10/07/2019

CURIOSIDADES E MEMÓRIA DA HISTÓRIA



MANGUEIRÃO
SÃO VICENTE NO CINEMA
SV DE BEM COM O MAR - REVISTA 4 QUATRO RODAS
CHARADA FOTOGRÁFICA
FÊNÕMENOS ESPÍRITAS
MIRABELLI ASSOMBRA SÃO VICENTE E MUNDO
ESPIÕES NAZISTAS EM SANTOS E SÃO VICENTE
A CARTA DO CÔNEGO ENCONTRADA NUMA REFORMA DE APARTAMENTO
 O RECUO DA MARÉ E O VELHO PORTO TUMIARÚ 
O CENTRO CULTURAL MARTIM AFONSO 
CENTRO DE CONVIVÊNCIA-REVOLUÇÃO CULTURAL NOS ANOS 70
A “ÂNCORA ALMIRANTADO” DESCOBERTA NA BAIA DE SÃO VICENTE 
O CLUBE DOS EM PÉ
CURA POPULAR MEDIÚNICA
CRÔNICAS DE MÁRIO AZEVEDO
MEMÓRIA DA HISTÓRIA

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Ilustração aproximada, segundo a descrição em alguns comentários:


José Roberto Frutuoso: Lá no início, perto do centro de São Vicente na década de 50 e 60, tinha o Mangueirão dos bois que eram conduzidos na madrugada pelas ruas por boiadeiros até o matadouro. De vez em quando alguns bois escapavam pela cidade e tinham que ser caçados. Aí quando meu pai ia trabalhar as 5 horas da manhã e topava com os bois tinha que pular um muro e se esconder dentro de um quintal. 
O espaço maior do Mangueirão ficava junto à atual avenida Martins Fontes e Aleixo Garcia. 

Eunice Requejo Costa: “O mangueirão começava atrás da Fábrica de Sabão e terminava antes de chegar na avenida Mota Lima. Lã no final tinha outra porteira de onde os boiadeiros em seus cavalos os conduziam na madrugada em manadas até o Matadouro. Esses boiadeiros - um deles era filho da dona Juventina Parteira - também trabalhavam na estação de trem e quando tinha as manobras dos trens eles ficavam nos ramais para desviar os trilhos da via principal. De um lado ficavam as galerias dos bois, na linha que ia até ao Mangueirão atravessando a avenida Martins Fontes, atrás dos chalés da Vila Sorocabana, depois FEPASA. Do outro lado da linha principal, ficavam os vagões fechados e inda tinham os vagões de areia que descarregaram ali para a Areia Vieira. Tirei muito estrume de bois dentro da galeria e levava para o jardineiro ali na Rua Tenente Durval do Amaral. Hoje ficou imaginando como eu e meu irmão rastejávamos por baixo dos bois para enchermos os baldes. Era uma época boa”.

Jansen Gallo: Excelentes lembranças de um tempo que não voltará jamais. Hoje posso dizer que tive a felicidade de ter “participado” dessas correrias fugindo dos bois pelas ruas de terra no Parque São Vicente e adjacências. Tempos felizes de garoto, livre e solto pelas ruas do bairro.

Carmen Jabuca: Minha mãe subia nas árvores para fugir dos bois. A irmã de criação, que era terrível, montava neles.

Silvia Martin Leme: Eu morava na XV de novembro e de vez em quando os bois corriam pelas ruas
Antonio Augusto Gorni: No início dos anos 1990 ví um anúncio de leilão de vários terrenos da Fepasa em São Vicente que se situavam no região do malfadado ramal para o Porto. A maioria estava ocupada ilegalmente.

Ivo De Moraes Pistéco: Aí os bois escapavam e adentraram na praça foi uma correria , veio bombeiros p laça- Los eu estudava no 1 ginásio da Vidrobrás em 1964 anexo do Martim Afonso




MANGUEIRÃO FOI DISCUTIDO NA CÂMARA DE SANTOS

Em sessão extraordinária em 2 de junho de 1955, a Câmara Municipal de Santos discutiu os problemas causados pelo Mangueirão. Num clima de bom humor, os vereadores, na verdade, pretendiam iniciar outra discussão: a urgência de obras de um novo matadouro na cidade, que seria construído na margem santista do rio São Jorge, na avenida N.S. de Fátima, no Chico Paula. Detalhe: a prefeitura vicentina foi apontada como "indiferente ao assunto".  A discussão confirma todos os depoimentos relatados aqui pelos nossos seguidores  e que viveram sua infância essa época.



Câmara Municipal de Santos

Sessão Ordinária, em 2 de Junho de 1955

PRESIDENCIA: Srs. João Carlos de Azevedo e Remo Petrarchi

SECRETARIOS: Srs. Francisco Mendes e Domingos Fuschini

O SR. JOAO CARLOS Sr. Presidente, Srs. Vereadores, o Requerimento ora apresentado, de minha autoria, representa ura esforço da Câmara Municipal de São Vicente e da Câmara Municipal de Santos, no sentido de evitar-se a ocorrência de cenas degradantes para a cidade, como a que tivemos oportunidade de assistir hoje de manhã - um estouro de boiada. É uma cena multo interessante, o estouro de uma bolada, com o consequente espalhamento das reses pela cidade inteira. Foi uma cena cómica, não há dúvida nenhuma, mas que, efetivamente, não se enquadra nos nossos foros de civilidade.

O SR. LA SCALA Trágico-cômica...

O SR. JOAO CARLOS - Trágico-cômica, não há dúvida...

O SR. LA SCALA ...e de pavor...

O SR. JOÃO CARLOS -...de pavor, sim, mas que motiva, também, boas rizadas...

A Câmara Municipal de São Vicente também está bastante preocupada com o assunto porque todo o gado levado a pé de São Vicente para o Matadouro de Santos, para ser sacrificado. Quase todas as manhãs, cenas como a que assistimos hoje sede toda ordem, como de que cria problemas de propriedades, muros, cercas, jardins, plantações, e, como disse o nobre vereador Luiz La Scala, causando pavor à população. E' um fato que revela falta de organização. Há necessidade premente de cuidar-se de assunto e modificar-se o estado de coisas reinantes.

Antigamente, o transporte de gado era feito, de São Vicente para o Saboó, como os colegas se lembram, em galeras, que eram puxadas por uma maquininha branca. Assim, o gado era conduzido àquele Matadouro sem ter necessidade de passar. como atualmente, pela linha 1. Esta situação lembrada pela Câmara Municipal de São Vicente, determinou a providências daquela Edilidade, consubstanciada num Projeto de Lel transformado em lei já, através do qual cobra-se do proprietário uma multa de 200 cruzeiros por rez que seja encontrada transitando pelas ruas. Quanto se cobrará de uma boiada, uma vez que não há outro caminho para o transporte?

Isto, a meu ver, não é uma solução porque quem vai continuar pagando a multa? E o gado, não será mais transportado? A solução seria a construção ou, melhor, a colo- cação de mais um trilho na linha 1, de São Vicente para cá. Mais um trilho adaptado à linha, possibilitaria o trans- porte em galeras como se fazia antigamente. Penso que a solução, nesse particular, compete ao Executivo Santista, pela SMTC, já que a Autarquia está subordinada à Prefeitura Municipal.

Nestas condições, o Requerimento que apresentei, visa, sendo aprovado, juntar mais este elemento aos inúmeros outros que já se apresentaram nesta Casa, e constituirá mais um problema para ser tratado pela Comissão Especial de Vereadores junto à direção da Sorocabana, pois, certamente à Estrada de Ferro Sorocabana caberia solução definitiva do problema. Mas este é um assunto que demanda o máximo de urgência por parte da Câmara, pois se espera, há muito, solução adequada.

O SR. PRESIDENTE Continua em discussão. O SR. ARISTOTELES FERREIRA

Sr. Presidente,

Sobre o assunto em tela, na sessão de 7 de outubro de 34 apresentei e foi aprovado pela Câmara um Requeri- mento assim redigido:

(Le): "Requeiro, ouvido o Plenário e em regime de urgência, seja oficiado ao Exmo. Sr. Prefeito Municipal, transmitindo-lhe o teor da noticia publicada no "Estado de São Paulo" e transcrita no jornal local "O Diário", relativa ao transporte de gado para o matadouro desta cidade, no sentido de que o Executivo apure devidamente as dificuldades all apontadas e tome as necessárias e  imediatas providências para e indispensável regularização desse transporte".

Sr. Presidente, como disse, em 7 de outubro do ano passado, aprovava esta Câmara um Requerimento com referência ao assunto.

Entendo que o Sr. Prefeito Municipal deve ter um es- tudo sobre o mesmo, porquanto não é admissível que S Excia., tendo recebido esse Requerimento, acompanhado de uma nota do jornal "Estado de São Paulo", transcrita no "Diário", de Santos, não tenha cuidado do assunto.

Portanto, sugiro que a Comissão, à qual vai ser envia- da esta proposição, se entenda também com o Sr. Prefeito, porque, como disse, S. Excla. deve ter estudos sobre o assunto.

O SR. JOAO CARLOS. Realmente, V. Excia. tem razão. E' de meu conhecimento que o Sr. Prefeito Municipal tem estudos sobre o assunto. Mas, achou S. Excia. que a Câmara também deveria estudá-lo, entrando em contacto com o problema através da Câmara Municipal de São Vicente. Porque, disseram Vereadores de S. Vicente, que o Prefeito Municipal de lá não tem o menor interesse na questão. A Câmara Municipal é que, de "motu-próprio", deliberou enfrentar o problema, aprovando a lei de que falei no início deste debate. Assim, também se dirigiram a nós, para que, em conjunto, decidíssemos,

O SR. ARISTOTELES FERREIRA

O meu fito, ao usar da palavra, é o de esclarecer a Câmara que em outubro do ano passado já ventilamos o assunto e nesse sentido fol enviado o meu Requerimento ao Sr. Chefe do Executivo.

O SR. LUCIO GRAÇA Sr. Presidente, exatamente hoje, lendo noticias locais no "O Diário", vi a transcrição de artigo de redator de "O Estado de São Paulo". Nestas condições, pediria ao ilustre apresentante do Requerimento que concordasse em que constasse dos trabalhos da Comissão, a sugestão feita pelo matutino "O Diário" e que está assim redigida: (Le):

"Urge que se faça sentir ao governo do Estado a conveniência de se construir um novo Matadouro Modelo, para servir a região de Santos, cuja localização ideal seria, in- discutivelmente, em terrenos da Alemoa, pertencentes à "Santos-Jundiai", com desvios fáceis e pronta saída para a Via Anchieta, além de proporcionar facilidades para o caso de uma possível exportação, com acesso para o lado do mar".

E' esta a solução que encaminho para ser oferecida à Comissão encarregada de estudar o problema. A Mesa consulta o nobre Vereador João Carlos se aceita o adendo oferecido ao seu requerimento.

O SR. PRESIDENTE

O SR. JOAO CARLOS (Pela ordem) Sr. Presidente, o assunto é correlato. Se bem que não seja pertinente, é correlato, pois trata da questão do matadouro e deve ser incluído.

O SR. PRESIDENTE Continua em discussão o se- requerimento. (Pausa) Está encerrada a discussão. Os Srs. Vereadores que forem favoráveis ao Requerimento, com o adendo do nobre Vereador Lúcio Graça, queiram conservar- se como estão. (Pausa) Está aprovado.

Será encaminhado a Comissão Especial que está tratando do assunto.

A TRIBUNA Quarta-feira, 8-6-1955


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SÃO VICENTE NO CINEMA








Walmor Chagas numa gravada na travessias da praia dos Milionários para a o Itararé. 


São Paulo, Sociedade Anônima, filme brasileiro de 1965, um drama dirigido por Luís Sérgio Person. Em novembro de 2015 o filme entrou na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

Darlene Glória numa lacha sob a Ponte Pênsil. 


O casal de protagonistas correndo em frente ao Edifício Marahu.


Cenas vicentinas do filme "São Paulo Sociedade Anônima" (Luis Sérgio Person´) , de 1965.


Mazzaropi. O Vendedor de Linguiça. 1962.







A bela paisagem da Orla do Itararé, em São Vicente, se tornou cenário de parte das cenas do filme “O Rei da Internet”. A obra é dirigida pelo cineasta Fabrício Bittar, estrelado pelos atores João Guilherme e Marcelo Serrado com produção da Clube Filmes, em coprodução com Vitrine Filmes e Telecine.

A trama é baseada na vida de Daniel Nascimento, um hacker que já foi considerado um dos maiores do País, interpretado por João Guilherme. O personagem passa parte de sua infância em Guaratuba, cidade praiana do Paraná. “A nossa base de produção é em São Paulo. Estávamos pesquisando lugares visualmente parecidos com a cidade paranaense, principalmente um local que nos desse abertura e acolhesse a equipe. Quando o produtor de locação nos mostrou imagens de São Vicente, tivemos certeza de que as imagens seriam feitas aqui”, conta o produtor executivo do filme, Lucas Veiga.

A iniciativa representa uma oportunidade de exposição nacional das lindas paisagens da Primeira do Brasil e agrega valor para a cultura e turismo local. A Secretaria de Turismo (Setur), ao tomar conhecimento da solicitação de locação, não hesitou em aceitar recebê-los. “Para nós de São Vicente, foi com alegria e satisfação que recebi um telefonema da produção, dizendo que eles gostariam de gravar três cenas do filme ‘O Rei da Internet’ aqui na Cidade. Estou muito feliz e acredito que com cenas neste belo cenário, o filme será um sucesso”, afirma o secretário de turismo, Paulo Bonavides. 























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CHARADA FOTOGRÁFICA



UMA CHARADA FOTOGRÁFICA publicada em 12 de março de 2024 no grupo Santos Antiga foi matada por São Vicente na Memória. A postagem pedia "ajuda" para identificar uma praia misteriosa e surgiram dezenas opiniões geográficas. Descolorizamos a foto, invertemos a posição da imagem e a verdade foi revelada. 

O membro Jaques Mendel Rechter comentou o resultado:

"Como foi mostrado por São Vicente na Memória, a foto está invertida. Colocada na posição certa, se verifica que foi tirada da Ilha Porchat (em local próximo do atual Terraço) mostrando o Itararé em São Vicente até a quase a divisa com Santos ( a Pedra da Feiticeira por pouco não aparece na foto). No alto do morro, ao fundo, se vê a antiga construção do topo do Morro de Sta Terezinha em Santos".

Explicamos: conseguimos matar a charada ao reconhecermos a pedreira e os dois primeiros edifícios que aparecem na foto: o Iguassu e o Tamoyo, ambos na esquina a rua Quintino Bocaiuva. 


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TRUQUE EDITORIAL. Capa colorida do jornal mostra foto invertida das praias do Itararé, Milionários e Gonzaguinha. Edição de segunda-feira, 13 de fevereiro de 1971. As garotas protagonistas da cena observam a cidade de cima da Ilha Porchat. 
Hemeroteca  Digital da BN.



CONVOCAÇÃO PARA TESTE FUNCIONAL


Prefeito convoca datilógrafos para teste em escola preparatória local.

Cidade de Santos, classificados da edição de domingo, 7 de fevereiro de 1971.




SÃO VICENTE NOS ANOS 60 E 70
 

DALMO DUQUE E SAGRADO LIBERTO



Gravado na ZN Santos (Areia Branca), em novembro de 2023

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ISAURA BRUNO CIDADÃ VICENTINA


A atriz  Isaura Bruno em seu apartamento na rua Martim Afonso. Cidade de Santos, 0utubro de 1969. 





MANCHETE DE JORNAL CONFUNDE LOCAL DA QUEDA DO AVIÃO


Ao noticiar a queda de um avião anfíbio em São Vicente, o jornal Cidade de Santos confundiu a Baia de São Vicente com o Mar Pequeno.



CURA POPULAR MEDIÚNICA



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MIRABELLI ASSOMBRA SÃO VICENTE E O MUNDO



Durante os dez em que viveu em São Vicente o médium Carmine Mirabelli foi foco de admiração, espanto, objeto de pesquisas, respeito e  gratidão, polêmicas, perseguições e até agressões físicas de fanáticos. Para evitar dúvidas e distorções, seus feitos psíquicos eram narrados e publicados em anúncios por testemunhas, para não deixar dúvidas sobre a sua honestidade e desinteresse. Foi comparado aos grandes médiuns que atuaram antes e depois do advento do Espiritismo na França no século XIX. Fundou e manteve duas casas de trabalho e caridade em São Vicente e Santos. A inauguração do núcleo vicentino do Centro Espírita São Luiz foi marcada por uma ação espetacular e espantosa, pois o médium estava com amigos numa estação de trem na Capital poucos minutos antes das 16 horas e instantes depois teve sua presença registrada em São Vicente para iniciar a cerimônia inaugural. A passagem de Mirabelli por SV e Santos foi cheia de fenômenos como curas, revelações de  conhecimentos científicos, psicografias, pinturas mediúnicas e até ressuscitação de mortos (catalepsia ou morte aparente).  

Inauguração em  do Centro Espírita São Luiz  em 1917 na rua Luis de Camões,198, em Santos. 



ANÚNCIOS EM ATRIBUNA

Publicamos aqui diversos anúncios em A Tribuna, entre 1917 e 1926, que atestam essas experiências que confrontavam e ao mesmo tempo abriam novas perspectivas na relação entre ciência e religião, materialismo e espiritualismo, entre fé e razão. Em São Vicente seus maiores amigos, além dos irmãos espíritas, foram o prefeito Rodolpho Mikulash e o futuro governador e presidente Washington Luiz, que tinha residência na orla. Desconhecemos se deixou descendentes na cidade, embora tenha tido várias personalidades vicentinas com seu sobrenome, mas sem confirmação de parentesco.  Era filiado ao PRP, se opôs ao movimento paulista de 1932 e foi preso por isso.  Depois de uma longa jornada espiritual missionária, Mirabelli se despediu do mundo físico num acidente comum e cotidiano, quando foi atropelado por um caminhão, em São Paulo, no dia 3 de abril de 1951. 





















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NAZISTAS EM SANTOS E SÃO VICENTE

ADELTO GONÇALVES (*)


Em Crônica de uma guerra secreta (Record, 2005), o embaixador Sérgio Correa da Costa (1919-2005) conta a história de um espião nazista, Josef Jacob Johannes Starziczny, doutor em engenharia eletrônica, cujas atividades estenderam-se até Santos e São Vicente. A história também pode ser lida em A guerra secreta de Hitler (Nova Fronteira, 1983), do historiador norte-americano Stanley Hilton.

Como se sabe, o Estado Novo, de Getúlio Vargas, flertou durante um bom tempo com o nazismo, permitindo o livre trânsito de espiões nazistas pelo território brasileiro. Na Capital da República, por exemplo, o trânsito de espiões não era dificultado. E, assim, Starziczny estabeleceu-se na cidade em 1941 e logo encontrou apoio da filial da empresa Theodor Wille, que destacou um funcionário para lhe servir de intérprete. Afinal, o engenheiro chegara com uma carta de recomendação da Theodor Wille, de Hamburgo.
O espião Starziczny em foto de pronturário policial do DEOPS-SP**


Três dias depois, conta o diplomata, Starziczny veio a Santos para ver o cônsul Otto Uebele, que seria seu chefe imediato. Embora nascido no Brasil, Uebele sempre estivera ligado a Alemanha, tendo colaborado com o império alemão durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). E, assim, facilitou contatos para o engenheiro eletrônico estabelecer uma rede de espiões em Santos e São Vicente.

Starziczny, segundo Correa da Costa, era um espião um tanto trapalhão, tendo se envolvido com mulheres brasileiras, mas não é isto o que interessa aqui. Não seria mesmo uma pessoa muito arguta, a ponto de ter deixado incompleto o trabalho que pretendia desenvolver, o que provocou muitos desentendimentos com seus superiores.

Em dezembro de 1941, o serviço de Starziczny chegava ao fim, pouco depois de ter deixado um transmissor na casa de Gerard Schroeder, um simpatizante nazista que morava na Rua Ipiranga, 13, em São Vicente. O serviço de Starziczny era fornecer informações sobre a entrada e saída de navios nos portos do Rio de Janeiro e de Santos. Com base em suas informações, muitos navios aliados podem ter sido bombardeados por submarinos alemães.

Enquanto a polícia carioca, praticamente, ignorava as atividades dos agentes do Eixo, o mesmo não acontecia em São Paulo, graças à atuação do delegado adjunto na Delegacia de Ordem Pública e Social, Elpídio Reali, pai do jornalista Reali Júnior, correspondente de O Estado de S.Paulo em Paris, e avô da atriz Cristiana Reali.

Logo, Reali chegaria a Starziczny, que, um tanto desajeitado, facilitaria a ação da polícia. Ao tentar comprar na firma Sayão & Sayão, na rua Dom Bosco, em São Paulo, um ondômetro para o transmissor que deixara em São Vicente, o alemão, falando em inglês, iria apresentar-se como O. Mendes, deixando como endereço o Hotel Santos, em Santos. Tudo isso iria despertar suspeitas no comerciante, que sabia muito bem que a peça que o estrangeiro queria era usada em transmissores potentes. E achou melhor avisar a polícia.

Logo, a polícia chegou a Odélio Garcia, que, mais tarde, iria telefonar para a loja, perguntando pelo ondômetro. Detido, Garcia não negou que havia adquirido não só a peça como uma estação radiotransmissora, fazendo-o por encomenda de Ulrich Uebele, gerente da exportadora de café Theodor Wille e filho do cônsul alemão em Santos. Detido, Uebele entregou seu patrício Gerard Schroeder, da seção de navegação da Theodor Wille, que confirmou que a estação havia sido passada a um funcionário do consulado alemão.

O delegado Reali não levou em conta imunidades diplomáticas e colocou em cana todos os envolvidos, inclusive, um brasileiro, na casa de quem fora localizada a estação retransmissora. Só faltava o principal elo, o espião Starziczny. Com o pai de Uebele, Oto, o delegado ainda iria encontrar filmes de navios ingleses e americanos e de pontos estratégicos do litoral de São Paulo e ainda uma pista que o levaria ao Rio de Janeiro, mais especificamente a um sobrado no Leblon.

Lá, finalmente, iria encontrar Niels Christensen, engenheiro civil, nome atrás do qual se escondia Starziczny. Na casa, a polícia iria descobrir muitos equipamentos e, dentro de uma caixa de madeira, informações que partiam diretamente do Leblon para o almirantado alemão, em Hamburgo.

A ação rápida de Reali permitiu que o navio britânico Queen Mary, que deixara havia poucos dias o Rio de Janeiro levando a bordo oito mil soldados canadenses, mudasse de rota e escapasse de um ataque. Eis aqui uma história de nossa polícia pouco lembrada, mas que merece ser conhecida pelas novas gerações.


(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).

** Incluído pelo blog: Prontuário 51.156 da coleção do DEOPS-SP (Departamento de Ordem Política e Social - Polícia do Estado de São Paulo). Consultado no Arquivo do Estado de São Paulo, São Paulo-SP.*

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A VIDA COTIDIANA DE CÔNEGO

UMA CARTA COMUM E CURIOSA 

Encontrada casualmente entre vários outros documentos, num envelope de papel manilha, a carta do Cônego Antônio Pedron, escrita há quase meio século, é uma preciosidade histórica do cotidiano da vida regular e secular dos padres que atuam nas paróquias. Um curioso registro de época e costumes, bem como das atividades sociais dos fiéis religiosos. O achado aconteceu na primeira semana de janeiro de 2021 durante a reforma de um apartamento na rua Freitas Guimarães, esquina com Floriano Peixoto, no Boa Vista, onde residiu o destinatário. O autor da carta era figura muito conhecida na Baixada Santista e Litoral Norte, onde atuou em várias paróquias. Foi o idealizador e apoiador da primeira e hoje tradicional Encenação da Paixão de Cristo de Cubatão, em 1969, reunindo jovens da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Lapa. Foi o primeiro pároco da Igreja de São Judas, no Casqueiro, construída em 1961, por doação e em função do loteamento social empreendido pelo Coronel Parisi, dono daquela extensa gleba, que incluía a Ilha Caraguatá. O Cônego Pedron foi transferido de São Vicente para a cidade de Buri-SP e de lá , em fevereiro de 1974, enviou esta carta ao Sr. Valdir, que na época residia no referido imóvel do Boa Vista e que trabalhava no ramo imobiliário. O Cônego é hoje nome de rua na cidade de Buri.

O Cõnego Antônio Pedron numa cerimônia de inauguração empresarial em Cubatão. Jornal Cidade de Santos,  novembro de 1969. 




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Buri, 2002-74
Prezado amigo Valdir,
Saúde, paz e graça!

Valendo-me da oportunidade em que remeto ao Rubens, envio-lhe também a presente.
Saí de S. Vicente sem praticamente despedir-me de ninguém. Preferi assim, porque eu facilmente me emociono e, conforme conselho médico, devo, o mais possível, evitar comoções. Conselho baseado no eletrocardiograma...
Valdir, a respeito da letra imobiliária da Tietê, eu gostaria de saber como deverei fazer. Aqui existe apenas o Banco Bamerindus. E, com a minha mudança de endereço, torna-se muito difícil, embora trimestralmente, o resgate dos cupons. Já está vencido o de 29/01/74, e está se aproximando o de abril.
Peço-lhe o grande obséquio de, numa próxima oportunidade, informar-me se a referida Letra poderá ser transferida para o Banco do Comércio e Indústria de São Paulo, sediado em Itapetininga, na Av. Dr. Campos Sales 545.
Desde já fico-lhe agradecido pela sua atenção.
Recomendações a todos os seus familiares.
Fui bem de féria, graças a Deus. Passei-as num maravilhoso recanto goiano chamado Rio Quente, no município de Caldas Novas.
Tomei posse na paróquia de Buri no dia 9 dêste, na missa das 19 horas, que concelebrei com o Sr. Bispo Diocesano, Dom Silvio Maria Dario, meu contemporâneo no seminário de Botucatu.
Buri é cidade pequena e pacata. Aqui, não há poluição de espécie alguma. Povo muito bom e simples. O padroeiro é São Roque, com festa em meados de agosto. Tive sorte pois a paróquia, antes de minha vinda, adquiriu um Volkswagen-73, no qual posso visitar as várias Capelas.
Aqui ponho o ponto final. Aguardando suas notícias, despeço-me enviando-lhes, e aos seus, cordial bênção.
Atenciosamente,

Côn. Antônio Pedron.


Cônego Antonio Pedron com autoridades de Cubatão em 1966. Acervo: Helio Veiga. 


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O RECUO DA MARÉ

VIRGÍNIO ROCHA MIRANDA NETO

Quando a natureza abre uma brecha no tempo e no espaço. 

Tempos atrás estava eu em busca de dados históricos sobre a Ilha de São Vicente no tempo da chegada da armada de Martin Afonso de Souza, quando por sorte me deparei com três fotografias ( Créditos a mídia social do facebook" Zona Nordeste - A maré recuou " ) sobre o fenômeno do recuo da maré em agosto de 2017. Fenômeno este ocasionado por condições climáticas ocorridas na costa brasileira, que ocasionou um outro fenômeno conhecido como " Recuo da Maré ". 
Embora ocorra com certa frequência, a intensidade deste alcançou níveis desconhecidos pela grande maioria dos viventes e até pelos livros e registros históricos. 
Na cidade de Santos, veio a tona em suas praias um casco de um veleiro desconhecido até então, que graças a pintura de um quadro de Benedito Calixto foi possível supor sua origem e até a data de seu encalhe. 
Por sua vez, no lado oeste da ilha de São Vicente, na altura do Tumiarú, o fenômeno também causou o recuo das águas em grande intensidade, expondo uma construção pelas mãos do homem, que provavelmente seja desconhecida pela grande maioria das pessoas ( Nenhuma pessoa na mídia social acima descrita ( com exceção de uma, questionou as pedras ).
Nas fotos, é possível observar um caminho de pedras que com a mais absoluta certeza foi feita por mãos humanas, que saem do antigo Porto do Tumiarú e adentram afora em direção ao Porto das Naus. Estas pedras foram todas lapidadas de tal forma que na parte superior formava-se um apoio para um passadiço que servia o Porto do Tumiarú e o Porto das Naus. 
É uma construção espetacular, porque podemos dela inferir um passado que sustenta ou não a relevância do Porto das Naus. 
As fotos do Google Earth, são fotos históricas de 07/2020, aonde é possível também verificar o caminho, embora passem desapercebidas pela grande maioria das pessoas".






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Virginio Rocha Miranda Neto

AS PEDRAS PORTUÁRIAS DO TUMIARU

Persiste o enigma do recuo da maré no Mar Pequeno, registrado por Virginio Rocha Miranda Neto.


Já procurei em todo tipo de informação possível a respeito destas pedras e nada consegui encontrar, então só resta especular.

No Google Earth é possível buscar imagens históricas. Em algumas delas é possível verificar a existência desta obra. Chamo de obra porque com certeza absoluta foi feita por mãos humanas. Ao analisarmos estas imagens por satélite, vemos que paralelamente ao caminho das pedras, existe um outro caminho que culmina no final do platô de areia e adentra a área mais funda do canal. A priori assemelha-se a um trapiche ou um ancoradouro. As pedras que aparecem na superfície durante aquele evento climático anos atrás, mostram claramente que foram lapidadas, inclusive e principalmente na área superior, indicando servir de apoio à alguma estrutura. Como são duas estruturas que o satélite mostra ( nas fotos terrestres só é possível ver o caminho das pedras ) não seria difícil imaginar, supor, ou especular que se tratava de um caminho que saia do Porto antigo do Tumiaru, adentrasse a zona de areia e terminasse naquele ancoradouro ou trapiche como quiserem. Agora, para que esta hipótese ocorresse, teríamos que imaginar que a época que aquilo foi feito, o nível do mar naquela região era mínimo; o suficiente para atrapalhar quem quer que fosse para desembarcar e andar pelas águas até a costa do Porto Velho do Tumiaru. No Porto de Santos antigo também existiam estas estruturas para embarcar e desembarcar pessoas e coisas das caravelas. Pessoalmente não creio em caminho do peabiru, não creio em canos de água ou esgoto ( estes foram feitos por Saturnino de Brito na Ponte Pensil em 1914 ) , não creio em estaleiro para as canoas que faziam o ir e vir antes da existência da ponte pensil ( historicamente não consta a existência disto ) bem como também não creio que tenha sido alguma obra que o clube Tumiaru tenha feito em épocas remotas. Ali, bem aonde se inicia o caminho ( em toda aquela região) lá pelos idos de 1840 - 1890, foram descobertas igaçabas, utensílios de barro, e coisas de cultura indígena. Lembrando que a tecnologia de lapidação de pedras existe milhares de anos antes do Nascimento de Jesus Cristo. Também é possível ver que o caminho de pedra leva ao trapiche alfandegário ou se desejarem outros ao engenho que se localizava do outro lado do continente no Porto das Naus. Por fim, todos os quadros de Benedito Calixto não trazem aquele recuo de maré tão pronunciado.
Isto é tudo o que temos. A partir destas informações podemos especular várias hipóteses . Pessoalmente eu especulo que:
1- Tenha sido um ancoradouro para embarque e desembarque de coisas e gente de bergantins.
2- Tenha sido usado para trazer açúcar do engenho localizado no porto das naus.
Seria interessante que alguma pesquisa, principalmente mergulho na área do que parece ser um ancoradouro pudesse confirmar esta versão.  Santos Antiga, 26 de março de 2024

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CLUBE DOS EM PÉ

Clube dos Em Pé fundado em Itanhaém, inspirado na confraria vicentina. Revista A Fita, 1916.


Em 01 de janeiro de 1913 foi fundado em São Vicente uma curiosa agremiação. O memorialista Costa e Silva Sobrinho relata em suas anotações que um grupo de rapazes se reunia à noite num imóvel na rua Martim Afonso e todos permaneciam por horas seguidas em pé e resistindo ao cansaço. Nesse tempo promoviam calorosos debates sobre diversos assuntos. O jornal A Tribuna, através da sua sucursal vicentina reproduziu em sua edição a festa do 1º aniversário do clube e identificou todos o membros presentes.
Pesquisa: Waldiney Lapetina, nos arquivos da FAMS.

