no mundo da música, logo após o sucesso do Cinema Novo. JK tem um novo sucessor, que exibe um tremendo óculos com lentes do tamanho de uma tela de TV e, por trás deles, olhos atormentados pela mania de perseguição. 

Continuo sentado na mureta, olhando as venezianas amarelas do Marahu. Alguém esqueceu ali um exemplar da revista O Cruzeiro, cuja capa em preto e branco está estampada a foto do novo presidente, com um sorriso irônico, revelando o imprevisível. Poucas pessoas na rua e na praia. Olho na direção da avenida Presidente Wilson e vejo uma movimentação estranha e suspeita. São homens de estatura alta, de paletó e gravata, olhando para todos os lados em busca de um possível atentado. Para disfarçar, temendo que haja alguma coisa grave, pego a revista e começo a folheá-la, fingindo estar atento às reportagens. O clima está ficando cada vez mais tenso, pois alguns carros estacionados estão ocupados por pessoas misteriosas, que ficam olhando pelos retrovisores. Meu sexto sentido diz que algo muito ruim vai acontecer: um assassinato, troca de tiros, uma explosão. Os homens de terno abotoam o paletó, talvez para esconder suas armas, e se movimentam na minha direção. A página da revista mostra uma garota de maiô com pernas e seios maravilhosos. Ela sorri maliciosamente, mas não consegue prender minha atenção nem tranquilizar-me. Penso em correr pela Praia dos Milionários, mas isso despertaria uma suspeita desastrosa e certamente seria baleado. Desisto da ideia e me concentro nas páginas da revista, por alguns segundos. Do outro lado da rua um ciclista pedala tranquilamente em direção ao Ilha Porchat Clube, como se nada de anormal estivesse acontecendo. Não o conheço, pois em fevereiro de 1961 ele deveria ser muito jovem. E eu nasceria somente em agosto. De repende, na esquina da rua Almirante Saldanha da Gama, surge andando um homem magro, de roupas simples, camisa de margas curtas, calças claras de tergal e sapatilhas brancas. Caminha lentamente com as mãos para trás. Os homens olham com mais frequência para o caminhante, fixando os olhos nele e esquecem de mim por alguns minutos. O homem magro continua andando, no ritmo de um passeio planejado. Olho para ele, olho para a revista em logo vem a explicação de toda aquela encenação. Era o Presidente. Digo para mim mesmo, espantado: ”Meu Deus, é o Jânio... E vão matá-lo aqui em São Vicente, bem perto de mim. E vão me acusar pelo crime. É isso, ele estavam apenas procurando alguém para colocar na cena do crime. Estou perdido”. Fechos os olhos para me convencer que aquilo tudo era um delírio, desses que tenho com frequência e geralmente me envolvo em grandes confusões. Pânico e sensação de morte bem próxima. Ouço passos e uma tosse rouca me faz abrir os olhos de curiosidade. Jânio passa por mim e para. Olha para revista, que agora está fechada sob as minhas pernas trêmulas. Sorri idêntico à foto da capa. E se dirige a mim, com a maior calma e naturalidade: 

- Bom dia, meu rapaz, como vai?. 

E respondo: 

- Bom dia, Senhor Presidente. Vou bem, graças a Deus. Aproveite o descanso e a paisagem... 

E ele comenta, com aquela conhecida voz rouca 

- Por sinal muito bela, meu caro, realmente de uma beleza, digamos, estonteante. 

E foi em direção à Ilha, enquanto os agentes de segurança corriam desesperados, prá lá e pra cá, tentando manter as coisas em ordem. Fecho os olhos novamente e por alguns segundos tento me convencer que esta cena não aconteceu e que foi tudo produto da minha imaginação. Penso: vou abrir os olhos e nada disso que se passou vai estar aqui. E ao abri-los vejo que o presidente continua caminhando e agora são os agentes que passam por mim sem notar a minha presença, tão distraídos e desatentos das coisas que não puderam planejar que, eu poderia, se tivesse comigo uma arma ou um punhal, atirado ou atacado fatalmente o presidente. “Que horror”, pensei. “Será que teria coragem”? Levantei, deixei a revista sobre a mureta acreditando que estava amaldiçoada e que nela ainda continha avisos de que as coisas não deveriam estar nada boas para o presidente nos próximos meses. 

No dia 23 de agosto de 1961 eu nasceria, há 650 quilômetros de distância. Dois dias antes, Jânio renunciou ao mandato presidencial, alegando estar sendo perseguido por forças ocultas. Hoje entendo perfeitamente o que estava se passando em seu mundo íntimo e também nos bastidores do governo federal. Jânio desapareceu do cenário político por um quarto de século, quando voltou a ser candidato a governador, perdendo para Franco Montoro, e depois como prefeito de São Paulo, já bem idoso, derrotando o então senador Fernando Henrique Cardoso. Nunca mais voltou a São Vicente, suponho. 


O PARANORMAL 




MEIA ESTAÇÃO. É como está o clima nesse período ano, entre o verão e outono, logo depois daquelas chuvas intensas de fevereiro e março. Eu e Isabela, no jardim que fica dentro do edifício, conversamos sobre diversos assuntos enquanto a mãe dela foi até ao supermercado fazer as compras da semana. Elas moram no Audax, na avenida Antônio Rodrigues. Dali dá para a ver a baía e quase todos os pontos mais conhecidos da orla. Isabela me conta que não acredita em Deus. Se esforça para compreender, mas não consegue. Acha que o mundo é muito preso à essas bobagens somente para disfarçar e compensar as coisas ruins que existem nele. É uma geração descrente, irônica, muito bem informada e questionadora. Assim como duvidam de todas as coisas prontas e organizadas pelos sistemas, também desconfiam da religião e das respostas padronizadas da teologia sobre os problemas humanos. Acho engraçado. A mãe não acha nada engraçado e se preocupa porque Isabela tem amigos que se cortam e alguns já se mataram. São como os terraplanistas que defendem sua cosmogonia provocando a irritação dos globalistas, que às vezes se confundem ao explicarem as teorias dominantes sobre esse tema. Isabela vê a religião e as igrejas como um sistema frágil e de fácil contestação. Isso lhe dá a sensação de autonomia e independência que muitas vezes não têm em casa. Dou muitas risadas porque eu mesmo, com as minhas crenças vejo-me acuado pelas suas perguntas e o seu prazer cruel em esmagar minha cabeça com os pés, depois de derrubar-me com alguns golpes verbais. Reajo, busco algumas vertentes e temas que ela desconhece e logo me recupero dessas pequenas surras racionais. Culpa do nosso misticismo incorrigível. 

Logo em frente ao prédio onde estamos percebemos jovens realizando alguma atividade ou ação religiosa. São muitos, todos vestidos com camisetas pretas com uma estampa uniforme no peito. Estão muito alegres e festivos. Isabela me disse que conhece alguns deles que já os viram em outras ocasiões. É domingo, umas 19 ou 20 horas, e devem ter saído do culto há poucas horas. A calçada está praticamente vazia e nela passa, com longos intervalos, algum pedestre passeando ou retornado para casa. Eles correm em direção a esses raros transeuntes para oferecer abraços. São tantos jovens que alguns pensam se tratar de um arrastão. É uma cena cômica e surpreendente. 

Pergunto para Isabela se ela faria parte do grupo, caso a convidassem. Ela responde que não, pois teria vergonha. Acha meio piegas. Digo pra ela que também fiz parte de grupos de jovens religiosos, não de igreja e sim de um centro espírita da Vila Melo, em meados dos anos 70. Eu também não embarcava na deles- disse-lhe. Assistia às aulas teóricas e depois caía fora, na hora da confraternização. 

Enquanto os jovens procuravam novas vítimas para dar abraços percebi que havia homem de meia idade, usando terno e chapéu, observando o grupo. Estranhei que não tivessem visto ele, pois estava sentado no banco, bem próximo. 

A mãe de Isabela chegou e nos despedimos. Atravessei a avenida e fui em direção aos jovens, talvez porque estivesse precisando de um abraço. Parei sob a árvore e fiquei esperando a reação deles. 

- Eles não vão perceber que você está aí, como a mim, disse o homem. 

Então olhei par trás e vi eu mesmo ainda sentado no jardim do Audax e ao mesmo tempo conversando com aquele homem. O reconheci imediatamente, mas o cenário era outro. Não havia prédios nem carros. A noite estava escura e fria. O homem continuava sentado, agora demonstrando cansaço e mal estar, causados por dores no corpo. Ele havia sido espancado por um grupo de rapazes que, depois da agressão, já caminhavam um pouco longe. Não eram muitos, mas percebi que alguns deles faziam parte do mesmo grupo de jovens que tinha visto anteriormente, incluindo duas ou três meninas. O homem estava com o rosto machucado. Perguntei o motivo da agressão e ele me respondeu que todos estavam em uma quermesse na praça Bernardino de Campos, no centro da cidade. Na medida em começou a falar, já estávamos, eu e ele, na esquina da praça olhando o acontecido. 

Haviam feito uma grande fogueira e a certa altura alguns deles ameaçavam pular uns pedaços de madeira em brasa que haviam se soltado da amarração feita com pregos. Subitamente teve a ideia de também fazer o mesmo gesto dos rapazes, por brincadeira, e de repente se viu dentro da fogueia, em altas chamas, onde permaneceu por alguns minutos, sem nenhum movimento ou reação defensiva. Saiu da fogueira conferindo as roupas, o chapéu, as mãos e percebeu que estava tudo intacto. Nem sentira o calor. O público que ali estava, e não era pouco, ficou perturbado e logo se viu um alvoroço, do qual surgiam comentários jocosos e xingamentos. Alguns conhecidos quiseram retirá-lo dali pois perceberam que corria risco de ofensas e agressão, entre eles o amigo Mikulash, que conhecia bem essa sua particularidade inexplicável. Ele recusou e saiu caminhando em direção à Biquinha, ouvindo gritos de espanto e também de acusações de bruxaria. Da Biquinha ele seguiu em direção à casa de um amigo, na Vila Betânia, próximo ao empório Boa Vista. Não conseguiu chegar, pois, naquele mesmo local onde iniciamos nossa conversa, foi abordado por um grupo de fanáticos que o espancaram. 

O homem percebeu o meu desconforto e decidiu dar-me uma explicação do que ocorrera. “Estou bem. Foi um reencontro”, disse ele. “Fui trazido aqui para curar uma dor que ainda incomodava meu coração. Vim porque alguns desses jovens ainda trazem consigo um grande remorso pelo que fizeram comigo. Ontem eram violentos e espancadores; hoje distribuem abraços e sorrisos. A vida é assim. Minha ferida também não cicatrizou”. 

Eu estava conversando com Carmine Mirabelli. Perguntei onde era o endereço do Centro Espírita São Luiz, fundado por ele em São Vicente em 1917. Mirabelli respondeu que era na rua Marquês de São Vicente, num imóvel que foi demolido anos mais tarde. Quis saber porque colocava o nome de São Luiz nos centros que fundava. Confirmou o meu palpite sobre essa escolha. São Luiz, o bom rei de França, era da plêiade do Espírito Verdade e presidia e supervisionava, até aquele período, ações de médiuns que poderiam causar grande impacto na sociedade materialista. Os riscos da tarefa ele já conhecia. Tinha vivido em São Vicente em outras épocas e aqui reconheceu vários amigos daqueles tempos da vila afonsina. Mikulash era um deles. Muitos judeus daquela época do Porto dos Escravos ainda estavam por aqui. Mirabelli tinha potencialidades psíquicas espetaculares e isso causava um misto de espanto e ódio entre os que não conseguiam reconhecer e compreender esses fenômenos. Sofria muito com isso. Dormia com as luzes acessas pois não conseguia controlar seus transes e efeitos físicos ao redor. Tinha medo de causar incêndios e tumultos, pois as coisas aconteciam de forma espontânea e surpreendente. Na juventude passou por muitas tribulações, não parava em empregos e teve que abrir seus próprios negócios para sobreviver. Certa vez teve que deixar a loja onde trabalha no centro de São Paulo porque os sapatos saiam das caixas e chegavam sozinhos nas mãos dos clientes e estes saiam correndo apavorados pelas ruas. Contei isso para Isabela e ela riu dizendo que eu tinha lido Harry Potter. Na verdade Mirabelli era muito parecido com aqueles magos da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, mas não havia estudado a magia da qual carregava em si e não sabia controlar. Recusava ser um aprendiz de feiticeiro, como o Mickey no filme Fantasia. 

A inauguração do Centro Espírita São Luiz não foi diferente. A cerimônia estava marcada em horário definido e poucos minutos antes ele ainda estava em São Paulo conversando tranquilamente na estação de trem que deveria trazê-lo ao litoral. Já havia perdido o trem e, mesmo assim, não interrompeu a conversa agradável com os amigos. Pediu licença, afastou-se e logo em seguida, para o espanto deles, desapareceu completamente daquele círculo de conversas. Minutos depois ele entra no recinto do centro, há mais de 150 quilômetros de distância, para o alívio dos organizadores que o aguardavam, dando inicio à cerimônia inaugural. 



Outro aspecto constrangedor na vida desses médiuns de fenômenos físicos é o efeito colateral dos fluidos magnéticos primitivos desencadeados espontaneamente por eles – que mexem com o psiquismo e a libido, causando forte desequilíbrio sexual. Nas escolas sacerdotais e iniciáticas tradicionais, esses sensitivos aprendem a controlar o chamado “fogo serpentino” por meio da sublimação e técnicas defensivas. Essa serpente em forma de energia vital percorre a coluna vertebral e nos mantém literal e verticalmente eretos. O fogo rítmico é originário do magma geológico e movimenta as forças e desejos instintivos. Os iniciados o controlam através da manipulação do chacras ou centros de força. Nos médiuns sem preparo e educação moral não é raro os conflitos afetivos e o desequilíbrio mental. Mas esta é uma marca de responsabilidade pessoal. 

Fiquei imaginando como eu me comportaria no lugar dele. Me senti fraco e incapaz de levar comigo uma tarefa como essa, cheia de provas e ciladas, pois certamente sucumbiria às tentações da carne e do caráter. Lembrei da médium Ana Diogo, filha de uma união proibida de uma padre com uma freira e que aceitou a tarefa de servir de cobaia para experimentos, muitas vezes apenas mascarados de ciência, com a intenção de desmoralizá-la. Assim foi com Zé Arigó, que acabou preso por exercício ilegal da medicina; e também com Chico Xavier e Peixotinho que, diferente desses outros, souberam disciplinar sua forças. Peixotinho era sargento do Exército e chegou e servir na região. Atuava num centro espírita em Santos, doando energia para materialização de espíritos e objetos. 

Mirabelli produzia fenômenos semelhantes com alto grau de perfeição. Percebendo minhas inquietações e pensamentos, confiou-me que seus débitos eram muito maiores dos que seus feitos. Partiu desse mundo ainda muito endividado e que deveria retornar, agora em nova condições e melhor aparelhado para novas tarefas. Morreu em 1961, atropelado por um caminhão em São Paulo. 



A ESCULTORA 





OLHANDO UM ANTIGO cartão postal vicentino, foto tirada de cima do Morro do Itararé, dá para contar nos dedos as casas que ocupavam os amplos terrenos da Vila Betânia, logo após a linha do trem do lado aposto da Vila Valença. As casas ainda estão espalhadas entre os lotes vazios e chamam a atenção por causa do estilo de construção que marcaria uma época da presença de imigrantes europeus na cidade. A vila também ficaria conhecida como Vila dos Estrangeiros: italianos, franceses, ingleses, suíços e alemães, muito mais raros do que os portugueses e espanhóis que praticamente são fundadores e moradores mais antigos da cidade. Essas da Vila Betânia são famílias que aqui se instalaram para trabalhar nos negócios portuários em Santos, nas ferrovias e empresas de bondes e eletricidade. Eram fluentes nos idiomas mais falados nos portos mais importantes do mundo ocidental. Santos já era uma cidade grande e também insalubre, já famosa pelas epidemias. Isso assustava os imigrantes mais abastados que, por esse motivo, preferiam residir em São Vicente, então pequena e sem os riscos de aglomeração e doenças urbanas. Nessa época a Câmara Municipal, no intuito de povoar a cidade que havia recuperado recentemente a sua antiga autonomia, resolveu incrementar atividades econômicas, realizando doações de terrenos para as famílias que se responsabilizavam em construir aqui casas de residência fixa. Não era hábito dos vicentinos morar na orla ou frequentar praias para banhos. Esse era um costume de estrangeiros, por isso a escolha dos lotes a beira mar, distantes umas das outras. Eram engenheiros, médicos, comerciantes, técnicos, artesãos, educadores e, não raro, artistas plásticos e músicos. Muitos dos seus filhos já nasceram vicentinos e aprenderam as primeiras lições do nosso alfabeto, bem como da língua-mãe dos seus pais e avós. Eram leitores de berço e autodidatas, frequentando as pouquíssimas salas de aula apenas com o intuito de fazer amizades e demonstrar respeito pelas autoridades. Quando chegava a idade de avançar os graus escolares eram, quase sempre enviados para Santos, São Paulo ou mesmo para os seus países de origem, pois geralmente tinham recursos para custear as viagens e estadias. Foi o caso da jovem Olga Elisabeth Magda Henriette Nobiling que, nascida em São Vicente em 1909, foi estudar na Alemanha. Elisabeth, como gostava de ser chamada , era fascinada pela cerâmica primitiva que seus pais adquiriam dos poucos indígenas que ainda habitava a região. Eram frequentadores da Chácara dos Alemães, instalada em frente a avenida Antônio Emmerich , no antigo Sítio do Bugre e hoje quartel do Exército, nas vizinhanças do Cascatinha e do mangue do Catiapoã. Ali, antes da chegada dos trilhos da ferrovia e dos bondes, ainda existiam algumas malocas indígenas que permaneceram heroicamente intactas, vivendo da pesca, caça e da venda de utensílios de barro e artesanato. Como todos os cultuadores da arte, Elisabeth admirava as cores, tons , formas e traços da pintura indígena americana, com suas marcas e linhas geométricas perfeitas. Era a arte que estava mais próxima das origens e dos segredos ainda não revelados da humanidade. Não foi preciso que os primeiros professores dissessem isso a ela, mas Elisabeth partiu para a Europa sabendo que precisava revelar e afirmar isso ao mundo. Nascera numa cultura clássica germânica, porém vivia bem próxima e mergulhada no universo mágico tupy-guarani. 

No final da década de 1920 Elisabeth já havia passado pela universidades de Müenster e Colônia e nos anos 30 transita nos melhores cursos de arte de Munich e Berlin. Na sua volta ao Brasil em 1934 conhece o já famoso Victor Brecheret, de quem se torna assistente. Elisabeth e Victor, além da arte, tinham em comum o fato de terem vivido em São Vicente. Brecheret tinha uma casa na rua José Bonifácio, no centro da cidade, próximo a rua Padre Anchieta. Mas São Vicente continuava sendo apenas uma pequena e bucólica estância litorânea e que quisesse ampliar horizontes teria que explorar a vida cosmopolita que começava a tomar forma em São Paulo. É assim que já no seu retorno ao Brasil vemos uma foto de Elisabeth, ao lado de suas obras, estampada nas páginas de um grande jornal paulistano. Era a sua primeira exposição após ter voltado da Alemanha e para onde voltaria mais algumas vezes para refazer suas experiências artísticas. Em 1936 ela passou a fazer parte do mais famoso e mais influente coletivo de artistas da cidade: o Grupo dos Sete. 

Fiquei muito curioso para conhecer Elisabeth, sua família e sua história, além dessas notas biográficas que todos têm acesso. Uma pessoa tão famosa e reconhecida no meio artístico certamente casou-se, deveria ter filhos, netos, sobrinhos, endereços, lugares preferidos, etc. Nada, nada foi encontrado a seu respeito e sobre sua família. A principal curiosidade era conhecer sua imagem, que também frustrei-me nas buscas direcionadas do Google e nenhuma delas revelava a imagem da escultora. Não desisti. Continuei a procura por algumas semanas e tive uma grata surpresa quando localizei-a num fotografia de um jornal paulistano seguida de uma pequena nota sobre a exposição que faria na Capital, dizendo que a artista era recém chega de uma longa temporada na Europa, no início dos anos 1930. Na foto Elisabeth me parece muito tímida ou excessivamente discreta, pois a imagem registrou apenas um lado dos seus rosto, com olhos sobre algumas peças do seu acervo. Na verdade não sei onde ela realmente nasceu, se em casa ou algum hospital, nem o seu antigo endereço vicentino. É provável que nos arquivos cartoriais exista algum registro de imóvel em nome dos seus pais ou avós. Sempre que vou a São Paulo tenho vontade de visitar a Cidade Universitária, que fica entre o Jaguaré e o Butantã. É talvez o lugar mais importante e significativo dessa enorme cidade fundada pelos Jesuítas, a partir da obra dos ancestrais de Tibiriçá. O Cacique é o avô de todos os autênticos paulistas, pai de Bartira e sogro de João Ramalho, sementes dos mamelucos que povoaram São Vicente e o Planalto de Piratininga. Assim como o Ibirapuera tem no Obelisco a marca da civilização paulistana, a Cidade Universitária tem a Torre do Relógio da USP, duas lâminas de concreto que simbolizam a busca do conhecimento e a reunião dos saberes de alunos e catedráticos da Universidade de São Paulo. Nelas estão esculpidas, em baixo relevo, as alegorias de fantasia e realidade, das ciência humanas e das ciências naturais, obra idealizada pelo arquiteto Rino Levi e criada por uma talentosa escultora e também acadêmica da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. O monumento tornou-se um ícone do qual se orgulham milhares de paulistanos que sabem das suas origens e o que significa e também de outros milhões que ignoram que João Ramalho e Elisabeth Nobling vieram de São Vicente. 

SERTANISTAS 




AFONSO SCHIMIDT, o célebre jornalista e escritor cubatense, conhecia muitas famílias vicentinas no início do século passado e dizia que na cidade todos se conheciam porque São Vicente era uma cidade pobre e quieta, onde as casas já tinha nascidas velhas, do tempo dos capitães-mores. É um retrato autêntico de como a vila afonsina, que nunca teve ares de metrópole. Sobrevivia nos anos iniciais do mundo de grandes guerras, bombas atômicas, fábricas, automóveis e aviões, cinema, rádio, televisão, corrida espacial e finalmente a internet. Ele descreve com certa tristeza que era só a Biquinha, o Cine Anchieta, a estação de passageiros dos bondes da City, as festaa no estande do Bugre, em dias de feriados, e os jogos de futebol na Praça 22 de Janeiro. Tudo isso, ou melhor, só isso, para dizer que, entre as famílias calungas existia uma que era a mais simpática, formada por um pai italiano e uma mãe austríaca. O príncipe herdeiro da Áustria-Hungria já tinha sido assassinado pela organização sérvia Mão Negra e as nações, entupidas de armas, se destruíam nas tricheiras e mares do grande combate de 1914. 

A essa altura do impasse bélico Itália e Áustria estavam em alianças opostas, mas o casal mais simpático da cidade vivia em São Vicente, cidadezinha pacata e alheia a guerras desde quando foi atacada por piratas e também pelo seu fundador, Cosme Fernandes. São Vicente já era repleta de estrangeiros, que para ali se dirigiam buscando paz e tranquilidade e misturar-se ao sossego dos velhos calungas, cujo estilo de vida contaminou quase todos os moradores. Nem todos. 

Os filhos da simpática família Aureli, que se chamavam Aurélio e William não queriam saber de sossego e tranquilidade e logo que se desprenderam da vigilância dos pais saíram em busca de aventuras. Moravam em uma casa cujos fundos davam para um enorme charco que ia até os trilhos da Souther São Paulo Railways e de onde organizaram as primeiras expedições “pelas praias silentes em busca de aventuras”. Nessa época já lideravam grupos de crianças que perambulavam pelos mangues e matagais até a Ponte Barreiros e também pelos andaimes da Ponte Pênsil em direção à Praia Grande. Esse dois pequenos aventureiros se tornariam os primeiros sertanistas dos tempos modernos, muitos anos antes que aparecessem outros também famosos em suas épocas. Aurélio era mais introspectivo, pragmático e engenhoso, confeccionando jangadas, barcos, armas e provimentos. William era cheio de imaginação e confeccionava planos e rotas de aventuras. Uma dupla perfeita unida pelo sangue e vontade de fugir da rotina e treinar espontaneamente para a vida futura. Os dois encarnaram o espírito dos ancestrais europeus e vicentinos e não é difícil imaginar os dois na pele dos irmãos Adorno ou dos netos de João Ramalho e Bartira, subindo a Serra do Mar para explorar o planalto e o interior paulista. Foram mais longe, como foram os bandeirantes que se espalharam pelo sertão. Agora, na década de 1930, quando o Oeste do Brasil ainda era pura selva e desconhecido da maioria dos geógrafos, Aurélio e William Aureli organizaram as famosas Expedições Piratininga em direção a Mato Grosso e Goiás. Era o que existia de mais selvagem e exótico naquele contexto. Os rios eram os principais alvos dos turistas estrangeiros que desembarcavam no Rio de Janeiro e em Santos, bem como em Belém e Manaus, para ter acesso ao mundo florestal amazônico, que para nós do Sul ficava na região centro-oeste, no Araguaia e no alto Xingú. Aurélio e William desvendaram ao público esse cenário que só via em livros e filmes. Para dar mais emoção aos roteiros, as expedições eram financiadas pelo diário de anotações de William, transformados em livros de aventuras relatando todos os detalhes e lances curiosos das andanças pela selva. O sucesso dos livros foi quase que imediato e funcionava como reportagens que interessa não somente ao público que gostava de aventura, mas também cientista e políticos que só conheciam essas regiões distantes e inóspitas através de mapas e lendas. Os irmãos vicentinos foram realmente os primeiros sertanistas modernos, desses que faziam contato e se torvam amigos inesquecíveis dos índios e conhecidos por inúmeras tribos amazônicas. Tudo foi documentado, não pelos relatórios oficiais e órgãos públicos burocráticos e sim pelos livros-reportagens de Willy Aureli, aguardados ansiosamente pelo público leitor. 

Andar pelo sertão ainda hoje é perigoso, por causa das distâncias e isolamento físico, mesmo com os recursos de comunicação digital. Naquela época tinha um inimigo mais feroz do as anca e cobras das matas: eram as doenças tropicais que derrubavam também os mais fortes e preparados exploradores, entre eles Aurélio Aureli, que sucumbiu a uma delas, picado por mosquito, e teve que ser sepultado em pleno sertão, próximo ao Araguaia. Willian voltar ao seu antigo trabalho de jornalista, iniciado no jornal A Tribuna, de Santos, e depois estendo ao grandes jornais e revistas da Capital. Morreu em 1968, aos 70 anos, vitimado por infarto. 




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LINHAS DE SANGUE 



NAS TARDES DE DOMINGO gosto de pedalar e matar saudades de alguns lugares onde vivi, fiz amizades e que também trazem lembranças fortes, difíceis de apagar. Saio do Gonzaguinha, atravesso a Presidente Wilson e entro na Vila Valença, por qualquer uma das ruas que levam ao Jardim Independência: pela Armando Sales de Oliveira, até a Market; pela Brás Cubas, até da Berta Craveiro Lopes; pela Pedro Álvares Cabral, até a Uberaba e finalmente pela Monteiro Lobato, do lado esquerdo do canal na direção da velha Anita Costa, a única calçada com paralelepípedo, enquanto as outras eram de terra e depois cobriram de blocos sextavados de cimento. 

Ando por todas elas, cheio de boas lembranças, mas não gosto de pedalar do lado do Voturuá, que não me trás boas recordações. 

Primeiro pela a minha breve passagem como estudante nas escola Zulmira, nos galpões velhos de madeira, onde hoje é a EMEF Antônio Fernando dos Reis, da qual fui transferido após levar uma merecida surra de alguns alunos que não gostaram do jeito que tratei a inspetora, que me advertiu sobre o uso correto do uniforme. Na época usava-se um guarda-pó branco, muito incômodo no período de verão. Poderia ter ficado na escola Cidades Irmãs, porém fui atrás de colegas e ignorei o conselho de amigos. Fui parar no Augusto Saint-Hilaire (Vidrobrás), no Catiapoã. 

Segundo porque, além da surra e da saída forçada, o bairro era meio barra pesada e cenário de histórias nada leves, com essa que me tirou o sono e ainda recordo com certa angústia quando vejo aquelas ruas próximas ao morro. 

Naquela madrugada de sexta para sábado todo o bairro estava em silêncio absoluto e não me lembro ter ouvido nem um só latido dos cães nem barulhos de carros. E foi isso que os meus ouvidos ouviram nitidamente: os estampidos de tiros. Não consegui dormir mais. Um aperto no coração e uma curiosidade indescritível queria que eu saísse de casa para ver o que teria acontecido. Estava quente e poderia fingir estar voltando de um passeio na orla. Tive medo. Tanto medo que não pude nem mesmo ir até a varanda para observar a rua e ver se algum vizinho também estava acordado e curioso como eu estava. O volume da TV estava tão baixo, para não acordar meus pais, que tinha quase que ler os lábio dos atores do filme que estava sendo exibido na Sessão Coruja. Me distrai um pouco com aquelas cenas em preto e branco do nosso aparelho até que, algum tempo depois, um outro barulho veio quebrar novamente a rotina daquela noite. Era o toque de sirene, apenas uma, porém prolongado e insistente. Passou perto de casa, na Monteiro Lobato, a rua do canal, em direção ao Voturuá, quase na esquina da minha rua, a Rio e Janeiro. Já eram mais de 3 horas e os tiros tinham sido dados à 1:30. Fui dormir sem saber o que tinha acontecido imaginando a cena de um crime no qual os atiradores apontavam as armas para as vítimas, numa típica execução do esquadrão da morte, como era noticiado frequente nos jornais. 

Quem morava próximo provavelmente deve ter ficado sabendo do ocorrido e até chamado a polícia. Mas nós, moradores mais distantes só ficamos sabendo desse caso no domingo de manhã, quando vimos a notícia estampada em página inteira do jornal A Tribuna. Um jovem casal de Santos voltando a pé de um passeio na Ilha Porchat foi abordado por assaltantes quando entravam no carro. Foram levados no próprio veículo até a antiga pedreira e ali foram barbaramente assassinados a tiros. A reportagem identificou os jovens com fotos 3X4 dos seus documentos detalhando os lances do crime, provavelmente com informações dos peritos da Polícia Técnica. Não acompanhei o desdobramento do caso. 

Quase trinta anos depois, o mesmo jornal republicou a matéria – numa série de casos policias famosos – e finalmente tive a explicação do que havia acontecido, na versão da polícia e testemunhas: os assassinos que confessaram o crime eram de São Paulo e tinham descido a Serra para cometer crimes na Baixada durante a temporada de verão. O carro roubado dos jovens sequestrados e mortos durante o assalto era uma Brasília daquele ano, 1976. O local do crime, Voturuá e o canal da avenida Monteiro Lobato eram identificados na matéria como Linha Vermelha. Guardei o jornal por um bom tempo lamentado não ter feito o mesmo com a matéria original. 

Como explicar ou nos fazer entender os assassinatos e todas as outras maldades que causam dores profundas naqueles que perdem seus entes queridos, sobretudo nesses casos nos quais as vítimas, pela lógica das coisas, nunca poderiam ter sofrido esse atentado? Como aceitar que isso seja fruto do acaso ou de uma simples fatalidade, sobre a qual não temos controle e porque fazem parte dos riscos do mundo fenomenal? Não há para os mortais alternativa senão a compreensão e a resignação, fruto da auto-análise e da reflexão sobre narrativas espirituais, que relativizam os acontecimentos como peças de um jogo cujas regras fogem do entendimento comum e porque são regidos por leis que ainda não conhecemos. Pela Lei do Karma, ação e reação ou causa e efeito e também a concepção judaico-cristã de justiça e bem-aventuranças, as ações que resultam em assassinatos e demais maldades fazem parte de uma ciclo repetitivo no qual todos os envolvidos só se libertam quando são rompidos os laços da culpa, do remorso, resgate e reparação. Em outras palavras, não existe acaso nem coincidência no mundo fenomenal das imperfeições humanas. O cenário da ação, cedo ou tarde será o mesmo da reação, não como castigo e sim como choque reparador. No universo tudo está interconectado e nada permanece imutável para sempre. 

Mas coisas não mudaram muito em São Vicente do século XXI. As maldades e fatalidades se sucedem sem escolher cor, credo, endereço ou classe social. Na madrugada de 25 de janeiro de 2002 o esportista veterano e instrutor de surf Nino Matos, de 38 anos, foi morto com seis tiros, quando voltava de uma bar no Itararé. O crime aconteceu no final da Linha Vermelha, na avenida Minas Gerais, Vila São Jorge, próximo a divisa com Santos. Nino era muito conhecido pelos admiradores desse esporte, tendo conquistado muitos campeonatos e títulos nos anos 1980. 

Em 2007 dois rapazes armados anunciaram um assalto para um grupos de jovens que se divertiam tirando fotos na calçada de uma rua na Vila São Jorge. Um deles atirou na adolescente Emily, de 13 anos, que correu para suas casas carregando uma câmara digital. Alguns dias depois dessa tragédia, na passeata de protesto realizada na Frei Gaspar, próximo ao Gáudio, os presentes ficaram constrangidos quando alguém gritou de dentro de um bar: “Se a menina fosse pobre, ninguém teria movido uma palha para ajudar”. Imediatamente uma jovem gritou de volta: “Cala o a boca, seu idiota”. Não adiantou nada. O reclamante levantou da cadeira e foi até a calçada repetir seu ressentimento social, provocando os participantes que ali foram se solidarizar com os pais da menina assassinada. Uma garotinha que estava nos ombros do pai cochichou em um dos seus ouvidos algo que não pude deixar de reparar: “Ele tá bêbado”. E pensei comigo, da boca dos bêbados e das crianças sempre saem verdades desconcertantes. Caminhamos todos em silêncio. 

No início da Linha Vermelha, uma quadra antes da Monteiro Lobato e perto do Carrefour (antiga Pedreira Voturuá), começa a chamada Linha Amarela, que segue a antiga linha do trem, hoje VLT, em direção ao centro até a Esplanada dos Barreiros. Em um dos seus trechos mais longos, na Martins Fontes, ela se desvia por trechos tortuosos na altura do Catiapoã, local que durante o dia é bem claro e barulhento, porém á noite é bem escuro e isolado. Nesse lugar restam poucas casas quase todos os terrenos são ocupados por galpões e a esplanada dos pátios antigos da Estrada de Ferro Sorocabana e dos fundos da extensa Fábrica de Vidros. Foi bem nesse trecho que um jovem estudante foi surpreendido e assassinado à facadas quando voltava de bicicleta da casa da namorada, que residia no distante bairro do Saboó, já zona portuária de Santos. Prometeu voltar em breve, pois naquele horário sem trânsito o percurso era muito rápido, não passando de 40 minutos. Momentos antes do ataque, tinha falado com Rita, a mãe, preocupada com o seu retorno para casa na Vila Margarida num horário tão avançado da noite. Não voltou. Gabriel foi golpeado e arrastado para um terreno baldio e ali agonizou até morrer. Quando seu corpo foi encontrado por populares já era dia claro. 

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A PONTE 




DESDE QUANDO a Ponte Pênsil começou ser construída, em 1910, os operários e os vigilantes relavam aos capatazes que o canteiro de obras era constantemente invadido por pessoas esquisitas que iam até ali para se matarem. Homens e mulheres apareciam e, sem fazer perguntas, iam logo se atirando ao mar, alguns reclamando de cansaço, da distância e da pouca altura dos mastros inacabados dos quais pretendiam pular. 

Os barqueiros do antigo serviço de travessia já estavam acostumados com essas investidas que lhe davam muito trabalho e depois dores de cabeça. Esses passageiros entravam nos barcos e, no meio do percurso, levantavam-se repentinamente de braços abertos ou simplesmente tombavam o corpo para o mar para encontrar a morte. Uns gritavam e outros apenas choravam, convulsivamente. Outros permaneciam em silêncio e desistiam, permanecendo alguns minutos no Japui e logo voltavam para suas casas. Alguns vinham de Santos e até mesmo de São Paulo com esse intuito. 

E não é apenas a ponte que serve como cenário sinistro. As praias e as águas da baía vicentina também são pontos atrativos para esse fim. Em 1936 o jornal paulistano Correio da Manhã publicou uma pequena notícia com esse título sensacionalista: “O PROPRIÉTÁRIO DA SAPATARIA ALLEMÃ SUICIDOU-SE EM SANTOS”. Entretanto ao lermos os detalhes do relato vamos perceber que o acontecimento se deu em outro lugar, que no conceito popular de paulistanos e paulistas do interior é tudo Santos. 

“SANTOS, 16 (Da succursal) – Referimos hontem o inexplicável desaparecimento do súbdito allemão, Walter Wolf, da pensão em que se achava hospedado, à rua Frei Gaspar, 217, visinha cidade de São Vicente. Walter sahira de manhã, vestindo a indumentária própria, dirigindo-se para a praia a fim de fazer o habitual banho de mar, não mais regressando a referida pensão. O facto foi communicado à Delegacia de Polícia de S. Vicente, tendo o respectivo delegado, dr. Lotito Salvia, logo iniciado as precisas diligências para elucidar o caso. Walter Wolf residia em São Paulo, à rua Apiacaz, 12, e era proprietário da “Sapataria Allemã”, instalada à rua Xavier de Toledo. Segundo informações obtidas pelo operoso delegado vicentino, Walter, que era do gênio alegre e folgazão, vinha, nos últimos dias, mostrando-se sobremodo taciturno e retrahido, tendo, por vezes, chegado a dizer em conversa com outros hospedes da pensão em que se encontrava fazendo uma estação de repouso, que mais dia menos dia poria termo à existência. Essas declarações levaram aquella autoridade a crer na verificação de um suicídio, cujos motivos não poderão ser attribuídos a dificuldades financeiras, pois sabe-se que Walter alem de efectuar bons negócios no seu estabelecimento, possuía vários prédios nessa capital. Hontem o mar arrojou a pria o cadáver do inditoso commerciante, que parece ter levado a termo o seu tresloucado gesto devido a forte neuratenia. Depois de cumpridas as formalidades da lei, foi o cadáver de Walter entregue á família que o fez transladar para a capital onde se realizarão seus funeraes. 

Não existe uma estatística dos números de tentativas e suicídios que ocorreram na ponte nos últimos 100 anos, porém ela continua sendo um cenário atraente para os que querem desistir da vida. Antes as reclamações e denúncias despareciam no silêncio do esquecimento e do segredo. Atualmente, nas duas alças de acesso para veículos e pedestres, vêm-se placas azuis de advertência com o número do telefone 188, do CVV- Centro de Valorização da Vida. Elas foram instaladas pelo Departamento de Estradas e Rodagem-DER, a pedido de uma entidade de formação de jovens, cujos alunos e educadores eram informados constantemente de que alguns aprendizes ou amigos deles comunicam a intenção de suicídio naquele lugar. Foi por esse motivo que pediram a fixação das placas, que é uma medida preventiva comum adotada em muitos países. Foram além. De alguns anos para cá, sempre no dia 10 de Setembro, eles reúnem centenas de jovens e convidados para ocuparem o local, formando uma grande linha humana ligando as duas extremidades da ponte. Todos usam camisetas amarelas, cor símbolo do mês do Dia e do Mês Mundial da Prevenção do Suicídio. É o tempo da primavera, que celebra o renascer da Vida e o recomeço de uma nova etapa aos que sobrevivem às tentativas de auto-extermínio. Quando a grande linha humana se desfaz sobre a ponte, todos os aprendizes do CAMP Rio Branco seguem numa caminhada em direção a Praça Tom Jobim, perto da Biquinha, já no início da noite, onde acendem as luzes dos aparelhos celulares para alertar o transeuntes e lembrar tristemente os que se foram. 

Mas o cortejo alegre quase sempre vem com alguns convidados a mais. É que, enquanto os jovens se confraternizam durante a formação da linha da Vida ou na hora das despedidas , sempre surgem algumas pessoas estranhas e “esquisitas” dizendo que foram ali para conversar e também pedir ajuda. Nesses instantes elas são abordadas por voluntários do CVV que estão presentes e ali mesmo trocam uma experiência que eles aprenderam há muitos anos com os Samaritanos ingleses (o CVV da Inglaterra) a qual denominam “Befriending”, isto é, a oferta de amizade e apoio emocional. Conversam, apertam as mãos, às vezes se abraçam, choram juntos, tudo para lembrar que a vida vale e precisa ser vivida, às vezes com alegria ou tristeza, mas sempre com esperança. Nas primeiras vezes somente os voluntários do CVV tomam essa iniciativa. Agora, ao observar a simplicidade desse gesto, jovens e adultos também ofertam seus ouvidos e ombros para os que precisam desabafar. 



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O REMADOR 





O MAR sempre despertou no homem o medo e o impulso de desafio e superação. Mesmo se fosse dotada de guelras, a espécie humana não perderia o desejo nem a vontade de ir além das ondas e conquistar a imensidão de água salgada dos mares e oceanos. É por isso que à vezes ficamos por horas olhando o horizonte, tantos nos dias de calmaria como com nos de tormentas e tempestades, imaginando uma viagem de ida sem volta. 

Já são oito horas da noite e uma leve brisa de outono lembra os visitantes do Quebra-Mar, em Santos, que é preciso ir para suas casas. As luzes fortes dos postes da orla santista ofuscam a vista e tentam, à força da eletricidade, espantar a escuridão do mar que invade as praias e que só recua no amanhecer. Há poucos navios aguardando a ordem de entrada na barra e, ainda assim, estão bem distantes. 

Nem desci da bicicleta e vejo duas embarcações brancas deslizando rapidamente pelas águas escuras do José Menino e logo desaparecem por trás da Ilha Urubuqueçaba. Pedalo no sentido oposto e volto os olhos para o Itararé e tento enxergar os remadores indo na direção de São Vicente, mas é inútil. Eles desapareceram. Será que vão contornar a ilha Porchat e de lá irão até a sede náutica do Japui, passando por baixo da Ponte Pênsil? Pode ser que não, mas seria uma boa forma de ensinar aos novatos que esse percurso era uma rotina tranquila para o solitário e destemido Antônio Rocha. Mesmo acompanhado algumas vezes, o remador santista do Tumiaru exibia nas fotos um olhar triste de quem está sozinho no mundo, mesmo rodeado de pessoas. Na verdade, conheço uma única fotografia de Antônio, a que está ao lado José Ferreira de Andrade, segurando uma bandeirinha da Argentina, cruzada com a do Brasil. Seu companheiro de viagem segura a bandeira paulista. É um imagem colorida de 1934 estampada na capa da revista El Gráfico, quando da chegada deles a Buenos Aires, após percorrerem 1.134 milhas. Era a época do atletismo heroico e dos famosos raides náuticos de longa distância e que demoravam meses para serem concluídos. 

Mas essa história começou bem antes. Nas comemorações dos 4º Centenário da Fundação de São Vicente, em 1932, três conhecidos remadores do Clube de Regatas Flamengo resolveram prestar homenagem à primeira Vila do Brasil, remando do Rio até São Vicente. Os autores dessa façanha eram Ângelo Gamaro (Angelú), Antonio Rebelo (Engole Garfo) e Alfredo Corrêa (Boca Larga). Talvez nem soubessem disso mas estavam, na verdade, sob a inspiração dos deuses marítimos de Portugal ( e de Estácio de Sá), recordando os vicentinos que partiram do Forte São João da Bertioga, em 1665, para fundar a maravilhosa cidade a qual nasceram e viviam sob a proteção de São Sebastião. Recordando esse grande feito, um grupo de remadores calungas e caiçaras pensaram em retribuir a generosidade dos cariocas. Escolheram e enviaram ao Rio ninguém menos do que Antônio Rocha , que se prontificou a conduzir o barco Itararé, em nome do Clube de Regatas Tumiaru. 

O cronista que fez esse longo relato nas páginas de A Tribuna descreveu assim a cena histórica: 

“Enfim, a 25 de fevereiro de 1933, às 18,30 horas, compareciam à sede do Clube de Regatas Tumiaru, no Japuí, em São Vicente, os diretores srs. José Vicente de Barros, cap. Luiz Antonio Pimenta, cel. José Rites, Jorge Elbel, Leopoldo Caiafa, Leopoldo Dietrich e o redator da A Tribuna, Antônio Guenaga, para apresentarem as despedidas ao intrépido remador”. 

A partir daí, Jorge Elbel relata, quadro a quadro, em sua crônica os detalhes da jornada que terminaria na rampa do Flamengo, às 11:30 horas do dia 13 de março de 1933. O feito foi seguido de festejos, discursos, passeatas e grande alarde na imprensa esportiva do Rio e São Paulo, rapidamente replicadas nos noticiários regionais. 

Mas os entusiastas do remo não pararam por aí. Convenceram Rocha e José Ferreira de Andrade a venceram os obstáculos que os levaria à glória em Bueno Aires. O ritual heroico foi quase o mesmo. Saíram do Clube de Regatas Santista, foram até a sede náutica do Tumiaru, no Japui, e de lá partiram para a Argentina, sendo finalmente consagrados na capa da mais famosa revista portenha. 

Voltaram do Sul e Antônio Rocha continuava com o mesmo olhar de compleição melancólica e vazio no peito, o quais só poderia ser defeitos quando conseguisse realizar a viagem mais importante da sua carreira. E definitiva de toda a sua vida. Rocha queria ir e chegar sozinho a Belém do Pará. Os convites e desafios não paravam de chegar e não saía mais da sua cabeça inquieta e temerosa do tédio e da inatividade que certamente chegaria na velhice. Não seria nada fácil e isso ficou muito claro nas duas tentativas, abortadas por intempéries e pequenos acidentes de percurso. Dessa vez seria diferente. 

Partiu em direção ao Rio, trecho que conhecia como a palma da mão. Do Rio, onde já não pôde contar com toda aquela ventania de elogios e incentivos de outras épocas, se lança na direção norte em busca do seu sonho de vencer a costa brasileira e desembarcar próximo ao Mercado Ver o Peso, sendo festivamente saudado pelos botos em águas amazônicas. Mas não foi assim. Em dessas noites de ventos cortantes e chuvas raivosas, Antonio Rocha foi surpreendido por uma tempestade. Já contava com seus quase 61 anos de idade. Perdeu o controle e seu barco espatifou-se nas pedras, em Saquarema. Morreu como queria, em luta contra a lei da gravidade. Era o fim do olhar melancólico e do vazio no peito. Seus despojos foram trazidos para Santos somente em 1975 onde repousam no Mausoléu do Esportista Amador, no Cemitério Municipal do Saboó. 

Depois de tanto tempo é possível que Antonio Rocha já tenha voltado a viver na cidade onde seus pais portugueses vieram tentar uma nova vida e lhe deram o corpo e a coragem; ou então na velha cidade que o acolheu como filho e sempre o tratou como herói, agora tentando a sorte na pele de um dos meninos ou meninas pobres, como Tripulante do Futuro. 

Salve, Antônio!!! Salve Rocha!!! 



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O APÓSTOLO 




ENTRE OS ESPIRITUALISTAS cristãos existe um nome que todas as pessoas cultas desse segmento religioso conhece e reverencia. Trata-se de Pietro Ubaldi, um médium e escritor italiano que nasceu em 1886 em Foligno, na região da Umbria. Ali, aos cinco anos, teve o seu primeiro despertamento quando, ao mudar de estabelecimento escolar, ouviu o novo professor pronunciar a palavra “evolução”, momento que provocou um indescritível impacto no seu espírito. Com tenra idade foi buscar respostas na obra de Darwin. A mãe pertencia à nobreza e a família tinha terras e rendas que lhes proporcionavam tradição e riqueza. Por isso teve boa formação, fez muitas e viagens e sempre pôde contar com o apoio e incentivo dos pais. Par quem se sentia atraído desde pequeno para vida espiritual a riqueza e o conforto significa mais uma prova do que uma dádiva, já que as tentações são mais próximas e acessíveis. Mas por respeito aos pais e a disciplina dos professores, nunca deixou de cumprir as regras e protocolos sociais da sua classe. Casou-se aos 25 anos, com uma noiva escolhida pelos pais e com ela teve três filhos. Um deles viveu e faleceu em São Vicente. Ubaldi era poliglota e conheciam bem diversos idiomas, incluindo o português, cujo interesse e desenvolvimento se daria anos mais tarde por causa da sua tese acadêmica. Sua ligação com o nosso país teve início durante os cursos de pós-graduação (era formado em Direito pela Universidade de Roma e nunca exerceu a profissão), quando escreveu uma tese sobre a colonização comercial italiana no Brasil. Apesar da boa formação e da origem de classe média, Ubaldi acabou se inclinando para um estilo de vida franciscano, discreto e bem afastado dos hábitos e ambições burguesas. Trabalhou durante 20 anos lecionando em escolas públicas e muitas vezes morando em simples quarto de pensão quando lecionava longe de casa. Em 1927 renunciou à herança do pai, por voto de pobreza. 

Sua segunda experiência fenomenal, que também poderia ter sido descrita de maneira mística e religiosa, aconteceu em 1931, porém deu a ela um tratamento racional, não menos impressionante com a que tivera na infância. Num determinado trecho da sua caminhada matinal teve a visão de duas formas paralelas identificando nelas depois de alguns instantes de observação e análise as figuras do Cristo, à direita; e de Francisco de Assis, à esquerda. Ele não descreve como chegou a essa conclusão e apenas relata que não teve dúvidas a identidade daquelas duas figuras que lhe pareciam muito familiares. Pietro estava presenciando uma autêntica revivescência da inesquecível cena Tabor em pleno século XX. No seu relato Ubaldi afirma que, diferente do desequilíbrio psíquico do Pescador de Almas, não se entregou ao governo das emoções, nem propôs algo sem sentido naquele grave momento como armar ali uma tenda para que as figuras luminosas se abrigassem. Pelo contrário, permaneceu firme, quase cético, como Tomé de Tolemaida. E analisou tranquilamente tudo em estava acontecendo naquele curtíssimo período de vinte minutos. Não teve dúvida, a revelação era íntima e autêntica, como havia acontecido com o choque anímico causado pela pronúncia da palavra “evolução”, saída com força e verdade da boca do seu antigo professor. Estava na presença dos seus dois queridos mestres, como em outros tempos estivera na presença de Jesus, acompanhado de Elias e Moisés. 

“A visão, no entanto, ficou indelével, gravada a fogo naquela alma, como uma queimadura de luz, uma ferida de amor que jamais o tempo poderá cancelar, feita de saudade, de uma contínua e angustiante espera para reencontrar-se.” 

Ubaldi não sabia ou não disse nada sobre o paradeiro de Moisés e de Elias, mas confessou em uma palestra em 1951, em São Paulo que, num fase muito difícil de buscas e dúvidas, o Mestre e o próprio discípulo Tomé haviam feito chegar em suas mãos o Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, o qual lhe soou como uma solução providencial que lhe fez gritar por dentro: “Eureka!!! “Encontrei o que tanto procurei por toda a vida”. 

Foi assim que, de mensagem em mensagem, chegou o momento decisivo de Pietro escrever a Grande Síntese, ditado por “Sua Voz”, entre 1932 e 1935, concluída no dia 23 de agosto. É a base de todos os seus escritos, que se desdobraram em diversos ensaios, lida e elogiada por grandes personalidades do universo da religião e da ciência. Esses ensaios, que é a considerada a segunda parte da sua missão reveladora, foi toda escrita no Brasil, país que escolheu para viver, a convite de amigos. Acreditava que as terras brasileiras seria a célula-mãe da civilização do Terceiro Milênio e que qualquer experiência de transformação significativa certamente ocorreria no solo para a onde seria transplantada a árvore do Evangelho. São Vicente já existia nos seus sonhos de infância como o lugar que, antes da chegada dos portugueses, foi mostrada ao Cristo pelo seu servo Helil durante uma das suas raras visitas à Terra. Jesus se referia a futura capitania vicentina, em seus mais recuados primórdios quando perguntou ao seu proposto encarregado da genealogia e interação dos povos: 

- Helil — pergunta ele — onde fica, nestas terras novas, o recanto planetário do qual se enxerga, no infinito, o símbolo da redenção humana? 

