quarta-feira, 10 de julho de 2019

XII MINICONTOS - UBIRAJARA RANCAN





 O “Rabo”.


Um bar pra receber amigos. Sem tino pro negócio, não gostava quando vinha gente “estranha”, clientela normal que ele não conhecia, nem queria conhecer.

O lugar, a edícula [também o gramadinho na frente dela] de uma velha casa própria, que, agora movimentada, não perdera o ar de esquecida.

Com tudo pra ser um fiasco, e malgrado o proprietário, a coisa vingou.

Duas placas metálicas, retangulares, de fundo verde, anunciavam em vermelho, frente e verso, o rodízio de identidade que definia aquele espaço: “O Bar” e “Rabo”; “Rabada” e “Rabanada”.

Quando fui, não notei que “Rabo” era “O Bar” de trás pra frente. Ao dizer-lhe que aquilo tudo era “um verdadeiro experimento”, Ernani, gozador, apontando a cor predominante das placas, corrigiu-me: “verdedeiro experimento!”

De 3ª. a 5ª., “O Bar”; sexta e sábado, “Rabo”; “Rabada” pro almoço de domingo; na segundona, café com “Rabanada”.

Como não gostar da ideia? Um só lugar, diferentes públicos e ambientes, sempre o mesmo point.

Já a provocação de “o bar” ao contrário... Mas Ernani dizia que “rabo”, “rabada”, “rabanada” era “uma simples sequência de nomes, silabicamente crescente, a partir do mesmo radical”.

O fato é que, tudo indo bem de 2ª. a 2ª. , a concorrência passou a financiar matérias espontâneas... da imprensa local, que davam o “Rabo” como “ponto de comércio de sexo em bairro de classe média alta”, e pá de cal“às portas de um recém-inaugurado templo católico” etc. etc.

O “verdedeiro experimento” duraria pouco mais de 3 meses. Terreno, casa, edícula abandonados de vez [o amigo nunca voltaria à cidade], a mais antiga das profissões, valendo-se da propaganda indireta que lhe fora oferecida  de graça pelos opositores do empreendimento original, tomou o “Rabo” sem nenhum incômodo a “oposição” passara a frequentá-lo...

No final daquele ano de 83, alguém pôs ali uma placa metálica, retangular, verde na qual se lia, em vermelho: “Rabo Preso”.


Coisas d’antanho...


Quando eu começava a aprender o alfabeto, o meu avô Ivo tinha 75 anos. Nessa época, aposentado havia tempo, apoiava o seu fim de tarde no canto direito do largo portão de madeira que separava calçada e rua da área residencial em que morávamos. Ao lado dele, seu Antônio, vizinho. Conversavam? O tempo todo. Mas o que faziam mesmo era ver a “banda passar”, de acordo com a formulação eufemística do meu pai, que, valendo-se do premiado sucesso lançado ano antes do novíssimo Chico Buarque, assim classificava aquele olhar sênior pela “preferência nacional”... Pudera! Para quem, nos primeiros anos do século, extasiava-se ao surpreender os tornozelos descobertos das moçoilas de então, minissaias em desfile eram um escândalo tão inimaginável, quanto infelizmente tardio.

Já para rapazes imberbes feito eu, os sutiãs eram o verdadeiro ícone da feminilidade. Não se concebia uma garota que não os usasse, mesmo que não tivesse com o que os preencher.

Como demoraria um pouco para que a fumaça da queima feminista na América [no ano seguinte] fosse avistada por aqui, alterando padrão de comportamento e indumentária das meninas-moças, garotas, mulheres, o fato é que o soutien-gorge ainda se sustentaria, quase intocado, por bom tempo.

Apesar da atração que exercia, desabotoar o dito-cujo era um persistente desafio! Como nada é mais inoportuno do que perder o timing da preliminar, muitas garotas, em atitude solidária, cuidavam elas mesmas de abrir o próprio, evitando, assim, o inevitável constrangimento do desajeitado da vez.

Outra coisa incrivelmente atraente naqueles tempos era a cinta-liga. Supondo-se você saiba o que ela seja, quantas mulheres conhece que ainda usam esse acessório? A quase totalidade delas prefere a brochante meia-calça irmã gêmea do minhocão, ou, cedendo enfim à insistência, permite-nos alguns minutos de fantasia privée. Como peça da elegância feminina cotidiana? Nem na cidade-luz!

