PRÓLOGO
Na minha adolescência sonhei diversas vezes com uma antiga paisagem vicentina. Sonho vivo, no qual perambulava por esses lugares, com o coração apertado, porém bastante familiarizado com tudo que via ao meu redor. Era uma cidade silenciosa, muito verde, sem barulho de automóveis ou de multidões. Nem os bondes eram barulhentos e também não havia muitos cavalos circulando. Tudo era muito perto e tranquilo, assim como registraram os pincéis de Benedito Calixto nas telas ou em diversas fotografias onde aparecem o Morro dos Barbosas, a rua do Colégio e alguns velhos edifícios da Vila Afonsina (hoje todos desaparecidos), o campo onde seria criada a Praça 22 de Janeiro e finalmente a Biquinha de Anchieta. Interessante que nesse primeiro período no qual morei em São Vicente, de 1974 a 1985, não frequentava esses lugares. Fui conhecer a Biquinha quase meio século depois, mesmo morando há apenas algumas quadras dali. Via as fotos e cartões postais, mas não me interessava. As telas do Calixto só conheci em 2020, há poucos meses, quando escrevia essas histórias. Isso me fez lembrar outra curiosidade. No início dos anos 1980, quando recebemos a visita de amigos argentinos e uruguaios, andando pelas ruas próximas à orla, uma das visitantes nos disse que minha mãe já havia vivido em São Vicente em outra época e que andava nesses mesmos lugares os quais estavam visitando. Minha mãe não se lembra de nada. Talvez tenha sonhado muitas vezes, como eu, mas achava que era apenas sonho.
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ALVORADA
SOU DO TEMPO em que São Vicente era Pindorama e só havia índios carijós habitando essa região. Eu e Poty conhecíamos cada pedaço da ilha e também as terras da Serra, onde mora Tibiriba, a nossa amiga de caminhadas e aventuras da imaginação. Entre os índios, como acontece em toda a raça humana, imaginar é construir o que vai acontecer. O que passou fica na lembrança e deve servir sempre de alerta para o que está acontecendo. Mas o que vai acontecer é pura imaginação. Lembro de tudo o que vivi em São Vicente, desde quando não existia uma só casa de pedras e tijolos. Vi muitas chegadas e partidas e tenho lembrança de todas as pessoas que, como eu, aqui viveram e reviveram suas fantasias na infância, as ilusões na juventude, as desilusões adultas e a resignação da velhice.
Quem vive em São Vicente, por mínimo que seja o tempo da existência, tem seu destino traçado por orientadores de Alvorada Nova, um mundo paralelo, das causas, que guarda todas as nossas memórias e define o tipo de experiência teremos que realizar no mundo fenomenal dos efeitos. Alvorada Nova tem portais de acesso e retorno em vários pontos da região, desde Peruíbe até a Bertioga. Foi imaginada e erigida por europeus, indígenas e africanos que já ultrapassaram barreiras dos sentidos físicos e vivem livres e senhores de si mesmos. É ao mesmo tempo um Céu, um Pindorama e um Kalunga. Eles pensam em conjunto e as coisas ficam prontas e luminosas, sem dificuldades, com as suas mentes limpas e cheias de virtudes. Alvorada Nova também tem uma parte escura, que reflete as mentes sujas e impuras, ainda dominadas instintos e pelas escolhas errôneas, vivendo ali os que têm os corações oprimidos pelos sentimentos ruins e sentem falta da privacidade e das ilusões da carne. Na luz vivem os nossos orientadores, pessoas boas e alegres, como o Padre Vicenzo, as educadoras Anália Franco, Escolástica Rosa e Irmã Dolores, o farmacêutico Cairbar Schutel, o médico e poeta Martins Fontes e muitas outras almas de ciência e empreendimento, conhecidas e desconhecidas de quem está na carne. Na escuridão de Alvorada Nova, nos umbrais, ainda vivem os perdidos na erraticidade, os criminosos, os orgulhosos e presunçosos, os preguiçosos e todos os egoístas e ressentidos, nossos irmãos, de todas as raças, que ainda não conseguem amadurecer o suficiente para voltar à luz depois dos erros e do desperdício do tempo da existência. Eu que o digo, por tudo que vi, tudo que passei e ainda estou passando. Tem também os que vivem nas paragens medianas, do lusco-fusco, gente sem maldade no coração, mas ainda escravos de costumes, crenças e ideias, que aos poucos vão se iluminando. Eu vivo nessa faixa, ora embriagado de luz, ora derrotado pelas paixões. Nos finais de tarde, quando trabalhava em uma escola no Solemar, apareciam por lá os Condutores de Almas vagantes. Eles não podiam ser vistos pelos seres perdidos e estes os conduziam pelo sopro nos ouvidos. Sopravam também nos meus, para que os socorressem.
“Aponte para aquelas nuvens que estão em próximas da montanha e ordene a eles que olhem naquela direção. Digam que eles devem ir para lá... Diga que obedeçam e que se dirijam para a montanha, que é a portão da volta para casa”.
Alguns iam rapidamente desaparecendo nas nuvens. Outros tinham dificuldades, mas depois conseguiam. Nesse portal do Solemar, perto da cidade da Criança e junto à serra, sempre se formam arcos-íris, anunciando a migração de almas dos umbrais para as esferas mais altas.
