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O COLÉGIO DOS MENINOS
Padre Leonardo Nunes nasceu na freguesia de São Vicente da Beira, Concelho de Castelo Branco, Portugal, em data desconhecida e faleceu num naufrágio a 30 de junho de 1554 quando rumava a Lisboa em missão especial. Integrou a primeira expedição jesuíta liderada pelo Padre Manoel da Nóbrega, que acompanhou o primeiro governador geral do Brasil Tomé de Souza, desembarcando no Brasil no ano de 1549. Inicialmente exerceu o ministério em Ilhéus e Porto Seguro, mas logo recebeu missão especial, deslocando-se para São Vicente, capitania de Martim Afonso de Souza, ali fundando o Real Colégio de São Vicente, seminário e uma das primeiras escolas do Brasil. Para alguns historiadores a ele caberiam as honras de ter sido o primeiro Professor do Brasil. Ele teve importante papel na região do ABC, pois em 1550 em viagem a esta região, conseguiu agrupar portugueses que por aqui andavam dispersos e índios e por meio da pregação da doutrina cristã, os convenceu a construir uma ermita dedicada à Santo André, em torno da qual surgiu um povoado. Em fevereiro de 1553, Tomé de Souza em visita a esse povoado, mandou fortificar o sítio elevando-o à categoria de vila, dando-lhe o nome de Vila de Santo André da Borda do Campo atualmente São Bernardo do Campo.
Fonte: P.M. de S. Bernardo do Campo. Projeto Político Pedagógico 2012.

O CLERO INDÍGENA DA AMÉRICA PORTUGUESA
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ÁLBUM DE FAMÍLIA
UMA TÍPICA TRAJETÓRIA ESCOLAR VICENTINA
ESTUDANDO EM SÃO VICENTE ENTRE 1931 E 1942
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(... ) Quem cursou o velho grupo escolar de São Vicente, que outrora se chamava Escola do Povo, haverá de recordar-se sempre do velho “Bento”, o porteiro que tangia o sino avisando o início das aulas. Lembrar-se-á do velho professor Osório Alves, figura impressionante de mestre, que à inteligência, sabedoria e compreensão, aliava o talento de ficcionista, premiando os alunos com suas histórias saborosas de aventuras, cuja lembrança ainda nos emociona.
E a tristeza de ver desfeito e mutilado aquele formoso jardim tão cuidado, primorosamente desenhado, fronteiro à Escola, onde à noite havia projeções cinematográficas aos domingos...
Quem como eu viveu em São Vicente há trinta e tantos anos, freqüentou os bancos da Escola do Povo e repastou os olhos naquele jardim, identificou-se com a alma dessas coisas (...)
“Professoras e professores que se dedicaram com muito amor ao magistério vicentino, verdadeiro sacerdócio do ensino, formando a base cultural, cívica e moral de tantas famílias radicadas em São Vicente, através de tantos anos”.

Escola no bairro do Catiapoã nos anos anos 1940, em imóvel doado pelo morador Francisco Marques Sopa. Relatório da administração do prefeito José Monteiro em 1940.
RECORDANDO ANTIGOS PROFESSORES
SÃO VICENTE NOS ANOS 60 E 70
DALMO DUQUE E SAGRADO LIBERTO
Parque Bitaru,1973. No Grupo Escolar e Ginásio Estadual Prof. Leopoldo José de Sant'Anna, operários da Diretoria de Serviços Públicos da Prefeitura Municipal de São Vicente recuperam a estrutura do telhado, ameaçado de cair pela ação de cupins. Durante a reforma, seus mais de 600 alunos foram provisoriamente realocados no Liceu Educacional Itá, Colégio Henrique Oswald e Colégio Nissei.
Inaugurado em 1959 e demolido em 1983, este foi o primeiro prédio do Leopoldo e sua localização era exatamente onde hoje encontra-se a E.M.E.F. República de Portugal. Jornal Cidade de Santos. São Vicente de Outrora.
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Lúcio Martins Rodrigues, patrono da escola estadual na Vila Margarida. Foi o loteador do bairro que tem o nome da sua primeira esposa, a Sra Margarida Pinho Rodrigues
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https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%BAcio_Martins_Rodrigues
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Retrato pintado por Vinicius Bronzin (ex-aluno da escola) em 2011. Obra produzida originalmente a partir de um retrato fotográfico guardado pela escola e recentemente restaurada pelo Professor Marcos Mavrides.
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OBRAS EDUCATIVAS DE ANÁLIA FRANCO

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ESCOLA DO POVO

Primeira instalação da Escola do Povo, no Largo Batista Pereira.
Em 1895 começa um movimento entre os habitantes de São Vicente, que formam um Sociedade Civil, para a construção do prédio da “Escola do Povo”.
Em 1896 a Escola funcionava no Largo Batista Pereira, mudou-se depois para a Rua XV de Novembro. Finalmente em 1898, a Escola do Povo, mudou-se para prédio próprio, na Praça Cel. Lopes.
Em 1900, a Escola do Povo, oferecia nas suas salas a Exposição Arqueológica, Artística e Histórica, como parte das comemorações do IV Centenário da Descoberta do Brasil.
RELATO DO ANNUARIO DO ENSINO DO ESTADO DE SÃO PAULO


Em 1904, é fundada na Escola a Banda de Música Infantil “Escola do Povo”, e foram seus diretores Alexandre Lopes dos Santos e Jerônimo dos Santos Moura, coube ao maestro Antônio Pedro de Jesus, organizar e conduzir os meninos. Os instrumentos foram adquiridos por meio de subscrição entre o povo vicentino. Em setembro de 1909 a Banda ganha diploma e medalha em festival de Bandas realizado em São Paulo.

Em 1913, no dia 6 de agosto, depois de ampliado o prédio da Escola do Povo, o Governo cria o 1.o Grupo Escolar de São Vicente, com 8 aulas, sendo o seu diretor o prof. Antônio de Mello Cotrim.
A sua primeira Caixa Escolar é criada em 1922, nesse mesmo ano são realizadas no prédio da Escola, as festividades oficiais do 1.o Centenário da Independência do Brasil, sendo escolhida como melhor local para realização das comemorações.
Em 1947 o Interventor Federal de São Paulo, dá a denominação de Grupo Escolar “Capitão-mor Gonçalo Monteiro" ao Grupo Escolar de São Vicente, como homenagem ao primeiro Vigário e Capitão-mor, nomeado por Martim Afonso, na Capitania de São Vicente.
No ano de 1949, o Governador do Estado, muda a denominação para Grupo Escolar de São Vicente” novamente.
Em 1955 é organizado o Serviço Dentário Escolar no estabelecimento. É inaugurado a 16 de agosto de 1956 o Serviço de Assistência Alimentar.
Em 1962 é inaugurado o Parque Infantil, doado pelos pais de alunos.
Em 1963 a escola conta com Biblioteca Escolar, com 700 volumes, mantém um Orfeão Escolar e o Jornal Infantil.
Até hoje a “Escola do Povo" ou "Grupão”, passou por diversas reformas, aumentando muito a sua capacidade inicial. Na atualidade a sua denominação oficial é: Escola da EEPG Profa. Zina de Castro Bicudo.
DIRETORES
1913 – Antônio de Mello Cotrim
1914 – Gastão Ramos
1917 – Eudoro Ramos Costa
1920 - Evandro Feliciano da Silva
1924 – Adolpho Franco Figueiredo
1925 – Theotônio de Santana Espinhel Júnior
1932 - Francisco Roberto de Almeida Júnior
1939 – Leonardo Banducci
1947 – Valdomiro C. Nascimento
1949 - Manoel P. Queiroz
1955 – Maria Assunta Regina de Maria
1958 – Petronilha Grauce
1960 Elias Alves Lima
1966 - Neusa Eva Machado Lima
1968 - Elias Alves Lima
1970 – Vanda Ramos
1973 – Neusa Eva Machado Lima
1975 - João Domingos Paque
1976 - Claudete Maria Baffa
1979 – João Batista dos Santos
1980 – Edna Terezinha Sarmento Posada
1980 – Liberato Gros 1981 – Plínio Amaral
1982 - José de Almeida Pinheiro Júnior e José Augusto Parreira Duarte.
O nome dos diretores anteriores a 1913, não nos foi possível relacioná-los por falta de informação.
O Grupo Escolar de S. Vicente é hoje inaugurado oficialmente
A Tribuna, em 15 de novembro de 1913, na página 4, reservada às notícias do correspondente em São Vicente.Sem embargo de se achar funcionando há dois meses o nosso decantado Grupo Escolar, dá-se hoje, oficialmente, a abertura de suas portas às crianças vicentinas que necessitem do pão espiritual.
O ensino público no nosso Estado - toda a gente sabe - é largamente defendido e muito sabiamente; no entretanto, resultava em contraste a nossa S. Vicente, partícula deste mesmo Estado, sem um grupo escolar, sem mesmo um estabelecimento de ensino capaz de levar seus filhos a obterem os necessários ensinamentos para a grande luta pela vida! E passada a borrasca, que parecia cada vez mais tenebrosa, vem hoje a bonança, aliás muito promissora para o futuro de nossos filhos.
S. Vicente exulta, e exulta com muita razão!
A idéia concebida por Adaucto Felix de Lima e Manoel Henrique de Lima para a fundação desta escola onde a infância vicentina recebesse os rudimentos da instrução, e amparada pelo coronel José Lopes dos Santos, capitão Antão Alves de Moura e Joaquim Duarte da Silva, teve a sua realidade em 10 de junho de 1893, com a fundação da Escola do Povo, que durante dezoito anos viveu com a cooperação de muitos cavalheiros desta terra, entre os quais Francisco Emilio de Sá, Julio Mauricio da Silva, Luiz Yaukens, João Wenceslau Emerick, Alexandre Santos, dr. Percio de Souza Queiroz e Jeronymo dos Santos Moura - espalhando a instrução aos filhos de S. Vicente.
"1ª - Será fundado um grupo escolar no edifício da sociedade;
2ª - Esse grupo terá a denominação de Escola do Povo;
3ª - O governo colocará nesse grupo os professores que a sociedade contratou para o seu serviço e que são diplomados pelo Estado;
4ª - O governo obriga-se a construir um salão com capacidade suficiente para instalação da aula de música e teatro infantil;
5ª - Do terreno da sociedade serão destacados trinta metros e respectivos gradis que continuam a pertencer-lhe, na frente da Praça Coronel Lopes, fazendo esquina com a Avenida Misericórdia e fundos até a Rua Padre Anchieta, e neste terreno será construído o referido salão;
6ª - A sociedade só entrega ao governo o edifício e sua sede, à Praça Coronel Lopes, com sessenta metros de terreno e fundos até a Rua Padre Anchieta, e tirando todos os móveis, utensílios e o mais que nele existe, que continuam a pertencer-lhe".
O governo aceitou as condições acima propostas, com exceção da que se refere à colocação dos professores no próprio Grupo Escolar, por ter dúvida quanto aos mesmos terem o tempo necessário de ensino em escolas públicas, que lhes dê direito a esse lugar, mas comprometeu-se a dar-lhes colocação vantajosa em outras escolas, se a lei não lhe permitisse nomeá-los para o nosso grupo. Também não aceitou o encargo de construir o salão pedido, mas contribuiu com a importância de 15:000$000 para esse fim.
E em assembléia de 15 de julho de 1910 era o edifício da sociedade Escola do Povo doado ao governo do Estado e concedidos ao presidente da diretoria, dr. Percio de Souza Queiroz, todos os poderes necessários para, em nome da sociedade, entregar ao governo o seu prédio à Praça Coronel Lopes, assinando a respectiva escritura de doação.
Em 29 de julho de 1911, após dezoito anos, um mês e dezenove dias, era dissolvida a sociedade Escola do Povo, por não ter mais razão de existir, porquanto, com a entrega do seu edifício escolar ao governo, desistiu de prosseguir nos fins para que foi criada, sendo o seu material escolar entregue à Câmara Municipal de S. Vicente, para uso das escolas municipais. De posse do edifício, o governo do nosso Estado levou cerca de dois anos para adaptá-lo convenientemente para o funcionamento do desejado grupo escolar desta cidade.
Após uma luta insana dos dirigentes do governo municipal, S. Vicente conseguiu ver as portas da instrução abertas para os seus filhos que por aí viviam atirados à ignorância por culpa exclusiva do Estado, que protelava, injustificadamente, os serviços necessários à adaptação do majestoso edifício que se ostenta na Praça Coronel Lopes.
É justificada, pois, a satisfação que desde há dias vem se notando na população vicentina pela instalação, que se verifica hoje, do Grupo Escolar.
O belo edifício está todo internamente engalanado com flores, palmeiras e festões, num aspecto garrido e surpreendente. Os salões das diversas aulas, ornamentados pelos próprios professores, dão uma idéia chique da bela festa de hoje, nesse estabelecimento de ensino.À hora em que lá estivemos ontem, grande era a azáfama na decoração do edifício. Desde a entrada pendem cordões de flores entre palmeiras artisticamente distribuídas.
O Grupo Escolar de S. Vicente, que hoje faz a sua inauguração oficial, está sob a direção provecta do sr. Antonio de Mello Cotrim, e as aulas estão assim distribuídas:
Secção feminina:
1º ano A - professora d. Lucia Bressane - 51 alunas; 1º ano B - professora d. Iracy Nogueira Wuitke - 41 alunas; 2º ano - professora d. Idalina Viégas - 37 alunas;
3º ano - professora d. Maria Adelaide - 37 alunas.
Secção masculina: 1º ano A - professora d. Domitilia Menezes - 61 alunos; 1º ano B - professora d. Amelia Pinto do Valle Moura - 49 alunos; 2º ano - professor Osorio Bella - 48 alunos; 3º ano - professor Carlos Borba - 32 alunos.
As salas dessas aulas acham-se garridamente ornamentadas impressionando agradavelmente ao visitante. Na sala do 3º ano espalham-se pelas paredes escudos homenageando Portugal, Chile, Argentina, Inglaterra, Suíça, Turquia e Espanha, sobre os quais a bandeira do respectivo país entrelaçada com a da nossa pátria. Também vê-se escudos com os nomes do Brasil e Estado de S. Paulo. Na lousa, sobre festões, vêem-se dois escudos com os nomes do dr. Rodrigues Alves, presidente do Estado, e dr. Altino Arantes, secretário do Interior.O sr. Antonio de Mello Cotrim, a fim de que todos que se interessam pelo progresso do ensino público, nesta cidade, possam compartilhar das festas comemorativas da instalação do nosso Grupo Escolar, dirigiu convites especiais somente à imprensa e às autoridades locais, esperando, por isso, o comparecimento de todos os cavalheiros e exmas. famílias.As festas inaugurais terão começo ao meio dia. A essa hora, o diretor do grupo, corpo docente, autoridades locais, representantes do governo e da imprensa percorrerão todo o edifício.
Depois de pequeno descanso, passarão todos para o teatro do Club Vicentino, onde, pelos alunos do grupo, será executado o seguinte programa:
Primeira parte:
I - Hino Nacional, cantado pelos alunos do 3º ano. II - Hino de Saudação, cantado pelas alunas do 1º ano A, feminino. III - "A Escola", poesia pela aluna do 2º ano, Mercedes Cotrim. IV - "A Pátria", poesia pela aluna do 3º ano Mathilde de Souza Queiroz. V - "13 de Maio", poesia pelo aluno do 2º ano, Rubin Cezar Alves. VI - Discurso pelo aluno do 3º ano, Edison Telles.
Segunda parte:
VII - Valsa das Setas, pelas alunas do 1º ano A, feminino. VIII - "Nobre ambição", poesia pelo aluno do 2º ano, David Pimenta. IX - "A Bandeira", poesia, pela aluna do 3º ano, Carmen Vasques. X - "13 de Maio", poesia pelo aluno do 3º ano, Firmino Pacheco Júnior. XI - "A Tosca" (piano e violino) pelo aluno do 3º ano, Mario Santos, acompanhado pela senhorita Noemia Santos.
Terceira parte:
XII - Saudação, pelos alunos do 3º ano. XIII - Discurso, pela aluna do 3º ano, Jenny Roso.
XIV - "A Escola", poesia pela aluna do 3º ano, Leduina Riedel. XV - "As Caravelas", poesia pelo aluno do 2º ano, Renato Pimenta. XVI - "A Escravidão", poesia pelo aluno do 2º ano, Ignacio Requeijo. XVII - "A Esmola do Pobre", poesia pela aluna do 3º ano, Edith Roso. XVIII - "Serenata de Braga" (piano e violino), por Mario Cotrim, acompanhado pela senhorita Durcilia Garcez Freitas.
Quarta parte:
XIX - "Ante a bandeira", poesia pela aluna do 3º ano Vicentina Vianna. XX - "A Bandeira", poesia pelo aluno do 2º ano, Jayme de Moura. XXI - "Hino à Bandeira", pelos alunos do 3º ano. Todos novamente no edifício do Grupo Escolar, e depois do necessário descanso às crianças, será executada a Quinta parte: - Ginástica com bastões pelas alunas do 3º ano. - Ginástica simples pelos alunos do 3º ano. (Fonte: Novo Milênio)
Primeira denominação foi “Escola do Povo”
A história do Grupão começou no dia 10 de junho de 1893, no armazém de secos e molhados do capitão Antão Alves de Moura, onde um grupo de cidadãos vicentinos decidiu fundar a Escola do Povo. A maioria pertencia à Loja Fraternidade de Santos, que auxiliou no trabalho de construção do prédio.A unidade chegou a funcionar provisoriamente na Praça João Pessoa (antigamente conhecida como Largo Batista Pereira) e na Rua XV de Novembro, antes de se transferir definitivamente para a Praça Coronel Lopes, em 1898.Em 1913, a Escola do Povo passou a ser administrada pelo Governo do Estado, que resolveu ampliá-la, construindo um prédio em forma de U, dando fundos para a Avenida Padre Anchieta. Passou a ser denominada, então, Primeiro Grupo Escolar de São Vicente, com oito classes. Em 20 de dezembro de 1979, o Estado mudou mais uma vez a denominação, agora para Escola Estadual de Primeiro Grau Ziná de Castro Bicudo, que permaneceu até a desativação do imóvel como unidade escolar, há cerca de três anos, passando a ser ocupado pela Diretoria Regional de Ensino.A desativação da escola foi justificada pelos investimentos realizados pelo Estado em São Vicente, que ampliou a rede escolar em vários bairros. (A Tribuna, 26 de julho de 2004) Bico de pena de Edson Telles de Menezes do primeiro grupo escolar (grupão) no final do século XIX na Praça João Pessoa.
