segunda-feira, 8 de julho de 2019

DA PRIMEIRA À ÚLTIMA VILA VICENTINA



Vila Tibiriçá em 1938 pelo fotógrafo alemão Konrd Voppel

O PORTO TIBIRIÇÁ


DALMO DUQUE DOS SANTOS



Nasci no Porto Tibiriçá (atual Presidente Epitácio) e hoje estou vivendo em São Vicente. Já havia morado em São Vicente, entre 1974 e 1984; depois mudei para São Paulo em 1985. Voltei para Epitácio na década de 1990, onde fiquei até 1997. No ano seguinte fui morar em Campo Grande – MS, cidade que acolheu muitos epitacianos. Voltei para São Paulo em 1999 e retornei para São Vicente em 2001. 

Sempre que faço esse pequeno e confuso relato as pessoas logo reagem, tentando compreender os motivos de tantas andanças e mudanças. 

Outra coisa, o que tem a ver São Vicente, uma cidade fundada no início século XVI, com o Porto Tibiriçá, fundado no início do século XX? O que poderia ter em comum essas duas localidades tão distantes, uma no litoral e outra no interior, e com quatro séculos de diferença? 

Muita gente do interior vem para a Capital, para o litoral e também vai para o exterior. Outros tantos fazem o percurso contrário. Sou do Porto Tibiriçá e creio que tem muitos e tibiriçaenses e epitacianos em vários lugares do Brasil e do mundo. Tem muita gente da nossa terra vivendo no litoral, em São Paulo, em várias regiões do Brasil, nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália, em vários países da Europa e até do leste europeu. É possível que tenha morrido algum pirangueiro no Word Trade Center. No Japão também tem epitacianos, é claro! 

Creio que as pessoas vão para os lugares por algum motivo muito mais forte do que aquele que simplesmente funciona como pretexto e impulso para as mudanças. Mudar de lugar é uma busca de algo que se perde dentro de nós mesmos e que, na verdade, não está exatamente nos lugares para os quais a gente quer ir. Pode ser que aconteça, de acharmos o que realmente procuramos ao mudarmos de endereço, mas não é o lugar em si que é o motivo verdadeiro da procura, nem a causa real do encontro. São as coisas que acontecem, em determinados lugares, em determinados momentos que fazem realmente com que se façam algumas escolhas e essas decisões provoquem algumas mudanças na forma de ver e encarar a vida. Essa é a verdadeira mudança, a qual podemos realmente chamar de destino. Nas terras por onde se passa, descobre-se, se constrói um chão e nele o relógio do tempo avança numa sucessão de fatos e circunstâncias. Ao mesmo tempo o contato com esse chão aciona uma bússola, que nos conduz pelas veredas das decisões e escolhas. Aí a gente muda. 

Certa vez eu fiquei fascinado pelo mar. Acho que isso também aconteceu com a minha mãe. Foi ela que teve a ideia de mudarmos para o litoral. Era um tipo de angústia que ela sentia na alma durante décadas e só curou parcialmente quando fomos viver próximo ao mar. Herdei isso dela. Meu pai sentia a coisa de forma contrária: vivia com o pensamento voltado para o sertão, lugar onde acreditava ter vivido os melhores momentos de sua última existência e, no final dela, conseguiu realizar o sonho de morar novamente em Epitácio. Seu corpo está sepultado no Horto da Igualdade, embora seu Espírito certamente não esteja lá. Aliás, sabe-se que algumas pessoas que foram viver longe fazem questão de ter seus corpos enterrados em Epitácio, pessoas que estavam vivendo na América do Norte e nunca tiraram Tibiriçá e Epitácio da memória sentimental. 

O céu do sertão é bem diferente do céu do litoral; são cores e ventos diversos e opostos. O Nascente e o Poente repercutem de forma diferenciada no psiquismo das pessoas e isso influencia nas escolhas importantes que elas fazem na vida. Dizem que nascemos assim, mentalmente inclinados para um ou para o outro lado, para o sertão ou para o mar. 

Eu tinha 10 anos quando vi o mar pela primeira vez. Foi em 1972, quando fomos passar uma rápida temporada em Praia Grande. Naquela época a rodovia Castelo Branco, que liga a Capital e o interior, ainda era nova e nas proximidades de São Paulo, Osasco e Barueri não havia muito tráfego intenso de carros. 

Para descer a serra era necessário cruzar a grande metrópole e chegar até a longínqua Via Anchieta, localizada na então área industrial dos municípios do ABC. A rodovia dos Imigrantes era só um projeto. Naquele ano meu pai havia tirado a sorte na loteria federal ganhando 65 mil cruzeiros. O prêmio logo foi transformado em uma casa, na esquina das ruas Curitiba e Guanabara, que nunca chegamos a morar, pequenos empréstimos para amigos, pagamento de dívidas e uma Kombi zero quilômetro, na qual fizemos essa longa viagem de uns 700 quilômetros para Baixada Santista. Nessa viagem fomos acompanhados pela família do grande amigo Tião Silva, espirituoso e sempre bem humorado, como a maioria das pessoas do seu sangue. Nessa viagem inesquecível tudo, como sempre, era motivo de comentários satíricos e gargalhadas. Saímos de Presidente Epitácio ainda de madrugada e fomos até Ourinhos pela rodovia Raposo Tavares. Lembro mesmo dos postos de serviços da BR, na rodovia Castelo Branco; aos meus pequenos olhos aquilo tudo era muito grande e repleto de curiosidades. Saímos de madrugada e pouco depois do meio dia já estávamos deslizando pelas “curvas da estrada de Santos”. Antes disso tivemos que entrar em São Paulo, pois o acesso principal à rodovia Anchieta era pela Avenida do Estado sentido Ipiranga. A cena mais impressionante nesse trecho entre São Paulo e Santos era a enorme fábrica da Volkswagen, em São Bernardo do Campo, com aquele prédio enorme de arquitetura alemã, com linhas retas, janelas amplas, revestimento de bom gosto, revelando a inteligência pragmática e tecnologia sempre avançada dos alemães. Até hoje me causa forte impressão ver aquelas enormes instalações com seus pátios gigantescos abarrotados e também as ruas do entorno repletas de carros. 



Meu pai e meu avô na Praia do José Menino no início dos anos 1940 



Dali fomos entrando lentamente na sempre misteriosa Borda do Campo, com sua vegetação monótona envolta em neblina, passando pela represa Billings e percorrendo um longo trecho, na época quase deserto, até chegarmos ao ponto de declive que nos levaria ao litoral. Fomos descendo a Serra e meus olhos iam se projetando fixamente no horizonte em direção ao Oceano Atlântico e então, finalmente, pude ver o mar azul, não tão azul quanto tinha visto no cinema, porém uma imensidão a perder de vista. A diferença era que esse azul parecia ter o cheiro da maresia, aumentando ainda mais o meu fascínio pela paisagem deslumbrante do litoral. Meu pai dirigia bem devagar, talvez por cautela e também curiosidade, para aproveitar o espetáculo. Tinha visto algumas fotos dele e do meu avô, os dois em trajes de viajantes e depois de sunga numa praia de Santos, nos anos 40, provavelmente a do José Menino ou do Gonzaga. 

Ainda hoje não consigo explicar direito o que eu sentia naquele instante. A ansiedade para chegar rapidamente, tão comuns nas crianças, em mim era um sentimento de quem buscava algo diferente naquela paisagem sempre deslumbrante. Aquela imagem do Atlântico penetrou na minha retina e tornou-se inesquecível, assim como, na memória olfativa, permaneceu o cheiro do mar. 

Essa aparente viagem de férias era na verdade o nosso reencontro com antigas paisagens desconhecidas pela memória consciente daqueles instantes, porém familiares nas lembranças remotas do inconsciente de outros momentos que ficaram no passado. Naquela época nenhum de nós sabia o que significava déjà vu, porém essa era a sensação que tomava conta de mim, da minha mãe e talvez do Mia que, inexplicavelmente resolveu fazer essa viagem com a gente. Estávamos nos reencontrando com o litoral e também marcando o próximo encontro de um convívio mais longo, talvez definitivo, para os próximos cinquenta ou setenta anos. 

Durante uma semana visitamos Praia Grande, Santos, Bertioga, Itanhaém e Guarujá. Era um tempo em que essas incursões eram mais demoradas, principalmente ao litoral Sul, pois o único acesso era pela velha Ponte Pênsil, cujas filas de ida e volta eram enormes nas temporadas de verão. A cada ponto turístico ou lugar comum por onde passávamos tínhamos a impressão nítida do “já vi” e “já estive aqui”. Visitamos também muitos amigos epitacianos que já moravam há anos na Baixada Santista, especialmente o Manuca (Manoel) e o Chiba (Claudio), ambos filhos da Dona Lindina e também mãe da Irene, esposa do Tião Silva, nossos convidados. O Manuca (casado com a espanhola Maruca) trabalhava no jornal A Tribuna, da família Santini, com quem a mãe havia trabalhado por muitos anos como colaboradora doméstica. O Chiba trabalhava em Cubatão, na Copebrás, e a Cleusa, sua esposa, era funcionária do INPS. Fomos muito bem acolhidos, nessa viagem e também quando mudamos para São Vicente, recebendo deles ajuda preciosa para nos instalarmos na cidade. A primeira casa em que moramos pertencia ao casal Nezinho e Janice, também filha da Dona Lindina. 

Quando voltamos para Epitácio naquele verão de 1972 já não éramos mais os mesmos, pois algo diferente e muito grave havia acontecido com os nossos espíritos. A viagem, que foi feita apenas para diversão e lazer, tinha causado um desvio existencial em cada um de nós fazendo com que antigas dúvidas e anseios se multiplicassem em nossos mundos íntimos. Voltar para Epitácio naquele ano foi distanciar-se da sensação de experimentar algo muito diferente do que experimenta o turista deslumbrado com o desconhecido. Para nós, nada daquilo era desconhecido e logo, dois anos depois, estaríamos descendo novamente a Serra do Mar para apagar definitivamente os efeitos do déjà vu. 


A primeira e a última cidade paulista 


Como vimos no início desse livro, o pioneirismo paulista é provavelmente uma das mais importantes epopeias registradas nos arquivos da história brasileira, repleta de atos heroicos e acontecimentos incomuns. Recordando, foram três os momentos do ímpeto conquistador que impulsionaram a marcha de ocupação territorial que daria origem ao mais rico e próspero estado da federação. 

O primeiro avanço aconteceu na colonização mercantil do século XVI, com a formação das Capitanias Hereditárias, na qual o engenho vicentino de Martins Afonso de Souza foi o modelo empreendedor. São Vicente e Pernambuco foram praticamente as únicas capitanias que vingaram como unidades políticas e produtivas, segundo as exigências do sistema colonial; e foi por causa delas que Portugal resolveu implantar o Governo Geral. Os vicentinos partiam do litoral em muitas direções em busca ouro, diamantes e da mão-de-obra indígena, compulsória. 

O segundo avanço, já no século XIX, foi marcado pela expansão cafeeira, inicialmente na direção da Serra da Mantiqueira e posteriormente para o meio Oeste, na grande região de Campinas e Ribeirão Preto. 

E finalmente, já na primeira metade do século XX, por meio da enorme malha ferroviária, derrubando matas, abrindo novas fazendas, espalhando estações de percurso e distribuindo grandes contingentes humanos em busca de trabalho e do sonho de felicidade. 

Primeiro os caminhos de terra e água e depois os trilhos de ferro, do litoral vicentino até às margens do rio Paraná, de olho no infinito sertão. 

Portanto, o Porto Tibiriçá é também, como São Vicente é para o Brasil, a “cellula-mater” do Oeste paulista e do Pontal do Paranapanema. 

Não havia outra forma mais prática e eficiente de atingir essa imensa região, ainda despovoada em pleno século XX, se não pela via fluvial Tietê-Paraná, contorno natural que economizou tempo e recursos tanto das novas “Entradas” da Comissão Geográfica e Geológica do Estado, quanto da nova “Bandeira” da Companhia de Viação São Paulo-Mato Grosso. 

Muito antes que as principais cidades da região fossem fundadas e adquirissem o status de vila, distrito ou municipalidade, o Porto Tibiriçá e a Estrada Boiadeira se organizavam como estabelecimentos empresariais e fatores e socioeconômicos que estimulariam as futuras instituições políticas da Alta Sorocabana. 

Os autores desse evento histórico que deu origem ao município de Presidente Epitácio e outros da dessa região foram o Capitão Francisco de Aguiar Whitaker e todos os seus companheiros da expedição. Estava com ele o mandatário paulista Coronel Paulino Carlos de Arruda Botelho, que se tornou nesse evento histórico e político o primeiro administrador do Porto Tibiriçá. Estes, com o auxílio de 25 homens, cumpriam uma das metas da Diederichsen & Tibiriçá, futura Companhia de Viação São Paulo - Mato Grosso, para estabelecer um ponto de comunicação viária entre os dois estados e concluir as obras da Estrada Boiadeira, sua principal base de negócios na região. O porto recebeu o nome do médico Francisco Tibiriçá, sócio da empreitada e primo do então governador do estado, Jorge Tibiriçá Piratininga. 

Portanto, o Porto Tibiriçá e Presidente Epitácio não possui apenas um fundador. Na verdade foram todas pessoas que participaram diretamente desse evento histórico, como testemunhas e agentes sociais transformadores. É claro que aqueles que comandam esses empreendimentos são habitualmente elevados à categoria principal dos agentes históricos; e que os liderados permanecem anônimos, obviamente por causa da sua “insignificante” posição social. Ainda assim, mesmo que persista o vício das narrativas épicas, que só contemplam e nomeiam os maiorais da pirâmide social, é preciso que se faça uma grave correção, já que o Capitão Francisco Whitaker não estava sozinho na empreitada. Junto com ele também estavam o Coronel Paulino Carlos e o Coronel Francisco Sanches Figueiredo, figuras de alta importância social na época, marcando presença como chefes políticos regionais. Paulino Carlos e Francisco Sanches não eram apenas figuras acompanhantes, mas ali estavam como símbolos de poder da velha oligarquia paulista demarcando um antigo território que haviam subtraído dos indígenas. Tanto é que, antes e ao ser concluída a empreitada, ambos foram rapidamente reconhecidos e investidos como autoridade locais pelos empreendedores e investidores. 

Radicalmente, devemos lembrar ainda que o Coronel Francisco Sanches já havia fincado ali as bases da futura Vila Tibiriçá quando em 1906 se instalou, abriu uma clareira na mata e preparou o terreno para a chegada da flotilha. Mesmo com a reação destruidora e violenta dos indígenas, irritados com o seu gesto conquistador. Acrescentamos ainda a atuação providencial do Sr. Alonso Junqueira, administrador da Fazenda Novo Niágara, próxima a Estação de Mandury, que muito auxiliou na organização do acampamento e da futura Vila. Ele chegou em Tibiriçá um mês após o desembarque da flotilha, porém teve a missão de estabelecer ali um posto avançado para fazer a ligação com a estrada que vinha de Indiana. Segundo o próprio Whitaker, o Sr. Junqueira, fundador de Indiana, foi a pessoa que levantou o “primeiro rancho coberto de zinco que este sertão vio”. Todos esses homens e seus serviçais são também, portanto, ao nosso ver, legítimos fundadores do Porto Tibiriçá e de Presidente Epitácio, tanto quanto Whitaker, bem como os membros da famosa viagem, que até hoje permanecerem anônimos. 

São também, não podemos esquecer, usurpadores dos territórios indígenas, em nome do progresso. Há que se considerar também o papel de cada um investidores e sócios da Companhia, cujos recursos materiais permitiram a realização da empreitada, cujos custos foram financiados por eles. Esses sete investidores foram responsáveis diretos pela estruturação física do Porto Tibiriçá e assim o mantiveram por longos anos até que, por causa das mudanças geradas pela II Guerra Mundial, o governo federal fizesse a encampação por meio da SNBP-Serviço de Navegação da Bacia do Prata. 

A fundação da CVSP-MT 


Acta da Assembléa Geral dos excelentíssimos accionistas da Sociedade Anonyma “Companhia de Viação São Paulo-Mato Grosso”. 

Aos Três dias do mez de Junho de 1908 (mil novecentos e oito), no prédio do Largo do Arouche, nº 2, n`esta Capital de São Paulo, presentes todos os accionistas que constituem a sociedade anonyma e formação “Companhia de Viação São Paulo-Mato Grosso”, em substituição da Sociedade Civil Diederichsen & Tibiriçá, nos termos da escriptura lavrada n`esta data no cartório do 2º Tabellião desta capital, a saber: Arthur Diederichsen, brasileiro, lavrador domiciliado n`esta capital; Dr. Francisco Tibiriçá, médico, brasileiro, domiciliado n`esta capital; Antonio José Ribeiro da Silva, brasileiro, lavrador, residente n`esta capital; Dr. Augusto Ferreira Ramos, brasileiro, engenheiro, residente nesta capital; Dr. Joaquim Timóteo de Araújo Netto, brasileiro, lavrador, residente nesta capital; Ernesto Diederichsen, brasileiro, negociante, residente nesta capital; Frederico Ernesto de Aguiar Whitaker Júnior, brasileiro, negociante, residente em Santos; foi aclamado presidente da Assembléia o accionista Dr. Francisco Tibiriçá, que convidou para Secretário o accionista Antonio José Ribeiro da Silva. Em seguida foi declarado pelo Presidente que o motivo d`aquela reunião era avaliar os bens e direitos da firma Diederichsen & Tibiriçá e de Arthur Diederichsen e sua mulher, bens e direitos estes que passarão para a sociedade anonyma em formação, conforme consta da mencionada escriptura lavrada hoje em notas do 2º Tabellião desta Capital...” 

A história do Oeste paulista é muito mais antiga do que se imagina, pois remonta o período pré-cabraliano, passando pelos tempos inesquecíveis da exploração colonial e abrangendo a expansão desenvolvimentista do II Império e da Primeira República. Enquanto São Vicente foi o marco de partida da trajetória histórica do Brasil e estado de São Paulo, o Porto Tibiriçá foi o ponto de chegada dessa jornada de cinco séculos de pioneirismo e ocupação territorial. 

Fim dos trilhos, fim do mundo 


O Porto Tibiriçá já foi o fim do mundo, os “limes” da civilização paulista e das fronteiras do Brasil. No começo do século XX toda essa região cortada pelo rio Paraná era vista como porta de entrada para uma interminável floresta tropical, praticamente intacta e que começava imediatamente após a travessia dessas águas que os índios chamavam de Grande Mar. Assim como hoje os turistas buscam os confins do Acre, Rondônia, Amazonas e Roraima para conhecer a selva, o Porto Tibiriçá era o ponto de encontro e partida de expedições oficiais, científicas, militares e de turismo, por meio dos vapores da Companhia de Viação. As missões religiosas dos freis capuchinhos e do antropólogo e sertanista alemão Curt “Nimuendajú”; as pesquisas de medicina tropicalista do Dr. Adolpho Lutz; e também a movimentação das tropas tenentistas de Juarez Távora são provas dessa grande atração que o rio Paraná exercia entre os diversos tipos de viajantes em busca da aventura e do desconhecido. Tudo isso acendia a imaginação dos turistas, que ficavam sabendo dessas coisas pelos relatos dos expedicionários, publicados em livros ou nas páginas dos jornais e revistas. 

Despertava também, em pleno século XX, o antigo espírito de aventura da Capitania Vicentina, herança que o geógrafo francês Pierre Mombeig (Pioneiros e fazendeiros de São Paulo) identificou com “psicologia do bandeirante”. No início dos anos 1930, quando lecionava na USP, Monbeig vasculhou o interior paulista servindo-se da malha ferroviária que avançava em direção ao Oeste do estado para estudar as grandes transformações da paisagem e da experiência social. Observou mais detidamente os motivos humanos recentes do desbravamento florestal da Alta Paulista: 

“No curso de minhas viagens, muitas vezes encontrei moços, nascidos nas grandes cidades, antigos alunos de escolas de Medicina, de Agronomia, de Engenharia, em São Paulo ou no Rio de Janeiro, que viviam duramente; em meio de gente rude e bruta, e experimentavam evidente alegria na vida sertaneja. Nisso contava muito o lado esportivo. Mas também a sensação de criar, o sentimento de manter uma tradição e o orgulho de contribuir para engrandecer o seu país. Há nos brasileiros, mais frequentemente nos de Minas Gerais e de São Paulo, uma espécie de instinto que os impele sempre para adiante, para além da civilização. Não é raro ouvir dizer de um homem e de sua família que não podem ouvir o silvo da locomotiva. São os que sempre moram um pouco além da estação terminal de uma ferrovia. Quando esta prolonga os trilhos, embrenha-se o homem mais pra dentro do sertão. Gosta esse tipo de homem dos vastos espaços desertos, onde pode viver longe dos constrangimentos sociais. Trata-se muitas vezes de um caçador ou de um criador de gado. Nas margens do rio Paraná, do Tietê, encontram-se famílias que vivem da caça e da pesca. Preferem outros o nomadismo do boiadeiro que, conduzindo boiadas provenientes de Goiás, do Mato Grosso e de Minas Gerais, encaminham-se para as pastagens paulistas. Gente pobre, na maioria, frequentemente negros, mas também outros que possuía terra e abandonado casas nas cidades de São Paulo e Minas Gerais, desistido da família, estudo, profissões, liberais. Vai diminuindo essa espécie, pois quase já não há lugares onde o caminhão não atinja” 


Na década de 1930 o Porto Tibiriçá, como seria Presidente Epitácio trinta anos depois, era estrela turística de cartões postais que circulavam nas grandes cidades. Éramos vistos não somente como a “Amazônia” daquela época, mas também, de certa forma, a “África” da bacia dos rios platinos. 

