quarta-feira, 10 de julho de 2019

COTIDIANO E CURIOSIDADES


A “ÂNCORA ALMIRANTADO”.

DESCOBERTA  EXTRAORDINÁRIA NA BAIA DE SÃO VICENTE.

RENATO CARRERI





Em 1993, em uma manhã de sábado, deparei-me com uma âncora antiga e cheia de cracas na Praia dos Milionários. Perguntei então ao porteiro do meu prédio, que disse ter sido encontrada em frente, cerca de 100 metros mar à dentro, e, trazida à superfície presa à rede de um barco de pesca. Estava à venda, acreditem ou não, por 100 reais, para justamente pagar o estrago na rede. Na ocasião, com a intenção de preservá-la, falei com a síndica do meu prédio, para tentarmos colocá-la no jardim, o que não foi aceito. Consegui então espaço em um local de guarda de pranchas e barcos, um terreno próximo, mas quando o dono da Kombi, que eu pretendia alugar para o transporte, viu o seu tamanho recusou o serviço. Neste meio tempo coloquei-me a pesquisar e descobri ser aquele modelo uma âncora de tipo “Almirantado” ou “Ordinária” ou ainda “Ferro Almirantado”, usada em períodos diversos, mas basicamente no século XIX. Localizei até um modelo semelhante no Museu da Marinha em Lisboa, para onde levei as duas fotos que, por sorte, tirei na praia. Posso estar enganado, mas parece-me que foram as únicas feitas. Por mais ou menos um mês tentei encontrar um local para a peça, inclusive junto aos órgãos públicos da cidade. Logo depois, como não conseguisse efetuar a venda, o pescador acabou por devolvê-la ao mar, no mesmo local, onde deve estar até hoje. Há cerca de 10 anos tentei encontrá-la, mergulhando, e não consegui. Talvez esteja enterrada na areia, não sei. É uma parte da nossa história que merece ser trazida à tona.



O RECUO DA MARÉ




"Quando a natureza abre uma brecha no tempo e no espaço. Tempos atrás estava eu em busca de dados históricos sobre a Ilha de São Vicente no tempo da chegada da armada de Martin Afonso de Souza, quando por sorte me deparei com três fotografias ( Créditos a mídia social do facebook" Zona Nordeste - A maré recuou " ) sobre o fenômeno do recuo da maré em agosto de 2017.Fenômeno este ocasionado por condições climáticas ocorridas na costa brasileira, que ocasionou um outro fenômeno conhecido como " Recuo da Maré ". Embora ocorra com certa frequência, a intensidade deste alcançou níveis desconhecidos pela grande maioria dos viventes e até pelos livros e registros históricos. Na cidade de Santos, veio a tona em suas praias um casco de um veleiro desconhecido até então, que graças a pintura de um quadro de Benedito Calixto foi possível supor sua origem e até a data de seu encalhe. Por sua vez, no lado oeste da ilha de São Vicente, na altura do Tumiarú, o fenômeno também causou o recuo das águas em grande intensidade, expondo uma construção pelas mãos do homem, que provavelmente seja desconhecida pela grande maioria das pessoas ( Nenhuma pessoa na mídia social acima descrita ( com exceção de uma, questionou as pedras ). Nas fotos, é possível observar um caminho de pedras que com a mais absoluta certeza foi feita por mãos humanas, que saem do antigo Porto do Tumiarú e adentram afora em direção ao Porto das Naus. Estas pedras foram todas lapidadas de tal forma que na parte superior formava-se um apoio para um passadiço que servia o Porto do Tumiarú e o Porto das Naus. É uma construção espetacular, porque podemos dela inferir um passado que sustenta ou não a relevância do Porto das Naus. As fotos do Google Earth, são fotos históricas de 07/2020, aonde é possível também verificar o caminho, embora passem desapercebidas pela grande maioria das pessoas".
Virginio Rocha Miranda Neto






Clube dos Em Pé fundado em Itanhaém, inspirado na cofraria vicentina. Revista A Fita, 1916.


Em 01 de janeiro de 1913 foi fundado em São Vicente uma curiosa agremiação. O memorialista Costa e Siva Sobrinho relata em suas anotações que um grupo de rapazes se reunia à noite num imóvel na rua Martim Afonso e todos permanciam por horas seguidas em pé e resistindo ao cançaço. Nesse tempo promoviam calorosos debates sobre diversos assuntos. O jornal A Tribuna, através da sua sucursal vicentina reproduziu em sua edição a festa do 1º aniversário do clube e identificou todos o membros presentes.
Pesquisa: Waldiney Lapetina, nos arquivos da FAMS.


“CLUB DOS EM PÉ"

Este club celebrou na noite de ante-hontem, a passagem do eu primeiro anniversario, offereando aos seus associados, convidados e representantes da imprensa local e de Santos, no Rink Vicentino una lauta ceia.

Antes, porém, dessa refeição, foi constituida, por acclamação, a directoria que tem de gerir os destinos sociaes no anno vigente.

O sr. Heraldo Lapetina, presidente dessa sympathica aggremiacão recreativa, tendo aberto e sessão em que deveria ser eleita a directoria, convidou para assumir a presidencia dr. Pinto Paccs, que, accedendo ao convite e assumindo a direcção dos trabalhos, recebeu calorosa salva de palmas.
Por proposta do sr. Santos Amom, foi acclamada a seguinte diretoria:


Presidente, Heraldo Lapetina; Vice-presidente, Guilherme Figueiredo.
Secretários, Manoel Freiro de Carvalho, Benedicto Ribeiro.
Tesoureiro, Alvaro dos Santos Barbosa.
Conselho deliberativo: capitão Anthero de Moura, major Joaquim Neves Figueiredo Junior, cel. Francisco de Souza Junior, José Leite Forjaz, Carlos José da Rocha.


Acclamada a directoria, o sr. Guiherme Figueiredo, fazendo uso da palavra, agradeceu a sua reeleição, prometteu trabalhar, como até aqui, com todos os seus esforços em prol do "Club dos Em Pé" e incitou os seus companheiros a seguirem-no nesse mesmo esforço.


O dr. Pinto Paoca, numa bella allocução, discorreu sobre o "Club dos Em Pé", animando os associados a proseguiren sempre пеssa união demonstrativa da sociabilidade vicentina,


Os srs. Benedicto Ribeiro, Miguel Barcalla, Santos Amorim e outros fizeram uso da palavra, referindo-se a commemoração que fazia o "Club dos Em Pé".


A festa anniversaria dessa associacão, como era esperada, decorreu com muito enthusiasmo. À mesa, em forma de T, sentaram-se as 28 seguintes pessoas: Anthero de Moura, João Lapetina. Franklin Alves de Moura, José P. Martins, Luiz Pimenta, Genaro Fernando Otero. Benedicto Ribeiro, dr. Gustavo Pluto Pacca, Antonio C. Bibeiro, Alvaro dos Santos Barbosa, dr. Rocha Carvalho. Heraldo Lapetina, Ramiro Calheiro, Estácio de Moura, Antonio Santos Amorim, Antonio Bruno. Sebastião Bittencourt, Lydio de Almeida, Affonso Lopes Fernandes, José Carmo Neves. Julio Teixeira Junior, Antonio Emmerich. ck Junior, Angelo Richetti, Guilherme A. de Figueiredo. Armando Requejo, Miguel Barcalla, Francisco Rienze, Manoel Freire de Carvalho. Antonio da Rocha Carvalho, Idelfonso A. de Oliveira e J. de Santiago,


por esta succursal".


Ilustração: montagem na qual aparece Heraldo Lapetina e seu cunhado Juca Morgado.















REVOLUÇÃO CULTURAL NOS AN0S 70 e 80





ENDEREÇO EMBLEMÁTICO. Neste endereço da rua Jacob Emmerich, no Gonzaguinha, onde hoje está este grande edifício, aconteceu a maior revolução cultural da Baixada Santista na passagem dos anos 1970 para os anos 80. Aqui existiam duas casas onde jovens universítários de várias procedências fundaram duas comunidades alternativas. Uma de vocação política, na qual os participantes teriam intensa participação nos acontecimentos das cidades da região; nela morava a veredora, prefeita e deputada federal Telma de Souza. Na outra morava o casal Domingos Stamato e Maria Izabel Calil Stamato, fundadores do Centro de Convivência de São Vicente, base da criação de ideias e práticas culturais revolucionárias. Domingos era médico e Maria Isabel psicóloga.


CENTRO DE CONVIVÊNCIA


A REVOLUÇÃO COMUNITÁRIA VICENTINA




No final da década de 1970, São Vicente era bem diferente do que é hoje. Pouquíssimas famílias residiam na área continental, cujo acesso era só por trem ou pela via Anchieta, em Cubatão. A periferia da cidade se concentrava na região do Jockey Club, no córrego Catarina de Moraes e uma parte da Vila Margarida. A Cidade Náutica era um grande loteamento, com centenas de lotes vazios. A maioria dos bairros próximos do centro e da orla não tinham calçamento e somente alguns deles possuíam rede de esgoto. São Vicente ainda era uma cidade pequena, mas com grandes e graves problemas sociais. O acesso à Praia Grande ainda era pela Ponte Pênsil e seus bairros eram pouco povoados. No Gonzaguinha e no Itararé, os edifícios de apartamentos eram predominantemente para uso de turistas nas temporadas. Mas ainda existiam muitas casas de veraneio, algumas delas mansões pertencentes a ricas famílias paulistanas que aos poucos foram deixando de frequentar as praias vicentinas. Eram muitas, com construções imponentes, de muitos cômodos e espaços externos de grandes quintais e árvores enormes. Eram construções aristocráticas de uma época bucólica e que começavam a ter outras finalidades.

Para fugir da agitação urbana de Santos e da alta dos aluguéis, alguns grupos, geralmente universitários, alugavam essas antigas casas e mansões para instalarem comunidades alternativas, dividindo cômodos e despesas. Eram também conhecidas como “repúblicas”. Na rua Jacob Emmerich, entre os números 155 e 129, à apenas uma quadra do Gonzaguinha, haviam duas dessas casas. Uma delas, a maior, propriedade de um conhecido industrial de São Paulo, foi alugada pelo jovem casal Domingos Stamato e Maria Izabel Calil. Eles não eram casados e viviam juntos há alguns anos e tinham duas filhas. Ele era psiquiatra e ela psicóloga. Se conheceram durante uma palestra-debate quando se uniram para derrubar os argumentos conservadores de um juiz de direito sobre recuperação de menores infratores. Ali perceberam que tinham muitas coisas em comum, inclusive uma identificação de sentimentos e uma proposta de vida diferente e completamente fora dos padrões da época. Eram chamados de "hippies", uma tentiva de desqualificar sua ideia e práticas inovadoras, mas na verdade se consideram libertários. Precisam de uma vida regular para exercer suas profissões. Tinham que ter um endereço fixo, mas não precisava ser um endereço restrito e padrão. Queriam estar livres das obrigações das propriedades privadas e cultivar um tipo de vida nos moldes comunitários, que era o tom da nova sociedade alternativa americana e europeia.