— Esse lugar de doces encantos, Mestre, de onde se vêem, no mundo, as homenagens dos céus aos vossos martírios na Terra, fica mais para o sul. 

E, quando no seio da paisagem repleta de aromas e de melodias, contemplavam as almas santificadas dos orbes felizes, na presença do Cordeiro, as maravilhas daquela terra nova, que seria mais tarde o Brasil, desenhou-se no firmamento, formado de estrelas rutilantes, no jardim das constelações de Deus, o mais imponente de todos os símbolos. 

A São Vicente dos seus sonhos, que foi a célula-mãe do Brasil seria o cenário da sua missão, que seria marcada de oportunidades de reconhecimento e também provações. Foi um período doloroso para ele e a família, que havia perdido todos os bens e recursos financeiros, não só pela renúncia da herança, mas pela desonestidade de um sobrinho a quem confiou e que dilapidou o pouco que ainda restava da herança deixada pelo pai. Mas suportou tudo humildade e paciência, frutos da mesma obediência e disciplina da infância, confiando que jamais estaria desamparado, como as aves do céu e os lírio do campo. 

Veio viver em São Vicente, o Tumiaru, terras dos silvícolas, dos judeus banidos, dos degradados e depois refúgio dos velhos calungas cansados do cativeiro. Primeiro morou num apartamento cedido por um admirador que se comoveu com sua precária situação financeira. Era o no Itararé no Edifício Iguassu, o primeiro a ser construído naquela orla. Depois residiu na Praça 22 de Janeiro, no Edifício Nova Era, sempre amparado por amigos muito próximos, inspirados pelos seus mentores espirituais. Corria contra o tempo e precisava concluir a obra antes que se debilitasse com a velhice. Nesse tempo, escrevia, fazia conferências e recebia visitas de muitos amigos, entre eles, Clóvis Tavares. Sempre que se encontravam, em déjà-vu, suas memórias os remetiam a um tempo remoto das vilas de São Vicente e de Santos, época de Bartolomeu de Gusmão. O Prof. Clóvis Tavares era membro do grupo mediúnico de Chico Xavier e fundador da Escola Jesus Cristo, em Campos, Rio de Janeiro. Ubaldi faleceu em 1972, no Hospital São José e seu corpo está sepultado no Cemitério Municipal de São Vicente. Clóvis Tavares faleceu em 1984. Conta-se que no seu enterro aviões-caça da FAB cruzavam o céu em sua homenagem. Muitos anos antes, Chico Xavier teria lhe revelado que Carlinhos, um de seus filhos, um menino tetraplégico e falecido precocemente, era Santos Dumond, expiando o suicídio cometido em 1932 no Guarujá. 



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TAMBORES 




A RIVALIDADE histórica persiste no convívio entre Santos e Vicente, em alguns casos um irresistível sentimento de mágoa que remonta o período colonial. O desprezo é mais acentuado entre os santistas de classe média e ainda hoje se manifesta de forma inconsciente e espontânea, muitas vezes de forma agressiva, em tom de desdém. O fenômeno também existe entre São Vicente e Praia Grande, Cubatão e Santos e também entre Santos e Guarujá; e Santos e Bertioga. Nesta sequência de conflitos logo é possível compreender que as lutas de dominação e autonomia política é que deram o tom do enfrentamento de identidades, ainda hoje existente, seja de forma diluída ou não. Grande parte dessa rivalidade surgiu partir do confronto na demarcação de territórios e limites divisórios, atualmente estabelecidos em diversos pontos como as duas vilas São Jorge; e nas praias do Itararé do José Menino, também com seus respectivos morros. 

Socialmente tudo isso pode ter outra explicação. As classes baixas e altas parecem não se incomodar com o fato, pelo contrário, são as que mais se confraternizam, quase sem nenhum ressentimento. Essas cultivam mais as curiosas particularidades da identidade popular calunga e caiçara, muito comum entre si. Já nas classes medianas a coisa é mais exaltada, pois, desejando e almejando ansiosamente a mudança do status quo, querem eliminar qualquer resquício social que possa comprometer a aceitação delas nas camadas mais elevadas. Negar e repelir os considerados inferiores faz parte desse jogo e ritual de passagem do imaginário de ascensão social. O pior de tudo é que isso é uma mera ilusão, pois nos próprios ambientes desejados se formam novas formas de discriminação. Em Santos, por exemplo, as pessoas que moram dos outro lado da antiga linha ferroviária; nos morros; próximo da área portuária ou ainda na região central, são historicamente alvo de desconfiança e desprezo dos que moram nos bairros mais sofisticados do lado oposto. Em São Vicente essa divisão do status quo hoje é marcante entre as duas grandes áreas geográfica: a insular e a continental, seguida dos bairros periféricos, centrais e na orla. 

Todos os dias milhares de vicentinos, praia-grandenses, cubatenses, guarujaenses se dirigem a Santos para trabalhar. Ônibus e barquinhas lotados, incontáveis bicicletas e carros congestionam o trânsito santista nos horário de pico. O movimento é constante, 24 horas. É natural que nos tempos de crise aumenta o desemprego e as concorrências. A mão-de-obra periférica é abundante, mais barata e mais atraente para os empregadores santistas. O trabalho e os fretados para São Paulo diminuíram muito. A fonte empregadora industrial de Cubatão vem secando ano a ano. O consumo no comércio e serviços também mudaram, inclusive no porto. Os trabalhadores compram mais e também usam mais os serviços das suas cidades de origem, evitando perda de tempo e despesa com transporte, que é muito cara na Baixada. Os consumidores santistas também alimentam essa economia periférica, mais em conta, e isso agrava os negócios e faltas de vagas na cidade. O ressentimento com os “de fora” aumenta. São Vicente é a área de concorrência mais antiga e se torna alvo fácil do ódio xenófobo. O mercado imobiliário santista expulsou muitos dos seus moradores para outros municípios, sobretudo São Vicente e Praia Grande. De resto, as coisas comuns como a amizade entre santistas e vicentinos continuam normais, desde que a crise não atrapalhe. 

Na tentativa de amenizar os efeitos nocivos do preconceito nos negócios de habitação e pontos comerciais, as imobiliárias até criam os conhecidos artifícios de camuflagem, para não prejudicar as vendas, mudando a localização dos imóveis: esticando os bairros chiques e fazendo desaparecer os populares. Essa explicação pode ser aplicada em quase todas as regiões onde as cidades e bairros se confrontam com a auto-afirmação e consequentemente a necessidade de rebaixar os que denunciam a condição que precisa ser definitivamente escondida e eliminada. 

Não podemos esquecer que a rivalidade entre as cidades do litoral é uma antiga relação parental de amor e ódio na disputa de territórios No caso de Santos e São Vicente, a origem é pré-colonial e veio de confrontos familiares da Península Ibérica, dos tempos medievais, e que nessa região se manifestou durante a disputa de poder entre os fidalgos que receberam doações de terras de Martim Afonso. Este permaneceu apenas alguns meses em São Vicente, seguiu para as Índias e deixou a Vila sob comando da sua esposa, D. Ana Pimentel. Esta passou a controlar a concessão de sesmarias. 

Na capitania vicentina o perrengue surge especificamente no núcleo familiar dos Cubas, cujos sucessores alimentaram as mesmas inclinações com outras áreas de pretenso domínio. Impedido de exercer seus empreendimentos pelos vicentinos, Brás Cubas foi para o outro lado da Ilha e ali fundou a vila de Santos. A conselho de navegadores fundou um hospital e base de abastecimento portuário que logo desbancou o poder vicentino, que reagiu com novas perseguições, como fizeram com Cosme Fernandes. Santos deu rumo à prosperidade dos negócios livres enquanto São Vicente foi entrando em declínio, por causa da dependência do estatismo. Essa mesma linha de conflitos vamos encontrar na formação do Planalto de São Paulo e de todas as vilas distribuídas no vasto território colonial português. Essa rivalidade acirrada frutificou não somente pela ruptura dos Cubas com a vila vicentina, mas sobretudo na sucessão de posse do Engenho do Governador, que receberia o nome “Engenho dos Erasmos” e que ficava exatamente na gleba que deu origem à Vila de São Jorge , dividida em lotes entre vicentinos e santistas. As ruínas do Engenho dos Erasmos foram doadas à USP, certamente com a intenção criar uma zona de neutralidade territorial. 

Mesmo assim, as mágoas do período afonsino não se apagaram, o que ficou bem claro no longo período que São Vicente ficou submetido ao controle político de Santos nos períodos históricos mais recentes. O último interventor em São Vicente foi o santista Lincoln Feliciano (nascido em Paraibuna-SP), elogiado por uns e criticado por outros, sobretudo os funcionários públicos. Em 1968, Santos elegeu prefeito Esmeraldo Tarquinio, baiano, negro e criado na Vila Margarida em São Vicente. Foi impedido de tomar posse por uma intervenção militar. Anos mais tarde, no final da década de 1990, outro vicentino seria eleito e depois reeleito prefeito de Santos, dessa vez um descendente de sírio-libaneses: o radialista Beto Mansur. Beto reinaugurou nos anos 1990 o Monumento dos Tambores, construção na linha divisória que celebra a produção de petróleo na região e que até hoje é motivo dos mais graves conflitos políticos no Oriente Médio e também na vizinha Venezuela. 

A Escola Estadual Neves Prado Monteiro, inaugurada e cravada na praça redonda que separa as duas vilas São Jorge havia recebido originalmente em 1975 o simbólico nome “Cidades Irmãs”, sugerindo que no território ainda persistia uma antiga animosidade de posse, de raízes tribais, muito semelhante ao confronto entre árabes e judeus na Palestina. A Praça até hoje mantém o nome de batismo: Estado de Israel. Já a escola, num lapso de memória ou má intenção dos gestores, teve o nome alterado em 1981, pelo decreto do governador, para homenagear a mãe de um dirigente da Coordenadoria de Ensino do Interior. 

Mas na Vila São Jorge ainda tem moradores que se consideram pertencentes às duas cidades e não estão nem aí para o que rolou no passado entre os santistas e vicentinos. É que ali predominam socialmente os calungas e os caiçaras e a política não conseguiu dividir integralmente a população nem alimentar da mesma forma essa rivalidade que a maioria desconhece. 





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SÃO JORGE, 
ÍNDIOS E PRETOS VELHOS 



Festa Iemanjá na Vila de São Vicente. Ailtom Martins.



NA TRADIÇÃO católica, São Jorge é um guerreiro típico da Europa medieval, protetor dos fracos e oprimidos, também tradição do poder militar da nobreza. Sua santidade é reconhecida nas principais igrejas - a Romana, a grega e a anglicana - propagando-se posteriormente no mundo inteiro como força do sincretismo católico com as antigas crenças regionais. Sua imagem enfrentando o dragão significa a transposição para mundo físico do mesmo poder do Arcanjo Miguel pisando na cabeça de Satanás. Na Terra, a luta contra o mal, infiltrado nas forças opressoras e abusivas, é da sua vigilante responsabilidade, segundo o convincente imaginário popular. Sua base de combate, desde o seu arrebatamento ao mundo espiritual, é a Lua, o satélite no qual as almas maléficas ficam aprisionadas e proibidas de terem contato com a Terra, que é um planeta de dores, pelas provas e expiações. Mesmo assim elas burlam a proibição e, nos intervalos dos ciclos lunares, sintonizando as emoções perturbadoras e invigilantes, inspiraram crimes e vinganças. As legiões do antigo soldado romano fazem de tudo para neutralizar essa influência maligna e por isso penetram livremente em todos os santuários, templos e terreiros onde os sofredores correm para pedir socorro nas horas de desespero. Ninguém ousa desafiar sua autoridade, pois no Céu e no Astral ele não é de nenhuma religião ou crença. Ele é dos sofredores e obedece, acima dele, a Legião dos Servos de Maria, Aquela que tem o poder de dissipar as trevas humanas usando a força dos corações feridos das mães dos filhos caídos. No Apocalipse, João descreve uma cena impressionante revelando como a “Mãe de todas a mães”, desde sempre, interfere e intercede nos destinos humanos marcados pelas quedas. É Ela quem levanta e regenera os suicidas e todos que se enveredaram pelo mal, causando terríveis angústias em suas genitoras e entes queridos. 

"Depois apareceu no céu um grande sinal: Uma mulher vestida de sol, e a lua debaixo de seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre sua cabeça; e, estando grávida, clamava com as dores do parto e sofria os tormentos para dar à luz". 

Uma vez perguntaram para Chico Xavier para onde, depois da morte, tinham ido Hitler e Lampião. O médium mineiro teria respondido que Hitler vivia espiritualmente numa prisão planetária distante da Terra e submetido à tutela de Gandhi, que se propusera a reeducá-lo desde quando ainda eram encarnados. Gandhi enviava cartas a Hitler pedindo que desistisse dos seus propósitos de vingança, ressentimento que remontava os milênios, entre arianos e semitas. Não conseguindo naquele contexto, continuou no mundo astral sua árdua tarefa de redirecioná-lo para tarefas expiatórias redentoras, com a permissão do Governador Planetário. 

Lampião estava sob o mesmo regime educativo de outras entidades iluminadas, localizadas na Lua, onde, segundo Chico, há muitos educandários com a finalidade de recuperar almas que ingressam no crime pelo sentimento de revolta contra as injustiças do mundo. Elas se libertam aos poucos, sobretudo da manipulação dos dragões, Espíritos caídos e exilados de outros orbes e que insistiram, rebelados, na trilha do mal e da destruição. 

No Brasil São Jorge está no catolicismo, no candomblé e também na umbanda, cuja presença tem a mesma finalidade de neutralizar a ação do mal no carma das almas errantes que encarnam sob intensas provas e expiações. Todas as maldades feitas aos humildes desde o início da colonização, nas incursões criminosas contra as aldeias indígenas, nas senzalas dos engenhos e nos pobres arraiais do litoral e dos sertões, são ajustadas em choques de retorno e reparação de débitos, sempre sob o amparo dessas forças espirituais, evitando novas quedas e novos sofrimentos. 

Em nossa região a influência e o comando espiritual de São Jorge tem território espiritual definido desde o período colonial vicentino e penetra em todas as cidades e bairros onde os terreiros e igrejas invocam sua lembrança e proteção. O Engenho de São Jorge dos Erasmos, instalado no centro da Ilha de São Vicente, é que deu origem ao nome das duas vilas vizinhas e também ao rio cuja nascente ficava próxima ao morro e era chamado Rio da Capela de São Jorge. Mesmo dividido por loteamento urbano e separado por uma linha de demarcação entre os dois municípios, essa imensa área vicentina continua ligada à mística do santo, por meio das práticas religiosas populares que ali se manifestam. Na encruzilhada da avenida Nossa Senhora de Fátima com a Avenida Divisória, está encravado o Monumento dos Tambores, uma torre de concreto e tambores vazados indicando os pontos cardeais da ilha vicentina. O criador do arranjo explica que se inspirou nos caminhões que carregavam tambores de petróleo nos trechos da avenidas Antonio Emmerich e N.S. de Fátima, petróleo esse que era produzido em Cubatão e transportado dali somente pela rodovia Anchieta, para São Paulo ou para o Porto de Santos. Quem não conhece a história dessa obra de engenharia, como eu não conhecia, pode pensar que os tambores são na verdade uma alegoria dos atabaques que soam nas noites de macumba nas duas vilas de São Jorge. 

O antigo Soldado Romano da Capadócia está estampado nas correntinhas de pescoço, nas pulseiras, em velas, nos muros, nas camisetas, nas paredes dos bares, nos postes e nos inúmeros terreiros espalhados na periferia vicentina e santista. Os terreiros geralmente não são fixos como as inúmeras igrejas, feitas em terrenos escriturados; e sempre mudam de lugar quando seus organizadores, quase sempre pessoas muito simples, trocam seus endereços de aluguel. Os nomes são muitos e todos do universo católico, afro-indígena, da cultura cabocla e caiçara: Sete Montanhas, Rompe Mata, Olorum, Pena Verde, Pena Branca, São Miguel Arcanjo Abesma, Mata Verde, Nana Buroque, Tupy, Zé Pelintra, Boiadeiro, Cacique Tupã, Mamãe Oxum, Jurema e Tupinanbá, São Jorge e a Caridade, Estrela D’Alva, Caboclo Urutu, Axé Ogum de Ronda, Casa de Caridade Espírita de Umbanda Santa Bárbara, Axé Opo Ajaguna, Fraternidade Espírita União Maior (Correntes de Itaporã e Brogotá), Tenda de Umbanda Irmãos de Aruanda, Centro Espírita Beneficente Bom Jesus de Iguape, Grupo Espírita Caboclo Pedra Branca e muitos outros que neste pequeno relato não caberia. 

Os centros espíritas (originários da França do século XIX) e a centenária tradição católica servem quase sempre como escudo de reconhecimento e afirmação social desses núcleos afro-indígenas, seja como referência de doutrina e crença, seja como simples marca de atração. Não se sabe se por tradição masculina, receio de perseguição e retaliação nos jogos de interesses, ou ainda por impedimento natural, não há notícia de núcleos com nomes de Pombas-Gira (geralmente mulheres da vida, desencarnadas) e também outras entidades da “barra pesada”, praticantes de feitiçaria do mal. Não há nomes, porém existem, ocultos, mesmo porque há sempre quem procura. Por outro lado, nas noites de luas claras, têm os trabalhos e os chamamentos de vocações e compromissos, como as tradicionais “Puxadas de Pretos-Velhos” e “Consolo das Mães Pretas”. São oportunidades sagradas de aconselhamentos, livramentos, resolução de conflitos, socorro para as doenças e quebra de encantos, sempre concluídos com o gracioso e fraterno “Saravá”. 

Mas existem também os grandes templos, erguidos em terrenos fixos, também marcados pelo sincretismo. 

O primeiro que chama atenção é o que foi construído junto ao Morro da Caneleira, em Santos, na avenida Nossa Senhora de Fátima, comandado por Chico Feiticeiro. A construção, concluída em 1954, foi obra de servidores comuns com a ajuda financeira de muitas empresas portuárias do ramo cafeeiro, em campanha organizada por Newton Nora Carrijo, funcionário do Banco do Brasil e diretor da Alfândega, que veio do Rio de Janeiro, trazendo os Palmer, um conhecido casal de médiuns umbandistas. Na lista de 13 doadores de cotas de 25 mil cruzeiros e um que fez a doação em 15 sacas de café, consta a empresa do ex-prefeito de São Vicente, Charles Dantas Forbes. O templo já está bem desgastado e com as paredes externas pichadas, porém mantém-se firme e continua sendo pouco reparado por quem passa de carro ou de ônibus naquele local. Chama-se Centro Espírita Jesus é a Chave da Umbanda. Tem paredes revestidas por pastilhas brancas com contornos em vermelho. Na parte frontal tem um mosaico colorido com a imagem de São Jorge Guerreiro e mais acima, na cúpula, um pequeno oratório com imagem do santo em gesso, lembrando uma igreja católica. Seu interior, exibido por em fotos de um blogue, tem a estética comum dos terreiros, com a predominância do vermelho sobre o branco, incluindo um altar. É simples e religioso, e somente as fotos escuras dá a impressão falsa de um espaço de rituais exóticos. 

O segundo templo fica no bairro do Estuário, na praça Rubens Ferreira Martins, também Santos. É a Igreja de São Jorge Mártir, com altas paredes pintadas com largas faixas brancas e vermelhas, tendo na parte frontal, em cima da porta principal, uma enorme estátua do Guerreiro montado em cavalo branco sobre um feroz dragão verde. Dentro da igreja, além da decoração litúrgica tradicional, há próximo e ao lado do altar principal, um pequeno espaço onde algumas imagens estão no chão, ao lado de vasos de flores, lembrando um terreiro de umbanda. Coisas do sincretismo religioso, nesse caso claramente intencional. A corrida pelo socorro e esclarecimento das pobres almas ali sempre foi intensa e começou numa época na qual o Estuário era uma região de barracos e chalés, depois transformados em moradias dos programas de habitação popular. Nas ruas próximas à praça da Igreja, todas muito estreitas e com casinhas geminadas, existem diversas e antigas instituições espíritas kardecistas e também pequenas igrejas evangélicas, surgidas mais recentemente. 

A Igreja de São Jorge Mártir foi construída também no início dos anos 1970, por iniciativa da Diocese de Santos, que encarregou o padre Paulo Horneux de Moura de conduzir a obra e depois atuar como pároco titular. Sua relação com a comunidade foi tão intensa que no entorno da igreja foi fundada uma escola de samba que se tornaria uma das mais fortes expressões do carnaval santista. Era a Mocidade Independente de Padre Paulo, imitando e homenageando a famosa escola do bairro carioca Padre Miguel. Padre Paulo não aprovou, mas também não proibiu o uso do seu nome, pois era claro que se tratava de um gesto de gratidão. Conhecido popularmente com “Pepe”, Padre Paulo tinha sido o incentivador dos blocos de rua, que depois se transformaram em escola, da qual se tornou presidente honra. Seus dois sobrenomes dispensam apresentações, pois revela a junção de duas das mais antigas famílias vicentinas, celeiro de médicos, advogados, educadores, homens de negócios e principalmente políticos. Não poderia faltar entre eles um sacerdote e teólogo. Depois de 15 anos atuando em varias igrejas santistas, de 1975 a 1990, Padre Paulo voltou para São Vicente, sua terra natal, onde encerrou sua carreira sacerdotal como pároco da velha Igreja da Matriz da Vila Afonsina. Faleceu em 26 de janeiro de 2012. 



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INOCENTES 





ATÉ BEM POUCO TEMPO existia nos fundos do Hospital São José, na rua João Ramalho, um grande e velho barracão de madeira com vidraças. Todas as edificações antigas ali foram demolidas para melhor aproveitamento do terreno, incluindo as duas antigas capelas funerárias. As velhas árvores continuam firmes e frondosas, protegendo os carros do calor do sol, por enquanto. Todo aquele quarteirão da área central da cidade traz intensas lembranças ao povo, pois ali também funcionava, em um pequena casa, a antiga Maternidade onde vieram ao mundo muitos vicentinos. 

Mas pouquíssimas pessoas se recordam, ou quase mais ninguém, que no início do século passado toda aquela quadra, antes muito arborizada, era conhecida com a Chácara dos Inocentes. O barracão de madeira e vidraças era parte da propriedade que havia sido doada para uma instituição muito conhecida na região e no estado, dirigida pela educadora Anália Emília Franco. Para ali eram encaminhadas jovens carentes, para que aprendessem todas as coisas necessárias à conquista de uma vida digna e segura. Tinham lições de costura, culinária, cuidados pessoais, moral e postura, artesanato, pintura e música. Era um modelo comum de educação feminina, mas que não era acessível à maioria das moças pobres daquela época. Dona Anália achava que era possível e necessário ter em todas as cidades um núcleo capaz de oferecer o mínimo de ensino e educação para os necessitados. E não contava como apoio dos governos, nem do Estado. Suas obras eram todas mantidas por donativos dos mais abastados e das pessoas de boa vontade. Em Santos, fundou o conhecido orfanato, instalado na avenida Ana Costa, que leva seu nome e funciona até hoje. Esse modelo de amparo aos órfãos surgiu quando Dona Ana acolheu, ainda no século XIX, os primeiros meninos e meninas abandonados nas estradas rurais e ruas da cidade. Eles eram despejados pelos capazes de fazendas que ainda mantinham escravos, mas que foram obrigadas a se livrarem dessas crianças por causa da lei do Ventre Livre. Elas perambulavam pelas ruas causando medo e escândalo nos transeuntes, quando a nossa benfeitora tomou a iniciativa de alugar uma casa para abrigá-los e, ainda por cima escreveu e publicou no jornal um provocante artigo denunciando aquela situação de desumanidade. A partir de então, os pequenos protegidos passaram a ser chamados em algumas publicações reacionárias de “Os negrinhos da Dona Anália”. 

Mas a luta era árdua e não podia se importar com críticas e reações previsíveis dos escravagistas e monarquistas ressentidos. Era preciso mostrar civilidade e atitude cristã, senão haveria recuo e fracasso. As crianças cresciam rapidamente e precisavam ser preparadas para enfrentar novas etapas da vida, em um país recém liberto da escravidão e nada industrializado. A servidão miserável continuava sendo a única opção da multidão de negros livres, agora agravadas pelas massas de retirantes, quase todos analfabetos e sem nenhuma qualificação. 

Em São Paulo, Dona Ana e seu marido conseguiram uma grande área na periferia onde realizaram suas primeiras experiências educativas com crianças e jovens abandonados. E foi dali que o trabalho se expandiu para outras regiões. As moças eram as mais operosas nas atividades de promoção da entidade. Elas formavam disciplinadamente as bandas musicais que se apresentavam para angariar fundos, em eventos locais e também em varias cidades do interior e do litoral. Era o carro-chefe da propaganda. Em Ribeirão Preto, o influente Padre Euclides, soube que um grupo de católicos fazia campanha de boicote da Banda Feminina, acusando Dona Ana por ser admiradora do Espiritismo. O padre pediu desculpas pessoalmente e foi o primeiro a levar um donativo para as meninas. Muitas delas não haviam crescido na distante Chácara do Tatuapé (hoje o valorizadíssimo Jardim Anália Franco). Dona Ana as encontrou nas ruas como pedintes e prostitutas. Depois de reeducadas, muitas vezes Dona Ana arrumava para elas casamentos com operários sem família que moravam nos cortiços, orientando e exortando os casais a lutarem por um vida digna. 

Depois de muitos anos de funcionamento, a Chácara das Inocentes foi sendo desativada e suas atividades transferidas para Santos. Foi nesse período de transição que, por iniciativa de um pequeno grupo, formou-se a Irmandade da Santa Casa e o Hospital e Maternidade São José, cuja parte frontal está na rua Frei Gaspar há mais de 100 anos. A região estava sendo assolada pela gripe espanhola e a Santa de Casa de Santos não dava conta das internações necessárias, que também não havia nas cidades vizinhas. A chácara foi então negociada para que ali fosse erigida a nova instituição, usando praticamente o mesmo prédio primitivo, com algumas adaptações. Isso aconteceu já no final da década de 1910 e início de 1920. O novo empreendimento foi uma iniciativa do então vereador e presidente da Câmara, José Meireles e sua esposa Ofélia Chaves Meireles. O casal logo teve o pequeno grupo de fundadores ampliado por conhecidas famílias beneméritas vicentinas: os Bensdorp, Mirabelli, Reippert, Rittes, Queirós, Lobo Viana, Pimenta, Emmerich, Azevedo, Mendes, Moreira e muitos outros que não aparecem nos livros de registros, mas que muito serviram, anonimamente, nas barracas de quermesses realizadas na sede do Tumiaru. 




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CAPITÃO DO FÓRUM 




AFIRMAM OS MESTRES do ocultismo que o universo tem dimensões ainda desconhecidas e somente perceptíveis ao que desenvolvem a capacidade de sintonia e leitura dessas faixas ainda enigmáticas dos ambientes. Os antigos hindus usam a palavra akasa para definir esses planos invisíveis aos olhos comuns e, segundo sua sabedoria oculta revelada aos iniciados, tudo o que se passa no mundo tridimensional fica para sempre gravado nas películas ultra sensíveis do éter. Um dito popular, que percorre as sendas dos milênios, afirma que “Nada, nem mesmo uma pequenina folha que cai de uma árvore, passa despercebida aos olhos do Criador do Universo”. 

Assim, tudo fica registrado nos arquivos akásicos ou etéreos, em forma de luz, som, vibração, ritmo e cores e pensamentos. Essa sensibilidade etérea também está nos seres vivos, nos seus arquivos mentais e nas faixas das suas auras ou no duplo etéreo dos seus corpos. Tudo o que fazemos, sentimos e pensamos está gravado e nada apode ser deletado. Por isso não há crime perfeito e absolutamente oculto. A verdade sempre vem à tona, como vem às praias os corpos pela maré ou as impurezas do ar pelo vento. Nas investigações criminais é conhecido o clássico retorno do criminoso à cena do crime, perturbado e movido pelo seu inconsciente, seja pela culpa, remorso ou medo de ser descoberto. 

O antigo Fórum de São Vicente funcionou durante muitos anos em um prédio da rua XV de Novembro, no centro, sendo depois transferido para as novas instalações no bairro do Bitaru, onde está até hoje. No endereço anterior havia relatos de moradores vizinhos de que, nas altas horas da noites, ouviam-se gritos e discussões que partiam das salas onde estavam guardados os processos que iriam a julgamento ou que já tinham sido julgados na corte. Algumas vozes pareciam de sentenciados ou partes inconformadas com as penas; e também de acusadores irascíveis nos argumentos e na reivindicação da justiça. Parecia que havia um mundo que funcionava paralelamente naquele estabelecimento, tão real que alguns moradores do prédio tinham a impressão de que as sessões tinham avançado pela madrugada ou então tinham perdido a hora de levantarem-se pela manhã. Alguns desses moradores, inconformados com a situação, foram procurar respostas em muitos lugares para suas dúvidas, incluindo no próprio Fórum; informalmente, é claro, puxando assunto aqui e ali até que pudessem se abrir com alguém que pudessem confirmar todas aquelas impressões, que na verdade era mais do que impressões, pois se repetiam como qualquer fenômeno natural, o que não poderia ser sonho ou fruto da imaginação. Foi assim que alguns funcionários acabaram confessando que realmente havia entre eles muitas desconfianças e temores a respeito desse assunto. Algumas salas eram vistam como lugares de alto risco para permanecer sozinho se houvesse algum tipo de barulho ou manifestação anormal. “Eram assombradas” e lá aconteciam coisas inesperadas como sumiço de papéis e até princípios de incêndio. Alguns processos desapareciam ou simplesmente mudados de ordem sem que ninguém tivesse explicações razoáveis, certamente culpando ações desonestas dos próprios colegas de trabalho. Mas não era só isso. Tinham casos que não havia com ter acesso, pois os documentos estavam guardados fora daquelas dependências e, portanto, longe do acesso dos funcionários. Desapareciam e reapareciam em lugares completamente imprevisíveis, como por exemplo, em salas de antigos cinemas desativados, nos galpões abandonados da estrada de ferro ou então nos depósitos de algumas escolas. Quando eram encontrados, logo vinha a pergunta de espanto: “Como isso foi parar lá”? 

Mas não ficou apenas no barulho de vozes e desaparecimento de processos. Houve um tempo que o movimento noturno de pessoas tornou-se visível para alguns moradores, que ficavam apavorados, não com as pessoas em si, mas com as roupas que trajavam, completamente estranhas e fora de época. Uma das moradoras levou um tremendo susto ao ver sair pela porta principal do prédio um homem alto, carrancudo, com chapéu pendurado nas costas, vestindo botas desgastadas, sujas, e uma capa de couro marrom, também muito surrada. Tinha nas mãos um chicote e parecia ser um capitão-do-mato, em busca de escravos fugitivos. Agia como um vigilante e também autoridade do lugar, enquanto alguns vultos o obedeciam e outros corriam da sua presença temendo serem punidos. Ela esperou que a cena fosse resolvida e, sem voz, dirigiu-se rapidamente para casa , quase de olhos fechados , em oração. Dias depois ela soube que não fora a única a ter visto tal figura. Além deles foram vistos outras personalidades, incluindo um antigo soldado da policia militar, com uniforme cor de caque, coturnos e boina escura. Era um cabo, que se mostrava temido e respeitado quando aparecia entre os vultos que corriam de um lado para o outro, fugindo das suas ameaças. Perguntei sobre os vultos e ela me disse que só conseguiu ver nitidamente uma vez, quando surgiu uma luz no fim do corredor se dirigindo a eles e uma voz dizendo que vieram buscá-los e que estavam livres. Alguns choravam de alegria e outros, desconfiados, se afastavam xingando, dizendo que aquilo era o Diabo querendo levar todos para o inferno. Como eram eles? perguntei. “Eram na maioria mulatos e negros, de todas as idades, incluindo jovens, homens e mulheres com trajes simples, encardidos, todos descalços. Mas também havia entre eles pessoas com trajes sujos e rasgados que pareciam ter feito parte de um terno ou de um conjunto feminino. Eram brancos e com aparência terrível, completamente perdidos e alienados. Nessa luz todos eram chamados, porém pouco eram escolhidos, porque não conseguiam se desvencilhar mentalmente daquele lugar. Então a luz desaparecia e eles se acalmavam por alguns instantes, até que novamente voltavam a ser perseguidos pelo capataz e pelo cabo de policia. “Era um como se fosse um pesadelo que não acabava”, disse a moradora, lembrando que só conseguia esquecer quando pegava no sono, depois de fazer suas orações. 

É assim que nos ambientes, onde há graves acontecimentos, é muito comum que fiquem saturados de elementos mentais das consciências, dos jogos e conflitos, permanecendo ali também as formas pensamentos e as egrégoras das emoções e sentimentos. Em muitos casos, não é raro que as entidades fiquem presas aos cenários dessas ocorrências, perpetuando as perturbações ali ocorridas, até que se libertem desses grilhões mentais. Essa é a explicação dos chamados lugares assombrados. Como dissemos, tem lugares onde essas vibrações são mais intensas, porque registram cotidianamente fatos que podem causar graves impactos. Os tribunais têm esse potencial, tanto nas salas de confrontos judiciais como nos seus arquivos de processos, formando composições astrais carregadas de vibrações de expectativas, decepções e vinganças. 

Antes de encerrar esse relato, lembrei de dois fatos. 

No final dos anos 1970, quando morava no Jardim Independência, fomos convidados por um amigo a fazer uma incursão ao Bitaru. O propósito do grupo era realizar uma oração no local exato onde foi adquirido um terreno para a construção de uma casa espírita e também de uma creche. Aquela região era praticamente desabitada, só existindo algumas casas de pescadores na praia do Guamium. O restante  era uma imensa área de grama natural que se estendia até o antigo Rio da Vó. O terreno era tão grande que tivemos dificuldade para encontrar os lotes onde iríamos nos reunir. Vinte anos depois tudo estava diferente naquele local: uma grande avenida cortando o bairro até um viaduto de acesso à Praia Grande e ali uma enorme favela. Do outro lado da rodovia dos Imigrantes (que cortou a Vila Margarida em duas partes) outra grande favela, chamada México 70. A  casa espírita já tinha a essa altura uma grande clientela de crianças e adultos. Em uma das noites de assistência, ouvi o relato de uma das colaboradoras, explicando a causa das perturbações que ultimamente havia atingido aquela casa que socorria os moradores do bairro. Na rua, uma chuva fina, vento e friagem. Ela contou que, do lado de fora, no plano astral, havia uma pequena legião de almas encostadas na parede da casa, tentando se proteger da intempérie. Tremiam de frio e seus rostos denunciavam pavor. Eram maltrapilhos em desespero. Entre eles muitos jovens recém desencarnados, trazendo no corpo espiritual marcas de tiros e sangue. Alguns chamavam pelas mães, parentes e conhecidos, que assistiam a preleção e ao mesmo tempo escutavam ecos dessas vozes em desespero. Queriam entrar na casa, mas eram impedidos pelas ameaças do mesmo homem de chapéu, botas e capa marrom que frequentava o Fórum. Eram as mesmas ameaças acusatórias cuja finalidade era mantê-los cativos naquela situação de culpa e desorientação. A mesma luz que aparecia no Fórum de repente surgiu, revelando um grupo de índios e pretos formando em torno desses doentes uma barreira com fio de luz, para que pudessem melhor se defender dos ataques do velho capataz, que obviamente recusava receber ajuda e esclarecimento. Da mesma forma, todos foram chamados, mas nem todos puderam ser escolhidos. Mas haveria outro chamamento, inclusive para o capataz. Perguntei, muito curioso: “Não havia um homem farda de polícia com o capataz”? A colaboradora respondeu que, há alguns anos, ele também foi escolhido e passou a ajudar no resgate das almas perdidas. 

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POSTO DE ESCUTA 





EM UMA DESSAS NOITES quentes de verão, no qual sono é frágil e quase sempre interrompido pelo calor ou barulho de insetos, acontece algo diferente em uma das casas da pequena vila. A luz da sala está acesa e algumas pessoas entram e saem rapidamente. Alguns vizinhos se aproximam para saber o que aconteceu e oferecem ajuda. Um menino de quatro anos se aproxima da mãe que está chorando num canto da varanda, olhando para o fundo do quintal, naquela hora mais escuro por causa das árvores e da extensão do terreno. Ela não consegue falar, apenas puxa o menino para perto de si e ele entende que não pode fazer perguntas, pois as pessoas não querem falar sobre o que aconteceu. O menino ouve alguém dizer que um revólver tinha sido encontrado no chão da casa dos avós e que um dos tios havia dado um tiro no ouvido. Essas cenas de desespero, tristeza e segredos nunca mais saíram das lembranças dos que ali estavam naquela noite na casa do menino, nem dos que estavam na casa onde aconteceu o grave incidente. Os vizinhos também guardam essa lembrança do sono interrompido e dos comentários que se multiplacaram por toda a semana. O revólver desapareceu da casa e levado para o sítio do avô, onde permaneceu escondido por vários até que a vós do menino conseguiu dar um fim, jogando o mesmo em poço desativado. Era o que ela dizia. Na casa do menino também havia um revólver, que também desapareceu após os pais descobrirem que esse menino havia pego a arma para ameaçar os irmãos em uma brincadeira de farwest e bangue-bangue. 

O menino agora está em outra cidade, a 640 quilômetros daquela vila onde morava na infância. Tenha agora 17 anos e está sentado na varanda coberta, aguardando a visita de alguns amigos da família. Um deles chega um pouco mais cedo do horário combinado. É Eugênio Lopes Correia, mecânico, eletricista e piloto do ferry-boate que faz a travessia entre Santos e o Guarujá. Ele trás nas mãos uma apostila com capa branca e vermelha e assim que entra na varanda percebe a curiosidade do jovem e lhe entrega o material convidando-o a examiná-lo. O jovem satisfaz a sua curiosidade folheando rapidamente as páginas da apostila tentando entender do que se trata, mas percebe que, no seu íntimo aquilo lhe parece algo já conhecido e que está apenas revendo. Era uma revelação já aguardada e que seria a cura de todas as lembranças daquela noite de sono perdido na infância. Logo depois estaciona um carro em frente da casa e soa a buzina. Era Wilson Cavalcante, funcionário de um laboratório de exames em Santos. Está apressado e nem desce do veículo. Todos moram no mesmo bairro de São Vicente, nas ruas Niterói, Espírito Santo e Rio de Janeiro. O rapaz, a mãe e Eugênio Lopes entram no carro e partem para uma reunião em Santos, que será realizada na rua Evaristo da Veiga, no bairro Campo Grande, bem próximo do Canal 1. Todos estão eufóricos para conhecer essa novidade trazida de São Paulo por um amigo que Eugênio havia conhecido durante a travessia da balsa. A rapaz entendeu que naquela noite seria formado um comitê para que daria início ao trabalho. Na reunião estavam presentes 12 ou 13 pessoas, incluindo o jovem casal que residia em Santo André e que já participavam dessa atividade há algum tempo. Entre os convidados também estavam pessoas que havia sido voluntários do trabalho em São Paulo, agora residindo em Santos, e mais três casais que também moravam em São Vicente, também convidados por Eugênio e Wilson. A reunião, feita em círculo, foi rápida e conclusiva. A anfitriã era uma senhora que presidia a instituição religiosa que se propôs ajudar nessa iniciativa. Dona Lola ofereceu não somente o auditório para que fosse realizado um curso de formação de voluntários, mas também uma sala exclusiva, com acesso privativo e uma linha telefônica provisória para os primeiros atendimentos. Tudo preparado, incluindo a divulgação com uma nota no jornal A Tribuna convidando a população para comparecer ao curso. Naquele inesquecível inverno de 1979, compareceram ao Lar Espiritual Seara de José mais de 80 pessoas para conhecer o programa CVV-Samaritanos, de apoio emocional e prevenção do suicídio. Seriam oito semanas de aulas e o consequente ingresso no selecionado quadro de plantonistas. 

Desde então, o CVV de Santos passou a funcionar 24 horas ininterruptamente. Ali não pode haver falha presencial dos atendimentos. Para cobrir as eventuais faltas dos colaboradores, os voluntários se revezam diuturnamente preenchendo todos os horários, divididos em plantões semanais de quatro horas e meia. Como estava escrito em alguns modelos de anúncios contidos na apostila, os tristes, solitários e angustiados agora teriam com quem falar sobre as suas angústias. Já devidamente instalado, o primeiro número do CVV de Santos – 34-4111 – atingiu já nos primeiros meses de funcionamento a marca de 1.200 chamadas por mês, sem contar as visitas discretas, realizadas pelos que preferiam conversar e desabafar pessoalmente. Posteriormente o posto funcionaria alguns anos nas dependências do Teatro Municipal Brás Cubas, na rua Francisco Manoel; depois instalou-se na Gota de Leite, na avenida Conselheiro Nébias; e finalmente na rua Campos Melo, agora com sede própria adquirida pelo Centro Fraterno de Amizade-CEFA, mantenedora do posto desde a sua fundação. Hoje o CVV atende em todo o Brasil pelo número 188, com ligação gratuita. 





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MOLHES DE PEDRAS





A BAÍA DE SÃO VICENTE é conhecida pela sua magnífica beleza, pelo gracioso relevo entre morros e A pequena planície litorânea, mas também pelas memoráveis ressacas que frequentemente causam destruição e transtornas aos moradores e transeuntes da orla. No final século XIX e início do século passado as ressacas eram mais fortes e provocavam grandes sulcos de erosão na praia. Nessa época a vila vicentina era distante da orla e separada por uma longa faixa de areia e jundú, vegetação rasteira típica dessas planícies onduladas. Porém, com o decorrer dos anos, a fama de lugar belo e bucólico fez aumentar a construção das casas de veraneio aproximando cada vez mais as edificações da praia. O efeito das ressacas sobre elas era devastador, destruindo também as primeiras ruas traçadas dos loteamentos. Algumas delas desapareciam totalmente quando a maré mudava o seu regime de águas calmas e partia para cima delas com a ferocidade das tempestades. Naquela época não se dava importância ao poder da natureza com se dá hoje. A ideia de progresso e supremacia da técnica era dominante e nada resistia ao poder da engenharia humana. Foi assim que, de arranjo em arranjo, as faixas de areia e jundú cederam ligar às ruas, avenidas casas e depois altos edifícios, cada vez mais próximo das ondas. Mesmo assim as ressacas não davam trégua e destruía tudo que se erigia na orla. Os gastos com obras de manutenção se multiplicaram mas nada continha a força do mar. 

Em meados de 1950 surgiria uma nova esperança para harmonizar o convívio entre a cidade expandida sobre a praia do Gonzaguinha e a fúria cíclica das ressacas. A ideia era diminuir as altas despesas de reconstrução de ruas e muros. A orla estava totalmente tomada e não teria como reverter essa ocupação. No final da avenida Antônio Rodrigues e inicia da rua 11 de junho foi levantado um enorme edifício de apartamentos, verdadeira ousadia e imponência da engenharia da época. Era o Edifício Grajahu, cravado nas areias da praia dos Milionários e do Gonzaguinha. Era o quarto empreendimento após longos anos de reinado do Tumiarú, Gáudio e Icaraí. O novo prédio era divulgado em caríssimos anúncios nas edições diárias dos jornais de Santos e São Vicente. Além do desenho em perspectiva que dava a impressão de uma grande torre novaioquina, a peça publicitária publica uma lista de personalidades conhecidas e influentes na região e na Capital, que já haviam adquirido apartamento na fase de obras, dando a certeza de ótimo e valorizado investimento. Eram nomes conhecidos nos meio aristocrático e político. O futuro governador Mário Covas, por exemplo, aparecia com proprietário de dois apartamentos, seguido de mais 38 nomes, entre eles Rinaldo Rondino, conhecido engenheiro paulistano que, após a sua aposentadoria fincou residência nesse magnífico exemplar da arquitetura moderna com o seu “grande pórtico com frente para o mar”. Não se sabe de qual andar, mas devia ser um dos mais altos, que o engenheiro apreciava o espetáculo da baía formada entre a Ilha Porchat e o complexo dos morros do Japui, Xixová e Itaipu. Foi exatamente nessa época que os funcionários do departamento de obras prefeitura de São Vicente buscavam uma alternativa tecnológica que pudesse solucionar o grave e ameaçador problema das ressacas, cujas ondas invadiam a avenida e as garagens dos edifícios e mansões ainda restantes na orla. Eles andavam pra lá e pra pelo calçadão tentando inventar algo que pudesse conter as ondas e ao mesmo tempo mantivesse a beleza e acesso à praia, que nessa altura já vinha perdendo cada vez mais espaço para o mar. Da sua janela o engenheiro, que tinha tempo de sobra, observava tudo e fazia anotações em em cadernos cujos dados transpunha para desenhos em grandes folhas de papel, tentando entender e formar uma síntese daquele problema. Ele descobriu que, por trás do vai e vem das ondas, havia um outro movimento maior, cujo ritmo funcionava como regulador do fenômeno que destruía as barreiras e muretas, repetidamente reconstruídas pela prefeitura. Rondino percebeu com se comportavam as correntes marítimas dentro da baía e constatou que o aquele ritmo, aparentemente caótico e sem ordem, tinha regularidade matemática e acontecia sempre em determinados pontos, Foi um trabalho longo e paciente, muita vezes realizado entre à meia noite e as primeiras horas do sol nascente. Procurou o prefeito, mostrou suas anotações e desenhos e acordou com ele que passaria a orientar a construção de molhes de perdas nos pontos mais fortes da invasão das ressacas. A solução não era tão complicada como parecia, pois havia material de sobra nas pedreiras vicentinas, junto aos morros do Itararé e Voturuá. Dali as grandes pedras eram extraídas e colocadas no mar em formato de penínsulas, algumas pequenas na praia dos Milionários e duas maiores no Gonzaguinha, em frente da sub-estação de esgoto projetada por Saturnino de Brito, e outra do Edifício Marrocos, onde hoje estão os píeres turísticos. As ressacas não desapareceram nem os molhes de pedras. As águas nunca foram totalmente contidas e, volta e meia se projetam com força sobre o calçadão e sobre as pistas da avenida. Tornaram-se atração turística e imagem de destaque do noticiário meteorológico da região. 





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SINAGOGA 





O NOVO MUNDO não era uma atração e utopia somente para os fidalgos ibéricos que pretendiam conquistar riquezas de forma rápida e retornar à Europa para impor o seu status no ambiente da Côrte. Havia também os que sonhavam com essa terra como uma oportunidade de prosperar mas também de fincar raízes mais duradouras e manter-se em paz , até quando fosse possível. Era o caso do judeus da diáspora que, na sua constante peregrinação, sempre encontravam se dirigiam para lugares onde poderiam exercer suas profissões e, quem sabe, poder cultura o Deus de Abraão sem que fossem importunados. Instalados em qualquer desses lugares, logo alguma edificação com aparência mais sólida funcionava como local de encontros sociais e leitura do Thorá. No Brasil primitivo não foi diferente. Nos primeiro povoados vamos entrá-los primeiramente em São Vicente, em Salvador e no Recife, assentando as pedras de base, estabelecendo conecções e oxigenando os negócios locais e portuários. Não era raro encontrar judeu entre os famosos degredados, deixados nas costas brasileiras com a finalidades de lançar as primeiras sementes da colonização, enquanto cumpriam suas penas. Em São Vicente eles chegaram provavelmente no final do século XV, quando ainda nem se cogitava ter aqui alguma forma de governo português. Nossos índios chamavam de Tumiaru o lugar que eles escolheram para fazer suas casas e seus estabelecimentos de profissão. Aqui já era um conhecido lugar de passagem e para de navios em busca de provisões e outros serviços úteis às embarcações. Em 1501, a expedição de André Gonçalves e Américo Vespúcio trouxe mais alguns deles para reforçar base lusitana nesse lugar estratégico para os futuros negocia da Coroa. Todos falavam português, espanhol, um pouco de holandês, francês, italiano, árabe, enfim, as línguas comerciais do Mediterrâneo. Em casa e nos salões do Malkhut (O Reino) praticavam seus dialetos mais antigos da língua-mãe. Tudo de maneira muito discreta, evitando provocar a inveja e o ódio dos maus cristãos. A maioria das igrejas católicas construídas no período colonial teve os traços e colunas pensadas e erigidas por construtos israelitas, que não que tinham receio de compartilhar seus conhecimentos e habilidades com os pedreiros que os auxiliavam. Ajudando nessas construções, os judeus tinham mais liberdade para instalar suas sinagogas. Na expedição de Martim Afonso de Souza é possível identificar sobrenomes hebraicos e também de cristãos ou convertido que viera para a América com a intenção de refazer suas vidas. Eles resistiram de as forma contra as novas perseguições. Muito não conseguiram e foram para outras paragens, como os judeus do Recife, que foram se estabelecer em Nova York, fugindo das aflições causadas pelo Santo Ofício. Muito permaneceram, silenciando todas as suas tradições e se protegendo com suas habilidades e generosidades. Até hoje São Vicente guarda em suas ruas, casas e símbolos as marcas de antigos moradores israelitas, preservados pelos seus descendentes que lhes sucederam durante cinco séculos. 

Em 1951 um grupo de espíritas vicentinos resolveram fundar um núcleo kardecista onde pudessem realizar estudos doutrinários, se revigorarem com o magnetismo, ouvir as dissertações morais dos Espíritos através dos médiuns e também praticar a caridade. Eles se reuniram na noite de 6 de agosto, no fatídico dia da explosão atômica em Hiroxima, acendendo uma pequena a luz do Evangelho naquelas trevas que se espalhavam pelo mundo. A família Garrido foi o núcleo de onde partiu a iniciativa, logo compartilhada com outras de vocação espírita e admiradores da moral rabínica do Cristo. Claro que entre eles vamos encontrar alguns judeus, prontos para dar dinâmica e solidez ao novo empreendimento espiritual. Todos foram unânimes ao escolher um nome que pudesse expressar a gratidão de todos aos que mais se esforçaram para que fosse erigida na rua Frei Gaspar, 900, uma das mais conhecidas instituições humanitárias da cidade: a Sinagoga Espírita Cáritas. Alí também surgiu o Albergue Noturno Domingos Albano; a Biblioteca Didática, que atendia diariamente centenas de estudantes que não recursos para comprar livros escolares e até uma consultório dentário, para atendimento gratuito. O movimento cresceu tanto que A Sinagoga Espírita Cáritas teve que fundar uma entidade jurídica específica de assistência social, com exigia a lei. Surge então, dez anos depois, a Fraternidade Espírita Cristã, com a mesma diretoria e colabores familiares: os Mendes, os Lopes Garrido, os Deberger, Andreoli, os Carlos, Fortes Freitas, os Ferreira, os Regio, os Menezes, os Brutico Mota, os Franco Sobrinho, os Ruys, os Azevedo, os Marzullo, os Silvestre,, os Barbosa, os Franco Sobrinho, os Willichan Azzurza, os Marreiro, Viveiros, Ventura, Almeida, Veiga, Rodrigues, Lua, Pinto Cabral , Moreira Lima, Alves da Costa, Sada Albano, todos muito provavelmente descentes dos tumiaruenses do final do século XV e dos afonsinos que aqui aportaram em 1532. 

Shalon, Shalon!!!! 