“CLUB DOS EM PÉ"

Este club celebrou na noite de ante-hontem, a passagem do eu primeiro anniversario, offereando aos seus associados, convidados e representantes da imprensa local e de Santos, no Rink Vicentino una lauta ceia.
Antes, porém, dessa refeição, foi constituida, por acclamação, a directoria que tem de gerir os destinos sociaes no anno vigente.
O sr. Heraldo Lapetina, presidente dessa sympathica aggremiacão recreativa, tendo aberto e sessão em que deveria ser eleita a directoria, convidou para assumir a presidencia dr. Pinto Paccs, que, accedendo ao convite e assumindo a direcção dos trabalhos, recebeu calorosa salva de palmas.
Por proposta do sr. Santos Amom, foi acclamada a seguinte diretoria:

Presidente, Heraldo Lapetina; Vice-presidente, Guilherme Figueiredo.
Secretários, Manoel Freiro de Carvalho, Benedicto Ribeiro.
Tesoureiro, Alvaro dos Santos Barbosa.
Conselho deliberativo: capitão Anthero de Moura, major Joaquim Neves Figueiredo Junior, cel. Francisco de Souza Junior, José Leite Forjaz, Carlos José da Rocha.

Acclamada a directoria, o sr. Guiherme Figueiredo, fazendo uso da palavra, agradeceu a sua reeleição, prometteu trabalhar, como até aqui, com todos os seus esforços em prol do "Club dos Em Pé" e incitou os seus companheiros a seguirem-no nesse mesmo esforço.

O dr. Pinto Paoca, numa bella allocução, discorreu sobre o "Club dos Em Pé", animando os associados a proseguiren sempre пеssa união demonstrativa da sociabilidade vicentina,

Os srs. Benedicto Ribeiro, Miguel Barcalla, Santos Amorim e outros fizeram uso da palavra, referindo-se a commemoração que fazia o "Club dos Em Pé".

A festa anniversária dessa associacão, como era esperada, decorreu com muito enthusiasmo. À mesa, em forma de T, sentaram-se as 28 seguintes pessoas: Anthero de Moura, João Lapetina. Franklin Alves de Moura, José P. Martins, Luiz Pimenta, Genaro Fernando Otero. Benedicto Ribeiro, dr. Gustavo Pluto Pacca, Antonio C. Bibeiro, Alvaro dos Santos Barbosa, dr. Rocha Carvalho. Heraldo Lapetina, Ramiro Calheiro, Estácio de Moura, Antonio Santos Amorim, Antonio Bruno. Sebastião Bittencourt, Lydio de Almeida, Affonso Lopes Fernandes, José Carmo Neves. Julio Teixeira Junior, Antonio Emmerich. ck Junior, Angelo Richetti, Guilherme A. de Figueiredo. Armando Requejo, Miguel Barcalla, Francisco Rienze, Manoel Freire de Carvalho. Antonio da Rocha Carvalho, Idelfonso A. de Oliveira e J. de Santiago,

por esta succursal".



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CENTRO DE CONVIVÊNCIA

REVOLUÇÃO CULTURAL NOS AN0S 70 e 80

ENDEREÇO EMBLEMÁTICO. Neste endereço da rua Jacob Emmerich, no Gonzaguinha, onde hoje está este grande edifício, aconteceu a maior revolução cultural da Baixada Santista na passagem dos anos 1970 para os anos 80. Aqui existiam duas casas onde jovens universítários de várias procedências fundaram duas comunidades alternativas. Uma de vocação política, na qual os participantes teriam intensa participação nos acontecimentos das cidades da região; nela morava a vereadora, prefeita e deputada Telma de Souza. Na outra morava o casal Domingos Stamato e Maria Izabel Calil Stamato, fundadores do Centro de Convivência de São Vicente, base da criação de ideias e práticas culturais revolucionárias. Domingos era médico e Maria Isabel psicóloga.

A REVOLUÇÃO COMUNITÁRIA VICENTINA

No final da década de 1970, São Vicente era bem diferente do que é hoje. Pouquíssimas famílias residiam na área continental, cujo acesso era só por trem ou pela via Anchieta, em Cubatão. A periferia da cidade se concentrava na região do Jockey Club, no córrego Catarina de Moraes e uma parte da Vila Margarida. A Cidade Náutica era um grande loteamento, com centenas de lotes vazios. A maioria dos bairros próximos do centro e da orla não tinham calçamento e somente alguns deles possuíam rede de esgoto. São Vicente ainda era uma cidade pequena, mas com grandes e graves problemas sociais. O acesso à Praia Grande ainda era pela Ponte Pênsil e seus bairros eram pouco povoados. No Gonzaguinha e no Itararé, os edifícios de apartamentos eram predominantemente para uso de turistas nas temporadas. Mas ainda existiam muitas casas de veraneio, algumas delas mansões pertencentes a ricas famílias paulistanas que aos poucos foram deixando de frequentar as praias vicentinas. Eram muitas, com construções imponentes, de muitos cômodos e espaços externos de grandes quintais e árvores enormes. Eram construções aristocráticas de uma época bucólica e que começavam a ter outras finalidades.
Para fugir da agitação urbana de Santos e da alta dos aluguéis, alguns grupos, geralmente universitários, alugavam essas antigas casas e mansões para instalarem comunidades alternativas, dividindo cômodos e despesas. Eram também conhecidas como “repúblicas”. Na rua Jacob Emmerich, entre os números 155 e 129, à apenas uma quadra do Gonzaguinha, haviam duas dessas casas. Uma delas, a maior, propriedade de um conhecido industrial de São Paulo, foi alugada pelo jovem casal Domingos Stamato e Maria Izabel Calil. Eles não eram casados e viviam juntos há alguns anos e tinham duas filhas. Ele era psiquiatra e ela psicóloga. Se conheceram durante uma palestra-debate quando se uniram para derrubar os argumentos conservadores de um juiz de direito sobre recuperação de menores infratores. Ali perceberam que tinham muitas coisas em comum, inclusive uma identificação de sentimentos e uma proposta de vida diferente e completamente fora dos padrões da época. Eram chamados de "hippies", uma tentiva de desqualificar sua ideia e práticas inovadoras, mas na verdade se consideram libertários. Precisam de uma vida regular para exercer suas profissões. Tinham que ter um endereço fixo, mas não precisava ser um endereço restrito e padrão. Queriam estar livres das obrigações das propriedades privadas e cultivar um tipo de vida nos moldes comunitários, que era o tom da nova sociedade alternativa americana e europeia.
Foi a partir dessa iniciativa do casal que surgiu a ideia de um Centro de Convivência, um espaço plural de moradia, trabalho, educação, lazer e cultivo das ideias libertárias e sobretudo das artes. E assim foi: um lugar amplo, agradável, de encontros de inteligências de vários segmentos e propostas de realização pessoal e coletiva. O Centro de Convivência da São Vicente, aproveitando o que ainda restava de bucolismo e tranquilidade da velha cidade praiana, passou a funcionar em 1978, ainda pequeno e com pouca frequência, mas logo tornou-se um dos núcleos culturais mais influentes da Baixada Santista. Ali se estabeleceu de maneira informal e criativa um espaço de experiências inéditas e que se tornaria referência nas áreas em que eram vivenciadas: a música, a literatura, as artes plásticas, o jornalismo, a psicologia e a psiquiatria humanistas, enfim, todas as expressões que possuíam um diferencial de visão de mundo e ao mesmo tempo uma perspectiva transformadora. Adultos, jovens e crianças vivendo um estilo de vida independente.
As experiências do Centro de Convivência não ficaram restritas ao espaço da mansão. Eram levadas para os locais socialmente mais problemáticos e considerados perigosos da cidade, em formato de intervenções e provocações que estimulavam mudanças na vida cotidiana das periferias. Isso provocou também a atração de outros profissionais - assistentes sociais, artistas, artesãos, educadores - para aprender e replicar essas inovações. No Centro de Convivência aconteceram os primeiros partos humanizados da região e também as primeiras experiências de tratamento em psicoterapia transpessoal. A discussão sobre o uso abusivo de medicações psiquiátricas e as crises dos manicômios eram abordadas ali com muita frequência. Foi numa dessas reuniões que foi sugerida a intervenção pública na Casa de Saúde Anchieta, em Santos, conhecida na época como “Casa dos Horrores”. Vizinha ao centro de Convivência, alguns anos antes, existia uma outra comunidade de jovens universitários, cuja vocação era mais de atuação política. Um dos moradores da casa era ninguém menos que a ativista Telma de Souza, que viria ser prefeita de Santos e cujo secretário de saúde, o médico David Capistrano, encabeçou o projeto de intervenção e ocupação humanitária da Casa Anchieta, na época abarrotada de pacientes vivendo em condições desumanas. David, mais tarde como prefeito de Santos, enfrentaria outro grande desafio da saúde pública regional, empreendendo uma intensa campanha sanitária contra disseminação do vírus HIV e que havia dado a Santos o triste título de “Capital da AIDS”. Venceu a luta e Santos tornou-se referência mundial nesse combate.
Em meio a tantas experiências e desafios, pois o preconceito e a resistência conservadora era intensa diante das propostas inovadoras, nunca é tarde para lembrar que os moradores e frequentadores do Centro de Conivência experimentavam e discutiam todos os assuntos e temas que suscitassem reflexões mais profundas e diferentes, como, por exemplo, as de natureza histórica e antropológica. Numa delas, a psicóloga Maria Izabel Calil Stamato, descente de árabes pelo lado paterno, relatou numa reunião que fizera uma descoberta interessante e que havia despertado nela uma incrível atração e, naquele contexto, um vínculo muito forte com a cidade de São Vicente. No seu mapa genealógico, por parte de mãe, constava que ela era descendente de Bartira, filha do Cacique Tibiriçá e esposa do semita João Ramalho. Na mesma ocasião surgiu a informação de que toda aquela área onde estavam as edificações da quadra das ruas Tibiriçá, Jacob Emmerich, Visconde do Rio Branco e Frei Gaspar, num passado longínquo, havia sido um cemitério indígena. Eram citações sem nenhuma intenção de privilégio, mas que acentuava um profundo respeito pela história calunga e pela cidade que os havia acolhido para realizar uma missão social que marcaria a vida de muitos vicentinos e santistas.

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CENTRO ARTÍSTICO MARTIM AFONSO


Membros do Centro Artístico Martim Afonso comemoravam o sétimo aniversário do grupo. A entidade dedicada ao teatro foi fundada em 7 de setembro de 1938.
Revista Flama, Santos, 1945. Acervo da FAMS


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O MUSEU HISTÓRICO NAVAL DE SÃO VICENTE

O Museu Histórico Naval de São Vicente foi fundado em São Vicente em 1979, pelo engenheiro civil Carlos Alfredo Hablitzel.



Imóvel da família Hablitzel (à direita) na rua Messia Assu, no Boa Vista em 1975.  O bairro originalmente batizado de Vila Betânia ficou conhecido em São Vicente no início do século XX como Vila dos Estrangeiros, devido a presença de muitas famílias europeias que naquela época recebiam terrenos doados pela Câmara Municipal com a obrigação de construir edificações e urbanizar os antigos sítios do Itararé. Fotos: São Vicente de Outrora . Cortesia do editor Silvio Elizei. 


Nascido em Basiléia, Suíça, em 15 de janeiro de 1919, Hablitzel veio para o Brasil com sua família em 1920, embarcando em Gênova no navio italiano Re Vittorio. Após o curso primário na Escola Alemã do Rio de Janeiro, o curso ginasial em Basiléia (1931 a 1933) e o curso complementar no Ginásio Catarinense, em Florianópolis, formou-se na Escola de Engenharia Mackenzie, em São Paulo, em 1944. Naturalizado brasileiro aos 26 anos de idade, em 10 de dezembro de 1945, casou-se em 1948 com Maria Graciela Dubrez, paraguaia naturalizada brasileira. Em 1952, integrou o primeiro grupo de mergulho autônomo de São Paulo. Obtendo um aqualung, participou em expedições a naufrágios em um barco do Instituto de Pesca de Santos, tornando-se um dos pioneiros do mergulho autônomo no Brasil.
Em 1956, Hablitzel estabeleceu residência em São Vicente. Paralelamente às obrigações profissionais, o engenheiro dedicava parte de seu tempo aos estudos marítimos e navais, bem como, à ampliação de sua coleção particular de objetos e documentos afins, atividades desenvolvidas desde a juventude. O grande acervo reunido levou-o à criação do Museu Histórico Naval de São Vicente, inaugurado em 19 de janeiro de 1979 e sediado em uma casa de estilo normando, atualmente demolida, então situada à Rua Messia Assú, 78, no bairro Boa Vista.
Carlos Alfredo Hablitzel faleceu em São Vicente, em 6 de novembro de 1988, aos 69 anos de idade. Sua esposa e filhos mantiveram o museu em funcionamento até 1992, ano em que foi definitivamente fechado à visitação pública.
Em 1993, a família Hablitzel e a diretoria da Sociedade Museu do Mar travaram diversos contatos visando avaliar a possibilidade de transferência do acervo do Museu Histórico Naval de São Vicente para a instituição de Santos. O desejo da família em manter o acervo reunido e vê-lo novamente disponível ao público, bem como, as relações de amizade que em vida Carlos Alfredo Hablitzel sempre manteve com Luiz Alonso Ferreira, biólogo marinho e fundador do Museu do Mar, pesaram decisivamente para a concretização de um acordo, através do qual a Sociedade Museu do Mar adquiriu o acervo do desativado museu vicentino, transferido oficialmente em 10 de setembro de 1993. 
Fonte: Museu Maritimo https://www.museumaritimo.com.br/

Acervo do museu vicentino adquirido e exposto pelo Museu Marítimo em Santos. 


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TRAGÉDIAS E CALAMINDADES



ÁGUAS DE MARÇO

Mirtes dos Santos Silva Freitas.


Há, exatamente, sessenta e cinco anos, em mil novecentos e cinquenta e seis, as águas de março causaram duas catástrofes inesquecíveis na Baixada Santista. Uma delas foi no início do mês e a outra, no final. Tenho lembrança do dia vinte e cinco, um domingo.
Morávamos na Rua 3, numa encruzilhada. Para os supersticiosos, já significa mau agouro. Nós não achávamos isso. Éramos felizes, sem que o básico nos faltasse.Crianças, não tínhamos expectativa quanto ao futuro. Eu e a Neuza já estudávamos no Grupo Escolar. Os dois menores só brincavam.
Agora, preciso explicar o porquê de eu ter me referido à encruzilhada. Se fosse em outro local, não teria a mínima importância. O problema é que nossa casa, de esquina, ficava no local mais baixo que se poderia imaginar. A rua, alta nas extremidades, formava, até, um morrinho. Eram dois pontos altos, convergindo para a nossa moradia. Cruzando-a, mais um ponto alto e, ao lado da nossa casa, no sentido oposto, um brejo indo até a via férrea. Essa, por sua vez, era muito alta. Ainda por cima, os terrenos vizinhos eram alagadiços. Resultado: morávamos numa ilha.
Bem, devo dizer que nos dias ensolarados éramos privilegiados. O pântano desabrochava. Havia lírios- do- brejo, cândidos, lindos, perfumados. Trata- se de uma planta palustre, também chamada de " mariposa", flor nacional de Cuba. Com o mesmo grau de candura, havia os copos- de- leite. E o que falar sobre as taboas, com seus pendões castanhos, que se rebentavam numa espécie de paina? Também havia o chapéu- de - couro, com suas alvas flores; os aguapés arroxeados, com manchinhas amarelas, formando um cacho delicado e vistoso; a treporava, com florinhas azuis; a erva- madre, a erva- de- bicho, a taioba comestível e a venenosa...chega! Não estou aqui para falar de Botânica!
Antes de ir direto ao assunto, devo acrescentar que havia uma vala acompanhando o terreno. Ali, também, tínhamos de tudo: desde o insuportável pernilongo até as belíssimas e diáfanas libélulas, ou lavadeiras. Elas sobrevoavam a água, pousando sobre o alimento vivo: as larvas. O local era um criadouro de sapos, rãs e, consequentemente, de girinos. E as cobras? Sim. Tínhamos. Em certas noites, trevosas ou enluaradas, ouvíamos o coaxar aflito das rãs. Eram as cobras, providenciando um banquete. Para terminar a descrição do nosso entorno, tenho que acrescentar a presença das sanguessugas. Elas me assustavam mais do que um filme de terror. Zé do Caixão não me meteria tanto medo.
Retorno, agora, ao temporal. Começou à tarde, já assustador. O céu desabava. Como eu disse, com um terreno tão baixo e alagadiço nos dias chuvosos, qualquer aguaceiro nos causava apreensão. Tudo foi num crescendo. O final de tarde virou noite, antes da hora. A energia elétrica, que já nos faltava com qualquer chuvisco, foi desligada. Como isso era frequente, meus pais sempre tinham velas e a lamparina a querosene. O pavio, nela submerso, com uma linguinha para fora, alimentava a chama que alumiava os pequenos cômodos. A chuva, cada vez mais intensa, começou a nos amedrontar. A água, despejada em catadupas, vinha das partes mais altas. No terreno do brejo, permanentemente alagado, porém, não havia escoamento. Do lado oposto, a ferrovia era uma barreira intransponível. E a chuva foi aumentando. Os habitantes da vala, anteriormente delimitados pelo capim, ficaram desorientados. Desalojados do seu habitat, espalharam- se, confusos.
Dentro de casa, a preocupação deu lugar às providências necessárias. O desastre já se avizinhava. Meus pais, aflitos. Nós não sabíamos, ao certo, o que estava acontecendo. A hora chegou, de repente. Primeiro, a cozinha, que era mais baixa, foi inundada. Rapidamente, a água subiu dois degraus e se espalhou pela casa. Era um rio. Meus pais deixaram a porta da cozinha aberta, para facilitar o escoamento. Qual! A correnteza era voraz. O cenário, com a luz bruxuleante das velas, era fantasmagórico!
Nós quatro fomos colocados sobre a mesa da cozinha. Era de madeira. Aguentou- nos. Ficamos quietos, observando nossos pais na correria, tentando salvar o que podiam. As roupas foram entrouxadas e colocadas sobre o guarda- roupa. Minha mãe retirou os alimentos do guarda- comida. Colocou- os bem no alto, a salvo. As xícaras, azuis, azuis, com bordas e asas douradas,que estavam numa prateleira baixa, resolveram escapulir. Seguiram na enxurrada, porta afora. Viraram barquinhos. Isso, porém, foi pouco. O grande mesmo foi o que aconteceu com minhas pernas. Eu já tinha nove anos. Meio porque mal cabíamos os quatro sentados sobre a mesa, meio porque queria balançá- las na água gelada, deixei- as dependuradas. Não pensei que algo ruim pudesse acontecer. Mas aconteceu! Quando olhei para baixo, vi enormes pintas pretas coladas nas pernas. Aí...berros! Berros lancinantes! Eram as sanguessugas. Eu sabia que elas só desgrudariam quando estivessem fartas de sangue, do meu sangue! Salvou- me meu pai. Rapidamente, derramou álcool sobre elas, que se desgrudaram e desapareceram na corredeira.
Após o triste episódio, homens altos e desconhecidos surgiram na cozinha, para nos resgatar. Na verdade, um deles era nosso vizinho. Saímos, os três mais velhos, nos braços deles, na escuridão. Havia, apenas, a ajuda de uma lanterna.
-----A cisterna! Cuidado com a cisterna! Por aqui! Por aqui!-----gritava o vizinho.
Sim.Num lado do caminho havia uma cisterna. Naquela época, era uma palavra desconhecida por mim. Inferi, então, que se tratava do nosso poço. Coitado! Sua tampa de madeira , também, resolveu fugir. Estava escancarada uma boca, pronta a nos engolir. Isso não aconteceu, felizmente.
Fomos levados para a casa desse vizinho, num ponto mais alto daquele trecho sem saída.
Uma vizinha, há não muito tempo, contou- me que, naquele dia, tarde da noite, ouviu gritos. Era minha mãe, com a caçula no colo e um relógio- despertador na mão, pedindo guarida. Meu pai, certamente, estava com ela.
Os moradores das partes altas pouco se incomodaram com a força da chuva. Admiraram- se ao saber , no dia seguinte, que uma legião de desabrigados foi acolhida nas Escolas, nas Sociedades de Bairro, no Hospital São José.
Morros desabaram. Pai e mãe, que tinham ido ao Cine Anchieta( SV), ao chegarem em casa, só encontraram uma avalanche de pedras e barro. Cinco dos filhos, com idades entre quatro e catorze anos, foram soterrados! Destruição e dor!
Voltando ao dia seguinte, acordamos em casa alheia. Meu irmão tem uma lembrança nítida daquele momento. Chegando ao terraço, apenas viu um lago, um grande lago, sobrepujando toda a vida vegetal que descrevi no início. Na inocência dos seus cinco anos, já com uma queda para o romantismo, exclamou:
-----Que lindo!

São Vicente, 21 de março de 2021

TEMPORAL E CALAMIDADE- 1956

Várias barreiras desabaram - Sete mortos - Casas soterradas - 300 pessoas, vítimas das enchentes, abrigadas e tratadas no Lar Vicentino - O Hospital S. José recebeu 31 vítimas do desmoronamento do Morro da Caneleira - Colaboração das autoridades, Comissariado de Menores, Legião Brasileira de Assistência, Jóquei Clube, Escoteiros do Mar "Tropa Tumiarú", Pronto Socorro, Educandário "S. Gabriel", comércio e do povo - Salvos no mar - Ao pretender salvar um seu amiguinho, pereceu afogado numa lagoa. - Interrompida a passagem dos trens da Sorocabana, por ter caído uma barreira próximo à "Pedra dos Ladrões" - Câmara Municipal - Hoje, a Procissão do Encontro. 

São Vicente foi seriamente atingida pelas últimas chuvas, com desabamentos de barreiras, enchentes e residências soterradas. Embora se verificassem sete mortes, muitas pessoas tiveram que abandonar os seus lares, devido às enchentes ou por ameaçar perigo os morros próximos de suas residências. Ruas, praças e avenidas ficaram alagadíssimas, devido às fortes chuvas, motivo porque ficou o trânsito interrompido e a cidade, por muitas horas, sem energia elétrica, sem bondes e sem ônibus. 
Quando voltava o casal do cinema, encontrou a casa soterrada e cinco filhos mortos - O caso mais doloroso foi a morte dos cinco irmãozinhos Matos, soterrados em sua residência, quando desabou a barreira do Morro Itararé. Seus pais tinham ido ao Cine Anchieta e, quando voltaram, tiveram conhecimento da triste ocorrência. 
No chalé situado no alto do citado morro, ao lado da Pedreira Boa Vista, de Roquete e Daniel Mendes, estavam, ainda, uma irmã casada e cunhado das vítimas, e a pequenina que foi salva por Pedro Duarte Novais e sua mulher. Eram precisamente 23,30 horas, quando aconteceu o fato. 
São os seguintes os nomes e idades dos pequeninos que pereceram tragicamente: Ida de Matos, 5 anos; Eraldo, 12 anos; Lídia, 6 anos; Claudete, 14 anos, e Manoel, 4 anos. Três meninas e dois meninos, filhos de Eraldo Matos (vulgo Piaçú) e de Ermelinda Couto Matos. 
"Zé Preto", a vítima do Morro Japuí - Na Av. Siqueira Campos, ligação 2, no Japuí, José Pedro da Silva, funcionário do Saneamento, morava no sopé do morro, com sua esposa e oito filhos menores. Eram quatro horas quando duas enormes árvores se soltaram, devido à enxurrada, atingindo o seu chalé, o qual foi desmontado e destroçados todos os seus pertences. "Zé Preto" foi atingido e imprensado, tendo morte instantânea. 
No meio dos escombros, um menino de 5 anos, filho de criação do casal, ficou com o seu bercinho entre o fogão de ferro e um pedaço de móvel velho, sendo retirado pelo escrivão Rabelo e auxiliado pelos soldados José Batista de Moura, Francisco Mendes e Carmelino de Lima, do nosso destacamento policial. As outras crianças e a mulher foram salvas. A vítima morreu comprimida entre a cama e o guarda-roupa, ficando as árvores sobre os escombros. 
"Barbosinha", contínuo da Prefeitura, pereceu afogado - Gustavo Barbosa Santos, com 37 anos, brasileiro, casado, funcionário da Prefeitura local, quando regressava dum casamento para a sua residência, caiu numa "boca-de-lobo" próxima à Fábrica de Vidros, perecendo afogado. 
A sua morte foi muito sentida, pois "Barbosinha", como lhe tratavam os seus colegas, era bastante estimado nesta cidade. A ocorrência registrou-se às 4 horas de anteontem, quando ainda chovia torrencialmente. A imprudência deu causa à sua morte, pois as águas naquele local atingiam mais de um metro de altura. 
Inundações - Os bairros do Rio da Avó, Sá Catarina de Morais, Vila Margarida e Mangue Saquaré foram os mais atingidos pelas chuvas, tanto assim que os moradores tiveram que abandonar os seus lares. 
Barreiras sobre o leito da E. F. Sorocabana - Em frente à "Pedra dos Ladrões" e na divisa do José Menino, caíram duas barreiras sobre o leito de E. F. Sorocabana, interrompendo a carreira dos trens da linha Santos-Juquiá. Os passageiros vindos de Juquiá estão descendo em São Vicente, enquanto não se terminar a desobstrução da linha. 
Em frente à "Pedra dos Ladrões", as pedras estão trincadas, ameaçando iminente desmoronamento. 
Importante trabalho prestado pelo Lar Vicentino - A diretoria do Lar Vicentino consentiu que, em suas dependências, fossem recolhidas as pessoas vítimas das enchentes. Assim, nada menos de 300 desabrigados lá se encontram, recebendo toda a atenção possível. 
É justo destacar a eficiente colaboração das autoridades, comércio, comissários de menores, polícia, Hospital São José, e pessoas caridosas. Nada tem faltado: alimentação, medicamentos, consultas médicas, camas, colchões etc. Verifica-se, no futuro asilo de inválidos, um movimento de verdadeira solidariedade humana. O sr. Sílvio Corrêa da Silva e a dra. Clementina Faro lá estiveram ontem, medicando e examinando elevado número de pessoas. 
As vítimas do Morro da Caneleira, atendidas no Hospital S. José - Pelos drs. Hélio Ramos Costa, João Evangelista da Rocha e Antonio Caramenho, médicos do Pronto-Socorro, foram atendidas e internadas anteontem, no Hospital São José, as seguintes vítimas do desabamento do Morro da Caneleira: Antonio Aragão Dias, José de Almeida, Francisco Ferreira da Silva, José Borges Figueiredo, Malvino Colasso, José dos Reis Silva, Antonio José de Freitas, Alziro Vitoriano de Freitas, José Oliveira da Silva, Adevaldo Aguiar, Vicente Agostinho da Silva, Jonas da Costa Ramos, Benedito Passos, Domingos Florêncio de Almeida, Serapião Bispo dos Santos, Manoel Valente Pereira, José Fernandes Filho, Joaquim da Costa, José Nunes Soares, Arcelino Ribeiro, Marliete da Silva, Adelino Ribeiro, Irísia Ribeiro, Maria do Rosário Passos, José Gentil de Araújo, Antonio Fernandes, Marciano José dos Passos, Anita Passos, Maria Heuaide Toda, Yoshino Huaide e Pedro Brasil Silveira. 
Cooperaram também eficazmente, os drs. do Corpo Clínico: Alcides de Araújo, José Singer, André Stucchi, Carlos Zinder, Raposo do Amaral e Geraldo Hellmeister. Assim que começaram a chegar as primeiras vítimas ao Hospital S. José, ali também compareceu o dr. Olavo Hourneaux de Moura, oferecendo seus serviços e pondo à disposição dos feridos a Casa de Saúde "N. S. das Graças", de que é diretor-proprietário. 
Foram salvos do mar - Pelos guardas do Posto 1, foram salvos quando estavam prestes a se afogarem, os seguintes banhistas: Domingos Mendes, 20 anos, solteiro, escriturário, residente à Rua Linda Batista, 125, São Paulo; Florinda Rosa, 53 anos, casada, doméstica, brasileira, residente à Rua Vergueiro, 631, capital; Pedro Cordeiro, 47 anos, casado, comerciário, brasileiro, residente à Rua Guaipa, 92, São Paulo. O sr. Moacir Santos Moura (Leco) ajudou os guardas, neste último salvamento. Os guardas do Posto são: Adão Marques, Genésio dos Santos, Severino Gomes e Davi Xavier. 
Pereceu afogado na lagoa, quando pretendia salvar seu amiguinho - Um gesto que bem demonstra o grau de abnegação e de solidariedade humana, foi o praticado pelo menino Vicente Postego Ramos, de 13 anos de idade, filho de Salvador Postego Balão e Ana Ramos Postego, residente no Caminho São Jorge, Rua Particular, ligação n. 2. Vicente, ao pretender socorrer um seu amiguinho na lagoa próxima à Pedreira Santa Teresa, na Vila São Jorge, pereceu afogado. Sua morte causou consternação, não só pelo gesto praticado, como por gozar a vítima de grande estima. 
Procissão do Encontro - Devido ao mau tempo reinante domingo, a Procissão do Encontro dar-se-á hoje, às 20 horas, na Praça Barão do Rio Branco. Falará aos fiéis monsenhor Borowski, reitor do Seminário. A banda do 2º B.C. abrilhantará o cortejo religioso. 
Na Prainha desabaram três barreiras - A residência que mais sofreu com o desabamento, no bairro da Prainha, foi a que está localizada em frente ao 1.001, pois ficou totalmente soterrada, não se registrando vítimas porque o seu proprietário reside em São Paulo. No mesmo lado direito, outra casa foi atingida, caindo sobre a mesma uma enorme árvore. Também não houve vítimas. 
No local onde existe a caixa d'água da Prefeitura, grande quantidade de terra desabou do morro, obstruindo a passagem na Av. Saturnino de Brito. 
Atingido o bar e boite Prainha - Quando os "habitués" se encontravam dançando, foram surpreendidos, às 2,30 horas, com o desabamento de uma barreira, a qual pegou a parte dos fundos do Bar e "Boite" Prainha. Os dois autos dos proprietários desse estabelecimento comercial ficaram soterrados. O piano, móveis etc. sofreram danos com a enxurrada. Felizmente, nada de grave aconteceu aos freqüentadores e pessoal da "boite", a não ser o grande susto. Procurando desobstruir as passagens, cortando árvores e tomando outras providências, ali esteve o sr. Américo Fernandes Tavares. O dr. Alberto Lopes dos Santos, presidente da Câmara, logo que soube da ocorrência, compareceu ao local, e no Japuí. 
Escoteiros do Mar "Tropa Tumiarú" - Gesto digno de registro é o oferecimento e o trabalho dos Escoteiros do Mar "Tropa Tumiarú". No Lar Vicentino, desde ontem pela manhã, os meninos estiveram em atividades. Oferecimento do Jóquei Clube - Além do oferecimento do médico, sr. Gilberto Cavalcanti, e dos enfermeiros, a diretoria do Jóquei Clube de São Vicente enviou ao Hospital São José medicamentos para atender as vítimas do Morro da Caneleira. Esteve também no Hospital, oferecendo seus serviços profissionais, o dentista e enfermeiro, dr. Alfredo Gaspar. 
Ação eficiente do Comissariado de Menores de S. Vicente - O Comissariado de Menores desta cidade teve papel saliente nos momentos tristes que atravessamos. Foram os comissários verdadeiros abnegados, retirando e carregando crianças das inundações no Mangue Saquaré, Vila Margarida, Rio da Avó e Rio Sá Catarina de Morais. O juiz de menores, dr. Aldo de Assis Dias, veio à noite verificar a situação das crianças, no Lar Vicentino e na Escola da Vila Sorocabana, retirando-se bem impressionado pelas medidas tomadas e o bom acolhimento recebido. Legião Brasileira de Assistência - Logo que soube dos acontecimentos, compareceu ao Hospital São José e Lar Vicentino a sra. Maria Madalena Cunha Jarossi, presidente da Legião Brasileira de Assistência, em São Vicente, tomando várias providências. Apelo ao dr. Lauro Ataíde de Freitas - Em nome da população vicentina, apelamos para o dr. Lauro Ataíde de Freitas, chefe do Distrito de São Paulo, do Departamento Nacional de Obras de Saneamento, no sentido de serem desobstruídas as comportas do Rio da Avó e Rio Catarina de Morais, as quais não dão vazão às águas represadas nas áreas inundadas. Câmara Municipal - Será realizada hoje, às 14,30 horas, mais uma sessão da edilidade vicentina, sob a presidência do sr. Alberto Lopes dos Santos. Terá prosseguimento a discussão e votação do projeto de lei do sr. Rafael Faro Politi, e que trata do Código de Obras do Município. Vai faltar água dois dias - Pede-nos a Prefeitura Municipal de São Vicente tornarmos público que em virtude de haver caído uma barreira que obstruiu a tomada de água, sem causar danos de monta, faltará o precioso líquido na cidade, por dois dias, tempo necessário à remoção da terra que está impedindo o serviço de abastecimento. 
MAIS CALAMIDADE 
Ameaçados os edifícios "Mirante" e "Parque dos Estados" - Intimados os moradores da pedreira Itararé a abandonar suas residências - Vacinação preventiva - Contra o despejo de lixo no caminho da Praia Grande - Eficiente colaboração da Colônia de Pescadores, Capitania dos Portos, Fortaleza de Itaipu e 2º B. C. - Prossegue o trabalho no Lar Vicentino - Auxílio da Legião Brasileira de Assistência - Recolhidas na Escola Mista dos Ferroviários mais 145 vítimas das enchentes - Desferiu cinco facadas na companheira - Suspensa a sessão de ontem da Câmara Municipal em homenagem às vítimas da catástrofe. 