Foi a partir dessa iniciativa do casal que surgiu a ideia de um Centro de Convivência, um espaço plural de moradia, trabalho, educação, lazer e cultivo das ideias libertárias e sobretudo das artes. E assim foi: um lugar amplo, agradável, de encontros de inteligências de vários segmentos e propostas de realização pessoal e coletiva. O Centro de Convivência da São Vicente, aproveitando o que ainda restava de bucolismo e tranquilidade da velha cidade praiana, passou a funcionar em 1978, ainda pequeno e com pouca frequência, mas logo tornou-se um dos núcleos culturais mais influentes da Baixada Santista. Ali se estabeleceu de maneira informal e criativa um espaço de experiências inéditas e que se tornaria referência nas áreas em que eram vivenciadas: a música, a literatura, as artes plásticas, o jornalismo, a psicologia e a psiquiatria humanistas, enfim, todas as expressões que possuíam um diferencial de visão de mundo e ao mesmo tempo uma perspectiva transformadora. Adultos, jovens e crianças vivendo um estilo de vida independente.

As experiências do Centro de Convivência não ficaram restritas ao espaço da mansão. Eram levadas para os locais socialmente mais problemáticos e considerados perigosos da cidade, em formato de intervenções e provocações que estimulavam mudanças na vida cotidiana das periferias. Isso provocou também a atração de outros profissionais - assistentes sociais, artistas, artesãos, educadores - para aprender e replicar essas inovações. No Centro de Convivência aconteceram os primeiros partos humanizados da região e também as primeiras experiências de tratamento em psicoterapia transpessoal. A discussão sobre o uso abusivo de medicações psiquiátricas e as crises dos manicômios eram abordadas ali com muita frequência. Foi numa dessas reuniões que foi sugerida a intervenção pública na Casa de Saúde Anchieta, em Santos, conhecida na época como “Casa dos Horrores”. Vizinha ao centro de Convivência, alguns anos antes, existia uma outra comunidade de jovens universitários, cuja vocação era mais de atuação política. Um dos moradores da casa era ninguém menos que a ativista Telma de Souza, que viria ser prefeita de Santos e cujo secretário de saúde, o médico David Capistrano, encabeçou o projeto de intervenção e ocupação humanitária da Casa Anchieta, na época abarrotada de pacientes vivendo em condições desumanas. David, mais tarde como prefeito de Santos, enfrentaria outro grande desafio da saúde pública regional, empreendendo uma intensa campanha sanitária contra disseminação do vírus HIV e que havia dado a Santos o triste título de “Capital da AIDS”. Venceu a luta e Santos tornou-se referência mundial nesse combate.

Em meio a tantas experiências e desafios, pois o preconceito e a resistência conservadora era intensa diante das propostas inovadoras, nunca é tarde para lembrar que os moradores e frequentadores do Centro de Conivência experimentavam e discutiam todos os assuntos e temas que suscitassem reflexões mais profundas e diferentes, como, por exemplo, as de natureza histórica e antropológica. Numa delas, a psicóloga Maria Izabel Calil Stamato, descente de árabes pelo lado paterno, relatou numa reunião que fizera uma descoberta interessante e que havia despertado nela uma incrível atração e, naquele contexto, um vínculo muito forte com a cidade de São Vicente. No seu mapa genealógico, por parte de mãe, constava que ela era descendente de Bartira, filha do Cacique Tibiriçá e esposa do semita João Ramalho. Na mesma ocasião surgiu a informação de que toda aquela área onde estavam as edificações da quadra das ruas Tibiriçá, Jacob Emmerich, Visconde do Rio Branco e Frei Gaspar, num passado longínquo, havia sido um cemitério indígena. Eram citações sem nenhuma intenção de privilégio, mas que acentuava um profundo respeito pela história calunga e pela cidade que os havia acolhido para realizar uma missão social que marcaria a vida de muitos vicentinos e santistas.


CENTRO ARTÍSTICO MARTIM AFONSO




Membros do Centro Artístico Martim Afonso comemoravam o sétimo aniversário do grupo. A entidade dedicada ao teatro foi fundada em 7 de setembro de 1938.
Revista Flama, Santos, 1945. Acervo da FAMS










PROTESTANTISMO, IMIGRAÇÃO E AÇÃO SOCIAL: A HISTÓRIA DO PRESBITERIANISMO VICENTINO


José Antônio Lucas Guimarães[1]



INTRODUÇÃO

A presente exposição é resultado de pesquisa realizada, em 2009, para comemoração dos 50 anos de organização da Igreja Presbiteriana de São Vicente (IPSV).[2] Quando em análise da Ata de organização, foi possível perceber um número significativo de membros oriundos do Nordeste do Brasil. No desenrolar da pesquisa, através de documentos e entrevistas e, principalmente depois de concluído o pretendido histórico, começamos a desenvolver uma suspeita. Nela afirmamos que o presbiterianismo vicentino, implantado na cidade em meados do século XX, serviu de mecanismo de inserção dos nordestinos, de referencial de integração e de afirmação de identidade àqueles que se viram esvaziados de sua condição anterior devido ao processo de migração, bem como forneceu o ambiente propício à sua mobilidade social. Restava apenas elaborar um estudo que fundamentasse o que insistia em figurar como tese. Tendo esse caminho a seguir, pretende-se o que almejava Max Weber (1994), ao afirmar sua intenção de empreender a compreensão do fato religioso:

...não é da essência da religião que nos ocuparemos, e sim das condições e efeitos de determinado tipo de ação comunitária cuja compreensão também aqui só pode ser alcançada a partir das vivências, representações e fins subjetivos dos indivíduos – a partir do sentido – , uma vez que o decurso externo é extremamente multiforme.

Toma-se como fontes históricas a Ata de organização da IPSV, bem como as entrevistas realizadas com seus membros, que abordaremos apenas como constatação. No que se pretende, essa documentação é suficiente para, a partir das condições sociais e históricas, encontrarmos a demonstração do ethos do presbiterianismo vicentino. E. P. Thompson (1981) observa que:

Um historiador [...] deveria ter plena consciência disto. O texto morto e inerte de sua evidência não é de modo algum “inaudível”; tem uma clamorosa vitalidade própria; vozes clamam do passado, afirmando seus significados próprios, aparentemente revelando seu próprio conhecimento de si mesmas como conhecimento.

Essa observação sugere que é necessário fazer com que o passado se torne conhecido e parte da construção da realidade, como que se comunicando com o presente. Em busca de alcançar essa tarefa, procuraremos esclarecer dois pontos. A história da IPSV tem pertinência para figurar como parte da formação historiográfica moderna da cidade de São Vicente? É possível estabelecer como fato histórico que a igreja serviu de mecanismo de inserção de imigrantes e que a migração nordestina contribuiu para a expansão do protestantismo presbiteriano?

A pesquisa, ao tomar esse rumo, mostra-se plenamente pertinente ao estudo da relação entre imigração e religião protestante e da própria construção da história moderna de São Vicente, senão também do Brasil.



1. O PRESBITERIANISMO VICENTINO E SEU PIONEIRISMO HISTÓRICO



O presbiterianismo tem suas origens históricas no trabalho do reformador protestante João Calvino, em Genebra. Contudo, popularizou-se como movimento com essa denominação pelo trabalho de John Knox (1514-1572), na Escócia. Inspirado num governo eclesiástico, formado por um Conselho, que João Calvino vivenciou em seu pastorado em Genebra, as comunidades presbiterianas são lideradas por um corpo de presbíteros, daí o nome “Presbiterianismo”. Os presbíteros são escolhidos democraticamente pelos membros da comunidade religiosa para a representar – sistema representativo de governo. O presbiterianismo tem como símbolos doutrinários a Confissão de Fé de Westminster e seus Catecismos (Breve e Maior), cuja origem remonta ao documento originário de acordo doutrinário ocorrido na Abadia de Westminster (1643-1646), na Inglaterra. Com as perseguições religiosas na Europa, grupos de presbiterianos emigraram para a Nova Inglaterra, o que seria hoje os Estados Unidos. É da Igreja Presbiteriana americana que vem para o Brasil, em 12 de agosto de 1859, o missionário americano, rev. Ashbel Green Simonton. Essa data é considerada como marco da implantação do presbiterianismo no Brasil.

O presbiterianismo vicentino é fruto indireto do trabalho missionário do evangelista leigo Willis Roberto Banks.[3] Ele foi o responsável pela presença do presbiterianismo no Vale do Ribeira e no Litoral Sul Paulista. Em 1924, mudaram-se para a cidade de Santos presbiterianos vindos do Litoral Sul, os quais se organizaram em uma pequena congregação. Em 1934, essa congregação foi organizada em igreja, hoje 1ª Igreja Presbiteriana de Santos.[4] A IPSV é resultado direto do trabalho missionário dessa igreja.

O início dos trabalhos religiosos de implantação do presbiterianismo em São Vicente ocorreu num local bem diferente de onde se encontra atualmente.[5] Foi próximo à praia, em frente à Ilha Porchat, na residência de D. Leonor Villares, propriamente, na av. Manoel da Nóbrega, número 20.[6] O boletim informativo de nº 01 da Igreja Presbiteriana de Santos, datado de setembro de 1949, já apresentava esse trabalho com atividade religiosa regular. No boletim informativo de número 104, datado de 17 de março de 1953, da referida igreja, já consta o trabalho em São Vicente como congregação. Esse primevo trabalho foi realizado sob o pastorado do rev. Boanerges Ribeiro, então pastor da Igreja Presbiteriana de Santos. Nessa ocasião, as atividades religiosas constavam de Escola Bíblica Dominical e culto aos domingos à tarde (16 horas), funcionando também um departamento da Sociedade Feminina de Santos.

“Projetando o futuro, concluiu-se que o local não era o mais apropriado para o funcionamento de uma futura igreja”, era conclusiva a análise, que consta em Ata, sobre a condição da igreja em termos de espaço físico e da capacidade de frequência às atividades religiosas públicas, bem como de aspectos geográficos. Assim, no dia 7 de junho de 1953, as atividades da congregação foram transferidas para o Bairro Catiapoã, instalando-se à rua Piquerobi, na residência do senhor Francisco Muniz. A essa altura, passaram a congregar as famílias dos senhores Francisco Muniz, Sátiro Xavier, Amantino Xavier, Benedito Bueno e João de Abreu. Houve uma fase de animação, mas o trabalho não se expandia devido à falta de espaço. Novamente, viam-se com o mesmo problema que a pouco mesmo de um ano os fizeram mudar de endereço. Em 1954, já sob o pastorado do rev. Pércio Gomes de Deus, designado desde julho de 1953, foi comprado terreno sob o número 426, da rua Piquerobi. Em 18 de setembro de 1955, foi inaugurado o modesto templo de madeira, que serviria às famílias presbiterianas vicentinas como espaço para adorarem a Deus em “espírito e em verdade, com ordem e decência, amor e temor”, como é relatado em Ata.