Tenho nome, mas não posso e não devo revelar porque, apesar da minha idade avançada, desta minha última jornada cronológica, no tempo da consciência, ainda sou criança, sem o domínio da Mente Maior, fruto que ainda não foi ao chão e não caiu em si. Minha bússola diz que ainda não chegou o momento da minha ruptura – para não voltar mais ao mundo fenomenal – e entrar definitivamente no outro lado da Vida, no mundo pleno. Por isso, como a maioria da humanidade, ainda existo, incompleto, oscilante; ora no astral - o mundo dos sentimentos e das emoções-; ora na carne, aprendendo a pensar e criar coisas puras quando habito o éter; e também quando nos corpos sanguíneos, desviando-me das ilusões, lutando para controlar os impulsos e os instintos. Sou Espírito comum e iniciante, mais inclinado aos erros do que nos acertos. Pertenço à uma grande família do ramo tupy, desde a longa caminhada que nos trouxe das terras frias da Ásia para esses lugares quentes do sul do continente americano. As linhas dos nossos destinos foram traçadas há muitos milênios e numa delas houve, em tempos muitos remotos, um cruzamento acidental com as tribos celtas que ocupariam a península ibérica.
Nesse período de contato, de luta entre a força e a harmonia, adquirimos compromissos mútuos que o tempo se encarregaria de ajustar. É nessa família que tenho as raízes e os vínculos mais antigos e na qual posso viver e reviver, sempre que necessário, no recôndito do ventre de mães generosas da nossa raça. Outras vezes, com a permissão e gentileza de outras famílias afins, encontro abrigo no seio de outras etnias que aceitam heroicamente a tarefa de iluminar o meu pobre espírito.
Assim, de tempos em tempos, mergulho na carne, existo por alguns anos, entre o gosto amargo das provas e o gozo dos prazeres. Mas guardo na memória todas as cenas e acontecimentos e conservo delas as experiências que têm valor para a alma. As demais eu esqueço ou então volto ao mundo físico para que se desfaçam em outras provas de dor e longe das tentações.
Poti e Tibiriba, almas amigas, sempre me acompanham nessas idas e vindas à carne, por necessidade e também por amor e vontade de me ajudar. Elas já se purificaram mais do que eu e nem precisam existir mais nessa minha frequência e, mesmo assim, gostam de rever-me nos mesmos cenários, em situações diferentes, só para ver como eu me saio em novas provas; e também para rirmos juntos das minhas trapalhadas.
Um dia não vou ser mais criança. Vou dormir Curumim e acordar no meio da longa noite transformado e maduro, revelando o meu nome verdadeiro, dado a mim quando fui criado por Tupã e que está guardado no coração de Yara. Aí então vou poder pronunciá-lo com a minha própria boca e dizer quem eu sou sem receio e aparências.
Hoje é sábado, 11 de janeiro de 2020 e são 8 horas da manhã.
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O MONSTRO
NESSE INSTANTE minha mente está cheia de recordações. Meus olhos estão olhando para o chão molhado pela chuva de verão e meus ouvidos ouvem os repetidos trovões que anunciam que vai chover o dia inteiro, espantando os turistas que caminham pelo calçadão da praia e os que aproveitavam os últimos minutos de sol deitados sobre a areia.
Os ritmos da natureza ainda são a suprema força que movimenta o planeta. A chuva, o vento e os trovões despertam em mim a vontade de ver o mar e a arrebentação das ondas. É irresistível e faço isso há séculos. Antes tinha muito medo dos raios. Hoje sei que eles ainda caem por perto, mas conto com abrigos dos quiosques ou das marquises dos prédios perto da orla.
Saio de casa e em poucos minutos estou lá olhando o mar. Mais alguns minutos e duas ou três trovoadas são suficientes para eu ver a praia com outros olhos. Não tem calçadão, quiosques, não tem avenida asfaltada e edifícios altos. Não estão lá também os moles de pedras construídos para conter as ressacas, quebrando a mureta e inundando a rua. Ao redor só areia e o jundú rasteiro sobre as ondulações de terra. É a Mahuá, a pequena praia entre o Morro da Biquinha e a Ilha do Mudo, na qual deságuam alguns riachos, cavando sulcos na areia. Do outro lado da baía vejo o Morro do Japuí e parte da floresta do Xixová.
Já fazem duas décadas que o novo século começou e São Vicente está praticamente a mesma desde quando fui morar em São Paulo em 1985. Vejo na internet fotografias antigas da cidade, em diferentes épocas, e percebo que houve poucas mudanças nos pontos mais importantes. Algumas delas são repetitivas e banais, como o os cartões postais. Outras me causam sensações mais profundas, talvez porque registraram momentos, lugares e pessoas que conheci. Essas são emotivas e despertas muitas lembranças. Tenho essa habilidade natural de ler fotografias com o terceiro olho e parece que entro naquela cena registrada e tudo passa a ter três dimensões. Achei que era um fenômeno sobrenatural, mas logo desfiz essa impressão ao ler o livrinho de Boris Cosoy, catedrático do assunto, teórico e prático. O jeito como ele analisa as fotografias são descobertas de diferentes dimensões da mesma imagem. Com ele parece ser fria e racional; comigo acontece de forma temperamental e perturbadora. O mesmo acontece quando passo em algum lugar no qual sou tomado por desequilíbrios, coisa incontrolável, como um transe psíquico ou sonambúlico.
Sigo caminhando e conforme me aproximo do Itararé a paisagem retoma sua aparência de cidade grande e ouço barulho de carros em alta velocidade em direção a Santos. No fim da calçada entro na Praia dos Milionários, que está vazia de banhistas e com apenas alguns trabalhadores ciclistas que cortam caminho para evitar o trânsito da rua 11 de junho. Ali fico um bom tempo apreciando a baía, onde reina uma certa paz, proporcionada pelo silêncio do mar. Tento me recompor desses transes de memória, dos quais já me acostumei e que me deixam até mais senhor de mim mesmo. Antes ficava assustado e com a impressão de que a loucura havia se instalado em minha mente. Mesmo assim fico apreensivo porque, quando isso acontece, algo em seguida surge algo inesperado e só passa quando o coração não fica mais apertado.