Em 88-89 e 93-94, a caminho da então Bibliothèque Nationale de Paris, ou da estação de metrô mais próxima, todo dia eu passava diante de uma vitrine na qual se expunham refinadas porte-jarretelles. Há pouco mais de 5 anos, lá fui eu revê-las. A loja, encontrei; já as cintas-ligas... Vestir uma, hoje, será tão “boko moko” quanto enviar um cartão postal.

De comum entre sutiã e cinta-liga, certo ar indireto, como convém de transgressão e libertinagem. Ou você não reparou nas alças, fechos e presilhas de um e outra, que prendem, firmam, seguram, retêm? Seja como for, em tempos de fast-food também em sentido metafórico, cultivar a sedução e os seus acessórios requer um tipo de convivência incompatível com a cultura majoritária da nossa época.


Anya.


Russo-italiana, quatro línguas na bagagem, Romina Yurenko era para uns o símbolo de um revival; para outros, o emblema de um passado em extinção.

Tempos de glasnost e perestroika, os que trabalhavam naquele exemplo de arquitetura neostalinista do Boulevard Lannes havia doze anos sede da Embaixada soviética em Paris faziam das tripas coração para manter as aparências, inclusive no que se referia à rubrica “espionagem”. Assim, se a estonteante camarada Yurenko passava por espiã, tanto melhor, embora ela fosse, de fato, somente a filha mais nova de um velho burocrata moscovita, que, recém-viúvo, queimara os últimos cartuchos da sua influência política, enviando a caçula para uma temporada como assistente do adido cultural soviético na França. Diante do futuro temeroso, o cioso genitor desejava era um vantajoso matrimônio para a sua querida Anya [nome que, recusado pela mãe, sempre lhe dera e, por extensão, para si mesmo.

Na própria Embaixada, não eram poucos os que a tomavam pelo que, não o sendo, ela parecia, mais do que só lembrar, efetivamente ser; já no território da contraespionagem local e de países da Aliança Atlântica, eram muitos os que, aguardando um movimento seu, vigiavam-na com a esperança de, além de a surpreender com a boca na botija, reunir ofício e prazer, numa autêntica confirmação de que “a vida imita a arte”, ou pelo menos o cinema.

Vítima da avaliação precipitada de tantos candidatos a “Bond. James Bond”, Romina, sem o querer, insuflava as perspectivas com que era regularmente monitorada. Fosse por não fazer contato com os alvos de praxe o que levava à suspeita de a sua mira visar os figurões, fosse pelos seus passeios regulares no Bois de Boulogne, a dois passos da Embaixada quando às vezes conversava com um ou outro], ela tornara-se, havia mais de ano, o centro das atenções de alguns dos principais serviços de espionagem e contraespionagem em Paris.

Ignorando completamente as elucubrações profissionais de toda essa gente, mas atento à beleza que flanava no Bois pela hora do almoço, Berêncio Lampréia, mesmo não tendo porque estar ali três ou quatro vezes à semana, fizera daquele parque o recanto preferencial do seu modesto déjeuner. Em meio à baguette, à cerveja, ao cigarro, o encanto de Anya não lhe passara despercebido.

Numa linda tarde de fim de verão de 88, agastado com tanta notícia ruim do Brasil, hiperinflação, escassez de alimentos, o conterrâneo governador a dizer que em Minas não faltaria carne bovina, nem “porquina”... , Berêncio, sem a perceber que se aproximava, lança abruptamente o Monde, o Pariscope, o resto da sua baguete no cesto ao lado do banco do qual já se levantava. Vendo-o assim irritado, a moça que nunca lhe dirigira a palavra indagou-lhe, entre receosa e solidária: “Des mauvaises nouvelles?...”

Sem estar à cata de interação social, Anya tencionava aperfeiçoar o seu francês, sobretudo o sotaque. Dando-se conta do engano que acabara de cometer, despediu-se polidamente daquele estrangeiro, sem nem mesmo saber de onde procedia ele. Na verdade, não tendo se apresentado entre si, eles trocaram algumas poucas frases durante a ligeira convivência que os dispôs naquela zona de falsa intimidade regida pelas règles de politesse.