Nossa reportagem percorreu, ontem, todo o Morro dos Barbosas, onde a Cia. Di Franco de Investimentos Ltda. está vendendo lotes de terrenos, constatando que existem várias fendas, algumas numa profundidade de 3 e 4 metros, oferecendo perigo, caso novas chuvas desabem sobre a nossa cidade. Os prédios "Mirante" e "Parque dos Estados" serão os atingidos. O primeiro tem 22 apartamentos, entretanto, somente lá estavam oito famílias, pois as demais seguiram para São Paulo. Várias foram as barreiras que desabaram do referido morro. Torna-se necessária rigorosa investigação por parte de engenheiros técnicos, a fim de serem salvaguardadas as vidas dos moradores e pedestres. Também medidas enérgicas deverão ser tomadas pelo prefeito. A Ponte Pênsil, do mesmo modo, poderá ser atingida com o desabamento. Intimados os moradores da Pedreira Itararé a deixar suas casas - Em vista do constante perigo que oferece o Morro do Itararé, a polícia intimou os moradores a se mudarem, o que está sendo feito desde ontem. 
No Lar Vicentino - Continuam, no Lar Vicentino, as vítimas das enchentes do Rio da Avó, Mangue Saquaré, Rio Sá Catarina de Morais, Vilas Margarida e São Jorge, os quais vêm ali recebendo alimentação e medicamentos. Essa situação perdurará até que os mesmos possam voltar aos seus lares. O dr. Leovegildo Trindade ofereceu o motor para o funcionamento da distribuição da água. Vários oferecimentos vêm sendo feitos, pela Legião Brasileira de Assistência e inúmeros particulares. 
Recolhidos na Escola Mista dos Ferroviários - A sra. Angelina Pretti da Silva, vereadora municipal, teve um gesto que bem merece encômios e registro. Conseguiu alojar, na Escola Mista dos Ferroviários, 145 pessoas vítimas das enchentes e 20 em sua residência. Para essas pessoas, o Departamento Estadual da Criança vem fornecendo medicamentos e leite em pó. 
Auxílio da Prefeitura de Santo André - Valiosa e simpática colaboração acaba de oferecer o prefeito de Santo André, enviando, para a nossa cidade, dois caminhões basculantes e 16 operários. Estes estão alojados na sede do União. 
Ofereceram colchões: Ernesto Antonio, 10; Padaria Bandeirantes, 3; Bar Aguiar, 1; Alfaiataria Neves, 1; Pedro Toneli, 1. O Binder's Bar fornecerá a alimentação aos operários. 
Aviso ao público sobre arrecadação de donativos - A presidente da Legião Brasileira de Assistência (Seção de São Vicente) desde que teve conhecimento, domingo, das tristes ocorrências em nossa cidade, comunicou-se com o prefeito municipal, tomando várias providências. Esteve segunda-feira no Hospital São José e no Lar Vicentino. Para essa casa de caridade providenciou café, roupas, fraldas, aos 200 flagelados ali recolhidos. Recebeu da Legião Brasileira de Assistência, de São Paulo, todo o apoio, pelas iniciativas tomadas. Todos os donativos devem ser entregues à presidente, à Rua 15 de Novembro, 176, em São Vicente, evitando-se dessa forma possíveis explorações. 
A Câmara aderiu ao sentimento do povo, pela catástrofe - Assinado pelos edis Nicolino Simone Filho, Carlos Menezes Tavares e Cremiro Azevedo, foi lida e aprovada a solicitação de serem suspensos os trabalhos do Legislativo, pelo infausto acontecimento que enlutou vários lares em nossa cidade e desabrigando também muitas famílias. 
Desferiu cinco facadas em sua companheira - Bento Vicente, residente à Rua Carlos Gomes, 60, depois de se embriagar, desferiu cinco facadas em sua companheira, Ana Maria Augusta, a qual foi atingida no pescoço e costas. Em estado grave, a vítima depois de ser atendida pelo Pronto Socorro, seguiu para a Santa Casa. O agressor recebeu ordem de prisão do investigador Orlando, quando empunhava ainda a faca. O dr. Lídio Bandeira de Melo mandou instaurar o inquérito, arrolando várias testemunhas. Outras pessoas receberam ferimentos atingidos com golpes de faca, quando procuravam socorrer a vítima. 
Festa íntima - Dia 25, registrou seu 12º aniversário a menina Mercedes, filha do dr. Arnaud Machado, funcionário aposentado da Repartição de Saneamento de Santos, e de d. Gertrudes Machado. A aniversariante ofereceu uma mesa de doces às suas amiguinhas. 
Indiferente a guarda-civil, durante a catástrofe - São Vicente conta, para o policiamento do trânsito, com o destacamento de 3 ou 4 guardas-civis, que, durante estes dias de angústia, não foram vistos nos pontos onde se fazia mais necessária sua presença. Na Avenida Antônio Emerich, domingo à noite, em virtude do desabamento ocorrido na Caneleira, foi o serviço de trânsito efetuado por elementos do quartel militar do 2º B. C., nas imediações de sua guarnição e no início da aludida via pública, tendo sido feito pelo sr. Orlando Dias Bexiga o desvio de veículos. 
Idêntica falta de policiamento dos guardas-civis verificamos na Avenida Manoel da Nóbrega, e vias adjacentes, que estavam, em parte, intransitáveis, e onde o trânsito foi orientado pelos guardas municipais, fato este ainda ontem constatado. E nas avenidas Getúlio Vargas e Newton Prado o fato se repetiu. Neste setor, nem a guarda rodoviária foi vista ontem pela manhã. É de se lamentar essa anomalia e descaso, notadamente num momento em que todas as pessoas, indistintamente, empregavam seus esforços para auxiliar as pessoas necessitadas. A guarda-civil, infelizmente, não correspondeu... 

Colaborações eficientes durante a catástrofe 

Capitania dos Portos e Colônia de Pescadores - Tão logo teve conhecimento das tristes ocorrências registradas nesta cidade, durante a madrugada de domingo, o cmte. Francisco Vicente Bulcão Viana, capitão dos Portos do Estado de São Paulo, determinou ao capataz destacado nesta cidade, sr. Osvaldo dos Santos, para que providenciasse junto aos pescadores e proprietários de embarcações as requisições que se fizessem necessárias. Verificamos, domingo pela manhã, a atividade daquele funcionário da Capitania, coadjuvado pelos pescadores profissionais Angelo Verta Filho, Manoel de Jesus Filho e Aristodemos Mangolini, além de inúmeros componentes da Colônia de Pescadores Z-4 "André Rebouças" e particulares. Foram cedidas várias embarcações para o transporte de inúmeras famílias vítimas das inundações verificadas no rio Sá Catarina de Morais, rio d'Avó e Saquaré. 

2º B.C., Fortaleza de Itaipu e Colônia de Férias do Clube Militar da Força Pública - Os comandantes dos 2º B. C. (Bugre) e 5º G. A. C. (Fortaleza de Itaipu) também prestaram excelentes colaborações, doando colchões para os flagelados e colocando à disposição das autoridades municipais grupos de soldados para os serviços de desobstrução na Caneleira e nas avenidas Getúlio Vargas, Newton Prado e Saturnino de Brito. A Colônia de Férias dos Oficiais da Força Pública do Estado de São Paulo também prestou a sua cooperação, cedendo cerca de 100 colchões. 
Outras colaborações - Da mesma forma verificamos o auxílio prestado por funcionários operários da Prefeitura, a equipe do Comissariado de Menores, vereadores, jornalistas e inúmeras pessoas. 
Vacina preventiva contra eventual surto epidêmico - Hoje à tarde, por determinação superior, os componentes do Centro de Saúde local iniciarão no Boqueirão da Praia Grande as vacinações preventivas contra o eventual aparecimento de infecções do aparelho gastrointestinal (tifo, disenterias). É aconselhável à população vicentina, principalmente àqueles em cujas habitações forem precárias as instalações sanitárias (falta de esgoto), procurar o Centro de Saúde, à Rua Jacó Emerich n. 686, a fim de se prevenirem contra eventual moléstia. Além das medidas de limpeza, vacinação e profilaxia que se fazem necessárias, as autoridades sanitárias pedem a colaboração do povo, fazendo-lhe as seguintes recomendações: - Não comer verduras cruas;- Utilizar-se apenas de água fervida;- Combate sem tréguas às moscas; - Remoção de todos os detritos; e - Não tomar banho de mar. 
Deve ser impedido o despejo de lixo provindo de Santos - As águas provenientes dos morros situados na Avenida Siqueira Campos, desde o Japuí até o Boqueirão da Praia Grande, ainda estão estagnadas, motivadas pelo escasso escoamento existente naquela estrada. Em determinados trechos da avenida verificamos, ontem, que os carros de lixos da Prefeitura Municipal de Santos, impossibilitados de penetrar no interior de vários sítios de bananas, ali existentes, estão descarregando toda a sorte de detritos e sujeiras na margem daquela avenida. A Prefeitura local, por intermédio de sua Diretoria de Serviços Públicos, sob a responsabilidade do sr. João Rodrigues Caldeira, determinou que a descarga de lixo de São Vicente fosse feita em outro local. Por que a Prefeitura de Santos não imita esse gesto? As contínuas descargas naquele local poderão resultar em conseqüências funestas. É preciso que as autoridades competentes façam desaparecer essa ameaça. 

NATUREZA EM FÚRIA 

Simplício Brando 

Voltou a cidade de Santos a sofrer outro forte abalo neste adverso mês de março, em resultado do violento temporal caído na madrugada de domingo, assim dolorosamente chamada a pagar novo tributo de vidas, às dezenas, sem esquecer o grande número de feridos e os importantes prejuízos materiais verificados. 
São Vicente, de igual modo, alcançada pelos mesmos sinistros efeitos, também contribuiu com o sacrifício de quase dez vidas, bem como numerosos danos de monta. Não iremos repisar, em tão pequeno espaço, o noticiário dos jornais sobre os dramáticos transes desenrolados, os momentos de desespero e o espetáculo desolador anteontem oferecido pelas duas cidades praianas, com o seu comércio de portas cerradas, em sinal de luto, e as ambulâncias, as viaturas da Polícia e do Corpo de Bombeiros, cortando as ruas, a cada instante, além de caminhões conduzindo móveis, roupas e utensílios das vítimas atingidas pela catástrofe, em direção aos alojamentos improvisados, tendo em vista o êxodo dos moradores. 
Entrementes viam-se operários e outras devotadas almas ao lado de carros providos de guindastes e caçambas, empenhados no trabalho ininterrupto de remoção dos escombros, em diferentes pontos onde a tormenta produziu impressionantes desabamentos, notadamente no sopé dos morros, soterrando casas e pessoas nas trevas da noite! 
Diante desses sucessivos dramas, mostrando a cólera dos elementos da natureza em busca do cenário propício ao desdobramento de pavorosas tragédias, de preferência os morros dinamitados, cabe às autoridades administrativas, pelos seus organismos técnicos, proceder, antes de mais nada, a imediatos estudos nessas elevações, em cujos pontos a pedra está sendo industrializada, sem as devidas cautelas, ou ainda nas abas escolhidas para a retirada da terra, em volumosas quantidades, providenciando-se, logo após, as medidas mais urgentes, de caráter preventivo, em resguardo de vidas preciosas e outros males irreparáveis. Em São Vicente também os criminosos bueiros já ocasionaram duas mortes, tendo sido, antes, surpreendida uma menina, e agora um contínuo da Prefeitura Municipal, ambos inapelavelmente tragados pelas bocarras traiçoeiras dessas armadilhas, para as quais devem os responsáveis voltar as suas vistas. 
Outros episódios funestos e chocantes, expressando quadros de horror, podem ser perfeitamente evitados mediante decididos empenhos. Dir-se-á que as chuvas torrenciais e prolongadas deram causa aos lutuosos acontecimentos. Exatamente, esta é a verdade. Mas também é certo que, em resultado das abundantes enxurradas havidas, os morros continuam apontando outras fatídicas surpresas. 
Isto nos leva a refletir que os impetuosos elementos desencadeados com implacável ira lá das alturas, parecem querer revidar, cá em baixo, os sistemáticos golpes desferidos pela mão do homem contra a integridade majestosa das pedreiras santistas e vicentinas! 
E vale a pena continuar refletindo em torno dessa causa...

A TRIBUNA NÃO ESQUECE

23 de dezembro de 1966

O Edifício Vista Linda desabou após um deslizamento no mesmo morro. Um policial rodoviário, o sargento Jaime de Miranda, que trabalhava no posto na Ponte Pênsil, ouviu um estalo e percebeu que terra e pedras estavam cedendo do morro. Ele avisou o zelador, João Joaquim da Silva, que percorreu os dez andares para os moradores saírem da construção. Em cinco minutos, o prédio tombou, mas 38 moradores conseguiram sair a tempo. O único ferido, sem gravidade, foi o zelador, que machucou um pé. A Avenida Getúlio Vargas permaneceu fechada, e seis prédios vizinhos foram desocupados. O prédio que caiu já havia sido interditado antes.


















CRÔNICAS HISTÓRICAS



Especial de Raul Lellis* para a edição histórica de O Cruzeiro, de janeiro de 1932, em comemoração do IV Centenário da fundação de São Vicente. Ilustrações de M. Cavalleiro.

No amplo pateo da casa senhorial, casa de largas taboas e tapetado de relva macia, formou-se a comitiva: os cavaleiros, que a custo soffreavam os corcéis inquietos; os escravos –negros- e índios – que conduziam a carga numerosa; a liteira elegante e de cortinas bordadas; e, por último, fechando a retaguarda, um punhado de arcabuzeiros.
Eram seis horas da manhã. São Vicente, o primeiro lampejo de civilização atirada à solidão verde do Brasil, começava a despertar. Uma janella se abria de quando em quando e, de longe em longe, um escravo, passando rápido na praça lamacenta e ampla, arriscava um olhar curioso pelo largo portão que dava entrada ao pateo da casa do capitão mor.
Um jovem envergando a farda lusidia de tenente das guardas reaes approximou-se de um grupo de fidalgos que cerca a liteira.
- Estamos prontptos, falou elle, dirigindo-se ao mais velho, um nobre de figura arrogante figura e alvos cabelos. Partiremos quando Vossa Mercê o ordenar.
O fidalgo relanceou o olhar pela coluna de escravos e de homens armados que se estendia do portão até as cavalariças e, tomando o official pelo braço. Afastou-se com ele do grupo. Uma funda ruga fendeu-lhe do cenho, quando elle falou:
- Eu vos entrego uma carga duplamente preciosa, dom Luiz, por isso que dona Maria, com ser minha única sobrinha, é também a noiva de meu filho...
A viagem que ides fazer, don, não é longa, mas eu vos peço que estejaes sempre attento, afim de evitar riscos que possam aparecer. Dizem por ahi que os bugres estão assanhados e, embora ninguém os tenha visto e armas nestes últimos meses, sempre é de temer que nos façam uma surpreza de um momento para o outro. Se vos for possível, deixai de dormir até o momento em que tenhaes entregue a dona Maria em casa dos Paes, junto à cabeceira de minha irmã que, segundo sei, agoniza...
- farei como dizei!!!

O velho fidalgo poz a mão, familharmente, no ombro do jovem militar
- Apesar de toda a confiança que vós e a vossa bravura mereceis, eu gostaria de acompanhar pessoalmente minha sobrinha ou de que meu filho o fizesse, mas o governador deve chegar aqui amanhã ou depois, vindo de Cananéia e da Vila de João Ramalho e é necessário que aqui estejamos para dar notícia dos negócios da capitania. Eu vos dou o maior número de homens armados de que posso dispor no momento. Mas não posso daqui afastar, agora, pois bem sabeis que os franceses não nos dão tréguas.
- Descanse que esses me bastarão.
-Sabeis como deveis fazer: às três da tarde alcançareis a quinta fortificada da Garcia Pimenta; lá pernoitareis para continuar viagem ao amanhecer do dia seguinte. Os vossos batedores levam uma hora de avanço sobre a comitiva e vos darão notícia de qualquer perigo no caminho; se algum imprevisto aparecer, despachaes logo um mensageiro a dar-me notícia ou a pedir-me auxílio.
- Faremos como acabas de dizer.
Então, em marcha, e que Deus vá convosco... Eis que dona Maria acaba de subir para a liteira...
O velho fidalgo caminhou rápido ao encontro de um rosto de mulher que aparecia entre as cortinas bordadas. Tomou de uma pequenina mão que lhe era estendida e beijou-a forcejando por sorrir entre as lágrimas da moça:
- Enxugae vossos lhos, dona Maria, que não há razão para pranto. Deus há de permitir que a moléstia de vossa mãe e minha irmã não tenha maior importância e ainda nos riremos do alarme feito.
A jovem sacudiu a cabeça mimosa de louros cabellos revoltosos, ao mesmo tempo em que enxugava as lágrimas com o pequenino lenço de cambraia rendada.
- Meu pai não sujeitaria ao risco de uma viagem feita às pressas se não visse que era realmente grave o estado de minha mãe!... Pra à Virgem que eu ainda chegue a encontrá-la com vida...
- Por Deus, não vos desespereis, minha filha!
Doana Maria abafou um soluço e indagou, como se quizesse desviar o assunpto:
- Não vindes comigo?
-Bem sabeis que não é possível... Esperamo o governador amanhã ou depois e minha presença é necessária aqui. – E tão pouco virá D. Francisco, vosso filho.
- E vosso noivo, sublinhou o fidalgo.
Um jovem aproximou-se nesse instante dos que conversavam. Era garbos e forte e tinha nos olhos o mesmo brilho audacioso e no rosto os mesmos traços de energia que tanta majestade emprestavam á figura venerável do capitã-mór; o chapéu pendia-lhe da mão, com a pluma a roçar o solo.
Era Don Francisco de Souza e Góes, filho do capitão-mór, noivo D. Maria, commandante das guardas do governador. Elle falou, numk tom de voz que mais parecia de súplica do que de explicação:
- Eu já vos disse, dona Maria, dos motivos que me prendem a São Vicente neste momento. Espero que me perdoeis se vos faço companhia até o primeiro pouso e prometto-vos que estarei em Piratininga tão depressa quanto mo permita o serviço do governador.
Dona Maria inclinou a cabeça, mudamente. O capitão-mór fez um signal ao tenente. Dom Luiz que já ia montando, tinha os olhos fixos nelle. O som de uma trompa encheu os ares. Houve no pateo um rumor de metais que se chocavam, de espadas que se baiam, de animais que escarvavam a terra. Os cavalleiros montaram. Dom Francisco foi collocar-se com seu nervoso Cavallo branco ao lado da liteira da noiva. O capitão-mór beijou a mão que a sobrinha lhe estendia através das cortinas e murmurou:
- Que a Virgem seja a vossa companheira, dona Maria...
Novamente o som da trompa dominou os ruídos do pateo e a pequena colluna se poz em marcha.
Quando o último mosqueteiro já havia transposto o largo portão e a comitiva ia longe, além dos limites da praça ampla, aproximou-se do capitão-mór:
- Não vos parece um pouco temerário esta viagem, com os rumeres que correm ahi? – indagou.
O interpelado fitou-o, com uma sombra de olhar:
- Certamente, dom Alvaro, mas, que quereis? O recado que hontem recebemos, trazido por um mensageiro despachado às pressas de Piratininga era claro e dizia que minha irmã, agonisando , queria ver a filha, de quem está separada já vai para dois anos... Não houve como evitar a viagem, tanto mais quanto Dona Maria ficou como louca... Ainda se lhe pudéssemos dar uma boa escolta! Mas numa época como a que atravessamos, com as guarnições a um terço, os franceses às portas da colônia e sem o menor auxílio do Reino...
Dom Alvaro teve um sorriso!
- Quase que se não pode saber se é melhor a sorte dos vão ou a dos que ficam...
O capitão-mór sacudiu a cabeça:
Tendes razão...
E estendeu o olhar, contemplativamente, pelas collinas baixas que o sol começava a dourar na alegria da manhã.
Às seis há a vida de São Vicente, vida pobre de Villa colonial de século XVI – começava a declinar. Terminando o completório da igreja rústica accendiam-se os fogos nas casas de alvenaria e nem mesmo o passo de um caminhante se ouvia nas ruas tortuosas do villarejo acanhado. O último sinal de vida era sempre dado, nas tardes luminosas, pelo pavilhão das quintas que lá ficava a drapejar ao vento, no topo do mastro, por cima das fortificações que Martim Afonso de Souza fizera construir ao sul da Villa, no alto do promontório que dominava o mar.
E aquella tarde teria sido igual a todas as outras monótonas, frias,, sem vida se cerca das seis horas um tirode canhão, secco,imprevisto,atroador, não tivesse quebrado o recolhimento do crepúsculo estival.
Em todas as casas assomaram cabeças à janellas, appareceram nas ruas e o próprio capitão-mór, que digeria calmamente o seu jantar, não poude deixar de chagar também à sacada rústica, investigando com o olhar as forticações que apareciam coroadas por uma nuvem branca.
-Deve haver alguma coisa! – falou elle para um escudeiro que se approximára. É pssível que o governador chegasse inesperadamente. Dá-me a capa e a espada que vou descer ao porto...
Quando, porém, ele transpoz o portão do pateo, um cavalleiro chegado em louco galope tomou-lhe o caminho.
- Que há? – indagou o fidalgo.
-Manda-me o commandante para vos dizer que estão à vista cinco nãos, vindas do sul. Estão longe demais para que para que se lhes possa ver bandeiras mas trata-se, ao que parece, de três caravellas e dois bergantins, e estes dois úlitimos bordejam, como se procurassem porto...
O capitão montou, rápido, galopando para as fortificações. Recebeu-o o comandante do forte, nervoso eagitado:
- Cá estão novamente os francezes!
- Como o sabeis?
- Já se podem ver as cores da França na maestração... Felizmente que há calmaria, pois do contrário elles teriam caído de surpresa sobre a Villa!...
- E tendes tudo pronpto para recebe-los?
- Bem podeis ver, capitão...
E o official apontava, satisfeito, as guarnições que se alinhavam atraz das peças baixas. Depois, reflectindo um instante:
- Mandaremos cincoenta homens para o sul, afim de impedir um desembarque durante a noite. Aqui sabemos bem que não teremos antes do amanhecer, a menos que elles queiram quebrar a nãos nos arrecifes da entrada...
O sino de rebate bem depressa levou a nova à última casa da Villa e em pouco todos os homens validos de São Vicente tinham accorrido para a luta. Atrás da palissadas, dentro dos reductos erguidos às pressas, todos esperavam, aferrando pistolas e adagas, durindanas e montantes, partazanas e mosquetes, o instante do ataque, dispostos a repelir o francez rapineiro.
Mas a noite desceu sem que o primeiro tiro soasse, sem que ao menos as mãos inimigas, abandonadas pelo vendo,estivesse diante da Villa.
Ao alvorecer do dia seguinte os portugueszes viram, com assombro, que os escaleres francezes, descidos durante a madrugada, apinhados de homens, estavam a poucos metros da praia.
As nãos, com o panejamento colhido a meio, alinhavam-se ante a Villa, promptas para o fogo. A luta prometia.
Um tiro partiu de terra, certeiro, para quebrar a mastreação de um bergantim e a dansa infernal teve início. As bombardas explodiam, das fotificações para as nãos e destas para a terra e os homens na praia , com os pés batidos pelas ondas, faziam descarregar as pistolas e os mosquetes.
Depois foi o aço que entrou em jogo,, com as durindanas a atravessar peitos, com as achas das armas a esmagar craneos, com as alambardas a formar uma barreira instransponível de pontas aguçadas e brilhantes. São Vicente, tão cobiçada sempre pelos corsários de todas as bandeiras, jamais vira uma luta igual áquella! Se grande Ra o número dos francezes invasores, maior, muito maior, era o ímpeto dos portuguezes que defendiam com loucura a mais florescente Villa do Reino em terras da América. O capitão-mór descera a dirigir a defesa. O seu montante de guerra, que de tantas glorias se cobrira na Índia abria claros impreenchíveis entre os assaltantes e ele estava em todos os reductos, animando, encorajando, dirigindo.


Súbito houve uma mudança na face da luta. Os francezes diminuíram a intensidadae do ataque e começaram a recuar, voltando aos escaleres fazendo-se de remos para as nãos. Não era o fim, percebia-se bem, pois, que as bombardas continuavam a explodir de lado a lado e novos escaleres desciam,cheios, pelos flancos das caravellas, mas era pelos menos uma trégua que daria descanso aos sitiados.
O capitão-mor descansou a ponta da espada na biqueira da bota de couro cru e passeou os olhos pela praia onde havia homens caídos sobre a areia manchada de vermelho.
Nesse momento um soldado, sujo, Ferid e sem armas approximou-se delle:
- Capitão!
- Dizei.
- Eu venho da quinta de dom Garcia Pimenta...
O ancião fitou-o com ansiedade incontida, como se esperasse uma notícia má.
- E que trazeis?
- Vosso filho manda pedir auxílio urgente. Os bugres, em número assustador, cercaram a quinta e não lhes pode resistir por muito tempo...
O capitão enfiou a montante na bainha e fez menção de caminhar, mas não chegou a dar um passo. Prestou ouvidos às bombardas que continuavam a estourar, olhou os seus homens,que,offegantes, suarentos, continuavam à espera de novo ataque, contemplou o mar onde as náos se balouçavam e onde novos escaleres rumavam para a terra e não se moveu. Fitou o mensageiro com um brilho estranho no olhar e indagou:
- Dizei-me: achas que eu só possa adiantar alguma coisa indo lá?
O soldado vacilou um momento ante a pergunta mas acabou respondendo:
- Perdoa-me se vos digo que não, mas os tamoyos são numerosíssimos.
O fidalgo voltou a desembainhar a espada:
- Então, nada poderemos fazer. Eu não posso afastar um só homem daqui neste momento, pois estamos a serviço d’el rei...Meu filho que me perdoe!
Deu dois passos na areia e voltou-se novamente, procurando suffocar a emoção que o dominava:
- Esperemos até que finde a luta e alvez ainda seja tempo... Enquanto esperamos, vinde lutar conosco, pois que, pois que esta terra bem merece o nosso esforço...
E caminhou para a praia, ao encontro dos escaleres francezes que se aproximavam.

* Professor de gramática e literatura da PUC e Universidade Santa Úrsula do Rio de Janeiro entre as décadas de 1940 e 1970; autor do famoso manual didático “Português para o Ginásio”, da Companhia Editora Nacional e do romance “Há sol por trás da nuvens”.
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O PANORAMA VISTO DA PONTE

MÁRIO AZEVEDO


Outro dia, passando pela centenária Ponte Pênsil, precisamente às 21 horas, uma noite bonita e agradável, caminhava com meus passos lentos, ouvindo apenas o barulho das águas que se encontravam com as rochas, parecia uma sinfonia que fazia bem a qualquer mortal, e de vez em quando o barulho era quebrado, pelos carros que passavam sobre o madeiramento. Parei por alguns momentos, já bem no meio da ponte, e fiquei observando a beleza de nossa Célula Máter apresenta, os prédios iluminados, todos enfileirados, refletindo suas luzes nas águas, que ao fazer as marolas, distorcia aquela geometria refletida dos prédios.
Do meu lado direito, os casarões iluminados que dão acesso à Prainha, mas o melhor estava por vir, bem na minha direção estava a majestosa Ilha Porchat, sempre badalada e redutos dos jovens, iluminada em todo o seu contorno dos prédios, discotecas e restaurantes, parecendo uma ilha da fantasia, tal a sua beleza.
Enfim, senti-me iluminado e de fato estava, a iluminação da ponte é algo fascinante e comove o ser humano e debruçado naquelas ferragens, senti uma solidão profunda, porém notei, que não estava sozinho, a lua era minha companheira e testemunha de toda aquela beleza, que já passa dos cem anos, mas nossa ponte continua jovem e na sua plenitude, olhando para o alto, senti-me tão pequeno, pela grandiosidade de suas torres, suspensas por cabos de aço, é sem dúvida uma peça de arte exposta ao ar livre.
Mesmo com o barulho dos carros, notei que alguns peixes saltavam de um lado para outro, pareciam espadas, pois brilhavam no reflexo da lua e nas suas marolas, que se fazia ao redor, pareciam que as espadas estavam saudando a nossa Ponte Pênsil, que talvez muitos vicentinos passando de carros não observam a beleza que ela representa.
Depois de olhar toda essa grandeza de cimento e aço, senti um alivio na alma e uma sensação de êxtase em pode observar e sentir ao mesmo tempo a brisa refrescante numa noite de lua cheia.