Quando afirmamos que a cidade de Presidente Epitácio é filha do espírito da antiga colonização ibérica e do impulso explorador sertanista vicentino não nos referimos apenas às ondas exploradoras mais recentes, resultantes da pressão econômica cafeeira e das ferrovias. Na época de homens como Jorge Tibiriçá e do seu primo médico Francisco, do empresário Arthur Diederichsen, do Coronel Sanches, do Capitão Whitaker, do Coronel Paulino Carlos e do Major Cecílio, o sentido geográfico da colonização era o então enorme e desconhecido Mato Grosso, o principal símbolo do universo selvagem, sendo depois substituído mais recentemente pela Amazônia. Em outras palavras, a ideia de aventurar no sertão, de se embrenhar nas matas em busca do “Eldorado” nunca foi abandonada pelas gerações modernas e contemporâneas. O espírito ou psicologia bandeirante continua vivo. 

Havia também o espírito neocolonizador, dos visionários ou futuristas do capital industrial. Para descrever esse perfil nada melhor do que essa descrição que o Capitão Whitaker fez de Arthur Diederichsen, um dos sócios da Companhia de Viação: 

“Seria, portanto, de clamorosa injustiça que o historiador que escrever a história do desenvolvimento do Estado de São Paulo deixasse de reservar, na galeria dos Paulistas ilustres, um lugar de destaque para este Paulista emprehendedor e tenaz, que foi, de facto, quem abriu este Sertão, e aqui, invertendo milhares de contos de reis, por largos annos manteve sozinho, e em estado prospero, este grande centro de ordem e trabalho que sempre foi, e ainda é, a Companhia de Viação São Paulo Matto Grosso”. 

A interiorização da metrópole portuguesa (Entradas e Bandeiras) se perpetuou no comportamento de todos os que se dispunham a explorar novas possibilidades de negócios e prosperidade. E o sertão sempre representou um campo vasto e inesgotável dessa ambição natural e aventureira. Mais ainda, fazer o percurso da aventura colonial é tomar o rumo contrário do Oceano Atlântico em direção aos Andes e ao Pacífico. É o percurso de quem deixa tudo para trás, de quem não tem nada a perder, do tudo ou nada. Quem penetra no sertão de peito aberto entra num caminho sem volta e por isso deve antes queimar os seus navios, só restando a possibilidade de avançar no imenso horizonte do Sol Poente. 

Essa ideia de migração permanente ficou gravada durante séculos na mentalidade do imigrante europeu e foi sendo preservada através dos seus descendentes contemporâneos que, já radicados na América, migram no sentido do litoral para o interior. Mesmo os que parassem a sua marcha num determinado ponto do interior continuavam achando que o lugar que escolheram para ficar era o umbigo do mundo e que, tudo que estava além, mesmo que fossem somente alguns quilômetros, seria sempre o “fim de mundo” dos fidalgos europeus e também o “cafundó” dos resignados descendentes de africanos. 

Foi assim que, na mentalidade regional, Epitácio ganhou a fama de “fim de mundo” e o Mato Grosso tornou-se o “cafundó do Judas”. É o observador, cuja visão linear e rígida, vê somente o trajeto de uma linha que se interioriza em relação ao litoral e aos centros urbanos estabelecidos é a perspectiva quase sempre condicionada pela ideia e imagem de um lugar distante que ainda não existe, que não é estável, que não inspira confiança, sendo, portanto, inferior como referência em todos os aspectos. 

Também contribuiu muito para a perpetuação desse preconceito, que absolutamente não atinge o aventureiro e o desbravador, por estar “depois”, de ser a “última” de todas as cidades, o fato de Epitácio estar no extremo Oeste de uma grande área que permaneceu milagrosamente isolada entre o fim de São Paulo e o começo de Mato Grosso. Reforçou também essa tal mentalidade, alimentando e nutrindo o imaginário da desconfiança para com o Poente, a agressividade extrativista madeireira e o estabelecimento das pastagens. Para os novos seguidores de Pizarro e do intrépido Raposo Tavares, colocando um pouco de lado a piedade cristã, a mata e seus habitantes selvagens, incluindo a humanidade indígena, representavam não uma ameaça, mas o obstáculo que mais cedo ou mais tarde teriam que ser removidos. Novamente a Cruz, a Espada e Fome seriam os principais estandartes da ocupação territorial. 

E finalmente a implantação dos trilhos férreos, que foram lançados sobre a terra ainda bruta, não apenas como meio de transporte, mas, sobretudo, como um símbolo de poder e riqueza, emblemas de progresso e avanço contra o mundo desconhecido. Epitácio permanecia no fim da linha da Estrada de Ferro Sorocabana e essa maravilha da tecnologia industrial era uma referência cultural para quem vai e para quem fica, para quem avança e para quem permanece, para quem precisar romper novos obstáculos e para quem precisa conservar o que já foi conquistado. 

A ferrovia era o limite entre a ousadia da necessidade e o reacionarismo dos estabelecidos. Quem não tem competência não se estabelece e se não há mais espaço onde paramos temos que ir adiante e nos estabelecermos em outros lugares, a qualquer preço. Ela funcionou durante muito tempo como o umbigo do mundo, uma a referência de onde se construíam as estações de chegada e de partida; e também o ponto de vista das pessoas sobre os acontecimentos ao seu redor, sobre o tempo presente, o tempo que passou e principalmente sobre o tempo futuro, o mundo ideal. Não foi à toa nem por coincidência, que as ferrovias brasileiras nasceram das mãos dos ingleses vitorianos, cujo império colonial partia de Londres penetrando nos mais inóspitos lugares do planeta. 

As locomotivas do capitalismo industrial fizeram nos séculos XIX e XX o mesmo papel das caravelas ibéricas nos séculos XV e XVI. A mesma visão eurocêntrica do antigo colonialismo luso-espanhol surgiu com mais força e vigor no neocolonialismo industrial. Este “ferrocentrismo”, semelhante ao antigo, no orgulho e na prepotência, se considerava o ponto central entre o começo e o fim do mundo. As estações e os trilhos tornaram-se o inevitavelmente o ego social e político da conquista do sertão, uma régua histórico-temporal que mensurava a qualidade e a modernidade progressiva dos lugares por onde passava e dos povoados que foram surgindo atrás das suas pegadas. 

Foi assim que, na gradação mensurada pela régua do olhar, imitada dos ares de superioridade da fidalguia ibérica e da aristocracia britânica, as estações de trem passaram a ser vistas não somente como unidades administrativas do transporte ferroviário, mas também como pontos de localização na logística de sentido puramente ideológico e imaginário. 

Foi assim também que muitas cidades do interior paulista, algumas hoje de grande porte urbanístico, tornaram-se, em suas respectivas fases de crescimento prestígio, o meio entre a grande Estação Júlio Prestes, na Capital, e o fim dos trilhos em Presidente Epitácio. As cidades que estavam antes ou depois – tomando como referência a Baixa, a Média e a Alta Sorocabana – desses pontos “ferrográficos”, passavam a ser vistas como gradações ou degradações da qualidade civilizatória, de progresso ou de atraso. Se o trem atrasa em seus horários do dia- a- dia, as cidades também atrasam na longa duração do seu tempo histórico. Se a ferrovia não tivesse perdido a sua importância econômica e tecnológica tornando-se lenta e obsoleta para os padrões logísticos atuais, Epitácio, ainda por muito tempo, estaria destinada a ser não somente o fim da linha e a porta de entrada do fim mundo, mas certamente o fim da picada. Mas nem sempre foi assim. 



Mapa paulista do final do século XIX mostrando a região oeste ainda despovoada. 


Bandeirantes e coronéis 

“Quando se sabe, por experiência própria, quantas fadigas, privações, perigos ainda hoje aguardam o viajante que se aventura nessas longínquas regiões e se toma conhecimento do itinerário das intermináveis incursões dos antigos paulistas, sente-se uma espécie de assombro, tem-se a impressão de que esses homens pertenciam a uma raça de gigantes”. Auguste de Saint-Hilaire, Viagem à província de São Paulo, p. 32-3. 



O nome Tibiriçá é, antes de tudo, um quatrocentão, que na verdade significa originalmente na língua tupi “formigão da terra” e depois sobrenome herdado dos primeiros portugueses que ocuparam a Capitania de São Vicente, as vilas do litoral e o planalto paulista, a partir do século XVI. Antes disso o nome Tibiriçá pertencia somente ao cacique tupiniquim da tribo Guainá (guaianazes), catequizado por José de Anchieta e Leonardo Nunes e que se tornou aliado dos portugueses nos primórdios da colonização. Ao ser convertido, o chefe indígena ganhou o nome católico Martim Afonso Tibiriçá, em homenagem ao fundador e mandatário-mor de São Vicente. Uma das filhas de Tibiriçá, a jovem Bartira, casou-se com o português João Ramalho, antigo degredado que habitava a aldeia Tumiaru (futura vila vicentina, bem antes da chegada de Martim Afonso em 1532); e a outra filha do cacique do planalto, Terebê (Maria da Grã), casou-se com o jesuíta Pero Dias, acontecimento especial concedido pela ordem inaciana e pela Igreja, já que Dias não era propriamente um padre com voto de castidade. Os demais filhos de Tibiriçá eram Ítalo, Ará, Pirijá, Aratá e Toruí, todos da mesma mãe, a índia Potira. Tibiriçá também tinha dois irmãos, como ele, chefes tribais do planalto de Piratininga: Caiubi e Piquerobi, cujas filhas também se casaram com colonizadores europeus. Esses primeiros descendentes é que formariam as primeiras fazendas no entorno da cidade de São Paulo. Depois eles se aventuram mata adentro da Capitania, como chefes de bandeiras e capitães de monções, a fundarem os inúmeros núcleos que dariam origem aos primeiros povoados do interior paulista e mineiro, em direção ao Mato Grosso e Goiás. Eram eles: Antônio Raposo Tavares, Manuel de Campos Bicudo, Bartolomeu Bueno da Silva (Anhanguera), Nicolau Barreto, Francisco Pedroso Xavier, Manuel Preto, Matias Cardoso de Almeida, Belchior Dias Carneiro, Fernão de Camargo - dito o Tigre ou o Jaguaretê -, Fernão Dias Pais Leme, Jerônimo de Camargo, Bartolomeu Bueno de Siqueira, Antônio Rodrigues Arzão, Brás Rodrigues de Arzão, Mateus Nunes de Siqueira, Sebastião Preto, Estêvão Ribeiro Baião Parente, Roque Barreto, Domingos Jorge Velho e José Ortiz de Camargo. 

Quando a cidade de São Paulo comemorou o seu quarto centenário, em 1954, voltou à moda o uso dessa expressão há muito cultivada pelos aristocratas identificando seus membros mais ilustres e suas respectivas famílias de “quatrocentão” e “quatrocentonas”. Essas famílias paulistas sempre prezaram pelas origens, seja por distinção, seja pela busca de uma identidade mais remota, cuja raiz pudesse legitimar e justificar suas tradições aristocráticas, obviamente transformadas em prestígio social, dominação territorial e política. Tibiriçá foi apenas uma delas e pretendia ser, talvez, a mais importante em termos de raízes miscigenadas, pois foi a primeira a dar os frutos mamelucos nessa vasta região da capitania vicentina. Os Tibiriçá civilizados dos séculos posteriores (da família Almeida Prado, por exemplo) adoraram esse sobrenome, acrescido de Piratininga, exatamente com essa intenção, quando simplesmente “resolveram ser Tibiriçá”, e o mantém até hoje como sinônimo de antiguidade e permanência da sua raiz mestiça mameluca ou ainda do conhecido “espírito bandeirante”. Assim como Francisco Tibiriçá deu nome ao Porto, o engenheiro Artur Piquerobi de Aguiar Whitaker, demarcador de terras na região e secretário da justiça do Estado de São Paulo em 1946, deu nome à conhecida cidade próxima de Presidente Epitácio.


Retrato do Capitão Francisco de Aguiar Whitaker. Acervo: E.E. de Anhumas-SP. 


Ao se referir ao Dr. Francisco Tibiriçá (irmão do governador Jorge Tibiriçá Piratininga), o fundador do Porto Tibiriçá, o também aristocrata Capitão Francisco de Aguiar Whitaker, o identifica como legítimo descendente dos quatrocentões: 

“Paulista de antiga e fina raça, patriota e empreendedor”; 

E da mesma forma se refere ao Coronel Artur de Aguiar Diederichsen, seu parente de sangue: 

“Homem de ação e empreendedor; e pelo lado materno também paulista de velha raça”. 


E repete o mesmo critério ao citar o Coronel Paulino Carlos de Arruda Botelho, fazendeiro do Alto Tietê, que o ajudou a formar a flotilha desbravadora de 1906: “Paulistas dos legítimos, homem de ação e velho "Almirante" do Tietê”. 

Daí se vê de forma inegável que a ligação e identificação histórica e cultural entre São Vicente e o Porto Tibiriçá não foi mera obra do acaso e sim algo que se pode atribuir à força das afinidades naturais ou simplesmente trabalho do “destino”. 

A primeira vila ou municipalidade política do Brasil, que gerou Santos, Cubatão, São Paulo, Santana do Parnaíba, Sorocaba, Campinas, Ribeirão Preto e tantas outras, tinha o comando de dois grandes amigos: o português João Ramalho e o índio Tibiriçá, com apoio remoto do donatário Martim Afonso de Souza. 

E a última empreitada, o Porto Tibiriçá, base das cidades do Oeste paulista, comandada pelos seus descendentes mestiços. 

Nos dicionários da língua tupy a palavra “Tibiriçá” também significa, literalmente, "olhos da terra", no sentido de "vigilância da terra", "maioral", a partir da junção dos termos yby (terra) e esá (olho). 

Tibiriçá era um porto fluvial do rio Paraná, hoje inundado pela represa da usina hidrelétrica de Porto Primavera. Foi lá que nasceu Presidente Epitácio, na primeira década do século XX. Essa empresa de navegação tem uma história muito interessante. Toda a região Oeste de São Paulo tinha sido alvo de grandes empreendimentos de colonização, estimulados pela expansão das ferrovias, no sentido capital-interior. Presidente Epitácio, porto próximo a Tibiriçá, era a última estação de um ramal da Estrada de Ferro Sorocabana, que começava na Estação Júlio Prestes, na Capital, e terminava nas margens do rio Paraná, divisa com Mato Grosso, na época um só estado. 

A Companhia de Viação São Paulo-Mato Grosso era um desses empreendimentos de colonização. Adquiriu uma vastidão de terras entre os dois estados para explorar a pecuária de corte e a navegação comercial. Pertenceu inicialmente a Arthur Diederichsen e a Francisco Tibiriçá, esse último primo do então governador Jorge Tibiriçá, de quem recebeu amplo apoio político nesses negócios. A empresa deu início à sua atividade exploratória com uma expedição que partiu da região de Ibitinga, penetrou no interior pelo rio Tietê até ser concluída com a fundação do Porto Tibiriçá, no Rio Paraná, em 1907. 

Segundo depoimento de Manoela Borges, antiga moradora de Epitácio, o pai dela, Daniel Ferreira da Silva, estava nessa expedição histórica do Capitão Francisco de Aguiar Whitaker e do Coronel Paulino Carlos de Arruda Botelho. É provável que na mesma expedição estivesse também o Sr. Ovídio Braga, sobrinho de Paulino Carlos, mais tarde nomeado o segundo administrador do Porto Tibiriçá. A missão deles era encontrar um ponto de apoio na margem paulista do rio Paraná e dali iniciar a construção de uma estrada boiadeira entre o Porto Tibiriçá a Fazenda Indiana, que nessa época era o local onde ficava a última estação do ramal da Estrada de Ferro Sorocabana. Um dos sócios da Campanhia Viação SPMG era o comerciante Francisco Frederico Whitaker, fundador e diretor da Associação Comercial de Santos, descendente de William Whitaker, Cõnsul Geral da Inglaterra em Santos. 

Em São Vicente estação da Estrada de Ferro Sorocabana foi instalada no Catiapoã e de lá se extendia para o porto de Santos e também para Juquiá, no Vale do Ribeira. A Vila Sorocabana em São Vicente era quase toda composta de casas de madeira extraída no Oeste paulista-Mato Grosso e trazida aos litoral pelos trilhos da ferrovia, juntamente com gado de corte. Isso explica a existência de barracões e chalés de madeira em quase todos os barros, de São Vicente e Santos. 

A família Lopes, radicada em São Vicente e residente no Japui desde o início do selo XX, tinha como patriarca um engenheiro que construía trilhos e estações da Sorocabana espalhados pelo interior o estado. Em Presidente Epítacio, última estação da EFS, os Lopes fundaram uma das mais de 20 serrarias existentes na cidade, cujo ciclo de negocios duraria até o início dos anos 1980. A Serraria Lopes, uma grande indústria que ocupava ampla área urbana com suas intalaçoes e uma vila de casas pra funcionários, foi fechada no final dos anos 1960 




Galpão e posto de serviço da antiga E.F. Sorocabana no Catiapoã, 1982. Foto: Dalmo Duque dos Santos. 


Esse projeto iria concluir a ocupação definitiva do Oeste paulista com a expansão da ferrovia, o loteamento de propriedades rurais e a fundação de novos núcleos urbanos. Na versão escrita por Francisco Whitaker quase trinta anos após o evento, só aparecem nomes de pessoas de status social elevado e que mereciam, segundo ele, uma reverência especial, exatamente como era do seu costume e da sua cultura aristocrática. Outra versão desse evento, de tradição puramente oral, que também traz embutido os costumeiros vícios da memória (fala apenas de uma embarcação), privilegia a participação de pessoas de baixo escalão social. Ao descrever a participação dessas pessoas comuns na famosa expedição de Whitaker, Dona Manoela Borges transmitiu oralmente para Jacy Xavier Duque (São Vicente, 2012) o seguinte relato, este escrito a mão e que transcrevemos a seguir: 

“Saiu do Alto Tietê um batelão com destino não revelado aos tripulantes, pois estes eram todos aventureiros e que o guia da expedição era o Sr. Daniel Ferreira da Silva, pai de Dona Manoela. Este permaneceu morando em Tibiriçá e faleceu na Santa Casa de Presidente Prudente. Eram oitos pessoas no batelão, sendo uma delas a sua mãe, de origem indígena. Ela veio de Aparecida do Taboado para encontrar com o marido nas margens do rio Tietê. Descendo o rio, chegaram no Salta de Itapura, onde havia um castelo (ruínas da Colônia Militar Imperial). Tiraram o batelão da água, andando um trecho por terra e depois disso chegaram até Jupiá, na divisa de Mato Grosso próximo a Três Lagoas. Dali seguiram algumas semanas pelo rio Paraná até chegarem nas margens de Epitácio, exatamente no paredão, onde ficava o antigo guindaste, mas não era um lugar de fácil acesso, por causa da profundidade do rio e não tinha como acampar numa margem de mata fechada. Ela sempre dizia que eles chegaram no dia de São Pedro (29 de junho), às 9 horas da manhã. Soltaram o batelão e como o rio tinha forte correnteza foram descendo e chegaram na Pedreira. Ali foi o local ideal para acamparem”. 

Esses exploradores talvez tenham sido os últimos bandeirantes e suas monções. O percurso que eles fizeram, a bordo de batelões, partindo sem saber se voltariam vivos, era uma típica empresa de risco e aventura dos antigos bandeirantes. Essa tradição das monções ou expedições de exploração foi iniciada no início do século XVIII, período da mineração, quando os paulistas, com a ajuda e conhecimento dos índios, queriam, a todo custo, chegar até minas de ouro na região de Cuiabá. Com o passar dos anos a atividade tornou-se frequente e de natureza comercial, para trocas e transporte de produtos de utilidade dos mineradores em diversos pontos de Mato Grosso. A introdução do gado bovino naquela vasta região foi feita pelas monções. 

Duas importantes rotas de monções passavam pela região atual de Presidente Epitácio e, por isso mesmo já conhecida pelos últimos navegadores sertanistas que fundaram o Porto Tibiriçá. As duas rotas partiam de Porto Feliz (Araritaguaba), no rio Tietê (Anhembi), desciam pelo rio Paraná até a foz do rio Pardo (Porto XV) e seguia cada uma delas para destinos diferentes em Mato Grosso: uma para o Norte em direção aos rios Taquari, Miranda e Paraguai, São Lourenço e Cuiabá; e a outra ao Sul, tomando a direção do rio Anhandui, para atingir a região de Vacaria, também próxima dos rios Miranda e Paraguai. 