ESCOLAS NA IMPRENSA
ANÚNCIOS E AVISOS DAS ESCOLAS VICENTINAS NO JORNAL CIDADE DE SANTOS EM 1967
Em primeiro plano, a garagem da SAAV-Superintendência de Abastecimento de Água de São Vicente (incorporada pela SABESP), rua Fernando Costa, 60, esquina com a rua Armando Sales de Oliveira. Aos fundos as obras do prédio da E.E. Sorocabana que já teve os nomes Antônio Pedro e Vila Melo - e hoje EMEF Constant Luciano Clemente Hulmont, que era educador nessa unidade na década de 1970).
DIA DA ÁRVORE
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ZINA DE CASTRO BICUDO

A jovem educadora Zina de Castro Bicudo com as mãos nos ombros de um dos seus alunos vicentinos.
ZINA DE CASTRO BICUDO, UMA VIDA VOLTADA PARA A EDUCAÇÃO
Lizete Moraes* - Maria Suzel Gil Frutuoso**
Ações culturais, sociais e políticas.
Nascida na cidade de Santos em 25 de setembro de 1905, às quatro horas, em casa, na Rua da Constituição 177 B, conforme reza a sua certidão de nascimento e falecida em 19 de outubro de 1977. Filha legítima de Roberto de Campos Bicudo, natural de Capivari e Urbana de Castro Bicudo, natural de Campinas. Neta paterna de Luiz de Campos Bicudo e Thereza do Amaral Mello e neta materna de João Gabriel de Castro e Anna Maria Cordeiro de Castro. Seu pai, o senhor Roberto, mudou-se para Santos em 1887 e conheceu dona Urbana, de tradicional família campineira, na casa de parentes comuns no Guarujá. Casaram-se onze anos depois. A residência do casal fixada na Baixada Santista deveu-se, de acordo com informações da família, à profissão de corretor de café, uma vez que Santos era considerada à época a maior praça cafeeira do planeta, sendo a profissão de corretor, uma das mais prestigiadas. Presume-se que a mudança da família de Santos para São Vicente, por volta de 1909, deveu-se ao clima da cidade ser bem mais ameno, mais aprazível e salutar, com população de número bem inferior à cidade vizinha, oferecendo melhores condições e cuidados para com os pequenos. Bartira, Vasco, Rui, Zina, Yago, Elza, Dirce, Saulo, Maria Luiza e Lucia, compunham a prole do casal Castro Bicudo, respeitado e prestigiado pela comunidade vicentina do século XX, tomando-se como referência as ações que revelaram os valores morais e a dignidade da família.
A relevante atuação e prestígio da família Castro Bicudo é atestada pelo número de homenagens, agradecimentos, medalhas, diplomas de honra ao mérito, cartas e reportagens na mídia impressa, que integram o acervo composto por documentos pessoais. Quando do falecimento do senhor Roberto de Campos Bicudo, a Câmara Municipal de São Vicente prestou-lhe uma homenagem na qual demonstrou a grande consideração pela família Bicudo:
Tendo se dedicado ao comércio cafeeiro, exerceu o ilustre – extinto a gerência de várias firmas, entre elas Lara Toledo & Cia., Ferreira da Rosa & Cia. e, por último,Pedro Mello & Cia. Dentre os seus muitos relevantes serviços, colaborou com os santistas nas campanhasabolicionista e republicana. E trabalhou, Roberto de Campos Bicudo, com todas as suas forças, enquanto as teve; trabalhou, movido por uma inteligência viva e aguda, verdadeiramente incomum, e inspirado por um ideal de probidade cujo cumprimento o eleva ao nível dos varões ilustre das nossas crônicas. As ações de benemerências demonstram o envolvimento da família Bicudo nas questões sociais da comunidade. O senhor Roberto foi agraciado com o Diploma da Irmandade da Terra Santa, indicador dos princípios cristãos e participação ativa na igreja, extensivos aos demais membros da família, a exemplo da professora Dirce de Castro Bicudo, que atuou como assistente do 4º Congresso Eucarístico Nacional.
Roberto de Campos Bicudo, Saulo e Yago de Castro Bicudo emprestam seus nomes a logradouros e Zina à antiga Escola do Povo, o “Grupão”, criada no final do século XIX, (hoje ETEC Ruth Cardoso), marco do ensino primário público em São Vicente, que passou a se chamar no ano de 1979, Escola Estadual de 1º Grau Profa. Zina de Castro Bicudo, em homenagem à educadora. Assim como a família, a formação religiosa e cultural da professora Zina foi aprimorada ao longo de sua vida e dedicada também às ações sociais e de benemerência. A certificação do Curso de Pedagogia Catequética da Liga da Professora Católica da Diocese de Santos, do Colégio Stella Maris, oferecido no período de 14 de abril a 24 de agosto de 1958, demonstram o empenho em sua formação para preparação da vida religiosa dos jovens.
Seus guardados, caprichosamente conservados, tornam-se acervo da memória familiar e da história educacional do município de São Vicente, atestando a relevância e consideração pelo povo e pela cidade que, mesmo não sendo a de sua naturalidade, lhe era muito cara. Em uma folha de papel de caderno, amarelada pelo tempo e escrita com a própria letra consta uma poesia intitulada “Saudação a São Vicente”, sem registro de autoria, que levanta a possibilidade de ser a própria, a autora da poesia.
[...] Cidade encantamentoCélula de outras mil
Tu és um monumento
Da história do Brasil
Teus filhos foram por ínvios caminhos
Entre perigos e lutas sem par.
E, abrindo estradas, construindo ninhos,
Este país lograram dilatar [...]
O encanto dessa mulher não estava em sua aparência física e sim, na cultura, educação, elegância de se conduzir e nas causas que defendia, na dignidade expressa em seu jeito de ser, revelada por seus valores humanísticos, dedicação à família e à comunidade. Era discreta, falava baixo, não se abria muito, mas muito centrada nas atividades pedagógicas. Era uma pessoa muito querida. Nunca usava pintura, séria, focada, grande conhecimento, falava e orientava com disciplina e bondade. Era uma mulher de decisões.
Professora Zina era pessoa admirada na sociedade vicentina, não somente na área educacional, como também nas esferas cultural e política. Além da sua credencial de vicentina, das mais dignas e prestimosas, tem você o título de professora, que conquistou pelos seus méritos próprios, e ao qual tem dado indiscutível relevo no arduíssimo exercício do magistério, em longos anos sem repouso, trabalhando com afinco e patriotismo pela instrução e educação de várias centenas de jovens, esperanças de ontem, realidades de hoje, no sentido do engrandecimento do nosso querido Brasil. Nessa espinhosa jornada, o seu nome fulgura, nessa terra que tanto a quer e que tanto lhe deve, porque você, na realidade, tem sido e é uma batalhadora infatigável, sem desânimos e sem canseira, que tem realizado o máximo possível em benefício da família escolar.[...] Fala-se agora – e eu dou a notícia em primeira mão, plenamente satisfeito – que você, minha distinta conterrânea, vai assumir a direção do Partido Democrata Cristão, nessa terra, afim de pôr em ordem o que se encontra desorganizado.
A assunção da presidência do partido, citado pelo autor do bilhete em sua entusiasmada manifestação, demonstra que a professora Zina era uma pessoa atilada com a política partidária. O Partido Democrata Cristão foi fundado em São Paulo, no dia 9 de julho de 1945, pelo Professor da Universidade de São Paulo, Antonio Ferreira Cesarino Júnior e entre seus membros destacam-se os nomes de André Franco Montoro e Jânio Quadros. Com relação ao Programa do Partido
“[...] se oferecia como alternativa entre o capitalismo liberal e a doutrina socialista revolucionária.” Os democratas cristãos defendiam “[...] os valores familiares e sobre o papel das comunidades intermediárias, no respeito pela propriedade privada, na busca da participação nas relações de trabalho e no pluralismo político”
O programa do partido ia ao encontro dos princípios abraçados pela professora Zina no que tange aos valores cristãos e familiares e a sua postura, uma vez que não se limitava à mera expectadora da realidade. Ela atuou como primeira Secretária do Conselho Deliberativo da Sociedade de Assistência à Infância, fundada em 26 de setembro de 1941, na cidade de São Vicente; também como primeira Secretária da Diretoria da Associação Feminina Santista em Santos. Foi componente da Comissão de Alfabetização de Adultos da cidade de São Vicente e trabalhou para expansão das escolas nos bairros de Guamium, Barreiros e Nossa Senhora do Amparo.
Uma das causas acompanhada e defendida pela professora Zina foi, sem dúvida, a oferta de instrução de qualidade na Baixada Santista e que não se limitava ao discurso teórico enriquecido pelas leituras e questões sempre atualizadas, mas especialmente pela força de sua atuação fomentada pelo espírito de luta e defesa de ideais.
Em sua participação na enquete “A que atribui a decadência do ensino?
”, Zina expressa: Prefiro, no entanto, considerar o estado atual do ensino não propriamente como decadente, mas como culminante de uma crise de crescimento em que a quantidade dos que procuram se instruir forçosamente prejudicou a qualidade. Convenhamos, porém que a quantidade também é uma boa qualidade, pois é índice seguro da aspiração de progresso de nosso povo. Tempo houve em que os serventes dos grupos saíam pelos arrabaldes recrutando crianças e multando os pais displicentes, ao passo que hoje, nos dias em que se abrem as matrículas, vemos os diretores das escolas públicas em dificuldade para atender o grande número de candidatos e evitar atropelos. O desenvolvimento do Brasil tem sempre ultrapassado a previsão dos nossos homens de governo, forçados assim a solucionar as situações já criadas e impossibilitados de lançar planos que atendam as necessidades futuras. Contudo, se não queremos tachar de decadente a instrução, não podemos sem fugir à realidade, deixar de constatar a sua deficiência, quer no curso primário, quer no ginasial.
A enquete, que contou com a participação de eminentes figuras do ensino, foi acompanhada e elogiada por autoridades ligadas à educação e pela sociedade. Participaram, além da professora Zina, então professora do Colégio Stella Maris e do Liceu Feminino Santista, o Dr. Simões Filho, ministro da Educação e Saúde, a Sra. Lúcia Magalhães, diretora do Ensino Secundário no Brasil, Prof. Paulo A. Siqueira, catedrático do Colégio Estadual Canadá e o Dr. Paulo de Almeida, cirurgião dentista, que embora não sendo professor, manifestou sua opinião a respeito do tema no seu papel de pai de aluno.
A opinião de Zina era requisitada e respeitada nos mais diversos assuntos. Fato confirmado por documentos analisados, declarações dos entrevistados e as lembranças de sua sobrinha Marília Dreyfuss.
À sua atuação como educadora, soma-se a prática de ações sociais e de benemerência, que foram constantes em sua vida. Em janeiro de 1927, ainda com 22 anos de idade, recebeu o Diploma de Irmã Honorária da Irmandade do Hospital São José e o Diploma de Sócio Honorário da Associação Protetora do Hospital São José. Agraciada em agosto de 1952 com o Diploma de Irmão Benfeitor da Irmandade do Hospital São José; em 8 maio de 1955, com o Diploma de Sócio Benfeitor da Sociedade de Assistência à Infância e em maio de 1962, foi-lhe conferido o Diploma de Mérito pela colaboração prestada à Cruzada pela Sobrevivência da Santa Casa.
Cabe ressaltar a sua atuação em ações culturais. Ocupou a Cadeira número 45 como membro do Instituto Histórico Geográfico de São Vicente, cujo patrono é o padre Luiz da Grã.
Dentre as inúmeras atribuições, o canto coral mereceu grande atenção. Constam em seu acervo fotografias e recortes de jornais, que registram a participação de suas irmãs e de sua mãe e testemunham a música como parte relevante da cultura familiar.
Em outubro de 1955, foi homenageada pelo Coral de São Vicente com o Diploma de Honra ao Mérito, pelo reconhecimento por sua colaboração ao grupo, regido e dirigido à época pelo maestro Azevedo Marques. D. Zina de Castro Bicudo, sem dúvida alguma a alma e vida do conjunto, pronunciou em seguida belíssima saudação, agradecendo ao Atlântico e a todos seus esforços e compreensão, embora arrostando sacrifícios para atingir aquele louvável grau de aperfeiçoamento.
Falaram ainda, o dr. Alberto Lopes dos Santos, componente do coral, e o maestro José Jesus de Azevedo Marques, este agradecendo as simpáticas referências feitas à sua pessoa e a homenagem à sua esposa.
Professora Zina deixava-se envolver e comprometia-se com rigor e responsabilidade em todas as áreas nas quais se propunha a atuar.
Formação Acadêmica
Entre os documentos pessoais analisados, não foram encontrados registros sobre a sua formação docente inicial e documentação que comprove ter realizado o Curso Normal; o que seria possível somente se tivesse estudado em outro município, que não os que constituem os da Baixada Santista.
Entretanto, considera-se a hipótese de ter sido uma das alunas do Liceu Feminino Santista, que oferecia, desde o ano de 1902, o “Curso Superior de Professora de Escolas Preliminares ou Diretora de Escolas Maternais e Curso Complementar de Professora de Escolas Maternais”. Liceu Feminino, um marco na formação de professores A cidade de Santos contava para formação de docentes desde 1902 com o “Liceu Feminino Santista”. Teve seu primeiro pedido de equiparação oficial no ano de 1905, solicitação encaminhada pela Associação Comercial de Santos. Negada a equiparação pelos poderes públicos, continuou a funcionar “como uma verdadeira Escola Normal Livre”. Registrada em 1937 como professora particular de curso primário e, em 1947, através do Certificado emitido pela Secretaria de Ensino Secundário, Decreto Lei 8.777 de 22 de janeiro de 1946, obteve a habilitação para lecionar Português, Geografia Geral e Geografia do Brasil no Segundo Ciclo, em qualquer parte do território nacional. De acordo com o decreto número 19.890 de 18 de abril de 1931, disposto em seus artigos 68, 69 e 70, o “Registro de Professores” determinava condição e possibilitava a autorização para lecionar no ensino primário e nas disciplinas do currículo do ginásio, mediante critérios de avaliação específicos. Cumpre ressaltar, entre esses critérios, a competência para a função docente, comprovada através do conhecimento das áreas específicas e da didática. O acesso a cursos de formação e de atualização não eram comuns na Baixada Santista, assim como em São Paulo, com ofertas praticamente escassas em uma época em que os meios de transporte eram limitados. O compromisso da professora Zina com o investimento em seus conhecimentos pedagógicos e de gestão administrativa, buscados na literatura, na observação e análise das práticas e dos resultados, amplia a admiração por esta mulher que superou dificuldades e obstáculos e encontrou caminhos que levaram à realização de projetos isentos de fins individuais e, sim, voltados à sociedade vicentina.
Diplomou-se no Curso Superior de Língua Francesa pela Associação de Cultura Franco Brasileira de Santos, Aliança Francesa, em dezembro de 1950. Em janeiro de 1951, recebe o diploma da “Ecole Pratique de Langue Française”.
Atuação Profissional
Ainda bem jovem já atuava na formação de crianças como professora ou auxiliar de turma. A instituição “Externato Moderno São Vicente”, como consta na figura número 4, não foi identificada em registros históricos sobre as escolas do município de São Vicente ou na cidade de Santos. O primeiro registro como professora é pelo Ginásio Stella Maris, em Santos, datado de 15 de maio de 1928, constando sua saída em maio de 1946. O segundo registro é no Colégio Alemão, em março de 1930; trabalho concomitante ao do Colégio Stella Maris.
Em 1931, funda o Colégio São Paulo no município de São Vicente. Retorna ao Colégio Stella Maris em março de 195129, permanecendo na instituição por um ano. Pela Associação Feminina Santista lecionou de setembro de 1934 a março de 194330, retornando à Associação em março de 1949. Integra a Diretoria da Associação Feminina Santista nos anos de 1952 e 1953, como primeira Secretária32. Ingressa no Colégio Tarquínio Silva em maio de 1953, permanecendo até fevereiro de 1957.
Em maio de 1953, ao completar 25 anos de atividade docente, recolheu aposentadoria de todo o salário e, em março de 1964, retorna às atividades e assume a direção do primário do Colégio Stella Maris.
Destacou-se pela atuação como docente em escolas renomadas da cidade de Santos; concomitantemente, atuou como administradora e gestora do Colégio São Paulo; inicialmente no endereço de residência de sua família e,posteriormente, como Ginásio Martim Afonso, contemplando com satisfação a demanda de jovens e de seus pais por uma instituição ginasial em São Vicente.
Colégio São Paulo
Em São Vicente a Escola do Povo, conhecida popularmente como Grupão e mais tarde Grupo Escolar de São Vicente, oferecia o Curso primário atendendo crianças nos primeiros anos escolares. Entretanto, uma parcela da população optava por enviar os filhos às escolas particulares, que geralmente funcionavam na residência das professoras.