Boletim do IHGSV , Julho/Agosto de 2016

TRABALHO, FUTEBOL, CHOP E CERVEJA

São Vicente foi um celeiro de craques do futebol de várzea, muito disputado pelo que me lembro, nas décadas de 60, 70 e mais, torneios organizados pela Liga Vicentina de Futebol Amador, entidade que existe há mais de 80 anos. E fez São Vicente ter atletas que disputaram vários torneios pelo Brasil, não vou mencionar nomes, pois a memória pode esquecer alguns deles. Assisti muitos jogos na várzea, inclusive, quando comecei a trabalhar na Vidrobrás, fábrica de vidros, o time da fábrica disputava o torneio da LVFA, diziam até, que para entrar na fábrica, tinha um item na entrevista : joga futebol ? Assim também consegui trabalhar na fábrica, não pelo futebol, pois era jovem ainda. Poucos clubes resistiram, bem como seus campos de futebol, assim podemos citar alguns, E. C. Beira Mar, Tumiaru, Ilha Porchat, Itararé Praia Clube, São Vicente Praia Clube, Guamium, Primavera, Continental, São Paulo, Industrial, Ferroviária, Beija-Flor Brasil, Sporting, Portuguesa, Campo Belo, Paulistano, Petrópolis e muitos outros que ficaram pelo caminho. Nessa época, os clubes para divulgação e melhorar suas receitas, faziam a tradicional festa do chopp, em seus salões ou alugados de outras entidades, e como lembrança, depois de tomar o chopp, levava uma linda caneca,

VIAGEM NO TEMPO

Vamos fazer uma viagem pelo tempo, década de 60, São Vicente era servida pelo bonde 1 e 2 com destino a Santos, o bonde 1 tinha o caminho da Av. N. S. de Fátima (alguns ainda falam da linha 1) e ao retornar pela praia, tinha o número dois, chegando em São Vicente, pela praia, logo após a divisa podíamos observar:
OCEANORIUM – Situado na areia da praia do Itararé, era como se fosse um aquário, em forma circular, de côr azul, que abrigava o famoso golfinho Flipper. Que era a alegria das crianças, adultos e turistas, após o fechamento do Oceanorium, o golfinho Flipper saiu do cativeiro para o mar aberto, se não falha a memória foi para Santa Catarina, porém em certa época ele aparecia na praia dos milionários.
PEDRA DA FEITICEIRA - Encontra-se na praia do Itararé, conta-se que uma misteriosa mulher, pernoitava ali, na chamada !Cama da Velha”, essa senhora apresentava-se muito mal trajada, com um longo vestido, parecendo a imagem lendária de uma bruxa, contava que ela acendia fogueira, acenando para os barcos que ao longo passavam, não molestava ninguém, dizia que amava um marinheiro, que por ele havia concedido, que mais tarde prometera voltar, ficara grávida e nunca mais voltou, por decepção e crise mental, perdeu a gestação naquele local, na pedra onde acontecia seus encontros amorosos, e permaneceu por longos períodos, esperando pelo retorno do amado marinheiro. Certo dia, achando que algum barco distante lhe acenava, foi adentrando ao mar, com maré cheia, junto as pedras e ali morrera afogada, sob forte correnteza, dizem que ainda hoje no local, em noites de luar, escuta-se vozes daquela feiticeira.
PEDRA DO LADRÃO - mais adiante da pedra da feiticeira, tinha a chamada pedra do ladrão, era uma pedra enorme, próximo ao teleférico de hoje, e o bonde 2 passava próximo à pedra, o que causa transtorno à população, era um local desabitado, apenas servia de passagem de pedestres, com a urbanização da avenida da praia, chamado de tapetão, a pedra do ladrão desapareceu, ficando hoje somente os ladrões.
O ERMITÃO - bem em frente à pedra do ladrão, tinha uma pessoa folclórica no Itararé, era chamado de Ermitão, com sua barba branca longa, mal vestido e habitava em uma caverna no Morro Voturuá, bem próximo onde o VLT faz uma pequena curva, era uma pessoa pacata, falava pouco, e não fazia mal a ninguém, apenas se alguém tentasse invadir seu recanto, ele costumava jogar pedras.
BAR SUJEIRA – Era um bar bem acanhado e sem estrutura, estava bem na esquina com a Rua Onze de Junho, hoje tem a Igreja São Pedro Pescador, era um ponto de encontro dos jovens frequentadores da Praia do Itararé, frequentei muito com meu amigo Ruivo, após partida de futebol na praia do Itararé, tomando uma caipirinha e observando as moçoilas da época.
PANELA DE BARRO – Situado também na Rua Onze de Junho, era muito frequentado pelos vicentinos e turistas, tinha variedade de pratos, era considerado um restaurante dançante, sob a direção de José Luiz Servo, com música ao vivo, em 1986 desmembrou o restaurante no andar superior criou o “Aconchego” local para buffê e eventos, com pista de danças..
BOA VISTA – Fechado recentemente, após 50 anos no mesmo lugar, muito frequentado e conhecido pelos turistas que vinham à nossa cidade, sua especialidade era frutos do mar, principalmente caranguejo, que tinha durante o ano todo, sempre lotado e um ambiente muito agradável, esteve sob a direção de Eugenio Francisco Cação
ILHA PORCHAT CLUBE – Na década de 60 e 70 era considerado um dos maiores clubes da Baixada Santista, com apresentações de artistas famosos em seus bailes, sem contar o famoso Baile do Havai, onde reunia a sociedade da baixada santista e São Paulo, com personalidades e políticos, o show era televisionado pela Bandeirantes, no Programa do Bolinha, que frequentava muito o clube. No auge de sucessos o Ilha apresentou nada menos que Ray Coniff, com sua banda e orquestra, uma noite magnifica com sua lindas músicas, na época o Presidente era Odarcio Ducci .
CASA DO PROFESSOR – na Rua Onze de junho esquina com a Messi Açu, existia uma colônia de Férias de Lazer do Professorado Católico de São Paulo, é um famoso casarão construído em 1.944.
FARMACIA MARMO – situado na Rua Onze de junho, tinha o farmacêutico José Bonna Sobrinho, era muito procurada, pois nessa época, os farmacêuticos também atuavam como médicos e muitas vezes resolviam os problemas.
EDIFICIO GRAJAHU - Situado ao lado da Sociedade Amigos da Boa Vista, na Rua Onze de junho, foi o primeiro prédio construído na areia da praia em 1945, em 27/10/1946 a Tribuna publicava venda de aptos e uma novidade o único prédio sobre as areias da praia de São Vicente.
RESTAURANTE LEÃO DE OURO – Situado no Gonzaguinha (hoje é o Ti Maria) ostentava dois leões na entrada, e servia os melhores pratos gastronômicos, era uma referência para os turistas, permaneceu por muito tempo, comandado pela família Luca.
THE PUB – Também no Gonzaguinha, havia um tipo bar com música MPB, que era comandado pelo Tite jogador do Santos, que tocava violão e algumas vezes seu filho acompanhava, depois de algum tempo mudou para a Av. Newton Prado, próximo a Ponte Pensil.
RESTAURANTE GAUDIO – no inicio da Rua Frei Gaspar, um dos melhores e tradicionais restaurante de São Vicente, de frente ao mar, e o único prédio que foi construído com um abrigo anti-aéreo, motivado pela Guerra Mundial.
BANCO MOREIRA SALES – situado na esquina das Ruas Frei Gaspar e Visconde do Rio Branco, um banco muito tradicional na época, inclusive muitos dos meus amigos, trabalharam nesta agência, com o fechamento do banco, abriu uma Coletoria Estadual e depois um boliche para lazer dos calungas, hoje tem o Supermercado Dia.
Na própria Frei Gaspar, havia também a Casa de Massas do Sr. Gino, um senhor italiano, que preparava as massas caseiras, e servia muito bem os frequentadores.
IHGSV – situado ao lado, em uma imensa área verde e tombada pelo Patrimônio Histórico, conhecida como a Casa do Barão, temos os maior acervo de livros, cursos variados, antes do Instituto, desde 1946 até 1972, funcionou o Instituto São Vicente Clinica cardiológica do Dr. Francisco de Assis Jarussi, sendo que o Instituto veio em 1972, hoje sob comando pelo brilhante Presidente Paulo Costa.
MERCADO MUNICIPAL – Embora construído em 1729, a primeira sede que se tem notícia foi construída na encosta do Morro dos Barbosas, no local onde hoje existe uma nascente, juntamente com a Igreja a cadeia e a Alfandega, após um abalo sísmico, obrigou o governo Municipal a reconstruir a nova sede no Largo Baptista Pereira, depois Largo Santo Antonio e hoje Praça João Pessoa, esse prédio foi construído em 1979, e funcionava juntamente com a cadeia e quartel de polícia.
O Mercado Municipal, existe uma placa logo na entra principal, desde a sua fundação que diz o seguinte “Esse edifico agora construído teve a contribuição de Vinte Contos de Réis da cia. Santista de Crédito Predial-Prefeito José Meirelles – São Vicente, 14 de julho de 1929. Todos tem noção do que representa um mercado e suas finalidades, normalmente tem sua barracas de frutas, legumes, hortaliças, etc.
Para nossa alegria temos remanescentes o casal Carlos Alberto dos Reis e Maria Helena Anacleto dos Reis, que estão há 40 e 60 anos respectivamente, resistiram aos tempos, mudanças de governos, enfim por tudo que passou na fase econômica do País e resistiram até hoje, embora o Mercado hoje completamente desfigurado, tem todos tipo de atividade, inclusive uma precária e humilhante Estação Rodoviária. Conforme relato da Sra. Maria Helena passaram muitos negociantes na época, como Sr. Américo, João Maria (japonesa) Marcos, boda, Lourdes, Rodrigues, Belmira e também o Sr. Alcides Costa, pai do nosso querido Presidente Paulo Costa, Lembrou ainda que na praça havia um Seminário dos Padres, como Monsenhor Boroski, padre Newton, padre Paulo, etc. e no meio da praça havia um busto de Benedito Calixto esculpido por Domingos Savorelli e inaugurado em 1953, na praça também tinha o Colégio Itá, que era comandado pela família Frahia.
CÂMARA MUNICIPAL – O prefeito de São Vicente, Orlando Intrieri, mandou providenciar a mudança da Câmara em 1954 para a Rua Martim Afonso, 251 esquina com a Praça Barão do Rio Branco, hoje temos as lojas Marabráz. Em 1983 o prédio já não comportava mais, os vereadores junto com o Prefeito Sebastião Ribeiro da Silva, conseguiram construir um novo prédio na Rua Jacob Emmerich, no Parque Bitaru, inaugurado em 22 de janeiro de 1987
PRAÇA BARÃO DO RIO BRANCO – A Praça era o centro agitado de São Vicente, para saborear a melhor feijoada de São Vicente, era recomendado Amigo Campos, muito simpático e prestativo, era o ponto de encontro de amigos. Ao lado tinha a Casa Nico, Adega Central, o Rio Branco, muito frequentado, ao lado a Gruta Transmontana, Lojas Ibirapuera, e bem na esquina o Restaurante Itapura, que passou por vários lugares e hoje permanece na Av. Presidente Wilson, contornando a praça, tinha o Cartório Ayres, hoje na Rua Martin Afonso, no mesmo local funcionou também A Droga Régia, ao lado a Veranista, loja tradicional de calçados, ao lado o Banco comercio e Industria de São Paulo, depois Banco Nacional, mais adiante uma pequena Estação de ônibus, e ao lado da estação, o Bar Nosso Ponto, muito frequentado pelos vicentinos, e a seguir a Coletoria Federal. Atravessando a rua Frei Gaspar, havia Lojas Glória, uma loja de magazines que foi novidade na época, ao lado a Olimpica, sinônimo de bem vestir, comandado pelo Carlos e Leon Sarkissian, um dos mais conceituados de roupas masculinas, ao lado o Bar Esporte, parada obrigatória para tomar uma cerveja e jogar conversa fora, no alto do bar a Rádio Royal apresentado pelo radialista Marcos Machado, tocando músicas e dando notícias, no alto da rádio tinha a Associação Comercial e Industrial de São Vicente, e no centro da praça a Banca do Walter, que permanece até hoje, atravessando a Rua a famosa Panificadora Chic, parada obrigatória para fazer lanches e levar pães frescos, na Frei Gaspar ainda, tinha o salão de Barbeiro, do Bigorrilho, famoso por ser barbeiro oficial dos prefeitos naquela época., mais adiante para consertar sapatos tinha Sapataria Rápida São Vicente (funciona até hoje ). Uma referência em tirar fotografias naquela época era o Studio do João Vieira, fotógrafo conceituado na cidade, trabalhando por vários anos na Sucursal de A Tribuna, que era comandado por Edison Telles de Azevedo e depois Ivo Roma Nóvoa., mais na frente na esquina da Padre Anchieta, o Messias Bassili, que fez o meu terno de casamento, com muita dedicação e funciona até hoje, na mesma Padre Anchieta tinha a Paulistana, e permanece até hoje e ao lado A Pensão Anchieta, hotel estritamente familiar, comandado pelo Ernesto Sinigoi, conhecido como Neco, hoje reside em Botucatu, próximo dali na Frei Gaspar a Papelaria Cruzeiro, uma referencia em materiais para escritório e escolar, comandado pelo saudoso Mario Diegues. Mas retornando no centro, pegando a Martim Afonso, ao lado da panificadora Chic, a Loja Tic-Tac, que resistiu aos tempos e funciona até hoje, mais adiante o Bar do Fuminho, local muito frequentado pelos apreciadores de sinuca, era bem simples, mais agradável, em frente ao Fuminho, tinha o Cine Anchieta, da família Lima, depois inaugurou o Cine Teatro Jangada, com bons filmes, sala moderna e peças teatrais vinham para SV, na época de carnaval sempre era montado tablado no meio da praça, era o Carnaval Popular. Dizem os vicentino que para saber noticias em primeira mão, era falar com o Walter da banca e Toninho Campos, não que fossem fofoqueiros, mas ganharam até uma estátua na praça.
PRAÇA DO CORREIO – O nome correto é Praça Cel. Lopes, era uma praça agradável, com um coreto, e os jardins eram suspensos, com agencia do correio no Centro, somente na década de 70, em nome do modernismo é que a praça sofreu a grande transformação, suas árvores foram arrancadas, sumiram as flores, as cigarras e os bancos de madeira e ferro foram embora, ficando somente o prédio dos Correios, na esquina a Padaria Bandeirantes, muito frequentada pelas pessoas, mais adiante, tinha a Escola de Datilografia Acosta, da qual ostento um diploma de datilógrafo, próximo a Escola, havia o sinônimo de alta costura que era Canalonga, que na época comentava que o Pelé vinha fazer seus ternos, uma honra para nossa cidade, ao lado do Canalonga o famoso Grupão que dispensa comentários, muitas pessoas estudaram lá. Seguindo tinha o Pergaminho, loja que permanece até os dias de hoje, e na esquina da Praça o famoso Pata-Pata (foto), onde guardo boas recordações de pois de um dia de trabalho, juntamente com os amigos.
RUA JACOB EMERICH – contornado o Restaurante Itapura, no mesmo prédio tinha a Floricultura Cinderela, da nossa Regina do Carmo, que na época eu comprava botões de rosa para minha namorada, hoje minha esposa e creio que deu certo, a floricultura funciona até hoje na esquina com a Rua Padre Anchieta, nesta mesma Rua tem uma firma tradicional em fotografias, a Studio Estrela.
AV. ANTÔNIO EMERICH – A referencia para peças e conserto de carros era a BACAL, (Barreira & Diogo ), firma conceituada e um Atendimento de primeira, mais adiante tinha o Clube Hipico de Santos e São Vicente, um lugar maravilhoso e muito grande. (hoje tem o Luanda Supermercado), mais para a frente outros comércio que ficaram pouco tempo, na esquina com a Av. Mota Lima, tinha o Posto De Colores ( hoje tem um prédio em construção) mais adiante chegando na praça 1 de maio, tinha o Cine Petrópolis, ao lado a Casa da Sogra, era um novo estilo de supermercado na época, da família Alexandre Cró. Do outro lado da praça tinha o SESI, um tipo de supermercado que só vendia para quem era beneficiário das indústrias, tinha carteirinha e tudo, havia um outro SESI na Rua Marques de São Vicente. Mais adiante a Cooperativa Agricola de Cotia, um tipo de atacadão de verduras, frutas e legumes, que atendia os Negociantes na época. Do outro lado da calçada o Colégio Brasilia, também uma referencia em ensino.
RUA JOSE BONIFÁCIO - Além do tradicional Martim Afonso, um dos melhores colégio da Baixada Santista, fiz o científico ( 1 ano) depois fui para o Vidrobrás, tenho boas lembranças de alguns professores, : Joaquim (química) Sebastião (física) Capellari (matemática), Sara (português), Borges (inglês) Disaró (matemática) Yolanda (latin) Pereira, Iracema, etc. e dos diretores Arthur Ewbank e Prof. Cleuza Velloso, nessa época você aprendia ou reprovava de ano, ao lado tinha a Churrascaria Choupana, muito requisitada na época e mais acima o Restaurante Kikos, também uma referencia em pratos deliciosos, na esquina com a R. Martim Afonso, havia um lava-rápido muito frequentado pelos vicentinos, mais adiante na Martim Afonso, tinha o Foto Astral, no local das ruinas da casa de Martim Afonso.
RUA XV DE NOVEMBRO - iniciando pela Igreja Matriz de São Vicente, havia a Lavanderia Colombo, muito antiga, porém com o progresso veio a encerrar as atividades, mais na esquina com a Rua José Bonifácio, a Farmácia do Ruas, era uma referencia em cura pelo farmacêutico Ruas, tinha uma freguesia seleta. Mais adiante a Padaria Rio Branco, que resistiu aos tempos e permanece até hoje, acima da padaria funcionava o IHGSV em algumas salas cedidas, o Educandário São Gabriel, também resistiu aos tempos, assim como a Tapeçaria Dias, uma das poucas referencias em decoração que havia em São Vicente, na quadra seguinte tínhamos o Forum de São Vicente, improvisado em algumas salas. Na quadra seguinte na esquina a Casa Prandini, com comércio de materiais para construção, assim como o Bazar Ideal, também do mesmo ramos sendo o proprietário José Fernandes, já na esquina próximo ao Hospital São José tinha uma das firmas mais importantes de S. Vicente a Cia. Antarctica Paulista. Na quadra seguinte o Hospital São José, que completa 100 anos, na quadra seguinte o Fiel Barateiro, inaugurado em 1945, um pequeno comércio de secos e molhados, comandado pelo Ulisses, Celestino e família, sabemos que Celestino ajuda muitas pessoas e funcionários, tendo um carinho especial, talvez aí o segredo de seu sucesso, hoje abriga uma centena de funcionários, é sem dúvida um marco na história de São Vicente, na esquina com a Rua Expedicionário Vicentino, tinha o Instituto Musical Bethoven, formando vários musicistas na época, na outra esquina o E.C.Beira Mar, com seus bailes, na época era comandado pelo Presidente Toninho Campos, e outros que vestiam a camisa do clube, foi um momento mágico, com torneios de futebol de salão, sem contar o arquivo fotográfico do clube comandado pelo Cotuba, o time profissional disputou muitos torneios na várzea vicentina. Revelando vários atletas, em fevereiro o clube comemorou 80 anos. Na esquina do Beira Mar, tinha o Bar Xangô, muito frequentado pelas pessoas que vinha no Beira.
RUA JAPÃO - Recebeu esse nome em 1958, durante as comemorações do cinquentenário da Imigração Japonesa no Brasil, está num reduto de pescadores, como uma pequena aldeia, entre muitas histórias, há uma que no final de um jogo, numa tarde no campo do E.C. Guamium, as duas equipes perderam para os caranguejos, que de vez em quando eram retirados pelos jogadores, e a partida teve que ser anulada.
AV. CAPITÃO MÓR AGUIAR - uma referencia em ensino tinha Escola Comercial Nações Unidas, fundado em 26 de fevereiro de 1944, a nossa Presidente da Academia vicentina Letras, Artes e Oficio Sra. Regina Dias, em 1958 estudou na escola, após se formar passou a trabalhar como aux. De escritório, em 1962 fez o curso Tecnico Comercial, depois terminou o magistério e começou a dar aulas e orientação. O colégio tinha fama de fazer quadrilhas juninas e também a fanfarra onde ganhos vários prémios pelo Estado, foi o único colegrio que tinha cursos profissionalizante, em 2001 foi vendido para o Grupo Alpha, e hoje infelizmente está abandonado.
RUA JOÃO RAMALHO - Nos fundos do IHGSV, na esquina tinha a Delegacia de Policia, em um lugar meio acanhado que ficou por muito tempo, até a construção da nova sede na Rua XV. Mais adiante tinha CPFL – Cia Telefonica do Litoral Paulista, lembro-me, que para fazer uma ligação para SP, entregava o numero para \a recepcionista, ela mandava entrar numa minúscula cabine, e ficava aguardando para fazer a ligação.
CAMPOS DE FUTEBOL – para os atletas, São Vicente na década de 60 tinha muitos campos de futebol, revelando vários atletas na várzea, quando disputava os torneio da Liga Vicentina de Futebol, hoje temos o campo do São Vicente, Beija Flor, São Paulino, na época tinha a dona Celeste que comandava e orientava o futebol de campo, chegou até a aparecer no Fantástico, Guamium, Itararé, Ferroviária, campo do 2 BC,
Os campos que desapareceram : Sporting (campo de areião, ficava no Parque São Vicente), Portuguesa, no Beira Mar, depois virou Estação Rodoviária, Industrial no Japui, ao lado do Curtume; Brasil no Parque Bitaru, onde hoje tem o fórum, um fato interessante, quando havia jogo de futebol, no meio do caminho tinha uma trilha, e o jogo era interrompido quando pessoas, vinham do cemitério, ou voltava da feira, era uma folga para acalmar os ânimos.
Outros clubes também tem destaque e funcionam até hoje, Praia Clube e Nissei Vicentino, próximo aos bombeiros, o Paulistano e Petropólis no Jardim Independência, e outros de menor expressão, apenas sobrevivem

ALGUMAS CURIOSIDADES

1) Em uma época em que o preconceito sobre homossexualidade era muito forte, o carteiro Roberto Mafaldo, trabalhando nos correios, entregava cartas na cidade, ele assumiu sua identidade nessa época e todo ano desfilava na Baianas sem Tabuleiro, bloco tradicional da cidade., para não ficar atrás Santos, tinha o DUDU do Gonzaga.

2) Biquinha - na década de 70, foi construído um enorme Pombal, e as crianças ficavam contente, e tirar fotos juntos aos pombos, mal sabiam das doenças que podiam ser transmitidas, e também o painel de Anchieta catequizando os índios, são obras do renomado pintor Armando e Waldemar Moral Sendim.

3) A Estrada de ferro Sorocabana, transferiu o mangueirão que ficava na Av. Alcides de Araujo,
 próximo a Mota Lima e Vila Cascatinha, era um transtorno quando algum moleque conseguia soltar os animais, os bois saiam desembestados pelas ruas do Catiapoã e Jardim 3 Estrelas.

4) Um personagem marcante na época era o Parafuso, normalmente os moleques e jovens, do outro lado da rua, gritava oi Parafuso, e logo escutava aquele palavrão bem alto, todo mundo dava risada.

5) Cinemas – Tinha o Cinemar na Rua Benjamim Constant, Maracanã na Rua Campos Salles, Rosário na Rua Frei Gaspar, que depois abriu um bolice; São Jorge, no final da Frei Gaspar, no Beira Mar; o Petrópolis na Av. Antonio Emerich, na praça 1 de maio e o Santa Helena, depois Anchieta da família Lima, fechando o cinema, inaugurou o Cine Teatro Jangada na Martim Afonso.

6) No edifício Tumiaru, o segundo mais antigo de São Vicente, onde funcionou um restaurante famoso, também tem obras de Armando Sendin.

7) Também na década de 60, lembro que na Praça Barão do Rio Branco, montaram uma pequena tenda, era a Campanha de doar ouro para o bem do Brasil, eu na minha ingenuidade e muitos doamos ouro para o bem do Brasil, falava-se no Milagre Brasileiro e hoje vemos os escândalos da corrupção no Brasil, ainda tenho a lembrança que ganhei na época.
Outros fatos e comércios fizeram parte de nossa São Vicente e para relatar tudo ficaria muito longo e cansativo e
São Vicente é isso uma cidade poética e apaixonante e com boas recordações.

* Mário Azevedo Alexandre, natural de São Vicente/SP, é bacharel em Comunicação Social e Direito, contabilista, escritor, poeta, professor, autor de livros de poesias, crônicas, haicai e ensaios literários, participou de inúmeras Antologias poéticas pelo Brasil, tem trabalhos publicados na Itália e em Portugal., pertence a Academia Santista de Letras, Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios, Instituto Histórico e Geográfico de Santos e São Vicente, Academia Paulistana Maçônica de Letras em SP, membro da UBE – União Brasileira de Escritores, premiados em mais de uma centena de concursos de poesias, crônicas, haicai, ensaios literários, etc. Tem trabalhos publicados em vários jornais em revistas pelo Brasil.


CELLULA MATER. Capa da edição especial de 10 mil exemplares do Informativo do IHGSV - janeiro de 1998 - celebrando os 466 anos da fundação da Vila de São Vicente. A publicação, feita há 26 anos, teve 22 artigos e foi coordenada pelo presidente do Instituto, Fernando Martins Lichiti, e pelo editor Eddy Carraba Paiva.
Acervo: Profa. Eleonora Pontes.


IHG SÃO VICENTE


FUNDADORES DO IHGSV. Em 5 de fevereiro de 1959, na Rua do Colégio, esse grupo fundou o Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente, da esquerda para direita, em pé: Santelmo Couto de Magalhães Rodrigues Filho, Tude Bastos, Coaracy Paranhos, Arnaldo da Costa Teixeira, Fernando Martins Lichti, José Teixeira Matoso, Dorival Nascimento, Eloy Antônio Ferraz, Edson Telles de Azevedo (autor de Vultos Vicentinos), José Azevedo Júnior, Francisco Martins dos Santos (Historiador e anfitrião), Olegário Herculano Alves e Jaime Horneaux de Moura.

Fonte Poliantéia Vicentina, 1982. 



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HÁ 25 ANOS a SEDUC-SV reuniu um grupo especialistas do quadro dos seus educadores para fazer um inventário histórico e geográfico dos BAIRROS VICENTINOS. O trabalho, concluído no ano 2.000, tinha a finalidade de prover a rede escolar com um material didático sobre a memória e história da cidade, na época um tema muito explorado pela administração municipal. O prefeito era o deputado Márcio França e a Professora Tânia Maria Simões dirigia  Secretaria da Educação. O trabalho não pôde ser publicado em livro, mas foi utilizado nas escolas durante muitos anos e preservado como acervo pela  Biblioteca Pública Municipal. Foi lá que encontramos esse exemplar.  


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A Biblioteca Pública de São Vicente guarda dois nomes memoráveis: Francisco Martins e Frei Gaspar da Madre de Deus., guardiães da nossa História. Mesmo com a revolução digital, ela ainda é frequentada principalmente pelos pesquisadores em busca de acervos que não foram digitalizados, mas que ainda estão disponibilizados ao público. Os bibliotecários hoje são heróis que lutam contra o tempo e o rápido desaparecimento de livros e outros documentos memoriais impressos. Hoje fomos atendidos por duas profissionais atenciosas e cuidadosas, duas qualidades que definem  a importância desse trabalho. As disputas pelos espaços físicos aceleram essa onda de destruição de acervos e elas estão muito preocupadas com o destino desse local bem localizado e acessível. Quando teremos em São Vicente um lugar seguro para cuidar tecnicamente da nossa história? Tanto a Casa do Barão como a Casa Martim Afonso estão em compasso de espera de uma decisão que resolva essa questão. O Porto das Naus continua relegado ao abandono há mais de meio século. Virou um depósito de lixo e de promessas que nunca saem do papel (tomara que seja esse ano). Precisamos urgente de um "AGORA VAI" senão, o pouco que ainda nos resta de patrimônio histórico, pode ir definitivamente para o poço do esquecimento. - São Vicente na Memória, 03 de maio de 204 (Facebook). 






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MEMÓRIA DA HISTÓRIA E DO FUTURO

DALMO DUQUE


O historiador como observador e ralator crítico das transformações sociais 


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IMPRENSA

MANUEL ESTEVAM



MAIS UMA ESCARAFUNCHADA NO BAÚ: ESTEVAM E EU


Mexendo em meus alfarrábios, encontrei essa  foto, tirada em 1977 na sucursal do  jornal A Tribuna ,em São Vicente, onde  eu era repórter.  A meu  lado, o saudoso  Manuel Estevam, um dos lendários repórteres fotográficos que passaram  por essas terras  e com quem tive a honra  de trabalhar alguns anos. A figura indefinida entre nós dois é o cachorro Meia-Oito, um vira-latas que Estevam recolheu na rua e criava nos fundos da  sucursal. Não me perguntem a origem do nome porque nunca soube ( ou se soube, esqueci). Estevam foi um grande amigo. Era inteligente, culto, leal e...malcriado. Ô português malcriado!  Teve  uma vida cheia de peripécias. Antes de ser repórter fotográfico (costumava  dizer  que era apenas  um "bate-chapas "), foi tropeiro, garimpeiro , comerciante e, acreditem, campeão  estadual de boxe.  Fizemos e vivemos  boas reportagens juntos. Eu e o saudoso  amigo Maneco (Manuel Alves Fernandes) até  cogitamos escrever um livro sobre a vida do  Estevam. Hoje, ele é nome de uma rua do bairro Cidade Náutica,  de São Vicente.

Paulo Mota.  Grupo Tribuneiros de Todos os Tempos. 06 de novembro de 2023. 


JOÃO VIEIRA


Autor de imagens que marcaram o jornalismo local e regional, João Vieira teve sua carreira de longos anos vinculada ao jornal A Tribuna. Também atuou como fotografo oficial do Jockey Clube de São Vicente, função na qual mantinha contato com a imprensa especializada em turfe. Conhecia como poucos a história política de São Vicente no período em que atuou como correspondente de grandes jornais de São Paulo e de outros estados. Suas ultimas reportagens mais conhecidas do público foi no período de licenciamento do governador Mário Covas visitando São Vicente para inaugurar as obras do conjunto habitacional da favela México 70. Também fez as principais coberturas do governo municipal de Márcio França.


O AUTOR DESSA FOTO HISTÓRICA faleceu ontem em São Vicente. João Vieira registrou como fotojornalista grandes momentos da história política da região. Presidentes, governadores e prefeitos foram alvos da sua lente sempre atenta para as melhores cenas. Essa imagem colorida é de 2001 quando o governador Mário Covas inaugurou o núcleo habitacional do México 70. Covas também escolheu São Vicente como sede de governo, em homenagem aos 500 anos do descobrimento do Brasil. O corpo de João Vieira está sendo velado no Cemitério da OSAN. ( São Vicente na Memória - Facebook, 23 de dezembro de 2019)

Fotos : acervo de Mário Covas Júnior e Danilo e Danilo Fernando. 



































A TRAJETÓRIA DO IHGSV

SEDE  PASSOU POR DOIS IMÓVEIS ANTES DA CASA DO BARÃO



Depois de funcionar na residência do historiador Francisco Martins, o IHGSV instalou-se na sobreloja da Padaria Rio Branco, na rua XV de Novembro esquina com a rua 13 de maio. Tentou se instalar num sobrado na rua Martim Afonso (hoje demolido), vizinho à atual Casa Martim Afonso, e finalmente foi para a Casa do Barão, na rua Frei Gaspar, esquina com rua Visconde do Rio Branco.  







Sede na Rua XV de Novembro, na sobreloja da padaria Rio Branco. 


O IHGSV E A CASA DO BARÃO

FERNANDO MARTINS LICHTI



A Casa do Barão em tom branco cinza no final dos anos 1990. Fonte: Ipatrimônio.

Quando assumimos a presidência do Instituto Histórico e Geográfico, há doze anos, sabíamos que estávamos preparados, pela longa vivência em entidades, inclusive no próprio instituto, para enfrentarmos desafios, mas, em verdade, não esperávamos que fossem tantos. De pronto os ditais de leilões da Caixa Econômica Federal, proprietária da “Casa do Barão”, colocando à venda, pela melhor oferta, no mercado imobiliário, que logo vislumbrou esta magnífica área de quase oito mil metros quadrados, sobre o outeiro, com três frentes, no centro geográfico entre coração do comércio e a praia. Não preciso falar da ansiedade geral de tantos interessados.

Não foi apenas um edital, foram alguns, porque a cada um deles enfrentamos uma batalha para conseguirmos torna-lo sem efeito, até que logo fosse repetido. Tudo que fazíamos era para ganhar tempo porque a Caixa, como instituição financeira, não admitia ter um patrimônio de tal valor sem transformá-lo em numerário rendendo juros. Foram anos de sobrecarga de adrenalina. Buscamos então uma alternativa que desinteressasse o mercado imobiliário pela “Casa do Barão”: o tombamento pelo CONDEPHAAT, que estava engavetado cerca de dez anos. A secretária de cultura era a santista, deputada Bete Mendes.

Contamos com empenho do presidente da câmara vicentina, Carlos Adherbal Lorens Filho, com o secretário municipal de cultura, Olivério Pieroti Junior e de seu assessor cultural, João Maurício Caiaffa dos Santos Ibañez. Foram de excepcional empenho. Inclusive Bete Mendes; em três meses o imóvel estava tombado. Concomitantemente , a prefeitura – não tínhamos um Márcio França à frente do Executivo municipal – lutava ingentemente, contra o próprio Instituto, pra obter a posse da “Casa do Barão”, talvez para transformá-la numa repartição pública, como já o fizera pouco antes, quando aqui instalou seu arquivo morto, mas muito vivo de cupins, baratas e pulgas. Nesse período, já lutávamos para obter a cessão definitiva do imóvel, com muita dificuldade de acesso, porque para a Caixa Econômica era uma questão de economia. Precisávamos tirar a “Casa do Barão” da propriedade dela. Isso nos parecia um sonho, se não considerarmos uma atrevida presunção. Nada disso, porque tínhamos fé. Porque sabíamos que Deus não nos abandonaria naquele ideal tão puro e tão justo em prol da cultura e da própria São Vicente, que merecia ter prestigiada uma instituição que já havia vencido, superando inauditos sacrifícios, muitos anos de lutas em prol do resgate da história e da memória vicentina. Precisávamos de um parceiro de muito prestígio, que assumisse conosco essa refrega que já se tornava obstinação, pelos dez anos decorridos.

Assinatura de escritura na Delegacia e São Paulo, da Secretaria do Patrimônio da União. 

Conseguimos o homem certo, pela grandeza de caráter, força política, prestígio pessoal, pelo amor que já vinha demonstrando à São Vicente e a amizade confirmada em meio a tantos percalços: o deputado federal Almino Affonso. Através dele, enviamos ao presidente Fernando Henrique Cardoso um ofício simples, sem rebusques, de pouco mais de uma lauda apenas, pedindo que a “Casa do Barão” fosse transformada na sede definitiva, permanente e vitalícia, do Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente. O despacho foi extraordinário, objetivo e definido: -“De acordo com a solicitação, transfira-se o imóvel. Mas não o desfecho. A Caixa Econômica Federal tinha impedimentos regulamentares, que não permitia fazer doação patrimoniais a instituições privadas. Apresentamos a solução, conforme sugestão do nosso vice-presidente, dr. Antônio Teleginski, no sentido que a Caixa Econômica Federa fizesse a doação do imóvel a outro órgão federal e sugerimos a S.P.U. Assim foi feito, com a resolução aprovada pelo seu Conselho, que o imóvel fosse doado ao S.P.U. com a cláusula irrevogável de que a “Casa do Barão” se destinasse a uso permanente e exclusivo do Instituto Histórico.