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LEGIÃO NEGRA 




AS FOTOGRAFIAS ANTIGAS não mentem. Tropa reunida e um grande quartel improvisado na Capital recebe a visita do governador Pedro Taques e de alguns oficiais da Força Pública, que iriam passa em revista o contingente de soldados já preparados para um grande combate. No grupo das autoridades militares, de maioria branca, vemos alguns oficiais negros, entre eles Joaquim Guaraná Santana, advogado, agora uniformizado e com patente. Toda a tropa é composta por soldados negros e formam a chamada Legião Negra da Revolução de 1932. O Dr. Joaquim Guaraná Santana é o líder da legião e reuniu sob seu comando milhares de voluntários. Sua ligação com as comunidades negras do interior e do litoral são antigas e remontam ligações familiares e laços de amizade da época da construção das primeiras ferrovias paulistas que ligavam o interior e a Capital com o Porto de Santos. Joaquim Guaraná Santana nasceu na Bahia, mas foi criado em São Vicente, nos bairros suburbanos cortados pelos trilhos da Sorocabana. Poderia ser a Vila Margarida ou o Catiapoã. Sabe-se que a Legião não era um consenso político na comunidade negra, sobretudo na Capital, onde havia muitas outras vertentes ideológicas libertárias. Ele fazia parte da Frente Brasileira Negra (FBN) , mas conseguiu apoio desse grupo para a formação da Legião Negra. Ao se desligar da FBN, Guaraná Santana fundou um partido só de negros- PRN – e um jornal - Brasil Novo - proclamando-se como a maior liderança negra do Brasil. Sua ascensão ao comando dos Pérolas Negras (apelido da legião) foi logo capitalizada politicamente por alguns membros da alta oficialidade do Exército em São Paulo, que obviamente via nele a possibilidade de canalizar forças e ao mesmo tempo neutralizar tendências populares indesejadas pelas elites naquele movimento. Já final do conflito paulista com as forças governistas, o Dr. Joaquim foi substituído no comando pelo advogado negro José Bento. Será que São Paulo realmente queria lutar por um ideal que reunia todos os paulistas, sem nenhuma distinção? Havia uma grande desconfiança na comunidade negra porque ainda estava viva a memória e decepção com o tratamento e reconhecimento pífio pelos seus serviços na Guerra do Paraguai. Valeria a pena se engajar numa luta que não representava aos verdadeiros anseios dos negros? Que época era aquela e que tipo de ideal movia os paulistas naquele contexto? 

A década de 1930 iniciava-se sob o signo da polarização ideológica, fruto das decepções com as quatro ideologias que alimentavam expectativas, sentimentos e as utopias do século XIX. Nacionalistas, conservadores, socialistas e liberais tiveram que se enquadrar seus sonhos e projeto nas duas grandes correntes que dividiu o mundo todo nesse período tortuoso entre as duas grande guerras. Após perder a hegemonia política sobre a república velha os velhos paulistas reagiram prontamente à nova ordem revolucionária que dominaria o Brasil nos próximos 15 anos. Foi assim que o nacionalismo regional revestiu-se de intenso teor romântico para formar legiões soldadescas dispostas a dar vida por São Paulo. Pouco se sabre como as outras regiões e estados interpretavam esse vigor patriótico, mas uma coisa estava bem clara: os paulistas queriam ter novamente em mãos as rédeas do governo federal que durante muito tempo privilegiava e economia cafeeira e colocava a elite agrária e seu aliados regionais como foco da vida nacional. O Convênio de Taubaté, de 1906, não deixava dúvida de que os lucros das exportações da rubiácia tinha praças definidas e os prejuízos da queda dos preços internacionais deveriam ser socializados com todos. Mas isso só foi possível até 1929, quando o Crack da Bolsa de Nova York derrubou todas as esperanças de manter São Paulo e o Brasil sobre o controle dos produtores de café. A Revolução de 1930 confirmou assa nova ordem e colocou no poder o representante da nova elite que se insurgiu contra a política do café com leite. Em 1932 os paulistas resolvem também pela insurreição, exigindo de Vargas uma Constituição. Mas não bem que queriam. Queriam manter a auto-estima paulista nos mesmo patamares de antes e vira na polarização ideológica a oportunidade de aglutinar forçar que depusessem o nosso Napoleão Bonaparte vindo das fronteira gaúcha. Não difícil. Alguns incidentes e uma forte propaganda regionalista acendeu os ânimos e todas as cidades e recantos do estado, à moda da Capital, formaram legiões de heróis de uma guerra e de batalhas nunca aconteceram. Tudo não passou de um grande movimento cívico-militarista sem nenhum efeito prático de combate. Foi uma gigantesca arregimentação, tal qual ocorreu na Europa nas preliminares da Primeira Guerra, mas aqui só foi fogo de palha. Os mortos praticamente não morreram em combate porque teve grandes combates, mas apenas incidentes e acidentes meramente casuais. Foi um movimento esteticamente tão perfeito e ordenado que realmente havia um nítida impressão de que o país estava prestes a entrar numa grande civil. Campanhas de arrecadação de fundos, alistamentos em massa, movimentação de contingentes e armas, propaganda, enfim, tudo que era necessário para uma grande combate que esfriou logo que o governo federal voltou os canhões para a Paulicéia e deu um novo direcionamento ao confronto. A diplomacia e os acordos de gabinetes abafaram a fúria e o patriotismo popular com novas promessas e alerta de que 32 poderia se transformar em um novo outubro de 1917. Ninguém havia pensa nisso e se houve essa intenção, ela estava infiltrada e muito bem escondida em muitas legiões que se formaram à revelia desse movimento inicialmente acéfalo, mas que depois teve liderança bem definidas e sob controle de grupos maiores. 

As lembranças, monumentos e comemorações da Revolução de 1932 continuam acontecendo em São Vicente e nelas não há nenhum negro ou mulato nos seus quadros de alistamentos ou nas listas de heróis e sobreviventes. São predominantemente homens brancos de classe média e que, evidentemente, poderiam participar das ações militares, pois, quando voltassem, certamente teriam cama e comida nas suas casas, bem como garantidas suas ocupações profissionais ou estudantis. Despareceram da memória e dos monumentos dos heróis paulistas os dois mil soldados que inicialmente foram arregimentados pelo Dr. Joaquim Guaraná Santana; e também os 11 mil que a eles se juntaram depois para combater Getúlio Vargas. No último 9 de Julho que participamos com expectadores dos festejos Revolução Constitucionalista, percebemos que o monumento da Praça Heróis de 32 sofreu uma reforma que adulterou completamente a estética e o conteúdo do monumento original que ali havia sido inaugurado em 1957, por comemoração dos 25 anos do movimento. Deram fim aos dizeres poéticos de Luiz Meireles Araújo (Lulu da Melodia, autor da letra do Hino de São Vicente). Também desapareceu a conhecida pintura em cerâmica do soldado constitucionalista, que ficou conhecida popularmente pelo apelido de “soldado assustado”, de braços e peito aberto em curiosa posição defensiva, agora substituída pela figura de um soldado de aparência agressiva. Os conteúdos que fazem o relato da Revolução nos discursos autorizados nas cerimônias são enfáticos, tendenciosos e desconhecidos pela historiografia científica. Geralmente são artigos produzidos por memorialistas cívicos, ligados à instituições de amantes da história militar. No mesmo dia, assistimos também uma cena que confirma o caráter nada popular daquela comemoração. No pequeno palanque montado pela prefeitura, acotovelavam-se muitas autoridades, suas esposas, bem como os tradicionais convidados engravatados. Todos devidamente acomodados e, de repente, percebe-se que alguém tenta desesperadamente vencer o aperto da superlotação, causando estranheza e preocupação nos ocupantes. Empurra dali, empurra daqui, eis que, de repente, atinge a linha nobre e frontal do palanque uma figura simples, vestida com roupas do cotidiano, sob os olhares irritadiços e indignados de alguns presentes, que perguntavam em silêncio algo tipo: ”O que ele está fazendo aqui”? A figura, de baixa estatura e de inconfundíveis feições nordestinas, era um conhecido comerciante da área continental e vereador da cidade. São Paulo ainda não foi derrotado!!! 





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CALUNGA 



NO SÉCULO XIX, São Vicente era vilazinha muito pobrezinha e acanhada, embora ainda gozasse fama de lugar antigo, a mais antiga de todas as vilas. Era chamada de Calunga, lugar de refúgio dos escravos velhos e cansados, libertos pelos senhores santistas e paulistanos. Para os escravos, Calunga era o lugar da liberdade e estava ligado ao mar, que era o caminho que levava de volta à África. Na vida do cativeiro havia sempre duas possibilidades de fuga: o quilombo e o calunga. Havia também o sumidouro, que era ao caminho trágico do suicídio, seja no mar, nos penhascos ou nos poços. Os lugares de São Vicente que mais tinham cara e jeito de Calunga era o Itararé, nas terras junto aos morro, em frente à praia; a ilha Porchat e o Morro dos Barbosa. Eram sítios de pouco ou quase nenhum valor comercial, onde se plantava bananas e hortas, criava-se porcos e galinhas, para o próprio consumo e também para quem quisesse comprar. Fotos antigas mostram as choupanas e plantações de alguns desses sítios, com seus moradores sentados em tocos de madeira proseando com vizinhos e visitantes. 

No Calunga havia as curas com ervas, os benzimentos de crianças doentes e as mandingas contra o mau olhado. Nos sítios mais entranhados pelos lados do Voturuá e também da Esplanada dos Barreiros, ouvia-se nas noite lua o barulho dos atabaques da macumba, sempre muito frequentada abertamente pelo pobres e discretamente pela classe média, levados pelos seus empregados nos momentos de desespero. 

Calunga também eram as horas encantadoras de música e dança, cujo som dos ritmos ecoava pelos cantos da Vila, chamando os mulatos e mulatas dos arredores, quase sempre acompanhados de amigos brancos. Esses boêmios e artistas, seduzidos pelas melodias e batuques, queriam dar vida aos pianos e violões que adquiriam nas lojas de partituras e principalmente incendiar os saraus enfadonhos das casas luxuosas da cidade. Sonhavam ter os estilo de vida livre e despojado dos mulatos fortes e bonitos e que tiravam suspiros proibidos das moças mais lindas da cidade. 

A partir de 1850 já existiam em São Vicente e em Santos os blocos carnavalescos, à moda Rio, trazidos pelos funcionários dos bancos, corretores e fiscais da alfândega que percorriam os portos do litoral. Em São Vicente residia nessa época o aristocrata Guilherme Souto, bancário carioca, membro fundador do Grêmio Le Bavards*. Era uma rapaziada burguesa que cultivava as folias e, sobretudo, a malandragem machista, das rivalidades e brigas iniciadas nos botecos e levadas para as ruas na época do Carnaval. Eduardo Souto, famoso pianista e compositor nascido em São Vicente, apesar do pouco tempo que aqui morou antes de ir viver no Rio ainda na infância, nunca esqueceu sua origem calunga e a boemia do pai. Quando voltava à sua terra natal tinha lugares certos para mergulhar e reencontrar sua alma calunga: a casa da sua antiga professora de piano e a Esquina da Saudade, boteco da rua Frei Gaspar, hoje em frente aos portões da Fábrica de Vidro. Mesmo consagrado e feliz no mundo da música, na sua maturidade adulta Eduardo Souto teve que relembrar seus conhecimentos de contabilidade e voltar ao batente da escrivaninha de um banco. Imagino como deveria ser dura essa jornada na qual misturavam-se sobre sua mesa de trabalho os livros-caixa, as partituras musicais e as ternas lembranças da vida calunga. Não há a menor dúvida de que O Despertar da Montanha, sua obra-prima musical, é um tango meio triste, meio alegre, que lhe fazia recordar o silêncio matinal do Morro do Itararé , da Ilha Porchat ou do Morro dos Barbosas. 

Os blocos carnavalescos vicentinos eram atração obrigatória nos concursos e desfiles em Santos, entre eles os talentosos violonistas e ritmistas do Rumba Calunga, comandado musicalmente pelos irmãos Maurício e Maurcy Moura. Todos os anos percorriam as festivas ruas do Gonzaga, ao lado de foliões e carros sofisticados, cheios de brilho e alegria nos dias Momo. Quando chegava a hora de pegar o bonde e voltar para casa, ainda havia um tempinho para um descanso. Então o grupo seguia tocando e cantando até o Marapé, talvez o mais calunga de todos os bairros santistas. Ali eram recebidos festivamente sempre na mesma casa e também pela vizinhança alegre e saudosa, onde se refaziam com um lanche farto de guloseimas e cantorias. Era casa do comerciante Mansuetto Pieriotti, velho conhecido dos foliões e membro de honra do bloco. Pierotti mudou-se para Santos para cuidar dos negócios, porém mantinha laços profundos no Calunga, onde sempre vinha matar as saudades e abastecer-se de samba, fé e futebol. 



NOTA. *O Grêmio Les Bavards foi fundado em 9 de março de 1870, pelos Srs. Francisco Emílio de Sá, Manuel Carneiro Bastos, José Ricardo Wright, J. Manuel Alfaya Rodrigues Jr., Antônio de Sousa Queirós, José Carneiro da Silva Braga, José Lopes dos Santos, João José Barbosa Jr., Manuel Antônio de Sá, tenente Brasílio de Campos Melo, A.M. Azevedo Marques, Carlos Luís D'Afonseca, Manuel Eustáquio de Oliveira, Gustavo Adolfo Peres de Sousa, Alfredo Lessa e Guilherme Souto (pai do futuro compositor calunga Eduardo Souto). 





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O GRÁFICO 


“Quando você ouvir a melodia, que lhe trará tanta alegria, seu coração palpitará. Quando, ao replicar dos tamborins, você vier cantando assim, quero sambar, sambar, sambar”!!! Marinheiro – “Esta Melodia”, samba enredo da X-9, 1968. 



NAQUELES ANOS INCERTOS das duas primeiras décadas do século XX, em meio às notícias dos combates mortíferos da I Guerra e a avalanche sangrenta da Revolução Russa, o modesto jornal vicentino O Progresso também lutava para manter sua impressora funcionando. Atendia pequenos anunciantes do varejo, profissionais liberais, bem como os editais oficiais da prefeitura e da câmara. Era ali que trabalhava como aprendiz um jovem de 14 anos recém-chegado da capital baiana. Aprende na oficina as lições básicas da impressão gráfica e também as primeiras noções do texto jornalístico. Era um mundo novo fascinante para um garoto pobre e de inteligência aguçada. Habilitado para a nova profissão, logo foi transferido para o mercado santista, recomendado com potencial para dupla função, onde passou por três jornais combativos, todos de conteúdo político crítico. Sobreviveu a dois movimentos armados de grande impacto na vida da Primeira República. Eram tempos difíceis ( E quando foram fáceis?) para pessoas simples e idealistas. As coisas iriam piorar. Correria dos empregos sucessivos, jornadas dobradas, noites sem dormir, alimentação precária, o stress dos dias incertos. Tudo isso somado à alta dose de sensibilidade e uma forte e contida melancolia, leva o jovem chefe de família a contrair tuberculose. Era a doença dos sentimentos e do romantismo, somatizada no aparelho respiratório. A internação no Sanatórinhos de Campos do Jordão era o que tinha de mais recomendável como profilaxia, porém, para a maioria dos internados, era um caminho sem volta. O combativo gráfico baiano sucumbiu sem que pudesse realizar seus sonhos de vitória e liberdade. Deixou mulher e um filho de 7 anos. A viúva, Dona Iracy Moura Campos, vendo-se desamparada decidiu tentar a vida em São Paulo, onde talvez pudesse trabalhar nas indústrias que se multiplicavam no Brás e no Pari, como tinha escutado falar sobre as boas oportunidades da Capital. Não deu certo. Tiveram que voltar ao litoral e se reerguerem. A família foi se recuperando aos poucos, refazendo-se principalmente pelas lembranças da trajetória do pai. Ainda em São Paulo, já com nove anos, Esmeraldo Filho tornou-se também aprendiz de gráfico, depois de tentar a marcenaria. Quando voltaram a Santos o País estava entrando no Estado Novo, época complicada para donos de jornais, grupos políticos de oposição e sindicatos de trabalhadores. Algum tempo depois, Esmeraldo consegue emprego como office boy num escritório de advocacia, mas logo é demitido por ter faltado ao serviço sem justificativa. Dali pra frente, nos próximos dez anos, incluindo o período da II Guerra, o jovem passou por vários empregos que seriam muito importantes na vida adulta, influindo na sua formação profissional e principalmente na carreira política. E que carreira! 

Todo ano, no dia 12 de abril, como determina a lei municipal, comemora-se em Santos o aniversário de Esmeraldo Soares Tarquínio de Campos Filho. No seu túmulo do Cemitério do Paquetá são depositadas rosas vermelhas e velhos e novos sambistas cantam o hino da X9, sua escola preferida. Antes de ser hino, essa belíssima canção composta por Walter Prado Duarte, o Marinheiro, foi o samba da vitória cantado escola em 1967 e no fatídico ano político de 1968. 

Descendente de baianos, nascido e criado na Vila Margarida em 1927, o célebre político calunga teve carreira meteórica, tão rápida que esbarrou nas asas e garras da injustiça, do preconceito e do autoritarismo. O trabalho como jornalista e como advogado foi estratégico para ter contato com o povo e também com setores da classe média, tradicional formadora de opinião. Dessa forma, elege-se vereador e posteriormente deputado estadual em 1962. 

Anos mais tarde disputaria a prefeitura com Silvio Fernandes Lopes e, mesmo derrotado, atingiu uma significativa soma de 30 mil votos. 

Em 1968, Esmeraldo Tarquínio foi eleito prefeito de Santos com 45 mil votos, tendo como vice o amigo Oswaldo Justo. Foi uma votação expressiva e também assustadora para os bicudos tempos do regime militar. A notícia de capa do jornal Cidade de Santos foi de uma sinceridade constrangedora, em letras garrafais: “DEU CRIOULO MESMO, TARQUINIO ELEITO. 

Em um pequena nota no mesmo jornal o prefeito eleito agradeceu: 

AO MEU POVO 

Chegamos ao final da campanha: bairro por bairro, morro em morro, de rua em rua, de porta em porta - e também - de guindaste em guindaste, poça em poça, de degrau em degrau. Assim tem sido nossa vida. Assim continuará. Jamais deixaremos de ir ao Povo e com ele conviver. Porque desejamos sentir o calor do afeto popular, o olhar dos que crêem e temos a convicção que o abraço que recebemos nas ruas, ainda é a forma, através a qual, o homem do Povo nos reconhece como dos seus. Nosso programa: governo planejado, racional, honesto e dinâmico.Absoluta fidelidade à vontade popular. Vocês me conhecem. Ao meu Povo, os meus agradecimentos. ESMERALDO TARQUINIO 

Mas o calunga não tomaria posse, apesar de diplomado. Foi cassado impiedosamente porque, a bem da verdade, era negro, de esquerda e vicentino, marcas que para milhares santistas era motivo de admiração e orgulho, mas para uma pouquíssima e poderosa parte conservadora era motivo de temor e até acinte. Mesmo assim, passada a tempestade e silenciada a mágoa, por longos anos, Esmeraldo circulava tranquilamente pela cidade, frequentando eventos, fazendo palestras, sempre cuidando da família. Certa vez, nos anos 80, num desses eventos, o vimos na quadra do Senac, na Conselheiro Nébias, já grisalho, conversando e fumando seu cachimbo enquanto recebia cumprimentos dos seus admiradores. 

A população santista aberta e democrática, que via nele a representação dos anseios de reconhecimento e dignidade, nunca se esqueceu do seu eterno prefeito, eleito e impedido. Os eleitores, que confiaram a ele milhares de votos em dois pleitos municipais, se sentiram frustrados com aquela primeira derrota, porém clamavam por justiça pela sua abusiva cassação. E foi por esse último motivo que os legisladores municipais concederam a ele o merecido e inesquecível título honorífico de Prefeito da Cidade Santos. 

Em São Vicente a memória do menino pobre que virou herói do povo em Santos luta para se manter viva na sua cidade natal. Mas quem vai e volta para a Praia Grande pelo Mar Pequeno logo é sempre lembrado por grande placas verdes escritas em branco que está entrando na Ponte Esmeraldo Soares Tarquínio de Campos Filho. No longínquo Jardim Rio Branco, quase no sopé da serra, na avenida Ulisses Guimarães, a principal escola bairro é conhecida por todos os moradores simplesmente como “Esmeraldo”. 




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ESCOLA BEM ASSOBRADA 




ANDANDO PELO CORREDOR, segundos antes de entrar na sala de aula, Ronaldo já percebe a inquietação: conversas, gargalhadas e arrastar das cadeiras. Aparece na porta, entra com passos firmes, porém olha tranquilamente para todos, como se os olhos tivessem saudando pessoalmente cada um dos alunos. A sala não fica totalmente em silêncio, porém o barulho geral vai diminuindo aos poucos até que cessem a maioria das conversas. Ele cumprimenta a todos com saudação típica que todos conhecem e que, nos primeiros encontros, acharam engraçada, por ser totalmente fora de época: 

“ Fala, rapaziada! Tudo bom com vocês? ”. 

A saudação logo é seguida de alguns cumprimentos isolados e espontâneos, que de certa forma falam por todos os presentes, pois não tiram os olhos do professor. As reações são diversas. Uns contentes pelo retorno, outros espantados, outros curiosos, alguns intrigados e ainda alguns desconfiados daquela figura diferente e cativante. Ronaldo destoa dos demais professores. Ele é substituto e entra nas salas eventualmente na falta de algum professor. Não entra em todas as salas. Geralmente prefere as salas do piso superior. Brinca o tempo todo, principalmente quando os assuntos das aulas são pesados e desagrada a maioria. Ensina matemática, física e química. Explica de forma muito diferente, rápida, como se fosse um youtuber. As aulas não duram mais do que dez minutos. É incrível. Todos ficam perplexos e fascinados porque simplesmente entendem o que ele fala. Diz que tem um canal no Youtube, mas não é verdade, porque ninguém encontra os vídeos. Quando diz que os conteúdos estão no Youtube todos riem porque já sabem que é uma piada ou uma forma de dizer para prestarem mais atenção. 

Ronaldo sempre chega assim, de boa, sem alarde. Dá o recado bem rápido e sai da sala dizendo outra frase muito estranha para os alunos da geração atual: 

“Saída pela direita!!! E vai embora. 

Ronaldo não fica na sala dos professores nem no pátio. Às veze é visto na secretaria, sempre calado, encostado em um dos arquivos ou sentado próximo à uma das mesas desocupadas. Outro lugar onde também é visto com frequência é no auditório, sempre lendo algum livro ou mexendo no seu celular. Ele dá as aulas nos períodos que antecedem as provas e entrega de trabalhos. Parece saber quais os assuntos que estão incomodando e reconhece os alunos que se preocupam mais com as notas: 

“Já sei o que tá pegando... “ 

Numa das salas tem uma aluna que senta perto da porta, muito discreta. Faz parte do grupo dos curiosos e desconfiados. Ela acha muito estranho um professor eventual fazer o que ele faz, mas este não é o problema, já que todos sabem como são geralmente os eventuais. Quase ninguém percebe que ele só dá aulas nas salas do piso superior. Lembra o nome de todos os alunos, mesmo o dela que nunca abre a boca, nem para responder chamada. Como ele sabe o nome dos alunos? De alguns ele sabe até coisas que ninguém sabe. Um dia ele olhou para um aluno e, do nada, disse para ele não se preocupar porque a mãe estava bem e que tinha deixado um recado no telefone da secretaria. O aluno estranhou porque a mãe não tem telefone e nem gosta de falar em telefone; estava internada em estado grave no hospital e iria passar por uma cirurgia de risco. Chegou em casa e recebeu a notícia de uma tia que a mãe realmente estava fora de perigo. 

Ronaldo dá boas dicas de memorização e toques para cada uma das disciplinas, sobretudo as consideradas mais difíceis. Um detalhe: as dicas incluem o gosto pessoal e preferências dos professores dessas disciplinas. Prestando atenção nesses detalhes alguns os alunos começaram a ter bons resultados e muitos outros começaram a aderir. 

Alguns professores estranharam a mudança dos alunos e ficaram intrigados, porque eles próprios não mudaram em nada o estilo das suas aulas. As mudanças aconteciam durante as atividades valendo pontos. Um desses professores, desconfiadíssimo, começou a questionar essas melhoras. E se aproximou dos alunos, como ele, desconfiados. Ouviu cada detalhe. Só não perguntou o nome. E os alunos durante a conversas com ele não pronunciaram uma única vez o nome de Ronaldo. Aquela aluna desconfiada, que senta perto da porta, ouviu tudo e não disse nada. Ficou mais intrigada ainda. Ela tinha visto o Ronaldo na calçada da praia. Estava sozinho em um banco de concreto olhando para o mar. Ela não achou nada estranho alguém estar olhando para o mar, porém, em um segundo de distração, olhou e não viu mais Ronaldo. Tinha sumido. Ela pensou que talvez estivesse se escondido atrás de um quiosque, mas o banco estava bem longe do mais próximo. Sumiu mesmo. 

Ano passou rápido. No final do terceiro bimestre Ronaldo desapareceu da escola. No lugar dele veio outro eventual. A menina que tinha visto Ronaldo no banco da orla também não deu mais notícias dele para os colegas. Quer dizer, até uma notícia para dar, mas achou que não seria muito legar falar sobre isso. Logo depois das festas de Natal e Ano Novo, ela e um grupo de amigos passavam pela rua da escola, já no final da tarde. Era sábado e escola estava fechada. Mas, em m cima da mureta de uma das muretas do portão de entrada, alguém estava com o corpo inclinado para observar o movimento da rua, tentando enxergar também o movimento no calçadão da praia. Olha para o grupo e acena para ela. Era Ronaldo. Sorriso no rosto e o mesmo olhar tranquilo. A menina acena de volta dizendo pra si mesma: “Ele vai desaparecer”! E Ronaldo foi desparecendo, como uma imagem de nuvem que por alguns segundos parece algo bem definido e depois se desfaz antes que a gente defina e explique o que estava vendo há poucos segundos. Ela só teve tempo de gritar : “Olha, é o Ronaldo”. 

E alguns colegas soltaram gargalhas dizendo: 

“Nossa, tá chapando”!!! 






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FALA, RAIMUNDÃO 




NA SEMANA PASSADA desencarnou o amigo Raimundo, de 73 anos de idade (23 a mais do que eu), mulato baiano, alto, magro e de cabelos brancos. Muito falante e cheio de ideias, Raimundão me considerava seu amigo e eu, desconfiado das suas conversas de vendedor (aposentou-se como representante comercial), ficava ouvindo atento as suas longas histórias pensando no por quê ele queria ser meu amigo, já que, segundo o meu preconceito, pessoas experientes não fazem questão de se aproximar dos outros para fazer amizade. Mas ele sempre dava um jeito de se aproximar e principalmente me segurar numa conversa, dizendo “Senta aí, relaxa, me conta as novidades...” Mas quem sempre contava as novidades era ele.Gostava muito de demonstrar conhecimento e lamentava não ter podido estudar e até confessou que a sua cabeça nunca foi boa para essas coisas. Mal sabia que eu também nunca fui muito amigo dos estudos. Me chamava de "Professor" e nunca pelo meu nome. Nunca falamos sobre espiritismo ou coisas do outro mundo. Ele gostava mesmo era de falar das coisas desse mundo, das “coisas boas”, pescarias, caçadas, mulheres, um pouco de futebol. E também da vida outros. Isso me preocupava porque eram coisas curiosas e atraentes, difíceis de resistir, e também porque ficava intrigado me perguntando se também não falava da minha vida para os outros. Daí a minha desconfiança. As vezes fugia dele, alegando pressa de ir para o trabalho, e apenas saudava de longe: “Fala, Raimundão!” 

De resto era tudo muito legal e gostoso aqueles papos quase unilaterais sobre as mil coisas que se passavam pela cabeça dele. Quando a conversa ia afinando, comentava: “Ficar velho não é fácil, dá um trabalhão manter as coisas em ordem!” Gostava de política e vivia se metendo nos assuntos do condomínio. Queria que eu fosse o próximo síndico. Minha desconfiança aumentou e pensei: “O Raimundão tá querendo me ferrar!”. Era corintiano. Passou umas contrariedades na última eleição, da qual fiquei bem longe (alegando que já havia dado minha contribuição no Conselho), mas não creio que esse tenha sido o motivo do aneurisma que provocou sua passagem. Eu já estava aguardando esse desencarne porque percebia que ele andava muito inquieto e ansioso. Um dia antes me cobrou uma conversa mais longa. Atendi o pedido e tivemos a oportunidade de colocar algumas coisas nos devidos lugares. Nessa conversa, algum tempo depois de iniciada, tivemos a presença de outras pessoas que foram se aproximando de nós, sentindo o clima amistoso e alegre, juntando-se para também se despedir do amigo que ia partir. E se foi o Raimundão, em meio aquela agitação natural dos gritos dos vizinhos, do barulho do resgate, dos parentes chegando desorientados, enfim, a hora dos mortos enterrarem seus mortos. Uma semana depois me perguntaram se tinha ido ao velório, enterro e missa. Fiquei constrangido pela minha indelicadeza. Mas lembrei de uns detalhes curiosos: minha esposa me disse que na noite logo após o desencarne, perambulei pela casa, fora do corpo. Foi uma noite perturbadora, de agonia. Sete dias depois, a noite foi bem diferente. Conversei com o Raimundo. Ele queria falar, mas não conseguia. Dessa vez foi a minha vez de falar... Ele estava bem, mas ainda meio perdido, como eu naquele lugar de triagem e espera. Eu olhava no relógio e também queria dizer ao Raimundão que esse ano vou fazer 50 anos. Ele sorria e, sem dizer uma palavra, informava que me achava bobo, mas que gostava de mim. Acordei diferente e logo pensei: “Não fui no velório, no enterro nem na missa, mas fui num lugar muito melhor. E o Raimundão está vivinho da Silva!” 



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O MELHOR AMIGO 




CONHEÇO UM CARA que é o melhor amigo de Jesus. Isso mesmo, de Jesus. É , Jesus mesmo, esse que todo mundo conhece e sabe que é a pessoa mais importante depois de Deus. Se bem que Deus não é propriamente uma pessoa. Mesmo assim, depois de Deus vem sempre Jesus na escala de importância das pessoas mais importantes dessa região do Universo. Então, esse meu conhecido é amigo de Jesus, amigo íntimo, de sair para fazer caminhadas, conversar, dar risadas, falar dos outros e de muitas outras coisas. Enfim, amizade mesmo. Quando falo ninguém acredita que é verdade e sempre questionam por quê alguém como Jesus poderia ter amizade ou perder tempo com alguém tão comum e que certamente não poderia acrescentar nada na experiência do Mestre. Duvidam e dão essas explicações: Jesus talvez ajude ele quando está muito necessitado, mas é só isso. Esse negócio de amizade é lenda. 

Digo que não é lenda , nem fantasia . É real. Jesus vem direto procurar ele e ficam horas conversando. Teve um dia que viram os dois jogando vôlei na praia. Outro dia se divertiram à beça com um cachorrinho salchicha (dachshund). O cachorrinho corria, corria pela praia e eles dois dando gargalhadas ao ver o animalzinho fazendo curvas a toda velocidade na areia. 

Uns perguntam: mas eles conversam sobre o quê? 

“Também não sei”, respondo, dizendo que talvez seja sobre coisas pessoais, confidências, sentimentos incômodos , sonhos secretos, idéias, projetos, preocupações. 

Teve um dia que Jesus estava meio triste e até chorou, pois de longe deu pra ver que Ele estava enxugando as lágrimas passando os punhos nos olhos. Naquele instante vi esse colega colocando a mão no ombro D’Ele e comentando alguma coisa que não deu para saber o que era, mas que deveria ser algo como “Deixa pra lá, não fica assim não...” Em outros momentos esse meu amigo também já foi visto lendo algumas coisas para Jesus ouvir. Eram umas coisas escritas em folhas de caderno e que Jesus ouvia atentamente e dava opiniões sobre o conteúdo, sugerindo mudanças ou elogiando os trechos que mais gostou. Ele (Jesus) também toca violão e canta muito bem. Umas canções incríveis. A preferida dele é aquela do Bob Marley, No woman, no cry. Também gosta de uma bem antiga do Herivelto Martins, Ave Maria no Morro. 

O mais curioso é que depois dessas conversas Jesus anda alguns passos e sempre some. Isso intriga muito as pessoas que tem a sorte de vê-los. Uma vez o amigo me contou que os dois estavam numa lotação e, de repente, Jesus levantou para dar lugar para uma jovem grávida. A jovem se acomodou e Jesus sumiu. A maioria das pessoas que estava ali nem percebeu o ocorrido. Uma velhinha ficou olhando meio assustada, mas logo voltou ao seu mundo, com medo que pensassem que estava ficando louca. 

Também já perguntei a ele o por quê dessa amizade tão próxima com Jesus. Ele me disse que a amizade surgiu espontaneamente, do nada. Estava andando pela rua e Jesus surgiu ao seu lado dizendo umas coisas meio sem sentido, como por exemplo: 

“Todo mundo é tão importante quanto você”. “Olha esse monte de pessoas caminhando em busca de alguma coisa. Você não acha que elas também têm o direito de serem felizes?”. “O rapaz que esbarrou em você há cinco minutos vai morrer nos próximos dias. Está correndo atrás de uma papelada que vai deixar a esposa e o filho seguros, até que o garoto cresça e possa trabalhar”. "A menina que você viu enfiar mão na bolsa da senhora em frente ao banco não pode voltar para casa porque a mãe dela quer que ela se prostitua. Ela prefere roubar do que vender o próprio corpo. Todo dia ela fala comigo e pede para que Eu dê um novo rumo para a vida dela, mas tá difícil encontrar ajuda”. 

Daquele dia em diante, disse o amigo, sempre que acordo com um aperto no coração e um medo inexplicável, sei que Ele vai aparecer para falar algo que o deixa inquieto ou conversar sobre as coisas da vida. Tem dia que ele está alegre, tem dia que está triste. Nunca o vi zangado ou nervoso. Quando percebo que Ele está quase para explodir ou perder a paciência, então Ele olha diretamente para os meus olhos, como se fosse uma criança, e me faz um monte de perguntas sobre o que penso, o que sinto e o que eu faria nessa ou naquela situação. 

Ele te pede conselhos? - perguntei espantado. 

O amigo respondeu positivamente e disse que sempre ajuda o Mestre quando Ele está com os sentimentos confusos, mostrando quais são esses sentimentos e como reage quando isso acontece com ele. 

Então é uma amizade profunda e sincera mesmo... Mas qual a origem da amizade? Porque você? O amigo me disse: “Já perguntei isso a Ele e me respondeu que eu era o único que estava disponível para ouví-lo num dia de muita angústia no coração. Sentiu-se tão bem com a minha atenção e o silêncio que vinha dos meus olhos que decidiu que eu seria o seu melhor amigo. Perguntou-me se eu permitiria essa escolha e eu apenas sorri. Ele entendeu e desde então somos bons amigos. 

Mas é Jesus mesmo? 

“Deve ser porque, sempre que tenho essa dúvida, olho para mim mesmo e vejo que sou eu quem está perguntando”. 



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TARTARUGAS 




ERA UMA VEZ uma indiazinha chamada Poty. Ela tinha quatro anos de idade morava na aldeia Tumiaru, perto do Itararé, uma linda praia com água límpida e borbulhante. A distância entre o mar e a mata era muito longa e possuía uma areia fina, quase branca. 

A indiazinha gostava muito de andar pela praia a procura de conchinhas, com as quais fazia brinquedos e enfeites. Quando o mar estava calmo, Potyzinha corria com os pés dentro d’água e, de braços abertos, imitava as gaivotas que voavam em busca de peixes para comer. Quase sempre Poty estava acompanhada do seu amiguinho Curumim, um indiozinho dois anos mais velho que ela. 

Curumim e Potyzinha eram considerados as duas crianças mais inteligentes da aldeia e também as mais danadas, pois estavam sempre procurando novidades e aventuras. 

Certa vez a indiazinha estava em sua oca e, quase na hora de dormir, percebeu que a claridade do luar que iluminava a sua rede foi ficando cada vez mais forte. Ela pulou da rede e logo foi olhar o que estava acontecendo lá fora. Vendo a Lua no céu, muito brilhante, sentiu uma enorme vontade de caminhar pela praia. Não tinha medo, pois as crianças indígenas são muito cuidadosas e sabem se proteger dos perigos da natureza. 

De repente, enquanto caminhava tranqüilamente ouvindo o barulho das ondas, alguém disse com uma voz bem suave: 

- Olá menininha, que noite linda não é mesmo? 

- Sim, uma linda noite! respondeu Poty, percebendo que se tratava de uma tartaruga muito grande e que por isso deveria ser pacata e experiente. 

Dona Tartaruga parecia estar muito preocupada. Ela pede ajuda a Poty para ajudá-la a pôr seus ovos e protegê-los do perigo dos pássaros famintos. 

- O que devo fazer? perguntou Poty. 

- Faça um buraco na praia, não muito perto da mata, para não atrair as cobras. É preciso ser rápido. Já não tenho a mesma agilidade de antigamente. Tenho que enterrar os ovos antes de amanhecer. 

No começo a indiazinha ficou um pouco confusa, mas logo entendeu que também precisava de ajuda, pois não conseguiria fazer sozinha esse buraco. Foi correndo até a aldeia e, sem acordar os adultos, começou a chamar o seu amiguinho de um jeito que parecia ser um canto de um pássaro noturno: 

- Curumim, mim, mim, mim.... Curumim, mim, mim... Curumim, mim, mim... 

E logo alguém respondeu, do mesmo jeito: 

- Poty, poty, potyyyyyy. Poty, poty, potyyyy. Poty, poty, potyyyy…. 

Curumim já sabia que se tratava de alguma tarefa importante a ser feita. Sempre que acontecia alguma coisa diferente, a Potyzinha vinha chamá-lo para resolver algum problema. Voltaram os dois para a praia e começaram a cavar o buraco com as mãos. Dona Tartaruga ficou bastante emocionada com a ajuda dos indiozinhos e logo foi se arrumando para pôr os ovos. Quando terminou já era madrugada. Pediu então para Poty e Curumim cobrirem os ovos com areia e com muito cuidado. E disse: 

- Agora devo voltar para o mar. Tenho que me alimentar e aguardar que o ovos choquem. Dona Lua me garantiu que vocês são crianças muito boas e que irão cuidar dos meus ovos enquanto eu estiver longe. 

Curumim e Poty olharam para o céu e viram que, enquanto Dona Tartaruga falava a Lua ia ficando mais viva e toda a praia ficou iluminada pelo luar. Poty entendeu também que deveria vigiar os ovos todos os dias. Combinou com o amigo Curumim para que se revezassem na vigília: ela de dia e ele de noite. Dona Lua prometeu avisar caso ocorresse algum perigo. 

E assim aconteceu. Numa dessas noites de vigília, Curumim chamou Poty para ver o que eles já esperavam ansiosos: a areia da praia começou a se mexer e dela foi saindo muitas tartaruguinhas que, muito agitadas e com muita pressa, corriam em direção ao mar. 

Poty percebeu que naquele instante surgiram pássaros negros no céu e começaram a perseguir as tartaruguinhas. Os dois começaram a gritar e bater pedras para espantar os pássaros. Dona Tartaruga observa tudo bem de longe. Não podia fazer nada, pois os filhotes tinham que aprender a viver sozinhos e defender-se contra os perigos do mar e da terra. Só pediu ajuda para os dois indiozinhos porque já estava bem velha e tinha medo de perder muitos filhotes. 

Dona Tartaruga estava muito contente com a vitória de Poty e Curumim sobre os pássaros e prometeu que, daquele dia em diante iriam fazer de tudo para que os dois amiguinhos tivessem uma grande alegria, como a que ela estava sentindo naquele momento. Despediu-se de todos e voltou para o mar. Tudo ficou calmo novamente na praia do Itararé. 

Poty e Curumim sentaram na areia e ficaram olhando as estrelas do céu e que também iam sumindo lá no infinito do mar. Um vento frio lembrou os dois amiguinhos que estava na hora de dormir e foram para aldeia enquanto, já longe da praia as tartaruguinhas começavam a viver suas vidas. 

Tempos depois Dona Tartaruga voltou ao Itararé e não era para pôr ovos. Queria ver e fazer um convite para os dois indiozinhos. Dona Lua já sabia do que se tratava e primeiro chamou Poty com a sua claridade. Logo os dois surgiram assustados na praia pensando que havia acontecido algo de ruim quando vira Dona Tartaruga. Ela tinha vindo para levá-los em uma viagem pelo mar e perguntou se estavam dispostos a ajudar uma baleia que estava encalhada há centenas de quilômetros dali. Viajariam a quase a metade da noite e , se tudo desse certo, voltariam bem antes de Dona Lua se esconder do Sol. Poty e Curumim tinham os corações apertados naquele instante. Subiram no casco da amiga e foram cortando as ondas e o vento pensando o tempo todo na agonia da baleia. Dormiram durante a viagem e, quando acordaram, já estavam em outra praia vendo a enorme baleia rodeada de golfinhos e muitas crianças índias como eles. Todos gritavam em uníssono FORÇA, FORÇA, FORÇA. E logo os dois indiozinhos estavam gritando também , mergulhando e cavando com as mãos a areia que impedia que a baleia nadasse de volta ao mar. Eram tantas crianças que não dava mais para saber onde estavam Poty e Curumim no meio de tanta gente. Então todos pararam de gritar e Dona Lua se encheu de luz despertando a força dos ventos e das ondas. Todas as crianças correram para a praia com medo de se afogarem. Em poucos instantes a baleia estava livre e jogando enormes jatos de água para o alto. As crianças viram aquilo e começar a gritar de novo, agora gritos de alegria enquanto a baleia desaparecia no mar. Dona Tartaruga não estava sozinha. Muitas outras como ela carregavam um ou dois ou três indiozinhos no casco e foram desaparecendo no mar para levar suas crianças para suas aldeias. Poty e Curumim não dormiram na viagem de volta. Já em suas ocas , ainda ouviam o barulho das crianças vendo a baleia se soltar do chão da praia. Dormiram rindo e depois sonharam com isso até o amanhecer. 



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CAMINHOS 



OS CAMINHOS são as veias e o pulso das localidades. É por eles que transitam no dia a dia as pessoas, suas necessidades e interesses. Eles surgem naturalmente, como os fluxos de água, encontrando e indicando as melhores formas de chegar onde é preciso. Muitos foram e ainda são os caminhos pelos quais se movimentam os vicentinos, pelas ilhas e pelo continente, desde os primeiros tempos da Capitania. Com as caravelas e canoas ficamos conhecendo o relevo da região e as possibilidades de penetração e movimento nesses territórios. Os morros ao centro da ilha, de ponta a ponta, logo definiram a obrigatoriedade de duas opções de comunicação entre as duas primeiras vilas da região, seja pela orla, seja pela parte alta dos pântanos do Catiapoã; ou das margens dos rios junto aos morros e que iam dar no estuário, onde seriam construídas as primeiras docas e armazéns do posto santista. Tudo era feito a pé ou com a ajuda dos animais. Já a comunicação da ilha com o continente ocorre pelas pontes, balsas e pequenas embarcações fluviais e marítimas. 

O meu caminho diário, por exemplo, é percorrido em duas etapas: do centro para a periferia da ilha, na parte da manhã; e depois da periferia para o continente, na parte da tarde. Saio de casa às 6:30 e ando até a praça João Pessoa. Ali pego um ônibus que me leva à Vila Margarida, onde permaneço até às 12:30. Dali pego outro ônibus e vou para a ponte dos Barreiros; desembarco, pego uma senha de papel e caminho sobre a ponte até a outra margem do Mar Pequeno, onde estão estacionados os ônibus que complementam seus trajetos para os bairros da área continental, no meu caso, o Rio Branco. Permaneço lá até às 16 horas e retorno para a ilha, em trajeto idêntico. 

A ponte dos Barreiros tem uma pista ferroviária, quase secular, atualmente desativada e que fazia a linha Santos-Mairinque; e uma outra pista, rodoviária, com cerca de 30 anos de uso, agora interditada judicialmente , por causa do risco de desabamento, devido ao desgaste dos pilares de concreto, pela corrosão das ferragens. O trajeto é 600 metros é feito à pé, de bicicletas e carrocelas (conjunto ciclístico de vários lugares), para passageiros preferenciais. Os automóveis só conseguem fazer esse percurso dando a volta por Cubatão ou por Praia Grande, praticamente duplicando a distância e o tempo de viagem. Nesse período de proibição do trânsito de veículos na ponte é muito curioso observar a travessia dos pedestres, quando encontro pessoas conhecidas, geralmente alunos e ex-alunos, caminhando rapidamente para as duas margens. Mesmo com um grande número de caminhantes o trajeto é marcado por um silêncio imposto pelo vento e pelo grande volume de água do mar, que é escura, da coloração dos rios vindos da serra e que ali deságuam. Quase todos devem ter, como eu, vontade de parar e desfrutar da paisagem, mas logo desistem da ideia por causa dos compromissos e também pelas condições do tempo, seja chuva, seja sol. Talvez no inverno, o clima ameno permita uma caminhada mais confortável. É curioso também repara e ver de perto as coisas que normalmente não é possível durante a travessia veloz de carros e ônibus: a passarela de pedestres, as embarcações passando por baixo na ponte, as estrutura de aço e concreto da antiga ferrovia, as revoadas e pousos de pássaros de coloração vermelha nas ilhotas e finalmente as grandes raízes da vegetação do mangue. 

Em um desses meus retornos da área continental, exatamente quando caminhava sobre a ponte ao lado de uma pequena multidão de transeuntes, lembrei que, além do Rio Branco, existem ali outras comunidades que surgiram no período colonial, junto à Serra do Mar. Lembrei principalmente dos antigos moradores da fazenda de Sant’Ana de Acaraú, local onde nasceu e foi batizado o Frei Gaspar da Madre de Deus, no século XVII. Num período posterior, na década de 1840, a fazenda passou a ser de propriedade do herdeiro Fernando José Augusto Bittencourt, muito conhecido na vila insular pela farta produção de frutas, cereais, legumes e cana-de-açúcar, em cujo engenho fabricava melaço e também extraía a famosa Pinga de Acaraú. Ele vendia também licores de frutas em frascos de vidro. Toda a produção excedente da fazenda era transportada em canoa remada pelo próprio Bittencourt e demorava até dois dias para chegar à Vila de São Vicente. O trajeto, suponho, era feito inicialmente pelo rio Boturoca até o rio Santana e de lá ao Mar Pequeno, próximo a Ilha Caraguatá, em Cubatão. Dali vinha em direção aos Barreiros e depois até o porto Guamium, onde hoje é a rua Japão. 

Enquanto aguardo o ônibus na Praça João Pessoa, observo a Igreja, ainda fechada com suas velhas portas de madeira. Fora dela, na travessa Ana Pimentel, pela qual passei há alguns minutos e sob os meus pés, estão enterrados corpos de pessoas comuns, incluindo indígenas e freiras, sem nenhuma identificação pessoal. Dentro da igreja estão os túmulos de pessoas importantes em várias épocas, todas identificadas. Os túmulos de cova rasa, nos quais andei por cima, foram descobertos acidentalmente durante as obras do bullervard da travessa. O corpo de Fernando José Augusto Bittencourt não está sepultado na matriz, embora ele fosse pessoa de destaque em sua época. Foi intendente (cargo atual de prefeito), vereador, juiz de paz e delegado de polícia. Multava os vereadores que faltavam às sessões da Câmara. Era admirador e amigo de D. Pedro II, o imperador itinerante do Brasil. 

Na última vez que desembarcou em Santos e ali recebeu homenagens dignas de um monarca, Pedro II fez questão de visitar São Vicente e desfrutar da hospitalidade simples e modesta dos moradores da antiga vila colonial. Um carro especial de bonde conduzia o imperador e a família real até o centro e ali se hospedavam em uma das casas que disputavam sua honrosa presença. Passeava na Pedra do Mato, tomava água na Biquinha de Anchieta e depois aguardava em casa a hora da missa na Matriz, na qual receberia as honras oficiais e homenagem dos moradores. Edson Telles de Azevedo narra em suas memórias que, nesse evento religioso, a Família Real rezava ajoelhando-se sobre uma tradicional colcha de damasco, presente especial do amigo Bittencourt. A cena imaginária da missa com a presença do Imperador, da Imperatriz e dos súditos vicentinos apaga-se subitamente quando, na curva da rua XV de Novembro, surge o ônibus que vai me conduzir pelo primeiro caminho do dia. 




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O PIANISTA 




A RUA FREI GASPAR nos anos 1950 não tinha edifícios altos de apartamentos como tem hoje, nem essa quantidade enorme de estabelecimentos comerciais que faz dessa rua o metro quadrado mais disputado por novos lojistas Eles ficam desesperados para encontrar nas quadras centrais ao menos um ponto onde posam realizar seus sonhos de lucros. São Vicente era bem diferente e a Frei Gaspar era uma rua silenciosa, cheia árvores e casas de veraneio, sobradões iguais e com varandões idênticos, feitos pelos mesmos construtores. Havia pouquíssimos automóveis circulando no centro. Uma foto dessa época mostra que a Frei Gaspar tinha mão dupla, pois nela se vê alguns carros e um caminhão trafegando em direção à praia. 

Entre as ruas Tibiriçá e Padre Anchieta, logo após a Mansão Caramurú (hoje prefeitura) e a residência dos Wolf (atual pastaleria chinesa) havia o sobrado da família Mariano, paulistanos que fugiram da agitada vida na Capital em busca da tranquilidade pitoresca vicentina. O menino César, um dos filhos do casal, tinha jeito e atração pela música. Tocava no piano que ganhou do pai aos 13 anos algumas peças de poucos acordes , que aprendera de ouvido, mas deixava muito a desejar, segundo o gosto refinado da mãe. Precisava estudar piano pelo método tradicional dos conservatórios, cujas lições técnicas diárias se estendiam por longos anos. 

Foi assim que o menino César foi parar na casa de Dona Georgina Araújo Moura, professora de piano e esposa de Hugo Santos Moura, na rua Capitão-Mor Aguiar, 81, perto do Porto do Gaumium. A casa dos Moura era bastante conhecida e tinha enormes letras HM na parede frontal identificando a tradição musical da família. O Sr. Hugo era um conhecido boêmio da cidade e Dona Georgina, a esposa, a típica mocinha vicentina que recebera esmerada educação burguesa. Seus filhos herdaram inevitavelmente a vocação para música. Desde pequenos se revelaram grandes artistas, formando o famoso Grupo Calunga, que tinha como vocalista a então menina e depois famosa Jarina Resende. Foi ali que jovem César conheceu as primeiras lições conservadoras de piano e também travou amizade com os rapazes Maurício e Mauricio e Maurici Moura, que se tornariam consagrados artistas da noite paulistana, o primeiro exímio violonista; e o segundo inesquecível cantor . Os Moura tinham dois diferentes estilos musicais: o tradicional, que lhes proporcionavam a disciplina teórica e técnica, imposta pela mãe; e o popular, vinda do samba e das serestas que acontecia frequentemente nos quatro cantos da cidade, certamente herdado do pai. César soube aproveitar muito bem essas duas vertentes. Frequentou também, antes desse despertar eclético, as escolinhas e coros infantis comandados por Dona Mimi e pelo maestro Jesus de Azevedo Marques. Logo depois que terminou seus estudos no Externato São Luiz, já rapaz, César Mariano retornou para sua cidade natal onde daria início a uma das mais brilhantes carreiras de instrumentista e arranjador da música popular brasileira. Foi ele o criador e produtor dos melhores discos e shows de Elis Regina nos anos 1970 e 1980. Seus arranjos sobre os originais de João Bosco e Aldir Blanc, Belchior, Milton Nascimento e Fernando Brant tornaram-se verdadeiro hinos da MPB e referência instrumental entre os músicos brasileiros e no exterior. Mas talvez a maior consagração de César Camargo Mariano não tenha sido como acompanhante de Elis Regina ou um dos mais solicitados e reconhecidos arranjadores musicais do Brasil. Tudo isso o colocou no hall da fama da MPB e do jazz, mas o que tocou no mais profundo de toda a sua brilhante carreira foi o título que Cidadão Vicentino - sugerido por amigos, músicos e admiradores- e recebido solenemente na Câmara Municipal mais antiga do País. 