Nesse contexto é criado o Colégio São Paulo, pelas irmãs Castro Bicudo, ocupando a função de diretora a professora Zina. Essa instituição passou a atender a uma clientela com condições financeiras, para arcar com as despesas de uma educação privada, com salas menos numerosas.
Em 1931, iniciaram-se as atividades do Colégio São Paulo na praça Coronel Lopes, número 28, esquina com a rua João Ramalho, estendendo-se até à rua Padre Anchieta, em São Vicente. Alguns relatos coletados nas entrevistas afirmam que o prédio da escola era um casarão construído em um terreno grande, na residência da família Bicudo, vizinho à Escola do Povo. A demanda pelas matrículas e a mudança da família para a Rua XV de Novembro obrigou a busca por espaços mais amplos: Com o crescimento da escola que alcançou grande prestígio pelo seu alto padrão educacional o colégio transferiu-se em 1934 para o prédio da praça Coronel Lopes, esquina com a Praça da Bandeira. Em 1936 por necessitar de maior área construída, para ampliação de suas classes, o Colégio São Paulo foi transferido para a Rua Martim Afonso, instalando-se na antiga casa do pintor Benedito Calixto (hoje nº 190), de onde se mudou em 1939 para a Rua 11 de Junho [...], para funcionar como o Primeiro Ginásio de São Vicente.
O empreendimento, que requereu uma série de providências burocráticas, organização de espaços e currículos, recebeu em 03 de abril de 1933 autorização de funcionamento da Diretoria Geral de Ensino; órgão, à época, responsável pela autorização e acompanhamento das unidades escolares na região.
Cabe ressaltar os fundamentos legais que amparavam a iniciativa dos educadores empreendedores e mantenedores do ensino particular, fiscalizados por inspetores para o cumprimento do disposto no artigo 149, páginas 45 e 46, do Código de Educação do Estado de São Paulo, decreto número 5.884 de 21 de abril de 1933:
O Serviço de Orientação e Fiscalização do Ensino Particular tem por objetivo fiscalizar as escolas particulares de todo o território do Estado, velando por que nelas se cumpram as disposições deste Código, e orientar o ensino nesses estabelecimentos, respeitada a autonomia didática de seus professores, de modo a dar-lhe feição condizente com os interesses nacionais.
A autora do empreendimento buscou oficializá-lo, apesar das exigências burocráticas que deveriam ser cumpridas, prevendo a regularidade da situação escolar das crianças matriculadas e a idoneidade do colégio. O registro do acompanhamento da inspeção de ensino, iniciado em 1933, é testemunho da dedicação e do cuidado em manter uma instituição cumpridora das políticas educacionais e dos parâmetros relativos à qualidade do ensino.
“Em visita ao Colegio São Paulo, modelar instituto de educação inteligentemente dirigido pela professora Zina de Castro Bicudo, observei muita ordem e disciplina. Examinei os cadernos de trabalhos gráficos dos alunos, que revelam adiantamento, prova de que aqui as professoras trabalham com carinho pelo progresso dos alunos. Conversei com as senhoritas professoras aconselhando o uso das series de linguagem escrita. Dei instrução detalhada sobre a maneira de se fazer corretamente escrituração escolar. É indispensável que se faça mensalmente separados por classe os resumos do movimento, de sorte a ser facilitado, ao fim do ano letivo, o preparo das estatísticas oficiais”.
São Vicente, 31-08-1933. Malaquias de Oliveira Freitas. Inspetor de Ensino Particular.
O Colegio São Paulo, otimamente instalado e com excelente material didático, está em condições de mercê também da dedicação e cultura do seu corpo docente, de dar ótima instrução ás crianças que o frequentam. Estão matriculados 68 alunos – 35 meninos e 33 meninas. Examinei em geografia os alunos do 2º ano. São Vicente, 2 de agosto de 1934.
Malaquias de Oliveira Freitas. Inspetor de Ensino Particular.
A administração do Colégio São Paulo não provocou o desligamento de Zina como professora de escolas da rede privada em Santos, comprovado pelos registros em Carteira Profissional, aumentando seu compromisso como docente e gestora. Exerceu a função de diretora da escola, enquanto suas irmãs, Dirce e Elza atuavam como professoras. A equipe, composta pelas irmãs Bicudo, inovou a educação em São Vicente, quando atendeu a demanda das famílias da classe média do município: “Foi o consolidador do ensino particular de São Vicente [...] o mais completo colégio particular, com Jardim de Infância e Primário e posteriormente o 1º Ginásio, com o nome MARTIM AFONSO”.
Manifestando admiração e reconhecimento pela iniciativa e pelo trabalho das irmãs Castro Bicudo nessa instituição educacional, vale ressaltar o artigo escrito por “Um Vicentino” no Jornal Gazeta de São Paulo: UM ESTABELECIMENTO DE ENSINO QUE HONRA S. VICENTE
O Collegio S. Paulo, fundado recentemente na vizinhacidade, sob a direção da senhorita Zina Bicudo, realizou ante-hontem, no pitoresco recanto do “Bugre”, a sua festa de encerramento do ano lectivo.
A interessante reunião, de cujo programma constaram numeros de declamação, canto e representação de ligeiras peças theatraes pelos alunos de ambos os sexos, proporcionou á festa o ensejo de avaliar o grau de adiantamento das creanças, dando aos seus papeis um desempenho á altura de verdadeiros artistas de 4 a 12 anos de edade...
A todos impressionou a veia artística dessa “troupe” infantil que se exhibiu no teatrinho do “Bugre”, revelando todos os seus componentes a instrucção aprimorada que vêm recebendo no conceituado collegio da praça Coronel Lopes.
É o contraste evidente dos velhos processos de ensino em nosso paiz, quando a palmatoria figurava ainda como elemento decisivo no despertar das nossas energias intellectuaes...
Apavora-me essa rotina seguida pelos nossos antigos educadores querendo modelar cérebros á sua imagem, sem jamais favorecer o desenvolvimento da personalidade com a experiência que os tempos iam proporcionando na sua contínua sucessão.
Presente á festa do “Bugre” e á exposição brilhante dos trabalhos manuais executados pelos alunos durante o anno, senti-me orgulhoso dessa manifestação inegável do progresso de minha terra, através da cruzada educativa, moderna e proveitosa, em que se empenham as prendadas irmãs Bicudo.
“Coordenando, organizando, unificando as forças culturaes, penetrando ao coração de nossa creança, através de uma didactica persuasiva, sustentada pela razão clara e firme, pela demonstração viva e palpitante”, o Collegio S. Paulo vae executando um trabalho digno de admiração e do apoio incondicional da população vicentina.
Que essa tarefa prossiga sem vacilações por parte das competentes educadoras de São Vicente, - a tarefa árdua, mas sublime do magistério - pois, como disse Froebel: “Educação - exemplo e amor - nada mais”.
Relatos de alguns dos entrevistados e registros deixados pela professora Zina denotam que essa educadora e suas irmãs possuíam concepções de escola e práticas que possibilitavam ao educando: aprender fazendo; método defendido por Anísio Teixeira, fundamentado nas teorias de John Dewey.
A jardinagem, a preparação das crianças para atuar na encenação de textos, escritos ou adaptados de histórias infantis pela professora Zina, o canto e a participação de um senhor que vinha de Santos e que ensinava a fazer os cenários das peças teatrais, podem ser consideradas práticas inovadoras adotadas pelo Colégio São Paulo, em uma cultura escolar que adotava as lições e exposição dos docentes como única maneira de aprender.
O testemunho da senhora Déa, ex-aluna do Colégio São Paulo, relata que a professora Zina e irmãs eram pessoas muito cordiais e na escola havia um ambiente de aconchego e grande interesse pelas crianças: “Além das aulas normais do curso primário, havia um jardim, um quintal com plantas e as crianças plantavam e cuidavam de plantinhas. Além das brincadeiras no recreio, havia passeios instrutivos na praia.[...] Dona Zina era uma pessoa educada, inteligente, culta e elegante. Tinha firmeza em suas opiniões”.
As práticas pedagógicas desenvolvidas pelas professoras concordavam com o disposto no artigo 238 do Código de Educação do Estado de São Paulo, decreto número 5.884 de 21 de abril de 1933, página 67:
O ensino terá como base essencial a observação e a experiência pessoal do aluno, e dará a este largas oportunidades para o trabalho em comum, a atividade manual, os jogos educativos e as excursões escolares.
§único – O uso de manuais escolares, indispensáveis como instrumentos auxiliares do ensino, deve ceder a passo, sempre que possível, a exercícios que desenvolvam o poder de criação, investigação e crítica do aluno.
É possível reconhecer a espontaneidade e alegria dos grupos de crianças nos registros de atividades realizadas fora do espaço escolar e que já demonstram “o estudo do meio” como recurso de uma prática que possibilita ao educando aprender através da observação, coleta e organização.
Para os sobrinhos da professora Zina, a leitura dos livros de histórias em capítulos à noite era extremamente agradável e inesquecível. Arrisca-se afirmar que o objetivo era o de despertar o interesse pela leitura e a curiosidade; um dos caminhos para incentivar a construção do conhecimento. Não houve relatos dos ex-alunos entrevistados sobre essa prática; entretanto, defende-se que nessa situação concepções apropriadas são incorporadas às posturas pedagógicas e didáticas dos educadores.
Ginásio Martim Afonso
A rua 11 de Junho, no bairro da Boa Vista, foi o último endereço do Colégio São Paulo e o primeiro do Ginásio Martim Afonso. Constata-se algumas informações divergentes sobre a instalação do Ginásio Martim Afonso; sem dúvida trata-se do antigo “Colégio São Paulo”.O relato da senhora Cecília, que atuou como professora no Colégio São Paulo e mais tarde como secretária do Ginásio Martim Afonso, responde em parte, ao questionamento sobre o aporte financeiro da professora Zina para o investimento:
Dona Zina amadureceu a ideia de não ter só quatro anos de aula. A ideia dela era pra frente [...] e o colégio não tinha vaga, estava apertado. Os bancos eram aqueles bancos antigos de dois lugares e a Boa Vista inteirinha era de palacetes de estrangeiros que trabalhavam no café. Era um bairro de elite. Então, o pessoal de lá se juntou e foi falar com Dona Zina. Disseram que era muito difícil eles mandarem todo o dia para o Colégio Stella Maris, quando a pirralhada chegava no quarto ano. Perguntaram se Dona Zina não queria que o Colégio virasse um ginásio, porque assim as crianças entravam e faziam todos os quatro anos primário e mais os cinco do ginásio. Eu não participei disso, eu só soube como é que aconteceu.
O Jornal “A Tribuna” publicou em duas notícias, datadas de 13 de outubro e 04 de dezembro de 1938, sobre a criação de um Ginásio em São Vicente, demonstrando que já havia cogitações nesse sentido: “O seu corpo docente será composto por pessoas de reconhecida competência e idoneidade, constando mesmo que a direção dessa nova casa de ensino será confiada a conhecido e emérito educador aqui residente”.
O Ginásio é fundado em 22 de janeiro de 1939, na cidade de São Vicente, com o nome de Ginásio Martim Affonso, situado na rua 11 de Junho,número 43, onde já funcionava o Colégio São Paulo. É feita a fusão entre o curso primário, oferecido pelo já reconhecido colégio administrado pela professora Zina, e o curso ginasial, tão aguardado pela sociedade vicentina.
Em um mesmo informativo consta uma comunicação da professora, então mantenedora do Colégio São Paulo, e outra, dos signatários do Ginásio Martim Affonso, esclarecendo a fusão, divulgação e convite à matrícula:
Exmo. Senhor.
Venho, pela presente, comunicar-lhe que tendo recebido dos Snrs. Drs. Luiz Silveira, Adelino Leal e Antenor Paz, a proposta para fundir o meu Colegio São Paulo com o modelar Ginasio que se propunham fundar, considerei, primeiramente, o interesse dos alunos. Entre as vantagens que lhes adviriam dessa fusão, ressalta o fato de poderem completar a educação no mesmo estabelecimento, não sofrendo assim os prejuízos consequentes de alterações no método de ensino ou no sistema de educação. Reconhecendo, tambem, a importancia do empreendimento e, principalmente, a relevancia dos nomes que o encabeçam, deliberei aceitar o honroso convite para cooperar na realização de um justo desejo do povo vicentino.
Dess’arte, a 22 de janeiro de 1939, será inaugurado o sucessor do “Colegio São Paulo”, o “Ginasio Martim Affonso”, que será dirigido pelo Snr. Dr. Luiz Silveira, homem cujas altas qualidades morais e intelectuais prescindem de qualquer referencia minha, visto serem sobejamente conhecidas pela sua atuação, não só no magisterio superior , como na imprensa, e nos elevados cargos que tem desempenhado.
Farão parte, também, da Diretoria, os srs. Dr. Adelino Leal, ex-Diretor do Laboratorio Bromatologico do Estado de São Paulo e fundador dos Ginasios Oswaldo Cruz e Minerva e Antenor Paz, cuja cultura já é bastante conhecida em nosso meio. O Curso Primario continuará sob minha direção, e o ensino será ministrado pelas mesmas professoras. Assim poderão os alunos usufruir de todos os melhoramentos que serão introduzidos, e receberão a instrução por métodos pedagogicos já experimentados e eficientes.
Assim sendo, espero que o “Ginasio Martim Affonso” continue a merecer-lhe a preferencia, pois, auxiliada pelos valiosos elementos aos quais me associei, sinto--me mais capaz de corresponder á confiança com que V. Exa. Sempre me honrou e mais apta a atender-lhe a justas exigencias relativas á instrução e educação de seus filhos.
Respeitosas saudações
Zina De Castro Bicudo
[...] ministrar a instrução primaria e secundaria a alunos de ambos os sexos. Terá, ainda, um curso comercial e um Jardim da Infancia onde serão admitidas creanças de 5 a 7 anos de idade. [...] Não tendo sido possível aos organizadores do Ginasio, por angustia de tempo, socilitarem inspeção federal para o estabelecimento, o curso ginasial e do comercio só poderão ser iniciados em março do ano vindouro50.
Entretanto, a sociedade entres os signatários foi encerrada em 9 de agosto de 1939, uma vez que:
[...] em virtude de disposições do decreto federal, o ministério da Educação resolveu suspender o registro de professores para o curso secundário, estabelecendo ainda que, de 1943 em deante, só poderiam lecionar as matérias desse curso os diplomados pelas Faculdades de Filosofia, Ciencias e Letras. Em conseqüência dessas novas disposições teria o Ginasio de contratar professores devidamente habilitados para iniciarem o curso ginasial em 1940. Isso importaria em aumento de despesas que a receita prevista não comportaria. [...]
Submetido o assunto á deliberação dos quotistas presentes, resolveram estes, por unanimidade, dissolver o contrato firmado em 5 de janeiro do corrente ano e que tinha por escopo explorar o Ginasio Martim Affonso. As despesas com o Ginásio praticamente consumiam os investimentos mensais dos cotistas. Quando a sociedade foi desfeita ficou resolvido que:
[...] a desistencia de toda e qualquer reclamação referente ás quotas subscritas, cedendo, como cedem, todos os seus direitos, sem indenização alguma, á quotista
D. Zina de Castro Bicudo que, como diretora do Colegio São Paulo, entrou para a Sociedade com o ativo do mesmo Colegio constante do material escolar e do nome do estabelecimento, sem divida alguma, e dirigiu e lecionou no Ginasio até esta data sem receber remuneração de qualquer especie.
Embora, sem a autorização imediata do Departamento Nacional de Educação, os esforços da professora Zina para contemplar as exigências do decreto número 21.241 de 04 de abril de 193253 foram hercúleos. Resiliente, assumiu a incumbência de levar adiante o projeto ansiado e apoiado pela sociedade vicentina e, no ano de 1940, reitera o pedido de autorização e abre as matrículas para o curso ginasial. Está, pois o nosso Ginasio por muitos motivos fadado a um êxito certo e a um futuro muito promissor, sobretudo porque, para vencer as primeiras dificuldades da sua instalação, congregou os elementos essenciais á sua estabilização: o apoio e o prestigio da Prefeitura, o esforço e a competência de Corpo Docente, o estimulo e a confiança dos pais dos alunos e a simpatia geral do povo de S. Vicente.
O valor do depósito, que deveria ser feito na Tesouraria Geral do Ministério da Educação e Saúde, era superior aos seus recursos financeiros e ao manifestar a dificuldade, contou com a colaboração dos pais dos alunos devido à confiança e respeito que cultivara com seu trabalho e o de suas irmãs. Mas não foram somente as questões financeiras para o depósito inicial, exigido pelo Departamento Nacional de Educação para concessão de inspeção a estabelecimentos de Ensino Secundário, que tornaram espinhoso o desenvolvimento do sonhado projeto da comunidade vicentina. O prédio da rua 11 de Junho não correspondia às exigências da legislação em relação ao espaço físico e a luta tornou-se árdua. Empreendeu todos os esforços possíveis, chegando a solicitar pessoalmente a intervenção do Ministro da Educação, Sr. Gustavo Capanema, enquanto aos que creditavam-lhe confiança em sua competência, buscava meios junto ao presidente Getúlio Vargas.
Com autorização do Snr. Prefeito foram passados ao chéfe da Nação, o Dr. Getulio Vargas, ao Ministro da Educação, Dr. Gustavo Capanema, telegramas subscritos por diversas pessoas que pediam fosse suspensa a ordem de fechamento. Ainda o Snr. Pires do Rio pediu a intercessão de seu amigo D.R. Rodrigues Alves Sobrinho, então Secretário do Estado, que muito se interessou pelo caso. Como depois de decorridos 2 meses nenhuma solução favorável se tivesse obtido, a conselho do Sr. Secretário e com sua recomendação segui para o Rio afim de tratar pessoalmente do assunto.