Os seguintes nomes estão ligados à história do presbiterianismo em São Vicente, em sua implantação: rev. Boanerges Ribeiro, primeiro pastor, e rev. Alfredo Stein, segundo pastor. Ainda, também, os leigos Sátiro Xavier, Amantino Xavier, João de Abreu e Carlos Heilliz, bem como Francisco Damião de Lima e Joaquim Camargo Júnior, presbíteros de Santos. Dentre as senhoras, destacou-se, com o trabalho com as crianças, a senhora Ruth Xavier.

No dia 22 de fevereiro de 1959, a IPSV foi organizada através da Comissão nomeada pelo Presbitério Paulistano (PLIS) do Sínodo Meridional da Igreja Presbiteriana do Brasil. A Comissão foi composta pelos presbíteros docentes: rev. Pércio Gomes de Deus (relator), rev. Boanerges Ribeiro e rev. Rubens Pires do Amaral Osório (eleito secretário); e pelos presbíteros regentes: Dr. Marcílio Ribeiro Josias Navarro e Luiz Pieire.[7] A reunião de organização teve início às nove horas e cinquenta minutos. A Comissão resolveu que o corpo de oficiais seria formado por quatro presbíteros e quatro diáconos, sendo eleitos os seguintes nomes:

- Presbíteros: Joaquim Camargo Júnior, Francisco Damião de Lima, José Rodrigues e Ezequias Pereira Alves, sendo os três primeiros presbíteros em disponibilidade.

- Diáconos: João de Abreu, Benedito Bueno, Adarcir Seidl e Benedito Guerra dos Passos.

A ordenação e instalação dos oficiais foram realizadas às quinze horas e dez minutos, em evento posterior à organização da Igreja, mas no mesmo dia 22 de fevereiro de 1959. A Igreja contava na organização com 60 membros comungantes e 64 não-comungantes (crianças).[8] Ela possuía uma Escola Dominical com 106 alunos matriculados, a Sociedade de mulheres (com dois departamentos e 31 sócias), a Sociedade de jovens (com quatro departamentos e 25 sócios) e a Sociedade de homens em funcionamento. Seu estatuto foi aprovado em reunião do Conselho em 21 de maio de 1959 e encaminhado à Assembleia Geral realizada em 02 de julho de 1959. Ele foi registrado em Diário Oficial do Estado de São Paulo em 21 de outubro de 1959 e em Ata de nº 13, em data de 09 de abril de 1960. Quando a Congregação foi elevada à condição de Igreja, provocou a produção de um empolgado editorial do jornal “A UMP em Marcha”, órgão oficial da Mocidade na época. “Podemos dizer com os olhos rasos d’aguas (sic) que o ‘Primeiro sonho de 1959 está realizado: São Vicente é igreja’”, dizia o editorial.

Sobre a compra do terreno, que se tornaria a futura sede da IPSV, foi apresentada proposta na reunião do Conselho, datada de 20 de agosto de 1959, que, decidido pela compra, encaminhou à Assembleia Geral, ocorrida em 13 de setembro de 1959, sob a presidência do rev. Rubens Pires do Amaral Ozório.[9] A pedra fundamental do novo templo foi lançada em culto festivo, em 31 de março de 1961, com a presença do rev. Pércio Gomes de Deus, convidado para este fim. A mudança ao novo templo, na atual avenida Capitão-mor Aguiar nº 612, ocorreu em 20 de agosto de 1961, seguindo a seguinte programação: Abertura da Escola Dominical e Culto de despedida (10h); Culto de Ação de Graças no novo templo (15h30), tendo como pregador o rev. José Borges; e Culto público (20h), tendo como pregador o rev. Natanael de Almeida. Na fachada do templo foi escrito: “Templo Presbiteriano”.

Com objetivo de angariar recursos financeiros para o término da construção do templo, foi organizada uma campanha para que cada membro comprasse sua cadeira. Os coralistas foram os primeiros a se engajarem, ressalta um membro da Igreja com muito entusiasmo. As tábuas da construção foram usadas como bancos improvisados até a compra dos bancos definitivos. “Não era pobreza, era a riqueza do Reino de Deus que da simplicidade tornava nossa Igreja um farol de amor e vida em Cristo na primeira cidade do Brasil”, expressa um membro relembrando a época. Diante de uma decisão do Conselho, relacionada aos gastos financeiros, o secretário do Conselho, Joaquim Camargo Júnior, deixou aflorar seus sentimentos, fato raro nas Atas pesquisadas, quanto à situação econômica do momento: “O Conselho estudou a situação da Igreja, as dificuldades com ela, lutas, os poucos membros que são dizimistas, as dívidas com que começou este ano [1962], o que temos de fazer este ano com respeito as despesas da construção e o grande orçamento que temos pela frente. Enfim, somos pequenos demais para tão grande obra mesmo na parte material.” Mesmo assim, o Conselho aprovava as verbas necessárias ao funcionamento das atividades religiosas regulares e da construção do novo templo. Segundo relato dos membros mais antigos, esse foi o melhor período da Igreja, pois “havia muito interesse, união e firmeza de propósitos.”

“De um nada se fizeram grandes coisas”, lembrava com saudades o presbítero Francisco Damião de Lima. Após 18 anos dedicadas ao serviço religioso, foi necessária a construção de novas instalações para comportar a igreja que crescia e se comprometia com sua tarefa de evangelização e ação social na cidade. A programação de inauguração deu-se do dia 25 a 31 de dezembro de 1979. No dia 25, realizou-se o culto inaugural, juntamente com as festividades do Natal. No dia 29, pregou o rev. Boanerges Ribeiro, vice-presidente do Supremo Concílio da IPB. E, finalmente, no dia 30, o presbítero Paulo Breda Filho, MD, presidente do Supremo Concílio.[10] Consta da foto comemorativa da despedida das antigas instalações por ocasião da reinauguração do templo, quando houve os últimos acréscimos e demolição dessas antigas instalações, em 1995, as palavras de Jesus, registradas em Mateus 11.28: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu aliviarei.” Essa passagem bíblica era o lema da Igreja. Ela estava escrita na parte interna do templo, acima do púlpito. O templo reinaugurado é o que atualmente atende à comunidade presbiteriana vicentina.[11]

Organizada a Igreja, prosseguiu no pastorado o rev. Pérsio. Em agosto, do mesmo ano, o Presbitério o transferiu para outro campo, designando o rev. Rubens Pires do Amaral Ozório.[12] Ele pastoreou a IPSV até a chegada do rev. Atael Fernandes Costa, no início do ano de 1960. A este sucedeu o rev. Boanerges Ribeiro. Foi ele quem presidiu a primeira eleição pastoral da Igreja, em outubro de 1960. Nela foi eleito o rev. Jonas Rufino Silva para o período de 1961 a 1963. Ele permaneceu, após esse período por designação, até janeiro de 1965, quando o Supremo Concílio o designou Lente do Instituto Cristão de Castro e Diretor do seu internato, no Paraná. Até março do ano seguinte, a Igreja ficou sob o pastoreio do rev. João Silva, auxiliado pelo rev. Humberto Xavier Lenz César. Foi o rev. João Silva que presidiu a Assembleia Geral que, em novembro, elegeu o rev. Elcias Alves de Mello, para o qual passou o pastorado da Igreja, no início de março de 1963.

O rev. Elcias pastoreou a IPSV por 33 anos e permaneceu em seu pastoreio até sua morte, em setembro de 1999. Em 1968, ele reestruturou o, então, Serviço Social Evangélico e o organizou como ente jurídico, tornando-o extremamente relevante em São Vicente. Durante décadas, manteve o “Lar da Criança Feliz”, chegando a atender quase mil crianças e suas famílias semanalmente. O rev. Elcias se tornou fundador e presidiu a AMENCAR (Associação de Amparo ao Menor Carente), com sede em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Foi vereador por duas legislaturas (1989 a 1996), sendo seu trabalho em prol dos desfavorecidos reconhecido pela cidade com a outorga do título de “Cidadão Vicentino” pela Câmara Municipal, em 1984. Também recebeu dessa casa a distinção honorífica com o título de “Amigo das Crianças”. Consta no requerimento do vereador Anguair Gomes dos Santos, datado de 13 de maio de 1993, depois de apresentar o histórico do Rev. Elcias em mais de três páginas, o seguinte enunciado:

Requeiro, ouvido o Plenário, sejam apresentadas as congratulações desta casa ao Reverendo Elcias Alves de Mello, pelo imprescindível e brilhante trabalho desenvolvido em defesa de melhores condições de vida para a população vicentina, especialmente em relação às crianças, ressaltando-se a relevância do seu desempenho nas grandes decisões que norteiam o exercício das atribuições desta Câmara municipal.[13]

Talvez a identificação maior da pessoa do rev. Elcias, que tenha se cristalizado no conceito de seu caráter, foi a frase inserida nos primórdios do estatuto do Lar da Criança Feliz: “um incomensurável amor pelas crianças desvalidas de nossa cidade.” É possível que tenha se tornado seu lema. Todavia, essa declaração estatutária reforça a crença de que esse empreendimento era próprio da ação do presbiterianismo vicentino, que na sua organização possuía mais crianças como membros do que adultos.

Com o falecimento do rev. Elcias Alves de Mello, a Igreja foi pastoreada por três meses pelo Rev. Milton Ribeiro até a eleição do rev. Sérgio Ribeiro Santos, filho dessa Igreja. O pastorado do Rev. Sérgio foi exercido do ano 2000 a 2003. Ao final desse período, pediu transferência para assumir o pastoreio de uma igreja em Cuiabá, Mato Grosso do Sul. O rev. Fábio Ferraz Ciribelli foi eleito em agosto de 2003 e empossado em janeiro de 2004, como pastor efetivo. Após reeleições, o rev. Vulmar Dutra de Rezende foi, no início de 2014, designado em seu lugar, sendo atualmente o pastor efetivo por eleição. Fato notável é que, desde sua organização, a IPSV teve apenas cinco pastores eleitos.[14]

A IPSV tem assumido a vanguarda na região. Duas igrejas da região são filhas de seus esforços: Igreja Presbiteriana de Vicente de Carvalho (Guarujá) e a Igreja Presbiteriana Filadélfia (São Vicente). Em sua galeria, temos a presença de oito pastores, que foram encaminhados ao seminário por ela, dentre eles o atual ministro da Educação de nosso país, o rev. Milton Ribeiro. Um dos seus pastores atuou diretamente na vida política da cidade como vereador, em dois mandatos: o rev. Elcias de Mello. Também a IPSV marcou por mais de 30 anos o jeito de realizar ação social na cidade de São Vicente. Durante décadas, o “Lar da Criança Feliz” foi referencial na região, em termos de organização e assistência às crianças carentes. Através de convênios com entidades internacionais, garantiu treinamento profissionalizante de jovens, educação às crianças e adolescentes, bem como assistência alimentar.