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DISCOS VOADORES 




COM EXCEÇÃO dos curiosos, fascinados e especialistas no assunto, pouca gente sabe que o litoral paulista é um dos lugares do Brasil onde mais se registra a presença de objetos voadores não identificados, OVNI. No litoral norte, entre Bertioga e São Sebastião, os registros de aparições são antigos e frequentes , com relatos insistentes de naves percorrendo o céu durante as belas noites estreladas e também durante os dias ensolarados. No litoral sul os relatos são mais radicais e assustadores, pois as naves pousam e deixam marcas visíveis no chão, sempre e propositalmente em locais onde há muitas testemunhas. Em Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe ninguém mais se impressiona com essas histórias, tanto que os aficionados no assunto, pesquisadores e editores de revistas especializadas passaram a se encontrar anualmente nessa região para discutir e avaliar esses fenômenos. Peruíbe é cidade escolhida para os congressos e instituiu oficialmente o evento que atrai interessados de vários lugares do Brasil e até do exterior. 

Em Santos as aparições durante as queimas de fogos de Reveillon são fartamente filmadas e publicadas nas redes sociais. Já faz parte da expectativa dos turistas durante as passagens de ano. 

Nos morros do Voturuá e Itararé, em São Vicente, os praticantes de voo livre registram e relatam a presença de grandes bolas metálicas, alinhadas horizontalmente sobre o mar, em plena luz do dia. Foram dois avistamentos na área insular:, o primeiro no dia 6 de agosto de 2006, às 15:30h, com esferas brancas formando um triângulo; e o segundo em 2008, quando foi vista uma verdadeira frota de esferas brancas, passando de 500 o número delas, formando uma ordem de três grupos. Nessa última aparição, ao aterrissarem seus equipamentos no gramado da orla vicentina comunicando a visão, logo se espalhou a notícia, pois alguns os banhistas também correram ao encontro dos esportistas para confirmar suas visões fantásticas. 

Mas de todos os relatos durante esses longos anos de aparições, o caso ocorrido no Mar Pequeno, próximo à foz do rio Peaçabuçú, é considerado na escala de importância fenomênica dos OVNI o mais impressionante de todos os tempos. Foi um Contato Imediato de Segundo Grau, com efeitos mecânicos, eletromagnéticos e psicológicos. Mesmo sendo uma história relatada por pescadores, a aparição ocorrida em 01 de outubro de 1995 não deixou entre os investigadores nenhuma dúvida sobre veracidade e autenticidade do ocorrido, por causa do impacto sofrido pelas pessoas que tiveram contato com o objeto, considerado de grau altamente significativo, com provas materiais irrefutáveis. 

A nave de intensa luz surgiu por volta das 23 horas sobre uma embarcação de pesca estacionada próxima no rio e ali permaneceu alguns minutos, tempo suficiente para impactar os pescadores, causar pane elétrica na embarcação e deixar marcas e efeitos duradouros nas testemunhas. O caso foi registrado por reportagens locais e por isso atraiu muitos curiosos e especialistas, exatamente porque os vestígios eram inegáveis, embora dentro dos padrões já conhecidos. 

O caso Peaçabuçu-Mar Pequeno, ocorrido na área continental, está registrado até hoje na memória dos sobreviventes e familiares, cujos depoimentos fazem parte do acervo de documentários sérios sobre esse tema. Os pescadores Fernando Bezerra da Costa e Wilson da Silva Oliveira lançavam redes no rio quando foram surpreendidos pela luz. Percebendo o perigo de algo desconhecido e imprevisível, Wilson se escondeu dentro do barco. Fernando permaneceu do lado fora, tentando saber do que se tratava aquele estranho objeto voador, pois não havia barulho de motores nem fumaça. Sua curiosidade expôs seu corpo à uma radiação muito forte, causando-lhe posteriormente graves mudanças no seu metabolismo. Na época ele pesava mais de 100 quilos e depois do incidente teve uma perda da metade do peso e sua saúde permaneceu instável por muitos anos. Wilson, apesar de escondido, teve graves alterações cardíacas, tendo que usar uma válvula artificial no coração por dez anos. 

As provas desse avistamento em São Vicente causou grande repercussão porque as provas materiais eram marcas de pouso do mesmo objeto luminoso sobre a ilha próxima, causando a desidratação na vegetação num raio cinco metros, sem nenhum vestígio de fogo. Além disso, foram encontradas marcas de sapatas de padrão desconhecido na mecânica de aeronaves e com grande profundidade no solo. 

Não há explicações científicas conclusivas para esses fenômenos vistos e fartamente relatados, apesar da repetição de registro dos mesmos. A ufologia tenta há anos estabelecer uma síntese e uma teoria de classificação fenomenológica, mas, ainda assim, enfrenta forte resistência entre os céticos, que não sabem explicar as evidências deixadas nos avistamentos. 



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O MÉDICO 



NAQUELA MANHÃ fria de inverno a Botica do Glória estava com um movimento anormal, por causa do clima horrivelmente favorável a multiplicação de doenças respiratórias. O barulho das conversas e pessoas tossindo repetidamente não tirou a calma do velho farmacêutico, que atendia à todos com paciência e atenção, dois cuidados muito importantes para manter a ordem de atendimento. Seu Glória não podia se distrair com atenções especiais e diferenciadas naquele momento grave. Atendia seus clientes cotidianos e também uma enorme fila de pessoas pobres que vinham dos bairros distantes em busca de ajuda, pois não tinham como consultar os médicos da cidade. Era uma época difícil e, nessa estação temperada, toda a região ficava temerosa com propagação de epidemias mortíferas. 

Nesse mesmo instante, em Santos, dentro do bonde que vinha pelo canal 1 e depois pela orla em direção ao Itararé, estava um jovem médico, que observa a paisagem com um olhar vago e meio triste, completamente alheio ao que se passava ao redor e muito menos ao serviço que o aguardava. Na medida que se aproxima de São Vicente, o jovem fica cada vez mais inquieto e não escondia mais suas insatisfação é tédio. Queria estar no seu consultório à espera de seus clientes, ou então na companhia de amigos desfrutando uma boa conversa e planos para o futuro. Naquela semana ele havia recebido uma proposta irrecusável e que poderia dar um outro rumo na sua vida. Era a chance de sair do Brasil e viver na Europa que, apesar das agitações políticas e da crise econômica, ainda vivia a Belle Époque, sobretudo em Paris. Mas a proposta não o levaria à França e sim à Londres onde, em sociedade com amigos, instalariam um escritório de importação e exportação. Tinham bons contatos no Porto de Santos e também nas empresas de navegação europeias e norte-americanas. Os jovens sócios, tal qual ele, finalmente se libertariam dos seus diplomas de bacharéis, que os prendiam aos seus pequenos empregos de consultas médicas e demandas advocatícias. 

Esta era a causa da tristeza e também inquietação do jovem médico que precisa chegar em São Vicente e logo em seguida retornar para uma conversa de negócios no fim de tarde com os futuros sócios. O serviço não demoraria muito. Era uma ordem da associação médica, para verificar uma denúncia de exercício ilegal da medicina. Naturalmente era algum charlatão que alugara uma porta comercial naquele endereço, para vender xaropes e pomadas miraculosas. Nesse caso o denunciado era acusado de aviar receitas. Era uma denúncia um pouco mais, que não poderia ser somente um caso de fiscalização municipal, mas de queixa-crime. Quando chegou ao centro, o jovem médico se dirigiu para o endereço anotado na carta de notificação que entregaria ao proprietário, alertando-o sobre suas atividades ilegais. No local, na rua Jacob Emmerich, existia um chalé de madeira, de aparência rude. De longe já avistou o intenso movimento de pessoas doentes em frente ao estabelecimento e percebeu que o problema era mais grave do que haviam relatado a ele quando recebeu a ordem de diligência. Mesmo assim, embora preocupado, aproximou da botica e pôs em prática sua tarefa, sempre questionando se voltaria a tempo para o encontro de negócios. Já dentro do chalé, sentindo-se bombardeado pelo barulho de tosses e choro de crianças, o jovem médico anunciou sua presença, exigindo rápida atenção. Foi quando surgiu de uma das salas uma figura tranquila e, naquele momento, um tanto desconfiada. O farmacêutico José Ignácio da Glória ouviu o pedido de atenção e imediatamente comunicou ao jovem médico que não tinha tempo para atendê-lo naquele momento, pois tinha que dar atenção à todas pessoas que ali estavam em situação de angústia. Estava sozinho, prescrevendo e ao mesmo tempo manipulando remédios urgentes aos mais necessitados. Pego de surpresa por essa reação indignada do “Seu Glória”, o jovem médico não sabia onde enfiar a cara de tanta vergonha pela sua insensibilidade e distração. Ao justificar sua impossibilidade, Seu Glória ficou de braços abertos e mostrando com as mãos o sofrimento daquelas pessoas que ali estavam. Foi então que o jovem médico guardou a notificação, tirou rapidamente o paletó, segurando sob um dos braços e arregaçando as mangas da camisa. Puxou uma cadeira e ali mesmo começou atender os doentes que julgou estar mais necessitados. Seu Glória entendeu o gesto e voltou para a sala onde preparava as fórmulas e também conversava com alguns pacientes. A jornada de trabalho pulou a hora do almoço e avançou pela tarde, passando tão rápido que nenhum dois atendentes deram conta de já que estava escurecendo. 

Não se sabe o que os dois conversaram após fecharem juntos as portas da Botica e saírem caminhando em direção ao ponto de bonde. O jovem falava, gesticulava e até cantarolava, enquanto o velho farmacêutico ouvia e sorria diante daquela perfeita imagem de juventude e felicidade que caminhava ao seu lado. O jovem médico era o poeta Martins Fontes, que iniciava sua carreira na medicina e talvez encerrava ali o seu sonho de empreendedor internacional. Sorte nossa que nunca deixou de ser poeta. 




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ESCOLA BEM-ASSOMBRADA 




NA VILA MARGARIDA existe uma escola bem assombrada. Quem passa durante a madrugada pela rua Alexandria escuta gritos, gargalhadas e uma insistente e desafinada melodia ao piano. Vultos escuros e algumas luzes, semelhantes ao fogo fátuo, circulam pelos corredores e já são velhos conhecidos dos vizinhos. De vez em quando alguém esmurra repetidamente as placas metálicas dos portões gritando impropérios. Algumas gavetas de arquivos de ferro abrem e fecham com força, emitindo um som forte e seco, abafado pelas pastas de prontuários dos alunos, como se alguém procurasse verificar desesperadamente os históricos de vida escolas. A única sala onde não escuta barulhos agressivos e nem vê vultos escuros é a dos professores. Já as luzes ambulantes entram ali o tempo todo, como se sala estivesse em reunião permanente de debate e atendimento aos não iluminados. Os vultos também são vistos do lado de fora, bem próximo aos muros, tentando escalar e penetrar na escola, mas não conseguem em virtude de algum tipo de obstáculo invisível. São os arrependidos que se enveredaram pelo erro, se perderam no caminho da escuridão e agora voltam no ponto de partida, pois não conseguem encontrar suas casas. Durante dia tudo funciona normalmente, incluindo o período noturno que vai até às 23 horas. Não há registros de nenhum fenômeno estranho ou incomum, a não ser as brincadeiras de assustar e as conhecidíssimas brincadeiras do copo. Há, sim os sopros nos ouvidos dos que precisam de ajuda e dos podem ajudar de alguma forma. Mas isso quase ninguém percebe. 

Como não há mais copos disponíveis, as brincadeiras sobrenaturais dos alunos são feitas com lápis sobre as carteiras. São os mesmos jogos de evocação e diálogos codificados com o Além. Alguns não passam de diversão; outros são mais sérios de consequências inevitáveis e impressionantes. Quando isso acontece nas minhas aulas, me aproximo calmamente do grupo para participar e orientar o jogo para rumos positivos e esclarecer que não há nada de sobrenatural, mas um diálogo possível e muito natural, desde que não seja fútil e desrespeitoso. Na última vez que assim fizemos, uma aluna muito rebelde e irreverente ( na época o pai dela estava preso), surpreendeu-se ao questionar a minha presença na roda. Perguntou ao Espírito se eu era do bem ou do mal. O lápis foi girado diversas vezes e sempre indicava o sentido do bem. Mesmo continuando irreverente e rebelde, a aluna mudou radicalmente o seu tratamento com a minha pessoa, passando a ser mais receptiva e a retribuir as nossas demonstrações de carinho e sugestões de conduta. 

Numa calma noite de sono físico, dessas em que adormecemos profundamente, sem interrupção, fui levado, em desdobramento, a um lugar escuro e assustador, onde havia estradas desertas e uma mata fechada, cercada por enormes barreiras de arame farpado. Lembrei nitidamente de estar lá chamando essa aluna e algumas amigas desconhecidas, que corriam para a escuridão, dando muitas gargalhadas e atraídas por mentes obscuras, para retornar aos pontos de luz e de aprendizagem. Não foi sonho comum, pois era uma situação muito real e muito lógica, sem as características da manipulação mental do inconsciente. Tive a certeza de que era uma atividade de auxílio espiritual porque minha mãe estava comigo e , no outro dia, sem saber do assunto, confirmou essas nossas andanças por esses planos. 

Em outro arrebatamento, na mesma época, em 2006, fui a um lugar onde acontecia uma festa na qual se misturavam pessoas desse e do mundo astral. Ali tocava uma música muito estranha e exótica, de temática sexual chula. Era um ritmo repetitivo de batidas metálicas secas acompanhadas com melodia de uma ou duas notas, também repetitivas, executadas por instrumentos rústicos. A música tinha efeito entorpecente. Fiquei extremamente impressionado com esta cena de diversão alucinógena e com a música ali tocada. Era algo que eu nunca tinha visto e ouvido em ambientes físicos. Depois lembrei que tinha tido a mesma experiência quando fiz uma viagem ao Rio, onde hospedado no morro de Santa Tereza, mas na época achei que era somente uma impressão recalcada porque acordava durante a madrugada com o barulho de troca de tiros. 

Alguns anos depois voltei a identificar as características daquelas festas e do ritmo musical, já disseminado nos meios de comunicação e nos telefones celulares. Fiz essa associação quando, às 6:30 da manhã, indo para a escola, vi um pequeno grupo de jovens entre 13 e 15 anos de idade voltando de um “pancadão”, realizado num bairro vizinho, onde morava uma funcionária da escola, e que, segundo ela, acontecia sempre na passagem das quartas para as quintas-feiras. 

No mesmo ano li no jornal O Estado de São Paulo ( edição de 23 de outubro de 2009) uma notícia que encerrou minhas dúvidas sobre o poder de influência dos Espíritos sobre as existências terrenas. 

“Baile ‘mata-aula’ acontece todas as sextas-feiras no ABC, dizem adolescentes” 

Alguns adolescentes que foram apreendidos pela polícia de São Bernardo do Campo, no ABC, na manhã desta sexta-feira (23), disseram ao G1 que o baile funk, apelidado de baile “mata-aula” pelos jovens, acontecia todas as manhãs e tardes de sextas-feiras. A maioria dos 75 adolescentes levados para a 6ª delegacia seccional da cidade já tinha sido liberada mediante a presença dos pais ou de um responsável. Poucos ainda aguardam a presença dos pais. De acordo com o delegado seccional Mitiaki Yamamoto, o objetivo com o baile é viciar os adolescentes e fazê-los trabalhar para o tráfico e, no caso das meninas, aliciá-las para prostituição. 


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PERTO DA SERRA, 
LONGE DO MAR 



A VIDA VICENTINA nunca ficou restrita às vilas da área insular e sempre expandiu pelo continente serra acima, em direção ao planalto, como nas direções opostas do litoral sul e litoral norte. Na parte litorânea e serrana que restou do antigo território da capitania, após inúmeros retalhamentos, São Vicente conseguiu preservar como município grandes áreas limítrofes com São Paulo, São Bernardo do Campo, Cubatão, Santos, Itanhaém, Mongaguá e finalmente Praia Grande. Nossa área continental de mata atlântica, ainda imensa, causa espanto e admiração aos que penetram nos seus terrenos ainda selvagens, embora cortados por estradas de ferro e rodovias. Na parte mais antiga temos Santana de Acaraú, Paraitinga e Samaritá, povoados surgidos a partir das estações ferroviárias que ligavam São Paulo ao porto de Santos. Dessas, o Samaritá tornou-se o mais antigo bairro da área continental, preservando a linha férrea até o final dos anos 1990, através da Ponte do Barreiros. Era uma extensa região ao mesmo tempo ocupada por negócios de extração mineral, depósito ilegal de resíduos industriais tóxicos, como também pequenos bairros marcados pelo abandono e isolamento, até o início da década de 1980. Desse período em diante, a São Vicente insular, assim como Santos, passaram por uma grave crise demográfica, esgotamento dos bairros residenciais, resultando numa forte pressão e ocupação das áreas continentais mais próximas. O Samaritá, Rio Branco e Rio Negro foram os primeiros alvos de invasões, grilagem de terrenos e loteamentos irregulares. Logo depois, numa antiga área federal para isolar o gado em quarentena antes do abate nos matadouro da ilha, ocorre a maior invasão e ocupação irregular da história do município. Surgem ali os bairros Quarentenário, Jardim Maria Dolores e mais recentemente a Fazendinha, todos ocupando mananciais e várzeas dos rios que banham a região, principalmente o Mariana e Boturoca. Muito antes dessas invasões foram feitos dois grandes loteamentos financiados pelo sistema nacional de habitação, o Jardim Humaitá e o Parque Continental, próximos ao complexo penitenciário do Samaritá. Nesse período já estava em franca expansão o complexo rodoviário Anchieta-Imigrantes em direção ao litoral sul, separando esse bairro da Serra do Mar, o que aumentou mais ainda o interesse de ocupação imobiliária. 

O interessante de toda essa movimentação e ocupação é presença majoritária de migrantes nordestinos e do sul Minas, já residentes em Santos e São Vicente, sempre em crescente aumento de volume em função do ciclos históricos das secas, crises econômicas e busca de estabilidade nas novas áreas industriais e de turismo praiano. É bom lembrar também que as invasões, grilagens e loteamentos irregulares nessas periferias não foram diferentes das que aconteceram nas orlas dos municípios e que geraram os disputados bairros de casas e edifícios de temporadas. Em São Vicente, por exemplo, faixas inteiras de praias foram invadidas e ocupadas com a conivências de autoridades sem nenhum tipo de contestação ou punição, assim como ocorreu e inda ocorre nas áreas periféricas. 

Mas a São Vicente continental e da Serra continuam sendo lugares distante e isolados da vida insular. Diariamente milhares de pessoas se dirigem á ilha, São Vicente e Santos, para trabalhar, estudar, consultar médicos, fazer tratamentos, compras, pagar contas e resolver inúmeros assuntos que só são possíveis nos centros dessas duas cidades da ilha. Elas não fazem esse trajeto como faziam os antigos moradores do Acaraú, navegando em canoas pelos rios ou embarcando nas estações de trem mais próximas; ou ainda, de automóveis e demorados ônibus, dando a volta por Cubatão ou pela Praia Grande. Hoje o trajeto é feito pela avenida Angelina Pretti, logo após o Quarentenário e Jardim Maria Dolores em direção à ponte rodoviária A Tribuna, construída ao lado da velha ponte ferroviária dos Barreiros, em cima do canal do Mar Pequeno. 

Ao contrário dos antigos territórios vicentinos da antiga Capitania, a Área Continental de São Vicente não sonha nem se movimenta pela emancipação, apesar das distâncias e dificuldade de transporte e principalmente do número de habitantes, que hoje já atingiu a casa dos 150 mil. A maioria dos moradores já residiu na Ilha, nos bairros periféricos de Santos e São Vicente, e sonha uma dia voltar para a área insular, morando em bairros melhores, sobretudo na orla. Se os habitantes antigos perderam a esperança do retorno, os mais jovens mantém viva essa chama de mudança, mesmo que não haja perspectivas animadoras. Embora não consigam residir nas belas casas e confortáveis apartamentos da orla, é na ilha que eles conseguem seus primeiros empregos, frequentam as escolas profissionalizantes, os shoppings e lojas da moda, os eventos culturais e as grandes celebrações como o Reveillion o Carnaval. E assim vão vivendo e se alimentando de sonhos. Já os mais velhos, apesar de desiludidos, continuam se considerando vicentinos, vivendo de lembranças e conformados de que a única vida possível e digna para eles é do outro lado da ponte, perto da serra e longe do mar. 





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FICAR EM PÉ 




QUANDO SAÍMOS DA CASA onde dormíamos ainda era noite alta e nossa sorte foi que a lua resolveu nos ajudar escondendo-se para aumentar a escuridão. O silêncio da mata era bem menor que as nossas pisadas leves e rápidas, pois só carregávamos pequenas porções de comida, algumas mangas e pedaços de mandioca crua. Estávamos descalços. Seguimos os passos rápidos do Pai e os movimentos atentos da Mãe, sem olhar para trás ou para os lados. Noite de muito medo e angústia. Tínhamos que sair dali o mais rápido possível para tentar chegar até estrada e dar a sorte de encontrar um caminhão que nos levasse até um lugar mais seguro. Rezávamos para que os latidos dos cães da fazenda fossem comuns e não denunciassem a nossa fuga. Fizemos o trajeto fora dos piquetes e das porteiras e tivemos que dar uma volta bem mais longa, para não correr o risco de sermos capturados. Poderia até chover e cair raios que para nós seria motivo para ganhar tempo. Quando nos afastamos uma boa distância, o Pai pôde falar e só repetia que tínhamos que correr até não poder mais. E corremos, fugindo e buscando um lugar para nos escondermos, caso fosse necessário parar e descansar alguns minutos. Não encontramos nenhum e não descansamos. Só parávamos para ver que rumo o Pai tomava e até hoje nunca descobrimos como ele nos conduzia e como escolhia a direção. Não havia tempo para perguntas. Só havia medo e dúvida. Passamos seis meses naquela fazenda e quando ali chegamos tínhamos somente a roupa do corpo. Quando saímos tínhamos menos do que isso e um enorme dívida com o capataz. Dívida que nenhum trabalho conseguia pagar. Por isso corríamos sem parar e sem descansar porque, se voltássemos, as coisas ficariam bem piores do que já estavam. 

Durante muitos anos sonhei com essa fuga, com a escuridão e com cobras enormes cruzando os nossos caminhos e insinuando que deveríamos voltar, pois dali não sairíamos vivos. “Melhor a escravidão do que a morte”. O medo e angústia só acabavam quando o sonho era interrompido. Penso nos que não tiveram coragem ou oportunidade de fugir desse destino vaticinado pelas serpentes negras dos meus sonhos. Não lembro de como o Pai nos tirou dali. Apaguei essa memória e nunca tive coragem de perguntar para a Mãe como chegamos aqui. Continuamos andando, sempre correndo contra o tempo, matando a fome, a sede, o frio, do jeito que era possível. Ainda vejo o Pai avisando a Mãe e ela nos chamando para ir para algum lugar que ela nunca sabia onde era, mas confiava nas decisões dele, pois até ali continuávamos vivos, embora com menos medo e sem a angústia daquela noite. A fome não incomodava mais. Foram tantas viagens, tantos lugares, tantas chegadas e partidas que perdi a conta e a noção se estávamos indo ou voltando. Não éramos de nenhum lugar. Éramos do mundo e o mundo era tão grande que poderíamos ir onde quiséssemos. Pensava assim quando comecei a pensar sobre nós e sobre as coisas. Ainda não pensava nada sobre mim. Cada noite dormida e cada manhã acordada desmanchava esse pensamento e construía outro, na medida em que mudávamos de lugar. Teve um momento que comecei a pensar que poderia chegar a algum lugar e não ir mais para lugar nenhum. Minha mãe pensava isso, mas não podia falar. Ela só dizia pelos olhos e, quando percebia que eu estava tentando adivinhar seu pensamento, ela desviava os olhos para outro assunto. Os olhos do Pai eram perdidos e não diziam nada. Nunca disseram. Não conseguia enxergar nada além daquele dia que começava de manhã e terminava à noite. Comecei a perceber que as coisas mudavam quando descobri que algumas crianças moravam em algum lugar e nós morávamos em lugar nenhum. Morávamos na rua durante o dia, noutra rua durante a noite e no dia seguinte não sabia qual rua iríamos morar. Pelos menos dormíamos e acordávamos sem medo e sem aquela angústia da noite que nunca terminava nos meus sonhos. Mas um dia terminou e nunca mais sonhei com aquelas cobras que insistiam que nós não éramos ninguém e que nunca ninguém se importaria conosco. Foi quando passei a andar em pé. Antes achava que estávamos sempre no chão, nos arrastando de lado para o outro. Foi na escola que percebi que as pessoas ficavam paradas em pé sem se incomodarem com aquela posição. Tinha medo de ficar em pé, como elas. Elas tinham lugar onde morar e podiam ficar em pé. Eu achava que não era permitido ficar em pé se você não tivesse lugar para morar e sentar. Quando a professora mandava ficar em pé para ir até a lousa ou responder perguntas, ficava pensando até quando isso iria durar. E fui acostumando a ficar mais tempo em pé e tomando gosto pelo costume dos meus colegas de escola e de todas aquelas pessoas que fomos conhecendo na cidade onde demoramos mais tempo sem se mudar. Quanto mais aprendia coisas na escola, mas queria ficar em pé. Pai e mãe não queriam ficar em pé, porque não era preciso mais andar e correr da fazenda. Sabiam que logo sairia andando pelo mundo, sozinha, pois estava perdendo o medo de ficar em pé. Teve um dia que descobri que não eram as minhas pernas que me faziam ficar em pé. Quando aprendia uma coisa nova, não tinha vontade de sentar. Queria ficar em pé e saber mais coisas. As pernas ficavam fortes e a cabeça leve. Um dia tive absoluta certeza disso quando, pela primeira vez, ouvi alguém falar da lei da gravidade, que nos mantinha presos ao chão. Pensei, então quem fica em pé não obedece essa lei. Eu estava ficando cada vez mais desobediente. Por isso a Mãe ralhava comigo de vez em quando, porque percebia que eu queria ficar mais tempo em pé. 

Mas precisava encontrar um lugar onde pudesse arrumar um jeito de ficar em pé sem ter que ficar mudando. “Difícil. Muito difícil”, pensava. Foi isso que o Pai procurou a vida inteira e acabou indo para a outra vida sem ter conseguido o que buscava. A mãe pensava que era o destino dela e também o nosso. Comecei a pensar que ninguém sabia com certeza qual seria o seus destinos. Precisava descobrir um caminho, mesmo se não soubesse exatamente onde iria parar, pois nesse percurso era possível que encontrasse um bom motivo para ficar em pé. O Pai, de vez em quando, ficava cismado e arrastava a gente para algum lugar onde pudesse parar de andar. Não teve sorte ou não conseguiu enxergar a chance. Fomos para naquela fazenda porque disseram para ele que o governo estava dando terras para quem tinha vontade de trabalhar. Era uma cilada. Isso também aconteceu comigo quando vim para a Área Continental. Achei que era uma cilada o boato de que tinha terrenos grandes, sem dono, que estavam sendo retalhados e ocupados sem nenhum impedimento. Quando fiquei com vontade de ver como estava acontecendo tudo isso tive também aquela sensação de medo e de voltar a sonhar com as cobras. Mesmo assim decidi enfrentar o medo e resolver tudo em pé. Em pouco tempo tudo estava resolvido. Estava morando num lugar que escolhi, que podia dizer onde estava morando e que poderia decidir nele quanto tempo eu quisesse. Vi também que muitas pessoas caíram em ciladas e tiveram que sair correndo dali exatamente como nós quando saímos da fazenda. Ficava com dó, mas não podia fazer nada, porque aquelas pessoas não conseguiam se manter pé. Tiveram que fugir da Fazendinha, o nome do novo lugar onde foram morar as pessoas que não eram de lugar nenhum, como eu. Nas conversas com os novos vizinhos sobre as nossas histórias e caminhos, sempre me lembrava da fazenda da qual fugimos, talvez muito maior do que todas as cidades da região, comparada com esse lugar que passei a chamar de Fazendinha. O apelido pegou. 

Não perdi a mania de querer ajudar. Sempre que posso, mando fazer uns panfletinhos para distribuir no centro da cidade, no início da noite, para os que estão no chão, prontos para dormir: 



“LEVANTE-SE. FIQUE EM PÉ. 

Pelo menos por um dia, tente ficar em pé o máximo de tempo possível. Fique no chão apenas quando for dormir ou descansar. Levante e ande sempre que puder, de cabeça erguida. Se desanimar, olhe para o Alto e peça forças para suportar o peso do seu corpo e da sua prova. Conte o dia e as horas que conseguiu ficar em pé. Cada vez e cada dia que você fica em pé é um grande passo e uma grande vitória em sua vida”. 




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CAFÉ DE SOLDADO 




AINDA FAÇO CAFÉ à moda antiga, esquentando água em caneco de alumínio e passando em coador de pano. Sempre que faço isto, lembro as instruções do velho degustador de uma casa comissária do Porto de Santos. Dizia ele que a água não deve ferver e, se passar do ponto da ebulição, ela deve descansar por algum tempo antes de molhar o pó. É o melhor jeito de saborear o café pelo olfato antes de experimentar pelo paladar. E o cheiro se espalha pelos cômodos da casa e até pela vizinhança. Vi também a instrução de uma mulher no canal youtube, dando a receita de café de soldado, sem coador. O preparo ritual dela é um recado diário para alguém da vizinhança, que espera o cheiro chegar, naquela mesma hora, após o pó ser mexido pacientemente na água quente. Sedução. 

O cheiro do café é inesquecível. Na minha infância, no interior de São Paulo, ele vinha da torrefação que ficava a umas seis quadras da minha casa, expelido pela chaminé, causando uma inquietação em todas as casas e estabelecimentos próximos. No início dos anos 1970, o centro de Santos, a qualquer hora da manhã ou da tarde, cheirava a café torrado. Um cheiro tão forte que provocava náusea e tontura nas crianças que caminhavam com os pais nas calçadas próximas ao porto. Eu era uma delas. 

Durante uma fase da vida a gente deixa de tomar café, para procurar emoção em outros cheiros e sabores, mas depois, entediados com as descobertas e aventuras, voltamos para casa em busca do aroma original, o mesmo que nos fazia despertar pelas manhãs ou assanhar os sentidos nas tardes, na hora do café das três ou quatro. 

Às vezes fico pensando que o café é uma droga poderosa e não é à toa que ficou conhecida como o vinho das arábias, capaz de mexer com os vivos e também com os mortos. O desejo de tomar um café muitas vezes não é apenas nosso e vai muito além do que imaginamos em nosso mundo íntimo. É um desejo dos que estão entre nós, mas em outra dimensão, que precisam recuperar a memória e refazer os passos perdidos na hora da morte. O café para eles é um momento perdido de vida, de lembrar de coisas que podem dar sentido ao que está sem rumo e significado. Então, em pensamento, eles pedem café, cujo cheiro da passagem no coador é um momento de prazer e de lembranças. 

O cheiro e o sabor do café lembram as plantações e terreiros das grandes fazendas e das senzalas onde viviam os braços que colhiam os rubis nas longas fileiras de pés. Um cafezal em flor é um espetáculo e deu até uma famosa canção triste com esse nome. Lembram também as primeiras ferrovias do Império as quais, em São Paulo, se diriam ao Porto de Santos e estacionavam ao lado de armazéns gigantescos e ali aguardavam o embarque nos porões dos navios. Os armazéns estão lá até hoje, tombados, resistindo ao tempo. O carregamento está registrado em fotos antigas. Eram sacas de 60 quilos sendo conduzidas, sempre em carga dupla, nos ombros de carregadores, em filas enormes, lembrando a ordem e organização dos formigueiros. Um negócio que durante décadas movimentou riquezas e proporcionou prazeres e também tristezas e sofrimentos. De um lado os barões e comissários com suas manias e luxos; do outro, escravos e trabalhadores simples e descalços, com suas misérias e necessidades. 

Olhando velhos documentos e publicações descobri que São Vicente, mesmo distante do porto santista, era o reduto dos endinheirados do café: os comissários e corretores, os fretistas de vapores marítimos, os financiadores bancários e os altos funcionários da alfândega. As chácaras vicentinas do Itararé e da Vila Afonsina eram seus lugares preferidos, longe do cheiro ruim do estuário e do perigo das doenças e epidemias que brotavam no Paquetá e no Valongo. Foram os portugueses, italianos e espanhóis - já paulistanos- que descobriram (ou redescobriram) a velha São Vicente como ponto de veraneio e moradia tranquila. Santos já era uma cidade grande, cara e também insalubre. Saturnino de Brito ainda não havia sido chamado para projetar os famosos canais que se tornariam a marca principal da paisagem santista. São Vicente continuava pequena e modesta, porém com ar puro e paisagem deslumbrante. Os estrangeiros que vinham da Europa comercializar café em Santos adoravam o silêncio e o verde bucólico da Biquinha e da Praça 22 de Janeiro, ou dos arredores do Itararé, onde moravam os velhos calungas. Depois foram chegando os franceses, suíços, suecos, ingleses e principalmente alemães, os mais agressivos consumidores e negociadores de café, até nos dias atuais. Todas as reportagens sobre o alemão Theodore Ville, o Imperador do Café, relatam suas andanças pelas fazendas do interior, pela capital, pelo Porto de Santos, onde tinha seu principal escritório, mas nenhuma delas conta onde ele morava. Será que esse tempo todo em que esteve perambulando e ficando milionário ele residia na Vila Betânia, em São Vicente? Será que ele usava diariamente as carruagens que percorriam a Estrada do Matadouro ou o Caminho do Itararé-José Menino para chegar e voltar do Porto para São Vicente? Difícil dizer por que consta que ele sentiu saudades da sua terra e voltou para a Alemanha em 1847. 




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BUQUÊ DE FLORES

No final de uma tarde e sexta-feira o movimento na Ponte dos Barreiros está intenso, mais do que nos outros dias da semana, com um certo alvoroço nas duas cabeceiras, tanto do lado da ilha como da parte continental. Talvez seja dia de pagamento porque o número de vendedores ambulantes também está maior, bem como o barulho dos gritos repetitivos de oferta dos seus produtos. 

A multidão que caminha na direção oposta à ilha está imensa e a velocidade da marcha bem superior aos que caminhavam para a outra margem. Em outros dias e horários os rostos dos caminhantes se inclinam mais para a expressão sisuda, fechada, revelando cansaço e irritação. Na sexta-feira - e provavelmente também aos sábados e domingos – se tornam em sua maioria mais alegres e sorridentes, com saudações contentes e cheias de intimidades nos encontros entre conhecidos. Não é raro acontecer uma rápida conversa entre estranhos ao identificarem impressões comuns durante o trajeto e que marca uma troca de comentários e gargalhadas. À vezes essas trocas de impressões são gestos de indignação, por causa dos transtornos causados pela interdição da ponte, tudo muito rápido, no ritmo dos cruzamentos casuais. 

No meio da ponte o som das falas parece diminuir o volume, talvez pelo cansaço e também pela força do vento e da paisagem, desviando os olhares para a imensidão do Mar Pequeno, os paredões distantes da Serra e a vista distante das centenas de edifícios da orla de Praia Grande. Poucos olham para céu e, quando olham, o fazem rapidamente para não perderem o sentido do caminho. 

Mas é sexta-feira. Hoje é permitido até tropeçar por distração sem que ninguém repare ou ria do incidente. Bem ali no trecho ventoso caminha em nossa direção um pequeno grupo familiar. Na frente estão dois jovens sorridentes. É um casal com trajes simples, calças jeans, camisetas e tênis. Caminham um pouco distantes um do outro, ligeiramente envergonhados, porém felizes. Ela trás em uma das mãos um pequeno buquê de flores e não esconde um sorriso de alegria. O rapaz caminha tranquilo e vigoroso, com a sensação do dever cumprido, conformado com o destino e com um ar de quem acaba de se render ao inevitável. Uma senhora que está ao meu lado olha para o buquê, abre um sorriso e começa a bater palmas desejando, em voz alta, felicidades ao casal. Parece que são conhecidos e moram no mesmo bairro. Ou não. Mesmo assim, a pequena multidão que se forma nesse rápido encontro sobre o ponte, acompanha o gesto espontâneo da mulher e explode uma salva de palmas e até se ouve alguns assovios e gritos de cumprimentos. Não resisto e também aplaudo aquela cena maravilhosa, de uma simplicidade rara e comovente. A jovem noiva retribui com gestos de agradecimentos e seu marido segue em frente parecendo acelerar o passo para garantir uma vaga nos disputados assentos do ônibus que irá levá-los onde moram. Momento especial, lindo e inesquecível. 


   


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BRANQUINHA

Ou Déruchette, que encantava a todos e fascinou Gilliat.


Todas as tardes, na volta do continente para a ilha, o treinador descia do ônibus que o levava até cabeceira da ponte e caminhava por ela a passos rápidos, com a mesma disposição dos que ali estavam em busca de suas casas. Isso acontecia entre às quatro e cinco horas. Era um horário de pico, quando as duas pistas da ponte recebiam andarilhos que vinham do trabalho ou da agitação do centro da cidade. Caminhar rápido naquele percurso era uma novidade para todos e significava para muitos a chance de pegar a condução do outro lado pouco antes da partida. A Ponte dos Barreiros estava interditada para veículos pesados, automóveis e motocicletas. A única travessia permitida era de bicicletas, carrocela - que transportava 6 a 8 pessoas, pedalando -; pequenos carros elétricos para idosos, doentes e gestantes; ou então à pé. Essa travessia de 600 metros para pedrestres durou oito meses, um tormento diário para muitos transeuntes, provocado por denúncias políticas de que a ponte estava prestes a desabar. Depois de analisar vários laudos de engenharia, a justiça decidiu fechar a ponte para veículos pesados. De repende o treinador lembrava que não precisa ter pressa. Não havia nada de importante para fazer ao chegar em casa, a não ser as coisas corriqueiras, ou então um passeio de bicicleta pela orla, até ilha Porchat; ou ainda até a divisa, no emissário submarino, que os jovens chamam de QM. Então ele diminuía a velocidade dos passos e começava a prestar atenção nas pessoas: nos rostos, nas roupas, nas formas femininas, nos trajes masculinos, nos idosos que tinham dificuldade para andar, mas faziam questão fazê-lo; e também nos que trafegavam nas carrocelas, pedalando para ajudar os condutores no percurso. Alguns segundos depois ele já estava procurando alguém diferente de todos que caminhavam. E quando avistava de longe, seu semblante mudava, seguido, ato contínuo, de batidas fortes no coração e um sorriso de alegria. Era uma garota de pele alva, cabelos castanhos claros e olhos azuis. Tinha 19 ou 20 anos. Quando ela o avistava, também mudava o semblante e, sorrindo, corria na direção dele, saltitando como uma criança na ânsia de receber um beijo no rosto. Não o abraçava, talvez por respeito ao uniforme que ambos vestiam, o qual deveria preservar de todos os excessos em público, principalmente no trabalho onde era estagiária. Nas primeiras vezes desses encontros, a corrida dela até ele era veloz e a despedida também era muito rápida, com a troca de palavras formais as quais nem prestavam atenção. Os encontros foram se sucedendo, os passos foram ficando mais lentos e as corridas para o beijo cada vez mais lentas. Queriam claramente parar, conversar, trocar olhares, se tocarem com mais proximidade e, quem sabe, um abraço mais demorado e uma troca de carícias. Mas isso não era possível, pensava ele. Aqui tem muitas pessoas conhecidas que poderiam ver essa cena e teríamos dificuldade para explicar esse impulso. As despedidas adquiriram então um tom mais dramático, de frustração. Eles olhavam para trás, davam um fraco tchauzinho e nada mais. Ele não se lembrava do nome dela. Olhava nas listas de presença durante o curso, mas logo esquecia. Para evitar constrangimento, passou a chamá-la espontaneamente de “Branquinha”, apelido que, para ele, definia tudo que podia ser admirado nela. Ao ouvir chamá-la assim, ela sorria muito contente, pois não era apenas um apelido, mas um segredo entre eles. Ninguém a chamava assim. Só ele dizia “Branquinha”, com os olhos bem vivos, com sorriso largo, em tom carinhoso, muito pessoal. Ela ouvia e não ousava corrigí-lo. Era algo exclusivo. Só dela.

Algum tempo depois a ponte foi liberada. Todo o movimento de pedestres e ciclistas desapareceu, bem como do comércio de ambulantes, que ali havia se instalado nos dois lados durante a interdição. Os dois encontristas também desapareceram um para o outro. Sumiram. Ela sumiu da lista do whats da classe, inexplicavelmente. Das últimas vezes que voltava do continente, ele permanecia com os olhos fixos num livro em cuja leitura não conseguia se fixar. Lia um parágrafo e ao ingressar no seguinte tinha que voltar ao início, pois tinha perdido o sentido da frase. Fechava o livro e olhava rapidamente pela janela, para ver se ela estava dentro de algum outro ônibus que viajava no sentido contrário. Uma, duas, três viagens e nada. Esses lampejos de esperança logo desapareceriam quando soube que deveria ficar em casa, isolado. Era o anúncio oficial da pandemia. A cidade ficou vazia. Um clima de medo e incerteza. As notícias de algumas mortes acentuavam esse temor. Seriam muitos meses sem poder conviver e acostumar-se com um novo tipo de vida. Foi então que Branquinha deixou de ser alguém palpável, possível de beijar, de sentir seu cheiro e a suavidade da pele do rosto, para se tornar uma imagem persistente na memória. Para preencher os dias de ausência, as imagens da ponte foram sendo acrescidas das lembranças das aulas, dos filmes que viam na sala de vídeo, dos olhares que trocavam secreta e rapidamente, para que ninguém percebesse o que poderia estar acontecendo. Nem ele nem ela sabiam o que realmente se passava entre eles. Ele sabia que numa situação dessas alguém poderia perceber que havia algo estranho e fora do comum. O risco de serem descobertos era muito alto. O último filme que viram juntos, embora separados por algumas cadeiras, foi um que contava a história de uma jovem estranha que conhecera um outro jovem estranho, numa situação mais estranha ainda; ela estava em pé sobre o parapeito de uma ponte, prestes a se atirar para o desconhecido. Apesar de trágico o filme tinha uma história linda e uma trilha sonora agradável, da qual se destacava a canção tema “Mo’ Better Blues”. Foi exibido cinco vezes durante a semana, para todas as turmas, e no dia que eles assistiram - juntos e distantes – ele não resistiu e disse a sua idade, sem nenhum constrangimento. E ela respondeu que nem parecia, isso dito com o rosto apoiado na prancheta da cadeira universitária, olhando inconformada com o que tinha ouvido. Ele havia lido duas semanas antes o livro “Eugenia Grandet” e agora estava debruçado sobre “Os Trabalhadores do Mar”, presente de uma amiga. Fôra atingido em cheio por essas leituras românticas, encantado com os detalhes, as tramas e os danos sentimentais que atingiam os personagens e suas paixões avassaladoras. Branquinha havia mudado novamente. Não era somente uma imagem de lembranças. Agora era personagem do livro que estava sendo devorado. Ela já tinha feito parte do elenco feminino do Zorro, personagem lendário da Califórnia, numa leitura encantadora proporcionada pelo talento de Isabel Allende. Não deu muita importância a ela porque a mocinha da história não quis ficar com o Zorro e inclinou-se para o pirata Jean Lafit, que havia sequestrado o navio em que viajavam de volta da Espanha para a América, cortando caminho pelo canal do Panamá. No livro de Victor Hugo, a sua Branquinha, com qual se deitava e acordava no dia seguinte compartilhando o mesmo travesseiro, era mais fiel e extremamente apaixonada por ele. Ele, de olhos fechados, a enxergava sempre alegre e saltitante, como na cena de abertura do livro, na qual a mocinha graciosa passa perto do protagonista, sem perceber que ele a observava, crava a marca dos pés na neve e escreve com a ponta do dedo indicador: “Gilliat”. Ele agora é este homem esquisito, misterioso, que mora sozinho em uma casa mal assombrada, moço solteirão, e que se torna o herói dessa longa e conhecida história do século XIX. Uma história que até hoje fascina os apaixonados. Ele é Giliatti e ela é a linda mocinha Déruchette. É assim que ele se vê, alguém muito solitário e que, com a sorte, vai ter para a si a mulher mais jovem e deslumbrante das ilhas Jersey. É claro que ela não sabe disso e nem passa pela cabeça dela que faz parte dessa história, supõe ele quando é tomado de alguma crise instantânea de realidade. Mas isso não tem nenhum valor ou importância nessa fantasia. O Treinador e Branquinha existem de fato e alguma coisa vai ter que acontecer na vida deles, para fiquem juntos diante de todas as impossibilidades.

Quando terminou de ler o livro de Victor Hugo, o treinador ainda estava atordoado. Não conseguia pensar em outra coisa. Branquinha habitava sua imaginação noite e dia. O que mais incomodava nessas construções da sua mente era diferença de idade entre eles. Mas isso sempre era arranjado de forma prática, como manda o figurino romântico. Imaginava as carências dela e todas as possibilidades de preenchê-las com seus recursos e, naturalmente, a atração e paixão que ela nutria secretamente por ele. Tudo se encaixava nesses planos traçados a cada minuto diante de possíveis obstáculos. Admitia que seria uma aventura de poucos anos, mas que valeria a pena. Se não morresse, se afastaria dela gradualmente para que os ciclos cronológicos e biológicos dos dois se desenrolassem naturalmente, cada qual no seu caminho. Teriam um ou dois filhos, que ficariam amparados legalmente. Se veriam casualmente até que, para ele, as coisas se consumasse, enquanto para ela teria os desdobramentos naturais de alguém de sua idade. Fazer o quê...

Entretanto, esse delirio egoísta, que antes nunca oscilava para a razão, foi mudando à medida que o efeito da leitura foi passando. Mais ou menos no oitavo mês de isolamento o treinador precisou ir ao continente, numa evento cultural . Ele foi e aguardou o início da festividade. Cansado de ficar sentado, o treinador dirigiu ao outro extremo do quintal, para ficar em pé e puxar assunto com alguns convidados. As pessoas iam chegando e se acomodando. De repente uma surpresa. Não é que a Branquinha apareceu! Acompanhada de uma amiga, ela ultrapassou o portão e rapidamente aconteceu uma troca de olhares, fato que se tornou perceptível e também suspeito, pois todos agora estavam de máscaras. Ah, as máscaras. Eles se olharam, mas ambos ficaram surpresos e assustados com esse reencontro. Contiveram-se e nem deram mais nenhum sinal de que já se conheciam. O treinador percebeu que alguém os espionava e aguardava apenas um pequeno gesto de identificação para que fossem delatados. Reacendendo o clima de perigo e expectativa daqueles primeiros encontros na ponte, ele pensou: não tenho nada perder. Isso tudo é bobagem. Iria chutar o pau da barraca. E partiu em direção a ela. Se armou do celular fingindo que estava filmando e tirando fotos. Aproximou-se como quem não queria nada. O alguém que havia percebido a sintonia entre os dois ficou mais intrigado com essa aproximação e colocou-se em posição de vigília. Ele nem deu bola. Foi chegando cada vez mais perto e logo se posicionou exatamente entre as duas amigas. Ela ficou muito constrangida. A amiga logo identificou o treinador puxando conversa e cobrando-o a dizer o seu nome. Como ele não respondeu, ela mesma disse: “Tá vendo, ele nem sabe o nome da gente. Que coisa heim”. Rapidamente ele reagiu a essa provocação e disse: “Mas eu tenho na minha memória um apelido para cada uma e que me faz saber quem realmente vocês são”. Dito isso, ele se dirige à sua deusa, que realmente estava deslumbrante, embora em trajes simples - e isso lhe pareceu fascinante, pois exibiam todas as suas curvas e detalhes, incluindo os cabelos cacheados. E questinou-a num tom de ousadia e ao mesmo de esperança de ser acolhido definitivamente como alguém amado e aguardado: “Não é mesmo, Branquinha”??? Ela, que até poucos instantes estava séria e completamente deslocada, abriu um sorriso por trás da máscara, intensamente percebido pela mudança de olhar e movimentos no corpo que traduziam inquietação e desejo de provocar e seduzir. Nem precisava. Atordoado com aquela reação, ele chegou mais perto dela e mirou o celular no seu rosto, que estava de perfil, disparando a câmera de fotos. Teve a petulância de posicioná-la na vertical para captar todas as curvas, acentuadas pela calça apertada. Era um jeans azul que combinava perfeitamente com aqueles olhos que brilharam quando ele disse “Branquinha”. Ela se arrumou e corrigiu várias vezes sua posição e suas vestes e não disse uma única palavra. Continuava sorrindo. Ele perguntou por que seu nome não estava mais na lista dos treinamentos semanais. Então ela respondeu que também não tinha entendido o que ocorreu. Diferente dos demais, ela tinha sido dispensada de assistir as aulas. A conversa não passou disso. Ele se afastou para não gerar mais suspeitas, voltou para o lugar onde estava e permaneceu fingindo que estava prestando atenção nas apresentações artísticas. Não tirou os olhos dela o tempo todo, até que chegasse hora infeliz e angustiante de ir embora. E foi. Sem despedidas e olhares. Não olhou para trás.

Chegando em casa foi direto ao computador e abriu o Facebook. Não lembrava realmente o nome. Mas, incrivelmente, deparou-se com uma publicação dela, confirmando que eles já eram amigos. Curioso para ver as imagens do álbum, nem prestou atenção no nome. Parece que desligou essa informação. Era um nome que nada tinha a ver com ela. Viu todas as fotos que queria ver. Não havia ninguém que pudesse ameaçar aquela nova possibilidade de acontecer algo entre eles. Ao contrário de Giliatt e Déruchett, ele e Branquinha poderiam realizar algo em comum, cada um na sua. Saiu da página e foi cuidar de outras coisas. Horas mais tarde voltou para rever as fotos. Não conseguiu achar. Buscou de todas as formas, mas não conseguiu, simplesmente porque não se lembrava do nome dela. Lembrou da amiga, a qual também não lembrava o nome, mas que sempre o procurava para pedir informações sobre os cursos. Foi no whatsap e encontrou um contato, mas estava sem nome. Foi lendo as mensagem e numa delas encontrou uma saudação: "Oi, é a Juliana de tal". Com esse nome ele descobriu que também eram amigos no Face e conseguiu chamá-la no Messenger. Inventou uma desculpa burocrática para chegar onde queria: “Juliana, boa noite. Você está fazendo o curso novo né. Então, fala para a Branquinha para ela se inscrever porque é bom para o currículo”. A resposta veio de imediato, exatamente como ele queria. “Eu vou passar o número e o senhor liga pra ela”. E assim foi feito. Enviou a mensagem para a Branquinha e logo veio a resposta, dizendo que ia fazer tal curso (Tá bom...). Diálogo falso, mas cheio de esperança. Na foto do perfil do whatsap ela estava sorridente e maquiada. Foi dormir feliz. No dia seguinte, quando lembrou da trabalheira que teve e na vitória que tivera na investigação e busca, abriu o contato no qual constava o nome Branquinha, porém ela não estava mais sozinha. Branquinha tinha um Ebenezer. Não ficou abalado, nem decepcionado. Achou óbvio. Tudo fingimento. Não estava em condições de cair em si. Naquela semana ele tinha visto um documentário sobre Vinícius de Moraes e ficou sabendo que o poeta, com 60 anos, havia se casado cum uma musa de 18 anos. "Ele bateu os olhos na menina, que era noiva, convenceu ela abandonar o noivo e se casar com ele. Casaram-se e foram morar em Paris", relatava a famosa atriz e amiga de Vinícius. O casamento durou seis anos e eles tiveram dois filhos. O treinador deixou passar alguns dias e tentou um novo contato, mas não deu muito certo. Não se falaram mais. Algumas semanas depois apagou o contato dela no whats. Meses depois teve uma recaída. Vendo algumas fotos dos treinamentos, achou uma na qual Branquinha fez questão de entrar na frente do seu celular para roubar a cena que ele estava registrando. Já tinha esquecido quase tudo o que tinha acontecido, mas constatou que era fuga. Voltou a ver Branquinha de olhos fechados. Pegou novamente o número dela no Messenger de Juliana, mas não teve coragem de ligar. Não viu mais as postagens dela. Quase um ano depois, escreveu bilhete para Branquinha no qual reconhecia sua derrota sentimental e também uma fantasia totalmente diferente das que tinha tido anteriormente. Só escreveu, porque achou imprudente enviar, pois, ao contrário de Branquinha, continuava incapz de aceita a verdade:

"Nessa existência não podemos estar juntos. As barreiras, naturais e sociais, nos separam e nos afastam. Não podemos nos beijar como eu gostaria, nem abraçar e nos aquecer dormindo. Mas na próxima vida vou pedir a Deus para que eu esqueça tudo o que aconteceu – não foi muita coisa, só fantasias -  e isso é fácil esquecer. Já terei partido e, no outro mundo, compreendido o que relmente aconteceu comigo, esse descompasso de tempo. Precisarei voltar para a carne e aperfeçoar esse sentimento inconcluso ou imaturo. Você mesma dará o sinal pelos seus pensamentos. Daí vou encolher até que minha alma se torne o pequeno ser imaginado por você daqui a alguns anos, que aparecerá nos seus sonhos maternos. Assim, encontrando a porta aberta  das suas aspirações, me instalo no seu útero e fico bem quietinho, sem que você saiba quem sou eu, embora tenha de alguma forma a intuição de que seja eu. Quando eu vir à luz, depois de saciar alguns desejos de gravidez, que na verdade serão os meus desejos, você vai chorar e vai se lembrar de mim sem saber o motivo. Quando estiver me dando banho ou dando o peito para eu  mamar, vai perceber algo diferente. Vai percorrer com o dedo indicador cada detalhe do rosto e das mãos do seu bebê; e quando ele abrir os olhos, embriagado de amor e leite, você vai lembrar de mim, de quando você corria cheia de alegria e vida para beijar meu rosto quando nos encontrávamos na ponte.  Terei outro nome, outro rosto, outro papel para representar na sua  vida, mas os olhos serão os mesmos e sempre que nos olharmos você vai sorrir e ficar pensando:  “De onde saiu essa criaturinha...”
  