A mais famosa das monções, que, como as bandeiras do século anterior, passou pelas barrancas onde se fundaria 145 anos mais tarde o Porto Tibiriçá, foi a do governador Rodrigo Cézar de Menezes, em 1726, com quase três mil pessoas (serviçais, autoridades militares e administrativas) transportados em 308 canoas e batelões. Estes últimos eram feitos de troncos de peroba ou ximbúva, tinham 1,6m de largura e 12m de comprimento, cuja tripulação era composta por um piloto, contra piloto, proeiro e cinco ou seis remeiros. Os batelões acomodavam até 90 sacos de mantimentos e mais tarde passaram a ser protegidos das chuvas por barras de ferro e lonas. Percorriam 3.500 quilômetros de águas, sendo o trecho do Tietê-Paraná percorrido em pouco menos de um mês; já o trecho do rio Pardo, subida, levava até dois meses para ser vencido. Os viajantes das entradas, bandeiras e monções deixavam em seus testamentos essas curiosas expressões, que justificavam esse sacrifício de aventura: “busca de remédio para a pobreza”, “buscar sua vida”, “buscar seu remédio”, “seu modo de lucrar”. 

Não havia, portanto, nada de heroísmo nessas atividades exploradoras. Tudo era puro negócio de colonização. Quem inventou e propagou essa ideia de heroísmo dos bandeirantes foi a historiografia romântica do século XIX, em busca de mitos e heróis para compor o imaginário cívico do Brasil. Essa construção foi uma necessidade ideológica, pois o nosso país, recém fundado como Estado nacional independente, ainda não possuía uma identidade definida e tradicional, como as demais nações que o Brasil escolhera como modelo. 

A expedição exploradora que partiu no dia 01 de dezembro de 1906, no Porto Laranja Azeda (Ibitinga), tinha ao mesmo tempo três tipos de liderança: um comando político, do fazendeiro e oligarca republicano Cel. Paulino Carlos e também do Cel. Sanches, antigos mandatários regionais; o comando de negócios, do Capitão Francisco Whitaker, ligado diretamente ao Cel. Arthur Diederichsen e demais investidores; e finalmente o comando técnico, especializado, dos engenheiros agrimensores, e também dos navegadores fluviais, em grupo ou flotilha, especialmente contratados para garantir esse percurso perigoso e imprevisível. Nesse último caso, o comando dos pilotos das barcas de madeira e uma lancha de ferro (batelão moderno) foi exercido por Pedro Passos, um “velho conhecedor do Tietê e Paraná e respeitado chefe de monções”, como consta no relato do próprio Whitaker. 

Os títulos militares ostentados por esses homens vieram da antiga linhagem política dos donatários das capitanias hereditárias, cujo poder foi sendo transferido ao longo dos séculos aos seus beneficiários e descendentes. No século XIX, quando da construção ideológica do Estado Imperial, essa antiga aristocracia rural foi duplamente reconhecida como uma elite nobiliarcal e também a base da Guarda Nacional, força armada localista criada para defender a ordem social e os interesses agrários durante as rebeliões regenciais. O coronelismo (formação do território político) e o capitaneamento (defesa e manutenção territorial) foram mantidos rigorosamente após a proclamação da república. E assim permaneceu até a revolução de 1930, quando banqueiros e industriais passaram a controlar o país. Porém, nas intimidades do jogo político, capitães, majores e coronéis continuaram sendo não somente representantes do poder oficial, mas também símbolos culturais do mandonismo regional, cujo axioma ainda permanece vivo na mente e nos corações populares: “Manda quem pode, obedece que tem juízo”. 



Porto Tibiriçá, no rio Paraná (São Paulo e ao funto Mato Grosso) em 1934 pelo fotógrafo alemão Erwin Scheu. 

O Peabiru e a Estrada Boiadeira 


A vasta região do Pontal do Paranapanema, inóspita e também muito atraente, tinha permanecido isolada por séculos. Porém, ainda estava muito vivo o espírito dos tempos da Capitania Vicentina e do neocolonialismo industrial. Abrir caminhos era também dar início a rotas de negócios e novos empreendimentos. Isso já havia acontecido em tempos mais remotos com a legendária estrada indígena Peabiru, que ia do litoral até o Peru, e começava na região de São Vicente e tinha muitos ramais espalhados em várias direções a partir da Serra de Botucatu (Hernani Donato, “Sumé e Peabiru”). Desconfia-se que o Peabiru, por ser obra muito semelhante às antigas vias romanas, tenha sido iniciativa da civilização Inca, instalada nos Andes, cujos viajantes mantinham contato e relações de parentesco com as remotíssimas tribos indígenas sul-americanas do Atlântico. É possível, embora ainda não haja nenhuma prova material disso, que esses ramais tenham sido construídos pelos remanescentes da Atlântida, continente afundado entre o Brasil e a África e cujos sobreviventes foram se instalar no Peru, na Guatemala e no México. O velho caminho de pedra e grama rasteira, mantido pelas constantes andanças sazonais indígenas, também usado pelos jesuítas e portugueses, foi a primeira forma de acesso entre o litoral e o sertão, recurso de deslocamento logo dominado e utilizado amplamente pelos portugueses para controlar e cobrar pedágio pelo fluxo de mercadorias. A famosa Calçada do Lorena, na Serra do Mar e copiada do Peabiru, foi uma autêntica precursora dos novos Caminhos do Mar, hoje as rodovias Anchieta e dos Imigrantes. 

Assim como São Paulo teve uma gigantesca rede de trilhos ferroviários e hoje tem como característica econômica uma ampla e complexa malha rodoviária abrangendo praticamente todo o estado, a Estrada Boiadeira teve o mesmo papel de interligação de localidades e mercados primitivos. As modernas rodovias de quatro e até seis pistas, bem como os aeroportos regionais e longos trechos de hidrovias, são na verdade um efeito histórico desse caminho rústico aberto pelos negociantes pioneiros. O traçado original dessa estrada foi descrito por Dióres Abreu (O desbravamento da Alta Sorocabana por um bandeirante moderno) como uma linha de percurso de 120 quilômetros, dividida em pousos com distância média de 25 quilômetros entre cada um deles. Esse modelo já era conhecido utilizado em regiões mais antigas de produção pecuária, principalmente em Minas e Goiás. Os pousos funcionavam também base de controle e arrecadação sobre fluxo de boiadas, onde havia, além de uma área que variava entre 100 a 200 alqueires, currais de permanência para o gado e alojamentos para as comitivas de condutores. Em cada um desses pousos a Companhia de Viação São Paulo Mato Grosso dispunha de um funcionário encarregado da manutenção e prestação de contas do estabelecimento. Entre o Porto Tibiriçá e a Fazenda Indiana, propriedade que funciona como invernada de engorda, haviam seis pousos, identificados e posicionados estrategicamente para captar e distribuir o gado circulante na região: Alegria, Esperança, Lagoa, Ribeirão Claro, Sucuri e o Porto Tibiriçá. 

Celso Prado (Razias), citando outros pesquisadores que também avaliaram os efeitos transformadores das antigas e novas Estradas Boiadeiras, reconhece que esses empreendimentos, mesmo sob “fortes suspeições” contratuais entre empresários e o governo, foram os responsáveis pelo intenso desenvolvimento que seria a marca irreversível de algumas regiões do interior paulista: 

“A velha Boiadeira tornou-se, enfim, estrada oficial, a primeira e mais bem equipada a cortar o sertão Paranapanema e integrá-lo aos grandes centros. Por ela se podia ir a Campos Novos Paulista, Santa Cruz do Rio Pardo, São Manoel e até Botucatu e desta a Avaré, Itapetininga, Piracicaba, Porto Feliz, Sorocaba, São Paulo. De Santa Cruz do Rio Pardo se chegava a São Domingos, Espírito Santo da Fortaleza, Bauru, Agudos e Lençóis, para regiões além do Tietê, a exemplos de Jaú, Araraquara, São Carlos, Franca, São Simão, Casa Branca e até as Minas Gerais. Também de Santa Cruz a Salto Grande pelo espigão do Pardo, ou para além do Pardo a Cerqueira Cesar, Avaré, Piraju e regiões hoje de Bernardino de Campos, Óleo, Manduri, Ipaussu, Chavantes, Irapé e Ourinhos; por Botucatu chegava-se a São Paulo e daí ao litoral, e, de Sorocaba acessava-se a estrada para Viamão - RS. Ao longo dos caminhos sertanistas da estrada fundaram-se povoados, as boiadas iam e vinham, já sem precisar a grande volta pelo Triângulo Mineiro, enquanto o comércio fluía com mais dinamismo como prova do progresso Pessoas circulavam pelas estradas, a cavalo ou a burro, e até as famílias podiam se deslocar seguras, em carroças e charretes bem mais ágeis e confortáveis que os velhos carroções e carros de boi” 


Jan Antonin Bata, o fundador de cidades 


Empresários eram essencialmente aventureiros. Veja, por exemplo, o caso do industrial europeu Jan Antonin Bata, do ramo de calçados e couros. Bata possuía curtumes e fábricas na Checoslováquia. Com a expansão do nazismo e o aumento do risco de perseguições, resolveu empreender no Brasil, especificamente numa região inexplorada e de alto potencial para o seu ramo de negócios. A tomada do poder pelos comunistas após a Segunda Guerra Mundial o exilou definitivamente da sua pátria. Bata era uma espécie de visionário e dizia para os amigos que tinha vindo ao mundo com uma missão de fundar cidades. Sua trajetória empreendedora foi vista como uma ameaça aos interesses de empresas e sindicatos do ramo de couros, sendo por esse motivo fortemente perseguido quando tentou se estabelecer nos EUA, pouco antes da Segunda Guerra Mundial. O mesmo aconteceu na Europa por parte de empresas inglesas e dos projetos nazistas. Nesse período sofre outro grande prejuízo nos investimentos feitos no Canadá, quando perde o controle das empresas ali instaladas para um sobrinho que tinha sido seu funcionário de extrema confiança. Essa foi uma das causas da sua vinda para o Brasil, a convite do governo federal. Lutou até onde pode e nunca desistiu dos seus bens nem dos ideais empreendedores. Atualmente as injustiças cometidas contra ele são intensamente divulgadas como resgate histórico dos desastres e crimes da Grande Guerra; sua imagem é celebrada como ícone do nacionalismo e da cultura eslava no leste europeu. Na Europa e no país de origem de Jan Antonin Bata há um renascimento e o resgate da memória do empresário que certamente estava muito à frente do seu tempo. Daí a incompreensão, as perseguições e os fracassos de muitos dos seus projetos. Mesmo assim, sua obra permaneceu intacta e influente como conceito e referência de inovação e empreendedorismo. Sua missão de fundar cidades, tal como acreditava, foi amplamente cumprida, mesmo que elas tenham tomado outros rumos dos projetos originais, pois existiram, geraram a cultura e a mentalidade progressista em todas as pessoas que ali nasceram, viveram e buscaram a felicidade. O Porto Tibiriçá e seu povo receberam muito dessa influência utópica batoviana. Tibiriçá não existe mais, mas sobrevive em nós como conceito de vida e sonho de um mundo melhor. 


Jan Antonin Bata nos anos 1934 e seu projeto de fundar cidades no Brasi. 


A utopia europeia de Jan Antonin Bata, transposta para o Brasil, visualizava uma grande área geográfica de produção agroindustrial interligada pela navegação nos rios e trilhos de ferrovias. Entre essas inúmeras fazendas, loteadas pela própria empresa, surgiriam seus tão sonhados núcleos urbanos. Ainda hoje existem no interior de São Paulo e em Mato Grosso do Sul pequenas cidades que levam seu sobrenome, combinado com sufixos da língua tupi-guarani: Batatuba, Bataguassu e Batayporã. 

O Porto Tibiriçá também fez parte dessa fantástica mentalidade colonizadora. Era o local onde seria uma das bases da expansão da empresa exploradora. Uma antiga planta desenhada na década de 1920, já como empreendimento de Jan Antonin Bata, mostra os detalhes da futura Vila Tibiriçá que incluía ruas, casas, armazéns, estaleiros, enfermaria, casas de funcionários, escritórios da empresa e muitos outros detalhes técnicos como canalização de água, esgoto e drenagem pluvial. 

O projeto de Bata para construir um enorme complexo agroindustrial interligado por ferrovias e portos não teve o fim que ele planejara inicialmente, quando adquiriu dos irmãos Sloman a já deficitária Companhia de Viação São Paulo Mato Grosso, então sobrevivendo com a ajuda estatal. Esses dois empresários alemães haviam recebido como parte do acordo algumas empresas do grupo Bata na Tchecoslováquia. Esse negócio, no tocante ao patrimônio dos envolvidos em terras brasileiras, foi intermediado pelo governo Vargas. Nos anos 40 o Brasil entrou na guerra com os Aliados e o governo Vargas resolveu encampar as atividades empresariais consideradas estratégicas, incluindo a Companhia de Viação São Paulo Mato Grosso. O empresário tcheco também perderia muitos investimentos quando o Leste europeu caiu sob o domínio dos soviéticos. 

Na época não foram revelados os detalhes dessa estatização, o que realmente aconteceu nos bastidores. Sabe-se apenas que um arranjo político fez surgir uma nova empresa de capital federal, controlada pelo Ministério dos Transportes: o Serviço de Navegação da Bacia do Prata. Simplesmente conhecida como “Bacia”, a empresa era uma verdadeira teta estatal que alimentou muitas bocas em toda aquela região; bocas de todos os tipos, merecedoras e usurpadoras. 


Os novos bandeirantes vicentinos 


Os primeiros habitantes de Tibiriçá e dessa vasta região certamente foram os indígenas, elementos de vida completamente interligada à natureza cuja rusticidade de hábitos, crenças e organização social muito simples os aproximavam daquilo que se convencionou chamar de pré-história. As provas arqueológicas e os testemunhos de pessoas que tiveram contato direto com essas populações confirmam a antiguidade e diversidade de etnias, indicando diferenças de costumes tribais e também uma semelhança genérica nas práticas e técnicas de sobrevivência, bem como nos rituais fúnebres e religiosos. Surgem, então, os conhecidos “picadões”, caminhos desmatados pela força bruta dos precursores da expansão cafeeira. A Serra de Botucatu era o ponto de partida da nova conquista, chamada por Pierre Monbeig (Pioneiros e Fazendeiros de São Paulo) de “franja pioneira”. 

O temor dos civilizados diante da ferocidade dos índios coroados indicava uma constante defensiva diante da selvageria ameaçadora aos projetos de ocupação. Na região de Campos Novos os conquistadores Francisco Sanches de Figueiredo e João Hypólito foram apontados como os principais líderes da “Dadas”, movimentos de dispersão e extermínio que atingiam principalmente as tribos pacíficas de coletores como os Oti e Ofaié. Segundo João Francisco Tidei Lima, citando o antropólogo Egon Shaden (1954), cerca de 500 índios Oti que habitavam a região entre Ourinhos e Marília foram abatidos de uma só vez pela ação dos “bugreiros” contratados pelos conquistadores para “limpar” as terras ocupadas. Amador Nogueira Cobra (Em um recanto do sertão paulista, 1923) registrou como aconteciam esses massacres: 

-"Destarte o chefe dos sertanejos, que pela pratica já conhecia os hábitos dos contrários, aguardava certos dias da semana para chegar ás vizinhanças das moradas destes, precisamente na ocasião de suas danças guerreiras e religiosas, durante as quaes tomam uma bebida por elles mesmos fabricada. Depois de dançarem toda a noite e beberem muito, de fadiga e embriaguez, entregam-se a profundo somno. (...). O chefe distribue seus homens em redor; manda preparar as armas, e esperar até que haja luz. (...). Os [indios] que estão dentro despertam, saem em grupos e à medida que se apresentam, vão caindo, feridos mortalmente, a tiros. (...). Em seguida os sitiantes penetram nas habitações e encontrando-se com as indias, a umas aprisionam, a outras matam, bem como aos indiosinhos, aos quaes, – conta-se – que chegavam a levantar do chão ou da cama, atira-los para o ar e espeta-los em ponta de faca; outras vezes toma-los pelos pés e dar com as suas cabecinhas nos paus, partindo-as. Ás índias grávidas, rasgavam-lhes o ventre e depois de finda a carnificina, amontoavam os cadáveres sobre os quaes lançavam fogo bem como aos ranchos. A estes, variando de tactica, de quando em vez, nem sempre punham fogo; deixavam-nos de pé e deitavam substancias venenosas nos utensílios de cozinha e nos alimentos alli guardados, para que fosse victimado no comer algum que porventura sobrevivesse" 

Seguindo uma antiga tradição de dominação e opressão praticada pelos antigos senhores de escravos, por meio de feitores e capitães de mato, muitos desses bugreiros eram as melhores “cuias extraídas da própria madeira do cabo da enxada”, isto é, índios “amansados” que se tornavam guias e intérpretes dos brancos. Essas práticas criminosas foram trazidas a São Paulo na década de 1850 por José Theodoro de Souza e pelo bugreiro fluminense Vicente Lourenço. Alguns desses últimos tornaram-se heróis do pioneirismo e dão nomes a ruas e escolas em algumas cidades do interior paulista. O Coronel Francisco Sanches, “temido e respeitado” chefe territorial, seria morto em 1912 por dois pistoleiros a mando de desafetos políticos. 

Essa triste e violenta história se repetiria na região com disputas de terras entre posseiros e lavradores entre as décadas de 1930 e 1960, conforme relata João Maria de Souza (História de Teodoro Sampaio- Enciclopédia Digital Emubra) revelando as raízes mais antigas desses conflitos agrários, iniciados entre 1900 e 1910: 

“A colonização da região do Pontal se deu num primeiro momento, expulsando e matando os índios e posteriormente os pequenos posseiros. Para isso, eram contratados bandos de jagunços armados, cujo objetivo era limpar o território e exterminar o "bugre ateu". Havia grupos de extermínio de índios que criaram fama no sertão, chefiadas pelo Coronel Sanches de Figueiredo. Para expulsar os pequenos posseiros, surgiu a partir da década de 1930, a célebre figura do "quebra-milho", capanga contratado por grandes grileiros. O intuito disso era o de expulsar os outros ocupantes e posseiros. O mais famoso "quebra-milho" que atuou entre a década de 40 a 50 foi o pistoleiro Juventino Nunes. Ele sempre era contratado pelos grandes latifundiários para garantir suas posses”. 


Os mesmos métodos de ocupação violenta se estenderiam pelo Mato Grosso, Rondônia, Acre, Amazonas e Pará, conforme consta no famoso Relatório Jáder Figueiredo, feito por determinação do Ministério do Interior em 1968. Na devastação da fauna e da flora valia tudo para remover os obstáculos para a criação e estabelecimento legal de novas propriedades, inclusive o envenenamento de mananciais de água utilizados pelos índios, doação de açúcar com estricnina, inoculação de vírus de varíola, caçadas humanas com metralhadoras e dinamites. Alguns desses métodos de extermínio humano já eram praticados pelos conquistadores mineiros que ocuparam o Oeste paulista no século XIX. O relatório do procurador Jáder Figueiredo, que percorreu milhares de quilômetros, visitando 160 postos indígenas na região Norte, citava as mais torpes atividades criminosas envolvendo exploradores e funcionários públicos corrompidos: venda de madeira e gado, escravidão, prostituição, assassinatos individuais e genocídios de tribos, roubo e venda de objetos artesanais. Os bugreiros, genericamente falando, nada mais eram do que indivíduos ignorantes e rústicos, sem noção de moralidade ou valores de urbanidade. Não se pode atribuir unicamente a eles a responsabilidade pelos seus atos cruéis e desumanos, já que, muitas vezes ingressavam nessa atividade e nela permaneciam por força das circunstâncias, incentivo e pressões daqueles que realmente comandavam essas ações. Esses, sim, eram os verdadeiros, os esclarecidos, homens de negócio que não sujavam as mãos de sangue, porém elaboravam os contratos e compromissos com esses carrascos sem a menor preocupação com os meios que seriam aplicados para que seus fins fossem atingidos. É o que retrata as conhecidas imagens do massacre dos índios cinta-larga na Amazônia, no qual os exterminadores, como já acontecia em outras épocas, exibem suas crueldades como se fossem troféus de gestos de coragem heroica. Talvez não houvesse maldade intencional em seus corações e sim a completa falta de noção da gravidade criminosa que estavam cometendo em troca de poucos recursos para a sua sobrevivência. Para eles, matar índios era como abater animais da fauna abundante e que representavam apenas um obstáculo ao processo de ocupação legítima do mais forte sobre o mais fraco. Para um bugreiro acostumado a caçar e abater índios como forma de sobrevivência seria inimaginável que esses seres pudessem ser seus semelhantes, ideia que nem de longe passaria pelas suas mentes pequenas e limitadas. O mesmo não poderíamos afirmar sobre aqueles que os contratavam e que lhes davam as ordens de extermínio. 

Nimuendaju e a salvação dos índios 


Um ofício do Diretor Geral de Índios ao presidente da Província de São Paulo (Maria do Carmo Sampaio Di Creddo Terras e Índios – a propriedade da terra no Vale do Paranapanema), revela as graves contradições e confrontos entre a “barbárie” nativa e a “civilização” que se impunha como necessidade produtiva: 

“A situação era difícil para os grandes proprietários e para os povoados, na medida em aumentavam os ‘magotes’. Os índios vagavam pelo sertão realizando saques para sobreviver. Encontravam-se em estado de penúria, constantemente pressionados e ‘caçados’. Eram vistos como ‘indolentes e desocupados’, ‘entregues à embriaguez a à rapinagem’ e ‘habituados apenas ao emprego da ameaça para satisfazerem suas necessidades’. Como os índios não se integravam como assalariados nas fazendas, eram classificados como ‘vagabundos’, ‘desocupados’ e ‘mendigos’. Tornavam-se, assim, ‘inconvenientes’ e, em outros casos, representavam uma ameaça aos habitantes do interior e da Capital”. 