2. IMIGRAÇÃO E AÇÃO SOCIAL: O PRESBITERIANISMO VICENTINO COMO PARADIGMA DE INSERÇÃO SOCIAL



A Ata de organização da Igreja Presbiteriana de São Vicente, datada de 22 de fevereiro de 1959, revela que em sua organização, dos 60 membros comungantes arrolados, 24 membros (40%) eram oriundos de Estados do Nordeste, principalmente da Bahia. A partir dessa constatação, percebe-se que o presbiterianismo serviu como referencial de integração e oportunizou uma identidade àquele que se viu esvaziado dessa condição, bem como criou o ambiente propício à ascensão social deles.

Em meados do século passado, a migração nordestina com destino a São Paulo superou os valores de imigrantes até então registrado, sendo considerado a maior migração da História do Brasil (VILLA, 2000). Esse período ocorreu no segundo governo do presidente Getúlio Vargas. Entre os anos de 1951 e 1953, o fluxo de imigrantes para São Paulo foi muito intenso. Monia Ferrari (2005) enfatiza:

Assim, na primeira metade da década de 1950, quando a migração foi muito intensa, os estereótipos negativos em relação aos migrantes nordestinos já estavam consolidados, resultando em preconceito, discriminação e generalizações, que podem ser percebidas na rotulação de todos os migrantes vindos da região Nordeste como baianos.

Essa rotulação “baianos” surge porque entre as décadas de 60 e 70 do século XX a maioria dos imigrantes eram de origem baiana. Isso é possível perceber nos membros da IPSV em sua organização. Como citamos, 40% dos membros eram de imigrantes, a maioria de origem baiana.

Não se pode negar que o fator climático não esteja presente nas motivações do imigrante, principalmente ao perceber que no início da década de 50 do século XX foi de intensa seca no Nordeste. Contudo, temos que observar com Eunice Durhan (1973) que:

...a imigração não decorre, em geral, de uma situação anormal de fome ou miséria, desencadeada por calamidades naturais. Ao contrário, a emigração aparece como resposta a condições normais de existência. O trabalhador abandona a zona rural quando percebe que ‘não pode melhorar de vida’, isto é, que a sua miséria é uma condição permanente. Isto não quer dizer que calamidades naturais ou acidentes não sejam fatores que precipitem a emigração... Mas, fundamentalmente, a emigração decorre de uma situação desfavorável que é vista como permanente.

O destino do imigrante, dentro dessa perspectiva, são os lugares onde está ocorrendo a expansão industrial e o crescimento da região, oportunizando emprego e melhoria de vida. É justamente o que ocorre com o Estado de São Paulo. A Baixada Santista, a partir de 1940, tornou-se uma região de grande atração migratória. Comparando o Censo do ano de 1940 com 1950, percebe-se que a população de São Vicente quase dobrou: de 17.294 para 31.684 habitantes. Já em relação ao Censo de 1960, a população mais que dobrou. Nesse Censo, consta que São Vicente tinha 75.997 habitantes.[15] Um dado importante que mostra a influência da imigração nordestina, é o fato desses censos constarem a população masculina superior à feminina. Como a maioria dos imigrantes eram solteiros e sem família, observa-se nas entrevistas com os membros que muitas uniões conjugais ocorreram entre imigrante e natural vicentino.

O fluxo de imigrante para a região na década de 40 do século XX foi devido à construção da atual Via Anchieta na Serra do Mar. Quanto ao fluxo da década de 50, foi motivado pela construção da refinaria, que teve seu início em 1951. Convém considerar que, a partir da década de 50, o Porto de Santos passou por reestruturação, o que acarretou um aumento na necessidade de mão de obra (especializada e não especializada).

É dentro desse contexto que o presbiterianismo se insere em solo vicentino. Ele se organiza na periferia da cidade, onde a presença imigrante é muito forte. Como consta em registro, seu primeiro templo era de madeira, semelhante às construções próprias da periferia e numa área geográfica da cidade com total ausência de benfeitorias sanitárias. É nesse espaço que ocorre o “processo de mudanças da realidade subjetiva” ao extremo. Como diz Peter Berger (1974), “há uma transformação quase total, isto é, no qual o indivíduo ‘muda de mundos’.”[16] Isso como processo de “ressocialização” e não apenas como mudança de endereço (espaço geográfico). Entretanto, é necessário que seja encontrada uma “estrutura de plausibilidade” à pessoa, de forma a estabelecer uma estrutura afetiva significativa. Para Peter Berger, isso é possível a partir da “conversão religiosa.”[17] Ela possibilita que a pessoa localize uma nova identidade. Essa identidade encontra na comunidade seu reconhecimento e sua confirmação. Agora a condição de forasteiro é anulada e a força do preconceito perde sua capacidade de agressão a condição social da pessoa. Por mais que em outros espaços não ocorra a plausibilidade, agora na comunidade a interação social reconstrói as conexões perdidas no processo de imigração.[18] A comunidade não apenas validada uma nova identidade, mas estabelece uma função social. O indivíduo ocupa o espaço e faz dele seu lugar: universo de esperanças, sonhos, lutas e superações. Em entrevista com os antigos membros da IPSV, pode-se perceber que os sentimentos do imigrante em relação à igreja e à liderança assume uma profunda semelhança ao que se sente na dinâmica familiar (igreja como se fosse a mãe e o líder como um pai). Isso porque, segundo Peter Berger, a pessoa passou por processo semelhante à “socialização primária”, de identificação fortemente afetiva como é característico da infância.[19]

Estabelecida a identidade com a plausibilidade do grupo, a pessoa avança em sua socialização com a própria sociedade ao redor. Pelo que se pode perceber dos imigrantes na organização da IPSV, a ascensão social deles ocorreram mais nesse nível. A maioria padecia de analfabetismo, consequência da realidade nordestina da época, o que tornava a ascensão social prejudicada. Deve-se considerar que a partir da igreja sua condição social foi alterada. Em nível local, houve ascensão social. Muitos passam a assumir cargos na igreja e começam a se relacionar com pessoas de outras classes sociais. Ainda não se percebe a ascensão em nível financeiro. Todavia, essa ascensão social a partir da igreja, comportam possibilidades futuras. Vê-se que muitos estabelecem sua ascensão a partir dos filhos ou netos: constrói-se a possibilidade de que os filhos ou netos ascendesse socialmente. Como consequência da socialização da comunidade que proporcionou interações, houve a possibilidade de melhor educação aos filhos e netos ou a possibilidade da fuga de subempregos. Tudo como consequência das interações sociais adquiridas pela ressocialização proporcionada pelo grupo.

É apoiado nessas considerações, que definimos o presbiterianismo vicentino como um agente de transformação social e de afirmação da identidade do imigrante. Ela gerou o ambiente que acolheu, validou e socializou, bem como estabeleceu o mecanismo de contatos e serviços que possibilitou que esse imigrante fosse encaminhado à ascensão social. Como essa ação ocorreu de forma intencional e programática, ela assume uma condição de paradigma de ação social que haveria de, posteriormente, revela-se profundamente significativa no amparo de crianças, a partir da década de 70, com o Lar da Criança Feliz. Assim, historicamente, a presbiterianismo vicentino apresenta-se como uma força de ação social que, desde antes de sua organização, estabeleceu uma dinâmica de inserção do imigrante. Posteriormente, voltou sua ação aos grupos que padeciam de exclusão social, tornando a realidade vicentina palco de lutas em prol da dignidade humana, consciência cidadã e combate à pobreza.

Por outro lado, pode-se afirmar que o imigrante favoreceu a expansão do presbiterianismo vicentino com as características que lhes são próprias (caridade, afetividade, compromisso e trabalho) e desempenhou um papel significativo na própria identidade do presbiterianismo na cidade. Assim, o imigrante não atuou como expectador, mas ocupou um status de sujeito. Sua necessidade de assumir uma nova identidade fez com que o presbiterianismo vicentino se identificasse com as identidades sociais em estado de exclusão social.



CONSIDERAÇÕES FINAIS



No Censo de 2000, a cidade de São Vicente declarava-se como tendo mais de 20,43% de sua população formada por imigrantes nordestinos.[20] Resgatar a história da imigração através do presbiterianismo nordestino é estabelecer laços culturais e fundamentar a própria identidade vicentina. Como disse o pedagogo Rubem Alves (1982):

O historiador (...) é alguém que recupera memórias perdidas e as distribui, como se fossem um sacramento, por aqueles que perderam a memória. Na verdade, que melhor sacramento comunitário existe que as memórias de um passado comum, marcadas pela experiência da dor, do sacrifício e da esperança? Recolher para distribuir. Ele não é apenas um arqueólogo de memórias. É um plantador de visões e de esperanças.

As Atas da IPSV e as memórias de seus membros fundadores não podem serem esquecidas. Elas revelam a pertinência da ação do presbiterianismo vicentino como acontecimento marcante à história moderna da cidade de São Vicente. Sua relação com a imigração norteia os posteriores olhares sobre essa temática. Sua ação social deve figurar no rol dos empreendimentos em prol dos excluídos da cidade. E não apenas isso. Vê-se um pioneirismo do presbiterianismo vicentino que pode até contribuir para a compreensão da expansão do protestantismo brasileiro.

As vozes do passado não se calam. O problema é sempre da audição do presente. Que cada nordestino e cada pessoa atendida pela ação presbiteriana vicentina, através da inserção social e da assistência social, possam agradecer e se afirmarem como parte da construção da cidade de São Vicente nessa audição de sua história. A história da Igreja Presbiteriana de São Vicente é a história de migração e ação social em solo vicentino.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



ALVES, Rubem. Dogmatismo e tolerância. São Paulo: Paulinas, 1982.

BERGER, Peter. L.; LUCKMANN, Thomas. A construção da realidade. Petrópolis: Vozes, 1974.

DURHAN, Eunice Ribeiro. A caminho da cidade – A vida rural e a migração para São Paulo. São Paulo, Perspectiva, 1973.

FERRARI, Monia de Melo. A migração nordestina para São Paulo no segundo governo Vargas (1951-1954) – seca e desigualdades regionais. São Carlos: UFSCar, 2005.