Mas tudo de que precisava Berêncio era de um simplório acaso. Sem nenhuma afobação, deu tempo ao tempo. Passando a cumprimentá-la, sorria-lhe às vezes. Da sua parte, pouco exitosas as tentativas de aproximação linguística com os nativos, Anya registrou cumprimentos e sorrisos. Não indo ao Bois por conta deles, sabia que ao menos isso encontraria por lá.

Se ela registrara esse avizinhamento à distância, o mesmo fizeram os que a seguiam, ou que já os observavam. Contudo, sem presença nos registros documentais da contraespionagem, o contato de Romina Yurenko não pôde ser identificado. Ninguém o conhecendo, não se sabia a serviço de que país, ou países, ele estivesse. Feita a descoberta, a identidade de Berêncio causou inda mais perplexidade do que a surpresa inicial sobre quem fosse aquele novo agente: por que diabos um brasileiro e uma agente soviética interagindo um com outro em Paris?

Alheios a essas representações, Anya e Berêncio já se sentavam juntos no mesmo banco, reconheciam-se mutuamente como estranhos um ao outro, e, com o passar das semanas, cada vez mais como menos estranhos entre si. Embora um já soubesse o nome do outro, de que país provinha e o que o trouxera a Paris, tratavam-se formalmente, cumprimentando-se com um leve, discreto aperto de mãos. Certa vez, Romina comentou sobre uma soirée musical na Embaixada soviética. Mostrando-se sinceramente interessado fora um bom violoncelista amador], Berêncio ganhou dela um convite para a apresentação. Pensando que a encontraria, somente a viu, de longe. Acenando-lhe, não foi correspondido.

Acabado o concerto, foi-se embora macambúzio. Quarentão experimentado, Berêncio precipitava-se ao avaliar negativamente o suposto desencontro. O que lhe soara como confirmação incontestável de polidez exagerada, até humilhante, nada mais era do que uma estratégia convergente. Anya queria observá-lo, à distância e em terreno próprio, dando a si a oportunidade de tê-lo como presa sua, a ele, a ocasião de, pelo encantamento da circunstância, pelo fausto ambiente, pela arte que emanava de músicas e músicos russos, aprender a conhecer algo do seu mundo, valorizá-lo e valorizá-la na proporção devida.

Passada uma semana, nada de se encontrarem. Romina mantinha horário, banco, postura. Ensimesmado no seu inverno pessoal, Berêncio negava-se a retomar o lugar cativo. Na metade da semana seguinte, cedeu. Passados 20 minutos da hora em que habitualmente se encontravam, porém, deu-se por definitivamente derrotado. Sem nem sequer um mísero jornal que atirar abruptamente no cesto de lixo mais próximo, murmurou alguma coisa que só um outro mineiro pra decifrar, e prosseguiu.

Chegado à rua, Anya vem ao seu encontro. Sorrindo-lhe como se o conhecesse havia exatos 73 dias e, de fato, eles se conheciam havia exatos 73 dias , abre-lhe os braços como se, íntimos, não se vissem havia muito tempo [eles não se viam havia 11 dias, e, em vez de um cerimonioso: “Comment allez-vous?”, abraça-o e beija-o demoradamente. Só depois de findo o longo cumprimento, diz-lhe: “Tu vas bien?” ao que ele, num perfeito mineirês apaixonado, redarguiu: “Uai sô...”

Tendo acompanhado o desenrolar do duplo descompasso a ausência de um e a presença de outra; a aparente frieza do comportamento de Anya diante da falta de Berêncio por mais de uma semana, o desespero dele pela falta dela num único dia, a contraespionagem de plantão já agora uma verdadeira junta internacional, vendo-os que se abraçavam e se beijavam, não teve dúvida: ela conseguira não só o seduzir, mas o subjugar completamente! Até a inteira dissolução da União Soviética, três anos depois, aqueles contraespiões não sem despeito pelo mineirinho de Arraial do Tejuco ainda se reuniam no Bois já não mais frequentado por Anya e Berêncio, que mergulhavam no quarto inverno comum para discutir sobre qual o objeto da inusitada relação que um dia juntou


A Volta da Ercília.