Após obtenção da ordem de prosseguimento das atividades educativas do ginásio, através da intermediação do senhor Rodrigo Pires do Rio e do Dr. Rodrigues Alves Sobrinho, iniciaram-se os estudos para a reforma do prédio, que contou com o auxílio do prefeito de São Vicente, o engenheiro Polydoro de Oliveira Bittencourt. Em junho de 1.943 foram inauguradas as atuais instalações do ginásio e em dezembro, afim de melhor garantir a sua estabilidade, com empréstimo conseguido por intermédio do Snr. Pires do Rio, adquiri o imóvel e hipotequei-o para pagar algumas das dívidas contraídas com a reforma. Chama a atenção o fato da numeração do edifício variar em alguns documentos, na hipótese de ter havido a unificação de imóveis. São citados os números, 14, 42 e atualmente 102. Sob a administração da professora Zina a escola formou cinco turmas. Mas os gastos acumulados durante os anos de batalha, os juros da hipoteca da casa, os custos com o material didático e a justa valorização dos salários dos professores, não permitiram que prosseguisse. Por isso, outra batalha iniciou-se por volta de 1945: para não fechar as portas ofereceu o Ginásio à Prefeitura, comprometendo-se a acompanhar e colaborar no que fosse necessário, pois sabia que muitos jovens dependiam da instituição para que continuassem estudando.
“Em 23 de fevereiro de 1948 por proposta do Deputado Lincoln Feliciano, a Lei nº 7560” “[...] creava o Ginásio Estadual em S. Vicente, o Ginásio Martim Afonso dava por concluída a sua missão[...]61” passando oficialmente a funcionar através da administração do Estado de São Paulo em 28 de abril de 1948.
Embora a Constituição de 1934 instituísse o direito de todos à Educação, não havia de fato a democratização do ensino, sendo furtada a muitos a possibilidade de conclusão da educação primária. A obrigatoriedade passa a vigorar a partir da Carta Magna de 1988, artigo 245, reforçada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação número 9.394 de 1996, quando a educação passa a ser Direito Subjetivo.
Assim, ampliar o número de escolas no município de São Vicente, representava para professora Zina a oportunidade de oferecer aos munícipes uma opção de manter suas crianças estudando próximo de suas residências e uma educação diferenciada, de acordo com seus ideais pedagógicos e capacidade de administrar recursos humanos e materiais.
O Colégio São Paulo, além do valoroso trabalho educativo desenvolvido por cerca de oito anos, foi a gênese do Ginásio que manteve, por muitos anos, o prestígio de uma escola responsável pela formação acadêmica dos jovens, da alfabetização à formação secundária. O percurso empreendido da escola primária, Colégio São Paulo ao Ginásio Martim Afonso, exigiu vontade, abnegação e capacidade de administrar as adversidades na concretização do sonho em realidade. Sonho este que não foi só da professora Zina, mas de jovens e de suas famílias para que pudessem prosseguir seus estudos.
As dificuldades financeiras enfrentadas por Zina de Castro Bicudo na educação vicentina, durante os anos em que lutou pela autorização do ginásio e pelo necessário investimento na estrutura física do prédio da escola, não abalaram seu compromisso para com uma educação de qualidade, fundamentada em teorias, princípios e valores coerentes e alinhados com sua postura e prática.
A cidade de São Vicente contou com o protagonismo de uma empreendedora que investiu no capital humano, defensora das mais valiosas moedas que se podem deixar como herança: dignidade e conhecimento. (REVISTA LEOPOLDIANUM ANO 41 2015)
* Licenciada em Desenho e Plástica pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo e em Educação Artística pela Faculdade de Artes Plásticas Santa Cecília (UNISANTA). Cursou Licenciatura em Pedagogia na Faculdade Dom Domenico. Mestre em Educação pela Universidade Católica de Santos( U N I S A N T O S ) .
** Licenciada em História pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Santos ( U N I S A N T O S) . Mestre em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP).
Fontes entrevistadas
Aniloel Serpa Gomes - Nasceu em São Vicente – SP no dia 13/10/1926. Professor,Técnico em Contabilidade e Advogado. Entrevistado em 10/01/2007, por Lizete Moraes.
Cecília Pires Gonçalves Moreira – Nasceu no dia 19/10/1918. Exerceu a função de professora primária e a primeira Secretária do Ginásio Martim Afonso. Entrevistada em 16/09/2008, por Lizete Moraes e Maria Suzel Gil Frutuoso.
Déa Vilela Peckolt – Nasceu em Santos – SP no dia 03 de janeiro de 1928. Exerceu a função de professora primária e auxiliar administrativa do Liceu Feminino Santista. Foi aluna do Colégio São Paulo e primeira Secretária da Mesa das Assembleias da Associação Feminina Santista em Santos, 1952. Entrevistada em 11/05/2016, por Lizete Moraes e Maria Suzel Gil Frutuoso.
Fernando Martins Lichit – Nasceu em Santos – SP no dia 27 de julho de 1925. Historiador e escritor. Foi Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente – SP. Entrevistado em 19/08/2008, por Lizete Moraes e Maria Suzel Gil Frutuoso.
Maria de Lourdes Retz Lucci – Nasceu em São Vicente – SP no dia 21/02/1923. Formou-se Técnica em Contabilidade e foi Diretora da Fazenda da Prefeitura Municipal de São Vicente – SP . Entrevistada em 04/01/2007, por Lizete Moraes.
"GEMA"- 26/08/23- SÁBADO. "A ESCOLHA"
DESAFIO MÁXIMO: ADMISSÃO NO MARTIM AFONSO
HUMBERTO WISNIK
O Ginásio Martim Afonso neste ano passava por profundas modificações. A Edificação de madeira pintada na cor verde-escuro estava sendo demolida para dar espaço para o novo Prédio que lá está hoje. Nossa Turma ocupou o Prédio Anexo com 4 Salas de Aula até a 3ª Série. Na 4ª Série estreamos o Novo Prédio. Durante a construção acompanhávamos a Montagem dos Painéis de Azulejo tentando adivinhar qual seria a imagem (O Monumento e a América do Sul). O Uniforme dos Garotos que era uma Farda estilo Militar, com Talabarte e Bibico, na cor caqui amarelo foi substituido em 1953 por um Uniforme com calça e camisa de sarja verde claro com Sapato, Cinto e Gravata pretos. As meninas continuavam com Saia Azul Marinho e Blusa branca.
Os aprovados para Admissão em 1953 diplomaram-se em 1956. Nesta Turma estavam muitos Jovens que tentarei nomear, mas, os que não identifico estão nas fotos para serem reconhecidos.
1 - Delorges Albano, tinha um irmão Diógenes. A Família tinha uma Pensão na Rua 11 de Junho, eles eram ativos em Esportes de Praia. Montavam Quadras de Volei e Tamboréu no Itararé. Nos anos 60 o Diógenes fazia parte do Corpo Administrativo do Basquete do E.C.Sírio (quando no time estavam Oscar, Amaury, Sucar, Mosquito e outras feras) Eu o encontrava quando o time ia treinar na Quadra da TV Record..
2 - João Groth, o querido João "Bananeira", figura alegre e simpática. Jogamos juntos no Time Infantil de Basquete do Tumiaru em 1953/54. No time também jogava o Carlos Fernando Stucchi (4).
3 - João Rodrigues. Piadista tinha um jeito Raul Seixas.
4 - Carlos Fernando Negrão Stucchi, filho do Dr. Stucchi, morava na Rua São Luiz quase esquina Rua Ipiranga tinha um irmão, Carlos Eduardo (o Borboleta) e uma irmã, Heloisa.
5 - Abel (não lembro o sobrenome). Quieto, amigável, estudioso. Sempre com boas notas.
6 - Eduardo Flávio de Oliveira Queiros, filho de Damon Pytias de Queiros, bancário, e Dona Ecléa. Morava na Rua Santa Cruz Nº 44. Estudamos juntos desde o Jardim da Infância até o CPOR em 1962. Foi Vice-Reitor na UNB (Brasília)
7 - Antonio José (Toni). Morou na Frei Gaspar 438, acima do Bar Aristocrata.
8 - Antonio José Pião. Morava na Praça 22 de Janeiro em uma casa cujos Pais eram Zeladores/Caseiros.
9 - Elmo Sarti. Filho do Sarti alfaiate. Morava na Boa Vista. Jogamos juntos no Infantil do Tumiaru.
10 - Arsênio Marques. Os pais eram donos da Sorveteria Paulista.
11 - Humberto Wisnik (Eu).
12 - Hélio Alves de Souza
13 - Bayard Umbuzeiro. Foi político na Baixada.
14 - O Diretor Ubaldo Taveiros
2b Gin.Martim Afonso Corf.jpg
Foto da 2ª Série B Melhorada e Colorizada. - 1954
Da Turma 53/56, na 2ª Série C, estiveram Paulo Eduardo Schain, Valneo Pileggi, Orlando Ferreira da Costa e o Folclórico e querido amigo de todos, Milton "Marreco" (dono de um Curso Supletivo onde minha Mãe estudou no início dos Anos 80).
Tudo era novidade e até hoje lembro a sensação de conhecer cada um dos mestres, que, para nós alunos, eram superespecialistas na matéria que lecionavam. Havia alguns inesquecíveis. O sr. Cruz, de Canto Orfeônico, era um gordinho simpático, mas exigente e fazia cada aluno cantar canções que ensinava e, maioria delas, totalmente desconhecidas. Lembro de “A Malga de Barro” (Na malga de barro há verde e fresquinho, ai que vinho, ai que sabor...), que nunca consegui dar a entonação correta, pois sempre fui um péssimo cantor. O Professor Esmanhoto, de Latim, um ex-seminarista, sempre falava que era de uma cidade mineira chamada Carangola. Mais magro que um louva-deus, suas mãos eram enormes e possuía a mania de torcer os dedos enquanto falava. A professora de Geografia se achava uma superstar, muito brava e falante, mas sua pedagogia não era das melhores. Já senhora, laurentina era uma figura inesquecível e folclórica. Não era bonita, vestia o que hoje seria estilo perua, sempre ameaçando botar para fora da sala quem fizesse bagunça. Mas isso nunca aconteceu. Suas aulas pareciam feira livre, uma falação desenfreada. Na segunda ou terceira série, laurentina veio trabalhar trajando um vestido azul escuro brilhante, de tafetá ou coisa que o valha. Entrou na sala, toda chique, avisou que após as aulas iria a um casamento. Sentou na cadeira junto a mesa e fez a chamada. Um detalhe: um dos nossos santinhos havia riscado o assento com giz, de modo que a professora colocou seu bumbum numa superfície todinha branca. Começaram as risadas e a mestra, com seu vestido novo e a traseira branca, indagou o porquê de tanta empolgação. Até que, ao se aproximar da mesa após uma severa bronca andando por toda a sala, ela viu a cadeira manchada de giz. Torceu o corpo com uma mão nas nádegas e viu seu traje manchado. Ficou possessa, berrou ameaças, e, finalmente, mandou os três maiores suspeitos para a diretoria. Tinha o professor Mendonça, um gentleman, nunca perdeu sua postura de verdadeiro mestre lecionando Português. Mario dava aulas de Trabalhos Manuais era muito gente boa. Outro professor notável era o Monsieur Jean, que era francês de verdade e encantava as mocinhas com sua elegância, charme e olhos azuis. Evidente que lecionava Francês. Se não me falha a memória Armando dava aulas de Geografia, Clóvis de Educação Física. E outros que até hoje povoam minhas lembranças. Destaque para umas pessoas que eram responsáveis pela disciplina fora das salas: os inspetores de alunos Dona Neves, querida mãe do meu irmão Jorge Monteiro; seu Borba, um careca sempre com cara de bravo, mas muito legal; seu Sérgio, com uns cabelos sempre reluzindo a Brilhantina Glostora, que era usada até pelo Oscarito, o comediante da época. Seu Borges, de Inglês, tinha uma das orelhas faltando um naco, diziam que um cachorro o havia mordido quando criança (o cão já era adulto).
Coisas de São Vicente 14/02/2019
Jornal do Grêmio Estudantil da E.E. Martim Afonso nos anos 1960. Acervo da escola.
A TURMA DO CLÁSSICO DO MARTIM AFONSO
PAULO MIORIM
Em 1963, iniciei o chamado Curso Científico no glorioso IEMMA-Instituto de Educação Municipal Martim Afonso, em São Vicente. Era uma época que o ensino secundário nas escolas públicas oferecia três cursos: Normal para quem desejava se tornar professor de curso primário, Clássico para aqueles que pretendiam seguir profissões relacionadas a Humanas, e Científico aos que queriam seguir carreiras relativas a Ciências Exatas. Em outras escolas haviam cursos profissionalizantes e a moda era estudar Químico Industrial. Cada um desses cursos tinha características bem distintas e os alunos, com o tempo, formavam grupos de amigos entre os seus colegas de escola. Haviam turmas do Científico, do Clássico,do Normal e não se misturavam muito. Embora minha intenção fosse cursar Engenharia, pessoalmente lia tudo que me caia nas mãos e minha preferência era assuntos relativos a Psicologia, Filosofia, História e demais Ciências Humanas.
Dias antes havia mudado para o sobrado vizinho à nossa casa uma família carioca. O pai, João Chrisóstomo, era telegrafista de navio, na época uma importante profissão. A esposa chamava-se Nancy e o casal tinha quatro filhos, três moças e um garoto. Eneida, a filha mais velha, havia se matriculado no primeiro ano do curso Clássico, Verônica, a do meio, e Márcia, cursavam o ginásio. Mauricio, caçula, ainda cursava o primário. Eneida, a primeira da pessoa de família que conheci, era uma linda morena alegre e comunicativa, ficamos amigos a primeira vista. Verônica, também morena e bonita, era mais calada e não consegui vê-la como amiga, pois despertou em mim outro sentimento, tinha um sorriso lindo com dentes separados e olhos negros muito vivos e expressivos. . Márcia era alta e desengonçada como é próprio das moças em início da adolescência. Maurício era um garoto dos seus onze ou doze anos com a chatice própria da idade, vivia dizendo gracinhas e frases fora de hora, mas ficou meu amigo. Os pais eram gente boa, embora seu João fosse muito sério. Ficava ausente muito tempo devido sua profissão de marítimo, mas conversava muito comigo quando em casa. De modo geral, fiquei muito chegado à família e passava as tardes na casa das meninas. Eu voltava do Martim Afonso com a Eneida conversando, e através dela conheci outros alunos do Clássico, que se tornaram meus amigos.
Era turma ótima, interessada em literatura, poesia, filosofia, música e cultura em geral. A professora Lídia fazia parte da turma e incentivava seus alunos a se reunirem e discutirem assuntos humanos. Alem do que Francisco Rodrigues,o Chicão, era da minha turma de amigos e meu primo Jorge Monteiro, filho da saudosa Dona Neves, era o exemplo de bom estudante, um aplicado aluno que se tornaria um intelectual, ambos cursavam o Clássico. Conheci e fiquei amigo do Evaldo Ferreira, Flávio Moita, Claudio José, Benedito, Zuza (tia do Márcio França), Roberto Inglês (que eu já conhecia), José Miguel Wisnick (primo das minhas amigas Wislawa, Olga e Irene Tulik) e outros. Convidado pela Eneida, fui a uma reunião do grupo na Vila Melo, na casa do Cláudio José, em um sábado à tarde. Interessado em me aproximar da Verônica, senti haver uma reciprocidade em meus sentimentos e conversei a tarde inteira com ela. Resultado: saímos da reunião como namorados. Minha primeira namorada oficial, guardo com muito carinho as recordações desse relacionamento. Aquela coisa de sentir novas emoções, de despertar para o amor, de dormir e acordar pensando na pessoa. E da corrente elétrica que corria no meu corpo quando estava com ela, dos inconfessáveis desejos que Verônica me despertava. Como éramos vizinhos, todos os dias nos falávamos e minha amizade com Eneida fortalecia minha ligação com toda a família. Foi uma época ótima, dona Nancy era a bondade em pessoa e excelente mãe. Hoje posso avaliar o quanto era imaturo em coisas de amor e da minha enorme timidez.
As reuniões aos sábados se tornaram rotinas e se realizavam no sistema de rodízio, a cada sábado era combinado em casa de quem se realizaria a reunião do próximo sábado. Cada um desses encontros etílicos-filosóficos-letrários-culturais-dançantes se marcou por eventos diferentes que vou recordar “em passant”:
• Benedito quebrou a vidraça da casa da Eneida.
• Na casa do Evaldo a reunião foi estilo “Cocktail”, foram servidas vários tipos de drinks e bebidas.
• Na casa do Roberto Inglês, Benedito tomou um porre homérico e quase caiu do quinto andar, provocando uma gritaria das moças.
• Comecei a namorar Verônica na reunião da casa do Cláudio José
Agora, ao recordar essas inesquecíveis experiências, vejo o quanto a educação pública de então difere da atual, totalmente corrompida pela desvalorização dos professores que, na época, eram considerados personagens importantes e respeitados pela sociedade.
Mas foi maravilhosa a convivência que tive com a turma do Clássico.
Paulo Miorim 04/01/2021

Alunos do IEE Martim Afonso na rua José Bonifáco em 1967. São Vicente de Outrora.
RECORDAÇÕES DO I.E.M.A.
- Estudou do M.A. em que ano, Guerra? (Juan)
- De 1970 a 1977. Bons tempos de infância e adolescência. Apesar das aulas do Professor Joaquim, dentro do 2º BC.