Não foi tudo fácil, como aqui está escrito, pois foi muito trabalhoso, exigindo um zelo e uma persistência diuturna do deputado Almino Affonso, que com muita justiça, é hoje não apenas o nosso Sócio Benemérito, mas também “Cidadão Vicentino”, com a outorga da Câmara Municipal de São Vicente. A 18 de maio, na Delegacia e São Paulo, da Secretaria do Patrimônio da União, assinávamos a escritura de cessão do direito de uso exclusivo, cabendo-nos a alta responsabilidade de zelarmos por esse imóvel, que proporciona à cidade o seu parque ecológico, seu museu, sua biblioteca, seu arquivo memorial, sua editora histórica e seus cursos culturais. Outro lutador por essa causa, também credor da nossa gratidão, é o nosso diretor, ex-vereador, Alfredo Soares de Moura, pelo empenho com que se houve, durante toda essa jornada, principalmente se transformado no elo de ligação e de aproximação cotidiana entre o Instituto e o deputado Almino Affonso. Foram dois expoentes dessa conquista, que jamais São Vicente poderá esquecer. 

F.M. L. Presidente

Fonte: Cellula Mater. Informativo do Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente. Agosto de de 2.000. Ano 04-Número 12. Edição Especial "Brasil 500 Anos".


ARISTOCRATAS EUROPEUS-VICENTINOS E CORRETORES DE CAFÉ.




 Kurt Gustav von Prietzelwitz foi um deles.  Nasceu em Munique, Alemanha, em 1891. Chegou ao Brasil em 1921 para trabalhar na firma Theodor Wille, cujo sócio era Otto Uebelle, amigo que conhecera em sua prisão na Rússia durante a 1ª Guerra Mundial. 

Casou-se em 1922 com Hildegard Georgina Hellwig, vicentina, nascida filha do alemão Karl Hellwig e da inglesa Mary Georgina Born. Tiveram um casal de filhos. Com a crise da bolsa de 1929 até 1932, retornou para a Europa. 

Os negócios  da firma foram assumidos por Harold La Domus, da J.Aron & Company Santos, que  também residia em São Vicente. Harold era casado com Ethel Kealman, irmã do então cônsul britânico Donald Alexander Kealman, também morador em São Vicente. 

Ao retornar ao Brasil, Kurt Gustav voltou a trabalhar como corretor na Theodor Wille, onde permaneceu até 1940. Faleceu em 1981. 

Fonte: resumido do Boletim do IHGSV




Publicação de uma revista santista sobre a Casa do Barão. Fonte: Novo Milênio.

Imagem mais atual da Casa do Barão. Jornal Vicentino.


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HISTÓRIA NA IMPRENSA








Em 19 de janeiro de 1984, o jornal a Tribuna publicava a lista dos aprovados nos vestibulares das principais faculdades de Santos. Foi um ano de crise e desemprego, fim do regime militar, mês do comício das Diretas, o general Golbery do Couto e Silva declarando que não apoiava Maluf para presidente. O jornal advertia os vitoriosos e fracassados nos exames com artigo motivacional. Era um tempo de esperanças e expectativas para mais de 3 mil candidatos, um recorde regional. A Sociedade Visconde de São Leopoldo, mantenedora das faculdades católicas, era a maior ofertante de vagas dos cursos superiores, numa época em que diploma influía muito no destino das pessoas, de todas as classes. Aqui estão os aprovados no curso de História, que teve até lista de espera. Foi a minha entrada no universo da educação. Sabia o que queria e o que deveria fazer. Assim foi. Dalmo Duque dos Santos. 
Acervo digital da Biblioteca Nacional. 


NA IMPRENSA SANTISTA


Banda Musical e Iluminação Pública. Crítica aos críticos do pintor Benedito Calixto. A edição de A Gazetinha, 26 de setembro de 1886, de Santos, lamentava a frieza dos festejos da Independência. Destaque para a bandinha musical vicentina que manteve a tradição do desfile cívico : “...foi até o velho edifício da Câmara Municipal tocando o hyno nacional e espantando muitas aranhas”. Em 7 de setembro São Vicente inaugurava a sua iluminação pública. Outra curiosidade do jornalzinho: o agente comercial em São Vicente era conhecido como “Francisco Apocalypse”.








LIVRO DA NATALIDADE



Registro de nascimentos ocorridos em São Vicente em 1824. Arquivo do Estado. 





FATO POUCO CONHECIDO. Poucos vicentinos e santistas que conhecem a história de Antônio Militão de Azevedo - político vicentino e leiloiro oficial em Santos - sabem que sua passagem se deu por meio de um acidente na travessia de balsas para a Bocaina (Itapema), no Guarujá. A notícia foi publicada na Gazeta Popular em 01 de abril de 1935. (clique para ampliar o texto). Antônio Militão de Azevedo era pai de Edison Telles de Azevedo, jornalista, vereador em SV, e célebre autor das biografias e bicos de pena denominadas "Vultos Vicentinos", publicada em A Tribuna e depois reunidas em livro em 1972.
Pesquisa de Waldiney La Petina. São Vicente na Memória. 25 de agsto de 2021. 










LEGENDA PRINCICIPAL

Exposição/ Praia de São Vicente/Bonde1 Estação City/ Bonde 2 Esquina R. Martim Affonso/ Estação S SPR R/ Campos Salles/ Correio R. Padre Anchieta/ C. Telefônica B T.90 R. Frei Gaspar,78/ Câmara Municipal. T. 5 R. Frei Gaspar,78/ Cartório R. Martim Affonso/ Colletoria Federal R. Jacob Emmerich/ Repartição Sanitária R. Martim Affonso/Hospital São José. T.35 R. 15 de Novembro, 127 /Igreja Matriz Praça Joã Pessoa / Autos e Praia Grande T 45 R. Martim Affonso/Garage T.88 R. Frei Gaspar/ Mercad. T32. R. João Pessoa, 58/ Posto Policial Tel. 25- R. 15 de Novembro.

BAIRROS E LOCALIDADES

Parque São Vicente/ Parque Bitaru/Guamyum/Cemittério/Vila Catiapuam/Santos Golf Club/ Villa Melo/ Vila Pedro Duarte/ Rio Sambaiatuba/Terrenos do Hospital São José (três quadras entre as ruas Ypiranga e 15 de Novembro, após a linha do trem/Bairro Bugre/Manufatura de Vidraças/ Beija Flor F.C./Praça Cel. Lopes e Escola/Avenida Presidente Wilson/ Cinema Central – R. Martim Affonso/Porto Tumyaru/ Largo de São Vicente e Mar Pequeno/Ponte Pênsil/Ruínas do antigo Porto das Naus, hoje Bello Parque de Repouso/Estrada Rodovíária para Praia Grande/Gasolina/Prainha e Parque Prainha/ Casa Modelo CADES/Morro Xixová/Passeio Pitoresco em mato virgem/Fazenda Paranapuam/Morro dos Barbosas/Biquinha/ Rua do Colégio ou Santo Antônio/ Escritório J.A. Winkler/Prédio do Dr. José Monteiro/Praia de São Vicente/Praia do Itararé/Boa Vista/ Ilha Porchat/ Itararé FC/Parada Voturuá/Ladrões/Pedreira e Vila Voturuá/Terrenos da Santa Casa de Misericórdia –após a linha do trem/ Rio e antiga Estrada de São Jorge


CASA DO PROFESSOR
TOMBAMENTO DE UM PATRIMÔNIO HISTÓRICO


Foi tombada pelo prefeito Pedro Gouvêia, em decreto de dezembro de 2020, a Casa do Professor em São Vicente, de propriedade da Liga do Professorado Católico de São Paulo. A casa é um dos úlltimos imóveis antigos do Boa Vista, que resistiu às pressões do mercado imobiliário, livrando-se da demolição. Isso só foi possível por não se tratar de um imóvel privado-familiar e também pelo fato da diretoria da entidadae ter tido o apoio veemente da Diocese de Santos para que a propridade não fosse vendida. O pedido de tombamento foi encaminhado ao CONDEPHASV há três anos por intermédio dos historiadores Dalmo Duque dos Santos e Flávia Fiore, esta última membro da diretoria da entidade católica. A notícia do tombamento foi transmitida em dezembro pela Secretaria de Cultura durante a fase de transição de governo, logo após as eleições municipais. Trata-se de um acontecimento importante para história e a memória vicentina. O imóvel fica na rua Onze de Junho, esquina com a rua Messia Assu.

Foto : Dalmo Duque dos Santos, 2018.

CASA DO PROFESSOR - CENTRO PROFESSORADO CATÓLICO


Registro fotográfico, ontem, em 23 de julho, após o tombamento feito pelo prefeito Pedro Gouvêia em 2020. O Imóvel localizado na rua 11 de Junho, Boa Vista, era originalmente um mansão residencial de veraneio e foi adpatada nos anos 1950 para funcionar como colônia de férias. O prédio vizinho, atualmente restaurante, teve a mesma função e pertencia à Fundação Pestalozzi de São Paulo. A colônia do Professorado tem diretoria própria, com autonomia, e seu patrimônio tombado tem agora como herdeiro final a Cúria Metropolitana Católica de Santos. Possui 23 quartos e banheiros, salão de lazer, refeitório e duas salas de estar. Não pode, sob pena de multa e intervenção judicial, sofrer alterações na sua estética e estrutura, sem a autorização prévia dos órgãos fiscalizadores e orientadores do patrimônio histórico do município. Essa edificação talvez seja uma das últimas que marcaram época de uma São Vicente pequena e balneária, entre o final do século XIX e meados do século XX. Vitória da memória e da história vicentina , sem prejuízos à propriedade privada e ao erário público. 

Fotos : São Vicente na Memória. 23 de julho de 2021. 






















SÃO VICENTE EM A TRIBUNA





Na Edição de 1º de dezembro de 1963 destaca-se a crônica memorialista sobre a Capelinha de Santa Cruz, narrada e ilustrada por Edison Telles de Azevedo, representante do jornal na cidade. Outro tema que chama a atenção é a homenagem feita pela Prefeitura Municipal aos deputados Olavo Horneux de Moura, Esmeraldo Tarquínio e Oswaldo Martins, por terem advogado da ALESP contra o desmembramento do Distrito de Solemar. Este foi o encerramento da primeira batalha histórica da emancipação de Praia Grande, em cuja guerra política São Vicente seria derrotada em 1969.

Acervo do Pesquisador Genealogista Waldiney Lapetina. Fotografado nos arquivos de A Tibuna em 1996. Especialmente cedido para a página São Vicente na Memória.




A CAPELA DE SANTA CRUZ foi construída no ano de 1890 pela tradicional família Henrique Ablas, no largo Santa Cruz, depois Largo das Lavadeiras e hoje Praça Bernardino de Campos. As festividades da Santa Cruz eram comemoradas no mês de maio, pelo Capelão Francisco Xavier dos Passos "Chico Botafogo". Em 1920 a Capela foi demolida.

Imagem: Evocação da Capela de Santa Cruz. Bico de pena de Edison Telles de Azevedo. Texto publicado em 1º de dezembro 1963 no jornal A Tribuna. 

Acervo do pesquisador genealogista Waldiney Lapetina.


O GUARDIÃO DA CAPELA



Francisco Xavier dos Passos (Chico Botafogo), puxador de rezas, guardião da Capela de Santa Cruz e membro da Banda Musical de São Vicente. Era proprietário de parte do Morro dos Barbosas e do Sítio do Samaritá.
"Francisco Xavier dos Passos (Chico Botafogo) estendeu, muitas vezes, sua piedosa missão de puxador de rezas à Capela de Santa Cruz, que existiu no Largo de Santa Cruz, ex-Largo da Lavandaria, hoje praça Bernardino de Campos. DIA DE SANTA CRUZ. No dia de Santa Cruz, em maio de cada ano, era erguida, diante do altar-mor, uma cruz ornamentada e, terminada a reza, subiam os fiéis, em fila, os degraus de pedra do altar-mor para, em recolhimento, beijar o Santo Lenho, ao mesmo tempo que a assistência entoava cânticos. Francisco Xavier dos Passos, finda a cerimônia, deixava o templo e, acesa sua lanterna, pois rareavam na Vila os empíricos lampeões a querozene, de que cuidava Maneco Peralta, demandava o seu sítio, em rua denominada Conselheiro Nébias, também chamada "rua dos Velhacos” (hoje rua do Colégio), no sopé do Morro dos Barbosas.


Bico de Pena de Edison Telles de Azevedo. Vultos Vicentinos. 1972.


 Marques)


VOCÊ É UM VICENTINO RAIZ?

















TESTE DE MEMÓRIA  

SILVIO ELIZEI


Listamos aqui 50 antigas recordações e hábitos dos moradores da nossa cidade . Assinale quais desses itens foram partes integrantes de sua vida em algum momento e veja quantos pontos você fez.. Cada item vale um ponto. O passado está presente!




1.Andou nos verdinhos e/ou azuizinhos da Viação
2. Comprou pães na Chic e/ou Bandeirantes
3. Fez crediário na loja do Seu Paschoal
4. Ouvia a sirene da fábrica de vidro
5. Votou no Koyu Iha
6. Chamava o atual VLT de linha da máquina
7. Cortou o cabelo com o Seu Cyro
8. Fez compras no SESI
9. Viu as escovas do Bem Bolado em ação
10. Conheceu o Seu Prandini
11. Brincou ou levou os filhos para brincarem no parquinho da Pça. Dr. Bernardino de Campos
12. Frequentou a feira dominical na Pça. Dr. Bernardino de Campos e Ruas Dr. Campos Salles e Ipiranga
13. Atravessou o pontilhão do Catiapoã
14. Andou no TIM
15. Deu milho aos pombos da Biquinha
16. Dirigiu um carrinho na autopista do Luna Park
17. Revelou filme no Bazar Dorcas
18. Tirou fotos 3x4 no Foto Mizuguchi
19. Foi atendido no PS da Rua Padre Anchieta
20. Comprou jeans na McCoy
21. Frequentou a Feira Hippie
22. Jogou snooker no Taco de Ouro
23. Passou horas nos trailers do Itararé
24. Comeu pastel na China Antiga
25. Paquerou nas muretas do calçadão do Gonzaguinha
26. Lembra-se da Prodesan cuidando da limpeza urbana em SV
27. Sabe onde vivia o ermitão do Itararé
28. Frequentou o Shopping São Vicenter
29. Provou os doces d’A Italianinha e da Arco-Íris
30. Comprou peixes, frutas e etc. no Mercado Municipal
31. Ouviu propagandas do carro de som da Suzana
32. Lembra-se das ambulâncias cor de creme da antiga SESASV
33. Atravessou da Rua XV à Rua Martim Afonso (e vice-versa) pela Vila Amorim
34. Tomou vacina no antigo Centro de Saúde
35. Frequentou os bailes do Beira Mar e do Tumiaru
36. Morou em casa com muros baixos
37. Consultou-se com o Ruas, o Carlito, o Walter, o Bonna ou outro farmacêutico que era praticamente o médico da família
38. Tomou Sorvete Princesa
39. Foi telespectador da TV Litoral
40. Lembra-se da velha perua azul de bolachas que tocava a parte instrumental de The Final Countdown (Europe)
41. Imaginou-se atravessando da Rua Frei Gaspar à Rua Jacob Emmerich (e vice-versa) pela viela da Light/Eletropaulo, mas não podia por conta dos portões alambrados
42. Foi em alguma festa junina da Sociedade São Vicente de Paulo
43. Torceu muito por São Vicente no Cidade Contra Cidade
44. Atravessou de uma porta à outra as antigas instalações em L da Veranista Calçados
45.Navegou (ou quase navegou) pela Baía de São Vicente a bordo de um sandolim alugado
46. Pegou “jacaré” no Gonzaguinha quando havia ondas na praia
47. Pesou-se na Farmácia Central
48. Viu as imensas filas de veículos em ambos os lados para a travessia da Ponte Pênsil
49. Teve dois dedos de prosa com o Seu Walter da banca
50. Assistiu à primeira Encenação da Fundação da Vila de São Vicente




OS IRMÃOS AURELLY POR AFONSO SCHMIDT




DO PORTO TIBIRIÇÁ AO PORTO DE SANTOS

DALMO DUQUE DOS SANTOS



PODCAST Cara ou Coroa- Mário Baraçal com Dalmo Duque - 2022

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Chegamos em 27 de março, porém a mudança começou em janeiro de 1974.
Janeiro
28 - O dirigente soviético Leonid Brezhnev chega a Cuba para uma visita de estado com a duração de dez dias.
Fevereiro
01- Incêndio no Edifício Joelma de 25 andares em São Paulo, Brasil, mata 189 pessoas e fere 293.
Março
4 - Inauguração da Ponte Rio-Niterói. Preparativos para nossa mudança de Presidente Epitácio (Porto Tibiriçá) para São Vicente. Carlos Maurício (Nenê), nosso irmão mais velho, já vivia e estudava em Santos.
15 - O General Ernesto Geisel substitui o General Emílio Garrastazu Médici no cargo de presidente do Brasil.
28 - A sonda Mariner 10 passa pelo planeta Mercúrio. Viagem e mudança para São Vicente. Às 4 horas da manhã, entramos na rodovia Raposo Tavares e algumas horas depois já estávamos na rodovia Castelo Branco na direção de São Paulo e da via Anchieta, na Serra do Mar. Fomos morar na rua Uberaba, número 20, onde chegamos às 15 horas.
-As forças do Khmer Vermelho capturam Odongk, a norte de Phnom Penh, dando início a uma ofensiva para a tomada do poder no Camboja. Nosso irmão mais novo, Bré, de apenas 3 meses, é apelidado de Bebê Pinon-Pen.
Abril
11- A primeiro-ministro de Israel, Golda Meir, apresenta a sua demissão, na sequência das críticas a propósito da Guerra do Yom Kippur. Curioso dia de adaptação. Forte cheiro de maresia durante as manhãs e gás do polo industrial de Cubatão. Céu vermelho, efeito das chaminés da Refinaria.
25- Revolução dos Cravos em Portugal depõe a ditadura.
Maio
18 - A Índia lança a sua primeira arma nuclear.
Junho – Inverno rigoroso no litoral e no interior. Preparativos para o nosso primeiro retorno à Epitácio. TV à cores é a sensação da época. No Gonzaga, em Santos, diversas TVs à cores transmitindo a Copa do Mundo. Zagalo era muito xingado quando aparecia na transmissões.

Julho- A Alemanha vence a Copa derrotando a Holanda. Nosso primeiro retorno à Epitácio. Muito frio. Todos usávamos a famosas jaquetas de nylon dupla face.

O segundo semestre foi de adaptação. Por falta de vagas, Bill, Gui e Dadau tiveram que estudar em Santos, na EE Dino Bueno. Mia no Grupão, à noite e Nenê no cursinho CAASO, em Santos. Barulho de explosões nas pedreiras do Voturuá, onde hoje é o Carrefour. No Jardim Independência as ruas ainda eram de terra, incluindo avenida Prefeito José Monteiro. Finalizamos o ano mudando para a rua Rio de janeiro, onde ficamos até 1984. Nesse mesmo ano a a família foi para São Paulo. Bill e Nenê já moravam no Butantã. Fiquei mais um ano, trabalhando na indústria em Cubatão e concluindo o segundo ano do Curso de História na Unisantos. Em 85 já estava trabalhando em São Paulo e prosseguindo no curso de História na PUC. E foi assim que deve ter acontecido com muitas famílias. Mas a gente nunca esquece.

Foto: Nossos vizinhos na rua Rio de Janeiro em 1982 durante a Copa da Espanha. Registro meu com uma Yashica FXD.



Vila Tibiriçá em 1938 pelo fotógrafo alemão Konrad Voppel


Nasci no Porto Tibiriçá (atual Presidente Epitácio) e hoje estou vivendo em São Vicente. Já havia morado em São Vicente, entre 1974 e 1984; depois mudei para São Paulo em 1985. Voltei para Epitácio na década de 1990, onde fiquei até 1997. No ano seguinte fui morar em Campo Grande – MS, cidade que acolheu muitos epitacianos. Voltei para São Paulo em 1999 e retornei para São Vicente em 2001. 
Sempre que faço esse pequeno e confuso relato as pessoas logo reagem, tentando compreender os motivos de tantas andanças e mudanças. 

Outra coisa, o que tem a ver São Vicente, uma cidade fundada no início século XVI, com o Porto Tibiriçá, fundado no início do século XX? O que poderia ter em comum essas duas localidades tão distantes, uma no litoral e outra no interior, e com quatro séculos de diferença? 

Muita gente do interior vem para a Capital, para o litoral e também vai para o exterior. Outros tantos fazem o percurso contrário. Sou do Porto Tibiriçá e creio que tem muitos e tibiriçaenses e epitacianos em vários lugares do Brasil e do mundo. Tem muita gente da nossa terra vivendo no litoral, em São Paulo, em várias regiões do Brasil, nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália, em vários países da Europa e até do leste europeu. É possível que tenha morrido algum tibiriçaense no Word Trade Center. No Japão também tem gente de lá, é claro! 

Creio que as pessoas vão para os lugares por algum motivo muito mais forte do que aquele que simplesmente funciona como pretexto e impulso para as mudanças. Mudar de lugar é uma busca de algo que se perde dentro de nós mesmos e que, na verdade, não está exatamente nos lugares para os quais a gente quer ir. Pode ser que aconteça, de acharmos o que realmente procuramos ao mudarmos de endereço, mas não é o lugar em si que é o motivo verdadeiro da procura, nem a causa real do encontro. São as coisas que acontecem, em determinados lugares, em determinados momentos que fazem realmente com que se façam algumas escolhas e essas decisões provoquem algumas mudanças na forma de ver e encarar a vida. Essa é a verdadeira mudança, a qual podemos realmente chamar de destino. Nas terras por onde se passa, descobre-se, se constrói um chão e nele o relógio do tempo avança numa sucessão de fatos e circunstâncias. Ao mesmo tempo o contato com esse chão aciona uma bússola, que nos conduz pelas veredas das decisões e escolhas. Aí a gente muda. 

O MAR. Certa vez eu fiquei fascinado pelo mar. Acho que isso também aconteceu com a minha mãe. Foi ela que teve a ideia de mudarmos para o litoral. Era um tipo de angústia que ela sentia na alma durante décadas e só curou parcialmente quando fomos viver próximo ao mar. Herdei isso dela. Meu pai sentia a coisa de forma contrária: vivia com o pensamento voltado para o sertão, lugar onde acreditava ter vivido os melhores momentos de sua última existência e, no final dela, conseguiu realizar o sonho de morar novamente em Epitácio. Seu corpo está sepultado no Horto da Igualdade, embora seu Espírito certamente não esteja lá. Aliás, sabe-se que algumas pessoas que foram viver longe fazem questão de ter seus corpos enterrados em Epitácio, pessoas que estavam vivendo na América do Norte e nunca tiraram Tibiriçá e Epitácio da memória sentimental. 

O céu do sertão é bem diferente do céu do litoral; são cores e ventos diversos e opostos. O Nascente e o Poente repercutem de forma diferenciada no psiquismo das pessoas e isso influencia nas escolhas importantes que elas fazem na vida. Dizem que nascemos assim, mentalmente inclinados para um ou para o outro lado, para o sertão ou para o mar. 

Eu tinha 10 anos quando vi o mar pela primeira vez. Foi em 1972, quando fomos passar uma rápida temporada em Praia Grande. Naquela época a rodovia Castelo Branco, que liga a Capital e o interior, ainda era nova e nas proximidades de São Paulo, Osasco e Barueri não havia muito tráfego intenso de carros. 

Para descer a serra era necessário cruzar a grande metrópole e chegar até a longínqua Via Anchieta, localizada na então área industrial dos municípios do ABC. A rodovia dos Imigrantes era só um projeto. Naquele ano meu pai havia tirado a sorte na loteria federal ganhando 65 mil cruzeiros. O prêmio logo foi transformado em uma casa, na esquina das ruas Curitiba e Guanabara, que nunca chegamos a morar, pequenos empréstimos para amigos, pagamento de dívidas e uma Kombi zero quilômetro, na qual fizemos essa longa viagem de uns 700 quilômetros para Baixada Santista. Nessa viagem fomos acompanhados pela família do grande amigo Tião Silva, espirituoso e sempre bem humorado, como a maioria das pessoas do seu sangue. Nessa viagem inesquecível tudo, como sempre, era motivo de comentários satíricos e gargalhadas. Saímos de Presidente Epitácio ainda de madrugada e fomos até Ourinhos pela rodovia Raposo Tavares. Lembro mesmo dos postos de serviços da BR, na rodovia Castelo Branco; aos meus pequenos olhos aquilo tudo era muito grande e repleto de curiosidades. Saímos de madrugada e pouco depois do meio dia já estávamos deslizando pelas “curvas da estrada de Santos”. Antes disso tivemos que entrar em São Paulo, pois o acesso principal à rodovia Anchieta era pela Avenida do Estado sentido Ipiranga. A cena mais impressionante nesse trecho entre São Paulo e Santos era a enorme fábrica da Volkswagen, em São Bernardo do Campo, com aquele prédio enorme de arquitetura alemã, com linhas retas, janelas amplas, revestimento de bom gosto, revelando a inteligência pragmática e tecnologia sempre avançada dos alemães. Até hoje me causa forte impressão ver aquelas enormes instalações com seus pátios gigantescos abarrotados e também as ruas do entorno repletas de carros. 
Meu pai e meu avô na Praia do José Menino no início dos anos 1940 


Dali fomos entrando lentamente na sempre misteriosa Borda do Campo, com sua vegetação monótona envolta em neblina, passando pela represa Billings e percorrendo um longo trecho, na época quase deserto, até chegarmos ao ponto de declive que nos levaria ao litoral. Fomos descendo a Serra e meus olhos iam se projetando fixamente no horizonte em direção ao Oceano Atlântico e então, finalmente, pude ver o mar azul, não tão azul quanto tinha visto no cinema, porém uma imensidão a perder de vista. A diferença era que esse azul parecia ter o cheiro da maresia, aumentando ainda mais o meu fascínio pela paisagem deslumbrante do litoral. Meu pai dirigia bem devagar, talvez por cautela e também curiosidade, para aproveitar o espetáculo. Tinha visto algumas fotos dele e do meu avô, os dois em trajes de viajantes e depois de sunga numa praia de Santos, nos anos 40, provavelmente a do José Menino ou do Gonzaga. 

Ainda hoje não consigo explicar direito o que eu sentia naquele instante. A ansiedade para chegar rapidamente, tão comuns nas crianças, em mim era um sentimento de quem buscava algo diferente naquela paisagem sempre deslumbrante. Aquela imagem do Atlântico penetrou na minha retina e tornou-se inesquecível, assim como, na memória olfativa, permaneceu o cheiro do mar. 

Essa aparente viagem de férias era na verdade o nosso reencontro com antigas paisagens desconhecidas pela memória consciente daqueles instantes, porém familiares nas lembranças remotas do inconsciente de outros momentos que ficaram no passado. Naquela época nenhum de nós sabia o que significava déjà vu, porém essa era a sensação que tomava conta de mim, da minha mãe e talvez do Mia que, inexplicavelmente resolveu fazer essa viagem com a gente. Estávamos nos reencontrando com o litoral e também marcando o próximo encontro de um convívio mais longo, talvez definitivo, para os próximos cinquenta ou setenta anos. 

Durante uma semana visitamos Praia Grande, Santos, Bertioga, Itanhaém e Guarujá. Era um tempo em que essas incursões eram mais demoradas, principalmente ao litoral Sul, pois o único acesso era pela velha Ponte Pênsil, cujas filas de ida e volta eram enormes nas temporadas de verão. A cada ponto turístico ou lugar comum por onde passávamos tínhamos a impressão nítida do “já vi” e “já estive aqui”. Visitamos também muitos amigos epitacianos que já moravam há anos na Baixada Santista, especialmente o Manuca (Manoel) e o Chiba (Claudio), ambos filhos da Dona Lindina e também mãe da Irene, esposa do Tião Silva, nossos convidados. O Manuca (casado com a espanhola Maruca) trabalhava no jornal A Tribuna, da família Santini, com quem a mãe havia trabalhado por muitos anos como colaboradora doméstica. O Chiba trabalhava em Cubatão, na Copebrás, e a Cleusa, sua esposa, era funcionária do INPS. Fomos muito bem acolhidos, nessa viagem e também quando mudamos para São Vicente, recebendo deles ajuda preciosa para nos instalarmos na cidade. A primeira casa em que moramos pertencia ao casal Nezinho e Janice, também filha da Dona Lindina. 

Quando voltamos para Epitácio naquele verão de 1972 já não éramos mais os mesmos, pois algo diferente e muito grave havia acontecido com os nossos espíritos. A viagem, que foi feita apenas para diversão e lazer, tinha causado um desvio existencial em cada um de nós fazendo com que antigas dúvidas e anseios se multiplicassem em nossos mundos íntimos. Voltar para Epitácio naquele ano foi distanciar-se da sensação de experimentar algo muito diferente do que experimenta o turista deslumbrado com o desconhecido. Para nós, nada daquilo era desconhecido e logo, dois anos depois, estaríamos descendo novamente a Serra do Mar para apagar definitivamente os efeitos do déjà vu. 

A PRIMEIRA E A ÙLTIMA CIDADE PAULISTA

O pioneirismo paulista é provavelmente uma das mais importantes epopeias registradas nos arquivos da história brasileira, repleta de atos heroicos e acontecimentos incomuns. Recordando, foram três os momentos do ímpeto conquistador que impulsionaram a marcha de ocupação territorial que daria origem ao mais rico e próspero estado da federação. 

O primeiro avanço aconteceu na colonização mercantil do século XVI, com a formação das Capitanias Hereditárias, na qual o engenho vicentino de Martins Afonso de Souza foi o modelo empreendedor. São Vicente e Pernambuco foram praticamente as únicas capitanias que vingaram como unidades políticas e produtivas, segundo as exigências do sistema colonial; e foi por causa delas que Portugal resolveu implantar o Governo Geral. Os vicentinos partiam do litoral em muitas direções em busca ouro, diamantes e da mão-de-obra indígena, compulsória. 

O segundo avanço, já no século XIX, foi marcado pela expansão cafeeira, inicialmente na direção da Serra da Mantiqueira e posteriormente para o meio Oeste, na grande região de Campinas e Ribeirão Preto. 
E finalmente, já na primeira metade do século XX, por meio da enorme malha ferroviária, derrubando matas, abrindo novas fazendas, espalhando estações de percurso e distribuindo grandes contingentes humanos em busca de trabalho e do sonho de felicidade. 

Primeiro os caminhos de terra e água e depois os trilhos de ferro, do litoral vicentino até às margens do rio Paraná, de olho no infinito sertão. 

Portanto, o Porto Tibiriçá é também, como São Vicente é para o Brasil, a “cellula-mater” do Oeste paulista e do Pontal do Paranapanema. 

Não havia outra forma mais prática e eficiente de atingir essa imensa região, ainda despovoada em pleno século XX, se não pela via fluvial Tietê-Paraná, contorno natural que economizou tempo e recursos tanto das novas “Entradas” da Comissão Geográfica e Geológica do Estado, quanto da nova “Bandeira” da Companhia de Viação São Paulo-Mato Grosso. 

Muito antes que as principais cidades da região fossem fundadas e adquirissem o status de vila, distrito ou municipalidade, o Porto Tibiriçá e a Estrada Boiadeira se organizavam como estabelecimentos empresariais e fatores e socioeconômicos que estimulariam as futuras instituições políticas da Alta Sorocabana. 

NO JARDIM INDEPENDÊCIA

Em 27 de março de 2019 completaram 45 anos que saímos de Epitácio para morar na Baixada Santista. Achamos que iríamos morar em Santos, mas na verdade fomos para São Vicente, cidade vizinha e mais modesta. É tão vizinha que o turista comum não percebe quando passa pelas duas divisas entre elas, na praia do José Menino e no Monumento dos Tambores, na zona Noroeste. 