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O CENTRO CÍVICO E O GENERAL 

No final dos anos 1970 o Brasil ainda vivia o clima patriotismo do regime militar. As escolas eram os mais importantes núcleos do culto nacional, de olho nas futuras gerações conservadoras, um grande jogo de aparências e negócios monopolistas que começava a ser questionado com mais intensidade pelas forças democráticas. Mas uma boa parte da sociedade ainda se sentia segura e protegida pelos quartéis. Não havia quadras esportivas na maioria das escolas de São Vicente, devido a escassez de espaço urbano. A nossa era a E.E. Augusto Saint-Hilaire, que havia sido construída num grande terreno ao lado do rio Sapateiro, na avenida Martins Fontes. Antes ela se chamava Escola Vidrobrás, já que o prédio tinha todas as janelas protegidas por vidros aramados procedentes da grande fábrica de vidros que funcionava em frente da escola, do outro lado da linha da E.F. Sorocabana. A Vidrobrás deve ter financiado a construção da escola ou parte significativa dela. Isso deve ter acontecido nos anos 1950, pois, na época dessa história as instalações já estavam bem deterioradas. Nossas aulas de educação física eram feitas no terreno baldio ao lado ou então, uma ou duas vezes na semana, o professor agendava para as turmas fossem até o quartel do então Batalhão de Caçadores -2ºBC, para a prática de atletismo. Era uma moda e também uma forma de manter as boas relações do Exército com a população. Várias escolas participavam do programa. Nesse mesmo contexto existiam nas escolas, como força  ideológica, os centros cívicos, um exercício de democracia vigiada. Tínhamos uma nova direção e logo os professores foram convencidos de que o Saint-Hilaire deveria ter um grupo político mirim nesse modelo. Fui leito presidente. Estava na sétima série e era dois anos mais velho do que a minha turma e com um passado problemático. Tinha sido convidado a me retirar da E.E. Zulmira, no Voturuá , por causa de uma malcriação e briga com uma funcionária da escola. Para se vingar a mesma pediu a um aluno maior do que eu  que fizesse justiça. Apanhei na entrada do período. Minha mãe foi conversar com o Delegado de Ensino, que morava perto de casa, e ele resolveu me transferir para o Catiapoã. Era um longo percurso à pé, mas valeu a pena. Mudou tudo. De provocador de brigas fui promovido a conciliador. Eleita a chapa, tínhamos que mostrar serviço. Os professores ficaram entusiasmados com a mudança. Para nos ajudar , o professor José Gomes ordenou a montagem da peça O Noviço (que ensaiamos durante um ano e nunca foi apresentada). O professor Ênio, de Geografia, encomendou um trabalho e uma exposição sobre os  principais países. O meu grupo pegou a França. Naquela época ninguém fiscalizava a idade dos passageiros de ônibus e fui sozinho a São Paulo, no escritório do Consulado da França, no Conjunto Nacional da avenida Paulista, em busca de informações e material. Fui muito bem atendido e saí de lá com duas sacolas abarrotadas de revistas, mapas e folhetos de turismo. Conhecia todas as  estações do metrô da única linha azul e sempre descia na Sé para percorrer as livraria espíritas (era responsável pela biblioteca do C.E. Irmão Timóteo, na vila Valença).  Mas não bastou. Inventamos de pintar a escola. Estava muito feia. Encontramos o prefeito Koyu Iha na rua Frei Gaspar e pedimos ajuda. Ele disse que providenciaria as tintas, mas que não tinha mão-de-obra naquele momento. E sugeriu que pedíssemos ajuda ao comando do 2° BC. E foi feito. No dia da nossa aula no quartel, pela manhã, aguardamos a chegada do comandante enquanto fingíamos alguns exercícios. De repente entrou um carrão diferente e um soldado amigo nos deu um sinal do tipo: “O Homem chegou”. O professor , já sabendo da trama, sumiu na pista de corrida para disfarçar. O Comandante nem havia descido do carro e foi assaltado por gritos da nossa turma. “Coronel, Coronel”. O João Vicente foi o único que  destoou na gritaria dizendo “Ô seu General” (quase linchamos ele). O Comandante e seu ajudante de ordens parecia já saber da nossa intenção e aguardou o nosso pedido. Não prometeu nada mas disse que, ainda naquela semana, iria fazer alguma coisa. No dia seguinte, quando chegamos para as aulas, à tarde, vimos uma movimentação estranha na escola. Em frente estava estacionado um caminhão Mercedes coberto com lonas verdes.  As meninas estavam eufóricas, pois haviam pelo menos uns 30 soldados, todos de tênis, chorts e camisetas regata, se movimentando dentro e fora da escola, com facões, vassouras, latas de tinta (cal), enxadas e rastelos. Quando deu o sinal de entrada, o Luiz, secretário da escola, apontou o dedo para o nosso grupinho e disse: “Aprontaram né, sem avisar agente gente né. Isso não ficar barato não”. Disse em tom de ameaça, mas não conseguia esconder a emoção de ver aquela agitação toda na escola. O João Vicente, apavorado, disse que ia fugir para São Paulo e se esconder casa dos tios. O Luiz  me chamou num canto e justificou falando baixo: “O Homem veio aí  e foi logo perguntado da diretora. Ela não estava (nunca estava). Depois foi conversar com os professores e foi embora meio chateado...” 

Resultado: a escola foi limpa, arrumada, pintada e a diretora nunca mais apareceu mesmo. 



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OS LIVROS E OS CADERNOS DA MENINA FILOMENA


A  Escola Estadual Martim Afonso, na primeira quadra da rua José Bonifácio,  talvez seja a única na cidade a não ter uma quadra de jogos e espaço para a prática de esportes. Desde à sua instalação próximo à orla até os dias atuais, em alguns períodos, os alunos atravessam o ano letivo e seus ciclos escolares inteiros sem aulas práticas de educação física. A escola foi  construída alí no final anos 1950 próxima à praia e num bairro onde o metro quadrado sempre foi muito valioso. No início essas aulas comuns aconteciam em prédios improvisados; e as de atletismo eram feitas no calçadão da orla e na areia praia. Era um tempo em que a cidade era mais tranquila e os alunos podiam ir e vir sem causar preocupações aos pais e educadores.

Mas nem as coisas nem sempre foram assim.

Reza a lenda que, certa feita, um grupo de meninas do Martim Afonso saiu da escola - que na época funciona na mesma rua, porém  na instalação de antiga pensão - e foram em direção à praia para realizar alguns estudos e colocar assuntos específicos em dia. Estavam de aula vaga. Não satisfeitas com os bancos do calçadão, tiraram os sapatos e entraram na areia, sentando-se num alegre círculo, colocando os cadernos e livros no chão para ganhar tempo até quando chegasse a hora de irem para suas casas.  Eram minutos preciosos de liberdade e diversão. Uma delas, em incontido e inexplicável impulso,  sem que nenhuma delas discordasse e impedisse, resolveu por si refrescar os pés no vai e vem das ondas. Sob a curiosidade e até inveja de algumas, ela foi entrando lentamente no mar até que as águas cobriram seu corpo, restando somente  a cabeça e os braços estendidos dos ombros em movimento de equilíbrio, dando a impressão de que flutuava. E assim permaneceu por alguns minutos até que as amigas se distraíram e não perceberam que ela havia desaparecido complemente de suas vistas. Todas em pé, algumas se aproximam da água, olham para todos os lados e busca da colega e nada avistaram. Nos rostos, a angústia e algumas lágrimas desespero, já querendo respostas para o que acabara de acontecer.

Como explicar aquele súbito desaparecimento? O que diriam aos pais dela, aos professores e às suas famílias?

Voltaram apressadas para a escola e alertaram a direção. Nesse ínterim, no calçadão e na areia, já havia alguns curiosos querendo se inteirar da novidade. A notícia se espalhou rapidamente e chegou à delegacia de polícia, que ordenou rapidamente as buscas. Diferente dos turistas que se afogavam por distração ou suicídio deliberado, a menina parece ter sido tragada rapidamente por uma força estranha, sem nenhuma resistência da parte dela. Sumiu no mar.

Como acontece com a maioria dos afogados, o corpo da jovem estudante, sugado pelas águas e por impulso da maré, seria encontrado dias depois boiando próximo da Pênsil na direção do Mar Pequeno. Uma tragédia diferente daquela que atingem turistas desconhecidos. A moça não era desconhecida e sim uma menina de 14 ou 15 anos, agora mais do que nunca, muito conhecida na cidade. Uma grande comoção popular tomou conta dos vicentinos no velório e sepultamento. 

Mas naquele dia fatídico e inesquecível, quando todos se retiravam do local onde ocorrera o sinistro, alguém olhou para trás e avistou alguns pertences na areia. Foi até o lugar e, no chão, onde haviam se sentado  em círculo, e  viu que lá ainda estava os cadernos, os livros, o par de sapatos e as meias da colega desaparecida para sempre. O par de sapatos e as meias foram devolvidos para a família. Os livros e os cadernos foram conservados em segredo entre as colegas, que guardaram como lembrança e depois um preciosa  relíquia usada em suas orações para matar saudades da amiga e também auxílio místico em outros momentos de angústia e incerteza. Que segredos poderiam conter nas anotações dos cadernos ou notas esparsas dentros livros? Que força estranha e secreta teria impulsionado seu mergulho para a morte? Teria sido uma simples fatalidade, causada por um mal estar súbido, um choque de temperatura e congestão? Ou então uma queda acidental numa cava formada pela maré? Escondia ela algum segredo íntimo que se transformou em tormento e que jamais poderia ser revelado? São dúvidas que só ela ou alguém muito próximo poderia esclarecer. 

Foi assim que, aos poucos, esse hábito de cultuar esses objetos entre as amigas mais íntimas da jovem estudante afogada espalhou-se como devoção popular entre mulheres religiosas, que passaram a levar livros e cadernos dos seus filhos colocando-os sobre o túmulo da Menina Filomena. Era assim que ela se chamava, talvez,  em homenagem à menina martirizada aos 13 anos em Roma e que depois se tornou santa.  O túmulo da menina Filomena, sem que a família pudesse ter algum tipo de controle,  durante muitos anos ficava repleto de livros e cadernos no dia de Finados; e também recebia a visita em dias comuns, quando as causas e pedidos de ajuda não podem esperar o distante dia dos mortos no final do ano. Também pode ter sido por isso que, de tempos em tempos, as aulas práticas de educação física no Martim Afonso são suspensas sem maiores explicações. 



NOTA de Nelson Jose Gonçalves

"Conheci Filomena, nos chamavamos de Filó, menina magra de cabelos compridos até a cintura e sua irmã de olhos verdes muito bonita, moravam na rua Marcílio Dias do Nascimento, no Catiapoã, terceira casa descendo do lado da vila sorocabana perto da praça Walter do Amaral, seu pai sr.Tibúrcio, foi candidato a vereador mas não ganhou. Me lembro de uma passagem eu estava brigando em frente a sua casa com meu amigo Miguelzinho camisa preta por causa de bolinha de gude e ele sr. Tibúrcio saiu no portão: "Ei meninos o que vocês estão fazendo aí", entrou na briga para separar-nos e mandou todo mundo para casa. Isto aí que aconteceu com a Filó me entristeceu muito quando soube que ela tinha
morrido afogada. Eu tinha na época 14 para 15 anos, ela também quase a mesma idade; foi enterrada com seu vestido de primeira comunhão. Me lembro como se fosse hoje. Isto ocorreu mais ou menos em 1958, não em 1949. Foi um choque para todos nós. Moro em São Paulo e todas as vezes que desço à Baixada para ver meus parentes e visitar o túmulo de meus pais, visito a quadra nr. 08 do cemitério de São Vicente onde está enterrada Filó, companheira de infância. Seu túmulo está cheio de placas grudadas de (milagres) graças alcançadas". 

Comentário feito no grupo Amigos do Martim Afonso - Facebook.




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QUEM É O MIGUEL DE VOCÊS DOIS?







O Fred até que se virava bem em cima de uma prancha, quando conseguia alguma emprestada. Eu nem isso conseguia. Era subir e logo escorregava, com ou sem parafina. Mas queríamos ser surfistas. Nem que fosse de fachada. Camiseta Hang-Ten, shortão de naylon até o joelho, chinelas Havaianas pretas viradas com a sola pra cima. A gente só não passava água oxigenada para descolorir cabelo porque iria ficar ridículo. O resto a gente fazia de tudo. Éramos dois surfistas sem pranchas. Também não queríamos ser chamados de paneleiros, surfistas pobres da periferia, com aquelas pranchas surradas e cheia de buracos. Bem trajados e bem informados, frequentávamos todos os points possíveis da onda surf do Itararé, principalmente a Sorveteria Royal, na esquina da Onze de Junho com a praia. Lá fervilhava toda a rapaziada e as cocotas mais lindas e ousadas da cidade. Eu e o Fred lá, completamente deslocados e só relaxávamos quando alguém vagamente conhecido nos cumprimentava. Um deles era o Carlinhos Piranha, muito legal, amigo do meu irmão mais velho. 

E assim sucediam-se os sábados à noite, quando não íamos ao Gonzaga tomar lanches, ver discos recém lançados em várias lojas e ou assistir à sessão da meia noite, volta e meia exibindo “Rock é Rock Mesmo”, documentário sobre um show do Led Zeppelin em Nova York. 

Certa noite no meio da semana, conversando na calçada da rua Rio de Janeiro com alguns colegas, ficamos sabendo que alguém tinha aberto uma fábrica de pranchas na rua Dom Lara. Era novidade numa época que só existia a Twin, na rua da Constituição. Era chance de conhecer como eram fabricadas as pranchas (só víamos fotos em revistas) e, quem sabe, um comprar uma. A iniciativa foi minha. O Fred, sempre muito cético, achou engraçado e topou ir comigo. Não confiava muito em mim, mas era amigo fiel. Virou engenheiro, depois advogado e eu professor de História. 

Combinada a visita, fomos até a rua Dom Lara, caminhando pelo canal da Monteiro Lobato. Não tínhamos certeza qual era a casa. Quando chegamos na padaria ( hoje Ponto Chic) vimos dois rapazes conversando na esquina, do outro lado do canal. Eram surfistas. Um deles era o Fumaça, gordinho e com o cabelo black-power, levemente descolorido. O outro deveria ser o Miguel. Só podia ser. Era parecido com o irmão mais novo que estudava no Martim Afonso. Era ele sim. O Frederico ficou em dúvida e só concluímos que dos dois a gente só conhecia de verdade mesmo era o Fumaça. Paramos e ficamos observando. Ficamos tanto tempo parados que eles começaram a ficar desconfiados. Entre alguns minutos de “vamos ou não vamos” tomei a decisão e partimos em direção aos dois. Pensava e repetia comigo: Vou perguntar: “Quem é o Miguel de vocês dois”? Um deles vai responder “Sou eu”, lógico. Chegando perto, percebi que os dois nos olhavam com extrema desconfiança e fui logo dizendo, bastante tenso e nervoso: 

- Quem é o Miguel de vocês dois? 

E eu mesmo respondi: SOU EU! 

O Fred começou a rir e não parava mais. E eu tentado manter a pose. 

Foi muito difícil explicar o que o que tinha acontecido. Acho que não conseguimos. Perguntamos onde era Ocean Side , a fábrica de pranchas, e o Miguel gentilmente explicou o endereço e marcou um horário pra gente conhecer a oficina. Nunca fomos e eu só veria o Miguel novamente uns 30 anos depois saindo de uma missa dominical noturna, na Igreja de São Jorge Pescador, em frente de uma lojinha de moda praiana que fica na esquina da Onze, onde era a Royal.

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NA BOCA DO SAPO


Ela dizia claramente ser uma feiticeira. Falava alto, para chamar a atenção, reclamando que o caso não ia ficar por isso mesmo. O motorista do ônibus passou direto e a deixou falando e gesticulando sozinha no ponto. Sentiu-se desprezada e, inconformada, soltava todos os palavrões possíveis para ofender e se vingar do motorista que a abandonou em meio a uma chuva intensa, com ventos fortíssimos e trovões assustadores. Como ela, todos no ônibus que ia para a área continental, ficamos molhados enquanto esperávamos no ponto improvisado do outro lado da ponte. O abrigo não tinha proteção lateral e a chuva de vento nos deu um banho indefensável. Tinham vários ônibus parados no terminal e que poderiam ter abrigado os passageiros, mas permaneceram fechados porque os motoristas estavam em horário de almoço. Mas a mulher não reclamava disso. Sua raiva era por ter sido recusada num ponto da área insular. Não reclamou por ter que atravessar a ponte à pé nem pela chuva que tomou. Queria vingança contra o motorista que virou o rosto e fingiu não vê-la. Isso era imperdoável. Tanto que ela repetia a cada final de conclusão das suas reclamações: “Eu anotei o número do carro. Quando chegar em casa, vou ligar na empresa e descobrir quem é ele”. Dizendo isso olhava na direção do outro motorista, o que nos conduzia serenamente e que de vez enquanto olhava pelo espelho retrovisor para observar os movimentos da passageira indignada. Como ele não respondia às provocações, a mulher acentuou as ameaças: “ Eu vou colocar o nome dele na boca do sapo. Ele vai sentir o mesmo que senti quando fiquei lá no ponto”. Essa última ameaça mudou o tom da sua fala e também a impressão que ela passava inicialmente aos passageiros. Quem estava em pé e perto dela se afastou e foi procurar outro lugar para se acomodar. Muitos se entreolharam com um misto de medo e ironia pela autodeclaração de feiticeira. O clima no ônibus foi ficando tenso e desagradável. A ameaça de colocar o nome na boca do sapo foi repetida diversas vezes, causando pavor e também indignação em algumas pessoas. Alguém deve ter pensado: ônibus cheio, ela quer sentar e ninguém ofereceu assento. Isso explica tudo. A pessoa que deve ter pensado isso, um senhor visivelmente preocupado com seu desconforto, chamou-a para perto de si e ofereceu o seu assento. Disse a ela pra não ligar para o que aconteceu e que talvez o motorista nem tenha visto ela mesmo. Ela aceitou a oferta, porém discordou do seu benfeitor dizendo que não, que ele fez aquilo de maldade, “pura maldade”, mas ele ia se ver com ela. Ia colocar o nome dele na boca do sapo. Dito isso, pela décima vez, um passageiro comentou: “Coitado do sapo, que culpa ele tem..." Vendo que todos concordavam que o sapo não tinha nada a ver com o caso e que não deveria ser sacrificado, a mulher mudou o tom da ameaça e passou a explicar que, na verdade, o sapo era modo de dizer. Realmente ela ia colocar o nome do motorista na boca do sapo, porém o sapo não era de verdade. Era um sapo de araque. “Não se usa mais sapo de verdade”, explicou, dando a entender que o feitiço tradicional e muito conhecido também sofreu mudanças nos últimos tempos. O sapo agora era de plástico, sem sacrifício do animal. Era um "feitiço ecológico". Quase ecológico, mas muito melhor do que o não ecológico. Antes de descer no primeiro ponto do Quarentenário, a mulher já estava sorrindo e conversando em voz baixa e deu até boa tarde à todos que seguiram a viagem.



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ROSE MAURA






Nos anos 70, apesar da ditadura militar, com exceção do leste europeu, China e alguns satélites soviéticos, o Brasil e o resto do mundo ocidental vivia mergulhado numa cultura hippie e libertária. Tínhamos costumes que hoje seriam considerados abusivos e criminosos com vender, sem controle, cigarro e bebidas alcoólicas para crianças e adolescentes. Havia um fascínio pelas drogas e também pela liberdade sexual. Era a época dos mochileiros e dos acampamentos, bem como dos festivais de música ao ar livre, imitando as loucuras psicodélicas do final da década anterior nos EUA e na Europa. Não foi a minha geração, mas vivíamos envolvidos nessa moda através dos irmãos mais velhos, que compravam discos e revistas sobre rock. A mais conhecida era a americana Rolling Stone. Em 1974 mudamos do interior para São Vicente e fomos morar no jardim Independência. Em 1976 fui estudar numa escola inaugurada naquele ano e que ficava na divisa dos Tambores. Era uma novidade para a garotada que via nesse acontecimento a oportunidade de respirar novos ares e fazer novos amigos. E fiz vários deles, cuja amizade perdurou bastante tempo até que a idade e os compromissos foram naturalmente desfazendo. Essa escola foi construída na Praça Estado de Israel, num terreno em formato circular , bem em cima do marco divisório entre São Vicente e Santos e as duas Vilas São Jorge. Parte do prédio em Santos e a outra parte em São Vicente. Foi batizada Ginásio Estadual Cidades Irmãs e hoje se chama Neves Prado, em homenagem à antiga e conhecida inspetora de alunos do Ginásio Martim Afonso. Dona Neves era mãe de um alto funcionário da Secretaria da Educação. Era uma grande novidade frequentar aquela escola enorme, feita de concreto armado e com paredes de tijolos de cerâmica à vista. Não tinha muros nem vandalismo. Fui matriculado na sexta série do período noturno, com 13 anos de idade. Era normal. Os adolescentes começavam a trabalhar bem cedo e precisavam estudar à noite. Eu já havia passado pela quinta série noturna da E.E. Sorocabana, na avenida Antônio Emerich e foi lá fiquei sabendo da inauguração da escola Cidades Irmãs. Fui acompanhando uns colegas, sobretudo o Rafael, que morava perto de casa, na rua Espírito Santo. Ele morava com uma irmã casada. Gostava de boa música e do estilo hippie praiano. Nessa época não tinha asfalto nas ruas dos bairros dessa região. Tinham as pedreiras e a única rua calçada era a velha Anita Costa, cheia de chalés de madeira e paralepipedo no chão. Na Vila São Jorge não tinha esgoto nem calçamento. Tinha aquelas valas abertas de esgoto, cuja água escura cheirava a coisa podre. Com o tempo a gente acostumava com o cheiro e a má aparência das casas. Um pouco mais próximo à Santos já existia um conjunto residencial de casas de cosipanos e outros industriários que trabalhavam em Cubatão. Um núcleo semelhante, menor, foi feito na Vila Melo, próximo da Igreja Nossa Senhora da Graças. Tomava banho e saía de casa às seis horas da tarde, quando terminava o desenho Tom e Jerry. Era uma caminhada longa de quase seis quadras. Em dias de chuva tínhamos que ir pela Antônio Emerich, passando pelo Quartel até chegar no Guassu e nos Tambores. Ali descíamos pela avenida divisória para chegar à escola. Na volta, às 11 horas da noite, a mesma coisa: dependendo do clima e da estação do ano, chuva, céu estrelado com lua, calor ou inverno, se tivesse gente nas ruas íamos por dentro. Se não, voltávamos pela avenida. Fiz alguns amigos que moravam na Vila São Jorge Vicentina, como o Donizete. Ele morava numa casa de alvenaria num terreno isolado, de poucos vizinhos, em frente a um campo de várzea e ao morro, cortado pelo antigo rio São Jorge, na época já com canal aberto, mas com muito mato em volta. A casa do Doni era perto da Bica dos Escravos. Era surfista e freguês da Twin, sempre bem vestido. Outro amigo importante foi o Toninho, filho de nordestinos, morava numa daquelas ruas apertadas da Areia Branca, atrás do cemitério. Eu nunca conseguia memorizar a casa nem a rua. O Toninho era playboy brega, ainda usava cabelo black power, aquelas calças de tergal boca de sino, camisas com estampas extravagantes e sapato de sola e salto altos. Interessante que a irmã dele, mais velha, era diferente e tinha um namorado também diferente. Eles curtiam MPB e foi com eles que conheci os discos do Gonzaguinha. Perceberam que tinha gostado e me tratavam muito bem, mostrando os discos do Fagner, Belchior, Dominguinhos e Gilberto Gil. Naquela época namorar era isso, levava para a casa da mina uma vitrola e alguns discos para regar os beijos, abraços e carícias. Eu admirava e invejava os dois, o estilo deles. Nessa época meus irmãos ouviam rock progressivo (Emerson, Lake e Palmer) e MPB sofisticada: Milton Nascimento, Egberto Gismonti, Novos Baianos. Eu gostava de Jean Luck Ponty, música para viajar de olhos fechados, cósmica.

Na minha sala de aula aconteceu um fato perturbador. Ainda tinha coragem de sentar na frente e duas fileiras depois da minha sentava uma garota chamada Rose Maura. Era linda, morena clara, de cabelos pretos, baixa estatura e corpo esbelto. Usava saia curta, mostrando as pernas muito bem contornadas. Me apaixonei de cara. Ela logo percebeu a minha queda e abusava da minha ingenuidade. Eu sempre deixava, de propósito, um Choquito ou um Diamante Negro em cima da carteira para chamar atenção dela. No começo ela nem ligava, mas depois percebeu a minha intenção e começou a ser mais gentil comigo. Às vezes aceitava a oferta, à vezes não, para não dar na vista. Era encantadora, uma criança querendo ser adulta. Ela dizia pra mim: “Eu já sei o que é a vida, tenho 15 anos nas costas”. Tinha 13 também e ia fazer 14. Morava na rua Maria Patrícia, depois da Areia Branca. Quem me mostrou a casa dela foi o Toninho, num sábado à tarde. Rose Maura tinha uma irmã mais velha, Márcia, que ela chamava de Picita. E uma prima, que fingia gostar de mim, e que morava no Guassu. Quando chegava na escola e subia a rampa em direção a sala de aula, sempre me perguntava se tinha chocolate. Respondia que não, mas oferecia sempre uma bala. Ela aceitava e ficava olhando pra mim com um ar de menina mais velha que sabia que não rolar nada sério. Era muito tímido, não conhecia o jogo nem as regras, um desastre. Não tive a menor chance com a Rose Maura. Mesmo usando roupas de marcas –emprestadas do meu irmão mais velho- e dando quilos de chocolate pra ela. Não virou nada. Ela era apaixonada por um cara bem mais velho, figura que todos gostavam, pela sua presença e simplicidade. Era o Macalé. Quando via os dois indo embora abraçados chegava em casa arrasado. Tinha vontade de beber algo forte. O Rafael me dava o maior apoio e nós comprávamos vinho licoroso para encher a cara. Eu tinha um diário e relatava tudo o que acontecia na escola. O nome Rose Maura aparecia em praticamente em todas as folhas desse caderno. Tinha um professor de Matemática, bonitão, boêmio do Gonzaga, que olhava pra ela e despejava elogios, sem malícia, falando da beleza dela com classe e alegria no rosto. Ela se derretia e eu ficava muito preocupado. Fui perdendo o interesse, meio à força. Chegamos no final de abril, quase maio. O centro cívico marcou um baile de férias, sábado à noite. Fomos eu e o Rafael, de cara cheia de vinho licoroso. Chovia muito e já fazia aquele frio de quase inverno. Mesmo assim formos por dentro, andando em meio ao lamaçal das ruas desertas. Chegando na praça não vimos quase ninguém fora da escola. Ouvimos um som de vitrola tocando Estúpido Cupido, da novela de Mário Prata. Também tocava a trilha da novela Escalada. De vez em quando um pagodinho do Agepê, sob protestos, e depois Nazareth, Led Zepelin e outras bandas que as meninas não gostavam. Queriam ouvir Love Heart e Tender Ness, também trilha de novelas. Pra minha extrema decepção, não apareceu ninguém que esperava. Nem a prima do Guassu. O Doni estava de carro, já tinha carta. Ofereceu carona. A mina que ele gostava também não apareceu. O sábado foi uma bosta e o baile terminou mais cedo. Voltei pra casa e fui encarar a Sessão de Gala, na Globo, seguida do Corujão. Nessa noite deve ter sido exibido “Os Pecados de todos nós”, com Paul Newman; e depois “Pic Nic”, com Kim Novac, já de madrugada. Mas gostava mesmo das reprises de “Vidas Amargas”, com James Dean. Me identificava com a história e com o irmão dele, que namorava a mocinha linda da cidade, e depois morreu na guerra. 

Na virada do semestre mudei de vida e de escola. Nunca mais voltei lá. Quando percebi, já era 1977 e 1978, época do filmes “Embalos de Sábado à Noite”, Greese e da novela Locomotivas. Foi a explosão mundial das discotecas e da novela Dancing Days. Eu odiava. Achava babaquice, todo mundo vestido igual e ouvindo Bee Gees repetidamente. Preferia ver os shows da Rita Lee e Tutti-Fruti (Babilônia) e Hermeto Pascoal, num cinema desativado da Conselheiro Nébias; e do Gilberto Gil (Realce), no ginásio do SENAC. Começavam outros tempos. O mundo dos Yuppies e da cocaína. Logo chegaria os computadores e os games. Nunca mais vi o Rafael. Por onde andará Rose Maura?



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ANOS 80, ENTRE SÃO VICENTE E EM SÃO PAULO





Morei em São Vicente pela primeira vez entre 1974 e janeiro de 1985, quando pedi demissão da Liquid Química em Cubatão. Em 1985 fui para São Paulo acompanhar minha família. Minha mãe finalmente tinha conseguido realizar o sonho dela: morar e trabalhar em São Paulo. Fomos residir na região do Butantã, especificamente no Jardim Bonfiglioli, entre a Avenida Corifeu de Azevedo Marques e a rodovia Raposo Tavares, altura do quilômetro 13. 

Já era fascinado pela grandiosidade paulistana, que visitava com frequência desde o final da década de 1970. Durante a semana, trabalhando como voluntário do Centro Espírita Irmão Timóteo e do CVV, sempre subia a Serra para comprar livros para abastecer a livraria do centro (o qual eu era responsável). Além das visitas frequentes à Editora Aliança e Secretaria do CVV, na rua Genebra, percorria os principais pontos de venda de livros e discos no eixo Maria Paula-Praça da Sé. Meu pronto preferido era a Livraria Freitas Bastos. 

Em São Paulo as coisas eram bem diferentes. Sempre foram. Sem dúvida, uma cidade de muitas faces e oportunidades. 

Fui estudar História na PUC e lá entrei definitivamente na educação. Como estudante, dava aulas no Colégio e no Curso Objetivo. Também lecionava, como estagiário, num supletivo de funcionários da manutenção do prédio da Secretaria da Fazenda, na Avenida Rangel Pestana, através da FUNDAP. Saía de casa às cinco da manhã e só voltava as onze ou meia noite.  Estava mais fascinado ainda pelo ritmo elétrico da cidade e por tudo que estava acontecendo naquela época. 

Certa vez, não sei por qual motivo, enfiei na cabeça que queria ser redator de publicidade. Tinha pensado em fazer jornalismo, mas esse desejo há muito não me atraia mais. Matriculei-me, então, numa oficina de texto publicitário na Escola Superior de Propaganda e Marketing-ESPM, cuja sede ainda era na Rua Rui Barbosa, no Bexiga, próximo do Teatro Franco Zampari (onde o Faustão gravava o Perdidos na Noite). As aulas eram ministradas pelo escritor Ricardo Ramos (filho do Graciliano e parecidíssimo com o pai). Foi o verão mais deslumbrante (literalmente) que passei em São Paulo ouvindo mil histórias e experiências da propaganda brasileira. Fiquei tão animado que comecei a pesquisar textos publicitários de todas as épocas, para aprender estilos, vocabulário, macetes, intenções, superlativos, adjetivos, slogans, títulos, enfim, tudo sobre essa arte que antigamente era exercida nas agências pelos melhores escritores e jornalistas: Orígenes Lessa, Mário Prata e dezenas de outros, como próprio Ricardo Ramos. Sabia que essa não seria a minha carreira, mas não deixava de sonhar com essa possibilidade. Não foi em vão, pois cultura e tecnologia a gente nunca perde e acaba sempre transformando em algo útil e diferente em situações e diferentes circunstâncias. 

Realmente ainda tem gente que pensa que os anos 1980 foram uma década perdida e concordo, radicalmente, que, ao contrário, foram os anos nos quais foi inventado o século XXI, a Era da Informação e do Conhecimento. Foram muitas mudanças importantes: o surgimento da informática, a redemocratização no Brasil, a queda do Muro de Berlim, o fim da Guerra Fria, as guerras na Iugoslávia e no Golfo, enfim, mil coisas ao mesmo tempo. Dava aulas de manhã e à noite e estudava no período da tarde, no campus das Perdizes. Época maravilhosa, na qual ocorreu a minha formação intelectual, proporcionada pela intensa vida cultural de São Paulo: o Centro Cultural do Paraíso, a USP, as livrarias e sebos no centro e em torno da PUC, feiras, cinemas alternativos, teatros, shows e grandes espetáculos ao ar livre no Ibirapuera.


Em 1986 a Polícia Federal invadiu a PUC quando assistíamos ao filme "Je Vous salue, Marie", proibido pelo governo Sarney. A PUC tinha uma história de invasões e violências na época do Regime Militar. Nesse dia, para fugir da polícia, os alunos atiravam a fita de vídeo do prédio velho para o prédio novo. Lá tinha uma molecada que adorava provocar e apanhar da polícia. Todos os anos eles levavam "bombas" de chocolate de presente para o Coronel Erasmo Dias (deputado), na Assembleia Legislativa. Erasmo havia invadido o campus em 1977, quando era secretário de segurança. Ele recebia cordialmente os alunos, mas sempre um deles, de propósito, falava um desaforo e ele, muito nervoso, perdia a paciência, começava a xingar e logo chamava a segurança.

PROFISSIONAIS, MESTRES E AMIGOS 

Permaneci no Objetivo por seis anos, uma grande escola de docentes. Tinha aprendido a dar aulas ainda na adolescência num centro espírita, com grandes oradores como Jacques e Sueli Conchon, Valentim Lorenzetti, Flávio Focassio e Adolfo Marreiro. Porém, o meu modelo de docência para grandes plateias, com quem praticamente dei os primeiros passos (e substituía eventualmente) foi o professor José Jobson Arruda, que era uma mistura de acadêmico e show-man., com aulas curiosíssimas sobre Grécia e Roma. Depois de assistir a uma aula dele sobre Maomé e a expansão muçulmana, nunca mais fui a mesma pessoa. Na cadeira de História tinha verdadeiros ícones do cursinho paulistano: Heródoto Barbeiro (depois jornalista e apresentador) e o grande Ciro Ramos, que “inexplicavelmente” era admirador do nazismo. Isso acontecia na unidade da Paulista, 900, no prédio da TV Gazeta e Fundação Cásper Líbero. Era registrado em três empresas: Di Gênio & Patti (Cursinho), Colégio Integrado Objetivo e Bricor (franquia). Trabalhei em vários bairros cujas unidades do Objetivo eram um autêntico reflexo social das classes, costumes e etnias da nossa pauliceia desvairada: na Paulista e Aclimação, os japoneses, coreanos, chineses e mestiços de italianos com orientais, de classe média; em Pinheiros, Altos da Lapa e Santo Amaro (região do Brooklin), muitos descendentes de italianos e judeus de classe média alta; no Morumbi e Alfaville, os ricos e novos ricos, filhos de grandes e famosos empresários, que não se adaptavam nos colégios tradicionais e mais rigorosos (Pueri Domus, Miguel de Cervantes, Porto Seguro, Augusto Laranja, etc.). Interessante lembrar que nas unidades onde frequentava a classe alta os professores eram muito bem tratados pelos alunos. Já nas unidades de classe média tínhamos muitos problemas de disciplina, que obviamente aliviávamos aparentando certa informalidade e irreverência ao expor as aulas, sobretudo os assuntos polêmicos. Os próprios professores da nossa turma e época eram uma complexa e rica diversidade étnica e racial. Ao sentarmos numa mesa para tomar chope e bater papo nas calçadas daqueles barzinhos de Cerqueira César, dava para ter uma ideia das nossas diferenças e semelhanças culturais: Gabriel Bandouk (palestino); James Kobayashi, Issao e Yumiko (japoneses); Wu (chinês); Moré (judeu, irmão do jornalista Gilberto Dimenstein); eu (mulato, neto de negros, nordestinos e húngaros); as irmãs Marisol e Nuricel, e Luizinho “Torquemada”- especialista em Inquisição - (espanhóis); Nogueira e Gomes (portugueses); as também irmãs Eva e Benê Turim, Sidnei Malena (italianos); Eduardo Silva - Dudu – biólogo e ator afro que fazia o Bongô do RA-TIM-BUM – e finalmente o Altino, talvez descendente de alguma família quatrocentona, pois morava numa bela casa em Moema, hoje mora no Canadá. O Cidão Malena dizia que ele certamente iria ficar famoso porque um dia existiu o Al Johnson, existia o Al Jarreau e ele seria o Al Tino. Nosso coordenador na unidade Vergueiro era o Renato e o primo dele, Ermínio, caipirão muito divertido de Ourinhos e fã do Roberto Carlos e, na época, do Fernando Collor de Melo. No Morumbi era o Otto, alemão muito gente boa; em Pinheiros era o Domingos. Essa era apenas a nossa turma, pois havia, na unidade da Paulista uma verdadeira legião de professores controlados por uma enorme sala de horário comandada pelo Professor Fazzoli e o Armandinho (japonezinho de Álvares Machado). Nessa época as estrelas e veteranos do cursinho eram Fernando Teixeira, Honda (de Tupã), Kvork, Clézio, Eduardo, Sales (de Piracicaba), Derville, Jobson, Nicola, Moacir, Honda, Fazzoli, Vera e Hernani (ex-vocalista dos Sombras, de Presidente Prudente). Nós éramos apenas seus aprendizes. Alguns professores do Objetivo se tornaram políticos influentes, vereadores e deputados, como os irmãos biólogos Ricardo e Roberto Trípoli; e o geógrafo Paulo Kobaiashy. Alguns alunos também entraram para a política como Aurélio Miguel e Robson Tuma (filho do Romeu Tuma). No mundo artístico, a lista de alunos é interminável. Só para citar alguns: Gretchen (nos anos 70), Luciana Vendramini, Mara Maravilha e Roger (Ultraje à Rigor, que também foi professor de inglês). Outra figura importante do Objetivo foi o Dr. Dráuzio Varela, que conheci quando estava fazendo sua pesquisa no presídio do Carandiru. Desses estudos surgiram as primeiras aulas e materiais didáticos sobre AIDS nas escolas e, anos depois, o famoso livro Estação Carandiru. Dráuzio Varella foi colega de faculdade do também médico João Carlos Di Gênio e criador do nome “Objetivo”. Apesar de toda essa badalação, o Objetivo era, na verdade uma passarela de uma grande maioria de alunos e professores anônimos, desconhecidos, que por ali passam como meros aprendizes. Histórias como a minha e desses colegas citados são inúmeras e se perdem nessa multidão de trabalhadores e usuários. 


FOTOS: PUC-SP Campus Perdizes, passagem entre os prédios Velho e Novo. Pátio da Cruz. 


44

AVENIDA PARIS




Foto: Marcelo Guedes @marceloguedespg


Ao sair pelo portão menor da casa, logo sentiu um vento frio no rosto, o que fez com que instintivamente juntasse as partes do zíper e fechasse o casaco até pescoço para se proteger. E foi em direção à esquina onde avistou um carro que parecia ser o uber que havia chamado. Não era. Nele estava uma jovem com o peito e os braços sobre o volante, esticando a cabeça para ver melhor quem se aproximava. O carro dela estava na avenida Paris e ele na travessa Antonieta Lagatta. Antes que  se aproximasse, ela deu um tchauzinho que lhe pareceu familiar, mas só conseguiu identificá-la quando chegou bem perto e viu um rosto sorrindo e que o  fez se lembrar de quem se tratava e também porque estava ali. Não se viam pessoalmente há mais de dez anos, porém tinham se reencontrado pelas redes sociais desde que ela havia iniciado a faculdade. Quase não se falavam, a não ser nas datas de aniversário, quando enviavam felicitações recíprocas. Ela aproveitou esse pequeno intervalo do percurso que ele fazia até o carro e estacionou o veículo próximo da guia da calçada e aguardou-o sem interromper sorriso de alegria. Ele deu a volta por trás do carro fazendo com que ela voltasse o olhar para outro lado permanecendo sentada até que chegasse bem perto da janela. Em silêncio, se olharam e ele se agachou para que seus rostos ficassem na mesma altura e rapidamente levantou a mão direita  afagando-a e sem dizer nada. Durante alguns segundos fixou-se nos olhos dela e depois foi observando todos os detalhes do rosto: a testa, as sobrancelhas, as orelhas e as bochechas, os lábios e finalmente o queixo. Constatou que ela realmente havia ficado diferente. Não era mais a menina de 16 anos que conhecera. Tinha as feições e o corpo de uma mulher adulta. A jovem permaneceu em silêncio enquanto era afagada e sua voz só foi ouvida quando ele se dirigiu a ela, iniciando a conversa:

- Olha só quem veio me ver... Sempre linda... Tudo bem com você?

- Tudo bem... 

Nesse instante ela interrompe o sorriso e assume um ar grave, como se lembrasse de algo que lhe causou um certo desconforto. Ele percebeu a mudança, até porque sabia o que havia acontecido e logo mudou o rumo da conversa, para que o encontro não se tornasse desagradável já no início. Fez um gesto balançando a cabeça, em sinal de compreensão, e foi logo dizendo que eles precisavam conversar com mais calma e num lugar mais apropriado. O uber que havia pedido chegou e ele foi fazer dispensa do serviço voltando rapidamente para dar atenção a ela. Agachou-e novamente, agora com as mãos dela entre as suas.

- Me sinto angustiado desde quando soube o que aconteceu com você. Fiz as orações que você pediu no Instagran, mas quando vi a sua postagem de aviso e as outras que vieram depois, fiquei muito preocupado.

- Sua mensagem me deixou muito aliviada e confiante. Obrigada.

- Vamos pra algum lugar para conversarmos mais à vontade.

- Vamos sim – disse ela, convidando-o a entrar no carro.

Antes de partir, ela permaneceu alguns segundos olhando para frente e para os lados observando onde estavam, lembrando coisas que não teve coragem de dizer antes de decidir para onde iam. Estava quase escurecendo, apesar de ser apenas pouco mais das cinco horas da tarde. As luminárias dos canteiros centrais da avenida já estavam acesas e, por ser dia de semana, quase não havia movimento nas ruas. O bairro, próximo à praia, é um pouco afastado do centro e a grande maioria da casas e apartamentos são de temporadas e estão vazios. O carro vai deslizando lentamente em direção à orla e vai aumentando a velocidade na medida que se afastam do lugar de onde partiram. Antes que chegasse na avenida da praia, o carro vira abruptamente e segue por uma rua paralela e estaciona no meio fio. A rua está deserta. Mesmo assim o carro permanece ali por quase meia hora. Foi o tempo no qual tiveram a primeira chance de conversar com mais calma e depois seguirem para outro lugar.

- “Essa avenida e esse lugar não me trazem boas lembranças”, disse ela antes de virar rapidamente o carro na direção onde depois estacionaram. Agora ela parecia ansiosa, porém não conseguia expressar seus sentimentos. Dizia algumas frases soltas e incompreensíveis. Pensou que  fosse chorar, entretanto, em momento algum, ela não demonstrou nenhum sinal de uma emoção mais forte. Permaneceu firme, talvez esperando que ele tomasse alguma iniciativa. Como não tomou, ela se dirigiu a ele, bem diretiva:

- Onde você quer ir para conversarmos, acho meio perigoso ficar aqui?

- Você mora aqui por perto, não?

- Não muito, mas não é tão longe.

- Então vamos para lá. Quero conhecer sua casa. Quero saber como você está vivendo. Preciso parar de imaginar como as pessoas estão vivendo fora das redes sociais. Quero saber de verdade como tem sido a sua vida nesses dias após a pandemia e essa sua tormenta que ainda não passou.

Pega de surpresa, ela não sabia o que dizer nos primeiros instantes após ouvir tudo aquilo. O que será que ele pretendia de fato? Sabia que não era nada muito além do que esperava de um homem, pois saberia se ajustar perfeitamente à situações desse tipo, mas realmente não entendeu essa atitude, vinda de quem veio. Resolveu não contestar e também ganhar tempo para pensar numa possível mudança de rumo, caso fosse necessário. O carro continuou pela rua paralela até que, numa certa altura, parou por alguns segundos, além do tempo normal das paradas nos cruzamentos, até que fosse alertado pelas buzinas de dois carros que haviam parado atrás deles. Ligou a seta para esquerda e engatou a marcha. Ante que as buzinas tocassem novamente, mudou a posição da seta e manobrou para a direita, fingindo estar perdida e também dando passagem aos dois motoristas que estavam com pressa. Essa mudança de sentido significava que ela havia desistido de ir para o shopping ou atravessar a ponte na direção da ilha, onde havia mais opções de lugares para conversar. As duas buzinas aparentemente a tinham confundido. Naquela instante ela resolveu concordar com ele que o melhor lugar para conversas seria na sua casa, apesar de todos os riscos e inconveniências que isso representava naquela circunstância. Já ele parecia estar indiferente, mas na verdade estava arrependido de ter dito a ela todas aquelas coisas e também ter feito aquela proposta atrevida. Pensou em pedir desculpas e desistir da ideia. Ao mesmo tempo parecia confuso, certamente embriagado pela situação e pelo perfume suave e sedutor que ela exalava, cheiro agradabilíssimo que aumentou quando os vidros permaneceram fechados durante o percurso. Decidiu não dizer nada. Olhava para o rosto dela como se fosse uma imagem que acostumou ver distante e que agora estava tão próxima a ponto de não resistir em tocá-la , alisando sua pele com apenas dois dedos. Ela fingiu que não tinha acontecido aquilo e nem olhou para o lado, nem reclamando nem aprovando esse gesto inesperado. Seus pensamentos foram interrompidos:

- Cristina, Cristina... O que aconteceu com você e com o seu companheiro... parece que vocês acordaram de um sonho e caíram num pesadelo...

- Se não fossem as suas poucas palavras de consolo naquele dia, não sei o que teria feito naquela primeira noite que dormi sozinha. Foi tudo tão rápido que realmente estava vivendo um pesadelo.

- Você teve uma intuição maravilhosa e tomou uma decisão inteligente ao ficar com ele da forma como permaneceram juntos.

- Pensei nisso hoje. Nem sei como tomei essa decisão.

- Talvez nem tenha sido você e sim uma intuição, como já te disse.

- O que você sabe sobre isso?

- Percebi que você não gostava dele a ponto de casar-se. Ele foi um gentleman, sempre te tratou como uma princesa, te levou para Paris, te pediu em casamento de joelhos, e você retribuiu como pôde. Se comportou com toda a reverência. Vi nas fotos que você postou. Ele era um sonhador...

- Também não sei como você sabe disso...

- Vi o comentário de um amigo dele, ao receber a notícia da morte, lamentado e dizendo que ele era cheio de sonhos...

- Era mesmo. Não tive coragem de decepcioná-lo. Nunca consegui realizar os meus sonhos e sabia o quanto isso é dolorido. Ficamos noivos, mas ele se foi...

- E você ficou sem ser viúva.

- Mas é quase a mesma coisa....

- Quase...

- Você acha que estou conseguindo lidar com tudo isso? Acha que estou bem?

- Não sei. Preciso saber como realmente você está vivendo. Já pensou em voltar a morar com seus pais?

- Fora de cogitação. Eles são muito legais, já propuseram isso, estão preocupados comigo, mas acho que não há necessidade. Batalhei muito para ser independente e não vou abrir mão disso por causa de um problema que sei que vai passar.

- Quem bom que você se sente segura. Mas não é isso que eu sinto. Olho pra você e meu coração avisa que o seu está apertado. Você tem se esforçado muito para segurar a onda, mas temo que não supere essa situação. Tem trabalhado muito, não?

- O tempo todo, preciso manter a cabeça ocupada.

- Entendo, confio que saiba dosar bem as coisas.

Algum minutos depois eles já estavam conversando na sala da casa dela. Ele olhava para todos os cantos enquanto Cristina explicava como foi morar ali. Era uma casa pequena e aconchegante, sobradinho de condomínio. Compraram de sociedade quando ainda estava na planta, por um preço muito vantajoso. Acompanharam a obra passo à passo e puderam escolher pessoalmente todos os assessórios de acabamento. Os dois eram arquitetos e trabalhavam com reformas. Não era o lugar que idealizaram, mas se afeiçoaram ao projeto porque viveram todas as etapas da construção. Nesse período moraram na avenida Paris, antes da transformação que tinha acabado de ver. Nesse período ela tinha muitas dúvidas sobre tudo o que estava acontecendo. Não sabia ao certo se era isso exatamente que queria. Mas o parceiro era muito convincente e determinado, sempre querendo agradá-la e mantê-la na linha dos seus planos de constituir uma família. Ela achava tudo muito normal e até romântico, porém tinha uma certa suspeita que as coisas não seriam exatamente como eles imaginavam. Percebendo que ela ficara em silêncio e olhando vagamente para o teto, ele voltou a observá-la comparando com a época em eles se conheceram e de como se relacionavam. De repente ela voltou a si e ficou curiosa:

- Paulo, acha mesmo que não estou bem? O que você estava pensando?

Espantado com a reação dela, pois nunca o havia chamado assim pelo nome. Fingiu que não tinha percebido esse detalhe e respondeu como se nada tivesse acontecido. Chamando-o pelo nome ela estava vendo-o de forma diferente e também dando um sinal de mudança na forma de relacionamento entre eles. Não era mais a garota que o chamava pelo apelido e sim uma mulher que sabia que as coisas poderiam tomar outro rumo. Ele sonhava com essa possibilidade e ela sempre soube disso, mas nunca correspondeu, tratando-o sempre de forma respeitosa e até com certa distância. Foi ele, a pedido dela, quem a aconselhou a mudar de curso, escolhendo a carreira de arquitetura.