Já o relato do sertanista Curt Nimuendaju, sobre embates violentos entre a nossa pré-história e a história colonizadora, cita fatos diretamente ligados à história de Presidente Epitácio. No documento ele revela um outro tipo de atividade usada no trato com os selvagens, bem como a grandeza humanitária de Whitaker e sua preocupação com o futuro dos indígenas: 

“Neste mesmo ano chegou o picadão da Companhia de Viação São Paulo-Mato Grosso, na barranca do rio Paraná, perto da barra do rio Santo Anastácio. Logo depois se apresentaram lá alguns Ofaié e repetiram a visita. Foi então que o cidadão Cap. Francisco Whitaker, encarregado da instalação do Porto Tibiriçá pela dita Companhia, escreveu à D. Ramón* pedindo uma entrevista com ele a fim de se consultar sobre estes índios. Dizia ele que a Companhia estava disposta de expor uma certa garantia anualmente para aldear e socorrer os índios, e convidou D. Ramón para vir tratar deste assunto como encarregado da Companhia percebendo um ordenado mensal de 50$000. D. Ramón aceitou a oferta e no dia 22 de dezembro de 1908, ele chegou com sua família nas margens do rio Paraná, onde ele se estabeleceu na barra do Sto Anastácio. Já no mês seguinte começaram os índios a aparecer em número maior na barra do rio Pardo, pedindo asilo em São Paulo. Cap. Francisco Whitaker, porém, querendo que eles se estabelecessem na margem direita do Paraná, negou-se de receber eles em São Paulo. Mas os Ofaié, sem alguém dar por isto, saltaram o Paraná acima da barra do rio Pardo, rodearam o Porto Tibiriçá dentro da mata e chegaram na casa de seu amigo velho e protetor, na barra do rio Sto. Anastácio. Uma parte deles se estabeleceu logo na vizinhança do sítio de D. Ramón e já em fevereiro estavam eles trabalhando lá, roçando pasto, etc. Um outro grupo chefiado por um índio de nome Tatý se deslocou e fez uma ranchação nas cabeceiras do Córrego da Aldeia, de onde fizeram excursões até à Esperança. A má vontade de certos elementos quase interrompeu a boa marcha do trabalho de D. Ramón. Mesmo em Porto Tibiriçá, na ausência de Cap. Whitaker, prendeu o Administrador Benedito Jatobá 2 índios que vieram pacificamente e repeliu os companheiros deles com descargas. Ele foi imediatamente demitido. Na margem direita do rio Paraná, na barra do rio Pardo e em vista do Porto Tibiriçá atirou um filho de Manoel da Costa Lima num índio, depois de tomar o arco e as flechas dele. 

Debaixo dos olhos dos funcionários da Companhia de Viação, porém, os Ofaié foram tratados sempre com a máxima justiça e paciência. Todos serviços lá feitos por eles sempre foram pagos, tanto como os objetos que eles levaram ao armazém para vender. Foi uma grande felicidade para estes índios que a Companhia não consente a entrada de alcoólicas nos seus estabelecimentos. Em vez de tratar os Ofaié com cachaça, conforme o uso geral, Cap. F. Whitaker mandou fazer dois alqueires de roça para eles. Quando estive nesta zona em 1909 a fim de fazer um pequeno estudo sobre estes índios, observei este proceder da Companhia de Viação com a máxima satisfação”. 

Relatório de Curt (Nimuendajú) Relativo aos xavantes de Mato Grosso -1913. Porto Alegre, 12 de Fevereiro de 1912. Ao cidadão Luiz Bueno Horta Barbosa. D.D. Inspetor do Serviço de Proteção aos Índios de São Paulo. 

*Ramón Coimbra, conhecido e experiente profissional de aldeamento indígena. Nota do autor. 




O sertanista alemão no interior de São Paulo no início do século XX. 

Raízes e destinos 


Toda a região Oeste do estado ainda era povoada de índios nas primeiras décadas do século XX, inclusive os coroados (caingangues, bugres ou botocudos), conhecidos pela agressiva hostilidade para com os brancos invasores de suas terras. É desse período de formação do Estado Nacional, a revisão das divisas e fronteiras, a rearticulação de forças e consequentemente as novas demarcações do espaço geopolítico, incluindo a famosa Lei de Terras. Nessa época o atual estado do Paraná pertencia à Província de São Paulo e seria desmembrado somente em 1853. Essa reorganização territorial que afetou São Paulo teve sua origem basicamente na participação dos paulistas na Revolta Liberal de 1842, dando ao governo central motivos para punir, dividir e ao mesmo tempo reduzir os poderes dos grupos políticos regionais resistentes ao centralismo imperial. Ao reordenar esses territórios o governo provocou uma nova ordem geopolítica, estimulando indiretamente a ocupação de terras antes despovoadas, fenômeno logo oportunizado pelos mineiros que vieram para Campos Novos e Norte do Paraná, bem como os europeus que colonizariam a região Oeste paranaense e o Norte de Santa Catarina. Essa foi também uma longa história de violências e expurgos criminosos das populações indígenas. 

A denominação “coroados”, dada ao grupo mais temido dos indígenas vem de “cabeças coroadas”, descrição dos antigos colonizadores portugueses do corte de cabelos e ornamentos usados pelos índios dessa etnia e que lembram uma coroa. A visão do homem civilizado sobre essas culturas variava de acordo com o grau de conhecimento e discernimento ético da diversidade e também do perfil cultural dos exploradores e seus auxiliares desbravadores. Genericamente, com raríssimas exceções, o índio era sempre visto como o selvagem despossuído de “alma” e, portanto, tratado como um simples e ingênuo animal da fauna. Qualquer comportamento que insinuasse sua semelhança com a nossa humanidade e que contrariasse a nossa capacidade de pensar e agir era imediatamente revidado com os requintes de uma crueldade que lembra a delinquência dos sociopatas. O resultado do contato deles com os exploradores foi o brutal desaparecimento dessas tribos. Os relatos sobre esses contatos são chocantes e durante muito tempo foi ocultado pelos memorialistas amadores e também minimizado ou idealizado pelos historiadores românticos. 

Ao relembrar essa relação pouco amistosa entre índios e brancos, o fundador de Presidente Epitácio, Capitão Francisco Whitaker, triste e conformado, escreveu sobre a luta desigual entre a pólvora do progresso e a resistência corajosa, embora frágil e natural, das etnias indígenas. Consciente das escolhas que fez e das decisões que tomou, Whitaker justificou o cumprimento de suas promessas de responsabilidade empreendedora: 

“Atrahido pelo desconhecido, e lenda dos nossos sertanejos, acolhi com entusiasmo a encumbencia, e vindo a Campos Novos, de onde a estrada devia partir em demanda do Rio Paraná ali contractei a sua abertura com o Cel. Francisco Sanches de Figueiredo, chefe político de real prestígio neste sertão, e grande conhecedor dos hábitos e ardis dos índios coroados, com os quaes já tivera sangrentos reencontros. Foi elle um dos sertanejos que mais concorreram para manter em respeito essa altaneira e aguerrida tribu dos coroados que, por longos annos, heroicamente defenderam a entrada dos nossos sertões, onde, em plena liberdade e felizes, creavam seus filhos, fucturos defensores desse resto da pátria de seus antepassados. Iam ser agora perturbados. Mas...que fazer? A civilização tem exigencias e o progresso não tem coração”. 

Na época imperial, em 1811, o governador da capitania de São Paulo, António José da Franca e Horta (responsável pela comarca de Paranaguá – o Paraná não havia sido criado) implantou uma política socioeducativa judicial que incentivava e até impunha o casamento misto entre os condenados e índias, já que havia uma enorme desproporção entre homens e mulheres naquela vasta região. A ideia da medida era povoar o mais rápido possível esse território disseminando as famílias sertanejas. Assim, a cidade recebia degredados brancos (a maioria homens mestiços) e estes, sem opção de parceiras sexuais, contraíam vínculos afetivos e matrimônio com adolescentes indígenas, passando a formar famílias miscigenadas. Muitos desses degradados entravam em confrontos violentos com índios que não aceitavam essa imposição e se tornaram membros de grupos de bugreiros. Chamou particularmente a nossa atenção nessa trama geopolítica o caso de oito desses degredados, relatado pelo historiador Fábio Pontarolo (Homens de Ínfima Plebe). Eram militares que se rebelaram em Santos (SP), em 1821, por causa dos baixos soldos e que haviam promovido uma quebra-quebra na cidade. Condenados, foram obrigados a residir nessa então isolada e distante colônia paulista. Eram em sua maioria analfabetos e tinham em torno de 19 anos de idade. 

Há 45 anos no Jardim Independência 


Em 28 de março de 2019 completaram 45 anos que saímos de Epitácio para morar na Baixada Santista. Achamos que iríamos morar em Santos, mas na verdade fomos para São Vicente, cidade vizinha e mais modesta. É tão vizinha que o turista comum não percebe quando passa pelas duas divisas entre elas, na praia do José Menino e no Monumento dos Tambores, na zona Noroeste. 

Fomos morar num sobradinho na rua Uberaba e depois mudamos para uma casa maior, na Rua Rio de Janeiro, onde ficaríamos nos próximos dez anos, entre 1974 e 1984. Tanto a avenida Prefeito José Monteiro (que separava a Vila Valença) quanto as ruas do nosso bairro – Jardim Independência – não eram calçadas e ainda havia muitos terrenos baldios e casas em construção. O lado vicentino da Vila São Jorge, que divide até hoje Santos e São Vicente, atrás dos morros Itararé e Voturuá em direção ao Jabaquara, também não era calçado e o esgoto corria a céu aberto em pequenas valas em frente das casas. Naquela época a única rua pavimentada era a Dona Anita Costa, calçada com paralelepipedos, material extraído das pedreiras instaladas nos pés dos morros. 

Seria uma década revolucionária em nossa família, marcada por experiências incríveis e cheias de transformações. Nossa mãe teve essa intuição bem antes e não perdeu a chance quando surgiu a oportunidade. A vida em Epitácio havia atingido o limite para uma família grande e de poucos recursos: cinco filhos jovens com muitos sonhos, mas sem muitas perspectivas. A ideia inicial era irmos para São Paulo, como acontece com a maioria das famílias que passam pela mesma crise, porém meus pais optaram por uma cidade que não fosse tão grande como a Capital e não tão pequena como Epitácio. Santos, São Vicente, Guarujá, Cubatão e Praia Grande formam uma grande região composta por cidades medianas. Era a escolha certa e o lugar perfeito. 

Saímos na madrugada e chegamos ao litoral perto do meio dia. Parte da nossa mudança foi levada numa camionete do amigo Jorge Okada. No dia anterior, no feriado municipal de 27 de março de 1974, ficamos no Jardim da Praça da Matriz até quase meia noite nos despedindo dos amigos. Estávamos todos eufóricos e apreensivos. Esse sentimento permaneceu durante toda aquela semana de novidades. 

Bem diferente do que é hoje, São Vicente era pequena e funcionava como cidade dormitório. Trabalhar, estudar, fazer compras, tudo era feito em Santos – no Gonzaga ou no centro velho, próximo à zona portuária. Nessa época, na esquina da Avenida Ana Costa com a praia, ainda existia o Parque Balneário, antigo e suntuoso hotel, já desativado, comprado pelo Santos Futebol Clube e depois demolido para dar lugar a um shopping Center. 

Andar de ônibus de linha era para nós um excelente programa porque todos circulavam a grande Ilha de São Vicente, que abrange os municípios Santos e São Vicente. Cubatão, Bertioga, Praia Grande e cidades do litoral Sul (Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe), ficam no continente. O circular 7 seguia de São Vicente pelas praias em direção ao Ferry-Boate, na Ponta da Praia 

(Santos) e o circular 8 fazia o sentido inverso, pelo centro e área do porto, pelo caminho do quartel do Batalhão de Caçadores e também do antigo Matadouro (hoje espaço cultural do SESI). Alguns deles percorriam os dois primeiros canais de Santos em direção à Vila Belmiro e ao túnel, entre a Santa Casa e a Cadeia Velha. Tudo era muito fascinante. Sempre escolhíamos o percurso mais longo, para aproveitar a paisagem. Em Santos havia ônibus elétricos e as linhas de bonde tinham sido desativadas há apenas alguns anos. 

O cheiro de mar e da vegetação litorânea era marcante e completamente diferente de tudo que o nosso olfato conhecia. Além dos pontos turísticos, nossa diversão preferida era ver a entrada das embarcações na barra da Ponta da Praia. Navios enormes, de todas as nacionalidades. Também gostávamos muito das visitas aos vasos de guerra e submarinos, nacionais e estrangeiros, atracados no porto. Num deles fomos visitar o jovem marujo epitaciano Salvador Miyazaki, na época servindo no submarino Rio Grande do Sul. 

A entrada que dá acesso ao porto de Santos é uma das mais belas e curiosas paisagens da vida urbana do litoral paulista. É um enorme canal entre as ilhas de São Vicente e Santo Amaro, separando Santos e o Itapema-Pouca Farinha, antigos bairros de operários da indústria naval e pescadores do Guarujá. Os habitantes e trabalhadores que moram nessas cidades talvez não tenham um olhar imaginário sobre essa parte da vida urbana, já que, para a maioria deles trata-se apenas uma rotina do dia a dia da cidade. Entre a ponta da praia santista, que fica na ilha vicentina e a barra do forte localizada em Santo Amaro, passam todos os dias centenas de embarcações que atravessam o canal ou que entram e saem do grande porto. É sempre, em qualquer hora do dia ou da noite, um lugar fascinante e que desperta no observador inúmeras impressões, quase sempre cheias de imaginação seguidas de sensações e lembranças. Ao ficar por uma ou duas horas no calçadão da barra santista é possível ver admirar essa deslumbrante rotina do cotidiano portuário. Primeiramente o cheiro de mar, que ali é sempre mais forte por causa da concentração de detritos de frutos mar, somada com a poluição química dos líquidos combustíveis que alimentam os motores dos barcos. E depois a movimentação de aves da fauna marítima em busca de alimentos. Elas sempre dão um tom musical da natureza resistente e que recusa desaparecer diante dos avanços humanos sobre esse braço de mar. Muito mais interessante é poder ver o que acontece no entorno do canal observando-se pelo outro lado da barra, que não muito comum para os frequentadores do lado santista. Enquanto isso, em apenas alguns minutos, é possível ver e gravar para sempre na memória as imagens de uma pequena catraia transportando rapidamente passageiros de um lado para outro; a balsa que leva e traz os carros; os rebocadores de apoio de embarque, dezenas de barcos de pesca e as raras lanchas que levam os pilotos práticos até os grandes navios que aguardam na baía a ordem de entrada e atracação no cais. As pessoas que ali ficam por alguns momentos parecem estar entorpecidas pela memória e pela introspecção, talvez imaginando de onde vieram e para onde vão todos aqueles navios abarrotados de cargas, que antigamente eram cobertas de lona e hoje embaladas em grandes caixas metálicas. 

Tudo isso ia se acumulando no baú das nossas emoções e não víamos a hora de retornar para Epitácio e contarmos tudo em detalhes para os colegas. Isso aconteceu pela primeira vez no mês de julho de 1974 – que na época estava bem frio. Uns parentes baianos da minha avó tinham sofrido a perda do filho mais velho (que morava no Morro do São Bento, com dois irmãos) e fizeram essa viagem de volta com a gente. Levei na bagagem um vidro com água do mar, para mostrar para o Gilmar Saraiva. Em pouco tempo já havíamos adotado um sotaque santista (o abusivo e incorreto uso do “Tu” antes das frases “Tu vai, Tu foi, etc.), logo motivo de muito sarro e protesto dos colegas. 

Quando chegamos, fomos logo procurar a turma no campinho de futebol, num terreno na Rua Cuiabá, em frente a velha Serraria Lopes. A manhã estava deliciosa, fria e ensolarada; e a maioria da garotada usava aquelas japonas de nylon “dupla face”. 

A irmã da minha avó Maria, mãe do rapaz morto em Santos, veio para morar em Epitácio. Elas não se viam há mais de 40 anos. Foram morar na chácara do meu avô, na Estrada Boiadeira Norte, próximo da rodovia marginal. 

Terminadas as férias, voltamos para o litoral, agora com outros olhares e outros projetos. Novas experiências, novos vizinhos, novos amigos. Momentos difíceis e coisas maravilhosas, inesquecíveis. De todas elas, a que marcou mais foi a ajuda espiritual – numa reunião doméstica de Evangelho - que recebemos de uma entidade feminina desencarnada em Epitácio. Comerciante, de origem humilde, mãe de muitos filhos e antiga amiga da família, ela nos deu conselhos e consolos preciosos nas horas incertas. A preocupação era alertar sobre os perigos da ociosidade e dos encantos da cidade grande. 


Como era São Vicente na década de 1970 


Em 1974 a vida urbana vicentina ainda se concentrava nos bairros antigos próximos ao centro (no ângulo formado pela rua Frei Gaspar e avenida Capitão-Mor Aguiar) e nas periferias que ainda não haviam sido cortadas pelas alças de acesso à futura rodovia dos Imigrantes (Bitaru, Vila Margarida, Jockey Club, Catiapoã, Golf Club, Beira Mar, Esplanada dos Barreiros e os diques e favelas). 

O acesso a Praia Grande era demorado e feito exclusivamente pela Ponte Pênsil. 

A Cidade Náutica era apenas um extenso loteamento de terrenos com poucas casas em construção no final da longa e velha rua Frei Gaspar. 

A área continental era praticamente desabitada, havendo apenas acesso por trem pela ponte do Barreiros em direção ao então bairro rural do Samaritá. A linha ferroviária, bem distante da orla, seguia pela mata até atingir a estação do longínquo bairro Flórida em direção a Mongaguá, Itanhaém e Peruibe. 

Os bairros próximos dos morros do Voturuá e Itararé eram muito modestos, sem rede de esgoto e calçamento. 

A Vila São Jorge, após a rua Anita Costa (esta era calçada com blocos pedra), era toda de terra e com esgoto a céu aberto. A avenida prefeito José Monteiro, que divide a Vila Valença e o Jardim Independência, era uma rua larga de terra e pedregulhos. O calçamento e o esgoto só viriam no início da década de 1980. No entorno dos cruzamentos das ruas Uberaba e Monteiro Lobato (canal) haviam apenas alguns estabelecimentos, os mais frequentados nos dois bairros: três padarias, a banca de jornais da Dona Esperança; o bar que hoje é o restaurante Itabaiana; uma fábrica e loja de calçados; a Market (tintas, ferragens e construção), a Quitanda do Mundinho na rua Pedro Álvares Cabral; a Casa da Madrinha (perto da Igreja N.S. das Graças); e o mercadinho Primo. Na direção do Itararé só haviam as pedreiras; e subindo em direção em direção à Vila Melo, o pequeno centrinho comercial na confluência com a Antonio Emerick e Anita Costa, onde tinham com destaques o supermercado Pão de Açúcar e o Cine Petrópolis. Esses dois bairros próximos das praias do Gonzaguinha e do Itararé atraíam muitos moradores de São Paulo e Santos pelos baixos custos dos imóveis e dos aluguéis. Essa demanda estimulava a construção constante de novas casas, prédios pequenos e sobrados. 

Tínhamos vizinhos excelentes, morávamos num bairro simples, porém muito próximo das duas principais praias de São de São Vicente: o Gonzaguinha e o Itararé, ainda relativamente limpas e não tão poluídas como hoje. Próximo aos dois morros haviam bicas, onde os moradores tinham o hábito de encher garrafões, pois a água encanada tinha um gosto horrível. 

Tirando a vida escolar, morar no litoral era diversão praticamente o ano todo, antes que chegassem os compromissos da vida adulta. Em todas as estações do ano as praias eram, como hoje, frequentadas por turistas em férias ou de finais de semana, só alterando a rotina nos meses de verão, quando a população em veraneio dá um tom de agitação diferente em todas cidades litorâneas. São Vicente ainda vivia seus dias de moda praiana e era bem frequentada tanto pelos paulistanos quanto pelos santistas que buscavam um tipo de praia mais aberta e espaçosa. 

O bairro do Boa Vista também vivia dias de glamour das mansões antigas e edifícios novos que brilhavam nos melhores catálogos imobiliários da região. A Ilha Porchat ainda era o point dos ricos moradores do planalto paulista e da Borda do Campo, bem como da pequena elite vicentina, com a sua localização espetacular no canto do Itararé e passagem para a pequena e chic Praia dos Milionários. Na ilha tinha, além do clube de praia, dois ou três grandes edifícios, muitas mansões e as famosas boates e choperias, todas com vista para a orla vicentina e santista, bem como para o Atlântico. 