Alguns minutos depois ouço alguém chamando repetidamente pelo meu nome. Era Isabela, filha de uma amiga que sempre encontro nesses passeios pela orla. Raramente conversamos e somente trocamos uma rápida saudação de reconhecimento. Dessa vez ela se antecipou e se dirigiu a mim de forma bem diferente. Estava sorridente e eufórica, muito inquieta. Disse que precisava me contar uma coisa. Estranhei, pois ela nunca havia me contado nada. Achei que era alguma fofoca que haviam contado sobre mim e que ela soube através da mãe. Nada disso. Me pegou pelo braço e disse que tivera à noite um sonho muito estranho. Começou a falar e já não estava mais sorrindo. Sua mão segurou mais forte o meu pulso e foi apertando na medida em que a história se desenrolava. Disse que estava na praia e foi surpreendida por uma tempestade. O céu foi ficando escuro, todos foram sumindo das ruas e ela foi ficando perdida e sozinha. Apavorada lembrou que morava por perto e dirigiu-se para o meu apartamento, já em meio ao caos que tomava conta da cidade, com chuva de vento e redemoinhos gigantescos que percorriam as ruas arrancando telhados, revirando carros, quebrado e arrancando vidraças. Já dentro da minha casa percebeu que as coisas haviam piorado com a ventania tirando pedaços dos prédios vizinhos. Os redemoinhos eram tão fortes e densos que forçavam e quebravam as janelas dos apartamentos. Ela tentava falar comigo pelo celular, pois eu não estava em casa; tentou falar com a mãe e com alguns amigos e ninguém atendia. Convenceu-se de que já estavam todos mortos. Tentando enxergar o mar, quando se aproximava da janela da sala, era logo atacada pela rajada de vento e pelas vergastadas de chuva sobre a vidraça. Ouvia muitas vozes que vinham de longe dizendo que a cidade estava sendo totalmente destruída pelo ciclone. Outros gritavam enlouquecidos: “É o Hipupiara, é o Hipupiara”. Acordou com esses gritos de desespero. Ainda era madrugada. Não dormiu mais. Só ficou mais calma quando me viu andando pela praia e pensou que eu havia tido o mesmo sonho. Percebeu que, embora não aparecesse no sonho, eu estava perto dela o tempo todo testemunhando a sua angústia. Disse, espantada, que nunca havia sonhado daquela forma tão intensa e verdadeira, embora estivesse totalmente fraca e impotente diante do que acontecia. Queria explicações. Respondi que não sabia explicar e nem soube que havia chovido tanto naquela noite, pois havia tido um sono muito profundo. Só não contei pra ela que , enquanto falava e segurava o meu pulso, vi tudo o que se passava naquela sonho, exatamente da forma como contou e como percebeu a minha presença nele. Isabela não estava inventando nem mentindo. O Hipupiara havia voltado com toda a sua fúria, a mesma fúria com que tinha destruído o Tumiaru e todas moradias da vila de Martim Afonso em 1540. Daquela vez foram somente algumas casas e o sino da igreja. Agora seriam os edifícios, os monumentos, muitos automóveis e motocicletas que iriam ser tragados pela fúria do mar. Enquanto Isabel falava e se aliviava daquele pesadelo, meu coração era tomado pelo pavor e a certeza de que a qualquer momento o mundo todo iria acabar, pois tinha visto que não era somente a cidade que foi tomada pelas águas. O mar havia chegado até a Serra, como era há cinco mil anos, antes de recuar e formar as ilhas, as praias e os morros. Depois que soltou meu pulso Isabela parecia ter tido um delírio semelhante a um transe sonambúlico que a fez esquecer tudo que me contara. Despediu-se sorrindo e saiu correndo para fugir dos pingos da chuva que voltaram após uma breve estiagem.
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O JESUITA
DALI MESMO fui até a Pedra do Sol. Ninguém por perto. Encostei numa das pedras tentando entender o que aquela pequena ventania queria me dizer. Entendi que era preciso subir a rua da Ilha Porchat, caminhando pela calçada do lado direito. Passando algumas casas , quase já no topo, tem o matagal de onde é possível ver Paranapuã e Itaquitanduba, as duas praias milagrosamente desertas, quase tão selvagem quanto na época da chegada dos primeiros europeus.
Sentei-me na mureta e continuei olhando o movimento das ondas entre a ilha e o maciço Xixová-Itaipu. Em alguns momentos tive a impressão de ter visto enormes bancos de areia e nelas, tombadas de maneira irregular, algumas torres pontiagudas de pedras. Não é um lugar comum. É um santuário protegido por forças desconhecidas e que desestimulam qualquer tentativa de civilizar aquele local.
Já é fim de tarde e vejo que há um movimento suspeito em Paranapuã. De longe dá prá ver que são jovens que perambulam pelas areias numa agitação alegre. São somente meninos, a maioria negros e mulatos, todos usando calção de mescla azul. Subitamente me vejo na praia junto eles e não sei como fui parar lá, no meio daquela correria. Também estava de calção, mas um calção branco meio encardido. De longe alguns homens altos e fortes, de braços cruzados, nos observam enquanto corríamos pela areia, depois do banho de vento. Ficamos ali brincando até cansar, quando alguns sentaram no chão, outros deitaram até que a euforia da brincadeira fosse vencida pelo cansaço.
Ao sinal dos vigilantes fomos todos entrando em fila por uma trilha até chegar em uma grande construção de tijolos e concreto, que parecia ser uma escola, mas não era. Uma placa de metal segurada por caibros de madeira informava que naquele local funcionava uma unidade da Fundação do Bem Estar do Menor-FEBEM.