- Estava pensando em você, como sempre penso desde que te conheci. Penso o tempo todo em você. Não me incomodo em dizer isso porque, mesmo que você não concorde, as coisas serão assim enquanto eu viver.  Longe ou perto, sempre estou com você. Não importa se está bem ou não. O que importa é que estou perto de você.

- Paulo, não sei que dizer pra você. Isso tudo é muito estranho para mim. Mas ao mesmo tempo acho que você está sendo tão sincero que não sei o que falar.

- Na diga nada. Nem pense muito porque, pensando, vai  achar tudo isso cada vez mais estranho e absurdo. Para um homem, deixar de pensar é muito difícil, mas para uma mulher não é difícil. Você pode pensar com o coração. Pense com o coração quando for pensar algo sobre mim. Desconsidere tudo que for racional e me olhe com o sentimento, nem que seja de temor e raiva. Assim tenho mais chance de ficar perto de você. Não quero casar com você ou ser seu noivo. Só quero ficar perto de você. Não sei como, mas quero.

- Quer mais vinho?

- Quero. Como o vinho deixa a gente leve né...

- E muito sincero...

- Posso dormir aqui essa noite?

- Paulo, agora você avançou o sinal.

- Pense bem. Vai ser melhor para nós dois.

- Acabou de dizer para eu não pensar... Afinal, é para pensar ou não?

- Você vai me mandar embora? Está assustada?

- Estou.

- Prometo não tocar em você. Juro por Deus. Só quero ficar perto.

- Quer dormir comigo?

- Quero.

- Dormir na mesma cama, sem me tocar...

- Prometo.

- Promete o quê?

- Não tocar em você. Não te incomodar.

- Vem aqui comigo, vou te mostrar uma coisa.

Pegando-o pela mão, o levou até o seu quarto e o acomodou numa pequena poltrona. Ela puxou uma cadeira e se ergueu para pegar uma caixa que estava numa cantoneira, na parte mais alta. Pediu ajuda para que pusesse a caixa sobre a cama e ele atendeu prontamente. Ela o convidou para sentar sobre a cama e ver o que tinha dentro da caixa. Abriu e tirou dela vários cadernos universitários. Ainda estavam encapados. Pegou um deles e, mostrando para ele, perguntou se lembrava do que havia acontecido.

- Este ficou guardado no seu armário durante dois dias, lembra. Você me obrigou a refazer as anotações. Reclamei que já tinha feito, mas nem deu atenção. Era fim de ano. Fiz com raiva, mas depois caprichei, esperando que ficasse com ele como lembrança.

Paulo olhou as anotações. Eram de 2007. Ficaram sem se ver por 14 anos. Folheando o caderno, foi relembrando cada um dos assuntos e como organizava os resumos. Cristina lembrou que ele fazia tudo de cabeça, sem recorrer a nenhum material de auxílio. Guardou todos os cadernos porque achava linda a organização e fácil de memorizar. Nunca pensou em se desfazer deles. Quando estava na metade do caderno, já estava debruçado sobre uma almofada, dormindo. Ela tinha ido até a cozinha para tomar água e quando voltou o viu deitado sobre a cama, completamente derrotado pelo sono. Tirou calmamente o tênis e acomodou suas pernas para que ficasse de lado. Conseguiu substituir a almofada por um travesseiro, que era o seu, tentando não acordá-lo. Retirou-se do quarto apagando a luz e foi até a sala recolher a garrafa de vinho vazia e as taças que haviam deixado sobre a mesa de centro. Feito isso, foi tomar um banho para depois deitar-se ali mesmo sobre o sofá. Antes de desligar o celular, viu algumas mensagens e viu que já eram quase 23 horas. Precisava acordar cedo para fazer um serviço no Guarujá. Voltou para o quarto e  deu conta de que Paulo estava vestido. Resolveu deixá-lo como estava. Parecia uma criança dormindo, em sono profundo. Desistiu de dormir na sala e acomodou-se na cama. Ali ficou até pegar no sono. Estavam de costas um para o outro e assim ficaram até que ele acordasse depois de algumas horas para ir ao banheiro. Na volta parou para vê-la dormindo e ficou admirando-a por alguns instantes. Não acreditava que aquilo tudo tinha acontecido em tão pouco tempo e que seu sonho de tantos anos havia se concretizado. Pensou em beijá-la no rosto, para ter certeza de que tudo era real, mas logo lembrou da sua promessa feita horas antes. Tirou as calças e as meias ficando apenas de camiseta e cueca. Deitou-se de lado e ficou novamente de costas para ela. Permaneceu firme, mesmo nos momentos em que sentia, bastante perturbado, o cheiro suave do banho que ela havia tomado antes de dormir. Resistiu e novamente pegou no sono. No dia seguinte, quando acordou, ela não estava mais lá. Pegou o telefone para situar-se no tempo e no espaço e foi direto para Facebook. A primeira coisa na qual bateu os olhos foi um vídeo na history de Cristina. Ela estava indo na direção do ferryboate. Ouvia música em volume alto e sentia-se muito feliz e disposta. Vestiu  as calças tentando lembrar se havia acontecido algo diferente do que havia prometido e logo chegou à conclusão que não. Quando saiu do banheiro sentiu um cheiro de café e pão na chapa. Se alimentou enquanto lia e relia repetidamente uma mensagem enviada pelo celular:

“Você realmente é o cavalheiro que sempre desconfiei que fosse e que hoje pude confirmar. Tive muita vontade de tocar em você, mas resisti, mesmo não tendo feito nenhuma promessa. Me contentei com seu cheiro suave e inesquecível e que me fez dormir feliz e confiante. Fique o tempo que quiser e , se for embora, volte o mais rápido possível. Temos muito, mas muito mesmo o que conversar. Beijos. Cristina”.

PS. Pode ficar com a chave. Tenho uma cópia.

Nota do autor: qualquer semelhança de pessoas, lugares, situações com esse relato e seus personagens é mera coincidência.

 

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PARTE II - Moradas





ÍNDICE


I. MUDANÇAS

II. NASCENTE E POENTE

III. MEMÓRIA

IV. VIZINHOS

V. CASA DOS SONHOS

VI. REFÚGIOS

VII. APARTAMENTOS

VIII. A VILA

IX. JARDINEIRO

X. CASAS

XI. ESQUINA

XII. SOBRADINHO

XIII. RAPOSO

XIV. SÃO PAULO

XV. SEM-FLORESTA

XVI. NA RUA

XVII. GRADES

XVIII. EM PÉ

XIX. ÍNDIOS

XX. GONZAGA

XXI. CASA DE MAÇOM

XXII. CIGARRO DE VACA

XXIII. TAÇAS DE SANGUE

XXIV. VELÓRIOS

XXV. JANELA PAULISTANA



PREÂMBULO



Todo mundo, pelo menos uma vez na vida, já viu aquela microcena das formigas se encontrando e se reconhecendo rapidamente durante seus percursos de trabalho. E todos perguntam: o que é que elas falam uma para outra? Ou é apenas um mero sinal de continuidade da tarefa?

Uma coisa ou outra, o que ninguém duvida é que as formigas moram em lugares que são tão perigosos e incertos como as nossas casas e estão sempre em busca de coisas para matar a fome. E tomam os cuidados que deveríamos tomar para construir, manter e proteger os lugares onde moram.




I
MUDANÇAS



Já morei em 10 apartamentos num período de 35 anos; e 14 casas, entre 1961 e 2020. Tudo isso aconteceu em cinco cidades, num período de 60 anos. Somando o período anterior, dos meus pais e avós, temos 100 anos de coisas para contar sobre nós, sobre o nosso País e também os acontecimentos que mudaram o mundo.

Os intervalos nos quais ocorrem as mudanças foram períodos vividos com inquietação, a mesma pressa pela qual passam os pássaros ao terem de mudar e refazer seus ninhos.

E fico imaginando porque tem que ser assim.

Porque precisamos mudar?

Será porque temos que sofrer mudanças íntimas provocadas pelas situações que nos forçam a mudar de lugar?

É bem provável.

Em cada mudança sempre acontece outra mudança.

Nos filmes do Mazaropi sempre tem cenas de mudanças para relatar o sofrimento dos personagens ao ter que deixar um lugar e amargar a angústia do incerto.

Numa canção de Edu Lobo e do Chico Buarque - do disco Circo Místico - as mudanças dos atores circenses são definidas como “arte de deixar algum lugar quando não se tem pra onde ir”.



II
NASCENTE E POENTE



Nasci no Porto Tibiriçá (atual Presidente Epitácio) e hoje estou vivendo em São Vicente, na região metropolitana de Santos. Já havia morado em São Vicente, entre 1974 e 1984; depois mudei para São Paulo em 1985. Voltei para Epitácio na década de 1990, onde fiquei até 1997. No ano seguinte fui morar em Campo Grande – MS, cidade que acolheu muitos epitacianos. Voltei para São Paulo em 1999 e retornei para São Vicente em 2001.

Sempre que faço esse pequeno e confuso relato as pessoas logo reagem, tentando compreender os motivos de tantas andanças e mudanças.

Outra coisa, o que tem a ver São Vicente, uma cidade fundada no século XVI, com o Porto Tibiriçá, fundado no início do século XX?

O que poderia ter em comum essas duas localidades tão distantes, uma no litoral e outra no interior, e com quatro séculos de diferença?

Tudo a ver.

Muita gente do interior vem para a Capital, para o litoral e também vai para o exterior. Outros tantos fazem o percurso contrário. Sou do Porto Tibiriçá e creio que tem muitos e tibiriçaenses e epitacianos em vários lugares do Brasil e do mundo. Tem muita gente da nossa terra vivendo no litoral, em São Paulo, em várias regiões do Brasil, nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália, em vários países da Europa e até do leste europeu. É possível que tenha morrido algum pirangueiro no Word Trade Center. No Japão também tem epitacianos, é claro!

Creio que as pessoas vão para os lugares por algum motivo muito mais forte do que aquele que simplesmente funciona como pretexto e impulso para as mudanças. Mudar de lugar é uma busca de algo que se perde dentro de nós mesmos e que, na verdade, não está exatamente nos lugares para os quais a gente quer ir. Pode ser que aconteça, de acharmos o que realmente procuramos ao mudarmos de endereço, mas não é o lugar em si que é o motivo verdadeiro da procura, nem a causa real do encontro. São as coisas que acontecem, em determinados lugares, em determinados momentos que fazem realmente com que se façam algumas escolhas e essas decisões provoquem algumas mudanças na forma de ver e encarar a vida. Essa é a verdadeira mudança, a qual podemos realmente chamar de destino. Nas terras por onde se passa, descobre-se, se constrói um chão e nele o relógio do tempo avança numa sucessão de fatos e circunstâncias. Ao mesmo tempo o contato com esse chão aciona uma bússola, que nos conduz pelas veredas das decisões e escolhas. Aí a gente muda.

Certa vez eu fiquei fascinado pelo mar. Acho que isso também aconteceu com a minha mãe. Foi ela que teve a ideia de mudarmos para o litoral. Era um tipo de angústia que ela sentia na alma durante décadas e só curou parcialmente quando fomos viver próximo ao mar. Herdei isso dela. Meu pai sentia a coisa de forma contrária: vivia com o pensamento voltado para o sertão, lugar onde acreditava ter vivido os melhores momentos de sua última existência e, no final dela, conseguiu realizar o sonho de morar novamente em Epitácio. Seu corpo está sepultado no Horto da Igualdade, embora seu Espírito certamente não esteja lá. Aliás, sabe-se que algumas pessoas que foram viver longe fazem questão de ter seus corpos enterrados em Epitácio, pessoas que estavam vivendo na América do Norte e nunca tiraram Tibiriçá e Epitácio da memória sentimental.

O céu do sertão é bem diferente do céu do litoral; são cores e ventos diversos e opostos. O poente e o nascente repercutem de forma diferente no psiquismo das pessoas e isso influencia nas escolhas importantes que elas fazem na vida. Dizem que nascemos assim, mentalmente inclinados para um ou para o outro lado, para o sertão ou para o mar.




III
MEMÓRIA




Lembranças funcionam como um filme na cabeça da gente. Parece uma sucessão de quadros, como no cinema. Isso acontece a todo instante, mas de forma mais apurada quando estamos sós, pensando na vida. Muitas vezes esse estímulo vem de pessoas, de situações ou de objetos que nos remetem automaticamente ao passado. Vi numa foto a primeira casa em que morei. Era de madeira, tinha uma varanda enorme, dessas em que as pessoas ficam conversando despreocupadamente. Essa casa ficava na Belo Horizonte, em direção ao cemitério velho. Nessa foto estou no colo da minha “Madinha Manoela” (Manoela Borges), que não era parente do nosso sangue, mas tinha um vínculo espiritual muito forte com todos nós. Ela adotou e criou minha avó, retirante do sertão baiano; adotou e criou minha mãe e praticamente meus quatro irmãos. O meu irmão caçula, adotado de uma família ribeirinha do Porto XV, chegou para passar alguns dias em nossa casa, enquanto a mãe dele se recuperava de uma grave infecção no hospital. Por causa do destino, ficou para sempre, após o falecimento da mesma. Anos depois, uma tia nossa com dons mediúnicos, observando essa criança, identificou nela a figura do pai de dona Manoela Borges, reencarnado. Quando os meus avôs chegaram ao Porto Tibiriçá, vindos ainda jovens do Rio de Janeiro e da Bahia, também receberam de Dona Manoela abrigo e proteção. Dessa casa não lembro quase nada. Minha primeira lembrança vem da casa em Tibiriçá.

Nossa casa em Tibiriçá foi uma espécie de presente de casamento para os meus pais, dado pelo Tenente Gilberto, interventor militar do Distrito de Tibiriçá e que se tornou muito amigo da nossa família. O tenente era do tipo bonachão, sempre muito simpático e dele todos guardam boas lembranças por causa do seu gosto por festas populares, sobretudo as da época junina, quando mandava construir uma grande fogueira próxima ao mastro da bandeira. Construída a partir de 1954, a nossa casa, na verdade da Bacia, era uma das poucas construídas em alvenaria. Tinha cômodos grandes e um quintal espetacular, sem luxo, mas enorme, cheio de árvores frutíferas e ornamentais e de muitas possibilidades para fantasias de criança. A varanda em “L” revestida de ladrilho ocre, muito usado nos anos 60, servia para refrescar o corpo nos meses de calor.

Em frente de casa tinha um enorme campo de futebol, rodeado de árvores de cedro. Apanhei muito da minha mãe, nas pernas, com uma varinha seca que se acumulava debaixo dessas árvores. Embaixo de alguns desses cedros também tinham bancos feitos de madeira. Na esquina próxima tinha um que era o mais frequentado da vila, até altas horas da madrugada e por isso era chamado de “Banco do Pecado”.

Do outro lado do campo tinha algumas casas e um clube, onde funcionavam o serviço de autofalante, o salão de bailes e o cinema, este último sob a gerência do meu avô Carlos dos Santos.

Do período em que moramos nessa casa de Tibiriçá lembro de algumas coisas marcantes. Minha mãe chorando na varanda ao receber a notícia de que um tio nosso tinha tentado suicídio com um tiro na cabeça. A bala ficou alojada num dos ouvidos. Quando esse tio vinha em casa me deixava impressionado ao vê-lo, durante as refeições, mastigar vagarosamente para não sofrer a dor causada pelo projétil. Essa tentativa de suicídio, bem como outros casos consumados, teria uma repercussão ainda maior em nossas vidas, eu e minha mãe, nos deixando muito impressionados, servindo para nos aproximar de um grupo de pessoas que, desde1961, realizava um trabalho voluntário de prevenção do suicídio em São Paulo.

Outra cena marcante na época de Tibiriçá, na margem do rio, próximo a Bomba D´água, foi a chegada dos corpos de três funcionários da Bacia (Júlio César, e os irmãos Ênio e Fortunato) que morreram afogados durante um temporal noturno, quando pescavam. Júlio era paraguaio, casado com a tia Ester, irmã do meu pai.

Fui uma criança portadora de sonambulismo, cujas crises de febre emocional eram constantes e me faziam, tarde da noite, sentar na janela e denunciar para minha mãe a presença de “pessoas” andando no campo. Eram também os primeiros sinais da mediunidade. Moramos em Tibiriçá até 1967, período no qual a Bacia do Prata estava encerrando suas atividades e seu patrimônio sendo sucateado. Os moradores da Vila Tibiriçá, que poderiam por direto ter permanecido em seus lares, foram sendo pressionados a deixar as casas. O corte de energia e água, bem como ameaças indiretas foram algumas dessas formas de pressão, certamente estimuladas por alguns políticos e comerciantes de Epitácio interessados na rápida desmontagem do Distrito. O regime militar contribuiu também para que esse processo de desocupação da vila ocorresse de forma criminosa e impune. Os antigos moradores, a maioria gente simples e despolitizada, não tinha meios de reagir e se defender contra esses abusos, pois temiam represálias por parte dos poderosos.

Entre 1968 e 1970, já estávamos residindo em Epitácio, primeiro na Rua Maceió, em frente a um enorme terreno baldio no qual mais tarde seria construído o prédio dos Correios. Depois, na Rua Cuiabá, tivemos como vizinho até 1973 o Sr. Rogério Pelegrini, imigrante italiano e ex-colono da Fazenda Santa Cruzinha, antiga propriedade da família de Rachid Murad. Essa fazenda mais tarde foi dividida entre os arrendatários e antigos funcionários que tornaram-se sitiantes, muitos deles vindos de Cafelândia e foram os primeiros fornecedores da primitiva feira de Epitácio. Com muitos descendentes na cidade, seu Rogério vivia uma velhice simples e era para nós um forte exemplo de persistência e sabedoria. Viúvo, se mantinha ocupado cultivando uma horta e mudas de café; fumava curiosos cigarros de palha, cujo cheiro se espalhava por toda a vizinhança. Ele sempre contava para minha mãe que, ao ficar viúvo e com muitos filhos pequenos, recebia a ajuda do espírito da própria esposa para cuidar da casa.





IV
CAVERNAS



Dizem que os apartamentos são cavernas modernas, confortáveis, privativas e seguras. Não é nada disso. São apenas pequenos espaços comercializados por metro quadro e que dão a falsa impressão do que deveria ser uma moradia urbana.

Entramos num apartamento, adquirido ou alugado, com a mesma sensação de incerteza de quando entrávamos nas cavernas paleolíticas em busca de abrigo, calor, frescor e um pouco de paz na hora de comer e de dormir. Antes do repouso olhávamos para o fogo e nele nos fixávamos tentando desvendar o mistério daquelas chamas vermelhas que consumiam os pedaços de madeira.

Hoje colocamos os olhos na televisão, num computador ou num celular. Quando vence o contrato mudamos de caverna e só percebemos que ali não há mais nada a fazer e que na verdade somos nômades em busca de novos apartamentos.

Meu último vizinho, que vi chegar e também partir, encontrou um jeito bem humano de trocar de ninho: ele fica três meses morando normalmente e depois permanece vários meses sem pagar e sai só antes de ser despejado. E assim vai morando com o dinheiro que ficou devendo. Empurrando a vida.

Ao ouvir essa história fiquei indignado e concordei com o porteiro que o chamou de safado e enrolão. Esse vizinho me cercou várias vezes para pedir dinheiro emprestado. Nunca emprestei porque sabia que não pagaria. Ia perder o dinheiro. Fui firme, de coração partido, mas não cedi. Sempre que conto essa história do vizinho, já faço esperando a reação seca sobre o caso: “É complicado”! O vizinho enrolão e desonesto é aposentado, pescador, tem um filha problemática e deslumbrada. Quando o conheci ele disse que uma vez viu Nossa Senhora da Aparecida aconselhando ele a não ir procurar um certo tesouro indicado por uma alma perdida. É um homem rústico. Vieram do Vale do Ribeira, zona rural antiga do litoral paulista, quase na divisa com o Paraná. Dei a ele o apelido de Mazaropi. “É parecido mesmo”, reagiu rindo o porteiro. Tenho dó deles. São pessoas de caráter fraco e se acostumaram com a vida errante, penso julgando, como se levasse uma vida inteiramente acertante. Já encontrei os dois no supermercado depois que mudaram (de apartamento), em dias diferentes; ele procurando alguma coisa ou alguém e a moça perguntando ao repositor se o vinho que tinha em mãos era de boa qualidade. Descobri, pelo porteiro, para onde tinham mudado quem seria a próxima vitima do golpe deles. Ele apontou até a janela e o andar. E fiquei olhando para o prédio pensando e chegando à conclusão que eles apenas descobriram um jeito de viver sem sofrer, mesmo causando aborrecimento para os outros. É claro que também pensei na possibilidade de numa outra vida eles terem sido proprietários cruéis com seus inquilinos, estando agora na condição de choque de retorno, ainda com a agravante dessas quedas, mas que terão de enfrentar a fase de arrependimento e depois reparação, segundo a lei moral de causa e efeito que atualmente se bate sobre mim, com alguns agravantes.

Mas não é somente os inquilinos que passam por crises. Atualmente os leilões de casas e apartamentos estão em superoferta na internet. Escritórios de advocacia anunciam as facilidades para a desocupação desses imóveis, tentando tranquilizar os compradores, futuros moradores ou apenas investidores. Muitos, como eu, pensam: Não vou ser feliz contribuindo com a infelicidade dos outros. Claro que não tem nada a ver, do ponto de vista racional. Mas nesses casos, incrível, a gente automaticamente se coloca no lugar de quem está perdendo o imóvel, mesmo que ele não esteja sofrendo ou que realmente necessite vendê-lo dessa forma.

As ofertas de financiamentos continuam a todo vapor, com todas as vantagens e riscos previsíveis que a maioria prefere não enxergar, para não estragar os sonhos. Também as ofertas de consórcio ainda estão em voga, a que os especialistas afirmam ser um jogo de fantasia no qual você paga para alguém guardar o seu dinheiro durante um longo tempo, dinheiro que poderia estar rendendo muito mais em outros investimentos. Questão de mentalidade. O Consórcio seria então, nesse modo de ver, um colchão confiável e alugado.

Tem também os loteamentos em lugares distantes, feitos a partir do retalhamento de fazendas no interior, um sonho de consumo para quem vive enclausurado em apartamentos nas grandes cidades. Essa opção está na mesma categoria das chácaras: duas alegrias, uma quando compra e outra quando vende. Só que esses lotes são muito difíceis de revender, pois quem compra quer comprar o próprio sonho e não o sonho do outros.

Mas existem também outras possibilidades que a razão não explica, a não ser quando não acreditamos nelas.

Nosso prédio está próximo mar e foi construído na década de 1970 para atrair turistas paulistanos. Antes da construção havia no terreno uma imensa mansão para temporadas, muito comum na vizinhança nos anos 1920, quando São Vicente era balneário e moradia dos milionários do café e da indústria paulista nascente. Aqui também moravam os mais ricos operadores do mercado portuário, geralmente europeus. Santos era considerada uma cidade perigosa para morar, por ser muito exposta a doenças vindas do exterior. As fotos antigas do bairro, onde proliferaram prédios de apartamentos, era um jardim plano de moradias e ruas arborizadas. Nosso prédio é ocupado por uma maioria de idosos e uma minoria de jovens de mai idade que ainda não se convenceram da terceira etapa do ciclo da vida. Não repararam que somos um condomínio de passagem para outra dimensão, sob a vigília rigorosa do Comandante dos Oceanos, que intuiu o construtor a colocar seu nome nessa morada transitória. O porteiro sabe o que isso significa e me disse que sua missão é vigiar a rotina dos velhinhos, sobretudo os que moram sozinhos. É só desaparecer um morador que ele ativa o interfone e, se este não responde, vai até o apartamento verificar o que está acontecendo. Se não responde ele usa a chave-reserva e entra chamando pelo morador. Quando geralmente isso acontece é porque o mesmo faleceu ou então está em agonia. Da última vez foi o meu vizinho, um senhor que tocava teclado e conversava sozinho ( ou com alguém da família que já havia partido antes dele). Sempre a mesma música, com falhas de notas e interrupções. Na minha lembrança, a melodia era um conhecido hino de procissão, de Ave Maria, que os pecadores transpuseram para os seus vícios mundanos: “Dona Maria, que bicho que deu? Deu bicho gozado, a senhora perdeu, ave, ave , avestruz”. Naquele fim de semana o som do teclado não soou pelos corredores. Alguém avisou o porteiro e ele respondeu que estava desconfiado de algo grave. O tecladista teve convulsões e depois e, dois dias depois, foi levado ao hospital e lá veio a falecer. O apartamento que ele morava seria dias mais tarde ocupado pelo pescador enrolão.

Esse porteiro, servo fiel de Netuno, tem sido atuante e prestativo na sua tarefa. Ele confirmou essa história que eu já sabia e que também ocorreu de forma semelhante em outro edifício do bairro, com pessoas conhecidas.

Vagou um apartamento no décimo andar, que logo foi ocupado por jovem mãe e seu filho. Um sala-living modesto, porém espaçoso como todos os demais nos outros andares. Tempos depois veio morar com eles o irmão da jovem, recém chegado do nordeste. Ela e técnica em contabilidade e ele vendedor das Casas Pernambucanas. Foram vivendo meio apertados até que a jovem resolveu se mudar com o filho, para deixar o irmão mais à vontade com as namoradas. Foi morar num apartamento maior no prédio vizinho. O rapaz, feliz da vida, ali ficou por mais de um ano até que um certo dia recebeu uma carta da administradora solicitando sua presença no escritório. Chegando lá, preocupado e pensando ter que deixar o imóvel por conta de alguma reclamação grave, teve a grata surpresa que tornou sua vida um pouco mais feliz do que vinha sendo naqueles primeiros meses de mudança da sua terra natal. O proprietário do apartamento havia falecido em Portugal sem deixar herdeiros e, como todas as suas contas estavam em dia, ele seria o novo dono do imóvel. Hoje sou vizinho dele e da sua esposa  grávida. A Providência empresta e cobra. Apartamento novo, família nova, novas responsabilidades. A história do outro apartamento foi idêntica: morador português, morto, sem herdeiros. A diferença é que as contas estavam todas pendentes, exceto o aluguel. IPTU e condomínio não eram pagos há mais de um ano. Mesmo assim, conseguiram ficar com o apartamento, ajustando as contas com empréstimos consignados.

“Como isso é possível”, perguntou alguém que conhecia os dois casos, querendo saber de mim a explicação espírita sobre esse estranho fenômeno. Respondi prontamente: são credores, diretos ou indiretos, recebendo de volta o que a Justiça Divina considera últil e necessário. E cantarolei a música do Mogli,do desenho do Disney: “Necessário, somente o necessário. O extraordinário é demais”

Todos felizes e satisfeitos. Menos a subsíndica da nossa morada vertical. Inconformada com o lance de sorte do rapaz, ela desconfiou que havia algo errado nessa história. Detetive nata, apesar dos seus mais de 70 anos, fez de tudo para descobrir a verdadeira origem desse estranho caso. A desconfiança aumentou quando todos souberam que a administradora era um senhora portuguesa muito conhecida no centro da cidade e que cuida de imóveis dos patrícios que retornaram para a Europa.

Mas a proprietária do apartamento do rapaz não era portuguesa e não voltou para Portugal.

“Rá, aí tem coisa”, dizia a subsíndica em voz alta quando passava pela portaria e questionada pelos funcionários do prédio sobre o que realmente havia acontecido.

A investigação foi feita em todas as fases previstas e sem nenhuma possibilidade de refutação. Ela descobriu onde morava a proprietária falecida, viajou para o interior do estado, por sua conta, e levantou todos os dados de que precisava.

A expectativa no prédio era intensa, sobretudo na assembleia de aposentados que se reúne todas as tardes no hall, antes da novela das seis. Um burburinho medonho.

Dessa vez quem deu a noticia oficial foi a própria síndica, pois a “sub” não teve coragem de aparecer para dar o seu testemunho chocante.

E desferiu, a seco, o resultado oficial do inquérito: a proprietária realmente havia falecido, segundo informações do cartório da cidade onde residia e não deixou herdeiros nem dívidas; o rapaz é dono do apartamento e disse que vai continuar morando no edifício.

Após alguns segundos de espanto e silêncio, explodiram algumas gargalhadas e comentários impublicáveis.

Já pensei em mudar várias vezes do prédio, mas sempre desisto quando lembro dessa história.

Vai quê...





CASA DOS SONHOS 


Ultimamente tenho sonhado muito com casas. Mas não é sonho de sono e sim com os olhos abertos. O isolamento de 40 dias, por causa da pandemia do corona virus, provocou em mim o desejo de morar em lugares amplos, abertos, próximos da natureza. Estou a apenas 80 metros do mar e, no entanto, isso não é satisfatório. Quero estar na serra do mar e não apenas perto do mar. Enjoei do mar. Me parece monótono, embora tenha um horizonte incomparável, diferente das montanhas, porque é plano e te obriga a imaginar as coisas com muito mais precisão e detalhes. É por isso que nas crises as pessoas gostam de ver o mar, para preencher a mente com outras preocupações mais suaves e aliviar as mais duras e persistentes. Outros preferem as montanhas ou as planícies. Questão de temperamento. No litoral há muitas casas disponíveis, milhares delas. Casas e apartamentos de temporadas de verão e que em outras estações, na maior parte do ano, ficam fechadas. Bairros inteiros ficam em silêncio e solidão, sobretudo no inverno. Muitos quilômetros de praias desertas, uma paisagem atraente à primeira vista, mas depois assustadora com o passar do tempo. Trabalhei numa escola que fica em frente ao mar, num desses bairros distantes e isolados do litoral sul. Nos anos que ali fiquei percebi que algumas casas nunca estavam abertas. Cheguei a entrar em algumas delas, com a ajuda de uma das nossas alunas de suplência, que fazia faxina e cuidava de algumas propriedades. De vez em quando, geralmente nas horas de almoço, ela deixava a gente dar uma olhada pra matar a curiosidade. A que mais me impressionou foi a que ficava bem em frente da escola. Uma construção típica e comum dos anos 1970, ampla, isolada no terreno, com jardim frontal e quintal nos fundos. Varanda e garagem lateral. O interior parecia um cenário perfeito para um filme de época, tudo original, cortinas, sofás, tapetes, móveis, tudo com cores e estampas extravagantes, com tons de vermelho e laranja. Mistura de era espacial e mundo hippie. Interessante que, diferente da outras, tinha uma vibração gostosa e não lembrava nada de tristeza e preocupações. Quem fez essa casa passou ali momentos de alegria e descontração. Deve estar lá até hoje, intacta, ainda com os lustres de vidro e lâmpadas transparentes. Ninguém vende, ninguém compra, ninguém entra, a não ser alguns ladrões casuais que já conhecem todas as casas do bairro; e alguns curiosos que colocam risco o emprego das faxineiras e zeladoras.

Nessa escola nós fizemos uma coisa diferente, que agradou muito os pouquíssimos moradores do bairro. Havia um professor de matemática que era terrivelmente ruim na sua função. Ele sabia disso e certa vez confessou o principal motivo, segundo ele. “Eu tenho cara de palhaço e os alunos não me respeitam”, disse conformado e triste. E tinha mesmo. Uma cara de palhaço sem pintura no rosto, misto de alegria e melancolia. Fiquei pensando durante a semana toda sobre como era vida daquele professor. Algum tempo depois, arrancando com a enxada algumas moitas de mato que haviam crescido muito rente aos muros, descobri que o professor tinha talento para outras coisas. Vendo a minha dificuldade com a enxada, ele sugeriu que a escola comprasse um mata-mato, veneno que as fábricas químicas chamam comercialmente de defensivo. “É tiro e queda”, disse ele empolgado. E justificou: “Eu sou formado em técnico agrícola”. O merendeiro, que nos escutava, lembrou que a escola já tinha tido uma pequena horta há alguns anos, para uso próprio. Propus então que reativássemos a horta, agora maior e mais diversificada. Os olhos do professor brilharam. Compraríamos as sementes e alguns suplementos agrícolas para correção e adubação do solo. “É muito ácido, mas tem jeito” e topou fazer o trabalho voluntário. Lição na lousa, tudo normal, classe calma, enquanto alguns alunos mais inquietos e fisicamente ativos ajudavam na construção dos canteiros. Não deu outra: a horta vingou, linda, parecia uma plantação japonesa, tal o capricho e a força produtiva, com todos os temperos e legumes possíveis. Quando começou a crescer, o professor me fez outra confissão: contou que tinha abandonado a profissão de técnico agrícola porque certa vez estragou um serviço que fez o patrão perder uma lavoura inteira, por causa de um erro de cálculo dos suplementos. Teve que fugir para não ser humilhado pelos colegas. Pensou até em se matar. Morava no interior e foi assim que decidiu vir morar na praia. Fiquei muito preocupado com a horta. Será que ele acertou os cálculos dessa vez? O investimento foi alto. Todo mundo na expectativa. Não falei absolutamente nada sobre isso com ninguém. Só fiquei mais tranquilo quando ele garantiu que não tinha mais volta nem risco, tudo estava grande e em mais alguns dias já estaríamos colhendo algumas coisas, menos a couve que, apesar de alta e verde, ainda não estava no ponto. O professor estava curado. Matou o mato que trazia no peito e na mente há anos. O Anjo da Guarda dele estava perto de nós, com chapéu de palha, calça velha e camisa surrada, limpíssimas, pés descalços, uma enxada no ombro e um palito de fósforo entre os dentes. E sorria muito, de alegria. O professor não mudou seu jeito de dar aulas de matemática, mas mudou a fisionomia. Não tinha mais cara de palhaço.





VI
REFÚGIOS



A última crise financeira mundial foi causada pelo mercado de imóveis. Milhares de casas hipotecadas nos Estados Unidos foram tomadas pelos bancos credores. Os donos haviam perdido seus empregos e não conseguiam arcar com as prestações. Porém, eram tantas casas que os bancos perderam a maioria dos clientes e faliram. Muitas dessas pessoas foram morar na casa de parentes e também nas ruas. Com tanta gente precisando de casas e desejando moradias amplas e confortáveis, elas passaram a ser o foco dos negócios financeiros: empréstimos e principalmente os refinanciamentos dessas mesmas casas.

Nas épocas de crise, os imóveis suplementares das famílias mais abastadas sempre entram em oferta, pois seus proprietários precisam reverter esse capital com certa urgência. Compraram quando estavam financeiramente bem e agora podem queimar a gordura que está sobrando. Apartamentos e casas de praia são os mais comuns nesses negócios.

Quando acontece alguma crise nas famílias que moram na Grande São Paulo e no interior, os sobreviventes, quando podem, se refugiam em suas casas de veraneio no litoral. Provavelmente eles também se refugiam nas chácaras, sítios e fazendas.

Os motivos das fugas são muitos, bem como suas histórias, desde os mais corriqueiros, como o tédio ou stress; ou coisas mais graves, como as falências, desemprego, separações conjugais, problemas com os filhos, as mortes súbitas das figuras centrais das famílias ou simples refúgio nos últimos dias de vida dos doentes terminais.

As reações e adaptações também são muito diversas, algumas comovedoras e outras até engraçadas.

Tem uns que vem para o litoral para morrer e permanecem vivos durante longos anos; chegam tristes e depois se tornam sorridentes, dando os ombros para tudo que lhe parecem bobagem. Creditam que foram preservados pelo cheiro e a paisagem do mar. Outros chegam para viver intensamente e acabam morrendo mais rápido do que esperavam, surpreendendo os parentes e os vizinhos que mal tiveram tempo para conhecer.

Mais uma casa fechada a espera do inventário.

São centenas de histórias. Os corretores de imóveis sabem de todas elas e das condições de compra e venda.

As histórias que mais complicadas que ouvíamos eram de falência e desemprego. Os maridos geralmente não apareciam na escola, somente as mães e filhos menores. Algumas ainda com o nariz empinado, críticas e exigentes no início, mas depois iam mudando de postura e ficando amigáveis, passando a colaborar com escola. Nossa coordenadora, a Marli, já desencarnada, era psicóloga e tinha um espírito burguês que se afinava com elas, quebrando aos poucos os traumas. Era difícil para elas verem os filhos estudando na mesma escola que os filhos da faxineira e do porteiro do prédio ou do caseiro. Teve uma que chutou o pau da barraca. Era dondoca do Pacaembu (assim ela se auto denominava), estudou arte e design na FAAP e caiu no limbo financeiro do marido. Dizia: “Eu não vou ficar em casa esperando o mundo rodar porque eu já tô ficando zonza”. Prestou um concurso para merendeira da prefeitura e saiu da zonzeira. Tinha também muitos foragidos da justiça. Isso me deixava de orelha em pé, geralmente do Nordeste. Como o distrito policial e também o batalhão da PM eram perto da escola, ficava relativamente tranquilo. Alguns perigosos apareciam para fazer suplência à noite e ficavam testando a disciplina, de entrada e saída.

Quando chegavam novos moradores, mesmo não tendo filhos, eles davam jeito de aproximarem da escola, pra fazer amizade e ajudar em caso de necessidade. Recebemos certa vez a visita de uma vendedora de Yakult. Ela tinha uma casa de praia como prêmio de desempenho na empresa e escolheu uma na rua da escola. Como acontecem com todos, usam bastante no começo; depois emprestam para os amigos e depois desaparecem por anos, até que as casas sejam vendidas.

Conheci nesse bairro uma outra casa, aliás muito curiosa, e que foi sofrendo reformas durantes vários anos e que parecia nunca agradar os que ali curtiam o veraneio ou outras estações do ano. “Essa casa é daquela cantora famosa”, alertava o corretor, animado com a possibilidade de faturar uma comissão. Infelizmente ela faleceu e os herdeiros não querem fazer o inventário, acham que não compensa. Uma pena. A casa fica num lugar maravilhoso, entre a orla e a rodovia, de onde se vê, bem próximo, o pé da serra. Em frente tem uma enorme praça do tamanho de uma quadra. É um local muito especial, que nos dias de chuvas rápidas e de mudança de tempo, as gotículas se juntam para flutuar diante da luz do sol e formam um arco-íris enorme, muito maior do que o paredão de serra que ali descansa frente ao mar. Se existem os portais de um plano para outro, ali é certamente um deles, pois a exposição dos arcos coloridos duram por muitos minutos, parecendo uma grande festa de passagem de almas e seres elementais para o outro mundo.

Nas tardes em que eu ficava para turno da noite, antes que escurecesse, adivinhava que algumas dessas criaturas invisíveis rondavam a escola em busca de socorro até que, em pensamento, indicasse o rumo das nuvens sobre a pequena montanha, com a nítida ideia de que as portas do céu ainda estavam abertas para os retardatários. Nem todos conseguiam e ficavam por ali perambulando, à espera de uma nova chance.




VII 
APARTAMENTOS 




Este apartamento em que moro é pequeno e muito aconchegante. Sala-living. Digo aconchegante porque me acostumei. Moro nos fundos, sozinho e tenho uma pequena vista para o mar, num corredor entre dois prédios pelo qual vejo os carros subindo e descendo da Ilha Porchat; e também a saída e a entrada de navios do Porto de Santos. Tudo muito rápido porque o corredor é de apenas seis a oito metros de largura. Má dá pra ver nitidamente o que acontece. É um consolo. Sabia que um dia isso acontecer. Lendo um livro quando ainda estava na faculdade, fiquei impressionado com a descrição do prédio e do quarto onde morava o protagonista, abarrotado de livros e revistas até o teto. Me vi em Paris morando naquele quarto. Essa lembrança voltou à minha imaginação muitos anos depois, quando me deliciei ao ver o prédio e o apartamento de Amélie Poulaim e também os dos seus vizinhos estranhos e solitários. O bairro e a casa onde morava o pai de Amelie e também a do casal de velhos “Bretodeau” (pais do quitandeiro e vizinho dela) , bem como todos as demais moradias desse filme, foram construídos propositalmente como cenários bucólicos. Mas isso não importa. São livros e filmes. Sonhei que um dia iria morar em um desses lugares, curtindo também a solidão incurável dos personagens. Aconteceu, mas sem livros e revistas até o teto. Amo o minimalismo, até por questão de necessidade. Mas essa solidão durou pouco menos de um ano.

Minha filha entrou em crise e veio morar comigo. Também já esperava por isso. Ela precisa tomar rumo na vida e aportou no meu apartamento, depois de desistir de morar com os avós em São Paulo. Na verdade, eu a mãe dela fizemos com que desistisse porque a vimos insegura e demorando muito para nos comunicar a incerteza sobre se essa mudança realmente seria benéfica para ela. Acertamos. Morando comigo e percebendo que eu estava meio sem rumo depois de 40 dias de isolamento, ela sugeriu: “Escreva um livro”! Eu havia dito a ela há algum tempo que pretendia escrever sobre os lugares e casas que morei e expliquei os motivos e a importância do assunto, como registro memorial e como descoberta dos nós existenciais que podem ser desatados.

O outro apartamento em que morei, quatro anos antes, era maior e mais sofisticado. Foi fruto de uma crise conjugal. Como não tinha mobília, dava impressão que era gigantesco. A proprietária era tão chata e metódica que nunca tive vontade de pendurar nada nas paredes nem comprar nada para preencher o espaço vazio. Só a cozinha estava equipada com o essencial: geladeira e fogão. Nos quarto apenas dois colchões e minha mala de viagens com as roupas e mancebo que eu e minha filha encontramos na rua. Está até hoje comigo, no banheiro. Na área de serviço, sem máquina e com um pequeno tanque, sobrava muito espaço e tinha uma vista espetacular, da linha do VLT, da maioria das vilas de São Vicente na direção de Santos, na zona noroeste; de Cubatão com suas chaminés e bicos de chamas de gás; e da Serra do Mar. Na sala tinha uma sacada bem confortável para leitura, com vistas para um mar de prédios, porém não tinha comparação com a área de serviço. Em todos os horários. Durante a feira, nas sextas de manhã; o movimento dos trens e um intenso tráfego das avenidas laterais. O barulho diminuía na medida que avançava a noite. No outono as luas eram espetaculares, surgindo atrás dos morros Voturuá e Itararé, enormes e alaranjadas no início da noite, para depois, no meio da noite se fixar bem cima do meu prédio, já cor de prata. Não tinha vontade nenhuma de dormir, embora tivesse que levantar cedo para estar na escola às 7 horas, na periferia. À noite ia e voltava à pé da faculdade onde também dava aulas. Nas madrugadas, entre os inúmeros habitantes noturnos, surgia uma figura toda vestida de negro, travestida. Vinha da avenida presidente Wilson, atravessava linha férrea e ficava por alguns minutos na esquina da avenida Marechal Deodoro, sozinha ou conversando com um ou outro notívago que surgia de carro (nunca entrava neles), bicicleta ou à pé. Depois desaparecia nas ruas desertas da Vila Valença. Dificilmente voltava. No início achávamos que se tratava de feitiço, pois ela carregava algo coberto com um pano. Como não depositava nada nos trilhos nem no cruzamento, excluímos essa hipótese. Só poderia ser traficante então. Mas não tinha nenhum indício de uma cena comercial, mesmo camuflada. Essa hipótese também foi eliminada. Por sugestão da minha namorada, passamos a vigiar com as luzes apagadas. Ficamos divididos entre o programa sexual (dela) e a simples fantasia de alguém que durante o dia era alguém de boa família e de bons costumes. Sugeri de irmos até ela para conversar, matar a curiosidade, mas não tivemos coragem. Achei que não seria nada demais, mas a minha namorada achou arriscado. Dois dias antes tínhamos visto uma discussão e briga de uma prostituta com um cliente bêbado. Ela cobrava o dinheiro do programa e ele dizia que não iria pagar porque ela era namorada dele. “Namorado não paga”, dizia ele. E começava a rir. E ela furiosa, xingava e continuava cobrando. E ele respondia: “ Você sempre me chama de meu amor, então é minha namorada.“Não pago. Não pago”. “Te pago uma cerveja, quer?




VIII 
A VILA 




A Vila em que morávamos nos anos 60 era um antigo porto fluvial particular, propriedade de uma companhia de colonização fundada em 1905 por duas grandes famílias paulistas: os Tibiriçá e o Diederichsen. Ficava no extremo oeste do estado, na divisa com Mato Grosso. O rio Paraná ficava praticamente em nosso quintal. Meus avós já eram funcionários aposentados dessa empresa quando meus pais ingressaram nos seus quadros. Os aposentados tinham que mudar da vila e ceder suas casas para os funcionários que estavam na fila de espera, de acordo com a graduação profissional. Foi assim que meus avós fora morar na cidade e nós ficamos em Tibiriçá até 1967, quando a empresa fechou e a vila foi vendida par um grande frigorífico que se instalava na região, nas margens do rio e próximo da rodovia Raposo Tavares. Nossa casa era de alvenaria; as dos meus avós eram de madeira. O piso era de tacos e na cozinha, banheiros e na varanda era de ladrilhos vermelho-ocre, cujos cacos já eram moda para revestir os quintais. Na minha casa eles eram inteiros e eu adorava deslizar neles quando a varando era lavada com sabão em pó, para depois ser encerada. Em frente de casa tinha um imenso campo gramado, de passeio e de jogos de futebol. A maioria das casas estava de frente para esse campo, que era ornamentado por árvores de cedro. Entre elas haviam bancos de madeira, onde as pessoas se reuniam para conversar. O banco de uma das extremidades do campo era frequentado só homens e por isso era chamado de Banco do Pecado. As ruas eram todas de terra e protegidas da erosão por uma grama rasteira natural. Esse campo não existe mais. Foi usado na construção de casas populares. Mas quando existia era muito bonito, apesar de simples. Ele foi registrado em imagens em preto e branco, feitas pelo fotógrafo alemão Konrad Vopell, em 1938. Voppel desembarcou no porto de Santos como turista e registrou com sua lente os lugares mais interessante da Capital e do estado, sobretudo as colônias industriais construídas pelas empresas estrangeiras. Tibiriçá era uma delas, quando a Tibiriçá Diederichsen foi vendida para um grupo alemã, já com o nome de Companhia de Viação São Paulo Mato Grosso.

Konrad Voppel provavelmente era um espião nazista ou então um observador que trabalha para o governo alemão e também para empresas do seu país interessadas nos negócios da América do Sul. O trabalho dele era o registro das atividades econômicas que pudesse interessar aos investidores e também seus sócios que eram membros do governo. Antes deles esse trabalho de observação ou espionagem foi feito durante alguns anos pelo Zepeplin, o dirigível que rodou o mundo em busca de informações para Hitler. Com os acidentes e sabotagens, o Zeppelin se tornou inconveniente. Foi então que os fotógrafos voltaram ao seus antigos trabalho de peregrinos. No início dos anos 70 esteve em Presidente Epitácio e Tibiriçá um fotógrafo japonês, que registrou também imagens curiosas dos arredores da cidade, sobretudo da navegação fluvial. Na época havia rumores que o Japão estava interessado em terras da região centro oeste, para expandir negócios e aliar a pressão populacional com um plano de imigração em massa para o Brasil.

Os estrangeiros adoravam Tibiriçá. Essa mesma empresa mais tarde seria revendida para o mega empresário tcheco Jan Antonin Bata, fundador das industrias de calçados Bata, com filiais em muitos países. Bata acreditava que sua missão no mundo era fundar cidades e suas criações urbanas são famosas no mundo inteiro. Seu plano era criar uma ampla rede produtiva em Mato Grosso, interligada por ferrovias e o Porto Tibiriçá seria o ponto estratégico para recepção, distribuição no estado paulista e escoamento de exportação no porto de Santos. No Brasil, Jan Antonim Bata fundou algumas colônias agrícolas importantes como a de Batatuba (Piracaia), onde construiu uma casa maravilhosa para morar com a família. As ruínas dessa casa existem até hoje. Fundou em Mato Grosso as cidades de Bataguassu e Bataiporã, cujas terras no entorno foram transformadas em centenas de chácaras, sítios e fazendas, algumas delas verdadeiros latifúndios de gado de corte. Conheci uma dessa fazendas, na cidade de Anaurilândia, que possuía um sede espetacular, toda construída em madeira de lei, com muito aposentos e até uma sala de armas, muito comum nas fazendas, por causa das onças que atacavam as rezes. Nessa visita à famosa “Fazenda Estância Boiadeira” tive uma grata surpresa ao encontrar num quartinho fora da sede algumas caixas com antigos talões de embarque de gado assinados por um dos meus avôs – Comandante Maurício Xavier Duque- que chefiava o serviço de balsas de travessia de gado entre o Porto XV (MT) e o Porto Tibiriçá (SP). O gado era conduzido até a estação da Estrada de Ferro Sorocabana, em Presidente Epitácio, e de lá embarcado para São Paulo. Nesse mesmo esquema logístico de transporte fluvial e ferroviário funcionava também a extração de madeira, cujas toras eram levadas em chatas pelo rebocadores fluvial da mesma empresa. Só um detalhe: a antiga Companhia de Viação SP-MT teve que mudar de nome durante a guerra, pois foi encampada pelo governo federal, por ser de propriedade estrangeira e considerada de interesse para a segurança nacional. Passou então a ser denominada Serviço de Navegação da Bacia do Prata-SNPB, autarquia pública ligada a diversos ministérios, dependo dos governos eleitos nesse período. Meus pais ingressaram na mesma empresa onde trabalharam meu avós, morando na mesma vila, já na condição funcionários públicos , contratados e depois concursado pelo DASP, nos anos 1950. Essa situação durou até 1967, quando tivemos que mudar para Presidente Epitácio, pois a nossa casa seria ocupada por um dos funcionários do Frigorífico União. Mais tarde a propriedade do Porto Tibiriçá seria vendida para o Frigorífico Bordon e depois Swiftt, marca de aluguel para exportação de carnes.

Foi na varanda de ladrilhos da casa em Tibiriçá que ficou gravada em minha memória uma cena que teria influência marcante no meu envolvimento com o trabalho voluntário de prevenção do suicídio. Já de madrugada, minha chorando ao saber que um tio nosso havia tentado o suicídio dando um tiro em um dos ouvidos. A arma que ele usou pertencia ao meu avô. Mas nessa casa tivemos momentos felizes, festas de aniversário, jantares para amigos, páscoas, natais e revellions. Nessa época morava conosco a nossa madrinha Manoela Borges, pessoa que havia criado meus avós e minha mãe. Ela era separada, ex-mulher de Guilherme Borges, que foi gerente da Companhia de Viação e da Fazenda CIMA, em Indiana, onde minha mãe havia morado com elas, como filha adotiva. Eles tinham perdido uma filha de 17 anos, com tuberculose e minha avó, para minimizar o sofrimento deles, deixou que minha mãe fosse viver com eles. Em 1967, Dona Manoela recebeu em nossa casa uma visita muito especial de uma amiga de muitos anos. Era Dona Cacilda, que foi professora do meu pai na escola primária de Tibiriçá. Ela trouxe com ela os dois filhos, que eram músicos de grande sucesso e se apresentavam em todas as rádios e emissoras de TV. Chamavam-se Neno e Irupê. Naquele dia eles fariam um baile-show no clube da Sociedade Filarmônica 27 de Março, em Presidente Epitácio. Vieram acompanhados de outros músicos que formavam o conjunto The Jordans, para o lançamento do LP Studio 17, com o single “Tema de Lara”, do filme Doutor Jivago. A presença de todos eles na minha casa causou um furor em toda a vila. O povo invadiu o nosso quintal e ocupou a varanda e as janelas para ver os astros da TV e do cinema ( no filme O Puritano da Rua Augusta). Neno e Irupê foram depois componentes do RC 7, banda exclusiva do Roberto Carlos e que aparece em todos os filmes do Rei da Jovem Guarda. Uma lembrança grata sobre eles: em visita a Londres, já nos anos 70, eles foram reconhecidos num restaurantes com “músicos brasileiros” e tiveram uma rápida, porém curiosa conversa sobre a bossa nova e outros estilos de música “tropical” com dois artistas já bastante conhecidos na Inglaterra e no mundo. Eram John Lennon e Ringo Star. O encontro deles foi registrado numa foto bastante divulgada na internet.