IBGE. Censo de São Vicente – 1960. Disponível em: <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/68/cd_1960_v1_t13_sp.pdf>.

MELLO, Jorge. Reverendo Elcias: o amigo das crianças. São Paulo: All Print Editora, 2012.

SOARES, Caleb. Banks: ainda hoje. Santos: Instituto de Pedagogia Cristã, 1998.

THOMPSON, E.P. A miséria da teoria ou um planetário de erros. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.

VILLA, Marco Antonio. Vida e morte no sertão - História das secas no Nordeste nos séculos XIX e XX. São Paulo, Ática, 2000.

WEBER, Max. Economia e sociologia: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: UNB, 1994.




Foto da igreja na organização. 1959.







Comissão organizadora da igreja, 1959.







Primeiro templo na Av. Capitão-mor Aguiar, ainda sem o letreiro “Templo presbiteriano” na faixada, 1961.





Cartão postal de despedida para construção do atual templo, 1995,




[1] Pastor presbiteriano e professor da rede estadual de ensino de São Paulo. Licenciado em História e mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM/SP).


[2] Doravante, usamos a sigla IPSV.


[3] Para um relato sobre Willis Banks, SOARES, Caleb. Banks: ainda hoje. Santos: Instituto de Pedagogia Cristã, 1998.


[4] No presbiterianismo, quando um trabalho regular de um grupo de pessoas em determinada localidade é organizado em congregação de uma igreja, significa que existe uma expectativa positiva, considerando diversos fatores sociais, econômicos e religiosos, da possível organização de uma igreja. É de praxe do presbiterianismo que suas igrejas somente são organizadas quando se verifica condições econômicas, religiosas e políticas (existência de pessoas para formar o Conselho, isto é, assumir o cargo de presbítero). Como organização dada ao federalismo, é a instituição que mantém jurisdição sobre a igreja, o Presbitério (órgão que reúne várias igrejas da região), que decide, a partir de análise, pela sua organização e a institui como federada à Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). O presbiterianismo é organizado como instituição religiosa nacional (federação de igrejas locais). Ele não mantém jurisdição com igrejas presbiteriana de outros países, ou seja, não detém poder de intervenção política ou eclesiástica nelas e vice-versa.


[5] Hoje a Igreja Presbiteriana de São Vicente está localizada na Avenida Capitão-mor Aguiar nº 612, Bairro Centro.


[6] Era comum aos presbiterianos sediarem suas residências à promoção de atividades religiosas. A maioria dos casos, os proprietários eram os responsáveis por essas atividades, que constavam com atividades para crianças e envolvimento de vizinhos e de outro protestantes que se envolvia devido a proximidade ou afinidade (outros presbiterianos da região que buscavam apoiar a iniciativa).


[7] No presbiterianismo, todos os membros do Conselho são chamados de presbíteros. Os pastores são os presbíteros docentes (tem função de ensino) e os demais são chamados de presbíteros regentes (representam a igreja como corpo jurídico e espiritual).


[8] No presbiterianismo, membro comungante é a pessoa que foi batizada e fez sua profissão de fé, tendo em vista ter sua maioridade completa ou foi autorizada pelos pais, em caso de não maioridade, por oferecer condições de uma ação de pronta consciência nas decisões pessoais e do grupo (como pessoa com deveres e direitos). O membro não-comungante é a pessoa que foi batizada na infância, mas não fez sua profissão por não deter capacidade de exercer seus direitos e deveres, conforme prescritos no Estatuto da organização, e nem de responder por suas decisões pessoais.


[9] No presbiterianismo, a Assembleia Geral é soberana. Ela é convocada para eleição dos oficiais da igreja, decisão sobre compra e venda de bens da instituição, dentre outros motivos.


[10] No presbiterianismo, o Supremo Concílio é a organização máxima da instituição. Assim como ocorre com o sistema federalista e democrático brasileiro, ele é a reunião de todos os representantes dos Sínodos dos Estados do Brasil. A reunião ocorre de quatro em quatro anos e é responsável pelas decisões constitucionais da IPB. O governo presbiteriano começa com o Conselho da igreja local, que escolhe represente para participar anualmente da reunião ordinária do Presbitério que, por sua vez, escolhe seus representantes para participar de dois em dois anos da reunião ordinária do Sínodo e que, finalmente, escolhe seus representantes ao Supremo Concílio. Toda decisão presbiteriana é colegiada e representativa, requerendo sempre debate em plenário e votação secreta, quando assim exigir o Estatuto.


[11] Situada na Avenida Capitão-mor Aguiar nº 612, Bairro Centro.


[12] É comum, no imaginário presbiteriano, chamar de “campo” o espaço geográfico onde se inseri uma atividade religiosa.


[13] Apud MELLO, Jorge. Reverendo Elcias: o amigo das crianças. São Paulo: All Print Editora, 2012. p. 130.


[14] Alguns pastores que consta na lista de pastoreio foram apenas designados pelo Presbitério. Essa é mais uma característica do presbiterianismo. Condicionado à decisão do Conselho com designação do Presbitério, é possível que o pastor assuma a presidência do Conselho da igreja por designação e não por eleição. Todavia, isso é circunstancial. Como possuidor de governo representativo, sempre se buscará que a igreja escolha democraticamente, através de voto, seus líderes.


[15] Dados do IBGE. Disponível em: <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/68/cd_1960_v1_t13_sp.pdf>. Acesso em: 24 ago. de 2020.


[16] BERGER, 1974.


[17] BERGER, 1974.


[18] Não se deve menosprezar o processo de perda que ocorre na migração. Por mais intenso que fosse o sentimento da religião católica no nordestino, ele não é capaz de, por si mesmo, manter aquela identidade vivenciada. A adesão ao protestantismo, religião considerada como caminho da perdição, como era propagada pela catequese da época aos nordestinos, é prova de que realmente a “mudança de mundos” é consequência imediata e necessária numa migração dentro desse contexto, que é nosso objeto de pesquisa.


[19] BERGER, 1974.


[20] Dos 303.551 habitantes, 62.012 declararam serem imigrantes nordestinos.


O MUSEU HISTÓRICO NAVAL DE SÃO VICENTE

O Museu Histórico Naval de São Vicente foi fundado em São Vicente em 1979, pelo engenheiro civil Carlos Alfredo Hablitzel.







































Imóvel da família Hablitzel (à direita) na rua Messia Assu, no Boa Vista em 1975.  O bairro originalmente batizado de Vila Betânia ficou conhecido em São Vicente no início do século XX como Vila dos Estrangeiros, devido a presença de muitas famílias europeias que naquela época recebiam terrenos doados pela Câmara Municipal com a obrigação de construir edificações e urbanizar os antigos sítios do Itararé. Fotos: São Vicente de Outrora . Cortesia do editor Silvio Elizei. 



Nascido em Basiléia, Suíça, em 15 de janeiro de 1919, Hablitzel veio para o Brasil com sua família em 1920, embarcando em Gênova no navio italiano Re Vittorio. Após o curso primário na Escola Alemã do Rio de Janeiro, o curso ginasial em Basiléia (1931 a 1933) e o curso complementar no Ginásio Catarinense, em Florianópolis, formou-se na Escola de Engenharia Mackenzie, em São Paulo, em 1944. Naturalizado brasileiro aos 26 anos de idade, em 10 de dezembro de 1945, casou-se em 1948 com Maria Graciela Dubrez, paraguaia naturalizada brasileira. Em 1952, integrou o primeiro grupo de mergulho autônomo de São Paulo. Obtendo um aqualung, participou em expedições a naufrágios em um barco do Instituto de Pesca de Santos, tornando-se um dos pioneiros do mergulho autônomo no Brasil.

Em 1956, Hablitzel estabeleceu residência em São Vicente. Paralelamente às obrigações profissionais, o engenheiro dedicava parte de seu tempo aos estudos marítimos e navais, bem como, à ampliação de sua coleção particular de objetos e documentos afins, atividades desenvolvidas desde a juventude. O grande acervo reunido levou-o à criação do Museu Histórico Naval de São Vicente, inaugurado em 19 de janeiro de 1979 e sediado em uma casa de estilo normando, atualmente demolida, então situada à Rua Messia Assú, 78, no bairro Boa Vista.

Carlos Alfredo Hablitzel faleceu em São Vicente, em 6 de novembro de 1988, aos 69 anos de idade. Sua esposa e filhos mantiveram o museu em funcionamento até 1992, ano em que foi definitivamente fechado à visitação pública.

Em 1993, a família Hablitzel e a diretoria da Sociedade Museu do Mar travaram diversos contatos visando avaliar a possibilidade de transferência do acervo do Museu Histórico Naval de São Vicente para a instituição de Santos. O desejo da família em manter o acervo reunido e vê-lo novamente disponível ao público, bem como, as relações de amizade que em vida Carlos Alfredo Hablitzel sempre manteve com Luiz Alonso Ferreira, biólogo marinho e fundador do Museu do Mar, pesaram decisivamente para a concretização de um acordo, através do qual a Sociedade Museu do Mar adquiriu o acervo do desativado museu vicentino, transferido oficialmente em 10 de setembro de 1993. 

Fonte: Museu Maritimo https://www.museumaritimo.com.br/































Acervo do museu vicentino adquirido e exposto pelo Museu Marítimo em Santos. 



TRAGÉDIAS E CALAMINDADES




ÁGUAS DE MARÇO


Mirtes dos Santos Silva Freitas.


Há, exatamente, sessenta e cinco anos, em mil novecentos e cinquenta e seis, as águas de março causaram duas catástrofes inesquecíveis na Baixada Santista. Uma delas foi no início do mês e a outra, no final. Tenho lembrança do dia vinte e cinco, um domingo.

Morávamos na Rua 3, numa encruzilhada. Para os supersticiosos, já significa mau agouro. Nós não achávamos isso. Éramos felizes, sem que o básico nos faltasse.Crianças, não tínhamos expectativa quanto ao futuro. Eu e a Neuza já estudávamos no Grupo Escolar. Os dois menores só brincavam.

Agora, preciso explicar o porquê de eu ter me referido à encruzilhada. Se fosse em outro local, não teria a mínima importância. O problema é que nossa casa, de esquina, ficava no local mais baixo que se poderia imaginar. A rua, alta nas extremidades, formava, até, um morrinho. Eram dois pontos altos, convergindo para a nossa moradia. Cruzando-a, mais um ponto alto e, ao lado da nossa casa, no sentido oposto, um brejo indo até a via férrea. Essa, por sua vez, era muito alta. Ainda por cima, os terrenos vizinhos eram alagadiços. Resultado: morávamos numa ilha.