Interessante que ao entrar na fila da volta da praia ninguém percebeu minha presença, a não ser alguns meninos que, como eu, estavam de calção branco e tinham feições de mamelucos e não dos mulatos e negros. Enquanto alguns se dirigiam para tomar água nos bebedouros ou tirar a areia dos pés nas torneiras, muitos permaneciam sentados num pátio onde aguardariam o jantar. Entre eles percebi que muitos não eram crianças e quando alguns deles percebiam a minha presença passavam a me olhar de forma diferente.
Uns se envergonhavam, outros sorriam e outros me desafiavam com reprovação e ameaça. Reconheci todos eles, lembrando os nomes e de quem eram filhos. Alguns poucos eram os primeiros caçadores do Bacharel e outros eram de outras épocas e lugares próximos, mas todos capturadores e mercadores de escravos.
Nem todos porque entre eles também estava o Padre Vicenzo, magrinho e esperto, sempre sorridente, mostrando-me um crucifixo de madeira e querendo me dizer que ali estava para aprender um pouco mais e cuidar de algumas almas queridas que ainda tinham muitos pecados para espiar. Acenei pra ele dizendo que morria de saudades das suas aulas de teatro e canto. Só não gostava da missa. Conhecia todas as famílias brancas e indígenas da região e tinha um inventário de tudo o que acontecia com elas, desde as crianças até os mais velhos. Perguntei onde estavam algumas delas e ele, em pensamento, me contou que tiveram diferentes destinos, mas sempre voltavam a São Vicente, de alguma forma. Ele as reconhecia nas ruas e tocavam em seus corações ao aproximarem e elas nem percebiam. Apenas davam gargalhadas ou então sentiam algum tipo de saudade inexplicável, como a que senti ao vê-lo sorrindo entre os meninos presos na FEBEM. Quis chorar naquele instante, porém ele me advertiu que eu poderia ser descoberto por alguns mamelucos ainda muito teimosos e revoltados, causando algum tipo de inquietação naquele local.
Padre Vicenzo lembrou que o governo já estava pensado em desativar os reformatórios em todo o estado e encontrar outra forma de educar essas crianças. Esse formato era muito perigoso e atraia muitas almas inimigas e vingativas, como nas as prisões de adultos e hospitais psiquiátricos. Naquele momento recordava de todos os abusos e violências sofridas pelos nossos irmãos e que as mesmas coisas aconteceram com os africanos escravizados. “Até chegar a solução –disse o padre - já nos preparamos para enfrentar outras batalhas, pois os meninos já estarão adultos e poucos terão forças para se reajustarem com a lei. Daqui há algum tempo estaremos lá nas terras do Samaritá e em Mongaguá, reconduzindo as nossas almas perdidas”. Ele estava se referindo à construção dos presídios para adultos, na área Continental e no Litoral sul. Não entendi porque construir presídios ao invés de escolas. O padre sorriu e me fez entender que essas almas que acabam indo para os presídios são antigos mamelucos desviados para o crime e, por não aceitarem a educação, vão agravando seus débitos. Todas as cidades que foram fundadas a partir da corrupção e destruição de núcleos indígenas hoje abrigam esses criminosos em presídios e também nos educandários prisionais para jovens. Como é um sistema imperfeito e agravado pelo convívio pernicioso, a maioria não consegue se regenerar. Não há outra solução no momento senão a de curar pelas semelhanças.
Padre Vicenzo vem atuando nesse setor há muitas gerações. Quando o Paraná ainda fazia parte da Capitania de São Paulo, ele foi encarregado de reeducar um grupo de soldados rebelados que foram condenados ao isolamento na colônia de Catanduvas. Os soldados eram do regimento de Santos, a maioria com idade entre 18 e 24 anos, entre eles muitos vicentinos. Desolados pela condenação injusta, aqueles soldados só puderam avaliar a gravidade dos seus gestos quando receberam a sentença que destruiria suas esperanças pelo resto de suas vidas. Pensavam em fuga ou suicídio, o que era praticamente a mesma coisa viver para sempre numa região tão distante e selvagem. Vicenzo sabia que aqueles jovens não eram tão inocentes e injustiçados quanto eles pensavam. A memória do padre ia além daquela existência frustrada pela condenação. Todos eram mamelucos que participavam de incursões criminosas para expulsar os índios de suas terras, a serviço de fazendeiros ambiciosos. As incursões eram traiçoeiras, violentas e cruéis e não poupava nem as crianças, que tinham seus crânios esmagados pelo cabo das espingardas. Viam os índios como animais que atrapalhavam a criação de gado e o plantio das lavouras. Muitos desses grupos expulsos ou mortos por eles se reuniram nessa região do Paraná e continuaram sofrendo com a ambição dos fazendeiros. Perguntei o que aconteceu com os rapazes e ele me respondeu que havia feito um plano de regeneração para cada um deles. Obteriam anistia da pena de 20 anos se constituíssem família com as mulheres indígenas da Colônia, já educadas para esse fim. Aceitando a proposta, eles receberiam terras se estabelecerem como sitiantes. Nem todos conseguiram honrar o compromisso, entretanto os que se firmaram nessa promessa colheram bons frutos naqueles dias e também em outros tempos que viriam. “E os que desertaram”? perguntei. Padre Vicenzo respondeu que alguns deles estavam ali no reformatório de Paranapuã, aguardando dias melhores.
Acordei desse cochilo rápido e, ainda impressionado, voltei para a praia. Já estava escurecendo e meu estômago pedia um café com bolo. Na caminhada em direção ao centro, sempre com a imagem dos caçadores mamelucos e do Padre Vicenzo, vinha pensando onde iria encontrar um lugar que tivesse um bolo pronto para vender, de preferência bolo de fubá. Lá resolveria, dependo do calor, se tomaria café ou um guaraná bem gelado para acompanhar o bolo.