IX 
JARDINEIRO 



Recentemente perguntei a minha mãe quem foi João Puba e logo sua fisionomia grave transformou-se num sorriso, fruto de uma grata recordação de infância. João Puba era o jardineiro da casa da gerência do Serviço de Navegação da Bacia do Prata e que sempre demonstrou um grande afeto pela minha mãe. Pai de uma grande prole e originário do sertão de Minas Gerais, seu João Puba era cultuador da Festa de Folia de Reis em Tibiriçá e minha mãe e suas amigas eram encarregadas de arregimentar as crianças para abrilhantar a festa e não deixar morrer a tradição que ela tanto prezava. Pessoa de aparência e hábitos simples, seu João cumpria à risca as ordens dos superiores para manter a ordem e a beleza da Vila Tibiriçá como se fosse um grande jardim de todos que ali moravam.

Conta-se que no dia do falecimento de Armênio Ribeiro, administrador do porto e do Distrito, o velho jardineiro estava muito preocupado e logo cedo tratou de cuidar para que o enterro do chefe fosse realizado conforme a vontade do morto. Ele havia solicitado por diversas vezes para que não fosse esquecida sua última vontade ao partir de Tibiriçá. Aproveitando a fartura da época, Seu João logo se apressou, pois não havia muito tempo para que a tarefa fosse realmente cumprida. Os amigos vendo-o quase em estado de aflição, com medo de não conseguir cumprir o que havia prometido, tentavam dissuadi-lo a fazer somente o que fosse possível, mas seu João não concordava. Queria fazer tal qual fora bastante recomendado.

Graças a ele, o enterro, que seria realizado no antigo cemitério de Epitácio, teve um momento especial de beleza, gratidão e respeito pelo chefe que partia. O trecho entre a porta da Casa da Gerência até o Mata-Burro, próximo ao aeroporto, não era curto e também não era muito longo, porém, naquele dia triste e inesquecível, o chão, sem falhas no percurso, estava forrado de centenas pétalas de rosa e provavelmente milhares de pétalas de flores de primavera.

Mas o sorriso de minha mãe não foi somente por ter tido essa lembrança da agonia do velho amigo jardineiro e do enterro do Seu Ribeiro. Ao ser questionada por mim, ela respondeu prontamente:

“O Espírito do Seu João Puba foi a minha primeira vidência. Numa noite, logo após o jantar, enquanto o Padrinho Guilherme (Borges) lia na sala, intuitivamente me dirigi para a porta que dava para o quintal e deparei com um forte estrondo seguindo de um enorme e inexplicável clarão. Lá estava o Seu João Puba sob as árvores, com a mesma roupa simples, sorridente e segurando sua boa e velha enxada de trabalho. Era um sinal de que ele me acompanharia na minha tarefa espiritual até que pudesse aprender a lidar sozinha com a minha mediunidade”.

Em nossa família, todos, de alguma forma, tiveram contato com essas informações sobre as verdades espirituais e recebeu essa influência com as respectivas repercussões íntimas para cada um. Nenhum de nós, portanto, poderá alegar ignorância e falta de oportunidades, caso algum dia nossas consciências façam esse tipo de cobrança.

A desocupação da Vila Tibiriçá é um assunto que ficou pendente na vida da minha mãe e dos funcionários da Bacia do Prata. Foi um processo meio confuso, rápido e cheio de contradições. Políticos e empresários epitacianos tinham interesse em se apropriar do Porto Tibiriçá se aproveitando do processo de desmonte da bacia do Prata e a entrada do de um frigorífico na cidade, que utilizaria as casas para os funcionários. Uma negociata obscura que na época era difícil questionar, por causa do regime militar. Ninguém sabe até como uma área pública foi para nas mãos de uma empresa particular e parte desse patrimônio caiu nas mãos de especuladores imobiliários: áreas ribeirinhas de exploração do turismo, pastos de gado transformados em chácaras e sítios e o parque Figueiral e o aeroporto, que ficou sob posse da prefeitura. A parte que ficou sob interesse privado foi renegociado quando o Frigorífico Bordon sucedeu o União. O mesmo aconteceu recentemente com o JBS, depois de um longo período de desativação. A vila permaneceu ocupada por funcionários e ninguém foi incomodado, diferente do aconteceu com os moradores do tempo da Bacia do Prata.





CASAS 



Quando saímos de Tibiriçá, moramos em em mais quatro casas em Epitácio, duas alugadas e as outras duas pertecentes aos meus avós, paternos e maternos. Nossos avós maternos viviam nu sítio em Mato Grosso, adquirido da Companhia de Viação SP-MT. A duas casas alugadas foram de estadia rápida e transitória. Meus pais estavam meio desnorteados, pois nunca tiveram problemas com moradia e achavam que a estabilidade da Vila de Tibiriçá duraria até a aposentadoria deles, como aconteceu com meu avós. Com a extinção do serviço fluvial de travessia, a maioria dos moradores teve que se mudar às pressas.

As casas dos meus avós eram completamente difrentes e refletiam exatamente o que eram intimamente. As duas eram de alvenaria, diferentes das casas alugadas que moramos anteriormente, que eram de madeira. Casas de madeira eram muito comuns na região. Já as casas de alvenaria eram raras e dizia-se que eram de “material”, no sentido de serem diferenciadas na concepção e construção. Mas haviam também casas de madeira muito amplas e bonitas, que aproveitavam bem a fartura desse pruduto ofecido pelas inúmeras serrarias e madereiras que haviam na cidade. Só em Epitácio, nos anos 1950, haviam 18 grandes serrarias, numa cidade com pouco mais de dois mil habitantes. Entretando, a habitação de material era sinônimo de ascensão social dos profissionais estáveis e abastados. Eram feitas por empreiteiros que atuavam na região, que funcionam ao mesmo tempo como engenheiros e arquitetos. Nesse período começam a surgir também as olarias, que fabricavam tijolos e telhas. Era um negócio dominado geralmente por portugues e espanhóis.

A casa da rua Cuiabá não era luxuosa, mas tinha a intenção de mostrar a conquista do novo status quo do meu avô. Ele era um funcionário público aposentado e também sitiante. Além dessa casa , meus avós possuíam uma chácara, de um pouco mais de um alqueire, que ficava no extremo da mesma rua, na direção da barranca do rio. Ali minha avó começou suas atividades leiteiras, que depois transferiu para o sítio em Mato Grosso, no município de Bataguassu. A casa da rua Cuiabá tinha um quintal enorme. Alí minha avó reproduziu num pomar de árvores praticamente todas as espécies frutíferas que existiam na sua terra de origem, na região de Sobradinho, e também do meu avô, que era de Carinhanha, Bahia. Lembro nitidamente dos dois pés de umbú, com pequenas folhas verdes claras; dois pés de pinha; um pé de jaca, duas jaboticabeiras, sendo uma no jardim de fronte para a rua; uma goiabeira, um pé de cajá-manga e outro de cajazinho; três mangueiras, uma espada e duas rosa; dois ou três mamoeiros; um grande abacateiro; e finalmente a minha preferida, a arvore de tamarindo, não pela fruta, que não gostava por ser muito azeda, pela pela sua aparência de superioridade, galhos firmes, escuros, estirirados e que avançavam por cima dos muros vizinhos. Era o quintal dos sonhos de qualquer criança, no qual criei até um filhore de tatu, por pouco tempo, encontrado na estrada pelo meu meu pai. Nesse quintal também havia uma pequeno depósito feito de madeira e corbeto com telha, que serviu para o primeiro espaço de bricadeiras de oficina, escritório e que depois se tranformou num clube. Nessa época eu era escoteiro e já tinha visto no cinema o filme Os Meninos da Rua Paul, inspirado na obra de Ferenc Molnár, jornalista e escritor húngaro. A escola fica quase ao lado de casa e dava para escutar o sino de aviso para formar filas no pátio.

Meu avós maternos vieram para o Porto Tibiriçá nos anos 1920 como retirantes e não se conheciam. Nessa época Epitácio não existia. Só surgiria com a chegada dos trilhos ferroviários que avançavam além da serra de Batucatu. Antes disso, no incío do século, toda a região oeste paulista era selvagem. Quando chegaram, meu avô foi trabalhar nas obras da Estrada de Ferro Sorocabana e minha avó como empregada doméstica na casa de Guilherme e Manoela Borges. Com o passar tempo eles adquiriram uma casa vizinha na rua Cuiabá, de madeira, que alugavam para ajudar nas despesas. Eles, Maurício e Maria, tiveram cinco filhos, duas mulheres e três homens. Dois desses filhos eram solteiros e moravam conosco nesse período. Também passavam algumas temporadas no sítio, que se chama São Guilherme, nome provavelmente escolhido pela minha avó Maria para homenagear o padrinho Guilherme Borges, que nessa altura da vida vivia em Presiente Prudente, separado de dona Manoela Borges. Seu Guilherme Borges aparece nos relatório de viagem do Dr. Adolpho Lutz, numa expedição cientifica de 1913 entre Tibiriçá e Guaíra, no rio Paraná. O sítio durou cerca de 30 anos, quando as terras daquela região foram inundadas pela usina hidrelétrica de Porto Primvera, formado um lago de 16 quilômetro no rio Paraná. Meu avós voltaram a morar em Presidente Epitácio, onde terminaram seus dias.

O sítio deles na Reta A-1 era uma propridade de 51 alqueires que tinha como vizinhos alguns sitiantes e também fazendeiros, com terras com o tamanho de 600 a 800 alqueires, que no Mato Grosso era contado como 48 mil metros quadrados cada. Um deles era Seu Faustino Azenha, também proprietário do primeiro cinema de Epitácio. Os varjões dominavam as fazendas, enquanto os sítios foram ocupados em local mais alto e seco. Durante as noites era possível ver uma imensidão de vagalumes e, no varjão, o movimento misterioso de uma pequena feixe de luz prateada, muito forte e rápida, se escondendo e aparecendo na vegetação baixa. “fogo fátuo”, para os céticos, efeito da decomposição orgçanica de animais; ou boitatá, espíritos da mata, para os caboclos pirangueiros.

A primeira casa do sítio na Reta A-1 foi feita de madeira, duas águas, com tábuas verticais. Não tinha varanda, nem forro e os quartos faziam parede com um paiol de milho e ferramentas. O fogão era de tijolo e revistido de vermelhão. O piso era de chão batido. Os banheiros eram externos e feito também com tábuas de madeira, um com fossa; e outro só para banho, com piso de tijolos. Não havia eletricidade e a água era retirada de um córrego que ficava em frente, a uns 15 ou metros da casa. Era o Córrego da Anta, que tinha vários pontos largos e estreitos e desaguava no rio Paraná.

A segunda casa do sítio era pré-moldada e foi adquirida quando houve a oferta de muitas delas, do canteiro de obras do DNER, durante na finalização da contrução Ponte sobre rio Paraná, ligando São Paulo a Mato Grosso. Era de madeira também, telhado de uma água e não tinha banheiro. Mas tinha forro, vidraças e assoalho de madeira. Tinha uma pequena varanda nos fundos. Na cozinha foi feito um piso de de cimento queimado, com vermelhão, assim como um novo fogão de tijolos. No quintal havia o banheiro, o sanitário e um poço artesanal, cuja a água passou ser ser retirada com bomba a óleo Diesel. Haviam árvores relativamente grandes ao redor da casa, oferecendo sombra nos dias de sol.

A terceira casa do sítio também foi feita de madeira, para que fosse ocupada por um dos meus tios, que casou e foi morar lá co a sua jovem esposa. Lá tiveram tiveram dois filhos e algum tempo depois foram cuidar da vida em outros lugares. Acredito que foi o melhor período da nossa infância , onde passávamos as férias e feriados longos. Foi onde aprendi a nadar, jogado por esse tio, de surpresa, numa lagoa formada pelo córrego e que fica numa fazenda vizinha. Ele teve sucesso na sua intenção de ensinar algo que se deve aprender sozinho. Foi ele também também que me ajudou a comprar meu primeiro carro ( uma Brasília 77), vendida por ele em longas prestações. A placa era de Bataguassu-MS e as multas tomadas em São Paulo nunca chegavam para pagar, pois não havia comunicação de dados entre os Detrans do estados. Esse meu tio me vendeu um segundo carro, também meio na faixa, um Gol BX 82 à àlcool. Algum tempo depois depois, adquiri um Passat 79, comprado em Osasco, que usei algum tempo em São Paulo e depois tornou-se para mim um marco de negócio. Era um carro veloz e confortável, embora já bastante usado. Passando férias em Epitácio, li um anúncio no único jornal local, que era semanário, ví que alguém havia colocado uma casa à venda, na rua Curitiba. Era um jovem borracheiro que queria se mudar da cidade e quando viu o Passat ficou alucinado. Paguei uma pequena diferença e fiquei com a casa. Tinha como vizinhos um funcionário do Banespa, vindo de Santo Anastácio; e uma famíla antiga e amiga de Tibiriçá.

A outra casa de material , dos avós paternos, ficava ao lado da antiga agência dos Correios e também da Delegacia dos Portos, da Marinha de Guerra. Esse dois prédios, geminados, petenciam ao meu avô, também aposentado da SNBP, mas não era sitiante. Complementava a aposentadoria com alguéis, incluido a primeira casa que construíram antes dessa fomos morar. Essa casa era mais moderna e espaçosa, com amplas varandas na frente e nos fundos, além de uma garagem comberta. Esse meu avô nasceu da região do Vale do Paraíba (São José dos Campos) , mas viveu algum tempo no Rio de Janeiro. Soube da transformação causa pelas ferroas no interior de São Paulo e foi tentar a sorte no Porto Tibiriçá, trabalhando num hotel. Minha avó era imigrante húngara, que veio com os pais e irmãos em 1924 para povoar a Colônia Arpad Falva, que ficava entre Presidente Epitácio e Caiuá. Eles se conheceram nos bailes que eram realizados na colônia e frequentados por rapazes e moças da região. Iam à pé ou de trem. Carlos e Verônica (Vera) tiveram também cinco filhos, dois homens, incluindo meu pai, e três mulheres. Após a aposentadoria em Tibiriçá , se fixaram em Epitácio , onde também terminaram seus dias. Uma curiosidade, esse meu avô faleceu durante uma viagem ao Rio de Janeiro, quando tentava uma colocação para o meu tio – o caçula- nos quadros da marinha mercante. Os corpos dos meus avós alguns tios e também do me pai estão enterrados em Presidente Epitácio, num espaço público denominado Cemitério da Igualdade, no qual as sepulturas são todas no chão de terra e coberta por grama ou flores, tendo apenas uma simples placa de mármore, com a identificação dos mortos, sem nenhuma exceção.

Nessa casa ficamos apenas alguns meses, pois meu avô havia falecido há alguns anos e minha avó morava sozinha. Em 28 de março de 1974 mudamos para São Vicente, já que meus pais continuavam em regime de disponibilidade da SNBP, podendo escolher algumas cidades onde houvesse serviços do Ministério dos Transportes. Escolheram São Vicente de olho no Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis, em Santos. Não chegaram a trabalhar nesse setor, pois aposentaram-se antes de serem chamados. Mesmo assim, trabalhavam em outras empresas, para complementar a renda. Éramos seis filhos homens, um com três meses de idade, dois pré-adolencentes e dois quase adultos.


XI
ESQUINA




Em 1972 meus pais viviam um momento de agonia pessoal, uma crise familiar e ao mesmo existencial que exigia mudança de rumos. Mesmo recebendo seus salários do serviço público, eles tentavam ampliar os ganhos e horizontes em busca de algo melhor para todos. Vivíamos modestamente, mas não era suficiente. Meus avós ajudavam. E como. Precisava acontecer algo diferente e que provocasse uma mudança no roteiro de nossas vidas. Nossa Madrinha Manoela tinha morrido um ano antes e um sentimento de orfandade tomou conta da famíla. Ela era madrinha dos meus avós, dos meu tios, dos nossos primos e de muitas pessoas na cidade. Isso acentuou a nossa crise familiar. Meu pai trabalha em serviços extras e até teve um bar em sociedade com o amigo muito querido na cidade. Era um imigrante espanhol. Minha mãe tentou um negócio de cosméticos. Outro amigo, empresário da panificação, queria que ele assumisse de vez a gerência do negócio, pois queria passar um longo tempo em Portugal. Meu pai tocava a padaria durante essas férias do amigo, mas não era isso que ele queria. Minha mãe não sabia o que ele queria e talvez nem ele próprio sabia. Era uma insatisfação indecifrável. Mas ele tinha dívidas. Contas urgentes a pagar. A agonia aumentou, apesar da ajuda de parentes e amigos muito caros. Numa manhã de sábado ele saiu de casa para ir bar conversar com os amigos, os de sempre. Nada de diferente. Veio almoçar e saiu de novo. Quando voltou entrou em casa apressado com um sorriso estampado no rosto, uma alegria diferente. Dirigiu-se ao quarto, abriu a porta do guarda- roupa e pegou algo que estava guardado no bolso de um paletó. Geralmente ele guadava dinheiro e maços de cigarros da marca Continental, sem filtro. Naquela dia não foi cigarro nem dinheiro, quer dizer era outro tipo de dinheiro. Pegou o que procurava e saiu com a mesma pressa com que havia entrado. Minha mãe estava na sala e corri até ela para perguntar o que tinha acontecido. Ela me respondeu, também sorridente: “Seu pai ganhou na loteria”. Ele tinha vindo pegar os bilhetes que tinham sido premiados no sorteio da Loteria Federal. Eram três pedaços com final 84. Touro, no jogo do bicho e também signo dele. Depois soubemos que ele tinha encomendado um bilhete inteiro, mas o vendedor de loteria só tinha três pedaços. Deixou com ele e prometeu voltar com mais dois pedaços até fim do dia. Não apareceu. O prêmio foi de 65 mil cruzeiros. Uma festa na cidade, apesar da quantia modesta, pois no ano anterior um empresário havia ganho 350 mil, um verdadeira fortuna. A sorte rondava as ruas de Epitácio. Na segunda-feira, quando cheguei na escola para entrar na fila da minha classe, a professora anunciou o que todos já sabiam. Ela estava feliz de verdade, enquanto a escola inteira olhava para mim. Eu acreditei naquele instante que realmente havia ficado rico. Foi uma sensação maravilhosa e indescritível. Nunca tive tantos amigos e admiradores mirins. A vida seguiu. Meu pai pagou as nossas e outras contas, ajudando alguns amigos, comprou uma Kombi zero quilômetro – lembro até hoje do cheiro de plástico e de novidade que ela tinha – comprou uma casa e não quis comprar um sítio que estava á venda, próximo do sítio do meu avô. Minha avó Maria , que era sogra dele e fã do programa do Zé Bétio foi quem tinha sugerido a compra. Não ouviu o conselho porque era da sogra e talvez não conhecia o ditado repetido diáriamente pelo grande aprentador sertanejo: “Quem compra terra não erra”. Mas restaram a Kombi e a casa. A Kombi nos levou a uma viagem de férias em Praia Grande, na vila Tupi. Foi quando conheci o mar e tudo que os turistas conhecem na orla da Baixada Santista. Voltamos encantados. Passamos na ida e na volta por dentro de São Paulo. E minha voltou da viajem com algumas ideias na cabeça. Meu pai continou deslubrado e preso a Epitácio; e minha mãe em busca de alguma outra transformação mais importante e outra alegria diferente daquela que estava no seu sorriso quando me de a notícia do prêmio loteria.

A casa comprada ficava na equina na rua Curitiba com a rua Guanabara, há apenas duas quadras de onde morávamos. Fomos ver e voltamos alegres, pois enfim , depois de tento tempo teríamos a nossa própria casa, e de esquina. Era uma casa simples, de madeira com tábuas horizontais e paredes duplas e ocas, para frescor no verão e calor no inverno, no estilo dos bangalôs americanos, com varanda e garagem. Uma graça, muito bem conservada com tinta à óleo. Era verde musgo por fora e creme por dentro. Tinha ainda um terreno anexo, todo arborizado, onde havia um pomar. Perfeito para brincar. Durante o mês inteiro eu pegava as chaves e visitava a casa até duas ou trê vezez ao dia, para ver ou mostar para alguns colegas. As visitas terminaram algum tempo depois quando soubemos que meu pai havia vendido a casa. A crise voltou ou estava no seu processo contínuo, não concluída. Durante algum tempo, já adolescente e vivendo em São Vicente, me via morando sozinho nessa casa. Lembro que nessa fantasia tinha um Mini Bug na garagem e na sala tinha uma garrafa de licor de menta. E uma namorada linda, que depois soube que tinha se casado e mudado para bem longe de Epitácio. Esqueci tudo isso quando comecei descobrir as praias de São Vicente e lugares interessante em Santos.

Tivemos que mudar da casa dos meus avós paternos e fomos morar na casa da avó paterna, dona Verônica, que há pouco tempo tinha perdido a sua mãe, a nossa bisavó Maria Szucs, que não falava uma única frase em português. E nunhum de nós falava húngaro e só nos comunicavmos com ela por gestos e olhares. Era a vó Santa, pois ela usava um lenço azul escuro na cabeça que lembrava as imagens de santas da Igreja. Ela pegava nas nossas mãos e dizia muitas coisas, sempre sorrindo, dando conselhos e fazendo observações, que advinhávamos com os seus olhares vivos, sobre as coisas do dia a dia. Como a miha vó, elas tinha olhos azuis. Corrigindo, a vó Santa ainda se lembrava de algumas frases em português quando tocava o telefone (aqueles aparelhos negros e pesados). Chegava perto do telefone, não tirava do gancho, e gritava: “Não tem ninguém”!!! Quando ouvia trovões, advertia: “Sokat esik az eső”, está chovendo por aí, na tradução da vó Vera.



XII 
SOBRADINHO 




Não tinhamos sofás nem camas. Só colchões e livros em pilhas para sentar. Era um tempo em que as coleções de livros faziam parte do acervo das casas. Tínhamos Jorge Amado, José de Alencar, Machado de Assis, a Gramática de Jânio Quadros (num mini suporte de madeira imitando o Congresso Nacional) , José Mauro de Vasconcellos e o Trópico Ilustrado, enciclopédia colorida, para substituir as caríssimas Delta e Britânica. E alguns livros espíritas, pois sempre tinha alguém pedindo emprestado e não devolvia, porque pedia para emprestar para outra pessoa. Nossa mudança se resumia numa geladeira, fogão, botijão de gás, enxoval de família e roupas pessoais. Uma TV Colorado RQ garantia a diversão de todos, com a novela Fogo sobre Terra, com Juca de Oliveira e Dina Sfat, sucessora de Selva de Pedra.

São Vicente e toda a região tinha um cheiro diferente de tudo conhecíamos, uma mistura de maresia e gases emitidos pelas indústrias químicas de Cubatão, sobretudo à noite. O que mais me fascinana nesso horário era ver as lanternas vermelhas sobre os edifícios altos da orla e, no céu, a luz alaranjada emitida dos bicos de fogo das torres da refinaria da Petrobrás.

Foi uma semana de incertezas e expectativas. Minha queria morar em Paulo e pai não queira sair de Epitácio. São Vicente foi o meio termo. Um alívio para os dois e uma grande aventura para todos.

Estávamos instalados num sobrado na rua Uberaba, sem garagem, no Jardim Independência. A avenida Prefeito José Monteiro não tinha calçamento, como nehuma outra rua do bairro, exceto a Anita Costa, que tinha paralelepípedo. As pedreiras próxima aos morros funcionavam a todo vapor com explosões de dinamite de manhã e à tarde. Poucos meses depois fomos morar na rua Rio de Janeiro, numa casa maior. Uma rua cheia de famílias como a nossa, com muitos filhos e de olho no futuro. Havia nessa rua um conjunto residencial que se chavama Verde Oliva, onde moravam muitos militares que serviam no Batalhão de Caçadores no Cascatinha. Ainda estávamos no regime militar e isso influenciou até na mudança do nome do bairro, que antes se chamava Vila da Misericórdia. A construção do Oliva exigia um nome mais apropriado e cívico, então homenagearam assim o Sesquicenário da Indpendência.

Chegamos em março e não encontramos vagas nas escolas da cidade. Fomos estudar em Santos, numa escola na avenida Ana Costa (Dino Bueno), que fica ao lado do grande orfanato fundado por Anália Franco. Íamos sozinhos, de ônibus. De vez em em quando combinávamos de não descer no ponto e seguíamos em direção ao centro, para conhecer a área portuária, principalmente a rua General Câmara. Também pegávamos outro ônibus e íamos até a Ponta da Praia, ver o movimento de navios no canal do porto. Uma vez fomos até a cidade Ociam , em Praia Grande. A Ociam foi um empreendimento de Roberto Andraus, que foi prefeito de São Vicente e construtor paulistano. Minha mãe descobriu tudo e conseguiu transferir a gente para uma escola de São Vicente. Ensino noturno na E.E. Vila Sorocaba, na avenida Antônio Emmerich. Tínhamos aulas de francês com um professor chic e bastante amigável, Constant Luciano Hulmond, que depois de morrer se tornou nome dessa escola, na Vila Melo.

Meu irmão mais velho fazia faculdade em Santos e o outro, quase adulto e músico, foi se aventurar no Araguaia, tocando em bailes e boates. Depois voltou e os dois trabalhavam com pesquisadores do IBGE e da Lista Telefônica. Nessa época a grande fonte de empregos eram as empreiteiras que construíam a rodovia dos Imigrantes. Mudamos para casa vizinha, um pouco mais nova, geminada com a casa de uma família de alemães muito educados e divertidos. O patriarca e filho mais velho trabalahavam na Volkswagem, em São Bernardo do Campo. E tomavam muita cerveja, entregue pelo caminhão de uma distribuidora. Naquela época só tinha lata de Skol , chamada skolzinha, que eles não gostavam, por ser “aguada”.

Foram dez anos de mudanças intensas. Meu pai foi trabalhar numa plataforma de petróleo, em Campos, empresa de hotelaria a serviço da Petrobrás, em turno quinzenal. Meu irmão mais velho foi para São Paulo trabalhar como designer industrial, depois de um estágio na COSIPA.

No final da década de 1970 e inicio dos anos 80 a família mudou-se para São Paulo. Minha mãe ainda precisa realizar uma parte importante do seu projeto de vida. E conseguiu. Morar e trabalhar em Sampa, cidade que ela adorava. Eu ainda fiquei mais um ano e fui o última a sair da casa, com lágrimas nos olhos, para ir morar num apartamento no Gonzaga. Um amigo carioca e engenheiro, me arranjou emprego numa fábrica, onde fiquei dois anos enquanto iniciava da faculdade História em Santos. No primeiro dia de trabalho vi na rodovia Anchieta o rescaldo do incêndio da Vila Socó, com dezenas de mortos. Vi também uma ação de uma grande frota de ônibus de funcionários da Cosipa evacuando moradores da Vila Parisi, após a propagação de um nuvem baixa de amônia que escapou de uma fábrica de fertilizantes. Cubatão era um grande risco para todos. No ano seguinte ocorreu a na Índia a tragédia de Bopal, numa fábrica química, que tinha um filial em Cubatão. Foi nessa época também que a Rohdia, outra multinacional desse ramo químico, construiu na área Continental de São Vicente cavas para depositar lixo tóxico produzido no polo industrial de Cubatão. As cavas só foram decobertas e denunciadas na imprensa quando milhares de família invadiram esses terrenos para construir moradias, no Rio Branco e no Parque Continental. Aquela região teve em 30 anos um salto de 3 mil par 150 mil habitantes, entre 1990 e 2020.



XIII 
RAPOSO 



São Paulo passou por todas as mudanças urbanas cem anos antes da maioria das cidades brasileiras, com exceção do Rio de Janeiro, que foi o modelo de reformas no início do século XX, importado tardiamente das mudança ocorridas em Paris e Londres. A diferença é que na capital paulista as coisas aconteceram numa velocidade industrial, admiravelmente acelerada, tanto que não foi apenas descrita pelos cronistas e poetas, mas também pelos antropólogos, historiadores e geógrafos franceses que vieram dar aulas nos primeiros anos da criação da USP. As transformações aconteceram na cidade e também nos arraiais que rodeavam a Capital, as antigas “freguesias”, acomodadas em fazendas, sítios, chácaras , nos vales das pequenas serras e nas margens e várzeas dos rios. Esses núcleos ainda rurais receberam as primeiras ferrovias e depois se tranformariam em “largos” dos bondes e finalmente nos viadutos e estações do metrô. O anúncio de um loteamento, por mais distante que fosse, era suficiente para causar uma inquietação nos moradores recém chegados e que se aglomeravam nas pensões e cortiços do centro da cidade. De alguns poucos milhares de habitantes em 1900, São Paulo reuniu, em pouco mais de 50 anos, centenas de bairros e numa infinidade de vilas, quase 15 milhões de habitantes .

Como vimos, uma segunda crise familiar nos levou a São Paulo entre 1984 e 1985. Uma prole essencialmente masculina não se desgruda do seio materno com tanta facilidade. Não tinhamos irmãs nem cunhados. Isso dicultou as coisas e retardou as mudanças. As noras que foram chegando tiveram que se adaptar ou se afastarem. E nós permanacíamos. Nosso destino foi o Butantã, bairro que um dia foi bem afastado da área central e que depois abrigou a enorme glema onde foi construída a Cidade Universitária e seus institutos e faculdades. Ficamos no entorno, entre Osasco e o Morumbi, tendo como acesso principal a rodovia Raposo Tavares, no Km 6. Ironia do destino, pois essa rodovia acabava 640 quilômetros depois em Presidente Epitácio. Ocupamos três apartamentos de um então novo conjunto residencial chamado L”Abitare, com torres modernas de 13 andares, contruidas numa pequena floresta à margem da rodovia. Tinha piscinas e parques que nunca usamos. O condomínio oferecia aluguéis baratos e tinha como atrativo principal um hipermercado instalado em frente da portaria, do outro lada das pistas, mas que dava acesso a loja por uma passarela de pedestres. Na medida que a demanda pela compra de apartamentos foi aumentando os aluguéis se tornaram altos e fomos obrigados a migar para o outro lado da rodovia, num pequeno e mais modesto condomínio; e depois numa grande casa de três pisos na Vila Gomes, muito próximo ao Jardim Bonfigliolli. Nesse período eu já havia passado como empregado de uma loja de instrumentos musicais, na avenida Rebouças e concluía meus estudos na PUC. Dava aulas numa escola da avenida Paulista e nas filiais espalhadas em vários bairros de classe média: Paraíso, Aclimação, Pinheiros, Lapa, Santo Amaro, Morumbi e finalmente Alfaville. Minha mãe decidiu voltar para Epitácio, preocupada com a insatisfação do meu pai com a cidade. Vivia trancado em casa e se recusava a se integrar no ritmo alucinado, de sair de casa às cinco da manhã e voltar à meia noite. Lembro que tentamos comprar um apartamento na Freguesia do Ó, mas meu pai não queria ter vínculos com São Paulo. Anos mais tarde eu voltaria, casado pela segunda vez, para morar na Freguesia. Ele queria voltar para sua terra natal e conseguiu. Porém, morreu apenas quatro ou cinco meses depois de terem se mudado. Nesse tempo minha mãe morou em três casas em Epitácio.

Permaneci em São Paulo num apartamento na rua Eusébio de Queiróz, no Paraíso, quase Aclimação. Era horrível, me sentia muito só e perdido. As namoradas moravam sempre longe e queriam casar pra mudar de vida. Moravam tão longe que eu não sabia voltar depois de levá-las em casa. Isso me assustava. Eram vínculos muito frágeis, na minha visão e, vendo o que acontecia com muitos colegas, desistia rápido dessas relações. Já estava entrando na casa dos 30 anos e algo mais instintivo me dizia que já estava na hora de começar a pensar num prolongamento da raiz genética misturado com o receio da solidão. Foi então que comecei a pensar numa moradia fixa, em um ninho, sem pensar muito na ideia de que teria que atrair uma fêmea que estivesse passando pela mesma crise. Voltei a pensar na casa da esquina em Epitácio, agora sem mini bug e licar de menta, mas com cerveja, whisky, vinhas e conhaque. Adquirir um imóvel em São Paulo, do jeito que eu queria, fantasia de cinema, era praticamente impossível. Morar na periferia, nem pensar. Achava que era um sofrimento desnecessário, embora milhões de pessoas levassem uma vida tranquila e feliz no arredores da cidade e também nas cidades vizinhas. O problema era eu. Adorava São Paulo mas estava me sentindo deslocado. Teve uma época que me tornei expectador do programas sobre negócios. Fazia lanche numa pequena pastelaria perto do Centro Cultural São Paulo, de um ex-funcionário do Metrô. Pronto, aquilo se tornou uma referência e partir para o sonho empreendedor. Meus alunos do colégio do Morumbi e de Pinheiros, só falavam nisso e vinham me pedir conselhos. Eu fingia que entendia porque via as tendência no programa de TV e na revistas especializadas. A moda eram as pizzarias e outros pontos de alimentação fast-food, locadoras de vídeo e o lava-jato. Só se falava em franquias. Numa viagem que fiz com um colega ao Paraguai, na volta passamos em Epitácio e via que acidade estava vivendo momento de euforia: termas de águas quentes, muitos funcionáros da CESP e de grandes empreiteiras mudando para a cidade. Tive então a ideia de ter uma franquia da nossa escola. Éramos professores na mesma escola. Ele não quis e acabou indo morar no Canadá, onde vive até hoje. Eu fiquei com esse pensamento, embora nem soubesse por onde começar. Mais isso não foi problema. Em menos de dois anos, eu um dos meus irmãos, já estávamos com um escola funcionando em Epitácio, usando a franquia , sem concorrentes e com muita chance de crescermos também na região. Foram seis anos de entusiasmo e depois um retundante fracasso. O que valeu a pena foi voltar a morar na cidade onde havia nascido, vivido a minha infância e parte da adolescência. Voltar a ouvir o silencio das ruas e a paisagem do rio foi deslumbrante. Meus avós ainda viviam e tínhamos muitos parentes e amigos que também haviam voltado pelos mesmos motivos. Queriam dar um tempo ou viver ali definitivamente.

Quando troquei o Passat pela casinha de madeira na rua Curitiba senti que as coisas poderiam acontecer, não do jeito que eu imaginava, mas aconteceriam de alguma forma. A casinha foi tranformada numa casa maior, a partir de uma barracão rural, com piscina, edícula e área grande área de lazer. Tudo simples, mas muito de bom gosto. Interessante que os pisos eram muito caros na época e optamos pela ardósia escura, que combinou muito bem com a construção que lebrav as pousadas rurais e de praia. As pessoas passavam enfrente de casa e só faltavam ser convidarem para entrar e ver o que tínhamos feito. Queria mais. Queria uma chácara e um grande tereno para construir uma instalação escolar mais adequada. Comprei do meu avô um terreno de dois mil metros quadrados. Fiz lá um barracão de obras com madeira e telhas de uma casa demolidada que minha mãe havia adiquirido através de um consórcio. A ideia dela era construir uma nova casa no tereno. Nunca foi feita e ele acabou devolvendo o terreno. Incrível como as coisas não se concretizam quando não são feitas de forma adequada às regras e à natureza desse negócio. Depois dessa estadia em Epitácio, finalizada por uma nova crise, tomei o rumo de Campo Grande uma cidade que conhecia e visitava com frequência. Ali vivi pouco mais de um ano, tempo de uma campanha eleitoral inciada em março e concluída em novembro.



XIV
SÃO PAULO



Na virada do ano de 1998 para 1999 uma nova crise me reconduziu de Mato Grosso do Sul para São Paulo, capital. Em Campo Grande tinha morado num bairro de casas muito bonitas. Na cidade as calçadas são largas e aproveitadas como jardins. A casa que morei pertencia a um empreiteiro paranense que construia postos de gasolina. Ele queria me vender a casa, que era nova, boa e muito barata, mas não consegui fazer dinheiro com a minha de Epitácio para fechar o negócio. Ficava na rua das Garças, esquina com uma das ruas que cruzam a avenida Mato Grosso, no bairro Santa Fé. Com a ajuda de um primo, me engajei na campanha de um candidato a governador, que venceu o pleito. Me ofereceram um cargo na nova administração, porém tinha uma intuição que não ficaria morando na cidade. Nesse periodo fiz muitas atividades espirituais, fazendo palestras e elaborando publicações. Cheguei a trabalhar em dois jornais, que deixei logo, para entrar na campanha politica. Recebi uma proposta de abrir uma agência de publicidade com o capital de uma gráfica industrial da cidade. Recusei. Consegui aulas numa organização educacional maçônica, depois de passar por um complicado processo seletivo, por jogo de influências. Mais uma vez fui salvo por amigos. Meses antes de sair de Campo Grande, fui fazer um concurso na Secretaria da Educação em São Paulo. Nas duas longas viagens que fiz de ônibus, tinha tempo de sobra para estudar os textos das duas etapas. Eram 16 horas de viagem, 32 ida e volta. Consegui passar. Foi um período de muitas inquietações íntimas, no qual tinha sonhos simbólicos nos quais era criança, sempre atravessando as avenidas mais movimentadas segurando as mãos da minha mãe. Isso acentuou ainda mais a minha vontadade inconsciente de mudar. Estava envolvido com muitas coisas e pessoas, aparentemente numa situação estável e promissora, porém intimamente não conseguia me integrar, falta de afinidade com aquilo tudo. Não era nada de ruim, mas não era para mim. Uma amiga muito querida, em visita à minha casa, contou-me que uma pessoa que se preocupava muito comigo tomou a inicativa de consultar um advinho sobre a minha situação, logo depois da crise que me fez sair de Epitácio. O vidente descreveu a ela que eu atravessaría as águas para morar numa grande cidade , mas que depois, de volta, atravessaria as mesmas águas para morar numa cidade muito maior.

Voltei para São Paulo sem saber dessa revelação. Minha mãe estava morando na mesma região do Butantã, num sobrado enorme, onde me instalei com a minha estante, meus livros e meu carro, que dormia na rua. Dessa vez a crise foi forte e teve um forte componente espiritual. Vivia do aluguel da casa de Epitácio e aguardava a chada do concurso, que só veio em outubro de 1999. Enquanto isso fazia caminhadas na Cidade Universitária e percorria os pontos culturais da cidade, quando podia. Que época maravilhosa, apesar da crise pessoal e econômica que o país estava passando. Vivia cheio de preocupações, poré tinha muita confiança no futuro.

Voltei a estudar e fui fazer mestrado, decisão que mudou completamente a minha visão de mundo, pesquisando uma área diversa da minha graduação original. Da História fui me aventurar na Comunicação Mediática; pesquisa da transposição de texto literário para texto audio-visual, ou seja cinema, rádio e televisão. Tudo feito com um grupo de professores da ECA-USP que atuavam no programa de pós-graduação de uma universidade privada. Nossa turma era uma diversidade bacharelados e os nosso seminários també, com assuntos de muitas áreas diferentes. Era pago mas acessível, pois ainda não havia sido reconhecido pela CAPES. Esse título também me proporcionou dar aulas no ensino superior durante 15 anos. Valeu a pena, mesmo não tendo feito o doutorado. Nem precisou, pois esse setor sofreu um forte impacto do ensino à distãncia e retraiu muito o campo da docência titulada.

Nesse período ingressei como professor efetivo no Estado e trabalhei em duas escolas: na Vila Guilherme; e na Freguesia do Ó. Foi nesse bairro que morei, casado, num prédio vizinho da minha segunda escola. Antes disso morava com a minha mãe num apartamento de uma grande amiga epitaciana (que foi morar em Cuiabá). Esse apartamento ficava na rua Baronesa de Itu, na chiquérima Vila Buarque, quase Higienópolis e Pacaembú. Desnecessário dizer do cosmopolitismo paulistano ali presente e também do imenso prazer e morar num lugar tão especial. Minha mãe ficou sozinha quando me casei e um irmão foi morar em Goiânia. Então ela tomou a decisão de voltar para São Vicente, a convite de uma antiga amiga de Santos. Cansei de tentar uma vaga nas faculdades paulistanas. Minha filha já tinha 1 ano e a mãe dela, há algum tempo, sonhava em viver no litoral. Ela tinha um conhecido que era dono de um prédio de apartamentos no Marapé, em Santos, próximo ao Orquidário. Não deu outra. Entrei num concurso de remoção e no ano seguinte estava morando em Santos e trabalhando em Praia Grande. O apartamento do Marapé era espaçoso e tinha garagem fechada, lugar um pouco degradado, mas com alguns vizinhos muito solidários e acolhedores, nordestinos e descentes de portugueses,antigos pescadores e estivadores do porto. Foi da escola na qual ingressei em Praia Grande que fui ser vice-diretor no Jardim Solemar. Ali tive tempo suficiente para ajudar o professor de matemática a fazer uma horta e também formatei um livro extraído da minha tese de mestrado. Quando saí dessa escola e fui para outra, em São Vicente, já lecionava também em uma faculdade e morava num apartamento próprio, na rua Freitas Guimarães, no Boa Vista.



XV
SEM-FLORESTRA



O desenho “Over The Hedge” conta a história de um grupo de animais que tiveram suas vidas ameçadas pelos condomínios suburbanos do EUA. Eles reagem, sob a liderança manipuladora de um guaximim endividado com um urso mau caráter. É o mundo do crime e da opressão humana transposto para o universo natural. No Brasil o desenho recebeu o título Os Sem-Florestra, por razões óbvias. A história dos cercamentos ou surgimento das propriedades privadas no hemisfério norte - estampado no título orinal- não teria muito sentido. No Brasil tem o rural MST-Movimento Sem-Terra e também urbano Movimento Sem-Teto, que já teve até candidato a presidente da república. Mais ainda, no Brasil temos os Retirantes, categoria social cantada e glorificada na literatura, na música, na pintura e no cinema - os Absolutamente Sem Nada – e que teve como um dos seus mais conhecidos representantes alguém que fez carreira sindical e ocupou duas vezes a presidência da república. Meus avós eram retirantes, do nordeste, do interior e também do exterior.

É um assunto delicado esse, porque é politico e contraria interesses poderosos. É um fenômeno mundial e deveras antigo, desde o êxodo dos hebreus escravizados no Egito, passando pelas lutas agrárias dos tribunos da plebe, Caio e Tibério Graco, até chegar nos dias atuais com as políticas demográficas e habitacionais que nunca dão conta do problema. Que família pobre brasileira concordaria em ter apenas um filho, como é lei na China? Diriam, com toda razão: “Não vamos ser pobres a vida inteira e nossos filhos serão difrentes de nós”. Talvez esse seja o real motivo de ter tantos chineses vivendo fora China. Todos querem casar e ter casa para viver. Presidente Epitácio já teve o maior acampamento Sem-Terra do mundo. Teve também conflitos de terras na época do regime militar e assentamentos durante os governos democráticos. Parece que as coisas se estabilizaram, pelos menos por enquanto. O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que já trabalhou na ONU e rodou o mundo registrando o deslocamento das populações sempre foi defensor do MST. Ele sempre lembra nas suas entrevistas que esse movimento é o único no mundo a pregar a volta do homem ao campo.

Mas a volta do homem ao campo vem sendo adiada. A maioria prefere a cidade, pois ela é o símbolo da felicidade contemporânea, o cenário onde os sonhos se realizam. As cidades brasileiras não conseguiram fazer subúrbios gigantescos. Até tentaram, mas logo eles estavam conurbados com a cidades que os expulsaram. Os subúrbios ricos também conurbaram. Os pobres sem teto não se conformam com a quantidade de imóveis fechados e sem uso. Nas praias os imóveis ociosos de lazer não são muito úteis porque são muito distantes dos locais de trabalho. Seriam , se fossem realmente ocupados por moradores locais. É uma eterna questão dramática sobre o direito de moradia. Qualquer política governamental que atinja interesses privados gera mais conflitos e negócios de especulação. Mas devem ser feitas.

Quando saí de São Vicente em 1985 para morar em São Paulo, a Baixada Santista ainda sofria uma intensa demanda de moradias, provocada principalmente pelos migrantes nordestinos. A construção da rodovia dos Imigrantes e a expansão do parque industrial de Cubatão foram o ápice desse deslocamento populacional, iniciado com a rodovia Anchieta nos anos 40 , a intalação do polo industrial nos anos 50 e também a expansão imobiliária nas orlas litorâneas, nos anos 60 e 70. A construção civil praiana era essencialmente “baiana”, apelido genérico dos migrantes nordestino. Já haviam favelas em todas as cidades da região, porém , a partir dos anos 80 elas se acentuaram. As pressões aumentaram e se desclocaram para a área continental, antes praticamente desocupada. Três mil famílias foram instaladas no conjunto residencial Humaitá, há quase 30 quilômetros de Santos. Não foi suficiente. Nas duas décadas seguintes ocorre uma explosão de ocupações de terras em antigas áreas públicas do Distrito do Samaritá, especificamente nos bairros Rio Negro, Rio Branco e uma extensa área de pastos de quarentena de gado, já então denominada Quarentenário. E mais recente formou-se ali também um grande núcleo de ocupação conhecido como Fazendinha, com contruções barracos a perder de vista , comunidade com leis próprias até que o poder público interfira com projetos de reconhecimento e legalização.

Quando voltei para São vicente em 2.002 esse novo cenário urbano já estava montado e sendo altamente explorado pelos segmentos politicos, imobiliários e também criminosos. Um cenário de invasões violentas e de alto risco sanitário e ambiental. A grande maioria dos habitantes que ali se instalaram são retirantes nordestinos ou seus descendentes. Aos bairros não são nada agradáveis aos olhos, por mais que a prefeitura e muitos moradores se esforcem em dar um toque de urbanização. São construções espantosas, sem nenhuma regra técnica e estética. Favelas horizontais a perder de vista, com todos os problemas decorrentes dessa rápida e irregular ocupação.

Este é um cenário reduzido, próximo de onde onde vivo, mas que traduz exatamente o que acontece em todo o mundo. Cada vez mais mais torna-se dfícil morar. Nossa espécie não consegue construir e manter ninhos seguros e permanentes. Não conseguimos ter poucos filhotes nem mandá-los para o mundo no tempo certo, como fazem os animais. Construímos aglomerados familiares que desafiam as leis civis e de convívio.

Creio que no futuro, se não houver um recuo radical ou natural na demografia humana, teremos um cenário horroroso nas cidades, mais ou menos parecido com aquela visão apocalíptca de Los Angeles no filme Blade Runner: favelas com edifícios de 80 a 100 andares, torres repletas de pequenos espaços ocupados por milhares de famílias.

Poderemos ter também um colapso e mortandade em massa, causada por epidemias e guerras bacteriológicas, ou então desastres ambientais Poderíamos morar nos campos, sermos felizes sem essa febre consumista, vivendo com o estritamente necessário, como alertou a tartaruga Verne ao seu pequeno grupo de animais perfeitamente integrado à Florestra. Mas não, caímos na conversa dos traficantes de cultura e resolvemos que a cidade é a única forma possível de vida em nosso planeta. Queremos ser cidadãos, urbanos.

Vai durar até quando essa forma de pensar e de agir?

Certamente quando as cidade acabarem, seja lá como for.



XVI
NA RUA



Quando a Família Real de Portugal fugiu para o Brasil, a cidade do Rio de Janeiro passou por uma situação inédita. Eles não vieram sozinhos e sim com a Côrte, composta de dezenas de famílas que faziam parte da nobreza e do sistema de serviços burocráticos do Estado. Todos estavam nos navios da marinha inglesa que os trouxeram sob sua proteção. Quando desembaracaram com suas imensas bagagens, descobriram ou já sabiam que a cidade não tinha moradias suficientes para abrigar tanta gente importante. Os moradores do Rio ficaram de orelha em pé, pois sabiam que aquela situação certamente traria problemas para os propriéatrio das casas mais atraentes confortáveis. E assim aconteceu.

Diante das reclamações insistentes e urgentes de alguns membros da Côrte, o Príncipe Regente D. João VI emitiu um decreto confiscando os imóveis considerados de interesse real, para serem ocupados pelos seus funcionários. Os ordenanças realizavam as prospecções, faziam as devidas vistorias, classificando os imóveis de acordo acordo com as novas categorias de ocupantes, rejeitando ou colocando um selo real com a sigla “PR”, que significava Principe Regente. No imaginário popular carioca essas duas letras logo tomaram o sentido jocoso, para esculachar os seus donos: “Ponha-se na Rua”.

Devia ser um desespero, pois o despejo até então era somente para os esculachados e caloteiros de aluguéis. Agora o feitiço tinha se voltado contra o feiticeiro. Vingança gostosa do populacho, mas que não refletia o todo para sempre da sociedade.

Dias desses fui a São Paulo com a minha filha. Ela levou a máquina fotográfica para descolar umas imagens urbanas diferentes. Depois do compromisso, fizemos uma rápida caminhada pela rua do centro. Da rua Maria Paula subimos a Brigadeiro Luiz Antônio e numa certa altura entramos num viaduto que nos levou à rua Vergueiro e finalmente na Liberdade, tradicional reduto oriental. Seguimos em direção à Praça da Sé, olhando e observado tudo que era possível e novo aos nossos olhos. Foi uma caminhada rápida e apressada, pois já era fim de tarde de outono e não queria voltar ao estacionamento onde deixamos carro quando já estivesse escuro. Na ida o que nos chamou a tenção foram algumas pessoas agrupadas nas calçadas em franca conversa, tonando cerveja e ouvindo música. Não eram bares, mas moradores de cortiços iniciando um fim de tarde e uma noite de lazer. Era sexta-feira. O plano era darmos uma volta , passando pela Prça João Mendes e descer o Viaduto Dona Paulina até a esquina da Brigadeiro com a Maria Paula. Assim fizemos. Como demoramos um pouco na Liberdade, ao voltamos ao ponto inicial já estava escurecendo. Foi então que vimos uma cena inédita para quem ficou alguns anos sem ver o que havia acontecido em São Paulo após 2016: uma multidão de moradores em situação rua sob a marquises e se recolhendo para passar a noite. São Paulo sempre teve muitos moradores de rua, mas nunca nessa proporção. A multidão era multidão mesmo, aglomerada como se fosse uma fila de cinema. É possível que ali próximo fosse um ponto de distribução de alimentos, dessas sopas levadas por grupos organizados; ou então que tivese um núcleo assistencial fixo nas redondezas. Sabíamos que as áreas centrais das cidades tem muita oferta de comida, de esmolas e sobretudo das sobras que vão para o lixo, daí a concentração maior de habitantes que estão nessa situação. Mas para nós foi assustador, sobretudo pelo aumento da sensação de abondono que sentimos ao ver todas aquelas pessoas que não souberam contornar suas crise e entraram declínio. Não lembro de ter visto crianças, mas havia muitos casais. Uma cena muito triste. Na medida que subimos a Brigadeiro, vimos muitas barracas sendo montadas, nos espaços de lojas fechadas, que também eram muitas. Nunca senti tanta vontadade de voltar e estar em casa.

E voltando, conversamos sobre como é viver nas ruas e quais as possíveis soluções para isso. Falamos também sobre pessoas que não querem sair dessa aituação, pois perderam a capacidade e a vontade de reconstruirem seus lares. Seus mundos internos estão desorganizados e precisam encontrar primeiro as soluções íntimas antes das soluções sociais. Mesmo assim, elas precisam de um mínimo de condições que possa manter nelas a dignidade humana, em forma de abrigos e serviços permanentes de amparo. É uma esperança e uma chama que deve ser mantida acesa. Se apagar, é possivel que a humanidade também se apague, para sempre.