Quando eu ingressei no ginásio, depois do tal vestibulinho, ainda usávamos uniforme e havia aulas aos sábados. O Jarbas Passarinho fez algo de bom (pra mim) acabou com as aulas aos sábados… rs Bem, ele acabou mesmo foi com o ensino público. No lugar de Filosofia, reforço de Educação Moral e Cívica… rs. Criou mais uma turma encurtando as aulas e os intervalos. Nada como um Coronel do Exército pra dar solução para a falta de vagas… Ah, além da reforma ortográfica de 71, para nos phoder a partir de 72… Levei uns 10 anos para deixar de grafar êle, nêle, êsse…etc. Agora, já que não preciso de nota (apenas cédulas), quero que a atual reforma se phoda…rs. Imperdoável acabar com o trema, pois só apedeutas escreverão qüinqüênio… Mas não posso reclamar da minha educação no “Afonsinho”, pois aos 10 anos já tinha lido 26 livros do Monteiro Lobato… A trilogia do Tesouro dos Martírios, de Francisco Marins… E as memórias de Hans Staden “Duas viagens ao Brasil (tinha umas 1000 páginas). Bastou complementarmos essa vasta cultura com a revista MAD, a revista Geração Pop (que sempre foi uma merda, pois a maioria dos colaboradores não sabia nada de nada; acabavam inventando ). Bem depois – QUANDO A DITA ABRANDOU – com todas as revistas “Ele e Ela” , “Status” e depois “Playboy”. Eu era apaixonado pela Rose Di Primo; tinha até um pôster dela montada acho que numa moto Triumph. Fiquei tão letrado que ganhei um banheiro exclusivo no fundo do quintal.
Eu era um bom garoto até que o meu pai teve uma idéia brilhante: para eu parar de fazer barulho com a guitarrinha comprou, quando completei 15 anos, um Yamaha RD 50, azul, a primeira motocicleta Made In Manaus. Assim, quando no 3º ano colegial rumava para o Afonsinho pela praia, pois “soy latino americano e nunca me engano“. O problema é que não dava pra ficar com a bunda na cadeira agüentando aulas como as do Professor Renato ( Física ). Numa das escapadas fui imitar o Adu Celso – ( Eduardo Celso Santos , falecido em 5 de fevereiro de 2005, em Juquey-SP, um famoso piloto de motocicletas e empresário de São Vicente, um dos filhos do Sr. Celso Santos, dono da Cidade Náutica Imóveis e de toda a praia de Pernambuco , no Guarujá, Hanga Roa, Bertioga, Juqueí, etc. ) – ; acabei atropelando um coqueiro da Avenida Padre Manoel da Nóbrega ( também conhecida como “Tapetão” do Itararé).Resultando, prá mim, 5 meses de cama; para o meu pai quase uma “cana”. O diploma ficou para depois; a faculdade de Direito, idem.
No ano seguinte, muito revoltado porque ” andava a pé e achava que assim estava mal” , mudei para o período noturno, já que depois de quase um ano gessado e de muletas – não tinha porrada que me fizesse levantar da cama as 6h30.
No período noturno redescobri a alegria de viver; passei a estudar no Batidão e no Cruzeiro do Sul. Além de aprender política, filosofia e ficar falando Jacomi, também aprendemos a arte de causar curto-circuito no Afonsinho e explodir bombinhas de São João no banheiro (quatro das gordinhas bem amarradas); aprendi a saborear o bom e velho Fogo Paulista. Culpa de uma turma de celerados que migraram compulsoriamente do Vidrobrás para o Afonsinho, pois acabaram com o curso colegial da Escola Vidrobrás. O que foi muito bom, pois as moças eram mais interessantes e emancipadas. A maioria já trabalhava, inclusive. Até hoje não entendo a razão de as moças da época, embora mais baixinhas, nascerem mais bonitas e harmoniosas do que as das gerações posteriores.
Naquele tempo não chovia o ano inteiro na Baixada; a madrugada era estreleda e perfumada pela dama-da-noite. Não tinha ladrão armado. O que estragava o sossego de quem andava na madruga eram as “Barcas da Polícia Civil” e do “Juizado de Menores”. A PM – com os fusquinhas e veraneios acho que nas cores vermelho e preto – não incomodava. Mas como na PC, da época, a maioria era ganso com carteirinha de inspetor de quarteirão, todo cuidado era pouco. Cabeludo com violão sofria: aí “maluco beleza” ( era o sucesso do Raul daquele ano ) balança o pinho pra gente ver se não tem bagulho! E leva aí “Abismo de Rosas” prá gente conferir se tu sabe tocar…Mas seu guarda, só aprendi solar “O Milionário”…
Playboy, que guarda? Tá vendo guarda onde? Aqui é Polícia, apito tu vai ouvir na orelha… já, já! “De menor” na rua de madrugada, tu tem pai? Tenho sim senhor! Ele deixa? Não, esperei ele dormir e pulei o muro! Filho da puta…sobe…sobe…sobe! Pelo amor de Deus, deixa eu ir embora… O caralho! Farei melhor “seu punheta” vou te deixar no colo da mamãe. Fui salvo pelo rádio, mas o guarda grandão da “petra e branca” me fez tirar o sapato e sumir correndo pela av. Quintino Bocaiúva… FDP, ainda não era asfaltada…cheia de pedregulho; eu correndo com o violão debaixo do braço e os sapatos na outra mão…Mas achei melhor obedecer e não olhar pra trás.
Assim, em dezembro de 77, em vez de velinhas e bolo de aniversário, bomba levei eu. Com direito a honrosa jubilação para outra escola mais compatível com o meu elevado nível intelectual e cultural. O restante contaremos daqui a dez anos, ainda não cheguei à fase de escrever minhas memórias.
Mas eu amava aquela escola; amava mais ainda três pessoas: A Dnª Suely, nossa professora de Geografia; a Dnª Iracema, professora de História e a Dnª Cleuza, Diretora; que apesar de muito austera foi uma espécie de anjo protetor. E tinha uma que eu odiei por anos: a professora Zuleica. O Pink Floyd fez a música The Wall, certamente inspirados nalgum professor como ela. Eu tinha lá algumas limitações matemáticas; durante quatro anos eu lhe dei trabalho extra no mês de fevereiro. Pois sistematicamente no 1º bimestre ela me dava 0 (zero), no 2º 0,5 (meio), no 3º uns 2,5 ( dois e meio ), só começava a melhorar no final do ano, tirava 5,0 ( cinco ). Assim já sabia que passaria as férias, todos os dias, acompanhado de professora particular. E chegava para fazer a prova na base do tudo ou nada, ou seja: precisando no mínimo de 9,5 (dez né?). Eu conseguia, dias depois começava tudo novamente. Por uma única razão, como era um dos menores e o mais novo, quando um ano a dois, alguns três anos mais velhos, faz uma baita diferença, entrava apanhando e saia apanhando. Logo no primeiro bimestre, do primeiro ano do ginásio, as minhas notas nas duas provas foram 0 (zero). A mulher fazia questão de mostrar as provas e anunciar as notas nominalmente; fazendo seus comentários. Iniciava pela maior nota e decrescia: eu fui o último. Ela disse em voz alta:
- O nº 33, “seu” Roberto Conde Guerra, 0 (zero) na primeira e 0 (zero) na segunda, média final 0,5(meio).
A classe desabou na gargalhada. Constrangido só me restou dizer em voz alta: Dnaª Zuleica, a Srª se enganou, zero mais zero não é igual a meio! A mulher possessa: meio em respeito ao trabalho do seu pai que pagou as folhas de papel almaço.
- Tá bom, professora, mas então arredonda prá um. Meio pelo trabalho do meu pai que compra as folhas; meio pelo trabalho da Srª em me ensinar!
- Fora! Fora! Prá diretoria. O senhor (naquele tempo as professoras tratavam as crianças por senhor), em matéria de cinismo é um “Einstein” (prá mim era o humorista da foto com a língua de fora…rs). Vai contar piada pra Inspetora.
Phodeu-se! Daquele dia em diante deixei de ser o “Marciano”, virei o Einstein piadeiro… Chegava o dia da prova era um massacre: estudou Einstein? Vai tirar dez hoje Einstein? Fala Einstein piadeiro!
Só depois de uns dez anos eu compreendi o motivo de tanta raiva. Ela estava me humilhando dando meio para o trabalho do meu pai; pensou que com a minha resposta estivesse dando meio pelo trabalho dela como professora. Mas eu não possuía inteligência para compreender, tampouco responder, conscientemente, daquela maneira. Estava absolutamente arrasado pela vergonha, pela gargalhada da classe… Ela viu cinismo, não viu nosso choro sufocado. E os anos passam, mas, intercorrentemente, fatos semelhantes vão se sucedendo.
Professores e funcionários lembrados pelos alunos que comentaram a postagem no blog Flit Paralizante.
Dona Cleusa (Diretora), Joaquim (Química), Yolanda Conte (Português e Latim), o casal Edmundo (Matemática) e Sara Capellari (Português), Borges (Inglês), Disaró (Matemática) o casal Raquel (Português) e Pereira (Francês), Serra (Artes Industriais), Dna. Neves (Inspetora mãezona), Maria Isabel (Geografia) Prof. Mário (Artes) Prof. Cruz (Música), Prof. Jean (Francês), Maria Isabel (História), Prof. Clóvis (Educação Física), Prof. Sebastião (Física e Química), Profa. Laurentina (Geografia), Prof. Artur Ewbank (Diretor), Prof. Noronha (Ciências), Prof. Esmanhoto (Latim), Prof. Eng. João Ivair, Prof. Mario, Profa. Zuleica, Profa. Helena (Português e Literatura) Profa. Sueli (Geografia), Prof. Panzoldo (História), Profa. Lidya (Português), Prof. Nilson (Matemática), Prof. Wilson (Geografia), Profa. Aparecida (1º ano primário), Profa. Marli (2º ano), Profa. Thilia (3º e 4º anos), Celso (Inspetor), Prof. Canuto (Ciências), Prof. Iracema (História), Orlando (Português), Cidinha (Desenho Geométrico), Joaquim (latim), Conceção (Psicologia), Prof. Breno (Desenho), Profa. Gisela (Francês), Profa. Romilda, Profa. Maria Esther Lapetina, Prof. Sérgio(Ciências).
Lembranças de ex-alunos
Tânia Guahyba disse:
Vim de Sampa com e estudei de 1966 à 1975 (fora 2 anos de bomba por causa da bronquite ainda fiz 4 anos do Curso Normal para ser professora, ok?…rs). Estudei com Denise, Cida, Jorge, Sansonetti, Costeck, Vicente, Robson, Jah Jah, Tadeu….perdão meninas, mas só lembro dos nomes dos meninos….kkkk Eu era da “turma do fundão”, mas nunca fui periguete como as meninas de hoje – todos me respeitavam. Ah! Namorei com o Pablo, surfista… meu irmão me ensinou a surfar no Itararé. Mas eu era apaixonada mesmo pelo Jorge (nunca mais tive notícias – a última vez eu soube que ele era da Polícia Civil de Sampa). Fiz poesia no aniversário do Martim Afonso que até saiu no jornal…Toquei anos na fanfarra, e era uma maravilha, ser chamada para ensaios no meio da aula…sair rindo e zombando dos colegas que ficavam nas aulas!!!! Principalmente o dia em que ensaiávamos no calçadão da praia e o Tadeu caiu com bumbo e tudo dentro de um bueiro…só ficou o bumbo de fora o Tadeu desapareceu!!!kkkkkk
Saudades de “bolar” aula para ver a ressaca no edifício Gáudio. Lembro que um dia vários prédios tiveram de ser evacuados (será que não era um tsunami?….naquele tempo não havia tanta informação na mídia como há hoje). Mas era bom demais chegar toda molhada em casa e olha que eu sempre morei em Santos (cansei de chacoalhar no Circular 1 e 2) mas gostava mais de São Vicente.
Obrigada por trazer á memória situações e professores tão bons (apesar das diferenças) que ficaram marcados na nossa educação, cultura, caráter e emoções.
Hoje trabalho em um aeroporto internacional e o que sei de Francês foi com o Pereirâo que aprendi. Tinha dó do Prof. Cruz, que usava uma lupa pra fazer chamada, enquanto ele chamava um aluno, o anterior já tinha “vazado” da sala…teve um dia que só ficaram eu e mais dois, o prof. acabou a chamada, levantou a cabeça e olhou pra nós…deu aula como se nada tivesse acontecido, mas sei que por dentro ele ficou muito triste e eu quase chorei…nunca me esqueci.
Amigo, até a foto que vc colocou do tapetão do Itararé me fez lembrar quantas vezes Deus me livrou da morte, porque quando na Faculdade São Leopoldo eu estava sempre apostando corrida e dando cavalos de pau com os colegas lá…sem falar a idiotice de quem desce primeiro da Ilha Porchat depois de várias cervejas… Hoje sou Capelã no Aeroporto,pastora e escritora (tá explicado este texto tão grande – vc pensou?) e isto tudo serve para alertar os jovens de como NÃO ser. Bem, acho que falei demais… espero não ter te cansado.
Roberto disse:
Estudei em 1955 fazendo o quarto ano primário. Meu pai era ferroviário da Estrada de Ferro Sorocabana, trabalhava em Santos mas nós residíamos na Vila da Sorocabana, em São Vicente. Lembro-me de duas coisas importantes, uma era de que era gamado por uma menina linda , que não me recordo o nome, que estudava na mesma classe, e outra é que ao invés de subir na direção da vila onde residia, descia até a praia , caminhava molhando os pés no mar , até a Biquinha e depois subia em direção a minha casa. Estou hoje com 70 anos de idade. Hoje acessei um site sobre uma Associação de ex alunos do Martin Afonso, vou enviar a foto que tenho, que era praxe tirar , de todos alunos com a professora e associar-me. Hoje resido no litoral do Paraná, cidade de Guaratuba, é bonita, mas meu coração balança por São Vicente apesar de ter morado somente 1 ano e meio .A razão desse amor pela cidade, é que foi uma das fases mais bonitas de minha infância.Morávamos em Sorocaba quando meu pai foi transferido para Santos, isso aconteceu em julho de 1954 mas infelizmente ou felizmente não conseguimos ser matriculados no Martin Afonso por estar no meio do ano. Dessa forma fiquei vagabundeando por meio ano, o dia inteiro jogando bola, se embrenhando no mangue, caçando preá, coquinho, recolhendo bolas de golfe que caia fora da cerca do Golfe Clube , enfim , naquele tempo criança podia andar sozinha por todos os cantos. Só voltava para almoçar , jantar depois saia novamente para ficar brincando aquelas brincadeiras inocentes, passa anel, cabra cega, etc..Só em 1955 é que fui matriculado. Lindo demais.
Hermínio Cardoso disse:
Surpreso por encontrar este blog e contente por me comunicar com você depois de tantos anos. Lendo as mensagens enviadas, recordei os anos em que estudei no Martim Afonso (70 a 73). Bons tempos! Além dos colegas de classe e professores já mencionados. Depois de concluir o “ginasial” comecei a “ralação” em busca de trabalho decente: Senai, Escola Técnica, Aeronáutica, COSIPA, Staübli (metalúrgica em Diadema) até migrar para o nordeste em 82 onde trabalhei numa empresa e posteriormente virei Fiscal de Tributos(Rendas) da SEFAZ/AL(concursado), concluindo o curso de Direito na mesma década. Reconheço que foi no Martim Afonso que adquiri sólidos conhecimentos que me permitiram lograr êxito nas avaliações que enfrentei durante a vida. Louvo também os grandes mestres que tivemos, numa época em que a qualidade do ensino era visível (antes da maléfica “reforma do ensino” implementada no final dos anos 70). Anualmente vou a São Vicente e não deixo de passar em frente à “velha escola” de boas lembranças. Espero um dia encontrá-lo para recordarmos essa época de ouro do nosso aprendizado escolar.
Sandra Camargo disse:
Estudei no Martim Afonso , de 63 a 70, se vc estudou nesta época entre em contato…lembro do prof Wilson de geografia, Iracema de história, Orlando de português, Capelari, Breno etc…tenho uma irmã gêmea a Ana Maria, eramos bem loiras, estávamos sempre juntas no recreio com nossa turmina, Rith Brisac, Sônia Exel, Ana Maria, Deborah, etc…achei excelente este blog para matar as saudades desta época deliciosa e que escola pública era sinônimo de inteligência!! Repetia de ano por décimos e ai de você se não estudasse, bombava mesmo!
O Martim Afonso nos deu uma ótima base, vê-se através do seu texto e outros mais…muitos escritores!!
Agora o Capelari não fez nenhum matemático, que homem doido heim? Escrevia na lousa, na parede , na porta…minha irmã só tirava 10 com ele e eu na primeira prova, fui chamada na frente da classe ( como vc) e ele entregava sua prova e falava sua nota, qdo ele disse :- Zero , eu como zero? E ele completou …dias piores virão e eu retruquei, pior que zero o que seria!???
Também adorava a professora Iracema, amava as suas aulas, mas sempre me lembro dela gravida, será qtos filhos teve ?
Teve um professor de ciências, que marcou a prova, no dia ficamos quietos…ele esqueceu…passou um tempo falamos e as notas das provas?? Pois nâo é que ele trouxe notas para todos?? A maioria tirou notas boas e quem tirou baixa fizemos calar a boca!! Esqueci o nome dele…era idoso, gordinho.
Minha irmã gêmea também só tirava 10 de desenho, como eu precisava de nota ela fez umas provas pra mim…mas era uma egoísta, já tinha media ótima e fazia meia prova pra mim e a dela inteira…muito errado nao??foi o único ano que estudamos na mesma classe, pois como o nome dela começa com A era uma classe e o meu S em outra.
Pensava dela fazer prova de geografia pra mim, mas achava o prof. Wilson tão bruxo e tinha medo dele ter gravado alguma diferença da gente…e precisava fazer mapas e mapas em nanquim pra ganhar mísero meio ponto na nota! Mas numa segunda época de geografia deste prof. Wilson, ficaram uns 40 alunos.Me trancava no quarto e dizia que ia estudar e ficava jogando baralho com uma prima, dei uma lida na materia um dia antes do exame pra desencargo de consciência e não é que existem milagres??