Bem, devo dizer que nos dias ensolarados éramos privilegiados. O pântano desabrochava. Havia lírios- do- brejo, cândidos, lindos, perfumados. Trata- se de uma planta palustre, também chamada de " mariposa", flor nacional de Cuba. Com o mesmo grau de candura, havia os copos- de- leite. E o que falar sobre as taboas, com seus pendões castanhos, que se rebentavam numa espécie de paina? Também havia o chapéu- de - couro, com suas alvas flores; os aguapés arroxeados, com manchinhas amarelas, formando um cacho delicado e vistoso; a treporava, com florinhas azuis; a erva- madre, a erva- de- bicho, a taioba comestível e a venenosa...chega! Não estou aqui para falar de Botânica!

Antes de ir direto ao assunto, devo acrescentar que havia uma vala acompanhando o terreno. Ali, também, tínhamos de tudo: desde o insuportável pernilongo até as belíssimas e diáfanas libélulas, ou lavadeiras. Elas sobrevoavam a água, pousando sobre o alimento vivo: as larvas. O local era um criadouro de sapos, rãs e, consequentemente, de girinos. E as cobras? Sim. Tínhamos. Em certas noites, trevosas ou enluaradas, ouvíamos o coaxar aflito das rãs. Eram as cobras, providenciando um banquete. Para terminar a descrição do nosso entorno, tenho que acrescentar a presença das sanguessugas. Elas me assustavam mais do que um filme de terror. Zé do Caixão não me meteria tanto medo.

Retorno, agora, ao temporal. Começou à tarde, já assustador. O céu desabava. Como eu disse, com um terreno tão baixo e alagadiço nos dias chuvosos, qualquer aguaceiro nos causava apreensão. Tudo foi num crescendo. O final de tarde virou noite, antes da hora. A energia elétrica, que já nos faltava com qualquer chuvisco, foi desligada. Como isso era frequente, meus pais sempre tinham velas e a lamparina a querosene. O pavio, nela submerso, com uma linguinha para fora, alimentava a chama que alumiava os pequenos cômodos. A chuva, cada vez mais intensa, começou a nos amedrontar. A água, despejada em catadupas, vinha das partes mais altas. No terreno do brejo, permanentemente alagado, porém, não havia escoamento. Do lado oposto, a ferrovia era uma barreira intransponível. E a chuva foi aumentando. Os habitantes da vala, anteriormente delimitados pelo capim, ficaram desorientados. Desalojados do seu habitat, espalharam- se, confusos.

Dentro de casa, a preocupação deu lugar às providências necessárias. O desastre já se avizinhava. Meus pais, aflitos. Nós não sabíamos, ao certo, o que estava acontecendo. A hora chegou, de repente. Primeiro, a cozinha, que era mais baixa, foi inundada. Rapidamente, a água subiu dois degraus e se espalhou pela casa. Era um rio. Meus pais deixaram a porta da cozinha aberta, para facilitar o escoamento. Qual! A correnteza era voraz. O cenário, com a luz bruxuleante das velas, era fantasmagórico!

Nós quatro fomos colocados sobre a mesa da cozinha. Era de madeira. Aguentou- nos. Ficamos quietos, observando nossos pais na correria, tentando salvar o que podiam. As roupas foram entrouxadas e colocadas sobre o guarda- roupa. Minha mãe retirou os alimentos do guarda- comida. Colocou- os bem no alto, a salvo. As xícaras, azuis, azuis, com bordas e asas douradas,que estavam numa prateleira baixa, resolveram escapulir. Seguiram na enxurrada, porta afora. Viraram barquinhos. Isso, porém, foi pouco. O grande mesmo foi o que aconteceu com minhas pernas. Eu já tinha nove anos. Meio porque mal cabíamos os quatro sentados sobre a mesa, meio porque queria balançá- las na água gelada, deixei- as dependuradas. Não pensei que algo ruim pudesse acontecer. Mas aconteceu! Quando olhei para baixo, vi enormes pintas pretas coladas nas pernas. Aí...berros! Berros lancinantes! Eram as sanguessugas. Eu sabia que elas só desgrudariam quando estivessem fartas de sangue, do meu sangue! Salvou- me meu pai. Rapidamente, derramou álcool sobre elas, que se desgrudaram e desapareceram na corredeira.

Após o triste episódio, homens altos e desconhecidos surgiram na cozinha, para nos resgatar. Na verdade, um deles era nosso vizinho. Saímos, os três mais velhos, nos braços deles, na escuridão. Havia, apenas, a ajuda de uma lanterna.

-----A cisterna! Cuidado com a cisterna! Por aqui! Por aqui!-----gritava o vizinho.

Sim.Num lado do caminho havia uma cisterna. Naquela época, era uma palavra desconhecida por mim. Inferi, então, que se tratava do nosso poço. Coitado! Sua tampa de madeira , também, resolveu fugir. Estava escancarada uma boca, pronta a nos engolir. Isso não aconteceu, felizmente.

Fomos levados para a casa desse vizinho, num ponto mais alto daquele trecho sem saída.

Uma vizinha, há não muito tempo, contou- me que, naquele dia, tarde da noite, ouviu gritos. Era minha mãe, com a caçula no colo e um relógio- despertador na mão, pedindo guarida. Meu pai, certamente, estava com ela.

Os moradores das partes altas pouco se incomodaram com a força da chuva. Admiraram- se ao saber , no dia seguinte, que uma legião de desabrigados foi acolhida nas Escolas, nas Sociedades de Bairro, no Hospital São José.

Morros desabaram. Pai e mãe, que tinham ido ao Cine Anchieta( SV), ao chegarem em casa, só encontraram uma avalanche de pedras e barro. Cinco dos filhos, com idades entre quatro e catorze anos, foram soterrados! Destruição e dor!

Voltando ao dia seguinte, acordamos em casa alheia. Meu irmão tem uma lembrança nítida daquele momento. Chegando ao terraço, apenas viu um lago, um grande lago, sobrepujando toda a vida vegetal que descrevi no início. Na inocência dos seus cinco anos, já com uma queda para o romantismo, exclamou:

-----Que lindo!


São Vicente, 21 de março de 2021

TEMPORAL E CALAMIDADE- 1956



Várias barreiras desabaram - Sete mortos - Casas soterradas - 300 pessoas, vítimas das enchentes, abrigadas e tratadas no Lar Vicentino - O Hospital S. José recebeu 31 vítimas do desmoronamento do Morro da Caneleira - Colaboração das autoridades, Comissariado de Menores, Legião Brasileira de Assistência, Jóquei Clube, Escoteiros do Mar "Tropa Tumiarú", Pronto Socorro, Educandário "S. Gabriel", comércio e do povo - Salvos no mar - Ao pretender salvar um seu amiguinho, pereceu afogado numa lagoa - Interrompida a passagem dos trens da Sorocabana, por ter caído uma barreira próximo à "Pedra dos Ladrões" - Câmara Municipal - Hoje, a Procissão do Encontro 

São Vicente foi seriamente atingida pelas últimas chuvas, com desabamentos de barreiras, enchentes e residências soterradas. Embora se verificassem sete mortes, muitas pessoas tiveram que abandonar os seus lares, devido às enchentes ou por ameaçar perigo os morros próximos de suas residências. Ruas, praças e avenidas ficaram alagadíssimas, devido às fortes chuvas, motivo porque ficou o trânsito interrompido e a cidade, por muitas horas, sem energia elétrica, sem bondes e sem ônibus. 

Quando voltava o casal do cinema, encontrou a casa soterrada e cinco filhos mortos - O caso mais doloroso foi a morte dos cinco irmãozinhos Matos, soterrados em sua residência, quando desabou a barreira do Morro Itararé. Seus pais tinham ido ao Cine Anchieta e, quando voltaram, tiveram conhecimento da triste ocorrência. 

No chalé situado no alto do citado morro, ao lado da Pedreira Boa Vista, de Roquete e Daniel Mendes, estavam, ainda, uma irmã casada e cunhado das vítimas, e a pequenina que foi salva por Pedro Duarte Novais e sua mulher. Eram precisamente 23,30 horas, quando aconteceu o fato. 

São os seguintes os nomes e idades dos pequeninos que pereceram tragicamente: Ida de Matos, 5 anos; Eraldo, 12 anos; Lídia, 6 anos; Claudete, 14 anos, e Manoel, 4 anos. Três meninas e dois meninos, filhos de Eraldo Matos (vulgo Piaçú) e de Ermelinda Couto Matos. 

"Zé Preto", a vítima do Morro Japuí - Na Av. Siqueira Campos, ligação 2, no Japuí, José Pedro da Silva, funcionário do Saneamento, morava no sopé do morro, com sua esposa e oito filhos menores. Eram quatro horas quando duas enormes árvores se soltaram, devido à enxurrada, atingindo o seu chalé, o qual foi desmontado e destroçados todos os seus pertences. "Zé Preto" foi atingido e imprensado, tendo morte instantânea. 

No meio dos escombros, um menino de 5 anos, filho de criação do casal, ficou com o seu bercinho entre o fogão de ferro e um pedaço de móvel velho, sendo retirado pelo escrivão Rabelo e auxiliado pelos soldados José Batista de Moura, Francisco Mendes e Carmelino de Lima, do nosso destacamento policial. As outras crianças e a mulher foram salvas. A vítima morreu comprimida entre a cama e o guarda-roupa, ficando as árvores sobre os escombros. 

"Barbosinha", contínuo da Prefeitura, pereceu afogado - Gustavo Barbosa Santos, com 37 anos, brasileiro, casado, funcionário da Prefeitura local, quando regressava dum casamento para a sua residência, caiu numa "boca-de-lobo" próxima à Fábrica de Vidros, perecendo afogado. 

A sua morte foi muito sentida, pois "Barbosinha", como lhe tratavam os seus colegas, era bastante estimado nesta cidade. A ocorrência registrou-se às 4 horas de anteontem, quando ainda chovia torrencialmente. A imprudência deu causa à sua morte, pois as águas naquele local atingiam mais de um metro de altura. 

Inundações - Os bairros do Rio da Avó, Sá Catarina de Morais, Vila Margarida e Mangue Saquaré foram os mais atingidos pelas chuvas, tanto assim que os moradores tiveram que abandonar os seus lares. 

Barreiras sobre o leito da E. F. Sorocabana - Em frente à "Pedra dos Ladrões" e na divisa do José Menino, caíram duas barreiras sobre o leito de E. F. Sorocabana, interrompendo a carreira dos trens da linha Santos-Juquiá. Os passageiros vindos de Juquiá estão descendo em São Vicente, enquanto não se terminar a desobstrução da linha. 

Em frente à "Pedra dos Ladrões", as pedras estão trincadas, ameaçando iminente desmoronamento. 