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CANANEUS
VENDI O CARRO e só ando de bicicleta. Também reaprendi a andar de ônibus. Uma delicia poder ver a paisagem pelas janelas grandes sem me preocupar com o trânsito e com os carros que estão na frente. Não preciso buzinar, nem pensar onde estacionar, livre dos impostos e do combustível. No começo sofri com as lotações, por causa da bagunça. Agora a cidade tem um novo sistema de transporte, ônibus grandes com ar condicionado e com linha e horários definidos. Nos ônibus intermunicipais que vão para Santos, seguindo as duas linhas mais antigas e herdadas dos bondes, é possível dar a volta pela ilha: pelo Matadouro ou pela Praia. Nos finais de semana, quando ônibus estão mais vazios, costumo fazer esses dois percursos e sempre desço na Ponta da Praia para apreciar o movimento dos navios entrando ou saindo do porto. A bicicleta me salvou do tédio e dos custos de deslocamento para alguns lugares distantes. Só não vou na área Continental e nas cidades vizinhas, com exceção de Santos, onde percorro toda a orla até o canal 7. Uma redescoberta fabulosa que me fez sentir livre e mais jovem. A ideia de ter uma bicicleta foi da Verônica, que também tem uma e anda com ela por todos os cantos da cidade. Sempre vamos pedalando até o Cine Posto 4, no Canal 3, e lá deixamos as bikes presas no estacionamento em frente à Concha Acústica.
Sexta-feira à noite recebi um e-mail de uma amiga que mora em Praia Grande me informando que o Porto das Naus estava ocupado com barracos. Ela passa todos os dias pela Ponte Pênsil e pôde ver que o local vinha sendo invadido, pois as cercas de proteção haviam sido derrubadas. Fazemos parte de um grupo que estuda e protege o patrimônio histórico da cidade. No sábado de manhã, após o café, combinei com a Verônica e fomos pedalando até o Japuí. Queria verificar e fotografar essa invasão. Atravessamos a ponte e logo chegamos ao local mais antigo da ilha. As ruínas de pedras onde foi a primeira alfândega do Brasil e depois onde funcionou o engenho de Jerônimo Leitão está cheio de roupas velhas espalhadas pelo gramado. Havia fios de nylon amarrados entre as árvores, servindo de varal. As cercas de arame e pilares finos de cimento estavam derrubadas. Vestígios de fogueiras e lixo urbano em abundância. Alguns moradores de rua dormiam sob às árvores e na entrada principal o Monumento da Cruz Real estava coberto pela vegetação. Fizemos algumas fotos com os nossos celulares e voltamos rapidamente para a Ilha com uma sensação de frustração e tristeza. Um lugar como aquele, de tão alta importância histórica, tombado pelos órgãos de defesa do patrimônio, abandonado e desprezado pela população. É a única prova de um dia tivemos aqui a presença de naus portuguesas e de outras nacionalidades mercantilistas do século XVI.
Quando o Brasil ainda era Pindorama e não havia tantos portugueses dando ordens e cobrando impostos, a nossa terra era realmente um paraíso dos trópicos. Um mar imenso, que nos dias ensolarados era verde claro, transparente e que nos dias nublados tinha a cor cinzenta de ardósia. A floresta era sempre verde e densa, refletindo sua escuridão nas águas do mar, protegendo a terra do calor e das chuvas torrenciais que aconteciam entre as estações. Quem caminhasse na praia, de dia ou de noite, olhando o azul infinito ou seduzido pelas luas, tinha a impressão de estar no paraíso, o Pindorama dos Sonhos. Mas não era impressão. Era o paraíso mesmo.
Nessa época já se viam muitos navios passando pra lá pra cá e, de vez em quando, um deles estacionava na grande ou na pequena enseada e ali ficava por algum tempo até que alguns tripulantes descessem uma embarcação menor , entrassem dentro dela e remassem em direção à praia. Ouvia-se nesse instante alguns gritos vindos da casa do alto do mastro da embarcação indicando a direção da terra, quebrando o silêncio, indicando o rumo que o pequeno bote deveria tomar. Alguém no bote sempre gritava de volta:
- Cala essa boca que já estamos quase na areia!!!
A língua estranha é essa que agora falo e escrevo com naturalidade, tão natural como o tupy que todos falávamos. Só não sabíamos escrever porque não era necessário. Tudo que era necessário estava guardado na memória e os mais velhos nos ensinavam a não esquecer essas coisas importantes que mais tarde seriam uteis. Entre nós já existia alguns homens iguais ao que desciam dos navios estacionados, homens que sobreviviam aos naufrágios e viam dar na praia, desesperados, famintos e cansados de nadar. Homens marcados pelo degredo e homens do naufrágio, cujas embarcações se despedaçavam nas pedras ou simplesmente afundavam durante as tempestades. O mais calmo deles era o náufrago Ramalho, que andava nu e percorria todos os lugares atrás de riquezas e novidades. Era muito curioso e queria saber de tudo o que existia e também o que acontecia em nosso e nos outros pindoramas. Era um homem de estatura média, cabelos encaracolados e, como todos daquela época, usava uma volumosa barba que lhe servia marca de honra e coragem. Sua aparência e comportamento revelava que tinha sido alguém importante em Vouzela, sua cidade natal, pequena vila distante três horas de Lisboa. Figura misteriosa que até hoje ninguém sabe como e por quê veio parar no Brasil, se por impulso aventureiro e ânsia de vencer na vida ou por causa de um grave erro cometido ou ainda vítima de perseguição religiosa. Nessa última hipótese ele poderia ser um cristão novo ou judeu convertido, tese pouco provável pois nunca levantaram tal suspeita durante seus embates políticos ou negociatas permitida somente aos cristãos de tradição.