Fui a única aprovada, precisava de 7.5 e tirei 7.8 …tive transmissão de pensamento com ele, só pode ser, pois pensei nas únicas coisas que sabia de geografia e ele fez as perguntas exatamente do que eu pensei!! Qdo vi no mural reprovada…reprovada…e só no meu nome aprovada, fui na secretaria, pois achava que estava tendo visões kkkkkkkk
Quando vejo o que se tornou o ensino público me arrepio, que ponto chegou o Brasil.? Cadê os excelentes professores, a obediência, o respeito (perto dos de hoje éramos santos). Hoje alunos nãoo sabem escrever, não sabem fazer uma redação e já vi erros cabeludos de professores!!
Laercio disse:
Olá Sandra, fui aluno do Capellari também, já nos anos 70. O que podia ser pior que o zero? O apagador, atirado por ele, colidindo em alta velocidade com sua cabeça! Ele costumava fazer isso. Tanto que, lá pelo ano de 1975, no 3º período os alunos trancaram a porta e deram uma surra nele. Nessa época eu cursava o matutino. Infelizmente, concordo com você quanto aonde estarem os professores, a obediência e o respeito… Parte do problema, talvez seja fruto dos maus professores da nossa geração.
Sandra Camargo disse:
Que delicia saber que fui vingada deste louco do Capelari(que Deus o tenha…)meus parabéns para os que deram uma surra nele!!! Acabei mudando de escola por causa desse professor, em vista que não consegui mudar de classe !! A minha irmã foi junto, justo ela que só tirava 10 com este facínora e com outro chatíssimo, o Wilson de geografia. Acredite ela chegou a corrigir erro do Capelari, ela era gênio em matemática, ele a tratava como um diamante….!!! Até hoje ela se arrepende de ter saído do Martim Afonso por minha causa. Mas eu tinha trauma deste homem…nao podia olhar pro cara …
Um dia tb peguei um prof casado beijando uma prof tb casada, imagine se nao tirei proveito…precisava de nota de português e o mestre me deu uma nota muito da boa…
Uma vez a minha irmã escorregava no corredor de um lado pro outro, até que a inspetora me pegou saindo da classe e falou:- vamos pra diretoria, eu argumentei que não estava fazendo nada errado.E ela: e ficar escorregando no corredor é certo? Daí na diretoria expliquei que tinha irmã gêmea e ela e que cometeu o erro e não eu. Foram na classe chamar minha irmã, e ela deu uma assim... corredor? como? Eu?…imagine se a melhor aluna da classe faria isso …conclusão tive 3 dias de suspensão pela inflação cometida e por denunciar falsamente minha irmã!! E a minha gêmea chorou de tanto rir, nem meus pais acreditaram em mim, pois sempre eu que aprontava, ela uma santa!!
Quem lembra da Magda uma menina super gracinha, que se suicidou?.
Ela foi encontrada num hotel no Rio de Janeiro e ao seu lado estava um livro sublinhado, onde o escritor falava de AMOR! Na época saiu notícias na Tv, jornais etc…se não me engano ela morava em Itanhaém, era da minha classe, daquela turma do fundão! Nunca soube exatamente o porque deste ato…diziam que ela havia marcado com o namorado de fugir, e que o mesmo não apareceu, sei que os pais dela eram bem rígidos, eles a levavam e a pegavam na escola. Se alguém lembrar me escreva, pois vc então foi da minha classe.
Ruth Brisac Stucchi disse:
Olá amigos do colégio “Martim Afonso”. É grande a minha emoção! Poder encontrar alguns colegas do ginásio, depois de tanto tempo é inacreditável…. É com o coração apertado e os olhos lacrimejante que saboreio cada palavra, cada lembrança e nomes dos “BONS TEMPOS QUE NÃO VOLTAM MAIS….” Que sensação mais deliciosa; pois por várias vezes eu tentei encontrar alguém, ou, alguns dos alunos do meu tempo (1962/1972) e nada…Eu sou a Ruth Brisac, sempre fui bem bagunceira, estava na fase: “tudo era lindo e sem problemas; então vamos ser felizes”!. Pregava papelitos nas costas de todos (com dizeres engraçados) fugia das aulas, colava prá caramba, jogava pó- de- mico na classe(para suspender provas)pulava o muro do colégio(uma vez o CHARUTINHO me pegou no flagra kakakaka). Era superamiga do Davson Queirós(seria um sonho poder encontrá-lo)amiga(até hoje) das gêmeas: Ana e Sandra, da Rosabel, Soninha Maluca, Maria Deolinda, Célia Regina Rodrigues e irmão, Walquíria e Wanderlei Sanches, Nelson e Miguel Wisnick (Miguel músico e escritor famoso), Rivaldo F. da Silva, Pedrão (muito alto e forte; era meu guarda-costas. Muito bom amigo; me tirava das encrencas), Wanda Maria Guimarães….e outros. Seria possível programar um encontro com os EX ‘s do Martim Afonso? Estarei esperando pela melhor notícia da minha vida! Beijão com saudades a todos.
T.E.M.A. TEATRO ESTUDANTIL MARTIM AFONSO
ROSA MARIA MARQUES LOTO



HISTÓRICO
Jovens que exercem a arte, arte de vanguarda, mas que apreciam e respeitam a arte tradicional clássica, sabendo selecionar dela os valores perenes.
Através dos estudo dos textos da literatura clássica, romântica, parnasiana e moderna e contemporânea, textos estes nacionais e extrangeiros; desde o imortal Camões e o polêmico Brecht, expressam em “Brasil , Rosas... Amor e Dor” o ideal dessa juventude consciente, patriota e esperançosa. Eles estão cumprindo um destino, não são omisso, são autênticos participantes da realidade brasileira em evolução.
Ouçamos suas vozes porque elas se harmonizam no canto da Poesia e da melhor Música Popular Brasileira Moderna: de Vandré, Gilberto Gil, Chico Buarque, Dorival Caymi, Edu Lobo e outros que cantam o Brasil e o levam além de nossas fronteiras.
Nas mensagem da Poesia e da Música está a bela mensagem de nossa juventude: crença no Amor, na Paz, na Justiça, a triologia que sempre salvou e salvará a Humanidade.
Catedrática de Português do I.E.E.M.A.
UM PROFESSOR.....O PROFESSOR
MIRTES DOS SANTOS SILVA FREITAS
De repente, dei um salto.Caí num grande, imenso rio. Amazonas? Talvez. Conheceria, em breve, as emoções da pororoca. Silêncio! Reconheço essa música. Ela surge de minhas remotas lembranças. É a lenda da " Cobra Grande".(Waldemar Henrique da Costa Pereira)
" Credo! Cruz!
Lá vem a Cobra Grande
Lá vem a boiúna de prata
A danada vem rente à beira do rio
E o vento grita alto no meio da mata
Credo! Cruz!".......................................
Curioso! Eu teria aulas de Música. A disciplina tinha o nome de Canto Orfeônico e o professor se chamava Luiz Gomes Cruz. Foi ele quem nos ensinou a música da Amazônia lendária e cheia de mistérios. Encantada, comecei a nutrir um profundo respeito por aquele que me acompanharia pelos anos seguintes, até minha partida, em 1966.
As aulas do Professor Cruz eram diversificadas. Quando o sinal tocava, lá vinha ele, confiante, com uma mansidão estampada no rosto e nos gestos. Nunca levantou a voz para chamar nossa atenção e se preocupava, sempre, em saber se estávamos aprendendo.
Naquela época, os professores trajavam camisa social e terno. O Professor Cruz usava , predominantemente, terno cinza, claro ou escuro. Outros usavam cores diferentes.As professoras usavam saia e blusa ou vestido. Nenhuma usava calça comprida, considerada traje masculino. Mulheres não podiam utilizar tal vestimenta em Órgãos Públicos, inclusive, na Igreja.
Após a chamada nominal, o Professor Cruz iniciava a aula. Empenhado em nos iniciar em Educação Musical, desenhava a pauta na lousa, com as linhas suplementares inferiores e superiores. Colocava as claves de Sol e de Fá. As notas passeavam pelas linhas e espaços. Distinguíamos a nota naquele solfejo ritmado. Ele nos apontava a semibreve, com sua batuta. Ta- a-a-a. Agora, era a mínima quem se apresentava: Ta-a! A lousa, antes despida de significado, sob seu comando, sugeria o passeio daquela barquinha de noz, flutuando nas ondas dos sons musicais.
Nem só de solfejo vivíamos. A emoção estreitava o laço entre aquelas meninas, a cada música que ele nos ensinava. Primeiro, ele usava o diapasão, para fixar o lá e, dali, afinar toda a melodia. E era "A Preta do Acarajé", de Dorival Caymmi, que muito me impressionava: " Dez horas da noite/ Na rua deserta/ A preta mercando/ Parece um lamento/ Ê o abará.".......ou, então, " God bless América ----Deus salve a América", de Irving Berlin: " Quando nuvens negras/ como um negro véu/ descem sobre as serras/ empanando o céu...."Como era bom ter aquela pessoa dedicada e constante, lapidando nossa sensibilidade! E os Hinos do nosso amado Brasil? Maravilhosos! E os cânones? " Mestre Sapo"...." Meu sininho".....
Tive a sorte e a honra de ter convivido com aquele Professor que só me fez bem e de quem guardo ótimas lembranças. Ele foi a única pessoa que nos falou sobre o Esperanto, a Língua Universal que congraçaria todos os povos.
O Professor Cruz nasceu em 1907. Começou a lecionar em 1925.Foi maestro, compositor de hinos escolares, poeta.
Escreveu para jornais e revistas.Foi membro da Associação Santista de Teatro Amador. Lecionou em mais de uma dezena de Escolas. Ingressou no " Martim Afonso", em 1943. Deixou- nos um grande legado: O " Hino do Martim Afonso" e o " Hino da Normalista". Ainda sinto a emoção de recordá- los, ligados àquele senhor baixo, simpático e amigável que nos viu crescer.
No final de 1966, as meninas, agora moças, partiram para o futuro deixando, para trás, o velho professor. Qual teria sido o sentimento dele? Com certeza, o sentimento do dever cumprido. E o que mais? Saudade de uma turma preparada para difundir seus ensinamentos.
Em 2016, quando completamos cinquenta anos de Magistério, cantamos, emocionadas, o " Hino da Normalista". Também homenageamos o Professor Cruz, com uma medalha personalizada, que enviamos ao seu filho Luís. Ele já tinha partido. Fora encarregado de reger um coral de anjos, com sua velha batuta, imortal e etérea.
Recordo- me do meu último dia de aula no " Martim Afonso".Faço um breve retrospecto: ingressei naquele Estabelecimento em uma casca de noz. Graças ao Professor Cruz e a muitos outros, percorri o grande rio e cheguei à foz. Enfrentei a grande onda e caí no oceano. Sobrevivi. Continuo navegando........................
Em tempo: Informações a respeito do Professor Cruz encontradas em Vias Públicas de Santos/ SP- Novo Milênio. Há uma rua, em Santos, com seu nome.
10/ 9/ 20.
INCÊNDIO NO I.E. MARTIM AFONSO
Sei que foram queimadas as escriturações dos alunos do Curso Normal.Não sei se houve danos às notas de outras turmas.
Lembro- me bem do dia 14.Naquele dia, aprontei- me, como de costume,e almocei.Peguei os livros e cadernos e despedi- me de minha mãe.Ah! Sem esquecer a caderneta vermelha, que era carimbada, diariamente, pela Sra. Neves Prado Monteiro,uma boníssima pessoa, que era nossa Inspetora de alunos.Na tal caderneta estava anotada nossa vida escolar: comparecimentos, ausências, suspensões( Cruz credo!) e notas: azuis, as queridas, e vermelhas, as abominadas. Como ia dizendo, saí de casa em direção à minha querida Escola, orgulhosa de ser Afonsina. Saia de casemira, pregueada, blusa branca, gravata preta, meias brancas e sapatos pretos, do tipo colegial. No bolso da blusa, se não estou enganada, havia um emblema com a sigla GEMA, bordado manualmente.
Meu caminho para o " M.A.",naquele ano, era pela Rua Pérsio de Queiroz Filho(não sei se já tinha o nome de Avenida). Ora, esqueci- me de dizer que morava no Jardim Nosso Lar, lá no fundão do Catiapoã. A rua era extensa e parecia mais extensa ainda, porque era um imenso areal ou areião, como dizíamos. Era, quase, uma areia movediça. Nela, nossos pés afundavam e parecia que nos transformávamos nos astronautas da Lua, em câmera lenta.De um lado, o Golf Clube, todo cercado de árvores.Nas árvores, em dias quentes, um número incalculável de cigarras, cigarrinhas e cigarronas entoava seus cânones intermináveis.Até parece que eram ensaiadas pelo saudoso Prof. Luiz Gomes Cruz, que lecionava Canto Orfeônico.Para lá das árvores, no verde gramado, ricos felizardos manejavam seus tacos de golfe, mirando a bolinha branca, tão desejada por muitas crianças.Às vezes, eu via a bolinha alçar vôo e se esconder dentro dos orifícios do gramado.Seus donos sorriam, felizes. Eu apressava o passo,transpirando, naquela rua interminável.
Agora, vamos aos fatos.Dia 14 de outubro.Como esquecer tal data? Cheguei à pracinha do Catiapoã. Por ali, moravam algumas colegas. Dali, no mesmo horário, todas saíam, aos pares ou em pequenos grupos. Rostos infantis, sorridentes, preparando- se para o futuro.Cheguei, então, à casa da primeira colega.Chamei- a.Ela se dirigiu ao portão. Estranhei, porque estava sem uniforme. Disse- me, então:
---Mirtes, hoje não haverá aula. Puseram fogo na Secretaria e queimaram as notas dos alunos.
---Como? Quem?
---Não sei.Meus irmãos não tiveram aula de manhã e me avisaram que não haverá aula hoje.
Despedi- me da colega. Dei meia- volta.
Minha passagem pela pracinha foi de júbilo. Um resquício das chamas que devoraram aqueles papéis tomou corpo em minha mente.
Que sorte! Era outubro. Eu acabara de completar doze anos e já me preparava para receber minha primeira bomba. Estava com notas vermelhas em Desenho Geométrico, Trabalhos Manuais e Latim.Aliás, nem sabia se essa Língua era prima do Grego e tia do Árabe, de tão indecifrável que era. Sim, era Latim, porque o padre rezava a missa na tal incompreensível Língua. Aliás, nosso professor, Antônio Smanhotto, alto e magro, com seu terno preto e gravata da mesma cor, parecia mesmo ser um padre.
Eu era muito ingênua, mas aquela chama em minha mente logo se apagou.Raciocinei: se as folhas com as notas foram queimadas, vão pedir a caderneta. Não adianta.Verão que tenho notas vermelhas.
No dia seguinte, nenhum abalo.O Diretor Edu Botelho Baraúna, como sempre, passou por nós, sem nos cumprimentar.Não houve conversa sobre o que ocorrera.Todos se comportaram, galhardamente.
Hoje, após ter lido alguns livros de Aghata Christie e de saber sobre a existência de um certo Sherlock Holmes,não deixaria por menos.Faria minha investigação particular.
---Por onde entrou o maroto? Maroto, não! Criminoso! Era aluno? Era irmão de aluno? Era pai de aluno? Usava luvas? Jogou álcool ou querosene? Usou fósforos Fiat Lux ou marca Olho? Talvez isqueiro? Nada! Acho que ninguém tem respostas para isso.Espero que, pelo menos, o gajo tenha se confessado ao padre.
Sei, hoje, que houve uma saída inteligente para que os alunos não fossem prejudicados.O Governador da época, Sr. Jânio da Silva Quadros, publicou o Decreto de número 34638, em 29/1/1959,resolvendo o caso das notas perdidas, considerando as notas dos anos anteriores. Tudo foi acertado. Só o meu caso continuou piorando.Em dezembro, foi consumada a reprovação sumária, sem direito à segunda época, já que " um é pouco, dois é bom, mas três é demais!"
Ao chegar em casa, minha mãe perguntou:--- Mirtes, não houve aula hoje?
--- Não, mãe, puseram fogo na Secretaria da Escola.
É... só eu sei!!!
DESPEDIDAS DE 2019
Ensaio fotográfico de Verônica Esquive Duque dos Santos - do 3º ano matutinoNão é mais aquele Martim Afonso daquela São Vicente pequena e bucólica dos anos 50 aos anos 70, com muros baixos, salas e corredores relativamente silenciosos, com alunos predominantemente de classe média e moradores dos bairros próximos, bairros e cidades distantes como Praia Grande, Itanhaém; também alunos de Santos.
É uma escola pública do século XXI, com uma geração e costumes totalmente diferentes; de uma escola que tenta respirar os ares inexistentes de outras épocas.
São alunos agora predominantemente de classe baixa, residentes nos mesmos bairros insulares e agora também das área continental, que surgiram nos anos 80 e 90 e tiveram uma explosão populacional no início do século.
Mas continuam sendo jovens: rebeldes, com novas ideias e hábitos, ainda cheios de sonhos, mas sem muitas expectativas. A maioria não sabe o quer e dizem que vão dar um tempo antes de escolher uma faculdade e traçar um plano de vida. Poucos escolhem por convicção e alguns escolhem no "vácuo".
As fotos foram feitas por uma aluna com um aparelho de telefone celular emprestado de um amigo, na hora do intervalo matutino.
Não é aquele Martim Afonso do nosso tempo, mas é o do tempo deles. O mesmo Martim Afonso.