Não me agradam os revivals dos mais diferentes tipos, amparados no marketing e sem qualquer originalidade. Vem daí eu implicar com o nome daquele estabelecimento: “Empório Santa Ercília”. Já de saída ficava em dúvida sobre “Ercília” ter ou não “h”; depois, se teria havido santa com tal nome. Mas o que mais incomodava era a lojinha metida designar-se “empório”. Assim, só o do seu Tricca, na Frei Gaspar da Madre de Deus da minha infância, com bolacha em lata e barris de azeitona preta!

Ontem, porém, numa rádio local, ouvi que o Ercília começava, naquele dia, não uma liquidação, é claro, mas uma renovação de estoque. Em que pesasse o eufemismo barato, a coisa me atraiu, pois eu gostava duns móveis rústicos em exposição na parte externa do empório. Por que não?

Ao chegar no Santa, notei carros em fila dupla e um montaréu de gente que não fazia questã de manter o salto. Se a cena estimulava o consumidor acanhado a bater em retirada antes de começada a peleja, fornecia ao intelectual de gabinete um álibi de ocasião para entrar em campo. Virando pelo avesso a estratégia do Ercília [o burburinho em volta até lembrava um verdadeiro empório], aquele inusitado sucesso era um prato cheio para o sarcasmo de prontidão.

Querendo estar, nem tanto, agora sim, a distância, sentia-me protegido e regalado. Recuperara a índole crítica! Aproximei-me de toda a gente, mais ao lado do que entre, pois não havia fila que aguentasse tanto empenho.

Vejo uma senhora. Distinta e resistentemente cortês, dirige-se um por um a todos, falando-lhes com educação, sorrindo-lhes amistosamente. Ercília? A mansidão de seu jeito distribuía um apaziguamento duradouro, aglutinando uns e outros em volta dela. Ercília! Aos que estávamos atrás, já então à sua espera, vê-la e a seus gestos tornava-os mais e mais eficazes, quase encantatórios. Como retribuir semelhante delicadeza? Comprando mais, pensei. E, então, Ercília pareceu-me vilã. Confirmando a impressão, percebi que alguns com quem falava iam depressa aos produtos expostos à entrada da loja. Entre vê-la com outros olhos e partir irritado, Ercília já estava diante de mim. Não se apresentou era preciso? , mas pegou-me a mão. Segurando-a firme, olhando-me mais firmemente ainda, disse: “Vá à entrada, pegue o que lhe agrade, volte amanhã para pagar. Há muita gente e ninguém conseguirá dar conta”.

Tão inacreditavelmente simples, quanto absolutamente inacreditável! Tamanha a convicção do gesto, a santa em pessoa a praticá-lo, não titubeei. Encontrando um abajur, sem nenhum constrangimento e feliz pelo experimento sem igual, fui-me embora com ele.

Dia seguinte, pelas 10:00, voltei ao Empório. Lá chegando, algum movimento. Nada, porém, comparado à agitação da véspera. Sorrindo, não encontrei retribuição, antes pelo contrário. “O senhor também veio ver a dona Ercília? Já vou logo dizendo: ELA MORREU!” Chocado com a agressividade e sem-cerimônia da notícia, respondi que estava surpreso, sentia pelo falecimento da proprietária, desejando pagar o abajur levado. “O senhor trouxe a peça?” Não o fizera, embora pudesse descrevê-la. Ao tentar fazê-lo, fui interrompido por uma moça do lado de trás do balcão [seria a filha?], que disse ao rapaz desaforado: “Eu explico”.

Depois de alguns minutos, uma surpresa inda maior do que a da véspera: aquela senhora nunca fora nenhuma “dona Ercília”. “Ercília” é uma gata que se foi. Grande, gorda, amada e morta. A outra “Ercília” ninguém sabe de onde veio, nem pra onde foi...

O prejuízo era grande. Despreparadas pra tanta gente, as moças que atendiam ontem mal viam quem entrava na loja. Não viram “dona Ercília”, nem a caridade praticada.

Pra quem pensara jamais entrar naquele Empório, eu a ele voltava—agora com o abajur e sem nenhuma índole crítica—pela terceira vez em menos de 24 horas... Não me sentindo à vontade pra devolver a peça que não estava no rol de ofertas, paguei por ela uma indecente exorbitância.

Na saída, uma das atendentes fantasiou: “Quem sabe não foi a Ercília que voltou como velhinha?...” Nesse caso, um revival ao pé da letra. E, dessa vez, completamente original.


A Ushanka e o cobertor de orelha.