Havia também o Bacharel, degredado que falava um pouco diferente do Ramalho e do Rodrigues, um sotaque mais duro e de som estridente e sibilado, que combinava muito bem com o seu jeito mandão e agressivo. Esse era o Fernandes, como o chamavam os outros brancos e depois todos nós. Cosme Fernandes era judeu-espanhol, muito ligado aos negócios do Porto de Lagos, principal porta de entrada de escravos na Europa. Fernandes olhava o tempo todo para o mar, procurando navios. Ramalho e Rodrigues olhavam o tempo inteiro para as montanhas. O Bacharel era habilidoso com as mãos e muito inteligente para fazer planos. Queria que o lugar fosse atraente e despertasse a atenção de outros navios com os quais pudesse fazer negócios de trocas. Andava sempre acompanhado de muitos de nós, que pensavam e agiam como eles, ávidos pelas novidades de ferro , panos para o corpo, armas mortais para caça e guerra. Era um pequeno exército pronto para o combate em defesa da terra e dos negócios. Junto com Fernandes eles construíram um pequeno porto atrás da Ilha do Sol, no pequeno mar, onde tinha outra saída para o Atlântico, próximo ao Piaçabuçu, o grande rio que vinha da montanha. Era um lugar seguro e protegido de tempestades e de malfeitores do mar. Junto ao morro do Japui fizeram um capão com algumas cabanas, uma grande casa de pedras e ao redor delas plantaram raízes, legumes, grãos, frutas e criavam animais que conseguiram dos navios que passaram a aportar ali com mais frequência. Ao lado do porto construíram também uma oficina de embarcações, onde faziam reparos e até outros navios, de encomenda.
Fernandes sabia recompensar os nossos irmãos que andavam com ele, dando-lhes coisas valiosas e ensinando outras que eram úteis no dia a dia. Eles o acompanhavam aos lugares próximos e distantes, para fazer negócios, como na Cananéia, quatro dias e noites para o sul, onde havia outros brancos iguais a eles. Esses cananeus eram mercadores de escravos, capturados nos pindoramas espalhados naquela região e também no Peabiru, enquanto caminhavam pela floresta. Nossos irmãos capturados, geralmente meninos e meninas, eram entregues nos navios e dali eram levados à Europa, onde eram revendidos. As meninas eram oferecidas nas casas ricas ou nos bordéis, que as transformavam em mercadorias sexuais exóticas. Os meninos ser tornavam serviçais até ficarem velhos, alcoólatras e moribundos, jogados pelas ruas das cidades portuárias da Espanha ou da França. No começo as capturas de escravos eram escondidas, para evitar o temor nos pindoramas mais próximos das praias. Com o tempo elas se tornaram mais frequentes, causando estranhamento e desconfiança em todos. Elas eram ensinadas aos nossos irmãos pelos velhos marinheiros que conheciam as artimanhas da captura. Esses marujos eram contratados nos portos do Mediterrâneo, sobretudo em Lagos. Os nossos irmãos antigos, que se misturaram com eles, foram se afastando e deixando de ser nossos irmãos, passando a nos tratar como estranhos e até inimigos. Já não falavam mais o tupy e acostumaram a usar roupas e botas. Passamos a chamá-los de mamelucos, gente traiçoeira e perigosa, doentes da cabeça e dominados pela ambição.
A Ilha do Sol foi ficando mais distante de Gohayó. Nem o Ramalho e o Rodrigues gostavam de ir lá porque o Fernandes e seus filhos mamelucos os estranhavam. De tempos em tempos o grande chefe Tibiriçá vinha de Piratininga, depois da montanha, onde morava, até a Gohayó. Fazia muitas perguntas para Ramalho e para Rodrigues sobre o Fernandes e os mamelucos dele. Ramalho ficava quieto e contrariado, com medo que Tibiriçá os atacasse com seus guerreiros. Não gostava de Fernandes, mas não queria afastá-lo por causa dos negócios. Tibiriçá não entendia muito bem o que Ramalho lhe explicava, porém ficava intrigado, embora confiasse no seu genro. Quando isso acontecia, Ramalho procurava distrair Tibiriçá convidando-o a caminhar e mostrar as coisas que tinha descoberto. Andavam o dia inteiro sem se cansarem. Voltavam já “à tardinha”, com diziam os brancos, quando o sol estava se pondo. Tibiriçá queria saber como o Fernandes tinha feito aquela oca de pedras. Queria fazer ocas iguais no Piratininga, para ele e para seus filhos. Ramalho prometeu descobrir e ensinar, explicando que teriam que encontrar e carregar muitas pedras.