Importante trabalho prestado pelo Lar Vicentino - A diretoria do Lar Vicentino consentiu que, em suas dependências, fossem recolhidas as pessoas vítimas das enchentes. Assim, nada menos de 300 desabrigados lá se encontram, recebendo toda a atenção possível. 

É justo destacar a eficiente colaboração das autoridades, comércio, comissários de menores, polícia, Hospital São José, e pessoas caridosas. Nada tem faltado: alimentação, medicamentos, consultas médicas, camas, colchões etc. Verifica-se, no futuro asilo de inválidos, um movimento de verdadeira solidariedade humana. O sr. Sílvio Corrêa da Silva e a dra. Clementina Faro lá estiveram ontem, medicando e examinando elevado número de pessoas. 

As vítimas do Morro da Caneleira, atendidas no Hospital S. José - Pelos drs. Hélio Ramos Costa, João Evangelista da Rocha e Antonio Caramenho, médicos do Pronto-Socorro, foram atendidas e internadas anteontem, no Hospital São José, as seguintes vítimas do desabamento do Morro da Caneleira: Antonio Aragão Dias, José de Almeida, Francisco Ferreira da Silva, José Borges Figueiredo, Malvino Colasso, José dos Reis Silva, Antonio José de Freitas, Alziro Vitoriano de Freitas, José Oliveira da Silva, Adevaldo Aguiar, Vicente Agostinho da Silva, Jonas da Costa Ramos, Benedito Passos, Domingos Florêncio de Almeida, Serapião Bispo dos Santos, Manoel Valente Pereira, José Fernandes Filho, Joaquim da Costa, José Nunes Soares, Arcelino Ribeiro, Marliete da Silva, Adelino Ribeiro, Irísia Ribeiro, Maria do Rosário Passos, José Gentil de Araújo, Antonio Fernandes, Marciano José dos Passos, Anita Passos, Maria Heuaide Toda, Yoshino Huaide e Pedro Brasil Silveira. 

Cooperaram também eficazmente, os drs. do Corpo Clínico: Alcides de Araújo, José Singer, André Stucchi, Carlos Zinder, Raposo do Amaral e Geraldo Hellmeister. Assim que começaram a chegar as primeiras vítimas ao Hospital S. José, ali também compareceu o dr. Olavo Hourneaux de Moura, oferecendo seus serviços e pondo à disposição dos feridos a Casa de Saúde "N. S. das Graças", de que é diretor-proprietário. 

Foram salvos do mar - Pelos guardas do Posto 1, foram salvos quando estavam prestes a se afogarem, os seguintes banhistas: Domingos Mendes, 20 anos, solteiro, escriturário, residente à Rua Linda Batista, 125, São Paulo; Florinda Rosa, 53 anos, casada, doméstica, brasileira, residente à Rua Vergueiro, 631, capital; Pedro Cordeiro, 47 anos, casado, comerciário, brasileiro, residente à Rua Guaipa, 92, São Paulo. O sr. Moacir Santos Moura (Leco) ajudou os guardas, neste último salvamento. Os guardas do Posto são: Adão Marques, Genésio dos Santos, Severino Gomes e Davi Xavier. 

Pereceu afogado na lagoa, quando pretendia salvar seu amiguinho - Um gesto que bem demonstra o grau de abnegação e de solidariedade humana, foi o praticado pelo menino Vicente Postego Ramos, de 13 anos de idade, filho de Salvador Postego Balão e Ana Ramos Postego, residente no Caminho São Jorge, Rua Particular, ligação n. 2. Vicente, ao pretender socorrer um seu amiguinho na lagoa próxima à Pedreira Santa Teresa, na Vila São Jorge, pereceu afogado. Sua morte causou consternação, não só pelo gesto praticado, como por gozar a vítima de grande estima. 

Procissão do Encontro - Devido ao mau tempo reinante domingo, a Procissão do Encontro dar-se-á hoje, às 20 horas, na Praça Barão do Rio Branco. Falará aos fiéis monsenhor Borowski, reitor do Seminário. A banda do 2º B.C. abrilhantará o cortejo religioso. 

Na Prainha desabaram três barreiras - A residência que mais sofreu com o desabamento, no bairro da Prainha, foi a que está localizada em frente ao 1.001, pois ficou totalmente soterrada, não se registrando vítimas porque o seu proprietário reside em São Paulo. No mesmo lado direito, outra casa foi atingida, caindo sobre a mesma uma enorme árvore. Também não houve vítimas. 

No local onde existe a caixa d'água da Prefeitura, grande quantidade de terra desabou do morro, obstruindo a passagem na Av. Saturnino de Brito. 

Atingido o bar e boite Prainha - Quando os "habitués" se encontravam dançando, foram surpreendidos, às 2,30 horas, com o desabamento de uma barreira, a qual pegou a parte dos fundos do Bar e "Boite" Prainha. Os dois autos dos proprietários desse estabelecimento comercial ficaram soterrados. O piano, móveis etc. sofreram danos com a enxurrada. Felizmente, nada de grave aconteceu aos freqüentadores e pessoal da "boite", a não ser o grande susto. Procurando desobstruir as passagens, cortando árvores e tomando outras providências, ali esteve o sr. Américo Fernandes Tavares. O dr. Alberto Lopes dos Santos, presidente da Câmara, logo que soube da ocorrência, compareceu ao local, e no Japuí. 

Escoteiros do Mar "Tropa Tumiarú" - Gesto digno de registro é o oferecimento e o trabalho dos Escoteiros do Mar "Tropa Tumiarú". No Lar Vicentino, desde ontem pela manhã, os meninos estiveram em atividades. Oferecimento do Jóquei Clube - Além do oferecimento do médico, sr. Gilberto Cavalcanti, e dos enfermeiros, a diretoria do Jóquei Clube de São Vicente enviou ao Hospital São José medicamentos para atender as vítimas do Morro da Caneleira. Esteve também no Hospital, oferecendo seus serviços profissionais, o dentista e enfermeiro, dr. Alfredo Gaspar. Ação eficiente do Comissariado de Menores de S. Vicente - O Comissariado de Menores desta cidade teve papel saliente nos momentos tristes que atravessamos. Foram os comissários verdadeiros abnegados, retirando e carregando crianças das inundações no Mangue Saquaré, Vila Margarida, Rio da Avó e Rio Sá Catarina de Morais. O juiz de menores, dr. Aldo de Assis Dias, veio à noite verificar a situação das crianças, no Lar Vicentino e na Escola da Vila Sorocabana, retirando-se bem impressionado pelas medidas tomadas e o bom acolhimento recebido. Legião Brasileira de Assistência - Logo que soube dos acontecimentos, compareceu ao Hospital São José e Lar Vicentino a sra. Maria Madalena Cunha Jarossi, presidente da Legião Brasileira de Assistência, em São Vicente, tomando várias providências. Apelo ao dr. Lauro Ataíde de Freitas - Em nome da população vicentina, apelamos para o dr. Lauro Ataíde de Freitas, chefe do Distrito de São Paulo, do Departamento Nacional de Obras de Saneamento, no sentido de serem desobstruídas as comportas do Rio da Avó e Rio Catarina de Morais, as quais não dão vazão às águas represadas nas áreas inundadas. Câmara Municipal - Será realizada hoje, às 14,30 horas, mais uma sessão da edilidade vicentina, sob a presidência do sr. Alberto Lopes dos Santos. Terá prosseguimento a discussão e votação do projeto de lei do sr. Rafael Faro Politi, e que trata do Código de Obras do Município. Vai faltar água dois dias - Pede-nos a Prefeitura Municipal de São Vicente tornarmos público que em virtude de haver caído uma barreira que obstruiu a tomada de água, sem causar danos de monta, faltará o precioso líquido na cidade, por dois dias, tempo necessário à remoção da terra que está impedindo o serviço de abastecimento. 

MAIS CALAMIDADE 

Ameaçados os edifícios "Mirante" e "Parque dos Estados" - Intimados os moradores da pedreira Itararé a abandonar suas residências - Vacinação preventiva - Contra o despejo de lixo no caminho da Praia Grande - Eficiente colaboração da Colônia de Pescadores, Capitania dos Portos, Fortaleza de Itaipu e 2º B. C. - Prossegue o trabalho no Lar Vicentino - Auxílio da Legião Brasileira de Assistência - Recolhidas na Escola Mista dos Ferroviários mais 145 vítimas das enchentes - Desferiu cinco facadas na companheira - Suspensa a sessão de ontem da Câmara Municipal em homenagem às vítimas da catástrofe. 


Nossa reportagem percorreu, ontem, todo o Morro dos Barbosas, onde a Cia. Di Franco de Investimentos Ltda. está vendendo lotes de terrenos, constatando que existem várias fendas, algumas numa profundidade de 3 e 4 metros, oferecendo perigo, caso novas chuvas desabem sobre a nossa cidade. Os prédios "Mirante" e "Parque dos Estados" serão os atingidos. O primeiro tem 22 apartamentos, entretanto, somente lá estavam oito famílias, pois as demais seguiram para São Paulo. Várias foram as barreiras que desabaram do referido morro. Torna-se necessária rigorosa investigação por parte de engenheiros técnicos, a fim de serem salvaguardadas as vidas dos moradores e pedestres. Também medidas enérgicas deverão ser tomadas pelo prefeito. A Ponte Pênsil, do mesmo modo, poderá ser atingida com o desabamento. Intimados os moradores da Pedreira Itararé a deixar suas casas - Em vista do constante perigo que oferece o Morro do Itararé, a polícia intimou os moradores a se mudarem, o que está sendo feito desde ontem. 

No Lar Vicentino - Continuam, no Lar Vicentino, as vítimas das enchentes do Rio da Avó, Mangue Saquaré, Rio Sá Catarina de Morais, Vilas Margarida e São Jorge, os quais vêm ali recebendo alimentação e medicamentos. Essa situação perdurará até que os mesmos possam voltar aos seus lares. O dr. Leovegildo Trindade ofereceu o motor para o funcionamento da distribuição da água. Vários oferecimentos vêm sendo feitos, pela Legião Brasileira de Assistência e inúmeros particulares. 

Recolhidos na Escola Mista dos Ferroviários - A sra. Angelina Pretti da Silva, vereadora municipal, teve um gesto que bem merece encômios e registro. Conseguiu alojar, na Escola Mista dos Ferroviários, 145 pessoas vítimas das enchentes e 20 em sua residência. Para essas pessoas, o Departamento Estadual da Criança vem fornecendo medicamentos e leite em pó. 

Auxílio da Prefeitura de Santo André - Valiosa e simpática colaboração acaba de oferecer o prefeito de Santo André, enviando, para a nossa cidade, dois caminhões basculantes e 16 operários. Estes estão alojados na sede do União. 