Fomos morar num sobradinho na rua Uberaba e depois mudamos para uma casa maior, na Rua Rio de Janeiro, onde ficaríamos nos próximos dez anos, entre 1974 e 1984. Tanto a avenida Prefeito José Monteiro (que separava a Vila Valença) quanto as ruas do nosso bairro – Jardim Independência – não eram calçadas e ainda havia muitos terrenos baldios e casas em construção. O lado vicentino da Vila São Jorge, que divide até hoje Santos e São Vicente, atrás dos morros Itararé e Voturuá em direção ao Jabaquara, também não era calçado e o esgoto corria a céu aberto em pequenas valas em frente das casas. Naquela época a única rua pavimentada era a Dona Anita Costa, calçada com paralelepipedos, material extraído das pedreiras instaladas nos pés dos morros. 

Seria uma década revolucionária em nossa família, marcada por experiências incríveis e cheias de transformações. Nossa mãe teve essa intuição bem antes e não perdeu a chance quando surgiu a oportunidade. A vida em Epitácio havia atingido o limite para uma família grande e de poucos recursos: cinco filhos jovens com muitos sonhos, mas sem muitas perspectivas. A ideia inicial era irmos para São Paulo, como acontece com a maioria das famílias que passam pela mesma crise, porém meus pais optaram por uma cidade que não fosse tão grande como a Capital e não tão pequena como Epitácio. Santos, São Vicente, Guarujá, Cubatão e Praia Grande formam uma grande região composta por cidades medianas. Era a escolha certa e o lugar perfeito. 

Saímos na madrugada e chegamos ao litoral perto do meio dia. Parte da nossa mudança foi levada numa camionete do amigo Jorge Okada. No dia anterior, no feriado municipal de 27 de março de 1974, ficamos no Jardim da Praça da Matriz até quase meia noite nos despedindo dos amigos. Estávamos todos eufóricos e apreensivos. Esse sentimento permaneceu durante toda aquela semana de novidades. 
Bem diferente do que é hoje, São Vicente era pequena e funcionava como cidade dormitório. Trabalhar, estudar, fazer compras, tudo era feito em Santos – no Gonzaga ou no centro velho, próximo à zona portuária. Nessa época, na esquina da Avenida Ana Costa com a praia, ainda existia o Parque Balneário, antigo e suntuoso hotel, já desativado, comprado pelo Santos Futebol Clube e depois demolido para dar lugar a um shopping Center. 

Andar de ônibus de linha era para nós um excelente programa porque todos circulavam a grande Ilha de São Vicente, que abrange os municípios Santos e São Vicente. Cubatão, Bertioga, Praia Grande e cidades do litoral Sul (Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe), ficam no continente. O circular 7 seguia de São Vicente pelas praias em direção ao Ferry-Boate, na Ponta da Praia 
(Santos) e o circular 8 fazia o sentido inverso, pelo centro e área do porto, pelo caminho do quartel do Batalhão de Caçadores e também do antigo Matadouro (hoje espaço cultural do SESI). Alguns deles percorriam os dois primeiros canais de Santos em direção à Vila Belmiro e ao túnel, entre a Santa Casa e a Cadeia Velha. Tudo era muito fascinante. Sempre escolhíamos o percurso mais longo, para aproveitar a paisagem. Em Santos havia ônibus elétricos e as linhas de bonde tinham sido desativadas há apenas alguns anos. 

O cheiro de mar e da vegetação litorânea era marcante e completamente diferente de tudo que o nosso olfato conhecia. Além dos pontos turísticos, nossa diversão preferida era ver a entrada das embarcações na barra da Ponta da Praia. Navios enormes, de todas as nacionalidades. Também gostávamos muito das visitas aos vasos de guerra e submarinos, nacionais e estrangeiros, atracados no porto. Num deles fomos visitar o jovem marujo epitaciano Salvador Miyazaki, na época servindo no submarino Rio Grande do Sul. 

A entrada que dá acesso ao porto de Santos é uma das mais belas e curiosas paisagens da vida urbana do litoral paulista. É um enorme canal entre as ilhas de São Vicente e Santo Amaro, separando Santos e o Itapema-Pouca Farinha, antigos bairros de operários da indústria naval e pescadores do Guarujá. Os habitantes e trabalhadores que moram nessas cidades talvez não tenham um olhar imaginário sobre essa parte da vida urbana, já que, para a maioria deles trata-se apenas uma rotina do dia a dia da cidade. Entre a ponta da praia santista, que fica na ilha vicentina e a barra do forte localizada em Santo Amaro, passam todos os dias centenas de embarcações que atravessam o canal ou que entram e saem do grande porto. É sempre, em qualquer hora do dia ou da noite, um lugar fascinante e que desperta no observador inúmeras impressões, quase sempre cheias de imaginação seguidas de sensações e lembranças. Ao ficar por uma ou duas horas no calçadão da barra santista é possível ver admirar essa deslumbrante rotina do cotidiano portuário. Primeiramente o cheiro de mar, que ali é sempre mais forte por causa da concentração de detritos de frutos mar, somada com a poluição química dos líquidos combustíveis que alimentam os motores dos barcos. E depois a movimentação de aves da fauna marítima em busca de alimentos. Elas sempre dão um tom musical da natureza resistente e que recusa desaparecer diante dos avanços humanos sobre esse braço de mar. Muito mais interessante é poder ver o que acontece no entorno do canal observando-se pelo outro lado da barra, que não muito comum para os frequentadores do lado santista. Enquanto isso, em apenas alguns minutos, é possível ver e gravar para sempre na memória as imagens de uma pequena catraia transportando rapidamente passageiros de um lado para outro; a balsa que leva e traz os carros; os rebocadores de apoio de embarque, dezenas de barcos de pesca e as raras lanchas que levam os pilotos práticos até os grandes navios que aguardam na baía a ordem de entrada e atracação no cais. As pessoas que ali ficam por alguns momentos parecem estar entorpecidas pela memória e pela introspecção, talvez imaginando de onde vieram e para onde vão todos aqueles navios abarrotados de cargas, que antigamente eram cobertas de lona e hoje embaladas em grandes caixas metálicas. 

Tudo isso ia se acumulando no baú das nossas emoções e não víamos a hora de retornar para Epitácio e contarmos tudo em detalhes para os colegas. Isso aconteceu pela primeira vez no mês de julho de 1974 – que na época estava bem frio. Uns parentes baianos da minha avó tinham sofrido a perda do filho mais velho (que morava no Morro do São Bento, com dois irmãos) e fizeram essa viagem de volta com a gente. Levei na bagagem um vidro com água do mar, para mostrar para o Gilmar Saraiva. Em pouco tempo já havíamos adotado um sotaque santista (o abusivo e incorreto uso do “Tu” antes das frases “Tu vai, Tu foi, etc.), logo motivo de muito sarro e protesto dos colegas. 

Quando chegamos, fomos logo procurar a turma no campinho de futebol, num terreno na Rua Cuiabá, em frente a velha Serraria Lopes. A manhã estava deliciosa, fria e ensolarada; e a maioria da garotada usava aquelas japonas de nylon “dupla face”. 

A irmã da minha avó Maria, mãe do rapaz morto em Santos, veio para morar em Epitácio. Elas não se viam há mais de 40 anos. Foram morar na chácara do meu avô, na Estrada Boiadeira Norte, próximo da rodovia marginal. 

Terminadas as férias, voltamos para o litoral, agora com outros olhares e outros projetos. Novas experiências, novos vizinhos, novos amigos. Momentos difíceis e coisas maravilhosas, inesquecíveis. De todas elas, a que marcou mais foi a ajuda espiritual – numa reunião doméstica de Evangelho - que recebemos de uma entidade feminina desencarnada em Epitácio. Comerciante, de origem humilde, mãe de muitos filhos e antiga amiga da família, ela nos deu conselhos e consolos preciosos nas horas incertas. A preocupação era alertar sobre os perigos da ociosidade e dos encantos da cidade grande. 

SÃO VICENTE NOS ANO 1970

Em 1974 a vida urbana vicentina ainda se concentrava nos bairros antigos próximos ao centro (no ângulo formado pela rua Frei Gaspar e avenida Capitão-Mor Aguiar) e nas periferias que ainda não haviam sido cortadas pelas alças de acesso à futura rodovia dos Imigrantes (Bitaru, Vila Margarida, Jockey Club, Catiapoã, Golf Club, Beira Mar, Esplanada dos Barreiros e os diques e favelas). 
O acesso a Praia Grande era demorado e feito exclusivamente pela Ponte Pênsil. 

A Cidade Náutica era apenas um extenso loteamento de terrenos com poucas casas em construção no final da longa e velha rua Frei Gaspar. 

A área continental era praticamente desabitada, havendo apenas acesso por trem pela ponte do Barreiros em direção ao então bairro rural do Samaritá. A linha ferroviária, bem distante da orla, seguia pela mata até atingir a estação do longínquo bairro Flórida em direção a Mongaguá, Itanhaém e Peruibe. 
Os bairros próximos dos morros do Voturuá e Itararé eram muito modestos, sem rede de esgoto e calçamento. 

A Vila São Jorge, após a rua Anita Costa (esta era calçada com blocos pedra), era toda de terra e com esgoto a céu aberto. A avenida prefeito José Monteiro, que divide a Vila Valença e o Jardim Independência, era uma rua larga de terra e pedregulhos. O calçamento e o esgoto só viriam no início da década de 1980. No entorno dos cruzamentos das ruas Uberaba e Monteiro Lobato (canal) haviam apenas alguns estabelecimentos, os mais frequentados nos dois bairros: três padarias, a banca de jornais da Dona Esperança; o bar que hoje é o restaurante Itabaiana; uma fábrica e loja de calçados; a Market (tintas, ferragens e construção), a Quitanda do Mundinho na rua Pedro Álvares Cabral; a Casa da Madrinha (perto da Igreja N.S. das Graças); e o mercadinho Primo. Na direção do Itararé só haviam as pedreiras; e subindo em direção em direção à Vila Melo, o pequeno centrinho comercial na confluência com a Antonio Emerick e Anita Costa, onde tinham com destaques o supermercado Pão de Açúcar e o Cine Petrópolis. Esses dois bairros próximos das praias do Gonzaguinha e do Itararé atraíam muitos moradores de São Paulo e Santos pelos baixos custos dos imóveis e dos aluguéis. Essa demanda estimulava a construção constante de novas casas, prédios pequenos e sobrados. 

Tínhamos vizinhos excelentes, morávamos num bairro simples, porém muito próximo das duas principais praias de São de São Vicente: o Gonzaguinha e o Itararé, ainda relativamente limpas e não tão poluídas como hoje. Próximo aos dois morros haviam bicas, onde os moradores tinham o hábito de encher garrafões, pois a água encanada tinha um gosto horrível. 

Tirando a vida escolar, morar no litoral era diversão praticamente o ano todo, antes que chegassem os compromissos da vida adulta. Em todas as estações do ano as praias eram, como hoje, frequentadas por turistas em férias ou de finais de semana, só alterando a rotina nos meses de verão, quando a população em veraneio dá um tom de agitação diferente em todas cidades litorâneas. São Vicente ainda vivia seus dias de moda praiana e era bem frequentada tanto pelos paulistanos quanto pelos santistas que buscavam um tipo de praia mais aberta e espaçosa. 

O bairro do Boa Vista também vivia dias de glamour das mansões antigas e edifícios novos que brilhavam nos melhores catálogos imobiliários da região. A Ilha Porchat ainda era o point dos ricos moradores do planalto paulista e da Borda do Campo, bem como da pequena elite vicentina, com a sua localização espetacular no canto do Itararé e passagem para a pequena e chic Praia dos Milionários. Na ilha tinha, além do clube de praia, dois ou três grandes edifícios, muitas mansões e as famosas boates e choperias, todas com vista para a orla vicentina e santista, bem como para o Atlântico. 

Também na larga avenida Presidente Wilson, que dá acesso do Itararé ao centro, hoje forrada de prédios de muitos andares, ainda havia muitas casas e mansões de ricos veranistas. Indo pelo Itararé em direção a Santos ainda se encontrava, entre a linha do trem (hoje VLT) e a praia, muitas casas de férias, incluindo a que durante muitos anos funcionou talvez o mais famoso surf-shop do litoral: a Twin, griffe de pranchas, skates, acessórios e roupas consumidas por todos os jovens que pretendiam ingressar no universo dos esportes radicais californianos e também do cultuadíssimo Hawai. Anos depois a Twin mudou-se para o bairro de Moema, na Capital. 

No final dos anos 70 e início dos anos 80 – como uma evidente influência de costumes do Rio de Janeiro - o surf, o skate, o rock beach e cabelo loiro parafinado seria a moda mais forte e significativa da juventude do litoral paulista e dos milhares de paulistanos que desciam a serra para aprender esse novo estilo de vida. As praias de Santos, de areia cinza e dura, nunca foram apropriadas para pegar ondas e o Guarujá não era de fácil acesso, por causa das balsas e da longa distância do centro até as praias. Nessa época a Praia Grande, recém emancipada de São Vicente, também era muito distante e frequentada preferencialmente pelos moradores do ABC e o povão das muitas periferias de São Paulo. Restava então, para surfistas e os vaga-beach de Santos e São Vicente, a enorme, meio selvagem e deserta praia do Itararé que, dependendo do dia e da lua, produzia boas ondas e muita curtição na areia. Poucos eram os praticantes do surf, porém muitos se vestiam e viviam a vida como eles. 
Nessa época já estava em início de construção o Emissário Submarino de esgoto, vizinho ao Orquidário e na praia do José Menino, em Santos. Alguns anos mais tarde, quando o modismo surfista passou, passamos a frequentar e acampar nas belíssimas e realmente selvagens praias do litoral Norte, principalmente Barra do Saí e Boissucanga. 

UM JOVEM VICENTINO NOS ANOS 80


Tenho cinco irmãos e somos filhos de uma família de classe média baixa. Meus pais eram funcionários públicos federais, com salários modestos e muitas dificuldades para cobrir nossas despesas, como a maioria das famílias brasileiras. 

A nossa mãe sempre se preocupou em nos educar para o trabalho. Dizia que, desde cedo, temos que acostumar o corpo para essa tarefa que iria nos acompanhar pelo resto de nossas vidas. Cinco meninos, quase rapazes, era uma situação muito preocupante e o principal obstáculo realmente era a ociosidade. Quando morávamos no interior ela sonhava em nos levar para São Paulo. Na juventude ela tinha visitado parentes que viviam Capital e guardava boas lembranças das viagens e daquela grande cidade, sempre recordando com admiração o ritmo de vida que a s pessoas levavam numa metrópole. “Lá todo mundo trabalha, todo mundo levanta cedo!”, dizia ela, nos ensinando a afugentar a preguiça e o desânimo. Quando viemos para o litoral a luta dela continuou, pois os riscos de desvio aumentaram. Já éramos todos adolescentes e as tentações e necessidades começaram bater na porta. Não fomos morar em São Paulo, como queria minha mãe, porque meu pai não gostava da ideia e achava perigoso. Então, por um acordo entre eles, viemos para São Vicente. Ela insistia em nos ver fazendo alguma coisa de útil e continuava repetindo suas máximas sobre as virtudes do trabalho. De tanto ouvir aquilo ficava sempre olho em alguma oportunidade para produzir. Nessa época o Nenê e o Mia trabalhavam numa empresa de listas telefônicas (LTB), cuja sede era na Rua da Paz, em Santos. Depois foram trabalhar com pesquisadores do IBGE e também na Cosipa. Nessa época estavam sendo iniciadas as obras da rodovia dos Imigrantes, realizadas por grandes empreiteiras e inúmeras prestadoras de serviços conhecidas como “gatos”. Meu pai trabalhou numa dessas firmas que transportava agrimensores que faziam os primeiros levantamentos topográficos na Serra do Mar onde seriam construídos os enormes elevados de concreto e túneis dessa segunda rodovia de acesso ao litoral. Depois de passar esse serviço para o Mia, meu pai foi convidado pelo Seu Lauro Romão, antigo funcionário da Bacia que morava em Santos, para trabalhar numa empresa de hotelaria marítima na região de Campos, no Rio de Janeiro. Essa empresa prestava serviços em navios de contrato de risco e nas plataformas da Petrobrás, localizadas na Bacia de Campos a dezenas de quilômetros da costa atlântica. A base dessa empresa era na cidade de Macaé e o transporte dos funcionários, equipamentos e suprimentos era feitos por rebocadores e helicópteros cargueiros. As jornadas eram quinzenais e a viagem por mar durava cerca de oito horas, enquanto as aeronaves demoravam pouco mesmo de duas horas. 


José Carlos Názara, Alfredo do Monte e Dalmo Duque dos Santos, na casa do autor, na rua Rio de Janeiro, 294- Jardim Independência, em 1981. 


EMPREGO E ASSALTO NA SV VEÍCULOS

Meu primeiro emprego, aos 12 anos, foi numa quitanda, na rua Amador Bueno da Ribeira, no Gonzaguinha. Fui demitido. Não tinha nada para fazer e ficava comendo as bananas que não vendiam. Dali, por indicação do Gui, fui trabalhar como entregador de remédios numa farmácia na Vila Valença chamada Tutancâmon. O dono, seu Osvaldo, era um prático muito bom e valorizava muito a minha educação. Ensinava como as coisas deveriam ser feitas, como tratar as pessoas e prezava muito a obediência. Também era muito alegre e tirador de sarro. Ficava indignado com as “madames” que vinham comprar fiado. Dizia ele: “Minha senhora, se fosse remédio... Mas, cosmético? Não!!!” Nesse ramo sempre tinha uma atividade curiosa: quando um cliente trazia alguma receita médica cuja letra do médico era incompreensível, era necessário percorrer as outras farmácias para decifrar a mensagem e também receber o desconto para revender o remédio. Nessas andanças a gente conhecia a cidade e muitas pessoas interessantes. Tinha um balconista da Drogaria Calunga, na rua Frei Gaspar, que conseguia decifrar as receitas pelo nome do médico. 

Empregos não são eternos e já não eram naquela época. Por falta de experiência e muitas vagas disponíveis a gente mudava de emprego com muita facilidade. Cheguei a trabalhar também na informalidade: entregava folhetos de um curso de inglês em Santos, na porta dos clubes. Também fiz parte de uma equipe de jovens pintores de parede. Uma vez fomos pintar a casa de um delegado de polícia que tinha problemas com um filho ocioso. Ele descobriu que meu irmão era músico e dizia para o filho: “Tá vendo, o rapaz é pianista e tá aqui dando duro... E você aí ao nessa moleza...”. 

E assim fui trabalhando num empreguinho aqui, noutro ali. Em 1982 consegui entrar num emprego mais sério. Era um cargo de auxiliar de escritório numa concessionária da Volkswagen. Quem conseguiu essa vaga foi o João Batista (Toni Tornado), primo do Beto eletricista, amigos e vizinhos quando morávamos em Epitácio e que era encarregado do departamento de pessoal. Eu fazia o mapa de serviços da oficina e outros pequenos serviços burocráticos. A firma era infestada de funcionários administrativos, coisa que hoje seria impossível. Naquela época não havia computadores e tudo era feito manualmente. Um fiscal da fábrica de São Bernardo vinha inspecionar mensalmente a revenda e checava todos os mapas de serviços. Era uma folha enorme contendo todos os dados de rotina da oficina. Cada serviço era padronizado por um código e um tempo de execução, marcado num relógio de ponto. Era um sistema alemão interessante, em série, que parecia um pronto-socorro: o carro entrava na loja, era atendido por um mecânico recepcionista que usava um jaleco branco até os joelhos. Com uma prancheta ele fazia a consulta e dava o diagnóstico. Se o cliente concordasse, ele preenchia uma ordem de serviço (OS) e chamava o chefe da oficina para providenciar a internação do veículo. Este escolhia um mecânico disponível ou mais adequado ao serviço, entregava a OS, que era levada até o guichê do nosso escritório para ser codificada. O mecânico tinha um tempo certo para fazer o serviço, incluindo também a solicitação de peças, na sessão ao lado. O sistema era curioso, porém era rígido e recusava quebra de paradigma. A ideia era trocar peças e aumentar a fatura. Conserto era outra coisa e não dava o lucro esperado. Tinha um mecânico japonês, bem baixinho, chamado Kimura que de vez em quando tentava quebrar o esquema e ajudar o cliente. A cena lembrava Charles Chaplin, no filme Tempos Modernos. Ele tirava tudo do lugar e causava uma enorme confusão na ordem das coisas. O Kimura, que o Gabriel, chefe da sessão de peças, chamava de “Menininho”, não durou muito tempo. Para o alívio dos recepcionistas e do chefe da oficina, ele foi transferido para o DU, departamento de usados, que funcionava em outro endereço. Lá ele se deu bem porque tinha tempo de ficar mexendo no motor e fazendo outros reparos. A maior sensação do dia era a chegada do dono da empresa, sempre bem tarde e saindo sempre muito cedo após passar no caixa para pegar alguns trocados. Essa cena diária também era imitada pelo Gabriel, que pegava uma blusa branca do Nego Nelson colocava nos ombros e caminhava pelos corredores cantando uma paródia de uma música do João Nogueira: “Olha lá quem chegou, Fausto o Milionário. Diz que é o bom, que é o tal...” Quando não tinha dinheiro no caixa ele ficava transtornado e seu Jimy, um senhor muito falante e que trabalhava no caixa, ficava desesperado: “Faustinho, querido, entraram dois carros na oficina e logo deve entrar alguma coisa na seção de peças”. E o patrão retrucava: “Preciso desse dinheiro até às onze horas. Ontem você já me deixou na mão.” Meses mais tarde essa função de arrumar dinheiro diariamente para o seu Fausto e para o filho dele passou para mim e eu nunca sabia como ajustar o caixa depois, problema que era logo solucionada pela contabilidade. 

Um dia, de manhã, fomos assaltados. Era uma quadrilha profissional, com espingardas de cano curto enfiadas naqueles antigos sacos de supermercado. Eles gritavam com sotaque castelhano: “Pagamento, Pagamento!!!”. Achavam que o dinheiro estava com a gente porque o nosso escritório tinha caixa e guichê de vidro. O Gilson, meu chefe, tinha saído para comprar pão, coisa que nunca tinha feito. Nilcéia, a menina do seguro, ficou pálida e quase desmaiou. Eu, muito nervoso, tinha vontade de rir e para disfarçar ficava mostrando as mãos vazias para os bandidos. Seu Jimy, querendo agradar os meliantes tomou uma cutucada de espingarda na barriga e quase teve um infarto: “Pagamento, pagamento!!”, insistiam os assaltantes. Depois de muita luta, perceberam que a coisa não estava rendendo nada e foram embora sem dar um tiro. Quando entraram no carro para a fuga, o pessoal da oficina começou a atirar pedra neles, mas não adiantou nada. Meu chefe chegou com o saco de pães e quis saber de tudo. O rapaz que trabalhava no relógio, muito irônico, disse: “Não aconteceu nada... Como diz o Dalmo, todo mundo ficou nervoso, mas isso é isso psicológico...”. O gerente da revenda, o seu Adonias, que era um alagoano bem simpático ficou muito impressionado com a minha atitude e falava pra todo mundo ouvir: “Só tem um cara mais calmo do que eu nessa firma, só um. E então os colegas passaram a me chamar de “Dalmo, o calmo”. Este foi um dos melhores empregos que tive. Durou apenas um ano, ganhava pouco e a gente se divertia muito. Depois desse assalto, o Gabriel, que era chefe da sessão de peças, outro bonachão e palhaço que imitava todo mundo, entrava de surpresa em nosso escritório, com um saco de papel na cabeça, gritando: “La grana, la grana, la grana de La Desorganizacion!!!”.  

NA VIDRO BRÁS E MARTIM AFONSO

Como já disse, nunca fui um aluno de excelências disciplinares na escola fundamental e no colégio, mas sempre via o ambiente como um lugar especial, de muitas expectativas e de esperanças. Ao invés de prestar atenção nas aulas, como faziam alguns colegas concentrados nos seus afazeres, eu simplesmente observava atentamente os professores, que no meu olhar era grandes figuras humanas com suas características marcantes: seus discursos, gestos, gostos, cacoetes, as expressões mais constantes, seus pontos fracos, as vaidades, os talentos especiais, os receios. Gostava muito quando eles contavam suas histórias pessoais, impressões sobre as coisas e opiniões sobre os acontecimentos. Ficava imaginando como eles viviam no dia a dia e na intimidade, atento aos seus modos de se vestir, de se pentearem, de andar na sala, enfim, de como eram seres humanos. Nunca vi os professores como pessoas extraordinárias, dotadas de poderes especiais de inteligência. Achava que eram pessoas comuns, nada excepcionais. Isso era ruim porque influía na minha displicência. Fui fazer a faculdade de História certamente influenciado por uma professora linda, Dona Agnes, do Augusto Saint-Hilaire (Vidrobrás), em São Vicente. Tinha entre 30 e 35 anos, era casada e uma filha de cinco ou seis anos. Ela sabia que eu todos os meninos, principalmente o Ricardo Palhinha e o João Vicente, eram apaixonados por ela e nos dava boas notas pelas nossas observações e comentários sobre as suas explicações. Naquela época ela já usava os seminários como apropriação de conhecimentos. Durante as apresentações, sentava-se no fundo da classe tomando o cuidado de ficar sempre uma fileira à frente dos meninos, para nos torturar com as suas curvas maravilhosas e movimentos enlouquecedores para se acomodar na carteira. Dona Agnes tinha o hábito de profetizar o futuro e a carreira que melhor combinava com a personalidade dos alunos. De mim ele dizia que seria jornalista ou publicitário. Tentei, mas optei, como ela, ser professor de História. 

O período em que estudei no Saint-Hilaire foi muito interessante, pois ali aconteceu uma espécie de renascimento das minhas inclinações de existências passadas, boas e más, bem como o despertamento espiritual. Era uma escola longe de casa e tinha que caminhar do Jardim Independência até o Catiapoã, percurso que fazia a pé e sempre com a maior satisfação. Fui para lá porque havia me envolvido numa confusão com uma inspetora da escola anterior (E.E. Zulmira Lambert, prédio antigo de madeira no Voturuá) e acabei sendo agredido por alguns alunos que não gostaram da minha atitude nem da simpatia que algumas garotas tinham por mim. Como se dizia naquele tempo, tomei um pau e tive que sair da escola. Naquela época isso ainda era um acontecimento raro, grave e vergonhoso no universo escolar. Esse fato ou dano moral contribuiu muito para a minha mudança íntima com relação aos estudos. Mudei tanto que minha mãe até hoje relata o acontecido com um ar de surpresa. Tínhamos um vizinho da rua Rio de Janeiro que era Delegado de Ensino - professor Ênio Vilas Boas - e este sugeriu que eu fosse transferido para essa escola. O Saint-Hilaire era frequentado por alunos dos bairros pobres de São Vicente e ficava próximo da Sociedade Hípica (hoje um hipermercado) e do Golf Clube, áreas nobres rodeadas de favelas. Ganhava de presente muitas bolinhas de golfe dos colegas que moravam nas imediações. Lá também estudavam alunos de classe média que moravam no Itararé, no Gonzaguinha e na Vila Valença, pois a escola tinha fama de ser um ambiente calmo e ter bons professores. Chegando lá, fui logo atraído para o Centro Cívico, assumindo algum tempo depois a presidência desse grêmio estudantil. Os colegas amigos mais próximos eram Ricardo “Palhinha”, que resmungava igual ao Zé Buscapé, o João Vicente, garoto paulistano e filho de pais separados que morava com os avós no Itararé; o Gecílio, morador do dique das Caixetas, favela muito conhecida de São Vicente; e finalmente o Gunther, menino também simples do catiapoã. Deles todos, o único que reencontrei quando adulto foi o Gunther, que me reconheceu na rua dizendo a havia visto uma entrevista minha na TV Santa Cecília. Nessa época, 1978, fazíamos as aulas de educação física no quartel do Exército – Batalhão de Caçadores -, próximo à divisa com Santos. O prédio da escola estava em péssimas condições e tínhamos como vizinhança um enorme matagal, os trilhos do ramal santista da E.F. Sorocabana e a fábrica de vidros da Santa Marina (hoje Saint Gobain). Certa vez, voltando das aulas, encontramos o prefeito na rua Frei Gaspar e pedimos ajuda para reformar a escola. Era o futuro deputado Koyu Iha, que prometeu nos ajudar na medida do possível. Fez uma visita surpresa na escola e não encontrou a diretora, que nunca estava lá. Numa das aulas de educação física os membros do centro cívico solicitaram ajuda do comandante do quartel do Exército para resolver alguns problemas. Este enviou um grupo e soldados para limpar o matagal, no qual fizemos um campo de futebol; e também fez uma pintura nas paredes externas, deixando a escola com uma aparência agradável e renovada. O centro cívico ficou em alta e isso mexeu com alguns professores mais idealistas, que passaram a nos apoiar em projetos culturais de teatro, fanfarra, música, coisas que não aconteciam há anos na escola. Foram três anos de ótima convivência. Dali nosso grupo foi fazer o colegial na escola estadual Martim Afonso. 

CINEMA NO GONZAGA

Em São Vicente em meados da década de 1970 haviam apenas três cinemas: o Petrópolis (na avenida Antonio Emerick, lado do Cascatinha), o Cinemar (na rua Benjamim Constant, em frente ao Clube Tumiarú) e o Cine Jangada, um pouco mais sofisticado (na rua Martim Afonso, no centro). Nesse último vimos, entre 1975 e 1976, o lançamento de Dona Flor e seus Dois Maridos, Tubarão e a peça O Santo Inquérito, de Dias Gomes, um monólogo com Regina Duarte. Um dos meus colegas de escola e praia - o Chico - era filho do gerente do Petrópolis e do Jangada, nos quais sempre tínhamos entrada franca. 
Essas eram as únicas opções de diversão noturna em São Vicente. Isso nos levava a buscar as atrações de Santos, especificamente no Gonzaga, antigo bairro balneário de casarões de milionários e hotéis de luxo. Ali era, nos anos 70, o verdadeiro esplendor de consumo e footing para jovens e adultos, local sempre muito movimentado e de muitas novidades, vitrines, luminosos, barulho de carros e motos durante a noite e na madrugada. Nas calçadas, largas e limpas, sempre havia oferta de artesanato hippie e pinturas em quadros, de todos os estilos. Cortado pela centenária avenida Ana Costa, o Gonzaga tinha como destaque a redonda praça Independência em torno da qual se concentrava inúmeros estabelecimentos: restaurantes especializados, rodízios de pizza, lanchonetes e casas de sucos e vitaminas, sorveterias, farmácias, grande lojas de sapatos, roupas e acessórios; galerias com muitas lojinhas da moda e de discos, boutiques de luxo, duas livrarias muitos frequentadas (Martins Fontes e Siciliano) e principalmente os cinemas, cuja frequência era altíssima nos finais de semana. 
Durante o dia, como hoje, o Gonzaga funcionava como um centro de serviços com muitos consultórios, bancos e escritórios; era também o bairro dos solteiros, pois havia muitos prédios com apartamentos pequenos e kitinetes de temporada. Eu mesmo morei sozinho, no de 1985, na rua Pereira Barreto, em frente ao atual Shopping e Hotel Miramar. Fazia minhas refeições, pasmem, numa loja da Drogaria São Paulo, na rua Floriano Peixoto, precursora das lojas de conveniência e que também era restaurante. 
Durante a noite, sobretudo nos fins de semana, o bairro sofria uma transformação espetacular tornando uma vitrine frequentada por uma multidão de pedestres sempre muito bem vestidos. De todas as atividades comerciais a que mais representava esse espírito da diversão e do passeio noturno no Gonzaga ainda eram os cinemas, que serviam, por exemplo, para demarcar o tempo de permanência dos que buscavam o bairro aos sábados e domingos. As sessões tanto poderiam ser o início, o meio quanto o final da jornada de lazer e diversões, dependendo das características e das intenções das centenas pessoas que ali passavam. As salas de cinema do Gonzaga variavam de tamanho e gosto pelos filmes ofertados: as maiores para as películas comerciais e a menores para os filmes de arte. Muitos deles faziam sessões de pré-estreia à meia noite de sexta-feira, mas o ponto alto eram as noites de sábado, quando o bairro era invadido pelas multidões desde o período da manhã e tarde para fazer compras e à noite para os passeios de costume. Contando da praia do Gonzaga em direção ao centro, existiam na avenida Ana Costa os seguintes cinemas: Atlântico I e II (Hoje lojas C&A, Mc Donald e Americanas, próximos ao bulevard da rua Othon Feliciano); Iporanga I e II (salas grandes) e Iporanga III (sala de arte), vizinhos do Clube Sírio-Libanês, todos demolidos para dar lugar ao atual shopping denominado Pátio Iporanga. Na sequência havia o Cine Roxy (talvez o maior de todos, até hoje em funcionamento e com rede nos shoppings do litoral); e por último o Cine Indaiá, conjugado ao hotel com o mesmo nome, próximo ao Colégio São José. Na rua paralela, atrás do Indaiá, tinha o pequeno Cine Alhambra, também só para exibição de películas de arte e voltado para um público seleto. Mesmo com essas diferenças de público e salas, não havia distinção de preços nos ingressos para filmes comerciais e de arte. 
Na década de 1980 Santos também teve a fase dos cine-clubes, porém de uma forma diferente. Como a cidade sempre teve e ainda conservava boa parte das suas salas de cinema, o Cine Clube de Santos funcionava alternadamente em diversos pontos, como espaço locado em horários ociosos ou de baixa frequência. A ideia era do conhecido cinéfilo Maurice Legeard, que exibia seus filmes preferidos sobretudo no Iporanga 3, Alhambra e mais tarde no Cine Indaiá. Marcando o fim de um ciclo de uma antiga e imensa paixão dos santistas pelo cinema, Maurice faleceu em 1997 quando sua obra cultural circulante e seu gigantesco acervo de milhares de filmes, equipamentos e impressos permaneciam guardados na sede da famosa Cinemateca de Santos, que funcionava incialmente num sobrado no Gonzaga e anos mais tarde incorporado como patrimônio gerido pela Secretaria de Cultura da Cidade. 