Tibiriçá não ia a lugar nenhum sem Bartira, sua filha mais forte e atirada, que queria ser guerreira, mas por ser mulher não deveria lutar como os homens do pindorama. Foi por isso que Tibiriçá deu Bartira para Ramalho, dizendo a ela que o amigo precisava aprender a ser igual a eles e governar os pindoramas quando ele fosse morar em Alvorada Nova, lugar dos mortos que ficava dentro das águas das cachoeiras. Os brancos mortos diziam que ao morrerem iriam para o céu, lugar feliz; ou para o inferno, lugar triste e escuro, onde se reuniam os maus e os mamelucos. Nossos mortos de coração limpo caminhavam até as cachoeiras e ali encontravam uma porta que os levavam ao lugar onde as manhãs só acabavam quando as noites enluaradas ocupavam o lugar do dia, cheias de encantos e mistérios. As manhã eram sempre novas, depois das noites de lua, quando reencontravam seus entes queridos que já tinham partido e também todos os animais caçados, que haviam morrido para que se alimentassem. Nem Tibiriçá nem Ramalho acreditavam muito nessas histórias, geralmente contadas por Bartira a eles, aos seus filhos e netos. Mas todos ouviam em silêncio, com curiosidade, medo e respeito, até que ela terminasse. Bartira vivia tendo sonhos premonitórios nos quais chegavam muitos navios e que neles estavam guerreiros que lutavam furiosamente contra Fernandes e os mamelucos. Nos sonhos ela e Ramalho eram gigantes e estavam no mar quando os navios passavam entre as suas pernas, sem que fossem tocados ou molestados dirigindo-se à praia com tochas de fogo em busca dos mercadores de escravos. Bartira acordava assustada querendo conversar e compreender o que significava esses sonhos, porém Ramalho a distraia com histórias sobre o lugar distante onde havia deixado seis pais e seus irmãos, dizendo que um dia todos iriam para lá visitá-los. Bartira pegava no sono novamente enquanto Ramalho permanecia acordado pensando no sonho da esposa índia e nos seus sonhos de homem branco.
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CINEMATOGRÁFICA
DIAS DESSES fui visitar um amigo que conheci pela internet, vendo e compartilhando fotos de edifícios antigos da cidade. Ele conhece praticamente todos os prédios e fez um guia no qual consta um inventário sobre as obras arquitetônicas de destaque. Paulistano, escolheu São Vicente para curtir a aposentadoria, mas depois de algum tempo enjoou e acabou voltando para a Capital, concluindo que lá, apesar da solidão, poderia desfrutar o cosmopolitismo e vida cultural de São Paulo . Na mudança se desfez de muita coisa, inclusive uns livros que me deu de presente, sobre a história vicentina. Morava no edifício Marahu, no Boa Vista, prédio ondulado com persianas amarelas, erguido bem na ponta que divide as praias do Itararé e Milionários. Sempre que subo a ilha, na volta sento na mureta em frente a esse prédio porque é um ponto onde se pode ver a Pedra do Sol e também a Praça das Bandeiras. Gosto de ficar ali em dias sem movimento, geralmente no final da tarde.
As persianas do Marahú já estão desbotadas. Quando vim morar no litoral, em 1974, elas ainda tinham um tom de amarelo bem forte, cor que combinava com verões quentes das temporadas dos anos 60 e 70 nas quais o Itararé e o Gonzaguinha eram os principais rivais do Guarujá e ainda frequentado pela alta burguesia paulistana. Foi então que duas cenas vieram à minha mente ao olhar demoradamente para a janelas do Marahu. Cenas cinematográficas. Na verdade, foram três, mas cinematográficas foram só duas.
Estou no Itararé andando pela areia, num dia de semana à tarde. A cidade está silenciosa e quase não se ouve barulho de carros. Meus olhos percorrem lentamente todo aquele cenário paradisíaco. O Edifício Marahu ocupa boa parte do meu olhar, exatamente igual ao que estava fazendo há pouco. Avisto de longe um caminhão velho vindo em direção à ilha Porchat. Uma algazarra na carroceria quebra o silêncio. O caminhão estaciona e todos descem e correm em direção à areia do Itararé; logo depois voltam, atravessam a rua e vão para a praia dos Milionários. De longe se vê o Gonzaguinha, com alguns edifícios em construção e algumas mansões na orla, com suas árvores grandes e vistosas. Olho para o mesmo edifício que me distraiu há poucos minutos e o vejo bem diferente. Está novinho, em folha. As persianas amarelas estão novíssimas, tão novas que ofuscam os olhos com a claridade intensa do sol. A turma do caminhão retorna para o Itararé, onde troca de roupa e vai divertir-se no mar. A Ilha Porchat está repleta de árvores e não se vê nenhum edifício nela. Dos que desceram do caminhão reconheço apenas um adulto. Já de meia-idade. Ele anda de um lado para outro, gesticula fartamente, à moda italiana, e organiza uma roda de dança que reúne todos os visitantes. Na verdade, trata-se de um elenco. O homem de meia-idade é Amácio Mazaroppi dirigindo uma cena do filme “O Vendedor de Linguiça”. Estamos em 1962. As novíssimas persianas do Marahu emitem uma claridade excepcional, mas não têm cor alguma. O filme é preto e branco.
Na sequência, como se fosse uma mudança de cena nos sonhos, vejo outras pessoas, em algazarra, no mesmo lugar. Agora é uma pequena multidão em alvoroço, dando a impressão de que alguém se afogou ou foi atropelado na rua que divide as duas praias. No meio dela surge um rapaz com toda pinta de galã de cinema. Com shorts curtos e uma camiseta com listras grossas e mangas compridas. Ele procura uma garota, que logo encontra, dá as mãos e corre em direção ao mar, onde vão divertir-se. O galã é o ator Walmor Chagas. A garota é a atriz Ana Esmeralda. Tudo está em preto e branco. Ele de costas para o Ilha Porchat Club e ela de costas para os edifícios do bairro na direção de Santos. Continuo sentado vendo aquelas cenas do filme São Paulo Sociedade Anônima, gravado em 1965. São Vicente está no apogeu do “boom” imobiliário e suas praias são as mais cobiçadas do litoral, pela proximidade da Capital e fácil acesso pela rodovia Anchieta. O Itararé e o Gonzaguinha gozam de prestígio e esbanjam um charme comparado a qualquer praia elegante da Europa, do México e do Hawai. É de uma beleza simplesmente deslumbrante. Por isso são cenários de filmes, com atores de grande fama. Darlene Glória, Eva Vilma, Otelo Zeloni estrelam essa produção. Darlene aparece numa cena chegando de lancha. Antes ela tinha ido conhecer o Mar Pequeno e a Ponte dos Barreiros. Na volta a lancha passa por baixo da Ponte Pênsil , atravessa as águas tranquilas e limpas da baía e desembarca nas areias da Praia do Milionários.