Ofereceram colchões: Ernesto Antonio, 10; Padaria Bandeirantes, 3; Bar Aguiar, 1; Alfaiataria Neves, 1; Pedro Toneli, 1. O Binder's Bar fornecerá a alimentação aos operários. 

Aviso ao público sobre arrecadação de donativos - A presidente da Legião Brasileira de Assistência (Seção de São Vicente) desde que teve conhecimento, domingo, das tristes ocorrências em nossa cidade, comunicou-se com o prefeito municipal, tomando várias providências. Esteve segunda-feira no Hospital São José e no Lar Vicentino. Para essa casa de caridade providenciou café, roupas, fraldas, aos 200 flagelados ali recolhidos. Recebeu da Legião Brasileira de Assistência, de São Paulo, todo o apoio, pelas iniciativas tomadas. Todos os donativos devem ser entregues à presidente, à Rua 15 de Novembro, 176, em São Vicente, evitando-se dessa forma possíveis explorações. 

A Câmara aderiu ao sentimento do povo, pela catástrofe - Assinado pelos edis Nicolino Simone Filho, Carlos Menezes Tavares e Cremiro Azevedo, foi lida e aprovada a solicitação de serem suspensos os trabalhos do Legislativo, pelo infausto acontecimento que enlutou vários lares em nossa cidade e desabrigando também muitas famílias. 

Desferiu cinco facadas em sua companheira - Bento Vicente, residente à Rua Carlos Gomes, 60, depois de se embriagar, desferiu cinco facadas em sua companheira, Ana Maria Augusta, a qual foi atingida no pescoço e costas. Em estado grave, a vítima depois de ser atendida pelo Pronto Socorro, seguiu para a Santa Casa. O agressor recebeu ordem de prisão do investigador Orlando, quando empunhava ainda a faca. O dr. Lídio Bandeira de Melo mandou instaurar o inquérito, arrolando várias testemunhas. Outras pessoas receberam ferimentos atingidos com golpes de faca, quando procuravam socorrer a vítima. 

Festa íntima - Dia 25, registrou seu 12º aniversário a menina Mercedes, filha do dr. Arnaud Machado, funcionário aposentado da Repartição de Saneamento de Santos, e de d. Gertrudes Machado. A aniversariante ofereceu uma mesa de doces às suas amiguinhas. 

Indiferente a guarda-civil, durante a catástrofe - São Vicente conta, para o policiamento do trânsito, com o destacamento de 3 ou 4 guardas-civis, que, durante estes dias de angústia, não foram vistos nos pontos onde se fazia mais necessária sua presença. Na Avenida Antônio Emerich, domingo à noite, em virtude do desabamento ocorrido na Caneleira, foi o serviço de trânsito efetuado por elementos do quartel militar do 2º B. C., nas imediações de sua guarnição e no início da aludida via pública, tendo sido feito pelo sr. Orlando Dias Bexiga o desvio de veículos. 

Idêntica falta de policiamento dos guardas-civis verificamos na Avenida Manoel da Nóbrega, e vias adjacentes, que estavam, em parte, intransitáveis, e onde o trânsito foi orientado pelos guardas municipais, fato este ainda ontem constatado. E nas avenidas Getúlio Vargas e Newton Prado o fato se repetiu. Neste setor, nem a guarda rodoviária foi vista ontem pela manhã. É de se lamentar essa anomalia e descaso, notadamente num momento em que todas as pessoas, indistintamente, empregavam seus esforços para auxiliar as pessoas necessitadas. A guarda-civil, infelizmente, não correspondeu... 

Colaborações eficientes durante a catástrofe 

Capitania dos Portos e Colônia de Pescadores - Tão logo teve conhecimento das tristes ocorrências registradas nesta cidade, durante a madrugada de domingo, o cmte. Francisco Vicente Bulcão Viana, capitão dos Portos do Estado de São Paulo, determinou ao capataz destacado nesta cidade, sr. Osvaldo dos Santos, para que providenciasse junto aos pescadores e proprietários de embarcações as requisições que se fizessem necessárias. Verificamos, domingo pela manhã, a atividade daquele funcionário da Capitania, coadjuvado pelos pescadores profissionais Angelo Verta Filho, Manoel de Jesus Filho e Aristodemos Mangolini, além de inúmeros componentes da Colônia de Pescadores Z-4 "André Rebouças" e particulares. Foram cedidas várias embarcações para o transporte de inúmeras famílias vítimas das inundações verificadas no rio Sá Catarina de Morais, rio d'Avó e Saquaré. 

2º B.C., Fortaleza de Itaipu e Colônia de Férias do Clube Militar da Força Pública - Os comandantes dos 2º B. C. (Bugre) e 5º G. A. C. (Fortaleza de Itaipu) também prestaram excelentes colaborações, doando colchões para os flagelados e colocando à disposição das autoridades municipais grupos de soldados para os serviços de desobstrução na Caneleira e nas avenidas Getúlio Vargas, Newton Prado e Saturnino de Brito. A Colônia de Férias dos Oficiais da Força Pública do Estado de São Paulo também prestou a sua cooperação, cedendo cerca de 100 colchões. 

Outras colaborações - Da mesma forma verificamos o auxílio prestado por funcionários operários da Prefeitura, a equipe do Comissariado de Menores, vereadores, jornalistas e inúmeras pessoas. 

Vacina preventiva contra eventual surto epidêmico - Hoje à tarde, por determinação superior, os componentes do Centro de Saúde local iniciarão no Boqueirão da Praia Grande as vacinações preventivas contra o eventual aparecimento de infecções do aparelho gastrointestinal (tifo, disenterias). É aconselhável à população vicentina, principalmente àqueles em cujas habitações forem precárias as instalações sanitárias (falta de esgoto), procurar o Centro de Saúde, à Rua Jacó Emerich n. 686, a fim de se prevenirem contra eventual moléstia. Além das medidas de limpeza, vacinação e profilaxia que se fazem necessárias, as autoridades sanitárias pedem a colaboração do povo, fazendo-lhe as seguintes recomendações: - Não comer verduras cruas;- Utilizar-se apenas de água fervida;- Combate sem tréguas às moscas; - Remoção de todos os detritos; e - Não tomar banho de mar. 

Deve ser impedido o despejo de lixo provindo de Santos - As águas provenientes dos morros situados na Avenida Siqueira Campos, desde o Japuí até o Boqueirão da Praia Grande, ainda estão estagnadas, motivadas pelo escasso escoamento existente naquela estrada. Em determinados trechos da avenida verificamos, ontem, que os carros de lixos da Prefeitura Municipal de Santos, impossibilitados de penetrar no interior de vários sítios de bananas, ali existentes, estão descarregando toda a sorte de detritos e sujeiras na margem daquela avenida. A Prefeitura local, por intermédio de sua Diretoria de Serviços Públicos, sob a responsabilidade do sr. João Rodrigues Caldeira, determinou que a descarga de lixo de São Vicente fosse feita em outro local. Por que a Prefeitura de Santos não imita esse gesto? As contínuas descargas naquele local poderão resultar em conseqüências funestas. É preciso que as autoridades competentes façam desaparecer essa ameaça. 

NATUREZA EM FÚRIA 

Simplício Brando 

Voltou a cidade de Santos a sofrer outro forte abalo neste adverso mês de março, em resultado do violento temporal caído na madrugada de domingo, assim dolorosamente chamada a pagar novo tributo de vidas, às dezenas, sem esquecer o grande número de feridos e os importantes prejuízos materiais verificados. 

São Vicente, de igual modo, alcançada pelos mesmos sinistros efeitos, também contribuiu com o sacrifício de quase dez vidas, bem como numerosos danos de monta. Não iremos repisar, em tão pequeno espaço, o noticiário dos jornais sobre os dramáticos transes desenrolados, os momentos de desespero e o espetáculo desolador anteontem oferecido pelas duas cidades praianas, com o seu comércio de portas cerradas, em sinal de luto, e as ambulâncias, as viaturas da Polícia e do Corpo de Bombeiros, cortando as ruas, a cada instante, além de caminhões conduzindo móveis, roupas e utensílios das vítimas atingidas pela catástrofe, em direção aos alojamentos improvisados, tendo em vista o êxodo dos moradores. 

Entrementes viam-se operários e outras devotadas almas ao lado de carros providos de guindastes e caçambas, empenhados no trabalho ininterrupto de remoção dos escombros, em diferentes pontos onde a tormenta produziu impressionantes desabamentos, notadamente no sopé dos morros, soterrando casas e pessoas nas trevas da noite! 

Diante desses sucessivos dramas, mostrando a cólera dos elementos da natureza em busca do cenário propício ao desdobramento de pavorosas tragédias, de preferência os morros dinamitados, cabe às autoridades administrativas, pelos seus organismos técnicos, proceder, antes de mais nada, a imediatos estudos nessas elevações, em cujos pontos a pedra está sendo industrializada, sem as devidas cautelas, ou ainda nas abas escolhidas para a retirada da terra, em volumosas quantidades, providenciando-se, logo após, as medidas mais urgentes, de caráter preventivo, em resguardo de vidas preciosas e outros males irreparáveis. Em São Vicente também os criminosos bueiros já ocasionaram duas mortes, tendo sido, antes, surpreendida uma menina, e agora um contínuo da Prefeitura Municipal, ambos inapelavelmente tragados pelas bocarras traiçoeiras dessas armadilhas, para as quais devem os responsáveis voltar as suas vistas. 

Outros episódios funestos e chocantes, expressando quadros de horror, podem ser perfeitamente evitados mediante decididos empenhos. Dir-se-á que as chuvas torrenciais e prolongadas deram causa aos lutuosos acontecimentos. Exatamente, esta é a verdade. Mas também é certo que, em resultado das abundantes enxurradas havidas, os morros continuam apontando outras fatídicas surpresas. 

Isto nos leva a refletir que os impetuosos elementos desencadeados com implacável ira lá das alturas, parecem querer revidar, cá em baixo, os sistemáticos golpes desferidos pela mão do homem contra a integridade majestosa das pedreiras santistas e vicentinas! 

E vale a pena continuar refletindo em torno dessa causa...



A TRIBUNA NÃO ESQUECE


23 de dezembro de 1966

O Edifício Vista Linda desabou após um deslizamento no mesmo morro. Um policial rodoviário, o sargento Jaime de Miranda, que trabalhava no posto na Ponte Pênsil, ouviu um estalo e percebeu que terra e pedras estavam cedendo do morro. Ele avisou o zelador, João Joaquim da Silva, que percorreu os dez andares para os moradores saírem da construção. Em cinco minutos, o prédio tombou, mas 38 moradores conseguiram sair a tempo. O único ferido, sem gravidade, foi o zelador, que machucou um pé. A Avenida Getúlio Vargas permaneceu fechada, e seis prédios vizinhos foram desocupados. O prédio que caiu já havia sido interditado antes.