Também na larga avenida Presidente Wilson, que dá acesso do Itararé ao centro, hoje forrada de prédios de muitos andares, ainda havia muitas casas e mansões de ricos veranistas. Indo pelo Itararé em direção a Santos ainda se encontrava, entre a linha do trem (hoje VLT) e a praia, muitas casas de férias, incluindo a que durante muitos anos funcionou talvez o mais famoso surf-shop do litoral: a Twin, griffe de pranchas, skates, acessórios e roupas consumidas por todos os jovens que pretendiam ingressar no universo dos esportes radicais californianos e também do cultuadíssimo Hawai. Anos depois a Twin mudou-se para o bairro de Moema, na Capital. 

No final dos anos 70 e início dos anos 80 – como uma evidente influência de costumes do Rio de Janeiro - o surf, o skate, o rock beach e cabelo loiro parafinado seria a moda mais forte e significativa da juventude do litoral paulista e dos milhares de paulistanos que desciam a serra para aprender esse novo estilo de vida. As praias de Santos, de areia cinza e dura, nunca foram apropriadas para pegar ondas e o Guarujá não era de fácil acesso, por causa das balsas e da longa distância do centro até as praias. Nessa época a Praia Grande, recém emancipada de São Vicente, também era muito distante e frequentada preferencialmente pelos moradores do ABC e o povão das muitas periferias de São Paulo. Restava então, para surfistas e os vaga-beach de Santos e São Vicente, a enorme, meio selvagem e deserta praia do Itararé que, dependendo do dia e da lua, produzia boas ondas e muita curtição na areia. Poucos eram os praticantes do surf, porém muitos se vestiam e viviam a vida como eles. 

Nessa época já estava em início de construção o Emissário Submarino de esgoto, vizinho ao Orquidário e na praia do José Menino, em Santos. Alguns anos mais tarde, quando o modismo surfista passou, passamos a frequentar e acampar nas belíssimas e realmente selvagens praias do litoral Norte, principalmente Barra do Saí e Boissucanga. 

Um jovem vicentino nos anos 70 e 80 


Tenho cinco irmãos e somos filhos de uma família de classe média baixa. Meus pais eram funcionários públicos federais, com salários modestos e muitas dificuldades para cobrir nossas despesas, como a maioria das famílias brasileiras. 

A nossa mãe sempre se preocupou em nos educar para o trabalho. Dizia que, desde cedo, temos que acostumar o corpo para essa tarefa que iria nos acompanhar pelo resto de nossas vidas. Cinco meninos, quase rapazes, era uma situação muito preocupante e o principal obstáculo realmente era a ociosidade. Quando morávamos no interior ela sonhava em nos levar para São Paulo. Na juventude ela tinha visitado parentes que viviam Capital e guardava boas lembranças das viagens e daquela grande cidade, sempre recordando com admiração o ritmo de vida que a s pessoas levavam numa metrópole. “Lá todo mundo trabalha, todo mundo levanta cedo!”, dizia ela, nos ensinando a afugentar a preguiça e o desânimo. Quando viemos para o litoral a luta dela continuou, pois os riscos de desvio aumentaram. Já éramos todos adolescentes e as tentações e necessidades começaram bater na porta. Não fomos morar em São Paulo, como queria minha mãe, porque meu pai não gostava da ideia e achava perigoso. Então, por um acordo entre eles, viemos para São Vicente. Ela insistia em nos ver fazendo alguma coisa de útil e continuava repetindo suas máximas sobre as virtudes do trabalho. De tanto ouvir aquilo ficava sempre olho em alguma oportunidade para produzir. Nessa época o Nenê e o Mia trabalhavam numa empresa de listas telefônicas (LTB), cuja sede era na Rua da Paz, em Santos. Depois foram trabalhar com pesquisadores do IBGE e também na Cosipa. Nessa época estavam sendo iniciadas as obras da rodovia dos Imigrantes, realizadas por grandes empreiteiras e inúmeras prestadoras de serviços conhecidas como “gatos”. Meu pai trabalhou numa dessas firmas que transportava agrimensores que faziam os primeiros levantamentos topográficos na Serra do Mar onde seriam construídos os enormes elevados de concreto e túneis dessa segunda rodovia de acesso ao litoral. Depois de passar esse serviço para o Mia, meu pai foi convidado pelo Seu Lauro Romão, antigo funcionário da Bacia que morava em Santos, para trabalhar numa empresa de hotelaria marítima na região de Campos, no Rio de Janeiro. Essa empresa prestava serviços em navios de contrato de risco e nas plataformas da Petrobrás, localizadas na Bacia de Campos a dezenas de quilômetros da costa atlântica. A base dessa empresa era na cidade de Macaé e o transporte dos funcionários, equipamentos e suprimentos era feitos por rebocadores e helicópteros cargueiros. As jornadas eram quinzenais e a viagem por mar durava cerca de oito horas, enquanto as aeronaves demoravam pouco mesmo de duas horas. 





















José Carlos Názara, Alfredo do Monte e Dalmo Duque dos Santos, na casa do autor, na rua Rio de Janeiro, 294- Jardim Indepemdência, em 1981. 


Emprego e um assalto na São Vicente Veículos 


Meu primeiro emprego, aos 12 anos, foi numa quitanda, na rua Amador Bueno da Ribeira, no Gonzaguinha. Fui demitido. Não tinha nada para fazer e ficava comendo as bananas que não vendiam. Dali, por indicação do Gui, fui trabalhar como entregador de remédios numa farmácia na Vila Valença chamada Tutancâmon. O dono, seu Osvaldo, era um prático muito bom e valorizava muito a minha educação. Ensinava como as coisas deveriam ser feitas, como tratar as pessoas e prezava muito a obediência. Também era muito alegre e tirador de sarro. Ficava indignado com as “madames” que vinham comprar fiado. Dizia ele: “Minha senhora, se fosse remédio... Mas, cosmético? Não!!!” Nesse ramo sempre tinha uma atividade curiosa: quando um cliente trazia alguma receita médica cuja letra do médico era incompreensível, era necessário percorrer as outras farmácias para decifrar a mensagem e também receber o desconto para revender o remédio. Nessas andanças a gente conhecia a cidade e muitas pessoas interessantes. Tinha um balconista da Drogaria Calunga, na rua Frei Gaspar, que conseguia decifrar as receitas pelo nome do médico. 

Empregos não são eternos e já não eram naquela época. Por falta de experiência e muitas vagas disponíveis a gente mudava de emprego com muita facilidade. Cheguei a trabalhar também na informalidade: entregava folhetos de um curso de inglês em Santos, na porta dos clubes. Também fiz parte de uma equipe de jovens pintores de parede. Uma vez fomos pintar a casa de um delegado de polícia que tinha problemas com um filho ocioso. Ele descobriu que meu irmão era músico e dizia para o filho: “Tá vendo, o rapaz é pianista e tá aqui dando duro... E você aí ao nessa moleza...”. 

E assim fui trabalhando num empreguinho aqui, noutro ali. Em 1982 consegui entrar num emprego mais sério. Era um cargo de auxiliar de escritório numa concessionária da Volkswagen. Quem conseguiu essa vaga foi o João Batista (Toni Tornado), primo do Beto eletricista, amigos e vizinhos quando morávamos em Epitácio e que era encarregado do departamento de pessoal. Eu fazia o mapa de serviços da oficina e outros pequenos serviços burocráticos. A firma era infestada de funcionários administrativos, coisa que hoje seria impossível. Naquela época não havia computadores e tudo era feito manualmente. Um fiscal da fábrica de São Bernardo vinha inspecionar mensalmente a revenda e checava todos os mapas de serviços. Era uma folha enorme contendo todos os dados de rotina da oficina. Cada serviço era padronizado por um código e um tempo de execução, marcado num relógio de ponto. Era um sistema alemão interessante, em série, que parecia um pronto-socorro: o carro entrava na loja, era atendido por um mecânico recepcionista que usava um jaleco branco até os joelhos. Com uma prancheta ele fazia a consulta e dava o diagnóstico. Se o cliente concordasse, ele preenchia uma ordem de serviço (OS) e chamava o chefe da oficina para providenciar a internação do veículo. Este escolhia um mecânico disponível ou mais adequado ao serviço, entregava a OS, que era levada até o guichê do nosso escritório para ser codificada. O mecânico tinha um tempo certo para fazer o serviço, incluindo também a solicitação de peças, na sessão ao lado. O sistema era curioso, porém era rígido e recusava quebra de paradigma. A ideia era trocar peças e aumentar a fatura. Conserto era outra coisa e não dava o lucro esperado. Tinha um mecânico japonês, bem baixinho, chamado Kimura que de vez em quando tentava quebrar o esquema e ajudar o cliente. A cena lembrava Charles Chaplin, no filme Tempos Modernos. Ele tirava tudo do lugar e causava uma enorme confusão na ordem das coisas. O Kimura, que o Gabriel, chefe da sessão de peças, chamava de “Menininho”, não durou muito tempo. Para o alívio dos recepcionistas e do chefe da oficina, ele foi transferido para o DU, departamento de usados, que funcionava em outro endereço. Lá ele se deu bem porque tinha tempo de ficar mexendo no motor e fazendo outros reparos. A maior sensação do dia era a chegada do dono da empresa, sempre bem tarde e saindo sempre muito cedo após passar no caixa para pegar alguns trocados. Essa cena diária também era imitada pelo Gabriel, que pegava uma blusa branca do Nego Nelson colocava nos ombros e caminhava pelos corredores cantando uma paródia de uma música do João Nogueira: “Olha lá quem chegou, Fausto o Milionário. Diz que é o bom, que é o tal...” Quando não tinha dinheiro no caixa ele ficava transtornado e seu Jimy, um senhor muito falante e que trabalhava no caixa, ficava desesperado: “Faustinho, querido, entraram dois carros na oficina e logo deve entrar alguma coisa na seção de peças”. E o patrão retrucava: “Preciso desse dinheiro até às onze horas. Ontem você já me deixou na mão.” Meses mais tarde essa função de arrumar dinheiro diariamente para o seu Fausto e para o filho dele passou para mim e eu nunca sabia como ajustar o caixa depois, problema que era logo solucionada pela contabilidade. 

Um dia, de manhã, fomos assaltados. Era uma quadrilha profissional, com espingardas de cano curto enfiadas naqueles antigos sacos de supermercado. Eles gritavam com sotaque castelhano: “Pagamento, Pagamento!!!”. Achavam que o dinheiro estava com a gente porque o nosso escritório tinha caixa e guichê de vidro. O Gilson, meu chefe, tinha saído para comprar pão, coisa que nunca tinha feito. Nilcéia, a menina do seguro, ficou pálida e quase desmaiou. Eu, muito nervoso, tinha vontade de rir e para disfarçar ficava mostrando as mãos vazias para os bandidos. Seu Jimy, querendo agradar os meliantes tomou uma cutucada de espingarda na barriga e quase teve um infarto: “Pagamento, pagamento!!”, insistiam os assaltantes. Depois de muita luta, perceberam que a coisa não estava rendendo nada e foram embora sem dar um tiro. Quando entraram no carro para a fuga, o pessoal da oficina começou a atirar pedra neles, mas não adiantou nada. Meu chefe chegou com o saco de pães e quis saber de tudo. O rapaz que trabalhava no relógio, muito irônico, disse: “Não aconteceu nada... Como diz o Dalmo, todo mundo ficou nervoso, mas isso é isso psicológico...”. O gerente da revenda, o seu Adonias, que era um alagoano bem simpático ficou muito impressionado com a minha atitude e falava pra todo mundo ouvir: “Só tem um cara mais calmo do que eu nessa firma, só um. E então os colegas passaram a me chamar de “Dalmo, o calmo”. Este foi um dos melhores empregos que tive. Durou apenas um ano, ganhava pouco e a gente se divertia muito. Depois desse assalto, o Gabriel, que era chefe da sessão de peças, outro bonachão e palhaço que imitava todo mundo, entrava de surpresa em nosso escritório, com um saco de papel na cabeça, gritando: “La grana, la grana, la grana de La Desorganizacion!!!”. 

Nesse mesmo ano apareceu lá um gerente financeiro formado na FGV que tentou reestruturar toda a empresa. Era um financista paranoico e metido. Tinha atitudes arrogantes e uma frase de efeito seguida de um gesto típico que logo caiu na boca dos humoristas: “Me traga o nome do funcionário relapso e este vai ser punido!!!”, batendo as costas de uma das mãos na palma da outra. Quando, então, aparecia alguém acidentado, com curativos e faixas, os serristas diziam: “Esse aí foi punido". 

Nas escolas Vidrobrás e Martim Afonso 


Como já disse, nunca fui um aluno de excelências disciplinares na escola fundamental e no colégio, mas sempre via o ambiente como um lugar especial, de muitas expectativas e de esperanças. Ao invés de prestar atenção nas aulas, como faziam alguns colegas concentrados nos seus afazeres, eu simplesmente observava atentamente os professores, que no meu olhar era grandes figuras humanas com suas características marcantes: seus discursos, gestos, gostos, cacoetes, as expressões mais constantes, seus pontos fracos, as vaidades, os talentos especiais, os receios. Gostava muito quando eles contavam suas histórias pessoais, impressões sobre as coisas e opiniões sobre os acontecimentos. Ficava imaginando como eles viviam no dia a dia e na intimidade, atento aos seus modos de se vestir, de se pentearem, de andar na sala, enfim, de como eram seres humanos. Nunca vi os professores como pessoas extraordinárias, dotadas de poderes especiais de inteligência. Achava que eram pessoas comuns, nada excepcionais. Isso era ruim porque influía na minha displicência. Fui fazer a faculdade de História certamente influenciado por uma professora linda, Dona Agnes, do Augusto Saint-Hilaire (Vidrobrás), em São Vicente. Tinha entre 30 e 35 anos, era casada e uma filha de cinco ou seis anos. Ela sabia que eu todos os meninos, principalmente o Ricardo Palhinha e o João Vicente, eram apaixonados por ela e nos dava boas notas pelas nossas observações e comentários sobre as suas explicações. Naquela época ela já usava os seminários como apropriação de conhecimentos. Durante as apresentações, sentava-se no fundo da classe tomando o cuidado de ficar sempre uma fileira à frente dos meninos, para nos torturar com as suas curvas maravilhosas e movimentos enlouquecedores para se acomodar na carteira. Dona Agnes tinha o hábito de profetizar o futuro e a carreira que melhor combinava com a personalidade dos alunos. De mim ele dizia que seria jornalista ou publicitário. Tentei, mas optei, como ela, ser professor de História. 

O período em que estudei no Saint-Hilaire foi muito interessante, pois ali aconteceu uma espécie de renascimento das minhas inclinações de existências passadas, boas e más, bem como o despertamento espiritual. Era uma escola longe de casa e tinha que caminhar do Jardim Independência até o Catiapoã, percurso que fazia a pé e sempre com a maior satisfação. Fui para lá porque havia me envolvido numa confusão com uma inspetora da escola anterior (E.E. Zulmira Lambert, prédio antigo de madeira no Voturuá) e acabei sendo agredido por alguns alunos que não gostaram da minha atitude nem da simpatia que algumas garotas tinham por mim. Como se dizia naquele tempo, tomei um pau e tive que sair da escola. Naquela época isso ainda era um acontecimento raro, grave e vergonhoso no universo escolar. Esse fato ou dano moral contribuiu muito para a minha mudança íntima com relação aos estudos. Mudei tanto que minha mãe até hoje relata o acontecido com um ar de surpresa. Tínhamos um vizinho da rua Rio de Janeiro que era Delegado de Ensino - professor Ênio Vilas Boas - e este sugeriu que eu fosse transferido para essa escola. O Saint-Hilaire era frequentado por alunos dos bairros pobres de São Vicente e ficava próximo da Sociedade Hípica (hoje um hipermercado) e do Golf Clube, áreas nobres rodeadas de favelas. Ganhava de presente muitas bolinhas de golfe dos colegas que moravam nas imediações. Lá também estudavam alunos de classe média que moravam no Itararé, no Gonzaguinha e na Vila Valença, pois a escola tinha fama de ser um ambiente calmo e ter bons professores. Chegando lá, fui logo atraído para o Centro Cívico, assumindo algum tempo depois a presidência desse grêmio estudantil. Os colegas amigos mais próximos eram Ricardo “Palhinha”, que resmungava igual ao Zé Buscapé, o João Vicente, garoto paulistano e filho de pais separados que morava com os avós no Itararé; o Gecílio, morador do dique das Caixetas, favela muito conhecida de São Vicente; e finalmente o Gunther, menino também simples do catiapoã. Deles todos, o único que reencontrei quando adulto foi o Gunther, que me reconheceu na rua dizendo a havia visto uma entrevista minha na TV Santa Cecília. Nessa época, 1978, fazíamos as aulas de educação física no quartel do Exército – Batalhão de Caçadores -, próximo à divisa com Santos. O prédio da escola estava em péssimas condições e tínhamos como vizinhança um enorme matagal, os trilhos do ramal santista da E.F. Sorocabana e a fábrica de vidros da Santa Marina (hoje Saint Gobain). Certa vez, voltando das aulas, encontramos o prefeito na rua Frei Gaspar e pedimos ajuda para reformar a escola. Era o futuro deputado Koyu Iha, que prometeu nos ajudar na medida do possível. Fez uma visita surpresa na escola e não encontrou a diretora, que nunca estava lá. Numa das aulas de educação física os membros do centro cívico solicitaram ajuda do comandante do quartel do Exército para resolver alguns problemas. Este enviou um grupo e soldados para limpar o matagal, no qual fizemos um campo de futebol; e também fez uma pintura nas paredes externas, deixando a escola com uma aparência agradável e renovada. O centro cívico ficou em alta e isso mexeu com alguns professores mais idealistas, que passaram a nos apoiar em projetos culturais de teatro, fanfarra, música, coisas que não aconteciam há anos na escola. Foram três anos de ótima convivência. Dali nosso grupo foi fazer o colegial na escola estadual Martim Afonso. 

Cinema no Gonzaga 


Em São Vicente em meados da década de 1970 haviam apenas três cinemas: o Petrópolis (na avenida Antonio Emerick, lado do Cascatinha), o Cinemar (na rua Benjamim Constant, em frente ao Clube Tumiarú) e o Cine Jangada, um pouco mais sofisticado (na rua Martim Afonso, no centro). Nesse último vimos, entre 1975 e 1976, o lançamento de Dona Flor e seus Dois Maridos, Tubarão e a peça O Santo Inquérito, de Dias Gomes, um monólogo com Regina Duarte. Um dos meus colegas de escola e praia - o Chico - era filho do gerente do Petrópolis e do Jangada, nos quais sempre tínhamos entrada franca. 

Essas eram as únicas opções de diversão noturna em São Vicente. Isso nos levava a buscar as atrações de Santos, especificamente no Gonzaga, antigo bairro balneário de casarões de milionários e hotéis de luxo. Ali era, nos anos 70, o verdadeiro esplendor de consumo e footing para jovens e adultos, local sempre muito movimentado e de muitas novidades, vitrines, luminosos, barulho de carros e motos durante a noite e na madrugada. Nas calçadas, largas e limpas, sempre havia oferta de artesanato hippie e pinturas em quadros, de todos os estilos. Cortado pela centenária avenida Ana Costa, o Gonzaga tinha como destaque a redonda praça Independência em torno da qual se concentrava inúmeros estabelecimentos: restaurantes especializados, rodízios de pizza, lanchonetes e casas de sucos e vitaminas, sorveterias, farmácias, grande lojas de sapatos, roupas e acessórios; galerias com muitas lojinhas da moda e de discos, boutiques de luxo, duas livrarias muitos frequentadas (Martins Fontes e Siciliano) e principalmente os cinemas, cuja frequência era altíssima nos finais de semana. 

Durante o dia, como hoje, o Gonzaga funcionava como um centro de serviços com muitos consultórios, bancos e escritórios; era também o bairro dos solteiros, pois havia muitos prédios com apartamentos pequenos e kitinetes de temporada. Eu mesmo morei sozinho, no de 1985, na rua Pereira Barreto, em frente ao atual Shopping e Hotel Miramar. Fazia minhas refeições, pasmem, numa loja da Drogaria São Paulo, na rua Floriano Peixoto, precursora das lojas de conveniência e que também era restaurante. 

Durante a noite, sobretudo nos fins de semana, o bairro sofria uma transformação espetacular tornando uma vitrine frequentada por uma multidão de pedestres sempre muito bem vestidos. De todas as atividades comerciais a que mais representava esse espírito da diversão e do passeio noturno no Gonzaga ainda eram os cinemas, que serviam, por exemplo, para demarcar o tempo de permanência dos que buscavam o bairro aos sábados e domingos. As sessões tanto poderiam ser o início, o meio quanto o final da jornada de lazer e diversões, dependendo das características e das intenções das centenas pessoas que ali passavam. As salas de cinema do Gonzaga variavam de tamanho e gosto pelos filmes ofertados: as maiores para as películas comerciais e a menores para os filmes de arte. Muitos deles faziam sessões de pré-estreia à meia noite de sexta-feira, mas o ponto alto eram as noites de sábado, quando o bairro era invadido pelas multidões desde o período da manhã e tarde para fazer compras e à noite para os passeios de costume. Contando da praia do Gonzaga em direção ao centro, existiam na avenida Ana Costa os seguintes cinemas: Atlântico I e II (Hoje lojas C&A, Mc Donald e Americanas, próximos ao bulevard da rua Othon Feliciano); Iporanga I e II (salas grandes) e Iporanga III (sala de arte), vizinhos do Clube Sírio-Libanês, todos demolidos para dar lugar ao atual shopping denominado Pátio Iporanga. Na sequência havia o Cine Roxy (talvez o maior de todos, até hoje em funcionamento e com rede nos shoppings do litoral); e por último o Cine Indaiá, conjugado ao hotel com o mesmo nome, próximo ao Colégio São José. Na rua paralela, atrás do Indaiá, tinha o pequeno Cine Alhambra, também só para exibição de películas de arte e voltado para um público seleto. Mesmo com essas diferenças de público e salas, não havia distinção de preços nos ingressos para filmes comerciais e de arte. 