XVII
EM PÉ



Quando saímos da casa* onde dormíamos ainda era noite alta e nossa sorte foi que a lua resolveu nos ajudar escondendo-se para aumentar a escuridão. O silêncio da mata era bem menor que as nossas pisadas leves e rápidas, pois só carregávamos pequenas porções de comida, algumas mangas e pedaços de mandioca crua. Estávamos descalços. Seguimos os passos rápidos do Pai e os movimentos atentos da Mãe, sem olhar para trás ou para os lados. Noite de muito medo e angústia. Tínhamos que sair dali o mais rápido possível para tentar chegar até estrada e dar a sorte de encontrar um caminhão que nos levasse até um lugar mais seguro. Rezávamos para que os latidos dos cães da fazenda fossem comuns e não denunciassem a nossa fuga. Fizemos o trajeto fora dos piquetes e das porteiras e tivemos que dar uma volta bem mais longa, para não correr o risco de sermos capturados. Poderia até chover e cair raios que para nós seria motivo para ganhar tempo. Quando nos afastamos uma boa distância, o Pai pôde falar e só repetia que tínhamos que correr até não poder mais. E corremos, fugindo e buscando um lugar para nos escondermos, caso fosse necessário parar e descansar alguns minutos. Não encontramos nenhum e não descansamos. Só parávamos para ver que rumo o Pai tomava e até hoje nunca descobrimos como ele nos conduzia e como escolhia a direção. Não havia tempo para perguntas. Só havia medo e dúvida. Passamos seis meses naquela fazenda e quando ali chegamos tínhamos somente a roupa do corpo. Quando saímos tínhamos menos do que isso e um enorme dívida com o capataz. Dívida que nenhum trabalho conseguia pagar. Por isso corríamos sem parar e sem descansar porque, se voltássemos, as coisas ficariam bem piores do que já estavam.

Durante muitos anos sonhei com essa fuga, com a escuridão e com cobras enormes cruzando os nossos caminhos e insinuando que deveríamos voltar, pois dali não sairíamos vivos. “Melhor a escravidão do que a morte”. O medo e angústia só acabavam quando o sonho era interrompido. Penso nos que não tiveram coragem ou oportunidade de fugir desse destino vaticinado pelas serpentes negras dos meus sonhos. Não lembro de como o Pai nos tirou dali. Apaguei essa memória e nunca tive coragem de perguntar para a Mãe como chegamos aqui. Continuamos andando, sempre correndo contra o tempo, matando a fome, a sede, o frio, do jeito que era possível. Ainda vejo o Pai avisando a Mãe e ela nos chamando para ir para algum lugar que ela nunca sabia onde era, mas confiava nas decisões dele, pois até ali continuávamos vivos, embora com menos medo e sem a angústia daquela noite. A fome não incomodava mais. Foram tantas viagens, tantos lugares, tantas chegadas e partidas que perdi a conta e a noção se estávamos indo ou voltando. Não éramos de nenhum lugar. Éramos do mundo e o mundo era tão grande que poderíamos ir onde quiséssemos. Pensava assim quando comecei a pensar sobre nós e sobre as coisas. Ainda não pensava nada sobre mim. Cada noite dormida e cada manhã acordada desmanchava esse pensamento e construía outro, na medida em que mudávamos de lugar. Teve um momento que comecei a pensar que poderia chegar a algum lugar e não ir mais para lugar nenhum. Minha mãe pensava isso, mas não podia falar. Ela só dizia pelos olhos e, quando percebia que eu estava tentando adivinhar seu pensamento, ela desviava os olhos para outro assunto. Os olhos do Pai eram perdidos e não diziam nada. Nunca disseram. Não conseguia enxergar nada além daquele dia que começava de manhã e terminava à noite.

Comecei a perceber que as coisas mudavam quando descobri que algumas crianças moravam em algum lugar e nós morávamos em lugar nenhum. Morávamos na rua durante o dia, noutra rua durante a noite e no dia seguinte não sabia qual rua iríamos morar. Pelos menos dormíamos e acordávamos sem medo e sem aquela angústia da noite que nunca terminava nos meus sonhos. Mas um dia terminou e nunca mais sonhei com aquelas cobras que insistiam que nós não éramos ninguém e que nunca ninguém se importaria conosco. Foi quando passei a andar em pé. Antes achava que estávamos sempre no chão, nos arrastando de lado para o outro. Foi na escola que percebi que as pessoas ficavam paradas em pé sem se incomodarem com aquela posição. Tinha medo de ficar em pé, como elas. Elas tinham lugar onde morar e podiam ficar em pé. Eu achava que não era permitido ficar em pé se você não tivesse lugar para morar e sentar. Quando a professora mandava ficar em pé para ir até a lousa ou responder perguntas, ficava pensando até quando isso iria durar. E fui acostumando a ficar mais tempo em pé e tomando gosto pelo costume dos meus colegas de escola e de todas aquelas pessoas que fomos conhecendo na cidade onde demoramos mais tempo sem se mudar. Quanto mais aprendia coisas na escola, mas queria ficar em pé. Pai e mãe não queriam ficar em pé, porque não era preciso mais andar e correr da fazenda. Sabiam que logo sairia andando pelo mundo, sozinha, pois estava perdendo o medo de ficar em pé. Teve um dia que descobri que não eram as minhas pernas que me faziam ficar em pé. Quando aprendia uma coisa nova, não tinha vontade de sentar. Queria ficar em pé e saber mais coisas. As pernas ficavam fortes e a cabeça leve. Um dia tive absoluta certeza disso quando, pela primeira vez, ouvi alguém falar da lei da gravidade, que nos mantinha presos ao chão. Pensei, então quem fica em pé não obedece essa lei. Eu estava ficando cada vez mais desobediente. Por isso a Mãe ralhava comigo de vez em quando, porque percebia que eu queria ficar mais tempo em pé.

Mas precisava encontrar um lugar onde pudesse arrumar um jeito de ficar em pé sem ter que ficar mudando. “Difícil. Muito difícil”, pensava. Foi isso que o Pai procurou a vida inteira e acabou indo para a outra vida sem ter conseguido o que buscava. A mãe pensava que era o destino dela e também o nosso. Comecei a pensar que ninguém sabia com certeza qual seria o seus destinos. Precisava descobrir um caminho, mesmo se não soubesse exatamente onde iria parar, pois nesse percurso era possível que encontrasse um bom motivo para ficar em pé. O Pai, de vez em quando, ficava cismado e arrastava a gente para algum lugar onde pudesse parar de andar. Não teve sorte ou não conseguiu enxergar a chance. Fomos para naquela fazenda porque disseram para ele que o governo estava dando terras para quem tinha vontade de trabalhar. Era uma cilada. Isso também aconteceu comigo quando vim para a Área Continental. Achei que era uma cilada o boato de que tinha terrenos grandes, sem dono, que estavam sendo retalhados e ocupados sem nenhum impedimento. Quando fiquei com vontade de ver como estava acontecendo tudo isso tive também aquela sensação de medo e de voltar a sonhar com as cobras. Mesmo assim decidi enfrentar o medo e resolver tudo em pé.

Em pouco tempo tudo estava resolvido. Estava morando num lugar que escolhi, que podia dizer onde estava morando e que poderia decidir nele quanto tempo eu quisesse. Vi também que muitas pessoas caíram em ciladas e tiveram que sair correndo dali exatamente como nós quando saímos da fazenda. Ficava com dó, mas não podia fazer nada, porque aquelas pessoas não conseguiam se manter pé. Tiveram que fugir da Fazendinha, o nome do novo lugar onde foram morar as pessoas que não eram de lugar nenhum, como eu. Nas conversas com os novos vizinhos sobre as nossas histórias e caminhos, sempre me lembrava da fazenda da qual fugimos, talvez muito maior do que todas as cidades da região, comparada com esse lugar que passei a chamar de Fazendinha. O apelido pegou. Não perdi a mania de querer ajudar. Sempre que posso, mando fazer uns panfletinhos para distribuir no centro da cidade, no início da noite, para os que estão no chão, prontos para dormir:


“LEVANTE-SE. FIQUE EM PÉ.

Pelo menos por um dia, tente ficar em pé o máximo de tempo possível. Fique no chão apenas quando for dormir ou descansar. Levante e ande sempre que puder, de cabeça erguida. Se desanimar, olhe para o Alto e peça forças para suportar o peso do seu corpo e da sua prova. Conte o dia e as horas que conseguiu ficar em pé. Cada vez e cada dia que você fica em pé é um grande passo e uma grande vitória em sua vida”.


*Relato baseado na história de uma amiga que, depois de passar por tudo isso, se tornou mãe, avó e educadora profissional.


XVIII
GRADES



Também na região central de São Paulo, como em muitas cidades do Brasil e do mundo, surgiu o fenômeno cracolândia, uma população de rua com características específicas, que se aproximou e reuniu por afinidade e tendência social de convívio e proteção. São dependentes químicos, diferenciados dos alcoolistas e outros vícios menos conhecidos, que buscam ali exclusivamente o consumo de drogas. Todo ser humano que entra em crise social tem um forte componente de desorganização emocional e consequente desequilíbrio mental. Os habitantes da cracolândia não são diferentes de nós. A única diferença está nos interesses. Enquanto nos interessamos por conforto, comida e privacidade e fazemos disso um propósito único em nossas vidas, eles se interessam por drogas, que é para eles um ponto de fuga essencial para suportar uma realidade que não conseguem enfrentar. Quem fuma, sabe que fuma não somente porque é elegante e gostoso. Quem bebe também. Quem faz compras desnecessárias ou esbanja dinheiro com qualquer outra coisa, sabe que as coisas não estão muito organizadas dentre de si e que essa situação um dia poder graves consequências quando não houver mais controle ou disponibilidade de recursos. A diferença é que a cracolândia é um hospício a céu aberto, aos olhos da sociedade e das autoridades impotentes, porque não sabem ou não querem aprender a lidar com aquela situação. Solução ou alguma forma paliativa tem, mas parece que não é conveniente. Quem não se lembra da cena da guarda usando a força dispersiva para limpar a cracolândia e alguns dias depois constatar que o grupo se reuniu com a mesma facilidade com que se dispersou. Claro que o extermínio passou e passa pela cabeça de muita gente como “solução final” do problema. Mas sabemos que é mais uma falácia dos que ignoram a lei de causa e efeito. Pouca gente se lembra de que a população das cracolândia já fez parte da população carcerária ou manicomial. Prisões de corpos não significa a mesma coisa que aprisionar mentes. Uma solução não começa pelo efeito do problema. Ninguém quer manter, muito menos libertar corpos criminosos. Mas é possível libertar mentes. Sempre há uma possibilidade e um caminho nesse sentido e que funciona para muitos que ingressaram no crime e conseguiram transpor honestamente os portões das prisões. Pequenos gestos e estratégias de ação podem fazer a diferença e desmontar aos poucos algo de aparência monstruosa, mas que na realidade é apenas um coletivo de muitas coisas pequenas mal conduzidas e que se acumulam com a nossa indiferença e pessimismo. A educação social feita com inteligência pode compreender e melhor oferecer soluções sóbrias e mais responsáveis. Oportunidades bem geridas e conduzidas podem gerar transformações muito positivas. É claro que nem tudo é perfeito e que há sempre algo que não dá certo e que não funciona, mas sempre existe outra via e também outra etapa a ser cumprida na existência e no convívio humano. Não há portas definitivamente fechadas e trancadas para sempre.


XIX 
ÍNDIOS 



Numa ocasião estávamos visitando uma exposição de objetos indígenas no salão da A.A. Epitaciana e tivemos uma experiência muito curiosa: uma mulher de uns 25 anos de idade, com fortes traços indígenas percorria o salão falando sozinha, pronunciando frases aparentemente desconexas. A pessoa que estava conosco reclamou que estava sentindo um sono incontrolável e nós mesmos não parávamos de bocejar. Enquanto isso a mulher reclamava em voz alta, na língua tupy, e fazia gestos de indignação. Percebemos, então, que não se tratava de uma pessoa com problemas mentais. Na exposição havia objetos funerários de cemitérios indígenas encontrados durante as obras da CESP na região e recolhidos por pesquisadores. A mulher provavelmente estava mediunizada e, de forma agressiva, protestava contra aquela exposição, para ela uma violação de coisas sagradas do seu povo. Lembramos que alguns anos antes, quando esses objetos foram encontrados e levados pelos pesquisadores da Unesp, escrevemos no jornal local um pequeno artigo sobre o fato reclamando que os objetos deveriam permanecer em Epitácio. Na época fomos repreendidos por algumas pessoas que achavam que não havia necessidade para tanta hostilidade com os pesquisadores. Entendemos, naquela exposição, o que estava acontecendo. O mundo espiritual e mágico dos índios ainda estava bem vivo e fazendo cobranças sobre o desrespeito com as suas tradições. O sono e os bocejos não eram efeitos do acaso. Objetos sagrados e antigos possuem saturações magnéticas poderosas, produto psíquico dos cultos e crenças que ficam impregnados sobre os mesmos. Sempre temos esse tipo de sensação quando entramos em sebos de livros, antiquários e museus. Móveis usados e roupas de brechós também possuem essas cargas magnéticas, sobretudo peças de pessoas que já desencarnaram. Várias pessoas já nos confessaram ter a mesma impressão. Naquele dia tivemos receio de que poderia acontecer algo parecido com o caso dos arqueólogos ingleses que violaram o túmulo de Tutancâmon, no Egito. Eles foram sendo misteriosamente mortos por doenças contagiosas, talvez causadas pelo fato de terem alterado magneticamente suas defesas naturais. Pensamos, para nos tranquilizar: deve ser somente um protesto.

Ainda continuamos convictos que, mais cedo ou mais tarde, toda essa dívida dos colonizadores deverá ser resgatada. Uma enorme legião de espíritos silvícolas que no passado foram violentamente expulsos de suas terras, em todo o Brasil, em diversas épocas, agora faz parte de um grande movimento social de reocupação de seus antigos territórios assaltados pelos antigos posseiros e “bugreiros”. Os descendentes dos posseiros, hoje também organizados em entidades ruralistas, se reencontram com antigos inimigos para ajustar velhas contas que não foram pagas. No estado de São Paulo essa trama cármica está concentrada principalmente no Pontal do Paranapanema, antigo cenário dos violentos massacres (Dadas) dos posseiros ali introduzidos pelos conquistadores mineiros no século XIX, como foi o caso de José Theodoro de Souza. Antigos contendores como fazendeiros, missionários, bugreiros, funcionários públicos e líderes indígenas hoje estão reencarnados em diferentes papéis e posições como fazendeiros, juízes, promotores, políticos, líderes dos MST, cada qual cobrando o que lhe é devido ou resgatando seus antigos débitos. Recentemente, por meio de notícias mediúnicas dadas por uma guia espiritual, atuante nessa região, fomos informados de que a construção de presídios no Pontal, os conflitos fundiários e jurídicos, a formação de quadrilhas de criminosos para explorar a prostituição, as drogas, extorsão, roubos ao patrimônio público e privado, fazem parte de um grande processo de reajuste cármico de Espíritos, índios, caboclos e aristocratas rurais que ali cometeram graves crimes em outras épocas. O mesmo tem ocorrido no Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e região Norte e deverá ocorrer com mais ênfase onde se efetivaram os genocídios históricos. Alguns desses compromissos cármicos são mais antigos, com no caso da grande região de Guarapuava (PR). Na época imperial, em 1811, o governador da capitania de São Paulo, António José da Franca e Horta (responsável pela comarca de Paranaguá – o Paraná não havia sido criado) implantou uma política sócio-educativa judicial que incentivava e até impunha o casamento misto entre os condenados e índias, já que havia uma enorme desproporção entre homens e mulheres naquela vasta região. A ideia da medida era povoar o mais rápido possível esse território disseminando as famílias sertanejas. Assim, a cidade recebia degredados brancos (a maioria homens mestiços) e estes, sem opção de parceiras sexuais, contraíam vínculos afetivos e matrimônio com adolescentes indígenas, passando a formar famílias miscigenadas. Muitos desses degradados entravam em confrontos violentos com índios que não aceitavam essa imposição e se tornaram membros de grupos de bugreiros. Chamou particularmente a nossa atenção nessa trama geopolítica o caso de oito desses degredados, relatado pelo historiador Fábio Pontarolo (Homens de Ínfima Plebe). Eram militares que se rebelaram em Santos (SP), em 1821, por causa dos baixos soldos e que haviam promovido uma quebra-quebra na cidade. Condenados, foram obrigados a residir nessa então isolada e distante colônia paulista. Eram em sua maioria analfabetos e tinham em torno de 19 anos de idade. Curioso lembrar que nessa região (Cantanduvas) foi construído recentemente um importante presídio federal, destinado a abrigar criminosos de alta periculosidade, considerados como verdadeiros inimigos públicos. Espiritualmente, pela lei de afinidade, os presídios funcionam como escolas de reajuste tanto para condenados como para os que ali trabalham direta ou indiretamente em função deles.

É fato que muitos espíritos criminosos (indígenas e brancos) já voltaram e ainda voltarão “reencarnados” nas boas famílias da região, em posições socialmente invertidas, para acertar essas contas com as pessoas e com a sociedade que lhe causaram prejuízos materiais e morais. Esse fenômeno também vem acontecendo nas três Américas, quando muitos indígenas maltratados e corrompidos pelos colonizadores voltam como filhos problemáticos das mesmas famílias que os prejudicaram no passado ou então como imigrantes. Muitos deles se tornam criminosos em ações contra o Estado ou contra as instituições que os humilharam. Geralmente são autores de tragédias terroristas e ações violentas em estabelecimentos públicos. Na América espanhola foi registrado os conhecidos casos dos caudilhos, ditaduras militares, revolucionários marxistas e mais recentemente os célebres guerrilheiros que se tornaram narcotraficantes, com foi o exemplo do grupo indígena Sendero Luminoso, de antiga tradição indígena. Ernesto “Chê” Guevara foi um típico “branco” de alma indígena destinado a lutar até morte pelos seus ideais socialistas, porém intimamente vibrava nele um sentimento de vingança contra as injustiças cometidas nos tempos coloniais. Os mais célebres criminosos dos EUA eram antigos líderes africanos e indígenas reencarnados entre os imigrantes irlandeses e sicilianos radicados na América do Norte.

A presença de descendentes diretos dos colonizadores portugueses na ocupação dessa região também não foi uma coincidência. A nossa ligação com São Vicente também não é produto do acaso. Era de lá que partiam as primeiras expedições bandeirantes em busca da riqueza do interior. Como a maioria dos habitantes de Epitácio, sou descendente de migrantes nordestinos (negros e mestiços) e imigrantes europeus. Meus pais casaram-se em 1954. Em 1955 nasceu meu primeiro irmão, Carlos Maurício; em 1957 nasceu o segundo, Hélvio; em 1958 nasceu o terceiro, Guilherme; em 1959 nasceu o quarto, Nilton. E finalmente, pelas mãos da velha parteira espanhola de Santo Anastácio, Dona Dolores, foi a minha vez: em 23 de agosto de 1961, às 5:30 da manhã, há apenas alguns horas antes da famosa renúncia de Jânio Quadros.

Minha mãe teve cinco meninos, em casa, sem frescura e sem cesariana. Nossas parteiras foram Dona dos Anjos, migrante do sertão de Minas; e Dona Dolores, espanhola de Santo Anastácio. Em 1973 nossa família adotou um menino, Natalino, vindo de uma numerosa família de ribeirinhos do antigo Porto XV, do lado sul-mato-grossense do rio Paraná. Coisas do “destino”. Todos esses nascimentos foram supervisionados pela “Madinha Manoela”, bem como os primeiros e melhores anos de nossas existências. O Dr. Alberto era o médico da família, aliás, de todas as famílias. Era pioneiro na cidade e um excelente clínico geral, de boa memória. Perguntava pra gente quem eram os pais, deduzia quem eram os avós e dava o diagnóstico.

Maurício Xavier Duque e Carlos José dos Santos, meus avôs, eram negros. Maria Pesqueira Duque era descendente de portugueses e índios; e Verônica Szucs imigrante húngara da Colônia Arpad. Próximo a Caiuá, a 16 quilômetros de Epitácio, existiam várias colônias européias. Na colônia Arpad as Igrejas também eram diferentes, uma ortodoxa e a outra romana. Meu bisavô paterno, Marcus Szucs, era comerciante, dono de armazém e de um alambique. Gostava de uma boa cachaça e também era músico. Nessa Colônia húngara aconteciam bailes nas noites de sábado, frequentados pelos meus dois avôs frequentavam. Meu avô Maurício, baiano de Malhada, tinha fama briguento e sempre arrumava muita confusão nesses bailes. O “carioca” Carlos dos Santos (tinha sotaque porque havia vivido no Rio por alguns anos) era um gentleman, sempre vestia ternos de linho branco impecáveis. Era culto, político e sempre atento aos acontecimentos que geravam oportunidades. Foi juiz de paz, vereador, proprietário de um cinema em Tibiriçá e articulista de jornal. Foi ele quem iniciou nossa família no Espiritismo. Na casa dele, onde se faziam reuniões mediúnicas, tinha uma estante com livros de Allan Kardec e muitas outras publicações espíritas, distribuídas na região pelo ativista João Pitta e também por João Machado, de Santo Anastácio.


XX
GONZAGA



Quando tranquei pela última vez a porta da casa da rua Rio de Janeiro para ir ao trabalho ou para a faculdade, não me lembro, senti uma profunda solidão e tristeza. Tínhamos morado ali durante dez anos. Não lembro também se levei a chave ou deixei com algum vizinho. Os momentos dolorosos, quando humilhantes, são muito difíceis de lembrar. Já estava com um apartamento alugado em Santos, na pequena rua Pereira Barreto. Nessa época ainda não existia o Shopping Praia Mar. Era um apartamento de um dormitório, no décimo andar, cuja vista da sala era o entorno do canal 2 na direção dos morros. Nessa janela, mastigando um quibe e tomando um refrigerante, senti pela primeira vez estava só e precisava aprender a me virar sozinho.

Na rua Marechal Deodoro tinha uma drogaria que já era muito moderna para os padrões brasileiros: uma loja de conveniência e com um restaurante. As pessoas achavam aquilo tudo muito estranho, inclusive eu, talvez porque era tudo meio escondido, sem janelas para a rua. Fui uma ou duas vezes almoçar lá e fiz amizade com o único cozinheiro da farmácia. A solidão dele e o nossos papos produziam grandes e saborosos filés que não estavam no cardápio. Algum tempo depois a conveniência fechou e voltou ao ramo dos remédios.

Mas foi também um período de alegrias e descobertas. Estudava à três quadras, na antiga sede da Unisantos, na rua Euclides da Cunha. Era o segundo ano do curso. Uma turma maravilhosa, muitos jovens misturados com adultos, alguns já idosos, buscando conhecimento e alguma realização pessoal. A presença dos adultos dava um tom diferente no tratamento que recebíamos dos professores e da direção da faculdade. Fiz amigos que até revejo com alegria e ótimas lembranças. Alguns já faleceram, pois era bem mais velhos do que nós. Curso que dos colegas mais jovens e mais alegres faleceu no apogeu da sua carreira. Chamava-se Nero, o imperador do riso e das piadas. Era sobrinho do prefeito da cidade. Foi muito bom enquanto durou. Na passagem para o terceiro ano tive que abandonar a turma.

Tudo era novidade, numa época das primeiras transformações científicas e tecnológicas. Ainda não havia computadores no mercado, nem CDs. Os discos de vinil ainda iriam durar muitos anos. O trabalho na fábrica de Cubatão e muito cansativo, todo braçal, chegava em casa esgotado e morto de sono. Mesmo assim, nas horas de folga, curtia tudo que havia de bom e ao meu alcance no Gonzaga: os cinemas, as lojas, os eventos na praia, as lanchonetes. Tudo sozinho. Parecia que os amigos antigos haviam sumido e ainda não sabia lidar com os novos. Na verdade aqueles amigos também estavam passando por crises e mudanças e deviam também estar sofrendo de solidão. Essa vida meio deslocada e solitária foi em poucos meses me deixando perturbado. Percebi que uma nova crise estava surgindo. A fábrica começou a me cobrar um desenvolvimento que não era da minha natureza e do meu projeto de vida. O que um universitário – na época um status raro e difícil de alcançar- esperava daquele universo industrial, completamente diferente da área que havia escolhido para estudar e trabalhar? A pressão exigia um posicionamento urgente, com a definição de um cargo fixo na empresa e que era muito disputado pelos iniciantes. Aquilo não me agradava. Meus colegas estava ficando noivos, casando, constituindo família e formando lares. Me tratavam bem, porém me olhavam com um jeito estranho, misto de admiração e desconfiança. A repetição mecânica do serviço me incomodava e me fazia cometer erros básicos. Pensei, repensei. E decidi jogar a toalha e partir para o meu destino original: faculdade de História, não mais em Santos, mas em São Paulo.

Fiz as últimas provas e subi a Serra, não sem antes passar por uma situação muito desagradável, porém engraçada. Ao terminar a última prova na faculdade fui para a rodoviária e lá tive uma ingrata surpresa. Estava sem dinheiro suficiente para a passagem. Já eram quase dez horas da noite e não tinha como pedir ajuda a nenhum conhecido. Entrei numa banca de jornais e souvenirs e pedi ajuda para um cliente que olhava as revistas. O dono da banca, pensando o que para ele era óbvio, saiu aos gritos comigo me expulsando do local. O cliente ficou tão espantado que sugeriu que saíssemos juntos. Me deu o dinheiro que precisava e me desejou boa sorte. Ufa! Antes que ônibus chegasse na Serra fui tomado por outra surpresa: como iria chegar na casa minha mãe, já que o dinheiro que tinha recebido só era suficiente para o ônibus? Peguei a carteira no bolso na vã tentativa de achar algum a mais que poderia não ter visto naquela confusão toda. Nada. Mas tinha um bilhete múltiplo do Metrô.

Consegui terminar a viagem, mas ainda apreensivo com a última etapa. Desembarquei no terminal Jabaquara e segui até o terminal Sé ou Bandeira (não lembro se já existia), mas lembro ter subido a Ladeira da Memória até a rua Xavier Toledo, onde ficava o ponto final do ônibus municipal Boa Vista, que já conhecia de outras vezes que visitei minha mãe. Parei na calçada, olhei o relógio e vi que já se aproximava da meia noite. O movimento na rua foi diminuindo rapidamente, pois o Mappim já estava fechando as portas. Fiquei estático. Estava traumatizado. Já tinha até pensado na possibilidade de dormir ali, próximo de uma escada rolante. Uma sensação de agonia e medo. Dois motoristas conversavam alegremente em frente ao ônibus. Se despediram e um deles se dirigiu ao ônibus no qual eu precisa entrar. Era o último daquele turno. Minha barriga esfriou de vez. Foi então que tive a intuição de mostrar a ele o bilhete do metrô e explicar o que tinha acontecido. Ele nem olhou o bilhete e disse: “Sobe aí”!



XXI
CASA DE MAÇOM




Como é a experiência de morar na casa de pessoas estranhas? Pessoas amigáveis, mas estranhas? Minha mãe passou por isso.

Aos 12 anos mudou-se de Tibiriçá e foi estudar em Santo Anastácio, uma cidade fundada e colonizada por espanhóis no oeste paulista. Piada velha, porém ainda válida para quem não conhece o lugar. Quando alguém da região diz que é espanhol ou conhece algum espanhol, logo é questionado: “ Mas é espanhol da Espanha ou de Santo Anastácio”? Uma cidade católica, conservadora e também componentes anarquistas, do tipo “Hay gobierno? Soy contra! Também não acreditam bruxas, mas tem muitos que afirma que elas existe sim. Lá também tinha espíritas e maçons. Foi na casa de um deles que a minha mãe foi morar. Seu João era daqueles espíritas antigos, cultos e que via a doutrina como uma conspiração dos céus para mudar o mundo e as pessoas. Era grão mestre da maçonaria. Não se sabe se Allan Kardec era maçon , mas recebia cartas de maçons de vários lugares do mundo, inclusive do Brasil. Isso está registrado na Revue Spirit, publicada no século XIX. Minha Madrinha Manoela dizia: “Daqui até Baurú não tem ninguém maçom com grau igual ao dele”. Seu João também gostava de política, para humanizar um pouco sua difícil vida de celebridade espiritual e esotérica. A esposa aceitava tudo de bom grado e com respeito, menos a política. Quando chegava a época da eleições ela já ficava preocupada e nervosa. Minha mãe descobriu isso quando alguém passou em frente da casa deles e gritou com toda força: “ João de merda”!!! Era uma tentativa da oposição em desmoralizá-lo na vizinhança. Estratégia baixa e inútil , pois todo mundo o conhecia e muitos o admiravam e entendiam que era somente política.

Por que a mudança para Santo Anastácio?

Minha mãe tinha mediunidade desde pequenina. Via Espíritos, geralmente de s velhos barbudos sorrindo e dizendo as coias que ela deveria saber e fazer. Conversava com eles e presenciava fenômenos físicos como luzes fortes e vidraças estilhaçadas. Dona Manoela, com que morava, era católica fervorosa, de irmandade mariana; e seu marido, Guilherme Borges, era muito medroso com essas coisas, evidentemente porque também era médium. Dois idosos que perderam uma filha jovem criando uma criança com poderes paranormais. Isso não seria um problema grave se ela fosse ajudada e instruída. Foi então que eles se lembraram do amigo João, que era representante de revistas e jornais, e também divulgador de obras e publicações kardecistas. Ele era também amigo do meu futuro avô paterno, Carlos José, que também era espírita. Daí surgiu a ideia de levá-la para estudar em Santo Anastácio, numa escola pública, e receber as primeiras noções doutrinárias de espiritismo no centro espírita frequentado pela família do Sr. João. A casa dele era repleta de livros e símbolos da iniciação maçônica. Apesar e ainda ser uma criança, seu João chamava minha mãe de “Dona”. Após as refeições ele olhava para a pequena hóspede e dizia, olhando para o monte de louças e talheres sobre a mesa: “É, Dona, é nessas horas que os filhos estranham os pais”!

Minha mãe conta que este foi um período muito bom, de boas lições e excelentes amizades. Conviver em lugares estranhos e com pessoas que não são da nossa esfera familiar, diz ela, nos obriga a mudar de pensamentos e sentimentos sobre as coisas, e principalmente de hábitos. Não aprendeu muito da doutrina naquela época, por falta de maturidade, mas saiu daquela casa sabendo que sem estudos e disciplina nada funciona. Quando chegasse a hora da verdadeira iniciação ela saberia identificar a oportunidade. As iniciações dos núcleos espirituais e esotéricos geralmente são muito parecidas e primam pelos mesmos princípios: o iniciado precisa vencer seus medos e superar sua limitações por meio de provas morais, provadas pelos mestres ou pela própria vida, por meio dos testemunhos. A maturação e depuração do discípulo acontece por meio de regras de conduta: silencio, sigilo, olhar, alimentação, obediência e serviço ao próximo. Tudo isso promove gradualmente a sua iniciação, na qual ele se transforma em fases ou graus que revelam sua purificação e desprendimento do mundo dos sentidos: a Lama (desejos), a Água (esforço para não se sujar) e finalmente a Luz (libertação). Ela recordou que, lendo certa vez uma reportagem sobre uma novidade doutrinária na Federação Espírita do Estado de São Paulo chamou sua atenção a fotografia de um velhinho falando com gestos dramáticos a aplicação de passes magnéticos ensinados em aulas especiais para iniciados. Era o Coronel Edgard Armond explicando o funcionamento da Escola de Aprendizes do Evangelho. Armond era mestre-maçom e diretor da Federação. Essa ainda não era a oportunidade esperada. Ela só iria acontecer muitos anos mais tarde, em São Vicente, quando uma vizinha a convidou para assistir uma aula inaugural da Escola de Aprendizes do Evangelho, dada por Jacques Conchon, falando do tema “Os Exilados de Capela”. Jacques também foi fundador e um dos diretores do CVV-Centro de Valorização da Vida, que naquele ano de 1977 iniciava sua expansão pelo Brasil. Era o início da nossa iniciação espiritual e também de engajamento na luta pela prevenção do suicídio.



XXII
CIGARRO DE VACA



Os mendigos e andarilhos são pessoas muito interessantes, cheios de tiradas engraçadas e declarações extravagantes. Não têm eira nem beira e não se importam com isso. Alguns são filósofos natos e os restantes são apenas pessoas comuns que cometeram suicídio, como todos os outros. Suicidas vivos, que romperam os laços com a vida pessoal, familiar e social. Disseram adeus para suas vidas e não querem mais saber de nada, de ninguém e principalmente de si mesmos. Andam sem rumo e sem a mínima noção de tempo e espaço. Às vezes para. Olham para o céu, para os lados e seguem em frente num caminho que nunca termina. Não gostam de olhar muito tempo para os rostos e olhos alheios e logo desviam os olhos, porque têm medo de se verem no outro. Certa vez, em frente na casa do meu sogro, em São Paulo, vi rapaz andarilho, trajando restos de um terno e descalço. Barba e cabelos enormes. Sorria, cumprimentava, mas não gostava de conversar. Vendo minha admiração, meu sogro comentou esse rapaz era gerente banco, trabalha numa agência ali na Lapa. De uma hora para outra ficou assim. Fez tratamento, tomou remédios, mas não adiantou nada. Seus pais moram aqui perto, mas vive na rua. Some por uns tempos e depois volta, mas não entra dentro de casa. Sempre dorme na rua. Vendo esta cena, lembrei de quando morávamos em Epitácio, na época que ainda existiam os trens de passageiros.

Às 21 horas toca o apito do último trem da Sorocabana. Era o BG, bagageiro, com vagões de última classe, trazendo para estações os indesejáveis da Capital e todas as estações que antecediam a de Presidente Epitácio. A Estação do Porto, como era conhecida, era última daquele ramal. Fim de linha. Fim de mundo. Eram os passageiros que trafegavam com passes da assistência social. Gente de todos os tipos, famílias de retirantes, trabalhadores pobres, alguns caixeiros-viajantes que tinham que fazer suas economias; e dezenas de indigentes que eram empurrados de cidade em cidade, esperando-se que desaparecessem e nunca mais voltassem. Desembarcavam na estação em situação de despejo do trem. O chefe da estação nessa altura da noite já estava dormindo e nem tomava conhecimento do que acontecia, a não ser numa excepcionalidade. Só o bar da estação permanecia aberto, na esperança de vender algumas doses de pinga para uma clientela já conhecida. Esse grupo descia do tempo e fica parado por algum, desorientados, aguardando algum tipo de ordem ou informação. Aos poucos eles iam se dispersando, procurando algum tipo de acomodação, geralmente os bancos do jardim ou então seguia pelas ruas na direção do Albergue do Centro Social São Pedro, que ficava na Estrada Boiadeira Sul. Ali poderiam tomar bando, alimentar-se e talvez ser encaminhados para as fazendas onde tinham colheitas de algodão ou serviço de capinagem de roça e que aceitavam alguns colonos. Não eram todos. Parte deles nem ia para o Albergue porque já sabia que não tinham capacidade para o trabalho. Preferiam ficar esmolando pelas ruas. A maioria queria ficar e outros preferiam seguir na direção da ponte e conseguir carona para o Mato Grosso. Eram atraídos pela selva, como se ali pudessem consumar suas mortes nessa vida perdida e suicída.

Nesses horários de chegada de trem as famílias ainda estavam acordadas, conversando nas varandas ou nos bancos de madeira em frente das casas, enquanto as crianças aproveitavam o fim da noite para brincar de pique-esconde ou um jogo de bola. Era nesse momento que surgiam pelas ruas essas pequenas hordas de pedintes, suplicando comida e atenção. Uns traziam malas e roupas amarrotadas, tentado manter um pouco de dignidade. Outros eram maltrapilhos que já haviam desistido de tudo, carregando sacos com coisas que ganhavam ou achavam. Outros só carregavam o corpo. Os primeiros gostavam de conversar, mostrar suas habilidades e suas ideias, lembranças dos últimos botecos em que foram proibidos de entrar por absoluta falta de dinheiro e de argumentos. Esses paravam em frente das casas, batiam palmas, faziam suas saudações e pediam um prato de comida ou o tradicional pão velho. Lembrei da mãe de um amigo nosso, Dona Remédios, que sempre atendia essa pessoas com respeito e carinho. Preparava uma farta refeição e aguardava para recolher de volta o prato e o talher, que guardava só esse fim. E ouvia pacientemente as histórias que eles contavam. Nós à vezes brincávamos com os mais alegres, debochando dos seus trejeitos e ideias. “The house, the house”, dizia um jovem alto, magro e barbudo, demonstrando habilidade de falar inglês. E sabia mesmo muitas palavras e expressões, que pronunciava com um tom aristocrático, do qual ríamos inconsequentes. Uns tinham o pavio curto e transbordavam mal humor. Oferecíamos cigarros de palha com fumo amarelinho, que aprendemos a fazer com a Tia Teodora e que fumávamos escondido. Eles aceitavam a novidade, tragavam e aguardávamos as reações de agradecimento e também de crítica: “Cigarro de vaca esse heim”, reclamou um deles bem nervoso. E quando rimos, saiu xingando e cuspindo. E um dos meus irmãos, ofendido, discutiu com ele: “Além de ganhar ainda que exigir”? A Madrinha Manoela não gostava dessas brincadeiras, ficava sentida, mesmo rindo de algumas das reações mais estranhas. Ela aproveitava essas situações para nos ensinar coisas importantes da vida. “ A gente não poder tratar essas pessoas desse jeito, porque a gente nunca sabe quem eles são. Pode ser um ladrão, um assassino, uma pessoa infeliz que não deu certo na vida, coitados. E pode até ser Jesus. É, às vezes Jesus se disfarça de mendigo, para ver como a gente se comporta”. Era a forma que ela encontrava para desconstruir aquela cenas deploráveis nas quais pessoas chegam ao fundo do poço e ela não aceitava que aquela pudesse existir. Quando ela percebia que estávamos enfraquecendo os argumentos dela com os nossos olhares de deboche, ela logo reagia com um história dramática sobre Jesus causando alguma surpresa muito grave ou então uma onça que atacava as famílias e roubava as crianças. “Certa vez, disse, ela, “Jesus chegou disfarçado de mendigo numa casa e pediu abrigo, chovia e fazia frio. A dona da casa, desconfiada, consentiu mas colocou-o num chiqueiro no fundo do quintal, forrado de palhas de milho. Ele aceitou a oferta e ali dormiu profundamente. Acordou tão cedo, que não poder nem agradecer. Só deixou um sinal de cruz na porta do chiqueiro. Muito anos depois a mulher ficou doente. Tinha um coroço no seio e soube que iria morrer. Orou para que Jesus a salvasse e que lhe desse um sinal de cura. Naquela noite ela teve um sonho idêntico a visita do mendigo. Na despedida do outro dia, ele olhou para um dos seios dela e viu que estava inchado e vermelho. E disse: “Vá até o chiqueiro e faça uma lama com a terra que está sob as palhas onde dormi. Esfregue a lama e seu seio vai ser curado para sempre”.





XXIII
TAÇAS DE SANGUE




A casa da rua Curitiba era todas de madeira, mas tinha de aspecto aristocrático. Foi feita com a intenção parecer a casa de alguém importante, um pouco acima do terreno, assentado sobre uma base de tijolos. Se tivesse feito com as tábua horizontais teria fica bonita e mais imponente, pois tinha uma pequena varanda com muretas de tijolos, onde sempre tinhas duas ou três cadeiras de fio coloridos de nylon. Varanda para receber visitas nas estações quentes e ver o movimento da rua. A madrinha Manoela recebia ali suas amigas e afilhados para longas conversas. Também dali nos repreendia quando havia excessos nas brincadeiras de rua e provocações aos andarilhos e mendigos que vinham da estação em direção ao Albergue Noturno. Mas o construtor preferiu a posição vertical das tábuas, para acentuar a impressão de que ela tinha a altura dos palacetes. Era bem construída, mas não conseguiu se impor como moradia aristocrática como desejava o primeiro morador. Foi uma casa de muitos donos e muitos moradores e agora pertencia a um comerciante espanhol, proprietário de dezenas de casas de aluguel espalhadas pela cidade e que lhe rendiam um bom dinheiro. Nos fundos tinha um alpendre bem espaçoso e aberto, protegido por treliças de ripas do piso até o teto, que também tinham a função de garantir a ventilação nos meses mais quentes. O alpendre tinha tanque e varais de arame, que eram mais baratos e resistentes, separa a cozinha de dois quartos de dispensa enormes, tão grande que somente um deles era usado por nós, ficando o outro sempre vazio. Era nesse que eu sempre arrumava um jeito de transformá-lo em um banco, uma oficina de consertos de roupa e sapatos e escritórios diversos. Lembro que tinha um quintal com árvore, mas gostava muito. A cerca de um dos vizinhos era de tijolos, mas a outra era de ripas pontiagudas, feitas de sobras de madeira das serrarias, deixando expostos os dois quintais.
Foi nesse quintal ao lado que aconteceu uma coisa muito estranha. Varrendo sob as árvores e juntando as folhas caídas das árvores a vizinha encontrou junto a cerca alguns objetos que lhe causaram espanto e medo, parecendo peças de um trabalho de feitiço. Eram, segundo ela recipientes que lembravam taças de rituais de magia, contendo um líquido vermelho que parecida sangue de porco ou galinha. Não tinha velas, porém sob as folhas que se acumularam sobre a terra havia colheres de chá, ainda brilhantes e que não teve coragem de tocar. Afastou-se assustada concluindo que aquilo tudo estava ali há muito tempo, pois estava impregnado de areia barrenta. Não contou para o marido, para deixá-lo preocupado.

Passado alguns dias, ainda intrigada, ele chamou minha mãe, quando esta voltava, no final da tarde, da nossa loja de cosméticos. Pensou ante disso: ela é espírita e poderá explicar melhor o que isso e ajudar-me a procurar ajuda, para não ofender a quem quer fosse e que tinha feito aquilo, sabe por qual motivo. Também não queria forçar o marido a ter que mudar para outra casa, pois moravam ali há poucos meses. A casa tinha ficado vazia durante muito tempo e então aproveitaram para fazer aquilo que estava lá, próximo da nossa cerca. Por isso, também ficou na obrigação de alertar minha mãe. Depois de relar tudo para minha mãe convidou-a para ver o que passava. Aproximaram-se da cerca e percebeu que a expressão facial da mãe mudou rapidamente. Parecia estar transtornada, chegando a dar umas gargalhadas, o que deixou a vizinha ainda mais intrigada e com medo. Depois de alguns segundos de concentração, minha mãe comentou decepcionada:

- Então foi isso. Agora entendi. Não acredito que isso realmente aconteceu.

E veio a tão esperada explicação.

As taças eram realmente taças de plástico verde, com fundo branco. Tinham desaparecido misteriosamente da minha casa há algum tempo. O líquido vermelho não era sangue e sim restos de gelatina de cereja, que derreteu com a chuva que havia caído há dois dias e encheram as taças com água vermelha. As colheres também tinham desaparecido, sem nenhuma explicação. O mistério das taças de sangue estava resolvido, para alívio e alegria da vizinha. O material do feitiço foi recolhido e reconduzido para o seu lugar de origem, para servir de prova para uma nova investigação. Era preciso descobrir quem foi o autor do delito. Já adianto que na fui eu. Não teria coragem de fazer essa patifaria. Minha vó Maria diria que era uma grande cachorrada. Na verdade minha mãe já sabia de quem se tratava, pois o leniente havia cometido o mesmo delito na loja durante o período em minha mãe viera em casa para almoçar. Pediu desculpas, despediu-se da vizinha e entrou em casa disposta a desmascarar a farsa. Todos reunidos na sala, menos meu pai, que nunca se metia nos negócios educativos da minha mãe. A curiosidade da sobre o assunto da reunião era intensa, pois quando acontecia algo daquele naipe certamente iria rola uma surra espetacular. Em pé e de chinelo na mão ela dirigiu olhar para o meu irmão mais velho e perguntou com voz firme: “Cadê o dinheiro do caixa que eu deixei na loja hoje manhã. Ele não respondeu, mas tremeu nas bases, arregalando os olhos. “Vou repetir só mais uma vez: cadê o dinheiro”? “Também quero saber onde estão as minhas taças e colheres de gelatina que sumiram aqui de casa”?

Dessa vez ele já estava deitado no chão chorando e implorando para não apanhar: “Eu confesso, eu confesso”. “O dinheiro eu paguei coxinha e refrigerante pra todo mundo no bar do Bernardino”.

Depois de duas chineladas bem fortes, ele afrouxou e veio a outra confissão:

“Eu comi todas as gelatinas e joguei no quintal da casa aqui do lado”.

O assunto foi encerrado com mais algumas chineladas marcantes e uma ordem irreversível para ir para o banheiro e ficar lá até a hora de dormir, com a luz apagada.

Todos sabiam que ele morria de medo de defunto e escuridão. Tava armado o complemento do castigo. Não tive dó. Afinal, ele fez a mesma coisa comigo depois que, numa noite, eu fiquei perturbando todo mundo fingindo que estava passando e tendo falsos soluços. Disseram pra eu parar e não parei. Fui para o banheiro, levado cruelmente por ele. Fiquei lá um tempão. Não tinha medo do escuro e naquele dia não lembrei de nenhum defunto.



XXIV 
VELÓRIOS 




O pior de todos os medos e o medo dos defuntos. Esse é um medo que dói, dizia minha mãe. Ficar sabendo de uma pessoa que morreu porque já estava doente não dá medo, mas de peoas que morrem de forma súbita ou trágica é diferente. Causa uma impressão forte em nosso espírito e algumas pessoas ficam perturbadas, à vezes por dias e meses. Dizem que essas pessoas são médiuns e essa impressão acentua a sensibilidade natural deles, passando as captar mentalmente as impressões dos outros também a agonia dos que morreram.

Na infância eu não resitia de curiosidade ia aos velórios observar tudo o que estava acontecendo, em detalhes. Quando começava a escurecer, ao entrar no banheiro para tomar banho, já ia ficando transtornado, pois sabia que a noite em claro ia ser longa. Não conseguia pregar os olhos e fica revendo as cenas do velório e a imagem do morto com os olhos fechado dentro do caixão. Minha mãe percebia, ficava brava , mas logo vinha me socorrer.

Meu irmão mais velho era pior do que eu, pois ele ficava impressionado com todo mundo que morria, gente da cidade e gente famosa que aprecia nos jornais. “Mais que diacho, o homem tá longe e nem sabe que você existe”, dizia minha vó tentando consolar ele, mas não tinha jeito. O chacra gástrico começava a girar tão fortemente, aumentando a sensação de frio na barriga e todo fica em estado de desequilíbrio.

Tinha umas simpatias ousadas para resolver esse problema, como levar o medroso ao velório e fazer ela tocar no defunto e dizer umas palavras,etc. Mas no caso dele parece que isso só piorou. Eu nunca fiz isso. Eu heim!

Hoje perdi o medo, sei me controlar, mas não vou em velório. Quando vou, não entro na Câmara Ardente (olha o nome do lugar). Se tiver que entrar, entro e não olho na cara do sujeito. Nessas horas sempre tem uns cretinos que chegam perto da gente e falam: “Você viu a cara dele? Tá escura”. Puta merda.

Mas os enterros são interessantes, menos agressivos, psicologicamente falando. O silêncio dos passos e das vozes das pessoas andando pelas alamedas da necrópole, as sepulturas curiosas e tal. Evito ir também.

Os antigos ensinam que, depois de um velório, o melhor é passar em algum lugar antes de volta pra casa; ir numa praça, numa loja, para apagar as impressões negativas das cenas fúnebres. O bom mesmo é não ir.

Na minha casa só teve um velório, o da minha Madrinha Manoela. Foi tranquilo, na sala. O problema é que fiquei um seis meses sem passar sozinho por ali, ou passava correndo, acendendo as luzes.

Realmente não posso ir nesses lugares. Já tive várias vezes a impressão de sentir um cheiro forte de rosas e também de carniça. Têm pessoas que morrem e não sabem que morreram e ficam pedindo ajuda aos medrosos, pois sabem que nós são os únicos que levam eles à sério.



XXV 
JANELA PAULISTANA 



Da janela do meu quarto eu tinha uma visão panorâmica da zona sul de São Paulo, começando pelo Butantã, Pinheiros, jardins América e Europa, parte do Morumbi e finalmente a Avenida Paulista, no alto de Cerqueira César, com suas torres de concretos e antenas transmissoras de rádio e tevê. Era o terceiro piso de um sobrado na rua Embaixador Cavalcante de Lacerda. Em frente ao reservatório de água da Sabesp, na Vila Gomes. Eram duas visões completamente diferentes: a do dia, mais nítida e cheia de detalhes, como a vegetação e as milhares de edificações espalhadas nos bairros; e a noturna, difusa, onde só se enxergava sombras, silhuetas e infinitos brilhos e tons de luzes. São Paulo não tem céu nem estrelas, escondido pela neblina e pelo reflexo das luzes amarelas da iluminação púbica. Tem também um barulho que não se ouve, mas que é a soma de todos os ruídos que existem na cidade. Esse barulho é subliminar, oculto, e permanece gravado na memória auditiva de todos. É ele que faz com que o paulistano, de forma inconsciente, sofra uma saturação e esgotamento permanente. Daí essa necessidade constante de sumir (escapar), de consumir, se divertir e principalmente comer, com forma de alívio.

Ficava olhando aquela paisagem gigantesca e não me conformava que tudo aquilo um dia foi um planalto vazio, com pouquíssimas casas, rodeado de riachos e florestas. Tudo desapareceu sob o asfalto e construções.

Na minha época paulistana a cidade ainda desconhecia os computadores, a internet e as redes sociais. Não havia celulares. O telefone era caro e caro. E mesmo assim as pessoas se comunicavam. Para saber das coisas gerais, as pessoas contavam com os jornais, tv e rádio. Mas para saber mesmo das coisas tínhamos que ir até os lugares onde as coisas estavam acontecendo. Todos tínhamos um telefone de recado e os recados demoravam par serem dados. Até mesmo quando inventaram o BIP, sinal de que deveríamos ligar para alguém dos orelhões ou cabines telefônicas. Por isso acreditávamos que era necessário andar em busca de informações. Tudo girava em torno de informações. Ainda não havíamos ingressado na chamada Era da Informação nem do Conhecimento, mas havia uma forte convicção de que não era possível viver sem isso. As bancas de jornais eram repletas de produtos informativos: revistas, fascículos, livros e fitas K-7. Nas bancas da Paulista tinham jornais do Brasil inteiro e também das principais capitais do Mundo. As locadoras de vídeo ocupavam os melhores pontos comerciais. As salas de cinema ainda eram altamente frequentadas, não como nas décadas anteriores, mas ainda fazia parte dos nossos hábitos. Antes do advento do “laser” havia muitas lojas de discos de vinil. As livrarias e sebos eram o destaque e também estavam espalhadas na cidade, principalmente nas faculdades e nos arredores. Naquele tempo São Paulo era visualmente suja e poluída. Não havia a lei da cidade limpa e realmente as edificações viviam escondida por trás das placas e out-doors de publicidade. Quando voltava para casa, geralmente depois das 21 ou 22 horas, tudo que queríamos era um banho, uma roupa limpa, uma refeição, um pouco de televisão e uma cama. Não conseguia ler nada antes de deitar. Dispensava a TV. O que tinha mais preciso no meu quarto era um aparelho de som – receiver - com duas pequenas caixas de som. Não era para ouvir discos. Era só para ouvir rádio. Rádio Eldorado. Rádio USP. Rádio Cultura. Vivíamos a era das FMs. Para dormir, preferia a Scala FM, emissora do grupo Diário Grande ABC, que tinha um prefixo espetacularmente aristocrático e relaxante. Impossível dormir em São Paulo sem ouvir a voz de Danielle Licare cantando os famosos monossílabos (à scat singing ) do concerto Pour Une Voix, de Saint-Preux. Como levantava às 5, não tinha tempo para os programas jornalísticos da manhã. Assim era São Paulo nos anos 80-90, a qual percorria portando sempre, por segurança climática, um pequeno guarda-chuva e um colete de lã. De vez em quando subo a serra para alguma reunião ou evento e aproveito para matar as saudades. É um conforto saber que São Paulo está bem perto. Por isso voltei e não mudo do litoral.