Olho novamente para o Marahu, desgastado pelo tempo e pela moda que passou, e fico imaginando se aquela cena na qual Walmor abre a persiana para dizer a Ana que a vista era maravilhosa, foi gravada no apartamento do meu amigo arquiteto. Claro, não poderia ser outro. Lembro bem. O escritório desse meu amigo antes era um quarto. Ana morre no filme, naquele apartamento, cuja cena termina com alguém cobrindo seu rosto com um lençol. Lembro que Walmor também morreu, muitos anos depois, de cabelos muito brancos, em uma pousada na Serra da Mantiqueira, atormentado por alguma coisa horrível e insuportável que o fez atirar em si mesmo com um revólver.
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O VISITANTE
MAS AQUELA ESQUINA ainda guardaria uma outra surpresa. Passada a euforia cinematográfica, eis que a avenida e a praia se esvaziam para que outro cenário fosse montado ali como a mesma velocidade dos anteriores. Quando as coisas são governadas pelo pensamento, a imaginação não precisa de cores. A cena de destaque na ponta do Boa Vista agora tem uma dimensão política.
Estamos em 1961, em plena Guerra Fria. Ernesto Tchê Guevara e Fidel Castro ocupam todas as manchetes dos jornais e revistas, rádio e cinema. A Revolução Cubana segue seu curso e tenta influir de forma direta nos regimes latino-americanos. Nesse universo de segredos diplomáticos e militares, a espionagem é uma arma essencial e letal na guerra entre as superpotências e também entre as indústrias e organizações financeiras. O espião e o alcaguete são peças vitais para obter informações. Eles estão espalhados e infiltrados em todos os lugares e segmentos. É preciso redobrar a vigilância. Fenômeno como este só havia acontecido nos tempos da Santa Inquisição e na Europa totalitária. Alguém escondido atrás de um jornal lendo em uma esquina ou no banco da praça pública pode ser um agente ligado a inúmeros serviços secretos que atuam no mundo inteiro defendendo interesses dos EUA ou da União Soviética. Todos vivem literalmente no mundo da Lua e querem chegar nela a qualquer preço, para demonstrar poder científico e tecnologia de controle do futuro. O Brasil está na moda. A Bossa Nova começa a despontar no mundo da música, logo após o sucesso do Cinema Novo. JK tem um novo sucessor, que exibe um tremendo óculos com lentes do tamanho de uma tela de TV e, por trás deles, olhos atormentados pela mania de perseguição.
SOBRE O AUTOR

EDSON TELLES DE AZEVEDO, jornalista, escritor, memorialista, político, colaborador de diversos jornais e revistas da região entre 1930 e 1970. Ocupou o cargo chefe da sucursal e colunista de A Tribuna, autor de "Vultos Vicentinos". Foi vereador e presidente da Câmara Municipal de São Vicente e um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente. Filho de Antonio Militão de Azevedo e Rosalinda Telles, Edson nasceu vicentino no dia 12 de janeiro de 1900. Seu pai, politico vicentino e leiloeiro em Santos, foi uma das figuras mais influentes da política regional no início da república. Fez carreira no jornal A Tribuna onde pesquisava e publicava artigos históricos e culturais sobre os municípios da Baixada Santista. Sua principal obra memorialista foi “Vultos Vicentinos”, resgatando a biografia de grandes personalidades locais e também ilustrando a próprio punho os retratos dos biografados com seu bico de pena. Era artista nato e tinha um personagem mágico (Prof. Noside), que se apresentava em festas de adultos e crianças. Foi fundador e conselheiro de diversas entidades calungas como o Lar Vicentino, Educandário São Gabriel e o próprio IHGSV, do qual tornou-se patrono da cadeira nº 196. Edson faleceu no dia 18 de dezembro de 1973. Era casado com Umbria Biagetti Azevedo , com quem teve apenas um filho, Edson Júnior. (Boletim do IHGSV). #80
VULTOS VICENTINOS
EDSON TELLES DE AZEVEDO
icosde pena também de nossa autoria.Nesses modestos trabalhos de pesquisa humana, enfeixados nestacoletânea, que a seguir ousamos submeter à apreciação dos parcosleitores sob cujos olhos possa apresentar-se, apenas tivemos em menteVIIretratar, com probidade jornalística, criaturas e fatos ligados, em SãoVicente, a determinadas épocas. Notadamente pessoas. Vultos que nãoencimam pedestais, mas são pessoas que lançaram e sedimentaram,de maneira especial, a essência humana de um povoado, depois vila ecidade, nas suas mais variadas fases da vida e de aspectos.Finalizando, não podemos ocultar nosso indeclinável dever deexternar particular reconhecimento ao sr. Roberto Mario Santini, umdos maciços esteios dessa intransponível muralha de coragem cívica quesempre foi o jornal "A Tribuna", pela doação dos numerosos clichés, devários tipos e tamanhos, que ilustram este trabalho. A êle e a todosquantos colaboraram e facilitaram nas tarefas de pesquisa, o autortestemunha o seu profundo agradecimento.Prosseguiremos se Deus quiser.São Vicente, 22 de Janeiro de 1972EDISON TELL
COLORIZAÇÃO EM I.A. DOS ORIGINAIS EM BICO DE PENA DO AUTOR PARA A EDIÇÃO ORIGINAL DO LIVRO.