Na década de 1980 Santos também teve a fase dos cine-clubes, porém de uma forma diferente. Como a cidade sempre teve e ainda conservava boa parte das suas salas de cinema, o Cine Clube de Santos funcionava alternadamente em diversos pontos, como espaço locado em horários ociosos ou de baixa frequência. A ideia era do conhecido cinéfilo Maurice Legeard, que exibia seus filmes preferidos sobretudo no Iporanga 3, Alhambra e mais tarde no Cine Indaiá. Marcando o fim de um ciclo de uma antiga e imensa paixão dos santistas pelo cinema, Maurice faleceu em 1997 quando sua obra cultural circulante e seu gigantesco acervo de milhares de filmes, equipamentos e impressos permaneciam guardados na sede da famosa Cinemateca de Santos, que funcionava incialmente num sobrado no Gonzaga e anos mais tarde incorporado como patrimônio gerido pela Secretaria de Cultura da Cidade. 

O Manvantara se apresenta em Santos 


Outro destaque dessa década foi o Cine Posto 4, espaço criado para otimizar o uso dos antigos e abandonados postos de salvamento nas praias. O Posto 4 do Gonzaga tornou-se na segunda metade dos anos 80, juntamente com a Concha Acústica do Canal 3, importantes espaços de cultura alternativa na cidade. O nosso grupo musical (Manvantara) marcou presença na Concha por duas vezes nos finais de tarde dos verões santistas: um om show instrumental e outra acompanhando um cantor brega chamado Anderson Cray que havia nos procurado em São Vicente para darmos uma força nos arranjos. Por incrível que pareça, esse show virou um assunto cult nas faculdades e barzinhos porque o jazzista e complicadíssimo Manvantara deu uma demonstração de humildade e solidariedade ao se apresentar com um artista simples e (como nós) sem nenhuma chance de sucesso na mídia. Todas as “canções próprias” desse cantor tinha estrofes com a frase “Meu benzinho...”. Um amigo nosso e fã persistente do Manvantara comentou: “Nunca vi vocês tão sérios e compenetrados”! 

Foi nessa época do Manvanta que criamos em Santos o Projeto Gente Nova, reunião de grupos musicais para aprensentações nas fucauldades espaços públicos. Os participantes principais eram os grupos Manvantara (Bill, Mia, Dadau, Maurão, Zé Názara e Gilberto), Peito Rasgado (Olberes, Zéllus, Canduta e Julinho), Copos e Bocas e o compositor Marco Lança. Nosso principal ponto cultureal de referência era o Sindicato dos Metalúrgicos, que cedia o auditório, imprimia gratuitamente cartazes e folhetos. 

Ainda no Gonzaga, na avenida da praia, existia o Cinema 1 (mais tarde transformado em local de eventos e depois bufê) e no início da avenida Conselheiro Nébias o Cine Caiçara, que, já em decadência comercial, era utilizado para eventos alternativos. No Caiçara assistimos aos shows de Rita Lee e Tutti Fruti (Babilônia) e depois Hermeto Pascoal e Grupo. Na avenida Pedro Lessa (Macuco) havia mais um cinema e no centro da cidade tinham mais duas ou três salas antigas, como o já quase destruído Cine Teatro Guarani. Nesse período, entre 1978 e 1985, foi demolido o antigo Parque Balneário, que deu lugar ao primeiro shopping do Gonzaga e de Santos, mantendo o mesmo nome. No local também foram construídos um novo hotel e dois condomínios de apartamentos de luxo, empreendimentos que, apesar da criticada destruição do incalculável patrimônio histórico e arquitetônico do prédio antigo, deu um novo impulso ao centro comercial do Gonzaga, talvez livrando-o do perigo da decadência. 

Mesmo com a mudança de costumes e o crescimento da violência urbana, ainda hoje o Gonzaga é um bairro agitado, talvez porque tenha shoppings, bons estabelecimentos de consumo e sobretudo porque tornou-se um ponto de alta valorização e verticalização imobiliária. Porém, não tem o mesmo brilho das antigas décadas, exatamente por causa da liberdade e tranquilidade de circulação, bem como do interesse pelo cinema e diversidade de oferta de fantasias em “rolos”, numa época em não havia a possibilidade de ver filmes em casa. Restou um pouco do hábito do passeio, que ainda não foi substituído por nenhuma invenção tecnológica, por enquanto. 

No final dos anos 70 a educação brasileira estava entrando numa fase de grandes mudanças, para pior. Por ser um sistema estatal controlado por órgãos governamentais, as escolas públicas e particulares sofreram essa deterioração de estrutura e de valores. Os investimentos do Estado não acompanharam o crescimento da população e não houve outra alternativa senão massificar o ensino por meios quantitativos e o abandono dos processos qualitativos. O advento de novas tecnologias e hábitos individualistas de consumo também aceleraram essa transformação, que hoje chegou ao ápice com o advento da telefonia móvel e das redes sociais na internet. 

Coincidência ou não foi nesse período que a minha vida escolar entrou em parafuso, com uma sucessão de reprovações causadas pela minha distração crônica, pelas mudanças de cidade e de ambientes. Vivi esse momento histórico percebendo o declínio social ou proletarização dos professores, bem como a decadência das escolas públicas. A sala de aula era um muro de lamentações intermináveis sobre as questões salariais e as condições de trabalho nas escolas. Já ouvia essas conversas nas primeiras séries do antigo ginásio em Epitácio e depois foram se agravando quando fomos para São Vicente, nas cinco escolas públicas que frequentei: o Dino Bueno, em Santos, em 1974, vizinho de cerca do orfanato Anália Franco, na avenida Ana Costa; e as de São Vicente: a Sorocabana ou Vila Melo, em 1975, (atual Constant Houlmont, que era belga e meu professor de Francês); o Cidades Irmãs (atual Neves Prado), cujo prédio moderníssimo em concreto e tijolos à vista tinha sido inaugurado em 1976; o Augusto Saint-Hilaire, em 1977; e depois o Martim Afonso, em 1980, ano em que fui reprovado no 1º colegial, numa única disciplina: Matemática, por uma professora que não ia com a minha cara. O Martim Afonso foi durante muitos anos considerado um colégio público de elite, porém quando lá cheguei já estava em decadência, com a gradual substituição de professores antigos pela nova geração proletarizada de educadores e alunos, mesmo com os exames seletivos. 

Em 1981 fiquei sem estudar, perdido e também despreocupado com relação ao meu futuro. Já tinha 20 anos de idade. Em 1982, trabalhando na São Vicente Veículos, fui estudar no Colégio Ramos Lopes, em Santos, supletivo particular, concluindo o colegial no meio do ano seguinte. Ali fui motivado a estudar e continuar vendo a escola como meio de transformação. Uma curiosidade: no 3º colegial eu era o único homem numa classe de quase 20 mulheres. Os professores me chamavam de “Bendito é o Fruto”. No segundo semestre de 1983 fui fazer cursinho e sonhava ingressar na USP ou UNICAMP. Ficou só no sonho. Não tinha essa disciplina estudantil competitiva, nem conteúdo curricular. Nessa época queria ser jornalista e locutor de rádio. Percorria as rádios e redações de jornais de Santos divulgando o CVV e também buscando informações sobre comunicação. O Fernando Silva, amigo de infância e técnico de eletrônica que trabalhava na Rádio Metropolitana em São Paulo, conseguiu que eu fizesse um estágio no horário noturno, mas era inviável. Adiei o projeto, porém ali surgiu o fascínio por São Paulo. 






























Travesia Aantos Bertioga: jovens vicentinos nos anos 1980 voltando de uma excursão no litoral norte. O autor está de touca preta e branca. 

Em busca da universidade 


Nesse cenário passei a sonhar com algo mais além do que aqueles estabelecimentos velhos, mofos e habitados por educadores que apenas aguardavam suas aposentadorias. As faculdades eram, como sempre foram, a promessa do futuro e de mudança de vida. E não eram as faculdades públicas e gratuitas, mas aquela descrita pela canção do Martinho da Vila: “Particular, ela é particular”. Mesmo assim o sonho funcionava como um motor de conquistas. 

Muito antes de sair do colégio já me sentia atraído pela vida acadêmica das faculdades. Gostava de frequentar os eventos universitários em Santos, onde sempre tinha novidades para o meu mundo ainda pequeno e restrito. Nos anos 70 havia o Circuito Universitário, com shows dos grandes nomes da MPB em espetáculos de produção simples e intimista. Foi assim que vi ao vivo, com a plateia sentada ao chão, apresentações de João Bosco, Edu Lobo, Gilberto Gil, Hermeto Pascoal, Rita Lee. Esses shows aconteciam principalmente nas Faculdades Católicas de Direito e de Arquitetura, ambas na avenida Conselheiro Nébias. Ainda vivíamos nessa época os impulsos da cultura hippie e o controle do regime militar. Nos intervalos das canções os artistas conversavam com o público e mandavam recados indiretos para dedos-duros, sempre presentes nessas ocasiões. 

Também frequentava as faculdades divulgando o trabalho do CVV, entre 1979 e 1983. Minha primeira apresentação em público aconteceu numa aula de sociologia, numa turma de Direito da Católica, onde falei sobre o suicídio. Alguns esperavam que abordasse as teorias clássicas como a de Durkheim, mas acabava explicando o funcionamento dos plantões de voluntários e contando as histórias de como surgiu a prevenção do suicídio na Inglaterra e no Brasil. A classe ficava completamente em silêncio diante da gravidade do assunto e do atrevimento de um adolescente falando sobre um tabu. Ali observava também os alunos, adultos de diferentes idades, o ar de autoconfiança de alguns, o sorriso tolerante e respeitoso dos mais velhos, bem como o olhar de admiração dos mais tímidos e a irritação de alguns que logo percebiam minhas limitações. 

Uma experiência inesquecível foi quando matriculei-me num curso livre dado pelos alunos quase concluintes da Faculdade de Filosofia, na Pompéia santista. Eram supervisionados por alguns professores, que faziam intervenções durante os debates e questionamentos da classe. Nessas 22 aulas nas quais conhecemos os grandes pensadores ocidentais é que provavelmente tomei a decisão do que iria fazer da minha vida nos próximos 30 anos. 

Somente algum tempo depois, já na década de 1980, faria o vestibular para o curso de História na Católica de Santos, que funcionava no prédio da rua Euclides da Cunha, na Pompéia, entre o José Menino e o Gonzaga. Esse prédio foi demolido para dar lugar a um grande condomínio. Nossa classe tinha uns 70 calouros, que logo nos primeiros meses foi se reduzindo pela metade. Todos achavam que o curso era uma viagem lúdica pelos tempos antigos e pelos museus, imagem fantasiosa que se desfazia durante as explicações metodológicas. Nossos professores no primeiro ano do curso eram: Wilma Therezinha Fernandes, Maria Suzel Gil Frutuoso, Professor Laudo, Maria Apparecida Franco, Bento Ricardo e Mariângela Duarte (depois vereadora, deputada estadual e federal). Curiosamente as aulas mais interessantes eram das disciplinas não específicas, dadas por professores de outras áreas e dotados de erudição autodidata. Nelas aconteciam os melhores debates e seminários nas quais os alunos demonstravam suas habilidades intelectuais e de comunicação. 

Num desses seminários fui alertado por um professor (Bento Ricardo Corchs de Pinho, advogado) sobre a minha vocação. Dizia ele que eu havia escolhido o curso errado e que deveria seguir a carreira de psicologia ou psiquiatria. O motivo da sua reação foi a apresentação que fiz sobre as personalidades psicopatas. Tinha visto uma palestra do psiquiatra Alankardec Gonzalez para os voluntários do CVV em São Paulo e achei que poderia reproduzir o mesmo conteúdo, adaptado para a classe. Foi um tremendo sucesso e ainda tem a mesma repercussão quando apresento o tema para os meus alunos universitários. 

Nossa turma era composta por alguns jovens, os quais guardo na memória pela proximidade de convivência: Marco Antonio, Marcos Braga, Roberto e Vanja (que se casaram após se formarem. A Vanja tornou-se diretora e supervisora de ensino); Lígia (casada com o professor Jabur, do Curso Objetivo); Francisco; Nero (sobrinho do prefeito Osvaldo Justo) e Euflauzina Chabunas, ambos já desencarnados; e adultos já formados e atuantes em outras áreas como o Pablo (advogado e depois promotor público), Juarez (ex-ator e funcionário na Distribuidora BR) e o Hugo, aposentado da Refinaria Presidente Bernardes, de Cubatão, onde exercia o cargo de relações públicas. Poliglota e muito viajado, o Hugo foi um dos que primeiros a revelar sua decepção com o curso de História. Ele só não desistiu por causa das amizades que fez entre nós e que muito preenchia sua solidão. O mesmo acontecia com o solteirão Juarez, que anos mais tarde voltaria para sua terra natal em Minas, que chamava carinhosamente de Cemitério de Elefantes. 

Era uma turma muito divertida, cheia de talentos e que certamente marcou época na faculdade e cujo convívio só desfrutei por dois anos. Fiz o curso às minhas próprias custas, pois não queria sobrecarregar meus pais, que custeavam meu vestuário, lazer e outras despesas do dia a dia. Para sobreviver nos primeiros meses da faculdade fazia bicos de pintura (de parede) e ajudava um colega que tinha um trenzinho turístico em Bertioga nos fins-de-semana. Cheguei a realizar cursos livres de oratória na própria UniSantos, incentivado pela professora Iza Fava, historiadora e então diretora da faculdade. 

Na indústria de Cubatão 


Naquele mesmo ano, em 1984, comecei a trabalhar em Cubatão, município industrial da Baixada Santista. Fui trabalhar numa empreiteira que atuava na área da Liquid Química, uma pequena, mas muito rica fábrica multinacional de derivados de petróleo: ácido benzoico conservante, plastificante, aldeído de perfumaria, etc. Esse “trampo” era interessante e bem barra pesada, cortesia do amigo Waltrudes, engenheiro químico carioca, companheiro nosso de Aliança e CVV. Chegava em casa quase morto. A fábrica não era muito grande e funcionava em três turnos semanais de oito horas: das 8, das 16 e das 24. Entre esses turnos tínhamos folgas pequenas de 24 e uma grande de 72 horas. Minha função era de servente de operação, peão de área. Cada turno tinha apenas quatro funcionários: o operador-chefe, o auxiliar de operação (caldeireiro) e dois serventes. Essa equipe era responsável por toda a produção, realizada por quatro reatores (que são torres gigantescas, semelhantes a enormes panelas de pressão viradas de cabeça para baixo), três caldeiras, três grandes tanques de mistura, um sublimador (muito parecido com aquela máquina de fazer algodão doce), dois flakers, que são enormes cilindros de resfriamento para fazer flocos de ácido. Tínhamos que cuidar também dos filtros, estoques de produtos de manipulação (permanganato, barrilha, filtros de papel), os equipamentos como bombas de água, compressores de ar, trocadores e separadores de líquidos, piscina de resfriamento, tanques de matéria-prima (soda cáustica, tolueno, óleo diesel). Toda a produção de ácido era embalada em sacos de papel de 60 quilos (flocos), em tambores de papelão de 20 quilos (sublimados), e os líquidos em tambores grandes de latão para os plastificantes e galões de PVC para o aldeído. Dependendo do turno, a jornada podia ser intensa, mediana ou eventualmente de faxina. Podíamos gastar água à vontade, que vinha de uma piscina reciclável. Quando o ralo da piscina entupia com algas, alguém tinha que tirar a roupa e mergulhar... Serviço pesado e também perigoso. 


Certa vez nosso operador-chefe, sempre muito apressado e descuidado, se atrapalhou ao abrir uma válvula do reator, espalhando ácido líquido e quente por toda a área. Não tinha como estancar aquele esguicho e o ácido ficava sólido quando entrava contado com a temperatura ambiente. Resultado: tumulto e muita sujeira para limpar durante a madrugada inteira. Ele queimou o rosto e o peito; e eu, vendo aquela cena de desespero dele, ao invés de avisar o caldeireiro, corri para o banheiro para lavar os braços, atingido por respingos. Estava tão nervoso que desandei a rir. Alguns segundos depois, ainda abalado, ria mais ainda, pois achava que todos iriam pensar que tinha sido eu quem havia causado o acidente. Voltei para a área e vi o estrago e o grande risco que todos nós corríamos naquele lugar. Esse operador, semi-analfabeto, xucro, porém considerado o mais produtivo da fábrica, sempre aprontava algo grave e que colocava a vida dele e dos outros em risco. Numa outra vez ele esqueceu uma linha de combustível aberta e jogou milhares de litros de tolueno no esgoto, erro que foi descoberto pela Cetesb alguns dias depois ao coletar amostras no córrego que passava próximo da fábrica. Por decisão dos diretores da empresa, nos Estados Unidos, ele continuou trabalhando normalmente, mesmo dando aquele enorme prejuízo do combustível perdido e da multa pelo dano ambiental. 

Outro problema nesse trabalho em Cubatão era o turno das 24, conhecido como “Cinderela”. Esse nos tirava o cinema, das festas, enfim, do melhor que a gente estava fazendo. Nessa época, estudando na Católica de Santos, no primeiro ano da faculdade e perdia uma semana de aulas no mês. Correndo o risco de ser reprovado e sabendo que aquela carreira não tinha nada a ver comigo, decidi abandonar o emprego e mudar para São Paulo. 

Entretanto, três coisas fóram marcantes nesses dois anos de trabalho em Cubatão: o incêndio da Vila Socó, em 1984, tragédia que tirou a vida de dezenas de favelados que moravam sobre dutos de combustível da Refinaria Presidente Bernardes (da Petrobrás); o nosso encontro com uma névoa tóxica de amônia, proveniente de uma daquelas fábricas de fertilizantes. Naquela tarde ficamos parados na rodovia Piaçaguera e não conseguimos render o turno que sairia às 16 horas. Voltamos para casa para retornar somente no outro dia. O interessante é que houve uma grande movimentação da Defesa Civil para retirar a população dos bairros industriais com dezenas de ônibus que transportavam funcionários da Cosipa (Companhia Siderúrgica Paulista). Nada foi noticiado nos jornais. 

E finalmente o risco de desabamento da encosta da serra. Era uma época de terror: tinha acontecido também aquele acidente na Índia (Bohpal), numa fábrica da Union Carbide, que também tinha uma filial em Cubatão. A Cetesb estava começando a fiscalizar e multar com mais rigor as indústrias que cometiam abusos ambientais, num tempo em que não se dava nenhuma importância para ecologia. Crianças nasciam sem cérebro na Vila Parisi e operários da coqueria na Cosipa eram contaminados com gás benzeno, altamente cancerígeno. Tudo isso aumentava o nosso medo em trabalhar em Cubatão, apesar dos bons salários. 

Projeto Gente Nova 


A transição entre as décadas de 1970 e 80 foi para nós também deliciosos momentos de curtição no qual vivemos, sem exageros, intensamente a nossa juventude. Em 1978 o Mia tinha desistido dos bailes da vida, após uma temporada em Barra do Garças (MT) com ex-integrantes do Grupo Seda e voltou para São Vicente. Decidiu estudar música na Fundação das Artes de São Caetano e, partir disso, passou a nos liderar na vida artística e cultural. A criação de uma banda de MPB ao estilo da época foi rápida e naturalmente estimulada pela explosão de celebridades nacionais do gênero. Fundamos então o Grupo Manvantara, nome hindu que pouco combinava com a MPB, mas que refletia o estado espiritual da maioria dos participantes. Esse grupo foi criador do Projeto Gente Nova, reunindo bandas em apresentações no circuito universitário das faculdades de Santos. Nessa época criamos também a Mostra de Arte de Santos, realizada no Centro de Cultura e Teatro Municipal. O evento foi desenvolvido como promoção social do CVV-Centro de Valorização da Vida, recém-fundado na cidade e que reunia praticamente todas as modalidades e expressões artísticas da Baixada Santista. 

Nos anos 80 havia também as escapadas de lazer para litoral Norte, a região preferida para os acampamentos. Boissucanga, lugar paradisíaco do Município de São Sebastião, era a nossa praia, na época habitada somente por algumas famílias caiçaras. Ao contrário dos mochileiros paulistanos e do interior, íamos acampar nas férias de julho, quando as noites são frias e os dias são de muito sol e céu de brigadeiro. Ficávamos acampados exatamente onde um riacho desembocava na enseada e pelo qual percorríamos, em sentido contrário ao seu fluxo para o mar, em busca de uma cachoeira espetacular, escondida na mata serrana. Para chegar a Boissucanga e Barra do Saí tínhamos que pegar um ônibus em Santos, que atravessava as balsas do Guarujá e Bertioga, passando por Boracéia, São Lourenço (ainda não existia a Riviera), numa época que ainda não se estabelecera a especulação imobiliária, nem o asfalto da rodovia Rio-Santos. O litoral Norte ainda era selvagem, com uma paisagem natural deslumbrante e inesquecível. Quando não estávamos acampados no Litoral Norte ou frequentando os badaladíssimos Festivais de Verão do Guarujá (promovidos pelo governo Maluf), subíamos para São Paulo em busca de eventos diferenciados, geralmente os Festivais Internacionais de Jazz no Anhembi, as Feiras da Vila Madalena e shows de música instrumental das bandas e artistas de vanguarda do Lira Paulistana, no Bairro do Bexiga. 