CALUNGAH







OS LIVROS E OS CADERNOS DA MENINA FILOMENA
DALMO DUQUE

Mas nem as coisas nem sempre foram assim.
Reza a lenda que, certa feita, um grupo de meninas do Martim Afonso saiu da escola - que na época funciona na mesma rua, porém na instalação de antiga pensão - e foram em direção à praia para realizar alguns estudos e colocar assuntos específicos em dia. Estavam de aula vaga. Não satisfeitas com os bancos do calçadão, tiraram os sapatos e entraram na areia, sentando-se num alegre círculo, colocando os cadernos e livros no chão para ganhar tempo até quando chegasse a hora de irem para suas casas. Eram minutos preciosos de liberdade e diversão. Uma delas, em incontido e inexplicável impulso, sem que nenhuma delas discordasse e impedisse, resolveu por si refrescar os pés no vai e vem das ondas. Sob a curiosidade e até inveja de algumas, ela foi entrando lentamente no mar até que as águas cobriram seu corpo, restando somente a cabeça e os braços estendidos dos ombros em movimento de equilíbrio, dando a impressão de que flutuava. E assim permaneceu por alguns minutos até que as amigas se distraíram e não perceberam que ela havia desaparecido complemente de suas vistas. Todas em pé, algumas se aproximam da água, olham para todos os lados e busca da colega e nada avistaram. Nos rostos, a angústia e algumas lágrimas desespero, já querendo respostas para o que acabara de acontecer.
Como explicar aquele súbito desaparecimento? O que diriam aos pais dela, aos professores e às suas famílias?
Voltaram apressadas para a escola e alertaram a direção. Nesse ínterim, no calçadão e na areia, já havia alguns curiosos querendo se inteirar da novidade. A notícia se espalhou rapidamente e chegou à delegacia de polícia, que ordenou rapidamente as buscas. Diferente dos turistas que se afogavam por distração ou suicídio deliberado, a menina parece ter sido tragada rapidamente por uma força estranha, sem nenhuma resistência da parte dela. Sumiu no mar.
Como acontece com a maioria dos afogados, o corpo da jovem estudante, sugado pelas águas e por impulso da maré, seria encontrado dias depois boiando próximo da Pênsil na direção do Mar Pequeno. Uma tragédia diferente daquela que atingem turistas desconhecidos. A moça não era desconhecida e sim uma menina de 14 ou 15 anos, agora mais do que nunca, muito conhecida na cidade. Uma grande comoção popular tomou conta dos vicentinos no velório e sepultamento.
Mas naquele dia fatídico e inesquecível, quando todos se retiravam do local onde ocorrera o sinistro, alguém olhou para trás e avistou alguns pertences na areia. Foi até o lugar e, no chão, onde haviam se sentado em círculo, e viu que lá ainda estava os cadernos, os livros, o par de sapatos e as meias da colega desaparecida para sempre. O par de sapatos e as meias foram devolvidos para a família. Os livros e os cadernos foram conservados em segredo entre as colegas, que guardaram como lembrança e depois um preciosa relíquia usada em suas orações para matar saudades da amiga e também auxílio místico em outros momentos de angústia e incerteza. Que segredos poderiam conter nas anotações dos cadernos ou notas esparsas dentros livros? Que força estranha e secreta teria impulsionado seu mergulho para a morte? Teria sido uma simples fatalidade, causada por um mal estar súbido, um choque de temperatura e congestão? Ou então uma queda acidental numa cava formada pela maré? Escondia ela algum segredo íntimo que se transformou em tormento e que jamais poderia ser revelado? São dúvidas que só ela ou alguém muito próximo poderia esclarecer.
Foi assim que, aos poucos, esse hábito de cultuar esses objetos entre as amigas mais íntimas da jovem estudante afogada espalhou-se como devoção popular entre mulheres religiosas, que passaram a levar livros e cadernos dos seus filhos colocando-os sobre o túmulo da Menina Filomena. Era assim que ela se chamava, talvez, em homenagem à menina martirizada aos 13 anos em Roma e que depois se tornou santa. O túmulo da menina Filomena, sem que a família pudesse ter algum tipo de controle, durante muitos anos ficava repleto de livros e cadernos no dia de Finados; e também recebia a visita em dias comuns, quando as causas e pedidos de ajuda não podem esperar o distante dia dos mortos no final do ano. Também pode ter sido por isso que, de tempos em tempos, as aulas práticas de educação física no Martim Afonso são suspensas sem maiores explicações. (Vultos e Fantasmas)
NOTA de Nelson Jose Gonçalves
"Conheci Filomena, nos chamavamos de Filó, menina magra de cabelos compridos até a cintura e sua irmã de olhos verdes muito bonita, moravam na rua Marcílio Dias do Nascimento, no Catiapoã, terceira casa descendo do lado da vila sorocabana perto da praça Walter do Amaral, seu pai sr.Tibúrcio, foi candidato a vereador mas não ganhou. Me lembro de uma passagem eu estava brigando em frente a sua casa com meu amigo Miguelzinho camisa preta por causa de bolinha de gude e ele sr. Tibúrcio saiu no portão: "Ei meninos o que vocês estão fazendo aí", entrou na briga para separar-nos e mandou todo mundo para casa. Isto aí que aconteceu com a Filó me entristeceu muito quando soube que ela tinha
morrido afogada. Eu tinha na época 14 para 15 anos, ela também quase a mesma idade; foi enterrada com seu vestido de primeira comunhão. Me lembro como se fosse hoje. Isto ocorreu mais ou menos em 1958, não em 1949. Foi um choque para todos nós. Moro em São Paulo e todas as vezes que desço à Baixada para ver meus parentes e visitar o túmulo de meus pais, visito a quadra nr. 08 do cemitério de São Vicente onde está enterrada Filó, companheira de infância. Seu túmulo está cheio de placas grudadas de (milagres) graças alcançadas".
Comentário feito no grupo Amigos do Martim Afonso - Facebook.
PROFESSOR FANTASMA
MINHA HISTÓRIA COM A EDUCAÇÃO
DALMO DUQUE
*
EXTERNATO YPIRANGA
Comentários sobre a postagem e foto na página do Facebook de Paulo Miorim
Neide Castro
Fiz o curso de admissão ao ginásio no Externato Ipiranga em 1958, a professora era Dona Lídia, esposa do Major Passos ( dono do colégio) . Nossa sala era em cima da Garagem . Os dois primeiros lugares na prova para o Martim Afonso foram de lá : João Carlos que vinha de trem de creio Samaritá 1º lugar e eu em 2º com nota 8,5 . Ganhei medalha em cerimônia no Tumiaru .
Orlando Bexiga
Neide Castro o major sempre entrava na sala de aula com uma bengala curta debaixo do braço e as vezes fazia umas bolinhas de maça de pão e jogava nas nossas mesas.
Neide Castro
Orlando Bexiga ele era amigo de meu pai e sempre ficava batendo papo na alfaiataria onde meu pai trabalhava, em frente ao Bar Seleto. O bastão estava sempre com ele, é próprio do exército.
EXTERNATO SÃO LUIZ
1954. Turma do 1º ano primário do Externato São Luiz. Funcionava onde hoje fica o Bradesco da Praça do Correio. São Vicente de Outrora. Acervo: Tânia Retz Lucci.
*
COLÉGIO COMERCIAL NAÇÕES UNIDAS
Fundado em 1951 pelo casal de educadores Carlos Araújo do Santos e Itália Schepis Araújo dos Santos. Teve como corpo docente nos seus primórdios os seguintes educadores:Inácia Gilda de Azevedo Andrade, Ilma Machado, Sônia Campos Caldeira, Elisabeth Carvalho de Farias, Arlete Machdo Marques, Aniloel Serpa Gomes, Míriam F. de Mello David.
Desfile de 22 de setembro de 1979. Nota do jornal Cidade de Santos.
*
ESCOLA VISCONDE DE MAUÁ
Alunos da 5ª série do Instituto Educacional Brasília em 1976. O colégio funciona até hoje, na Vila Cascatinha, localizado na avenida Antônio Emmerich, ao lado do quartel do Batalhão de Caçadores. Acervo: Amauri Alves.
Certificado da Escola Acosta - de João de Oliveira Acosta- nos anos 1970. Nota. Documento original encontrado causalmente em imóvel no Boa Vista
Desfile de 7 de Setembro de 1976 na avenida Presidente Wilson, esquina com a rua Amador Bueno da Ribeira. Acervo Heliane Santos- Grupo Alunos do Martim Afonso.
SESSÕES ELEITORAIS E REDE ESCOLAR EM 1968
*
VIDROBRÁS-SAINT-HILAIRE
"Hoje tive um reencontro com a minha adolescência. Visita à Escola August Saint-Hilaire - antiga Vidrobrás, onde fiz parte do meu ensino fundamental em 1977-78. Era presidente do Centro Cívico e ator amador na peça o Noviço. Nessa época o prefeito era Koyu Iha. Aqui também estudou nos anos 1950 o músico e escritor José Miguel Wisnik, antes de ir para o Martim Afonso. O pai dele era chefe de forno da Fábrica de Vidros". Dalmo Duque, 16 de agosto de 2019.E.E. CIDADES IRMÃS - NEVES PRADO MONTEIRO
ENSINO E EDUCAÇÃO MUSICAL
BANDA INFANTIL
*
TIA MIMI MACHADO
NILCE LASSALVIA
Acervo digital da Biblioteca Nacional.
ORQUESTRA DE CONCERTOS E CORAL VICENTINO
Pesquisa do genealogista Waldiney La Petina, Membro nº 3 do CALUNGAH-Coletivo dos Historiadores de São Vicente.
EDUARDO SOUTO
A ESQUINA DA SAUDADE
(Da Sucursal de São Vicente)

O HINO DE SÃO VICENTE
Letra: Luiz Meirelles Araújo. Música: Maestro José Jesus de Azevedo Marques
O poeta Luiz Meirelles Araújo. Acervo: Claudio Zomignani.
*
ESCOLA INFANTIL CINDERELA
INTEGRAÇÃO-UNIBR
*
MEU QUERIDO "MATEO BEI"
MIRTES DOS SANTOS SILVA FREITAS
Formatura (1957) – Professora Mary- Diretora Adilza.
Fico
feliz ao lembrar
De
minha vida o começo
Daquele
Grupo Escolar
Eu
nunca, nunca, me esqueço!
Alguns
dirão que esse início foi inspirado no poema “Meus oito anos”, de Casimiro de
Abreu. Certo! Trata-se de um poema lindíssimo sobre a infância do autor. Também
quero contar fatos de “minha infância querida que os anos não trazem mais!”
Até
meus sete anos, tudo eram flores. Brincávamos, meus três irmãos e eu, num
quintal onde minha mãe plantara roseiras,dálias, dracenas, lírios, margaridas,
açucena, madressilva e hibisco. Também havia a astrapéia, que ela chamava de
cachopa. Essa planta é um arbusto de folhas rústicas, com grandes cachos de
flores róseas e cheirosas, que atraem muitas abelhas. Tínhamos mamoeiro,
goiabeira, bananeiras e uma amoreira, com direito a bicho-da-seda. Naquele
local, reinávamos num vaivém incessante, nos dias de sol.
Lembro-me
de um balanço com correntes de ferro e de um coradouro gramado, nos fundos do
quintal. Às vezes, ficávamos deitados na grama, espiando o céu e descobrindo
figuras de carneirinhos e fadas, nas nuvens que passavam. De repente, mudávamos
de ideia e já brincávamos de roda, a Neuza, eu e duas amiguinhas. Aí,
cantávamos a “Ciranda, cirandinha”. Também podíamos emendar com “Senhora Dona
Sancha, coberta de ouro e prata, descubra o seu rosto,quero ver o seu
retrato...” E para recitar? “Batatinha quando nasce / espalha a rama pelo chão/
menininha quando dorme / põe a mão no coração!” Se os dias eram chuvosos,
também nos divertíamos. Nosso quintal ficava inundado. Aí, pela janela,
jogávamos barquinhos de papel na enxurrada. A rua ao lado desaparecia. Os moleques
nadavam naquele rio, fazendo a maior farra! Não tinham medo das cobras e de
outros bichos que a eles se juntavam, saindo da vala e do matagal alagado. Nós
nos divertíamos a valer! Devo acrescentar que, às vezes, eu arrumava uma
quizila com a Neuza. Aí, minha mãe, dona Rita Rosa, resolvia a contenda em dois
tempos, com algumas cintadas em mim. Vez ou outra, sobravam para a Neuza. O
castigo logo era esquecido. Eu era um grilo saltitante no capim da vala.
Completei
sete anos em outubro de 1953. Eu já ouvira minha mãe falar que, no próximo ano,
entraria na escola, mas eu nada via de concreto. Aí, num belo dia ---sempre há
de ser um belo dia, quando se trata da vida escolar de uma criança---minha mãe
perguntou se eu queria aprender a ler. Respondi que sim, já alvoroçada com a
proposta. Poucos dias depois, à tarde, ela colocou uma brochura, uma cartilha,
um lápis e uma borracha sobre a mesa da cozinha. Disse-me: ---Mirtes, vamos
começar. Eu fiquei encantada! Era a “ Nossa Cartilha”, de Helena Ribeiro São
João. Penso que pertencia à Editora Francisco Alves.
Meu
primeiro contato com as letras foi mágico! Primeiro as vogais, com desenho
alusivo a cada uma. Depois, “Babá lava a barriga do bebê” e “O bebê toma banho
na bacia”, tal qual nossa irmã caçula Zilda. Minha mãe ensinou-me a utilizar o
lápis. Como sou canhota, tive o impulso de pegá-lo com a mão esquerda. Ela não
deixou. Disse-me para fazê-lo com a direita. Ela era canhota. Achava que a
letra ficava feia com aquela mão. Aquiesci, sem problemas.
Não
sei por quanto tempo estudei. Apesar de ter tido, apenas, um semestre escolar,
minha mãe tinha didática. Logo, logo, aprendi.
O
Natal chegou! Era sempre uma data de grande alegria. Um vestido novo para as
meninas, um jogo de calção com suspensório e uma camisa para o Gilberto. O
melhor, porém, eram os presentes. Boneca, quase sempre, para nós. Um carrinho
para o Beto. Cumpria-se, assim, a passagem do Papai Noel por nossa casa.
Deixava os presentes sob as camas. Embora, nessa época, eu não acreditasse mais
nele, naquele dia esquecia a desconfiança e usufruía da boa-nova.
Rapidamente,
o deus Jano se apresentou. Com duas faces, olhava para o passado e para o
futuro. Naquele ano, privilegiou o futuro. E que futuro!
Fevereiro.
“Em fevereiro, tem Carnaval.”. Ledo engano! Ele só viria no dia 28. As aulas
começariam antes. Então, corrida para comprar a fazenda do avental nas Pernambucanas.
As pessoas diziam fazenda, em vez de tecido. Por falar em tecido, penso que o
pano utilizado chamava-se morim.
Minha
mãe era a costureira oficial da família. Rapidamente, colocou a fazenda de
molho. Naquele tempo, quase todos os tecidos encolhiam. Depois, fita métrica
para cá, papel de embrulho para o molde e régua para não ficar enviesado. Ficou
pronto o avental! Carecia de ter uma patente azul-marinho na manga, para
indicar o primeiro ano. Era um V invertido, feito com um fitilho. Faltava a
fita de gorgurão ou tafetá, para os cabelos. Todas as meninas usavam um laço,
semelhante a uma borboleta, preso no alto da cabeça. Acho que algumas mães
queriam demonstrar status, tamanho era o laço que as filhas ostentavam.
Não
sei em que dia as aulas começaram. Talvez no dia 8, por ter sido uma
segunda-feira. Só sei que, na véspera, quase não dormi. Estava ansiosíssima!
Acordava de hora em hora, para verificar se o caderno, o lápis e a borracha
estavam na prateleira onde ficava o rádio. E se tivessem sumido?
Pela
manhã, minha mãe despertou-me do tão agoniado repouso. Tomei banho, ingeri
rapidamente o café com leite e comi uma fatia de pão com manteiga. Aqui, um
esclarecimento: não havia o pãozinho ou média. O pão era de meio quilo ou de um
quilo. Podia ser de dois tipos: d'água ou suíço. Era chamado de pão cacete ou
cacetinho. Também havia o pão sovado, as broas de fubá e de milho. Se havia
outros tipos, não me recordo. Comprávamos o pão d'água, por ser mais barato.
Quanto à manteiga, era Paulista ou Aviação. Desconhecíamos a margarina. Não
possuíamos geladeira. Sem refrigeração, a manteiga logo ficava rançosa e
intragável, digo, incomível.
Após
o café, foi a hora de vestir aquele avental branquinho e engomado. Sentei-me em
uma cadeira, no quintal, e minha mãe cacheou meus cabelos, moldando-os com os
dedos. Calcei meus chinelos, modo presente de um antigo sapato. Éramos do tempo
da reciclagem. Quando os pés cresciam, cortava-se a frente, deixando os dedos
de fora, ou a parte traseira, com os calcanhares à mostra. As havaianas ainda
não tinham nascido.
Por
ser o primeiro dia de aula, minha mãe levou-me à escola. Bem… não era,
propriamente, uma escola. Era o salão de baile “Primeiro de Janeiro”.Tratava-se
de uma sala isolada, com turma mista, distante da sede “Matteo Bei”. Tudo era
estranho para mim. Os colegas, o salão com carteiras duplas, de madeira, com
suporte de ferro, a mesa da professora e uma lousa preta de madeira. Nas
paredes, cartazes sobre cartazes, fazendo a propaganda política do Dr. Tude
Bastos.