Primeiro inverno em Paris, avulso e disponível, Berêncio enroscava-se num cobertor de orelha local, mulher de [alto] funcionário da então embaixada soviética na cidade-luz. Um fim de tarde qualquer, encontraram-se os 3—e um punhado mais de gente - num Café em Saint-Germain-des-Prés. Notório gozador, o russo comprazia-se em provocar Berêncio com frases sem sentido no seu perfeito francês, língua inda pouco conhecida do nosso compatriota imprudente. 

Carecão nos seus meros 32 anos, Berêncio não usava gorro, nem boina, mesmo naqueles dias gelados. A certa altura, sempre inconveniente, o russo lhe diz que ele não se preocupe, pois lhe dará uma autêntica Ushanka. Os homens riram e continuaram a beber. Justine, que não podia destoar, sorriu amarelo. Mas compensava o amante tocando-lhe pés e pernas por debaixo da mesa. Encorajado, Berêncio dispara: “L’homme qui a perdu la tête n’a plus besoin de chapeau”... 

Dmitry já se levantava para desabar sobre ele, mas, interrompido pela gargalhada confessional da esposa que valeu como difamação pública, partiu com o seu séquito, levando-a aos puxões.

No restante daquele e em vários dos invernos seguintes, o mineirinho de Arraial do Tejuco, além de um bom cobertor de orelha local por vezes, o mesmo da cena relatada, serviu-se de uma autêntica Ushanka, que, feito espólio de batalha, fora esquecida certo fim de tarde na mesa de um Café em Saint-Germain-des-Prés.



Circulando pela madrugada


Madrugada dessas, dei de lembrar dos ônibus da minha infância e adolescência. Duplas invertidas, o itinerário de um era na ida o do outro na volta.

“1” e “2”; “3” e “5”; “7” e “8”; “9” e “10”; “21” e “24”. “1”, “3”, “7”, “10” e “21” iam pela praia; os outros, pela linha 1” ou “matadouro”. Saíam de São Vicente, passavam por um pedação de Santos e voltavam. Circulares.

O “1” e o “2” pegavam a Conselheiro Nébias; o “9” e o “10”, a Ana Costa; o “3” e o “5”, a Pinheiro Machado, “canal 1”; o “21” e o “24”, a Bernardino de Campos, “canal 2”. O “7” e o “8” faziam o maior trajeto: de praia, o Itararé vicentino e toda a orla santista. Como se não bastasse, boa parte do porto e a “zona”.

Cheio, atrasado, ou pelo simples mau humor do motorista da vez, muito coletivo passava reto. Com chuva, espirrava água em quem praguejava no ponto...

Quando já meio tarde, um ou outro ônibus da “Ultra” ou do “Rápido Brasil”, da linha São Paulo – Santos [Ponta da Praia], parava nos pontos, e, por uma simbólica “caixinha”, levava-nos em confortáveis poltronas...

Naquela época, nos circulares, entrava-se por trás, saía-se pela frente; depois do meio do corredor, cobrador e borboleta. Lembro-me de quando a engrenagem da borboleta não dificultava que as crianças, isentas de pagar pela condução, passassem facilmente por debaixo dela; mais adiante, só raspando o traseiro no chão, ou ajoelhado...

Quando pequeno, os ônibus da “Viação Santos-São Vicente Litoral Limitada” eram pintados em verde e amarelo. Naquela altura, cobradores e motoristas portavam quepe [na cor verde, se bem me lembro].
Na praça do correio—Praça Coronel Lopes—, onde, além do prédio dos Correios e Telégrafos, havia o “Grupão” e o “Club de Regatas Tumiaru”, fazia ponto inicial uma linha de ônibus que levava à Praia Grande e Cidade Ocian, também a Mongaguá e Itanhaém. E no Catiapoã, ao qual chegávamos cruzando a passarela de piso de tábuas de madeira sobre os trilhos da Sorocabana, tinha ponto uma outra linha [seria o “6”?], que, parece, circulava só em São Vicente, indo até perto de onde passara a morar a minha avó materna, o número 68 da rua San Martin, na Vila Valença, então uma lonjura só desde a Frei Gaspar, 1104.
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Afora uma que outra “licença etária”, a maioria dos dados acima estará correta, embora, a bem dizer, o que menos importe aqui seja a frieza do relato preciso...