Nessa época as grandes cidades eram forradas de lojas de discos, produto de alto consumo em todas as classes sociais. Em São Paulo a rede de lojas Museu do Disco, assim como as lojinhas de rock e estilos alternativos era de alta frequência. Só havia uma lanchonete Mcdonalds, na Avenida Paulista e o grande point pop do consumismo fast-food era a rede Grupo Sérgio, que começou como churrascaria, depois mudou para rodízio de pizza e finalmente pendeu para as variedades árabes, hoje dominadas pelo Habbibs. Ninguém imaginava que os discos de vinil, cujas embalagens de papelão eram verdadeiros álbuns fotográficos, literários e também espaços de criação do design gráfico, pudessem ser retirados do mercado com o advento do disc-laser e do CD. O mercado fonográfico era tão forte, como nas décadas anteriores, que tornou-se o principal responsável pela movimentação das emissoras de rádio, dos grandes eventos e a constante renovação de artistas e estilos musicais. Nessa época, por influência das gravadoras, explodiram para as massas os grandes compositores e intérpretes da MPB (Gonzaguinha, Gal Costa, Ivan Lins, Simone, Elis, Milton Nascimento, Baby Consuelo, Morais Moreira, Ney Matogrosso); os grupos de rock nacional (Ultraje a Rigor, Metrô, Ira, Paralamas do Sucesso, Titãs, Legião Urbana) e também os alternativos (Arrigo Barnabé e a Banda Clara Crocodilo, Itamar Assumpção e a Banda Isca de Polícia, Premeditando o Breque, Rumo, Língua de Trapo). 

Passando por São Paulo 


No final de 1985 fui para São Paulo morar novamente com os meus pais. Minha mãe finalmente tinha conseguido realizar o sonho dela: morar e trabalhar em São Paulo. Fomos residir na região do Butantã, especificamente no Jardim Bonfiglioli, entre a Avenida Corifeu de Azevedo Marques e a rodovia Raposo Tavares, altura do quilômetro 13, a mesma rodovia que termina em Presidente Epitácio, no quilômetro 640. Nesse período moramos em dois condomínios de apartamentos e depois num sobrado, na rua Embaixador Cavalcante de Lacerda, em frente ao reservatório de água da Vila Gomes. Era um lugar alto e frio, de onde tínhamos uma vista, longe, porém espetacular de Pinheiros, Butantã, Jardins e dos altos e torres da Avenida Paulista. Dali meus pais e dois irmãos voltaram para Epitácio e eu fui morar na Aclimação, na Rua Nicolau de Souza Queirós, num apartamento que dividia com o jovem amigo de São Vicente, o então engenheiro e hoje advogado Frederico Cordeiro Natal. Também voltaria para Epitácio em 1991 e somente retornei para São Paulo em 1999, morando com minha mãe na região Butantã (Jardim Rosa Maria), depois na Vila Buarque, próximo a Higienópolis, num apartamento que pertencia a amiga Tata (Baraúna). De lá minha mãe voltou para São Vicente e fui morar, casado com a Rosilene (com quem tive minha filha Verônica), na Freguesia do Ó, num apartamento na rua Jacaré Copahíba. Nessa mesma rua ficava a segunda escola estadual para a qual fui removido, a E.E. Almirante Tamandaré, trabalhando com professores muito queridos, ótimos profissionais e amigos. No Tamandaré mudei totalmente o conceito negativo (preconceito mesmo) que tinha das escolas públicas e pude entender como as coisas realmente funcionam nesse setor. Adorava frequentar as capacitações na Diretoria de Ensino Norte 2, em Perdizes, sempre cheia de novidades e projetos culturais ne visitas aos lugares históricos de São Paulo. Nesse período passei num concurso para diretor de escola do Estado, mas não pude tomar posse por falta de experiência comprovada no cargo. Esta certamente foi uma decisão sábia do substituto do Dirigente Regional de Ensino, apesar da insistência de alguns supervisores que analisaram o meu caso nesse processo em aprovar a minha documentação. Um ano antes havia ingressado na E.E. Narbal Fontes, na Vila Maria, escola na qual também trabalhou, na secretaria, o Renato Duque, que acabou descobrindo que os filhos do Pereira e da tibiriçaense Vininha Cunha haviam estudado ali. 

Em São Paulo, no final de década de 1980, mesmo aposentada, minha mãe se sentia realizada ao sair de casa todos os dias para enfrentar a modernidade paulistana, que ela adora até hoje. Trabalhou como recepcionista no Shopping Iguatemy, na Faria Lima e depois como administradora de uma clínica para idosos na Avenida Rebouças e também como gerente de uma clínica odontológica, na avenida Brasil. Naquela época tinha emprego pra escolher. Um dos hóspedes da clínica de idosos, com quem ela se entendia muito bem, era o Sr. Amador Aguiar, fundador do Bradesco. Meu pai não curtia São Paulo, queria voltar para Epitácio. Adorava São Vicente, por causa do clima e descontração do povo do litoral, mas morar em São Paulo foi, para ele uma péssima ideia; ficava em casa cuidando de uma neta. 

Eu já era fascinado pela grandiosidade paulistana, que visitava com frequência desde o final da década de 1970. Durante a semana, trabalhando como voluntário do Centro Espírita Irmão Timóteo , sempre subia a Serra para comprar livros para abastecer a livraria do centro (a qual eu era responsável). Além das visitas frequentes à Editora Aliança, na rua Genebra, percorria os principais pontos de venda de livros e discos no eixo Maria Paula-Praça da Sé. Meus pontos preferidos eram a Livraria Freitas Bastos e as lojas do Museu do Disco. O Bill (meu irmão) tinha um amigo paulistano (Careca) que tinha nascido se criado na Mooca e certa vez subimos a serra com ele para conhecer os principais points noturnos daquela enorme região italiana da capital paulista e forrada de cantinas e pizzarias. O Careca era filho de um agente de Saúde e morava na rua João Ramalho, no centro de São Vicente, em frente ao Hospital São José. Não esqueci essa noite mágica e cheia de curiosidades exatamente porque durante o passeio o Careca, eufórico e cheio de saudades da sua infância, descrevia com brilho nos olhos os lugares do velho bairro e a inúmeras cenas da sua infância, incluindo as brincadeiras na sede social do Juventus. 

Um dia, ainda morando sozinho em Santos (rua Pereira Barreto, no Gonzaga), pois meus pais tinham mudado para São Paulo, fui visitar os irmãos (Mia e Bill) que trabalhavam numa loja de instrumentos musicais na Avenida Rebouças e lá fui aliciado pelo Fernando, filho do proprietário, Oswaldo Biancardi, para trabalhar na temporada de festas natalinas. A avó do Fernando era vice-reitora da PUC e conseguiu-me uma vaga noturna para o curso de História. Era dezembro de 1985 e logo estaríamos entrando no Plano Cruzado do governo José Sarney. Era o primeiro regime civil depois da longa ditadura militar de 20 anos. Foram dez meses de inquietação e ansiedade de prosperar. E ficou só nisso. Nesse período ainda fazia efeito a explosão de grupos musicais do início dos anos 80 e havia muita procura por instrumentos e equipamentos de som para as bandas. Nessa loja da Rebouças recebíamos artistas e candidatos de todos os estilos e graduações de fama e prestígio. Empresários estrangeiros (sobretudo japoneses), de olho no mercado nacional em crescimento, vinham sempre dar uma espiada na loja. Além dos músicos e artistas de São Paulo, vinha gente de todos os lugares do Brasil para conhecer as novidades, nacionais e importadas, e comprar principalmente acessórios, que se degastavam durante os shows. Tínhamos como vizinhos o escritório e casa de ensaio da famosa banda paulistana Placa Luminosa (ex-conjunto do cantor Jessé), pessoal muito talentoso e divertidíssimo: Ari, Riba, Luizão (fixos na banda), os cantores e tecladistas contratados, bem como o nosso amigo Sato, técnico de som do Placa e também do estúdio de jingles do Mia, Cacho e Rubão, na rua Caiubi. O Cutelo, office-boy do Placa, não se conformava em ver a gente tocando e demonstrando os instrumentos na loja e queria ser nosso empresário para uma futura banda, ideia que também empolgava o Fernando Biancardi. Nessa época o Cacho também trabalhava com o tio do Fernando, numa editora que publicava revistas com músicas cifradas. 

No estúdio da rua Caiubi (Coda) eu era o criador das melodias e letras e o Cacho e o Mia faziam os arranjos. Tudo fantasia e tentativa de entrar no mundo da publicidade, um mercado muito fechado e desconhecido por nós. Esse nome Coda (sinal musical) era também da escola que funcionava no mesmo endereço, em Perdizes. O Mia e o Cacho eram crias musicais do CLAM (escola do Zimbo Trio), de estilo Bossa Nova-Jazz, porém com esse nome que também era titulo de um disco do Led Zeppelin, a escola e o estúdio viviam cheios de alunos e grupos roqueiros. 

Em São Paulo as coisas eram bem diferentes. Sempre foram. Realmente uma cidade de muitas faces e oportunidades. Fui estudar História na PUC e lá entrei definitivamente na educação. Como estudante, dava aulas no Colégio e no Curso Objetivo. Também lecionava, como estagiário, num supletivo de funcionários da manutenção do prédio da Secretaria da Fazenda, na Avenida Rangel Pestana, como estagiário da FUNDAP. Saía de casa às cinco da manhã e só voltava as onze ou meia noite. Estava mais seduzido ainda pelo ritmo elétrico da cidade e por tudo que estava acontecendo naquela época. Certa vez, não sei por qual motivo, enfiei na cabeça que queria ser redator de propaganda. Tinha pensado em fazer jornalismo, mas esse desejo há muito não me atraia mais. Matriculei-me, então, numa oficina de texto publicitário na Escola Superior de Propaganda e Marketing-ESPM, cuja sede ainda era na Rua Rui Barbosa, no Bexiga, próximo do Teatro Franco Zampari (onde o Faustão gravava o programa Perdidos na Noite). As aulas eram ministradas pelo escritor Ricardo Ramos (filho do Graciliano e parecidíssimo com o pai). Foi o verão mais deslumbrante (literalmente) que passei em São Paulo ouvindo mil histórias e experiências da propaganda brasileira. Fiquei tão animado que comecei a pesquisar textos publicitários de todas as épocas, para aprender estilos, vocabulário, macetes, intenções, superlativos, adjetivos, slogans, títulos, enfim, tudo sobre essa arte que antigamente era exercida nas agências pelos melhores escritores e jornalistas: Orígenes Lessa, Mário Prata e dezenas de outros, como próprio Ricardo Ramos. Sabia que essa não seria a minha carreira, mas não deixava de sonhar com essa possibilidade. Não foi em vão, pois cultura e tecnologia a gente nunca perde e acaba sempre transformando em algo útil e diferente em situações e diferentes circunstâncias. O meio publicitário é sempre muito inquieto e cultuador das novidades e do tempo futuro. Nas agências geralmente se escondem muitos talentos reprimidos de quase todas as áreas do conhecimento e que ali extravasam suas potencialidades não reconhecidas. As aulas que ministro em disciplinas de humanidades nos diversos cursos universitários são recheadas por essa mentalidade dominante nas publicações desse setor, dos eventos e do cotidiano desse ambiente que mistura arte e negócios. 

Ainda hoje tem muita gente que pensa que os anos 1980 foi uma década perdida. Pelo contrário, foram os anos nos quais foi inventado o século XXI, a Era da Informação e do Conhecimento. Eric Hobsbawn (A Era dos Extremos) lembra que em 1910 havia no mundo cerca de 8 mil cientistas, a maioria químicos, físicos e engenheiros, concentrados principalmente na Alemanha de na Inglaterra. Em 1980 esse número havia saltado para 5 milhões e se espalhados para os países em desenvolvimento. As mudanças importantes foram muitas: o surgimento da informática, a redemocratização no Brasil, a queda do Muro de Berlim, o fim da Guerra Fria, as guerras na Iugoslávia e no Golfo, enfim, mil coisas ao mesmo tempo. Dava aulas de manhã e à noite e estudava no período da tarde, no campus das Perdizes. Época maravilhosa, na qual ocorreu a minha formação intelectual, proporcionada pela intensa vida cultural de São Paulo: o Centro Cultural do Paraíso, a USP, as livrarias e sebos no centro e em torno da PUC, feiras, cinemas alternativos, teatros, shows e grandes espetáculos ao ar livre no Ibirapuera. Ainda sinto uma tremenda saudade de São Paulo, da quase uma década que lá permaneci para estudar e trabalhar. Cidade realmente elétrica e inesquecível, sobretudo nos meses de outono e inverno, quando tudo fica com um ar diferente, aumentando a sensação de solidão, a necessidade de conquista e realização. É quando mais se consome, em todos os sentidos, principalmente os programas culturais. Volto a cada quinze dias para rever a cidade com algum entusiasmo, mas nada será como antes. 

Nova invasão na PUC 


Em 1986 agentes da Polícia Federal invadiram a PUC quando assistíamos ao filme "Je Vous salue, Marie", proibido pelo governo Sarney. A PUC tinha uma história de invasões e violências na época do Regime Militar. Nesse dia, para distrair e fugir da polícia, os alunos atiravam a fita de vídeo do prédio velho para o prédio novo. Lá tinha uma molecada que adorava provocar e apanhar da polícia. Todos os anos eles levavam "bombas" de chocolate de presente para o ex-coronel e na época deputado Erasmo Dias, na Assembleia Legislativa. Erasmo havia invadido o campus em 1977, quando era secretário de segurança do estado. Ele recebia cordialmente os alunos, mas sempre um deles, de propósito, falava um desaforo e ele, muito nervoso, perdia a paciência, começava a xingar e logo chamava a segurança. 

Permaneci no Objetivo por seis anos, uma boa escola de docentes. Tinha aprendido a dar aulas ainda na adolescência num centro espírita, com grandes oradores como Jacques e Sueli Conchon, Valentim Lorenzetti, Flávio Focassio (fundadores do CVV em São Paulo) . Porém, o meu modelo de docência para grandes platéias, com quem praticamente dei os primeiros passos (e substituía eventualmente) foi o professor José Jobson Arruda, que era uma mistura de acadêmico e show-man, com aulas curiosíssimas sobre Grécia e Roma. Depois de assistir a uma aula dele sobre Maomé e a expansão muçulmana, nunca mais fui a mesma pessoa. Na cadeira de História tinha verdadeiros ícones do cursinho paulistano: Heródoto Barbeiro (depois jornalista e apresentador) e o grande Ciro Ramos, que “inexplicavelmente” era admirador do nazismo. 

Tudo Isso acontecia na unidade da Paulista, 900, no prédio da TV Gazeta e Fundação Cásper Líbero. Era registrado em três empresas: Di Gênio & Patti (Cursinho), Colégio Integrado Objetivo e Bricor (franquia). Trabalhei em vários bairros cujas unidades do Objetivo eram um autêntico reflexo social das classes, costumes e etnias da nossa pauliceia desvairada: na Paulista e Aclimação, os japoneses, coreanos, chineses e mestiços de italianos com orientais, de classe média; em Pinheiros, Altos da Lapa e Santo Amaro (região do Brooklin), muitos descendentes de italianos e judeus de classe média alta; no Morumbi e Alfaville, os ricos e novos ricos, filhos de grandes e famosos empresários, que não se adaptavam nos colégios tradicionais e mais rigorosos (Pueri Domus, Miguel de Cervantes, Porto Seguro, Augusto Laranja, etc.). Interessante lembrar que nas unidades onde frequentava a classe alta os professores eram muito bem tratados pelos alunos. Já nas unidades de classe média tínhamos muitos problemas de disciplina, que obviamente aliviávamos aparentando certa informalidade e irreverência ao expor as aulas, sobretudo os assuntos polêmicos. Os próprios professores da nossa turma e época eram uma complexa e rica diversidade étnica e racial. Ao sentarmos numa mesa para tomar chope e bater papo nas calçadas daqueles barzinhos de Cerqueira César, dava para ter uma ideia das nossas diferenças e semelhanças culturais: Gabriel Bandouk (palestino); James Kobayashi, Issao e Yumiko (japoneses); Wu (chinês); Moré (judeu, irmão do jornalista Gilberto Dimenstein); eu (mulato, neto de negros, nordestinos e húngaros); as irmãs Marisol e Nuricel, e Luizinho “Torquemada”- especialista em Inquisição - (espanhóis); Nogueira e Gomes (portugueses); as também irmãs Eva e Benê Turim, Sidnei Malena (italianos); Eduardo Silva - Dudu – biólogo e ator afro que fazia o Bongô do RA-TIM-BUM – e finalmente o Altino, talvez descendente de alguma família quatrocentona, pois morava numa bela casa em Moema. O Cidão Malena dizia que ele certamente iria ficar famoso porque um dia existiu o Al Johnson, existia o Al Jarreau e ele seria o Al Tino. Nossos coordenadores eram professores mais antigos ou alguns jovens mais populares que, pela situação de destaque e falta de espaço para crescimento docente, eram deslocados para dirigir as unidades nos bairros. Alguns eram legais, ou mais menos e outros insuportáveis puxa-sacos. Havia aqueles que valorizavam o grupo e faziam de tudo para manter a equipe; e tinha também aqueles que não faziam o mínimo esforço, pois havia uma rotatividade muito grande de professores, nas unidades mais problemáticas. Na unidade Vergueiro tinha o Renato, secão, mas gente boa, e o primo dele, o Ermínio, caipirão muito divertido de Ourinhos e fã do Roberto Carlos e, na época, do Fernando Collor de Melo. No Morumbi era o Otto, alemão, ex-jogador de basquete, muita gente boa também; em Pinheiros eram o Domingos e o Glauco. Essa era apenas a nossa turma mais próxima, pois havia, na unidade da Paulista uma verdadeira legião de professores controlados por uma enorme sala de horário comandada pelo Professor Fazzoli e o Armandinho (japonesinho de Álvares Machado). Nessa época as estrelas e veteranos do cursinho eram Fernando Teixeira, Honda (de Tupã), Kvork, Clézio, Eduardo, Sales (de Piracicaba), Derville, Jobson, Nicola, Moacir, Honda, Vera e Hernani (ex-vocalista dos Sombras, de Presidente Prudente). Nós éramos apenas seus aprendizes. Alguns professores do Objetivo se tornaram políticos influentes, vereadores e deputados, como os irmãos biólogos Ricardo e Roberto Trípoli; e o geógrafo Paulo Kobayashi. Alguns alunos também entraram para a política como Aurélio Miguel e Robson Tuma (filho do Romeu Tuma). No mundo artístico, a lista de alunos é interminável. Só para citar alguns: Gretchen (nos anos 70), Luciana Vendramini, Mara Maravilha e Roger (Ultraje à Rigor, que também foi professor de inglês). Outra figura importante do Objetivo foi o Dr. Dráuzio Varela, que conheci quando estava fazendo sua pesquisa no presídio do Carandiru. Desses estudos surgiram as primeiras aulas e materiais didáticos sobre AIDS nas escolas e, anos depois, o famoso livro Estação Carandiru. Dráuzio Varella foi colega de faculdade do também médico João Carlos Di Gênio e criador do nome “Objetivo”. Apesar de toda essa badalação, o Objetivo era, na verdade uma passarela de uma grande maioria de alunos e professores anônimos, desconhecidos, que por ali passam como meros aprendizes. Histórias como a minha e desses colegas citados são inúmeras e se perdem nessa multidão de trabalhadores e usuários. 

Apesar da redemocratização e do ambiente liberal, no Objetivo ainda havia censura e temor político no final dos anos 1980. Lembro que fui encarregado de escrever, juntamente com a amiga e socióloga Eva Turim, a apostila de História do Brasil, especificamente o tema “Regime Militar”. Ao ver, depois de pronto, os conteúdos e as imagens escolhidas para ilustrar os textos, o nosso coordenador de área, Francisco Alves, simplesmente deu uma gargalhada irônica e disse: “Nem pensar. Não vamos ser presos, porém seremos todos demitidos”. Éramos considerados os melhores professores, com as aulas mais atraentes, porém havia uma certa desconfiança com os professores de História, pois a nossa cadeira sempre tinha uns focos de contestação e ligações com as esquerdas. Em 1987 houve uma enorme mobilização de alunos secundaristas na Avenida Paulista e os alunos do Objetivo ocuparam a escadaria do edifício Gazeta, formando também um grande bloqueio no trânsito, queimando apostilas e cadernos. Alguns alunos vestiam moradores de rua com as camisetas do colégio. O protesto foi destaque do Jornal Nacional e resultou em algumas demissões de professores que haviam sido denunciados como “cabeças” do movimento, entre eles o nosso pacato colega Fernando Issao. Este mais tarde tornou-se assessor do MEC no primeiro governo Lula. Já a Eva Turim, que era petista assumida e de carteirinha, ex-secretária de Dom Paulo Evaristo Arns e do Senador Eduardo Suplicy, nunca teve problemas políticos no Objetivo. Aliás, era ela quem arranjava para que o Grupo Tibiriçá paulistano (Dadau, Mia e Bill) se apresentasse nos jantares dos empresários e grã-finos do PT, para arrecadar fundos na campanha da futura prefeita Luiza Erundina. Entre os convidados sempre estavam, além do primeiro escalão petista (Plínio de Arruda Sampaio, Helio Bicudo, Jair Menegueli), o comentarista esportivo Juarez Soares, o publicitário Carlito Maia (que na chegada e antes de ir embora fazia questão de cumprimentar os músicos), o então casal Marta e Eduardo Suplicy; e o empresário Lawrence Pih, do Moinho Santista e alguns professores da USP. O Lula, que era de outra “tchurma”, nunca ia nesses jantares. 