O MANVANTARA EM SANTOS

Outro destaque dessa década foi o Cine Posto 4, espaço criado para otimizar o uso dos antigos e abandonados postos de salvamento nas praias. O Posto 4 do Gonzaga tornou-se na segunda metade dos anos 80, juntamente com a Concha Acústica do Canal 3, importantes espaços de cultura alternativa na cidade. O nosso grupo musical (Manvantara) marcou presença na Concha por duas vezes nos finais de tarde dos verões santistas: um om show instrumental e outra acompanhando um cantor brega chamado Anderson Cray que havia nos procurado em São Vicente para darmos uma força nos arranjos. Por incrível que pareça, esse show virou um assunto cult nas faculdades e barzinhos porque o jazzista e complicadíssimo Manvantara deu uma demonstração de humildade e solidariedade ao se apresentar com um artista simples e (como nós) sem nenhuma chance de sucesso na mídia. Todas as “canções próprias” desse cantor tinha estrofes com a frase “Meu benzinho...”. Um amigo nosso e fã persistente do Manvantara comentou: “Nunca vi vocês tão sérios e compenetrados”! 

Foi nessa época do Manvanta que criamos em Santos o Projeto Gente Nova, reunião de grupos musicais para aprensentações nas fucauldades espaços públicos. Os participantes principais eram os grupos Manvantara (Bill, Mia, Dadau, Maurão, Zé Názara e Gilberto), Peito Rasgado (Olberes, Zéllus, Canduta e Julinho), Copos e Bocas e o compositor Marco Lança. Nosso principal ponto cultureal de referência era o Sindicato dos Metalúrgicos, que cedia o auditório, imprimia gratuitamente cartazes e folhetos. 
Ainda no Gonzaga, na avenida da praia, existia o Cinema 1 (mais tarde transformado em local de eventos e depois bufê) e no início da avenida Conselheiro Nébias o Cine Caiçara, que, já em decadência comercial, era utilizado para eventos alternativos. No Caiçara assistimos aos shows de Rita Lee e Tutti Fruti (Babilônia) e depois Hermeto Pascoal e Grupo. Na avenida Pedro Lessa (Macuco) havia mais um cinema e no centro da cidade tinham mais duas ou três salas antigas, como o já quase destruído Cine Teatro Guarani. Nesse período, entre 1978 e 1985, foi demolido o antigo Parque Balneário, que deu lugar ao primeiro shopping do Gonzaga e de Santos, mantendo o mesmo nome. No local também foram construídos um novo hotel e dois condomínios de apartamentos de luxo, empreendimentos que, apesar da criticada destruição do incalculável patrimônio histórico e arquitetônico do prédio antigo, deu um novo impulso ao centro comercial do Gonzaga, talvez livrando-o do perigo da decadência. 

Mesmo com a mudança de costumes e o crescimento da violência urbana, ainda hoje o Gonzaga é um bairro agitado, talvez porque tenha shoppings, bons estabelecimentos de consumo e sobretudo porque tornou-se um ponto de alta valorização e verticalização imobiliária. Porém, não tem o mesmo brilho das antigas décadas, exatamente por causa da liberdade e tranquilidade de circulação, bem como do interesse pelo cinema e diversidade de oferta de fantasias em “rolos”, numa época em não havia a possibilidade de ver filmes em casa. Restou um pouco do hábito do passeio, que ainda não foi substituído por nenhuma invenção tecnológica, por enquanto. 

No final dos anos 70 a educação brasileira estava entrando numa fase de grandes mudanças, para pior. Por ser um sistema estatal controlado por órgãos governamentais, as escolas públicas e particulares sofreram essa deterioração de estrutura e de valores. Os investimentos do Estado não acompanharam o crescimento da população e não houve outra alternativa senão massificar o ensino por meios quantitativos e o abandono dos processos qualitativos. O advento de novas tecnologias e hábitos individualistas de consumo também aceleraram essa transformação, que hoje chegou ao ápice com o advento da telefonia móvel e das redes sociais na internet. 

Coincidência ou não foi nesse período que a minha vida escolar entrou em parafuso, com uma sucessão de reprovações causadas pela minha distração crônica, pelas mudanças de cidade e de ambientes. Vivi esse momento histórico percebendo o declínio social ou proletarização dos professores, bem como a decadência das escolas públicas. A sala de aula era um muro de lamentações intermináveis sobre as questões salariais e as condições de trabalho nas escolas. Já ouvia essas conversas nas primeiras séries do antigo ginásio em Epitácio e depois foram se agravando quando fomos para São Vicente, nas cinco escolas públicas que frequentei: o Dino Bueno, em Santos, em 1974, vizinho de cerca do orfanato Anália Franco, na avenida Ana Costa; e as de São Vicente: a Sorocabana ou Vila Melo, em 1975, (atual Constant Houlmont, que era belga e meu professor de Francês); o Cidades Irmãs (atual Neves Prado), cujo prédio moderníssimo em concreto e tijolos à vista tinha sido inaugurado em 1976; o Augusto Saint-Hilaire, em 1977; e depois o Martim Afonso, em 1980, ano em que fui reprovado no 1º colegial, numa única disciplina: Matemática, por uma professora que não ia com a minha cara. O Martim Afonso foi durante muitos anos considerado um colégio público de elite, porém quando lá cheguei já estava em decadência, com a gradual substituição de professores antigos pela nova geração proletarizada de educadores e alunos, mesmo com os exames seletivos. 

Em 1981 fiquei sem estudar, perdido e também despreocupado com relação ao meu futuro. Já tinha 20 anos de idade. Em 1982, trabalhando na São Vicente Veículos, fui estudar no Colégio Ramos Lopes, em Santos, supletivo particular, concluindo o colegial no meio do ano seguinte. Ali fui motivado a estudar e continuar vendo a escola como meio de transformação. Uma curiosidade: no 3º colegial eu era o único homem numa classe de quase 20 mulheres. Os professores me chamavam de “Bendito é o Fruto”. No segundo semestre de 1983 fui fazer cursinho e sonhava ingressar na USP ou UNICAMP. Ficou só no sonho. Não tinha essa disciplina estudantil competitiva, nem conteúdo curricular. Nessa época queria ser jornalista e locutor de rádio. Percorria as rádios e redações de jornais de Santos divulgando o CVV e também buscando informações sobre comunicação. O Fernando Silva, amigo de infância e técnico de eletrônica que trabalhava na Rádio Metropolitana em São Paulo, conseguiu que eu fizesse um estágio no horário noturno, mas era inviável. Adiei o projeto, porém ali surgiu o fascínio por São Paulo. 

Travesia Santos Bertioga: jovens vicentinos nos anos 1980 voltando de uma excursão no litoral norte. O autor está de touca preta e branca. 

NA UNIVERSIDADE

Nesse cenário passei a sonhar com algo mais além do que aqueles estabelecimentos velhos, mofos e habitados por educadores que apenas aguardavam suas aposentadorias. As faculdades eram, como sempre foram, a promessa do futuro e de mudança de vida. E não eram as faculdades públicas e gratuitas, mas aquela descrita pela canção do Martinho da Vila: “Particular, ela é particular”. Mesmo assim o sonho funcionava como um motor de conquistas. 

Muito antes de sair do colégio já me sentia atraído pela vida acadêmica das faculdades. Gostava de frequentar os eventos universitários em Santos, onde sempre tinha novidades para o meu mundo ainda pequeno e restrito. Nos anos 70 havia o Circuito Universitário, com shows dos grandes nomes da MPB em espetáculos de produção simples e intimista. Foi assim que vi ao vivo, com a plateia sentada ao chão, apresentações de João Bosco, Edu Lobo, Gilberto Gil, Hermeto Pascoal, Rita Lee. Esses shows aconteciam principalmente nas Faculdades Católicas de Direito e de Arquitetura, ambas na avenida Conselheiro Nébias. Ainda vivíamos nessa época os impulsos da cultura hippie e o controle do regime militar. Nos intervalos das canções os artistas conversavam com o público e mandavam recados indiretos para dedos-duros, sempre presentes nessas ocasiões. 

Também frequentava as faculdades divulgando o trabalho do CVV, entre 1979 e 1983. Minha primeira apresentação em público aconteceu numa aula de sociologia, numa turma de Direito da Católica, onde falei sobre o suicídio. Alguns esperavam que abordasse as teorias clássicas como a de Durkheim, mas acabava explicando o funcionamento dos plantões de voluntários e contando as histórias de como surgiu a prevenção do suicídio na Inglaterra e no Brasil. A classe ficava completamente em silêncio diante da gravidade do assunto e do atrevimento de um adolescente falando sobre um tabu. Ali observava também os alunos, adultos de diferentes idades, o ar de autoconfiança de alguns, o sorriso tolerante e respeitoso dos mais velhos, bem como o olhar de admiração dos mais tímidos e a irritação de alguns que logo percebiam minhas limitações. 

Uma experiência inesquecível foi quando matriculei-me num curso livre dado pelos alunos quase concluintes da Faculdade de Filosofia, na Pompéia santista. Eram supervisionados por alguns professores, que faziam intervenções durante os debates e questionamentos da classe. Nessas 22 aulas nas quais conhecemos os grandes pensadores ocidentais é que provavelmente tomei a decisão do que iria fazer da minha vida nos próximos 30 anos. 

Somente algum tempo depois, já na década de 1980, faria o vestibular para o curso de História na Católica de Santos, que funcionava no prédio da rua Euclides da Cunha, na Pompéia, entre o José Menino e o Gonzaga. Esse prédio foi demolido para dar lugar a um grande condomínio. Nossa classe tinha uns 70 calouros, que logo nos primeiros meses foi se reduzindo pela metade. Todos achavam que o curso era uma viagem lúdica pelos tempos antigos e pelos museus, imagem fantasiosa que se desfazia durante as explicações metodológicas. Nossos professores no primeiro ano do curso eram: Wilma Therezinha Fernandes, Maria Suzel Gil Frutuoso, Professor Laudo, Maria Apparecida Franco, Bento Ricardo e Mariângela Duarte (depois vereadora, deputada estadual e federal). Curiosamente as aulas mais interessantes eram das disciplinas não específicas, dadas por professores de outras áreas e dotados de erudição autodidata. Nelas aconteciam os melhores debates e seminários nas quais os alunos demonstravam suas habilidades intelectuais e de comunicação. 

Num desses seminários fui alertado por um professor (Bento Ricardo Corchs de Pinho, advogado) sobre a minha vocação. Dizia ele que eu havia escolhido o curso errado e que deveria seguir a carreira de psicologia ou psiquiatria. O motivo da sua reação foi a apresentação que fiz sobre as personalidades psicopatas. Tinha visto uma palestra do psiquiatra Alankardec Gonzalez para os voluntários do CVV em São Paulo e achei que poderia reproduzir o mesmo conteúdo, adaptado para a classe. Foi um tremendo sucesso e ainda tem a mesma repercussão quando apresento o tema para os meus alunos universitários. 
Nossa turma era composta por alguns jovens, os quais guardo na memória pela proximidade de convivência: Marco Antonio, Marcos Braga, Roberto e Vanja (que se casaram após se formarem. A Vanja tornou-se diretora e supervisora de ensino); Lígia (casada com o professor Jabur, do Curso Objetivo); Francisco; Nero (sobrinho do prefeito Osvaldo Justo) e Euflauzina Chabunas, ambos já desencarnados; e adultos já formados e atuantes em outras áreas como o Pablo (advogado e depois promotor público), Juarez (ex-ator e funcionário na Distribuidora BR) e o Hugo, aposentado da Refinaria Presidente Bernardes, de Cubatão, onde exercia o cargo de relações públicas. Poliglota e muito viajado, o Hugo foi um dos que primeiros a revelar sua decepção com o curso de História. Ele só não desistiu por causa das amizades que fez entre nós e que muito preenchia sua solidão. O mesmo acontecia com o solteirão Juarez, que anos mais tarde voltaria para sua terra natal em Minas, que chamava carinhosamente de Cemitério de Elefantes. 

Era uma turma muito divertida, cheia de talentos e que certamente marcou época na faculdade e cujo convívio só desfrutei por dois anos. Fiz o curso às minhas próprias custas, pois não queria sobrecarregar meus pais, que custeavam meu vestuário, lazer e outras despesas do dia a dia. Para sobreviver nos primeiros meses da faculdade fazia bicos de pintura (de parede) e ajudava um colega que tinha um trenzinho turístico em Bertioga nos fins-de-semana. Cheguei a realizar cursos livres de oratória na própria UniSantos, incentivado pela professora Iza Fava, historiadora e então diretora da faculdade. 

EM CUBATÃO

Naquele mesmo ano, em 1984, comecei a trabalhar em Cubatão, município industrial da Baixada Santista. Fui trabalhar numa empreiteira que atuava na área da Liquid Química, uma pequena, mas muito rica fábrica multinacional de derivados de petróleo: ácido benzoico conservante, plastificante, aldeído de perfumaria, etc. Esse “trampo” era interessante e bem barra pesada, cortesia do amigo Waltrudes, engenheiro químico carioca, companheiro nosso de Aliança e CVV. Chegava em casa quase morto. A fábrica não era muito grande e funcionava em três turnos semanais de oito horas: das 8, das 16 e das 24. Entre esses turnos tínhamos folgas pequenas de 24 e uma grande de 72 horas. Minha função era de servente de operação, peão de área. Cada turno tinha apenas quatro funcionários: o operador-chefe, o auxiliar de operação (caldeireiro) e dois serventes. Essa equipe era responsável por toda a produção, realizada por quatro reatores (que são torres gigantescas, semelhantes a enormes panelas de pressão viradas de cabeça para baixo), três caldeiras, três grandes tanques de mistura, um sublimador (muito parecido com aquela máquina de fazer algodão doce), dois flakers, que são enormes cilindros de resfriamento para fazer flocos de ácido. Tínhamos que cuidar também dos filtros, estoques de produtos de manipulação (permanganato, barrilha, filtros de papel), os equipamentos como bombas de água, compressores de ar, trocadores e separadores de líquidos, piscina de resfriamento, tanques de matéria-prima (soda cáustica, tolueno, óleo diesel). Toda a produção de ácido era embalada em sacos de papel de 60 quilos (flocos), em tambores de papelão de 20 quilos (sublimados), e os líquidos em tambores grandes de latão para os plastificantes e galões de PVC para o aldeído. Dependendo do turno, a jornada podia ser intensa, mediana ou eventualmente de faxina. Podíamos gastar água à vontade, que vinha de uma piscina reciclável. Quando o ralo da piscina entupia com algas, alguém tinha que tirar a roupa e mergulhar... Serviço pesado e também perigoso. 


Certa vez nosso operador-chefe, sempre muito apressado e descuidado, se atrapalhou ao abrir uma válvula do reator, espalhando ácido líquido e quente por toda a área. Não tinha como estancar aquele esguicho e o ácido ficava sólido quando entrava contado com a temperatura ambiente. Resultado: tumulto e muita sujeira para limpar durante a madrugada inteira. Ele queimou o rosto e o peito; e eu, vendo aquela cena de desespero dele, ao invés de avisar o caldeireiro, corri para o banheiro para lavar os braços, atingido por respingos. Estava tão nervoso que desandei a rir. Alguns segundos depois, ainda abalado, ria mais ainda, pois achava que todos iriam pensar que tinha sido eu quem havia causado o acidente. Voltei para a área e vi o estrago e o grande risco que todos nós corríamos naquele lugar. Esse operador, semi-analfabeto, xucro, porém considerado o mais produtivo da fábrica, sempre aprontava algo grave e que colocava a vida dele e dos outros em risco. Numa outra vez ele esqueceu uma linha de combustível aberta e jogou milhares de litros de tolueno no esgoto, erro que foi descoberto pela Cetesb alguns dias depois ao coletar amostras no córrego que passava próximo da fábrica. Por decisão dos diretores da empresa, nos Estados Unidos, ele continuou trabalhando normalmente, mesmo dando aquele enorme prejuízo do combustível perdido e da multa pelo dano ambiental. 

Outro problema nesse trabalho em Cubatão era o turno das 24, conhecido como “Cinderela”. Esse nos tirava o cinema, das festas, enfim, do melhor que a gente estava fazendo. Nessa época, estudando na Católica de Santos, no primeiro ano da faculdade e perdia uma semana de aulas no mês. Correndo o risco de ser reprovado e sabendo que aquela carreira não tinha nada a ver comigo, decidi abandonar o emprego e mudar para São Paulo. 

Entretanto, três coisas fóram marcantes nesses dois anos de trabalho em Cubatão: o incêndio da Vila Socó, em 1984, tragédia que tirou a vida de dezenas de favelados que moravam sobre dutos de combustível da Refinaria Presidente Bernardes (da Petrobrás); o nosso encontro com uma névoa tóxica de amônia, proveniente de uma daquelas fábricas de fertilizantes. Naquela tarde ficamos parados na rodovia Piaçaguera e não conseguimos render o turno que sairia às 16 horas. Voltamos para casa para retornar somente no outro dia. O interessante é que houve uma grande movimentação da Defesa Civil para retirar a população dos bairros industriais com dezenas de ônibus que transportavam funcionários da Cosipa (Companhia Siderúrgica Paulista). Nada foi noticiado nos jornais. 

E finalmente o risco de desabamento da encosta da serra. Era uma época de terror: tinha acontecido também aquele acidente na Índia (Bohpal), numa fábrica da Union Carbide, que também tinha uma filial em Cubatão. A Cetesb estava começando a fiscalizar e multar com mais rigor as indústrias que cometiam abusos ambientais, num tempo em que não se dava nenhuma importância para ecologia. Crianças nasciam sem cérebro na Vila Parisi e operários da coqueria na Cosipa eram contaminados com gás benzeno, altamente cancerígeno. Tudo isso aumentava o nosso medo em trabalhar em Cubatão, apesar dos bons salários. 

PROJETO GENTE NOVA

A transição entre as décadas de 1970 e 80 foi para nós também deliciosos momentos de curtição no qual vivemos, sem exageros, intensamente a nossa juventude. Em 1978 o Mia tinha desistido dos bailes da vida, após uma temporada em Barra do Garças (MT) com ex-integrantes do Grupo Seda e voltou para São Vicente. Decidiu estudar música na Fundação das Artes de São Caetano e, partir disso, passou a nos liderar na vida artística e cultural. A criação de uma banda de MPB ao estilo da época foi rápida e naturalmente estimulada pela explosão de celebridades nacionais do gênero. Fundamos então o Grupo Manvantara, nome hindu que pouco combinava com a MPB, mas que refletia o estado espiritual da maioria dos participantes. Esse grupo foi criador do Projeto Gente Nova, reunindo bandas em apresentações no circuito universitário das faculdades de Santos. Nessa época criamos também a Mostra de Arte de Santos, realizada no Centro de Cultura e Teatro Municipal. O evento foi desenvolvido como promoção social do CVV-Centro de Valorização da Vida, recém-fundado na cidade e que reunia praticamente todas as modalidades e expressões artísticas da Baixada Santista. 

Nos anos 80 havia também as escapadas de lazer para litoral Norte, a região preferida para os acampamentos. Boissucanga, lugar paradisíaco do Município de São Sebastião, era a nossa praia, na época habitada somente por algumas famílias caiçaras. Ao contrário dos mochileiros paulistanos e do interior, íamos acampar nas férias de julho, quando as noites são frias e os dias são de muito sol e céu de brigadeiro. Ficávamos acampados exatamente onde um riacho desembocava na enseada e pelo qual percorríamos, em sentido contrário ao seu fluxo para o mar, em busca de uma cachoeira espetacular, escondida na mata serrana. Para chegar a Boissucanga e Barra do Saí tínhamos que pegar um ônibus em Santos, que atravessava as balsas do Guarujá e Bertioga, passando por Boracéia, São Lourenço (ainda não existia a Riviera), numa época que ainda não se estabelecera a especulação imobiliária, nem o asfalto da rodovia Rio-Santos. O litoral Norte ainda era selvagem, com uma paisagem natural deslumbrante e inesquecível. Quando não estávamos acampados no Litoral Norte ou frequentando os badaladíssimos Festivais de Verão do Guarujá (promovidos pelo governo Maluf), subíamos para São Paulo em busca de eventos diferenciados, geralmente os Festivais Internacionais de Jazz no Anhembi, as Feiras da Vila Madalena e shows de música instrumental das bandas e artistas de vanguarda do Lira Paulistana, no Bairro do Bexiga. 

Nessa época as grandes cidades eram forradas de lojas de discos, produto de alto consumo em todas as classes sociais. Em São Paulo a rede de lojas Museu do Disco, assim como as lojinhas de rock e estilos alternativos era de alta frequência. Só havia uma lanchonete Mcdonalds, na Avenida Paulista e o grande point pop do consumismo fast-food era a rede Grupo Sérgio, que começou como churrascaria, depois mudou para rodízio de pizza e finalmente pendeu para as variedades árabes, hoje dominadas pelo Habbibs. Ninguém imaginava que os discos de vinil, cujas embalagens de papelão eram verdadeiros álbuns fotográficos, literários e também espaços de criação do design gráfico, pudessem ser retirados do mercado com o advento do disc-laser e do CD. O mercado fonográfico era tão forte, como nas décadas anteriores, que tornou-se o principal responsável pela movimentação das emissoras de rádio, dos grandes eventos e a constante renovação de artistas e estilos musicais. Nessa época, por influência das gravadoras, explodiram para as massas os grandes compositores e intérpretes da MPB (Gonzaguinha, Gal Costa, Ivan Lins, Simone, Elis, Milton Nascimento, Baby Consuelo, Morais Moreira, Ney Matogrosso); os grupos de rock nacional (Ultraje a Rigor, Metrô, Ira, Paralamas do Sucesso, Titãs, Legião Urbana) e também os alternativos (Arrigo Barnabé e a Banda Clara Crocodilo, Itamar Assumpção e a Banda Isca de Polícia, Premeditando o Breque, Rumo, Língua de Trapo). 

TEMPORADA EM SÃO PAULO

No final de 1985 fui para São Paulo morar novamente com os meus pais. Minha mãe finalmente tinha conseguido realizar o sonho dela: morar e trabalhar em São Paulo. Fomos residir na região do Butantã, especificamente no Jardim Bonfiglioli, entre a Avenida Corifeu de Azevedo Marques e a rodovia Raposo Tavares, altura do quilômetro 13, a mesma rodovia que termina em Presidente Epitácio, no quilômetro 640. Nesse período moramos em dois condomínios de apartamentos e depois num sobrado, na rua Embaixador Cavalcante de Lacerda, em frente ao reservatório de água da Vila Gomes. Era um lugar alto e frio, de onde tínhamos uma vista, longe, porém espetacular de Pinheiros, Butantã, Jardins e dos altos e torres da Avenida Paulista. Dali meus pais e dois irmãos voltaram para Epitácio e eu fui morar na Aclimação, na Rua Nicolau de Souza Queirós, num apartamento que dividia com o jovem amigo de São Vicente, o então engenheiro e hoje advogado Frederico Cordeiro Natal. Também voltaria para Epitácio em 1991 e somente retornei para São Paulo em 1999, morando com minha mãe na região Butantã (Jardim Rosa Maria), depois na Vila Buarque, próximo a Higienópolis, num apartamento que pertencia a amiga Tata (Baraúna). De lá minha mãe voltou para São Vicente e fui morar, casado com a Rosilene (com quem tive minha filha Verônica), na Freguesia do Ó, num apartamento na rua Jacaré Copahíba. Nessa mesma rua ficava a segunda escola estadual para a qual fui removido, a E.E. Almirante Tamandaré, trabalhando com professores muito queridos, ótimos profissionais e amigos. No Tamandaré mudei totalmente o conceito negativo (preconceito mesmo) que tinha das escolas públicas e pude entender como as coisas realmente funcionam nesse setor. Adorava frequentar as capacitações na Diretoria de Ensino Norte 2, em Perdizes, sempre cheia de novidades e projetos culturais ne visitas aos lugares históricos de São Paulo. Nesse período passei num concurso para diretor de escola do Estado, mas não pude tomar posse por falta de experiência comprovada no cargo. Esta certamente foi uma decisão sábia do substituto do Dirigente Regional de Ensino, apesar da insistência de alguns supervisores que analisaram o meu caso nesse processo em aprovar a minha documentação. Um ano antes havia ingressado na E.E. Narbal Fontes, na Vila Maria, escola na qual também trabalhou, na secretaria, o Renato Duque, que acabou descobrindo que os filhos do Pereira e da tibiriçaense Vininha Cunha haviam estudado ali. 

Em São Paulo, no final de década de 1980, mesmo aposentada, minha mãe se sentia realizada ao sair de casa todos os dias para enfrentar a modernidade paulistana, que ela adora até hoje. Trabalhou como recepcionista no Shopping Iguatemy, na Faria Lima e depois como administradora de uma clínica para idosos na Avenida Rebouças e também como gerente de uma clínica odontológica, na avenida Brasil. Naquela época tinha emprego pra escolher. Um dos hóspedes da clínica de idosos, com quem ela se entendia muito bem, era o Sr. Amador Aguiar, fundador do Bradesco. Meu pai não curtia São Paulo, queria voltar para Epitácio. Adorava São Vicente, por causa do clima e descontração do povo do litoral, mas morar em São Paulo foi, para ele uma péssima ideia; ficava em casa cuidando de uma neta. 
Eu já era fascinado pela grandiosidade paulistana, que visitava com frequência desde o final da década de 1970. Durante a semana, trabalhando como voluntário do Centro Espírita Irmão Timóteo , sempre subia a Serra para comprar livros para abastecer a livraria do centro (a qual eu era responsável). Além das visitas frequentes à Editora Aliança, na rua Genebra, percorria os principais pontos de venda de livros e discos no eixo Maria Paula-Praça da Sé. Meus pontos preferidos eram a Livraria Freitas Bastos e as lojas do Museu do Disco. O Bill (meu irmão) tinha um amigo paulistano (Careca) que tinha nascido se criado na Mooca e certa vez subimos a serra com ele para conhecer os principais points noturnos daquela enorme região italiana da capital paulista e forrada de cantinas e pizzarias. O Careca era filho de um agente de Saúde e morava na rua João Ramalho, no centro de São Vicente, em frente ao Hospital São José. Não esqueci essa noite mágica e cheia de curiosidades exatamente porque durante o passeio o Careca, eufórico e cheio de saudades da sua infância, descrevia com brilho nos olhos os lugares do velho bairro e a inúmeras cenas da sua infância, incluindo as brincadeiras na sede social do Juventus. 
Um dia, ainda morando sozinho em Santos (rua Pereira Barreto, no Gonzaga), pois meus pais tinham mudado para São Paulo, fui visitar os irmãos (Mia e Bill) que trabalhavam numa loja de instrumentos musicais na Avenida Rebouças e lá fui aliciado pelo Fernando, filho do proprietário, Oswaldo Biancardi, para trabalhar na temporada de festas natalinas. A avó do Fernando era vice-reitora da PUC e conseguiu-me uma vaga noturna para o curso de História. Era dezembro de 1985 e logo estaríamos entrando no Plano Cruzado do governo José Sarney. Era o primeiro regime civil depois da longa ditadura militar de 20 anos. Foram dez meses de inquietação e ansiedade de prosperar. E ficou só nisso. Nesse período ainda fazia efeito a explosão de grupos musicais do início dos anos 80 e havia muita procura por instrumentos e equipamentos de som para as bandas. Nessa loja da Rebouças recebíamos artistas e candidatos de todos os estilos e graduações de fama e prestígio. Empresários estrangeiros (sobretudo japoneses), de olho no mercado nacional em crescimento, vinham sempre dar uma espiada na loja. Além dos músicos e artistas de São Paulo, vinha gente de todos os lugares do Brasil para conhecer as novidades, nacionais e importadas, e comprar principalmente acessórios, que se degastavam durante os shows. Tínhamos como vizinhos o escritório e casa de ensaio da famosa banda paulistana Placa Luminosa (ex-conjunto do cantor Jessé), pessoal muito talentoso e divertidíssimo: Ari, Riba, Luizão (fixos na banda), os cantores e tecladistas contratados, bem como o nosso amigo Sato, técnico de som do Placa e também do estúdio de jingles do Mia, Cacho e Rubão, na rua Caiubi. O Cutelo, office-boy do Placa, não se conformava em ver a gente tocando e demonstrando os instrumentos na loja e queria ser nosso empresário para uma futura banda, ideia que também empolgava o Fernando Biancardi. Nessa época o Cacho também trabalhava com o tio do Fernando, numa editora que publicava revistas com músicas cifradas. 

No estúdio da rua Caiubi (Coda) eu era o criador das melodias e letras e o Cacho e o Mia faziam os arranjos. Tudo fantasia e tentativa de entrar no mundo da publicidade, um mercado muito fechado e desconhecido por nós. Esse nome Coda (sinal musical) era também da escola que funcionava no mesmo endereço, em Perdizes. O Mia e o Cacho eram crias musicais do CLAM (escola do Zimbo Trio), de estilo Bossa Nova-Jazz, porém com esse nome que também era titulo de um disco do Led Zeppelin, a escola e o estúdio viviam cheios de alunos e grupos roqueiros. 

Em São Paulo as coisas eram bem diferentes. Sempre foram. Realmente uma cidade de muitas faces e oportunidades. Fui estudar História na PUC e lá entrei definitivamente na educação. Como estudante, dava aulas no Colégio e no Curso Objetivo. Também lecionava, como estagiário, num supletivo de funcionários da manutenção do prédio da Secretaria da Fazenda, na Avenida Rangel Pestana, como estagiário da FUNDAP. Saía de casa às cinco da manhã e só voltava as onze ou meia noite. Estava mais seduzido ainda pelo ritmo elétrico da cidade e por tudo que estava acontecendo naquela época. Certa vez, não sei por qual motivo, enfiei na cabeça que queria ser redator de propaganda. Tinha pensado em fazer jornalismo, mas esse desejo há muito não me atraia mais. Matriculei-me, então, numa oficina de texto publicitário na Escola Superior de Propaganda e Marketing-ESPM, cuja sede ainda era na Rua Rui Barbosa, no Bexiga, próximo do Teatro Franco Zampari (onde o Faustão gravava o programa Perdidos na Noite). As aulas eram ministradas pelo escritor Ricardo Ramos (filho do Graciliano e parecidíssimo com o pai). Foi o verão mais deslumbrante (literalmente) que passei em São Paulo ouvindo mil histórias e experiências da propaganda brasileira. Fiquei tão animado que comecei a pesquisar textos publicitários de todas as épocas, para aprender estilos, vocabulário, macetes, intenções, superlativos, adjetivos, slogans, títulos, enfim, tudo sobre essa arte que antigamente era exercida nas agências pelos melhores escritores e jornalistas: Orígenes Lessa, Mário Prata e dezenas de outros, como próprio Ricardo Ramos. Sabia que essa não seria a minha carreira, mas não deixava de sonhar com essa possibilidade. Não foi em vão, pois cultura e tecnologia a gente nunca perde e acaba sempre transformando em algo útil e diferente em situações e diferentes circunstâncias. O meio publicitário é sempre muito inquieto e cultuador das novidades e do tempo futuro. Nas agências geralmente se escondem muitos talentos reprimidos de quase todas as áreas do conhecimento e que ali extravasam suas potencialidades não reconhecidas. As aulas que ministro em disciplinas de humanidades nos diversos cursos universitários são recheadas por essa mentalidade dominante nas publicações desse setor, dos eventos e do cotidiano desse ambiente que mistura arte e negócios. 

Ainda hoje tem muita gente que pensa que os anos 1980 foi uma década perdida. Pelo contrário, foram os anos nos quais foi inventado o século XXI, a Era da Informação e do Conhecimento. Eric Hobsbawn (A Era dos Extremos) lembra que em 1910 havia no mundo cerca de 8 mil cientistas, a maioria químicos, físicos e engenheiros, concentrados principalmente na Alemanha de na Inglaterra. Em 1980 esse número havia saltado para 5 milhões e se espalhados para os países em desenvolvimento. As mudanças importantes foram muitas: o surgimento da informática, a redemocratização no Brasil, a queda do Muro de Berlim, o fim da Guerra Fria, as guerras na Iugoslávia e no Golfo, enfim, mil coisas ao mesmo tempo. Dava aulas de manhã e à noite e estudava no período da tarde, no campus das Perdizes. Época maravilhosa, na qual ocorreu a minha formação intelectual, proporcionada pela intensa vida cultural de São Paulo: o Centro Cultural do Paraíso, a USP, as livrarias e sebos no centro e em torno da PUC, feiras, cinemas alternativos, teatros, shows e grandes espetáculos ao ar livre no Ibirapuera. Ainda sinto uma tremenda saudade de São Paulo, da quase uma década que lá permaneci para estudar e trabalhar. Cidade realmente elétrica e inesquecível, sobretudo nos meses de outono e inverno, quando tudo fica com um ar diferente, aumentando a sensação de solidão, a necessidade de conquista e realização. É quando mais se consome, em todos os sentidos, principalmente os programas culturais. Volto a cada quinze dias para rever a cidade com algum entusiasmo, mas nada será como antes. 

NOVA INVASÃO DA PUC

Em 1986 agentes da Polícia Federal invadiram a PUC quando assistíamos ao filme "Je Vous salue, Marie", proibido pelo governo Sarney. A PUC tinha uma história de invasão e violência na época do Regime Militar. Nesse dia, para distrair e fugir da polícia, os alunos atiravam a fita de vídeo do prédio velho para o prédio novo. Lá tinha uma molecada que adorava provocar e apanhar da polícia. Todos os anos eles levavam "bombas" de chocolate de presente para o ex-coronel e na época deputado Erasmo Dias, na Assembleia Legislativa. Erasmo havia invadido o campus em 1977, quando era secretário de segurança do estado. Ele recebia cordialmente os alunos, mas sempre um deles, de propósito, falava um desaforo e ele, muito nervoso, perdia a paciência, começava a xingar e logo chamava a segurança.
 
Permaneci no Objetivo por seis anos, uma boa escola de docentes. Tinha aprendido a dar aulas ainda na adolescência num centro espírita, com grandes oradores como Jacques e Sueli Conchon, Valentim Lorenzetti, Flávio Focassio (fundadores do CVV em São Paulo) . Porém, o meu modelo de docência para grandes platéias, com quem praticamente dei os primeiros passos (e substituía eventualmente) foi o professor José Jobson Arruda, que era uma mistura de acadêmico e show-man, com aulas curiosíssimas sobre Grécia e Roma. Depois de assistir a uma aula dele sobre Maomé e a expansão muçulmana, nunca mais fui a mesma pessoa. Na cadeira de História tinha verdadeiros ícones do cursinho paulistano: Heródoto Barbeiro (depois jornalista e apresentador) e o grande Ciro Ramos, que “inexplicavelmente” era admirador do nazismo. 

Tudo Isso acontecia na unidade da Paulista, 900, no prédio da TV Gazeta e Fundação Cásper Líbero. Era registrado em três empresas: Di Gênio & Patti (Cursinho), Colégio Integrado Objetivo e Bricor (franquia). Trabalhei em vários bairros cujas unidades do Objetivo eram um autêntico reflexo social das classes, costumes e etnias da nossa pauliceia desvairada: na Paulista e Aclimação, os japoneses, coreanos, chineses e mestiços de italianos com orientais, de classe média; em Pinheiros, Altos da Lapa e Santo Amaro (região do Brooklin), muitos descendentes de italianos e judeus de classe média alta; no Morumbi e Alfaville, os ricos e novos ricos, filhos de grandes e famosos empresários, que não se adaptavam nos colégios tradicionais e mais rigorosos (Pueri Domus, Miguel de Cervantes, Porto Seguro, Augusto Laranja, etc.). Interessante lembrar que nas unidades onde frequentava a classe alta os professores eram muito bem tratados pelos alunos. Já nas unidades de classe média tínhamos muitos problemas de disciplina, que obviamente aliviávamos aparentando certa informalidade e irreverência ao expor as aulas, sobretudo os assuntos polêmicos. Os próprios professores da nossa turma e época eram uma complexa e rica diversidade étnica e racial. Ao sentarmos numa mesa para tomar chope e bater papo nas calçadas daqueles barzinhos de Cerqueira César, dava para ter uma ideia das nossas diferenças e semelhanças culturais: Gabriel Bandouk (palestino); James Kobayashi, Issao e Yumiko (japoneses); Wu (chinês); Moré (judeu, irmão do jornalista Gilberto Dimenstein); eu (mulato, neto de negros, nordestinos e húngaros); as irmãs Marisol e Nuricel, e Luizinho “Torquemada”- especialista em Inquisição - (espanhóis); Nogueira e Gomes (portugueses); as também irmãs Eva e Benê Turim, Sidnei Malena (italianos); Eduardo Silva - Dudu – biólogo e ator afro que fazia o Bongô do RA-TIM-BUM – e finalmente o Altino, talvez descendente de alguma família quatrocentona, pois morava numa bela casa em Moema. O Cidão Malena dizia que ele certamente iria ficar famoso porque um dia existiu o Al Johnson, existia o Al Jarreau e ele seria o Al Tino. Nossos coordenadores eram professores mais antigos ou alguns jovens mais populares que, pela situação de destaque e falta de espaço para crescimento docente, eram deslocados para dirigir as unidades nos bairros. Alguns eram legais, ou mais menos e outros insuportáveis puxa-sacos. Havia aqueles que valorizavam o grupo e faziam de tudo para manter a equipe; e tinha também aqueles que não faziam o mínimo esforço, pois havia uma rotatividade muito grande de professores, nas unidades mais problemáticas. Na unidade Vergueiro tinha o Renato, secão, mas gente boa, e o primo dele, o Ermínio, caipirão muito divertido de Ourinhos e fã do Roberto Carlos e, na época, do Fernando Collor de Melo. No Morumbi era o Otto, alemão, ex-jogador de basquete, muita gente boa também; em Pinheiros eram o Domingos e o Glauco. Essa era apenas a nossa turma mais próxima, pois havia, na unidade da Paulista uma verdadeira legião de professores controlados por uma enorme sala de horário comandada pelo Professor Fazzoli e o Armandinho (japonesinho de Álvares Machado). Nessa época as estrelas e veteranos do cursinho eram Fernando Teixeira, Honda (de Tupã), Kvork, Clézio, Eduardo, Sales (de Piracicaba), Derville, Jobson, Nicola, Moacir, Honda, Vera e Hernani (ex-vocalista dos Sombras, de Presidente Prudente). Nós éramos apenas seus aprendizes. Alguns professores do Objetivo se tornaram políticos influentes, vereadores e deputados, como os irmãos biólogos Ricardo e Roberto Trípoli; e o geógrafo Paulo Kobayashi. Alguns alunos também entraram para a política como Aurélio Miguel e Robson Tuma (filho do Romeu Tuma). No mundo artístico, a lista de alunos é interminável. Só para citar alguns: Gretchen (nos anos 70), Luciana Vendramini, Mara Maravilha e Roger (Ultraje à Rigor, que também foi professor de inglês). Outra figura importante do Objetivo foi o Dr. Dráuzio Varela, que conheci quando estava fazendo sua pesquisa no presídio do Carandiru. Desses estudos surgiram as primeiras aulas e materiais didáticos sobre AIDS nas escolas e, anos depois, o famoso livro Estação Carandiru. Dráuzio Varella foi colega de faculdade do também médico João Carlos Di Gênio e criador do nome “Objetivo”. Apesar de toda essa badalação, o Objetivo era, na verdade uma passarela de uma grande maioria de alunos e professores anônimos, desconhecidos, que por ali passam como meros aprendizes. Histórias como a minha e desses colegas citados são inúmeras e se perdem nessa multidão de trabalhadores e usuários. 

Apesar da redemocratização e do ambiente liberal, no Objetivo ainda havia censura e temor político no final dos anos 1980. Lembro que fui encarregado de escrever, juntamente com a amiga e socióloga Eva Turim, a apostila de História do Brasil, especificamente o tema “Regime Militar”. Ao ver, depois de pronto, os conteúdos e as imagens escolhidas para ilustrar os textos, o nosso coordenador de área, Francisco Alves, simplesmente deu uma gargalhada irônica e disse: “Nem pensar. Não vamos ser presos, porém seremos todos demitidos”. Éramos considerados os melhores professores, com as aulas mais atraentes, porém havia uma certa desconfiança com os professores de História, pois a nossa cadeira sempre tinha uns focos de contestação e ligações com as esquerdas. Em 1987 houve uma enorme mobilização de alunos secundaristas na Avenida Paulista e os alunos do Objetivo ocuparam a escadaria do edifício Gazeta, formando também um grande bloqueio no trânsito, queimando apostilas e cadernos. Alguns alunos vestiam moradores de rua com as camisetas do colégio. O protesto foi destaque do Jornal Nacional e resultou em algumas demissões de professores que haviam sido denunciados como “cabeças” do movimento, entre eles o nosso pacato colega Fernando Issao. Este mais tarde tornou-se assessor do MEC no primeiro governo Lula. Já a Eva Turim, que era petista assumida e de carteirinha, ex-secretária de Dom Paulo Evaristo Arns e do Senador Eduardo Suplicy, nunca teve problemas políticos no Objetivo. Aliás, era ela quem arranjava para que o Grupo Tibiriçá paulistano (Dadau, Mia e Bill) se apresentasse nos jantares dos empresários e grã-finos do PT, para arrecadar fundos na campanha da futura prefeita Luiza Erundina. Entre os convidados sempre estavam, além do primeiro escalão petista (Plínio de Arruda Sampaio, Helio Bicudo, Jair Menegueli), o comentarista esportivo Juarez Soares, o publicitário Carlito Maia (que na chegada e antes de ir embora fazia questão de cumprimentar os músicos), o então casal Marta e Eduardo Suplicy; e o empresário Lawrence Pih, do Moinho Santista e alguns professores da USP. O Lula, que era de outra “tchurma”, nunca ia nesses jantares. 

Na PUC aprendi a dar aulas com grandes mestres do estilo acadêmico, para classes pequenas: Antonio Pedro “Tota”, Ilana Blaj, Rosely Coelho, Elias Thomé Saliba, Hilário Franco Jr, Modesto Florenzano, Otaviano De Fiore, Antonio Penhalves Rocha, Zilda Iokoy, Antonio Rago, Paulo Sandroni (que mandou que eu refizesse trabalhos péssimos sobre Mercantilismo e economia da República Velha), Noêmia Lazzareschi, Maria Auxiliadora Guzzo Dedeca, Miguel e Vera Chaia, Maria Antonieta Antonacci e Marina Maluf (esposa do escritor Fernando Morais). Em alguns semestres assistimos às aulas de professores convidados como Celso Laffer, Fernando Novais, Otávio Ianni, Marilena Chaui, Florestam Fernandes, Maurício Trattenberg, Paulo Sandroni (secretário da prefeita Luiza Erundina), Alcir Lenharo e até do Comandante Luiz Carlos Prestes, falando de tenentismo e do fim do regime militar. Embora muito marxista nos anos 60 e 70, o bacharelado de História (Faculdade de Ciências Sociais) nos anos 80 e 90 era extraordinário, uma vanguarda de temas e tendências da cultura humanista contemporânea e da historiografia das mentalidades. Paralelamente fazíamos a licenciatura na Faculdade de Educação, sendo duas áreas afins e muito politizadas. Na Faculdade de Educação predominava o pensamento freudiano e o libertário pedagógico. 

Na PUC também descobri que realmente gostava de dar aulas e sonhava um dia ser apenas pesquisador. Até que decidi virar empresário da educação privada. Resolvi montar uma escola. Vários colegas do Objetivo já tinham passado por essa experiência e depois do fracasso voltaram a dar aulas. Segui os passos do Moacir, também professor de História, que tinha aberto uma franquia do Objetivo em Tietê. Ele tinha sido meu professor no cursinho em Santos em 1983. Nos reencontramos em São Paulo, três anos depois, agora como companheiros de trabalho, sendo ele sempre muito prestativo e dando muitas dicas para os novatos. Soube mais tarde que o projeto dele também não vingou. Éramos bons professores, porém péssimos empreendedores. Lembrei um detalhe importante, que esquecemos de copiar da vida de sucesso do nosso antigo patrão: professor de talento e visionário, João Carlos Di Gênio tinha excelentes ideias, mas sempre usou como suporte e alavanca a parceria com pessoas que ele identificava como peças estratégicas no complexo jogo dos negócios. É por isso que no Objetivo a gente sempre encontrava pelos corredores da administração alguns descendentes de italianos e árabes exercendo cargos importantes, gente que não tinha muito a ver com educação e ensino, porém pessoas pragmáticas, excelentes homens de negócios que o Di Gênio logo transformava em gestores e sócios. 

DE VOLTA À SÃO VICENTE

Voltando para São Paulo, em 1999, enquanto aguardava a nomeação do concurso Estado, imediatamente ingressei num programa de pós-graduação. Queria dar aulas em cursos superiores mas esbarrava na titulação acadêmica. O aluguel da minha casa em Epitácio pagava a mensalidade e as demais despesas eram garantidas pela Dona Jacy. Dizia ele: “É a pensão do seu pai, que ele deixou para essa ocasiões”. Como sempre, investir em conhecimento sempre dá um retorno diferenciado, não diretamente financeiro e sim o desbloqueio mental, nos libertando dos antigos paradigmas. Queria conhecer outras áreas de pesquisa e tendências. Nesse mestrado tive aulas com professores da Escola de Comunicação e Artes da USP-ECA e Unicamp, contratados pelo programa da Unip. A ideia era estudar o universo das mídias e saber como elas se abasteciam com os conteúdos das artes plásticas e da literatura. Acertei na mosca. Grandes aulas, muitos debates, leituras fascinantes e professores de alto nível nas áreas de cinema, antropologia, jornalismo cultural, marketing e literatura de vanguarda como Ana Maria Balogh, que seria minha orientadora. Era um mundo que eu desconhecia e tive que me adaptar com muitas dificuldades, mesmo tendo certas habilidades intelectuais. Dois anos depois já estava dando aulas no ensino superior, na Baixada Santista. Essa pós-graduação também permitiu que fosse promovido duas vezes no Estado: uma pela evolução funcional titulada não acadêmica, em pontuação de aulas, mas alterando minha categoria e nível funcional. Recebi em dinheiro, como diferença salarial enquanto corria o pedido de evolução praticamente tudo que investi no curso; a outra foi uma prova de mérito, que exigiu leituras mais apuradas sobre os conteúdos novos da minha disciplina. As dificuldades superadas no mestrado tornavam essas novas leituras relativamente fáceis. 

Nesse mesmo período do mestrado voltei a frequentar os programas da Aliança Espírita Evangélica, no CEAE, na rua Genebra, e restabeleci contato com antigos companheiros do CVV, na rua Abolição e também na Comunidade Terapêutica Francisca Júlia, em São José dos Campos. Eram antigos compromissos que precisavam ser realizados. Entretanto, o ponto de referência para esse reencontro estava no litoral. Trabalhava em São Paulo com a cabeça em Santos e São Vicente, pensando em todas as coisas que ali aprendi e realizei na companhia de grandes amigos e companheiros de ideal. Pedi remoção para várias cidades na Baixada Santista e consegui ir para uma pequena escola chamada Lions Clube Centro, em Praia Grande. Na verdade houve um engano, da minha parte. A Escola Lions Clube para qual havia feito a indicação de remoção (e que tinha visto em um dos fins de semana que passei num apartamento da Vila Tupi) era outra escola, da prefeitura. Já a Escola Lions Clube Centro, para qual fui removido em 2002, era do Estado, localizada na periferia, bem longe da praia e de casa. Morava nessa época em Santos, próximo do Canal 1 e do Orquidário. A decepção da escolha e do resultado do concurso de remoção logo foi compensada por um convite para atuar como vice-diretor numa pequena escola no remoto e bucólico bairro do Solemar, quase divisa com Mongaguá. Era a E.E. Júlio Secco de Carvalho. Ali descobri que o patrono, de origem portuguesa, foi um dos pioneiros na luta pela emancipação de Praia Grande nas décadas de 1950 e 60. Fiquei por três anos desfrutando do convívio de pessoas com histórias de vida muito interessantes. Recebíamos muitas pessoas que vinham morar nas suas casas de praia, geralmente motivadas por graves problemas pessoais: doenças, mortes de familiares e graves problemas financeiros. Outros eram mais simples, não menos interessantes, que vinham do nordeste, trabalhar na temporada como ambulantes e nos serviços domésticos para os turistas. Professores e funcionários também se vincularam à escola pelos mesmos motivos. 

Do Júlio Secco fui removido em 2006 para para a E.E. Margarida Pinho Rodrigues, na Vila Margarida, escoloa fundada em 1965, ao lado do E.C. Beija Flor. Nessa época também lecionava na Faculdade São Vicente (Integração, depois UINBR), onde fiquei por 13 anos. No Margarida Pinho, escola onde conheci muitos educadores e amigos e também onde pude realizar as primeiras experiências com educação emocional e prevenção do suicídio, aguardo a minha tão sonhada aposentadoria. 

Voltando às questões espirituais, além das sessões espíritas domésticas na casa do meu avô Carlos dos Santos – e também na minha casa-, frequentávamos as atividades do Centro Espírita Fé, Amor e Caridade, presidido pelo Mestre João (João Batista dos Santos), cujo título de mestre nunca teve nada a ver com as práticas espíritas em sim com a sua profissão de torneiro mecânico. Achava muito interessante essa rotina de ir ao centro, assistir às sessões noturnas, tudo muito discreto, tudo muito simples, porém cheio de promessas que despertavam no meu íntimo algo muito especial para a minha alma. Frequentávamos também algumas casas de amigos que cultivavam práticas espíritas. As preces da Dona Maria Barbeiro (Mãe da Dona Dorinda e sogra do Dr. Alberto Assad) me causavam forte impressão, pelo acentuado sotaque português e pela sincera expressão dos seus sentimentos. Nunca esqueci o contato com o nosso primo Olívio Xavier Duque, pessoa muito alegre que conheci quando criança de duas formas: visitando minha casa e conversando com meus pais; e já do outro lado, saudando-nos (Madinha Manoela, Vó Maria, Dona Jacy e eu) pela mediunidade simples do Sr. Chiquinho (Jararaca). 

Certa ocasião, numa dessas sessões caseiras, minha mãe recebeu um “conselho” de um Espírito dizendo que não deveríamos mudar para Santos, pois tudo indicava que as coisas “não dariam certo” e que, brevemente, estaríamos de volta a Epitácio. Numa reação bem previsível e diria, bem kardecista, minha mãe decidiu não seguir esse conselho, mesmo porque sabia que espíritos sérios e superiores não dão conselhos de forma diretiva, nem interferem dogmaticamente na vida pessoal dos encarnados e das instituições. O que poderia ter acontecido? O médium ou intermediário, que havia passado por uma experiência semelhante e que realmente não havia dado o resultado que esperava, nesse caso, deixou-se influenciar por esse fracasso. Ao transpor a mensagem, interferiu sobre as ideias do suposto Espírito comunicante, num processo típico de ruído de comunicação ou então, como se diz entre os espíritas, “animismo”. Mudamos e deu tudo certo, como era previsto por todos nós, dentro das limitações esperadas. 

Em São Vicente fazíamos as nossas sessões domésticas, leitura do Evangelho e, quando necessário, um intercâmbio com o Plano Espiritual. Logo fomos descobertos por uma vizinha, Dona Cleide, que havia se mudado de São Paulo para o litoral, onde também fazia suas buscas por alguma casa ou alguma novidade no movimento espírita. Como nós, ela procurava algo diferente daquelas antigas e tradicionais sessões de penumbra e desobsessão. Nessa época eu estava ingressando na adolescência, porém não perdi o antigo interesse. Minha mãe conta que há muitos anos (na década de 1960), havia lido um artigo numa revista espírita falando sobre a Escola de Aprendizes do Evangelho, existente na Federação Espírita do Estado de São Paulo-FEESP, sob a direção do Comandante Edgard Armond (coronel aposentado da antiga Força Pública). A imagem do Comandante na reportagem, em pé com as mãos para trás da cintura, ficou gravada na mente dela como um sinal de algo que ela já conhecia e do qual precisava se aproximar. O encontro com Escola se daria por meio dessa vizinha, que conduziu minha mãe para cursar uma turma no Centro Espírita Irmão Timóteo, na rua Armando Sales de Oliveira, 53, na Vila Melo. A turma tinha dirigente e expositores vindos de São Paulo, então ligados a um novo movimento cultural: a Aliança Espírita Evangélica, fundada em 1973 por ex-membros da FEESP sob o patrocínio do próprio Armond. Esse grupo que se formou na Baixada Santista fundaria nos próximos anos, entre 1975 e 1985, cinco novas casas espíritas e também o comitê que deu origem aos postos do CVV na região do litoral sul. 

O programa e as reuniões da Aliança em São Paulo eram uma grande novidade para todos nós, algo muito diferente e dinâmico e que tinha como princípio capacitar pessoas para andar com as próprias pernas, atuando de forma independente e multiplicadora. O sistema educativo era revolucionário, não apenas conteudista, intelectual e quantitativo, mas um método iniciático gradual, qualitativo, prático e formador de ativistas. Era o que minha mãe procurava há anos e eu acompanhava de perto, mesmo estando na turma da Mocidade, frequentando informalmente todos os cursos para adultos: escola de aprendizes, oratória para expositores, psiquismo, cromoterapia, passes e radiações, formação de médiuns, tudo apostilado e com farto material audiovisual numa época em essas coisas eram novidades tecnológicas raras: slides, vídeo-tape, fono-postal, livros, apostilas impressas padronizadas, etc. Em pouco tempo tinha adquirido o domínio intelectual quase completo desse sistema; só não tinha o principal: a maturidade espiritual necessária para aprender e ensinar pelo exemplo e vivência. Isso levaria muito mais tempo. 

Essa foi basicamente a minha iniciação no Espiritismo, atividade da qual nunca me afastei totalmente, mesmo reduzindo minha participação direta em instituições espíritas. Minha afinidade com a comunicação escrita e oral sempre abriu oportunidades de colaboração e isso se intensificou no início da década de 2.000, quando decidi escrever e publicar na internet artigos, ensaios e livros sobre o assunto. Um ano antes, morando em Campo Grande (MS), desenvolvi uma adaptação das obras básicas de Kardec para um formato de bolso denominado “Evangelho do Dia”. O piloto dessa publicação, impressa na gráfica do Bonilha, foi testado numa promoção com um centro espírita local e a tiragem de mil exemplares foi rapidamente esgotada. Esse formato seria concluído em seis volumes. 

Em 2001 escrevi simultaneamente dois ensaios, que refletiam ao mesmo tempo a curiosidade pelos temas novos, bem como a crise pessoal e a busca interior decorrente. A Inteligência Espiritual e Você em busca de você mesmo foram vendidos durante uma década e até hoje recebo cartas e e-mails de pessoas questionando conceitos ou agradecendo a utilidade dos textos na compreensão de dificuldades íntimas. Nesse período, quando cursava o mestrado, tomei a decisão de iniciar a Nova História do Espiritismo, trabalho que serviu de base na minha dissertação e também, creio, para preencher uma lacuna deixada por Kardec ao perguntar num artigo da Revue Spirite: Quando ela aparecerá? No Brasil havia a tradução da obra de Sir Arthur Conan Doyle, escrita em 1926, porém a narrativa não ia (quase nada) além do aspecto fenomenal e da história dos médiuns de efeitos físicos. O livro do célebre escritor inglês tratava mais dos fatos do espiritualismo do que propriamente da filosofia do espiritismo. 

A Nova História do Espiritismo foi concluída quando voltei a morar no litoral, trabalhando como vice–diretor na Escola Estadual Júlio Secco de Carvalho, em Praia Grande. Em seguida, escrevi o ensaio “Espíritos nas Escolas”, texto voltado para os educadores, indicando que não há necessidade de fazer proselitismo doutrinário para divulgar o espiritismo em ambientes não espíritas. Nesse período, 2006, estava trabalhando como professor em São Vicente. A partir de 2007, ingressei no universo digital dos blogs e das redes sociais. Desde lá venho publicando minhas impressões sobre diversos assuntos, espíritas ou não. 

Meu interesse e vocação pelas coisas espirituais nasceu, portanto, das andanças seguindo os passos da minha mãe que, já tinha quatro filhos maiores, mas somente eu tinha interesse mais aguçado pelo assunto. Como todos os brasileiros, nossa família herdou o catolicismo por convenção social, porém ele nunca satisfez as nossas inquietações espirituais mais íntimas, nem a busca de respostas para as dúvidas mais profundas. Entretanto, o conhecimento das coisas espirituais do mais Além sempre foram mais fortes e influentes. 

Recentemente perguntei a minha mãe quem foi João Puba e logo sua fisionomia grave transformou-se num sorriso, fruto de uma grata recordação de infância. João Puba era o jardineiro da gerência do Serviço de Navegação da Bacia do Prata e que sempre demonstrou um grande afeto pela minha mãe. Pai de uma grande prole e originário do sertão de Minas Gerais, seu João Puba era cultuador da Festa de Folia de Reis em Tibiriçá e minha mãe e suas amigas eram encarregadas de arregimentar as crianças para abrilhantar a festa e não deixar morrer a tradição que ela tanto presava. Pessoa de aparência e hábitos simples, seu João Puba cumpria à risca as ordens dos superiores para manter a ordem e a beleza da Vila Tibiriçá como se fosse um grande jardim de todos que ali moravam. Conta-se que no dia do falecimento de Armênio Ribeiro, o velho jardineiro estava muito preocupado e logo cedo tratou de cuidar para que o enterro do chefe do Distrito fosse realizado conforme a vontade do morto, que lhe havia solicitado por diversas vezes para que não fosse esquecida sua última vontade ao partir de Tibiriçá. Aproveitando a fartura da época, Seu João Puba logo se apressou, pois não havia muito tempo para que a tarefa fosse realmente cumprida. Os amigos vendo-o quase em estado de aflição, com medo de não conseguir cumprir o que havia prometido, tentavam dissuadi-lo a fazer somente o que fosse possível, mas seu João não concordava. Queria fazer tal qual fora bastante recomendado. Graças a ele, o enterro, que seria realizado no antigo cemitério de Epitácio, teve um momento especial de beleza, gratidão e respeito pelo chefe que partia. O trecho entre a porta da Casa da Gerência até o Mata-Burro, próximo ao aeroporto, não era curto e também não era muito longe, porém, naquele dia triste e inesquecível, o chão, sem falhas no percurso, estava forrado de centenas pétalas de rosa e provavelmente milhares de pétalas de flores de primavera. 

Mas o sorriso de minha mãe não foi somente por ter tido essa lembrança da agonia do velho amigo jardineiro e do enterro do Seu Ribeiro. Ao ser questionada por mim, ela respondeu prontamente: 
“O Espírito do Seu João Puba foi a minha primeira vidência. Numa noite, logo após o jantar, enquanto o Padrinho Guilherme (Borges) lia na sala, intuitivamente me dirigi para a porta que dava para o quintal e deparei com um forte estrondo seguindo de um enorme e inexplicável clarão. Lá estava o Seu João Puba sob as árvores, com a mesma roupa simples, sorridente e segurando sua boa e velha enxada de trabalho. Era um sinal de que ele me acompanharia na minha tarefa espiritual até que pudesse aprender a lidar sozinha com a minha mediunidade”. 

Em nossa família, todos, de alguma forma, tiveram contato com essas informações sobre as coisas espirituais e recebeu essa influência com as respectivas repercussões íntimas para cada um. Nenhum de nós, portanto, poderá alegar ignorância e falta de oportunidades, caso algum dia nossas consciências façam esse tipo de cobrança. Fomos batizados mais por respeito espiritual aos padrinhos católicos, que faziam questão do ritual, do que por convicção religiosa. Minha filha não foi batizada e essa foi uma decisão tomada em conjunto por mim e pela mãe dela, com a certeza de que isso jamais teria algum tipo de implicação de menor ou maior gravidade no seu destino. 

São Vicente ainda me reservou uma experiência educacional que hoje realizo como alegria. Lecionar no CAMP Rio Branco, entidade para menores aprendizes fundada por educadoras, ex-alunas da faculdade. Até aí nada de anormal, porém foi nessa atividade que pude conhecer um lado da cidade que só ouvia falar e nem imaginava como era, de fato, a vida e o cotidiano dos moradores da Área Continental de São Vicente. Para chegar ao Rio Branco, já próximo à rodovia do Imigrantes, é preciso passar pela famosa e antiga Vila Margarida, atravessar a Ponte dos Barreiros sobre o mar Pequeno e passar pelo Quarentenário, Rio Negro e Samaritá. Faço esse trajeto diariamente com transporte coletivo popular, as famosas lotações e eventualmente em ônibus de linhas regulares. Muitos aprendizes vem de lugares ainda mais distantes como o Parque Continental, Vila Ema, Humaitá e outros novos bairros vão surgindo a cada ano que passa. A maioria desses habitantes são migrantes e descendentes de nordestinos, que se deslocam para trabalhar, estudar e usufruir de serviços e mercadorias no centro de São Vicente e também em Santos. A diferença de costumes, os contrastes sociais e o choque de culturas são visíveis, quando comparados com as áreas mais privilegiadas da área insular. Entretanto, possuem força e representatividade política na Câmara Municipal, nos órgão públicos e até uma sub-prefeitura. Quando fui para São Paulo em 1984 essa região era praticamente vazia e isolada da parte insular. Era área rural. Hoje possui mais de 100 mil habitantes. Mas foi dali que conseguimos, pela primeira vez no estado e no Brasil, organizar uma ação educativa de prevenção suicídio com 400 jovens, realizando palestras, cursos na região; eventos como a ocupação da Ponte Pênsil e colocação de placas de alerta com o número nacional 188 do CVV; e da Praça Tom Jobim, na Biquinha-Gonzaguinha no Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. 


ROTEIRO HISTÓRICO NA ANTIGA VILA DE SÃO VICENTE





"Uma caminhada (com paradas) de quase duas horas e você não percebe o tempo passar. São pontos que a gente conhece de vista e de fotos mas nem imagina as histórias sobres eles.  Nas imagens o historiador Marcos Braga explica em detalhes a importância de cada um deles".  Dalmo Duque.

Fotos: Verônica Esquive Duque

Parede histórica na rua Martim Afonso ocupada por um estacionamento. 

Entrad principal da Matriz na Praça João Pessoa. 

Parede histórica do período pré-colonial. 

Biquinha de Anchieta

Réplica da Vila de São Vicente, antiga Praça João Pessoa

Travessa Ana Pimentel.



Marcos Braga e Dalmo Duque na Casa das Bananadas.


Deise Domingues (Academia Vicentina de Letras), um novo morador vicentino, Braga e  e o historiador Dalmo Duque.


Réplica da Vila

Monumento do IV Centenário da Fundação de São Vicente. Praça 22 de Janeiro. 




Obras do Mercado Municipal construído após a demolição da Câmara e Cadeia (foto abaixo)



CONDEPHASV


CONSELHO DO PATRIMÕNIO HISTÓRICO DE SÃO VICENTE


Membros do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Cultural, Arquitetônico e Artístico. Reunião em abril de 2016 na Casa Caramurú, salão do Gabinete do Poder Executivo Municipal. Fotos Dalmo Duque. 










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