Na PUC aprendi a dar aulas com grandes mestres do estilo acadêmico, para classes pequenas: Antonio Pedro “Tota”, Ilana Blaj, Rosely Coelho, Elias Thomé Saliba, Hilário Franco Jr, Modesto Florenzano, Otaviano De Fiore, Antonio Penhalves Rocha, Zilda Iokoy, Antonio Rago, Paulo Sandroni (que mandou que eu refizesse trabalhos péssimos sobre Mercantilismo e economia da República Velha), Noêmia Lazzareschi, Maria Auxiliadora Guzzo Dedeca, Miguel e Vera Chaia, Maria Antonieta Antonacci e Marina Maluf (esposa do escritor Fernando Morais). Em alguns semestres assistimos às aulas de professores convidados como Celso Laffer, Fernando Novais, Otávio Ianni, Marilena Chaui, Florestam Fernandes, Maurício Trattenberg, Paulo Freire (secretário da prefeita Luiza Erundina), Alcir Lenharo e até do Comandante Luiz Carlos Prestes, falando de tenentismo e do fim do regime militar. Embora muito marxista nos anos 60 e 70, o bacharelado de História (Faculdade de Ciências Sociais) nos anos 80 e 90 era extraordinário, uma vanguarda de temas e tendências da cultura humanista contemporânea e da historiografia das mentalidades. Paralelamente fazíamos a licenciatura na Faculdade de Educação, sendo duas áreas afins e muito politizadas. Na Faculdade de Educação predominava o pensamento freudiano e o libertário pedagógico. 

Na PUC também descobri que realmente gostava de dar aulas e sonhava um dia ser apenas pesquisador. Até que decidi virar empresário da educação privada. Resolvi montar uma escola. Vários colegas do Objetivo já tinham passado por essa experiência e depois do fracasso voltaram a dar aulas. Segui os passos do Moacir, também professor de História, que tinha aberto uma franquia do Objetivo em Tietê. Ele tinha sido meu professor no cursinho em Santos em 1983. Nos reencontramos em São Paulo, três anos depois, agora como companheiros de trabalho, sendo ele sempre muito prestativo e dando muitas dicas para os novatos. Soube mais tarde que o projeto dele também não vingou. Éramos bons professores, porém péssimos empreendedores. Lembrei um detalhe importante, que esquecemos de copiar da vida de sucesso do nosso antigo patrão: professor de talento e visionário, João Carlos Di Gênio tinha excelentes ideias, mas sempre usou como suporte e alavanca a parceria com pessoas que ele identificava como peças estratégicas no complexo jogo dos negócios. É por isso que no Objetivo a gente sempre encontrava pelos corredores da administração alguns descendentes de italianos e árabes exercendo cargos importantes, gente que não tinha muito a ver com educação e ensino, porém pessoas pragmáticas, excelentes homens de negócios que o Di Gênio logo transformava em gestores e sócios. 


De volta a São Vicente. 


Voltando para São Paulo, em 1999, enquanto aguardava a nomeação do concurso Estado, imediatamente ingressei num programa de pós-graduação. Queria dar aulas em cursos superiores mas esbarrava na titulação acadêmica. O aluguel da minha casa em Epitácio pagava a mensalidade e as demais despesas eram garantidas pela Dona Jacy. Dizia ele: “É a pensão do seu pai, que ele deixou para essa ocasiões”. Como sempre, investir em conhecimento sempre dá um retorno diferenciado, não diretamente financeiro e sim o desbloqueio mental, nos libertando dos antigos paradigmas. Queria conhecer outras áreas de pesquisa e tendências. Nesse mestrado tive aulas com professores da Escola de Comunicação e Artes da USP-ECA e Unicamp, contratados pelo programa da Unip. A ideia era estudar o universo das mídias e saber como elas se abasteciam com os conteúdos das artes plásticas e da literatura. Acertei na mosca. Grandes aulas, muitos debates, leituras fascinantes e professores de alto nível nas áreas de cinema, antropologia, jornalismo cultural, marketing e literatura de vanguarda como Ana Maria Balogh, que seria minha orientadora. Era um mundo que eu desconhecia e tive que me adaptar com muitas dificuldades, mesmo tendo certas habilidades intelectuais. Dois anos depois já estava dando aulas no ensino superior, na Baixada Santista. Essa pós-graduação também permitiu que fosse promovido duas vezes no Estado: uma pela evolução funcional titulada não acadêmica, em pontuação de aulas, mas alterando minha categoria e nível funcional. Recebi em dinheiro, como diferença salarial enquanto corria o pedido de evolução praticamente tudo que investi no curso; a outra foi uma prova de mérito, que exigiu leituras mais apuradas sobre os conteúdos novos da minha disciplina. As dificuldades superadas no mestrado tornavam essas novas leituras relativamente fáceis. 

Nesse mesmo período do mestrado voltei a frequentar os programas da Aliança Espírita Evangélica, no CEAE, na rua Genebra, e restabeleci contato com antigos companheiros do CVV, na rua Abolição e também na Comunidade Terapêutica Francisca Júlia, em São José dos Campos. Eram antigos compromissos que precisavam ser realizados. Entretanto, o ponto de referência para esse reencontro estava no litoral. Trabalhava em São Paulo com a cabeça em Santos e São Vicente, pensando em todas as coisas que ali aprendi e realizei na companhia de grandes amigos e companheiros de ideal. Pedi remoção para várias cidades na Baixada Santista e consegui ir para uma pequena escola chamada Lions Clube Centro, em Praia Grande. Na verdade houve um engano, da minha parte. A Escola Lions Clube para qual havia feito a indicação de remoção (e que tinha visto em um dos fins de semana que passei num apartamento da Vila Tupi) era outra escola, da prefeitura. Já a Escola Lions Clube Centro, para qual fui removido em 2002, era do Estado, localizada na periferia, bem longe da praia e de casa. Morava nessa época em Santos, próximo do Canal 1 e do Orquidário. A decepção da escolha e do resultado do concurso de remoção logo foi compensada por um convite para atuar como vice-diretor numa pequena escola no remoto e bucólico bairro do Solemar, quase divisa com Mongaguá. Era a E.E. Júlio Secco de Carvalho. Ali descobri que o patrono, de origem portuguesa, foi um dos pioneiros na luta pela emancipação de Praia Grande nas décadas de 1950 e 60. Fiquei por três anos desfrutando do convívio de pessoas com histórias de vida muito interessantes. Recebíamos muitas pessoas que vinham morar nas suas casas de praia, geralmente motivadas por graves problemas pessoais: doenças, mortes de familiares e graves problemas financeiros. Outros eram mais simples, não menos interessantes, que vinham do nordeste, trabalhar na temporada como ambulantes e nos serviços domésticos para os turistas. Professores e funcionários também se vincularam à escola pelos mesmos motivos. 

Do Júlio Secco fui removido em 2006 para para a E.E. Margarida Pinho Rodrigues, na Vila Margarida, escoloa fundada em 1965, ao lado do E.C. Beija Flor. Nessa época também lecionava na Faculdade São Vicente (Integração, depois UINBR), onde fiquei por 13 anos. No Margarida Pinho, escola onde conheci muitos educadores e amigos e também onde pude realizar as primeiras experiências com educação emocional e prevenção do suicídio, aguardo a minha tão sonhada aposentadoria. 

Voltando às questões espirituais, além das sessões espíritas domésticas na casa do meu avô Carlos dos Santos – e também na minha casa-, frequentávamos as atividades do Centro Espírita Fé, Amor e Caridade, presidido pelo Mestre João (João Batista dos Santos), cujo título de mestre nunca teve nada a ver com as práticas espíritas em sim com a sua profissão de torneiro mecânico. Achava muito interessante essa rotina de ir ao centro, assistir às sessões noturnas, tudo muito discreto, tudo muito simples, porém cheio de promessas que despertavam no meu íntimo algo muito especial para a minha alma. Frequentávamos também algumas casas de amigos que cultivavam práticas espíritas. As preces da Dona Maria Barbeiro (Mãe da Dona Dorinda e sogra do Dr. Alberto Assad) me causavam forte impressão, pelo acentuado sotaque português e pela sincera expressão dos seus sentimentos. Nunca esqueci o contato com o nosso primo Olívio Xavier Duque, pessoa muito alegre que conheci quando criança de duas formas: visitando minha casa e conversando com meus pais; e já do outro lado, saudando-nos (Madinha Manoela, Vó Maria, Dona Jacy e eu) pela mediunidade simples do Sr. Chiquinho (Jararaca). 

Certa ocasião, numa dessas sessões caseiras, minha mãe recebeu um “conselho” de um Espírito dizendo que não deveríamos mudar para Santos, pois tudo indicava que as coisas “não dariam certo” e que, brevemente, estaríamos de volta a Epitácio. Numa reação bem previsível e diria, bem kardecista, minha mãe decidiu não seguir esse conselho, mesmo porque sabia que espíritos sérios e superiores não dão conselhos de forma diretiva, nem interferem dogmaticamente na vida pessoal dos encarnados e das instituições. O que poderia ter acontecido? O médium ou intermediário, que havia passado por uma experiência semelhante e que realmente não havia dado o resultado que esperava, nesse caso, deixou-se influenciar por esse fracasso. Ao transpor a mensagem, interferiu sobre as ideias do suposto Espírito comunicante, num processo típico de ruído de comunicação ou então, como se diz entre os espíritas, “animismo”. Mudamos e deu tudo certo, como era previsto por todos nós, dentro das limitações esperadas. 

Em São Vicente fazíamos as nossas sessões domésticas, leitura do Evangelho e, quando necessário, um intercâmbio com o Plano Espiritual. Logo fomos descobertos por uma vizinha, Dona Cleide, que havia se mudado de São Paulo para o litoral, onde também fazia suas buscas por alguma casa ou alguma novidade no movimento espírita. Como nós, ela procurava algo diferente daquelas antigas e tradicionais sessões de penumbra e desobsessão. Nessa época eu estava ingressando na adolescência, porém não perdi o antigo interesse. Minha mãe conta que há muitos anos (na década de 1960), havia lido um artigo numa revista espírita falando sobre a Escola de Aprendizes do Evangelho, existente na Federação Espírita do Estado de São Paulo-FEESP, sob a direção do Comandante Edgard Armond (coronel aposentado da antiga Força Pública). A imagem do Comandante na reportagem, em pé com as mãos para trás da cintura, ficou gravada na mente dela como um sinal de algo que ela já conhecia e do qual precisava se aproximar. O encontro com Escola se daria por meio dessa vizinha, que conduziu minha mãe para cursar uma turma no Centro Espírita Irmão Timóteo, na rua Armando Sales de Oliveira, 53, na Vila Melo. A turma tinha dirigente e expositores vindos de São Paulo, então ligados a um novo movimento cultural: a Aliança Espírita Evangélica, fundada em 1973 por ex-membros da FEESP sob o patrocínio do próprio Armond. Esse grupo que se formou na Baixada Santista fundaria nos próximos anos, entre 1975 e 1985, cinco novas casas espíritas e também o comitê que deu origem aos postos do CVV na região do litoral sul. 

O programa e as reuniões da Aliança em São Paulo eram uma grande novidade para todos nós, algo muito diferente e dinâmico e que tinha como princípio capacitar pessoas para andar com as próprias pernas, atuando de forma independente e multiplicadora. O sistema educativo era revolucionário, não apenas conteudista, intelectual e quantitativo, mas um método iniciático gradual, qualitativo, prático e formador de ativistas. Era o que minha mãe procurava há anos e eu acompanhava de perto, mesmo estando na turma da Mocidade, frequentando informalmente todos os cursos para adultos: escola de aprendizes, oratória para expositores, psiquismo, cromoterapia, passes e radiações, formação de médiuns, tudo apostilado e com farto material audiovisual numa época em essas coisas eram novidades tecnológicas raras: slides, vídeo-tape, fono-postal, livros, apostilas impressas padronizadas, etc. Em pouco tempo tinha adquirido o domínio intelectual quase completo desse sistema; só não tinha o principal: a maturidade espiritual necessária para aprender e ensinar pelo exemplo e vivência. Isso levaria muito mais tempo. 

Essa foi basicamente a minha iniciação no Espiritismo, atividade da qual nunca me afastei totalmente, mesmo reduzindo minha participação direta em instituições espíritas. Minha afinidade com a comunicação escrita e oral sempre abriu oportunidades de colaboração e isso se intensificou no início da década de 2.000, quando decidi escrever e publicar na internet artigos, ensaios e livros sobre o assunto. Um ano antes, morando em Campo Grande (MS), desenvolvi uma adaptação das obras básicas de Kardec para um formato de bolso denominado “Evangelho do Dia”. O piloto dessa publicação, impressa na gráfica do Bonilha, foi testado numa promoção com um centro espírita local e a tiragem de mil exemplares foi rapidamente esgotada. Esse formato seria concluído em seis volumes. 

Em 2001 escrevi simultaneamente dois ensaios, que refletiam ao mesmo tempo a curiosidade pelos temas novos, bem como a crise pessoal e a busca interior decorrente. A Inteligência Espiritual e Você em busca de você mesmo foram vendidos durante uma década e até hoje recebo cartas e e-mails de pessoas questionando conceitos ou agradecendo a utilidade dos textos na compreensão de dificuldades íntimas. Nesse período, quando cursava o mestrado, tomei a decisão de iniciar a Nova História do Espiritismo, trabalho que serviu de base na minha dissertação e também, creio, para preencher uma lacuna deixada por Kardec ao perguntar num artigo da Revue Spirite: Quando ela aparecerá? No Brasil havia a tradução da obra de Sir Arthur Conan Doyle, escrita em 1926, porém a narrativa não ia (quase nada) além do aspecto fenomenal e da história dos médiuns de efeitos físicos. O livro do célebre escritor inglês tratava mais dos fatos do espiritualismo do que propriamente da filosofia do espiritismo. 

A Nova História do Espiritismo foi concluída quando voltei a morar no litoral, trabalhando como vice–diretor na Escola Estadual Júlio Secco de Carvalho, em Praia Grande. Em seguida, escrevi o ensaio “Espíritos nas Escolas”, texto voltado para os educadores, indicando que não há necessidade de fazer proselitismo doutrinário para divulgar o espiritismo em ambientes não espíritas. Nesse período, 2006, estava trabalhando como professor em São Vicente. A partir de 2007, ingressei no universo digital dos blogs e das redes sociais. Desde lá venho publicando minhas impressões sobre diversos assuntos, espíritas ou não. 

Meu interesse e vocação pelas coisas espirituais nasceu, portanto, das andanças seguindo os passos da minha mãe que, já tinha quatro filhos maiores, mas somente eu tinha interesse mais aguçado pelo assunto. Como todos os brasileiros, nossa família herdou o catolicismo por convenção social, porém ele nunca satisfez as nossas inquietações espirituais mais íntimas, nem a busca de respostas para as dúvidas mais profundas. Entretanto, o conhecimento das coisas espirituais do mais Além sempre foram mais fortes e influentes. 

Recentemente perguntei a minha mãe quem foi João Puba e logo sua fisionomia grave transformou-se num sorriso, fruto de uma grata recordação de infância. João Puba era o jardineiro da gerência do Serviço de Navegação da Bacia do Prata e que sempre demonstrou um grande afeto pela minha mãe. Pai de uma grande prole e originário do sertão de Minas Gerais, seu João Puba era cultuador da Festa de Folia de Reis em Tibiriçá e minha mãe e suas amigas eram encarregadas de arregimentar as crianças para abrilhantar a festa e não deixar morrer a tradição que ela tanto presava. Pessoa de aparência e hábitos simples, seu João Puba cumpria à risca as ordens dos superiores para manter a ordem e a beleza da Vila Tibiriçá como se fosse um grande jardim de todos que ali moravam. Conta-se que no dia do falecimento de Armênio Ribeiro, o velho jardineiro estava muito preocupado e logo cedo tratou de cuidar para que o enterro do chefe do Distrito fosse realizado conforme a vontade do morto, que lhe havia solicitado por diversas vezes para que não fosse esquecida sua última vontade ao partir de Tibiriçá. Aproveitando a fartura da época, Seu João Puba logo se apressou, pois não havia muito tempo para que a tarefa fosse realmente cumprida. Os amigos vendo-o quase em estado de aflição, com medo de não conseguir cumprir o que havia prometido, tentavam dissuadi-lo a fazer somente o que fosse possível, mas seu João não concordava. Queria fazer tal qual fora bastante recomendado. Graças a ele, o enterro, que seria realizado no antigo cemitério de Epitácio, teve um momento especial de beleza, gratidão e respeito pelo chefe que partia. O trecho entre a porta da Casa da Gerência até o Mata-Burro, próximo ao aeroporto, não era curto e também não era muito longe, porém, naquele dia triste e inesquecível, o chão, sem falhas no percurso, estava forrado de centenas pétalas de rosa e provavelmente milhares de pétalas de flores de primavera. 

Mas o sorriso de minha mãe não foi somente por ter tido essa lembrança da agonia do velho amigo jardineiro e do enterro do Seu Ribeiro. Ao ser questionada por mim, ela respondeu prontamente: 

“O Espírito do Seu João Puba foi a minha primeira vidência. Numa noite, logo após o jantar, enquanto o Padrinho Guilherme (Borges) lia na sala, intuitivamente me dirigi para a porta que dava para o quintal e deparei com um forte estrondo seguindo de um enorme e inexplicável clarão. Lá estava o Seu João Puba sob as árvores, com a mesma roupa simples, sorridente e segurando sua boa e velha enxada de trabalho. Era um sinal de que ele me acompanharia na minha tarefa espiritual até que pudesse aprender a lidar sozinha com a minha mediunidade”. 

Em nossa família, todos, de alguma forma, tiveram contato com essas informações sobre as coisas espirituais e recebeu essa influência com as respectivas repercussões íntimas para cada um. Nenhum de nós, portanto, poderá alegar ignorância e falta de oportunidades, caso algum dia nossas consciências façam esse tipo de cobrança. Fomos batizados mais por respeito espiritual aos padrinhos católicos, que faziam questão do ritual, do que por convicção religiosa. Minha filha não foi batizada e essa foi uma decisão tomada em conjunto por mim e pela mãe dela, com a certeza de que isso jamais teria algum tipo de implicação de menor ou maior gravidade no seu destino. 

São Vicente ainda me reservou uma experiência educacional que hoje realizo como alegria. Lecionar no CAMP Rio Branco, entidade para menores aprendizes fundada por educadoras, ex-alunas da faculdade. Até aí nada de anormal, porém foi nessa atividade que pude conhecer um lado da cidade que só ouvia falar e nem imaginava como era, de fato, a vida e o cotidiano dos moradores da Área Continental de São Vicente. Para chegar ao Rio Branco, já próximo à rodovia do Imigrantes, é preciso passar pela famosa e antiga Vila Margarida, atravassar a Ponte dos Barreiros sobre o mar Pequeno e passar pelo Quarentenário, Rio Negro e Samaritá. Faço esse trajeto diariamente com transporte coletivo popular, as famosas lotações e eventualmente em ônibus de linhas regulares. Muitos aprendizes vem de lugares ainda mais distantes como o Parque Continental, Vila Ema, Humaitá e outros novos bairros vão surgindo a cada ano que passa. A maioria desses habitantes são migrantes e descendentes de nordestinos, que se deslocam para trabalhar, estudar e usufruir de serviços e mercadorias no centro de São Vicente e também em Santos. A diferença de costumes, os contrastes sociais e o choque de culturas são visíveis, quando comparados com as áreas mais privilegiadas da área insular. Entretanto, possuem força e representatividade política na Câmara Municipal, nos órgão públicos e até uma sub-prefeitura. Quando fui para São Paulo em 1984 essa região era praticamente vazia e isolada da parte insular. Era área rural. Hoje possui mais de 100 mil habitantes. Mas foi dali que conseguimos, pela primeira vez no estado e no Brasil, organizar uma ação educativa de prevenção suicídio com 400 jovens, realizando palestras, cursos na região; eventos como a ocupação da Ponte Pênsil e colocação de placas de alerta com o número nacional 188 do CVV; e da Praça Tom Jobim, na Biquinha-Gonzaguinha no Dia Mundial da Prevenção do Suicídio.