O
salão ficava em uma esquina da Rua 1, hoje, Rua da Imprensa. Não tinha cerca,
nem muro. Um belo quintal, onde grassava o capim, seria o nosso playground. Nos
fundos, a casinha. Quando uma criança queria ir ao banheiro, dizia:----Fessora,
posso ir na casinha? ---Enquanto lá estudei, nunca visitei a tal casinha.
Parodiando Zeca Pagodinho, “nunca vi, nem usei, eu só ouvi falar.”
Chegou
a rainha da festa! A professora. Seu porte, sua beleza altiva, seus trajes
feitos com esmero, seu cheiro do pó-de- arroz Cashemere Bouquet devem
ter deslumbrado a todos. Seu nome? Mary Menna de Araújo. No primeiro dia,
arrebatou a todos, sem exceção. Fomos seus suditozinhos, dispostos a tudo por
um sorriso.
As
aulas tiveram início. Após a apresentação, a professora dispôs as crianças,
sentando-as em dupla. Após uma amigável conversa, entregou a lista do que
iríamos utilizar, para que fosse entregue aos pais. Precisaríamos, também, de
uma maleta. Pediu duas brochuras, uma para as atividades em sala de aula e
outra, para as lições de casa;um caderno de caligrafia, um de linguagem e um de
desenho(pequenos). A cartilha era a mesma que eu tinha: “Nossa Cartilha”.
Pediu, também, uma régua de madeira, um apontador, dois lápis pretos, uma
borracha, seis ou doze lápis de cor, um estojo de madeira (não havia o de
plástico), uma tabuada e folhas de papel impermeável para encapar os cadernos.
As etiquetas para a identificação do material costumavam ser um brinde das papelarias.
Na época, comprávamos tudo na Livraria e Tipografia Cruzeiro, situada à Rua
Frei Gaspar, 456. O material era bem leve, e cada aluno carregava sua mala,
diferente de agora, em que todos precisam contratar um carregador. Nem todos os
pais compraram o apontador. Eu apontava os lápis com metade de uma lâmina da
marca Gillete, anteriormente utilizada por meu pai para se barbear. Era
perigoso usá-la, já que enferrujava, mas nunca cortei o dedo. Minha mãe
apontava meus lápis com uma faca de cozinha, de mil e uma utilidades.
As
aulas transcorreram sem grandes problemas. No final de cada mês, levávamos o
Boletim Escolar para ser assinado pelo pai ou responsável. Minha mãe era a
primeira pessoa a analisá-lo. Boas notas, mas o comportamento...Bem, apesar de
tímida, eu gostava de conversar. Meu pai, o símbolo da autoridade, assinava,
pausadamente, o registro mensal. Caprichava na assinatura. Colocava, no meio
dele, uma cédula de um cruzeiro. Era para a Caixa Escolar. Naquela época, vinha
escrito nas cédulas: “República dos Estados Unidos do Brasil”. Lembro-me de
que, com um cruzeiro, eu comprava vinte e quatro balas de banana no bar do seu
Elizeu. O bar tinha a data de construção na fachada: 1948.
Foi
muito fácil minha adaptação à escola. Todas as manhãs, ia e voltava sozinha ou
em companhia de alguns coleguinhas, que logo se dispersavam. Acompanhávamos a
professora até uma parte do caminho. Todos queriam carregar sua bolsa. Depois,
ela se despedia. Atravessava, sozinha, por um atalho que existia num campo de
futebol, chamado Campo do Beira Mar. Ia em direção ao ponto de ônibus, na Praça
Cesário Bastos. Os ônibus eram escassos, devido à baixa procura.
Nem
todos aprendiam com facilidade, mas a maioria aprendia as lições da cartilha.
Mais difícil era decorar a tabuada. Em casa, eu papagueava aquela sequência de
números e, depois, para mim mesma, tentava a resposta, salteando-os.
Agora,
um pouco de lazer, no terreno que circundava a escola. Foi lá que aprendi a
brincar de “coelhinho na toca”, passa- anel, músicas como “ Terezinha de Jesus
“ e “À mão direita tem uma roseira”.
Terezinha de Jesus
De uma queda foi ao chão
Acudiram três cavalheiros
Todos três chapéu na mão
O primeiro foi seu pai
O segundo, seu irmão
O terceiro foi aquele
Que a Tereza deu a mão
Da laranja quero um gomo
Do limão quero um pedaço
Da menina mais bonita
Quero um beijo e um abraço
(Talvez eu tenha suprimido uma estrofe)
À mão direita tem uma roseira
Que dá flor na primavera
Entrai na roda, ó linda roseira
Abraçai a mais faceira
A mais faceira eu não quero
Quero a boa companheira
E aí, a menina que
estava ao centro escolhia uma coleguinha para abraçar. Não me recordo da
brincadeira dos meninos. Talvez brincássemos em conjunto no “coelhinho na toca”
e no “lenço atrás”, também conhecido como “corre cotia”.
Logo, logo, terminava o
intervalo. Afogueados, animados, era a hora de volta à calma.
Eu sempre tinha
dúvidas quanto à mão da escrita. Confundia-me por ser canhota e ter que
escrever como destra. Daí, a própria mão direita me salvou. Nasceu, no dorso
dela, uma pintinha salvadora. Na dúvida, procurava-a.
Abril chegou! Que alegria! O dia
primeiro era o “dia da mentira”. Contávamos lorotas, uns aos outros. Muitos
acreditavam. Aí, gritávamos: ---Primeiro de abril!---risos de uns,
desapontamento de outros.
No mês de abril, aprendemos dois
fatos históricos: Descobrimento do Brasil e a morte de Tiradentes. Difícil era
saber a data correta de cada um. Vinte e um? Vinte e dois? E por que o Brasil
foi descoberto? Por causa das calmarias. E eu sem entender o que eram
calmarias. E as caravelas? Sei lá. Eram coisas muito abstratas para meu mundo
concreto.
Maio! Que mês feliz! Tínhamos o
“Dia das Mães”, por causa de uma tal Anna Jarvis. Quanta alegria para quem a
tivesse! Todos fizeram um cartãozinho como presente para a mamãe. Era um
pequeno retângulo de cartolina, com uma florzinha desenhada por nós. Nele,
desejávamos um dia feliz para ela, com um beijo e um abraço. Foi muito
importante para minha mãe. Guardou-o por toda a sua vida.
Dia após dia, progredíamos nos
estudos. Já havia as fileiras selecionadas pelo desempenho bom, regular e
fraco. Já fazíamos provas no caderno de linguagem e, no mês seguinte, os mais
adiantados já teriam completado a fase da alfabetização. A essa altura, já
havia batalha de tabuada. O prêmio era um lápis ou uma borracha. Eu me esmerava
em decorar a multiplicação. Em junho, tínhamos que saber até a tabuada do 5. Já
fazíamos continhas, além de probleminhas com adição e subtração. Aplicávamos a
prova real. Claro que era tudo elementar.
O mês de julho era de férias.
Costumava ser muito frio. Era muito bom estarmos em casa, mas eu não via a hora
de voltar às aulas. Para quem o mundo era apenas seu quintal, aprender coisas
novas e brincar com os colegas era um deslumbramento!
Findo o período de férias, novos
desafios. Quem tivesse terminado a cartilha, já começava no primeiro livro. Era uma fixação do que se
aprendeu, com pequeníssimos textos e alguns exercícios. Infelizmente, não me
recordo dele. Recordo-me, porém, de uma música ensinada pela professora Mary:
Rataplã (autor desconhecido):
Rataplã, plã, plã
Rataplã, plã, plã
Rataplã, plã, plã
Toca a marchar
Toca a marchar
O batalhão
Da capoeira
Sai toda inteira
A criação
Na frente o galo
Levanta o pó
É o comandante
Có có ri có
Rataplã } estribilho
Segue o tenente
O Dom Peru
De longas pernas
Glu glu glu glu!
Rataplã } estribilho
Sinhá Galinha
Leva a bandeira
E seus pintinhos
Vão na rabeira
Nosso acervo musical continuava
aumentando. A professora gostava de música. Pudera! Era filha do dono de “A
Melodia”, Sr. Luís Meirelles de Araújo, letrista do Hino do Município de São
Vicente. A melodia foi composta pelo Maestro José Jesus de Azevedo Marques.
Música para o mês de agosto:
Marcha, soldado
Cabeça de papel
Quem não marchar direito
Vai preso pro quartel
O quartel pegou fogo
São Francisco deu o sinal
Acode, acode, acode
A Bandeira Nacional!
Certamente, aprendemos a fazer
uma dobradura de jornal, para portarmos o chapéu de soldado.
Interessante! Citei,
anteriormente, as balas de banana. Eu as adorava, mas sofria muito. Logo cedo
tive cáries. Não só eu, mas muitas crianças. A água não era fluoretada, como
agora. Aliás, só bebíamos água de poço, pois não havia água encanada no bairro.
Dentista? Nunca tinha ouvido falar. Assim sendo, muitas crianças possuíam
grandes “panelas”. Quando o doce entrava na cavidade, chorava-se de dor. Minha
mãe se valia do “Um minuto”, remédio para pingar no buraco do dente, que ficava
amortecido. Por causa disso, ela proibia os chicletes, que faziam mal aos
dentes e ao estômago, segundo ela. Quanto à escovação, era só uma escova para
todos os filhos. Ninguém tinha posses para escovas individuais.
No segundo semestre, nossas
atividades se diversificaram. Além da leitura individual, havia ditados,
formação de pequenas sentenças, ordenação de palavras, operações aritmétricas
simples e ampliação do conhecimento dos numerais; desenho, noções de História e
Geografia, enfim… um grande aprendizado que ia nos preparando sempre para
dificuldades maiores. O traçado das letras e pequenas orações continuavam no
caderno de caligrafia.
É claro que alguns iam ficando
para trás. A professora não esmorecia, mas, infelizmente, já sabia que alguns
não alcançariam o desejado desempenho. Seriam reprovados.
Naquela época, a reprovação era
implacável; por isso, nem todos tinham sete anos no primeiro ano. Havia os de
mais idade, reprovados tantas vezes quanto necessário. Também não havia
obrigatoriedade de idade para o ingresso, nem vaga para todas as crianças.
Tinham, sim, que completar os sete até o mês de fevereiro. Quem tivesse nascido
em meses posteriores, como eu e minhas irmãs, só estudaria no ano seguinte.
Além disso, a Direção das Escolas entendia que, se um aluno viesse de um estado
considerado mais atrasado, deveria ser matriculado em uma série anterior à que
estava cursando. Se estava no segundo, voltava para o primeiro. Caso não
houvesse vaga, ficava como ouvinte.
Em minha sala havia crianças mais
velhas. Lembro-me de uma menina, Arlete, fraquíssima na aprendizagem. A
professora sempre a escolhia para recitar. Ela recitava levantando os braços,
alternadamente. Eu ficava com vergonha por ela. Achava aquilo muito feio. Não
entendia o objetivo pedagógico de tal escolha.
Em 24 de agosto de 1954, ocorreu
a morte do Presidente Getúlio Vargas. Lembro-me de ter chegado em casa, como
sempre, muito animada. Aí, vi minha mãe desesperada, chorando copiosamente.
---O Getúlio morreu! O Getúlio
morreu!
Eu já ouvira falar em Getúlio,
mas… quem era? Presidente? Eu não sabia nem o nome do nosso prefeito que,
aliás, era o Dr. Charles Alexander Souza Dantas Forbes… Minha mãe
completou:---Getúlio, o pai dos pobres!
Aquele foi um dia de luto lá em
casa e em milhões de lares brasileiros. O grande feito do Getúlio, para os
trabalhadores, foi a assinatura do conjunto das leis trabalhistas, a CLT, em
1943.
Passado o espanto, setembro
chegava. A Zilda logo completaria dois anos de muita fofura.
Na primeira semana de setembro,
mais uma aula importante de História: a Proclamação da Independência do Brasil.
A data suscitou uma demonstração cívica de nossa parte. Aprendemos a formar
fileiras, a marcar passo e a marchar. Um braço de distância do companheiro da
frente. Ensinamento aprendido. Num belo dia, demos uma volta pelo quarteirão,
para comemorarmos a data.
Recebemos, para acenar, uma
bandeirinha do Brasil, com haste de madeira. Lá estavam nossas cores
representadas, com vinte e uma estrelas no círculo azul. Tínhamos, na época,
vinte estados, mais o Distrito Federal, no Rio de Janeiro. Naquele dia,
imperava o civismo em nossos corações. Não sei se houve plateia para nos
aplaudir. Talvez algumas donas de casa com seus pequeninos tenham corrido para
o portão. Para quem participou, um feito heroico. ---Viva D. Pedro I!
Será que já era ensinado o Hino
Nacional no primeiro ano? Não me recordo. Pode ser. Naquele tempo, as brochuras
vinham com a letra do Hino impressas na capa. Letra: Joaquim Osório
Duque-Estrada. Música: Francisco Manuel da Silva. Hoje, sei que a música foi
composta no século XIX e a letra, na primeira década do século XX. O Hino
Nacional Brasileiro passou a existir a partir de 1909, mas só em 06/09/1922
passou a ser conhecido como Hino Oficial do País, pelo decreto do Presidente
Epitácio Pessoa. Temos um Hino com letra pujante e linda melodia, num arranjo
de grande entusiasmo. Que casamento feliz!
No início de setembro, já havia
o prenúncio da primavera. Naqueles dias frescos, a natureza se engalanava. Para
quem sempre gostou de flores, como eu, o caminho de casa à escola era um
jardim. Tudo o que considerávamos mato, florescia. As morning glory, ou glória
da manhã, azuis, azuis, desabrochavam, agarradas às cercas e esparramadas pelo
chão; o capim dava seus cachos floridos, e os sabugueiros explodiam em buquês
brancos, perfumados. Havia, também, pequenas alamandas amarelas, em todos os
terrenos baldios. Isto, sem falar nos quintais. As donas de casa cultivavam
flores e folhagens. Então, nada melhor do que cantar:
A primavera (canto popular):
Desperta no bosque
Gentil primavera
Com ela chegou o canto
O gorgeio do sabiá
La, la, la, la, la, la, la, la, la,la
La, la, la, la, la, la, la!
Com lindos trinados
Suaves e belos
Gentis são os passarinhos
Saudando a primavera
La, la, la, la, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la!
Aprendemos, também, a música:
Meu sininho, meu sininho
Meu sinão, meu sinão
Bate de mansinho
Bate de mansinho
Dlim, dlem, dlom!
Dlim, dlem, dlom!
Apenas com essa estrofe, a
professora nos deixava maravilhados! Dividia a classe em duas turmas e regia o
cânone. Sob sua batuta (imaginária), aumentávamos e diminuíamos o tom de voz,
terminando em conjunto. Anos mais tarde, só encontrei um professor, no ginásio,
que me entusiasmou tanto. Não posso deixar de citá-lo: Professor Luiz Gomes
Cruz, que lecionava Canto Orfeônico.
Voltemos às aulas. O tempo
estava acelerado. Urgia que nos dedicássemos, pois logo chegariam as avaliações
finais.
Dona Mary era muito amável com
todos, apesar de enérgica. De vez em quando, alguém era agraciado por ela com
um comentário, mas houve um aluno que recebeu um apelido que o distinguiu pela
vida toda. Como era bem mais baixo do que os outros, miúdo, ela o chamou de
Piolhinho. Não, não era bullying. Era uma forma carinhosa de a ele se referir.
Dali por diante, chamei-o sempre pelo apelido, e ele sempre me atendeu
sorrindo.
Por falar em crianças,
esqueci-me de dizer que não comemorávamos o “Dia da Criança”; tampouco, o “Dia
do Professor”. Embora ambas as datas já tivessem sido pensadas há muito, e
comemoradas apenas em alguns lugares, só foram amplamente divulgadas a partir
da década de 1960. Em 1955, a fábrica de brinquedos Estrela lançou uma campanha
de marketing. O “Dia da Criança” alavancou as vendas, dali por diante. Em 1963,
o dia 15 de outubro passou a ser feriado escolar, oficializado, nacionalmente,
como “Dia do Professor”, pelo Decreto
Federal 52.682, assinado pelo Presidente João Goulart.
Ah! Como as crianças
desperdiçavam as folhas dos cadernos! No final da aula, era preciso deixar as
carteiras limpas. O cesto transbordava de folhas amassadas. Tinham preguiça de
utilizar a borracha.
Em casa, minha mãe nos ensinava
a sermos econômicos. Não podíamos usar os lápis de cor. As continhas tinham que
ser resolvidas, primeiramente, no papel de pão. Depois, copiadas no caderno, já
sem erros.
Nunca me esqueço de um fato.
Certo dia, um senhor alto, magro, trajando terno, desceu nossa rua., batendo de
casa em casa. Perguntou para a mãe, ou responsável, qual a idade das crianças,
e se já estavam estudando. Anotou o nome e a idade das que estavam prestes a
completar sete anos. Fez isso, também, com as mais velhas, caso estivessem fora
da escola. Depois, soubemos que o homem era o Sr. Aurélio Ponna. Ele estava
interessado em ampliar o “Matteo Bei”, dando oportunidade de instrução às
crianças do bairro. Em casa, a Neuza estava com seis anos. Mais tarde, aos
sete, foi contemplada com uma vaga. Naquele tempo, não havendo vaga para todos,
muitas crianças ficavam sem estudar na época certa. Durante anos, os pais
tinham que passar a noite inteira em uma fila, para garantir a matrícula do
filho.
Voltando à sala de aula, uma
lembrança inesquecível é o poema “Trem de ferro”, de Manuel Bandeira. Sim.
Decoramos! Aos poucos, dona Mary foi colocando lenha na fornalha do nosso
cérebro, fixando as estrofes:
Café com pão
Café com pão
Café com pão
Virge Maria que foi isto maquinista?
Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Aí seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
Oô ...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
De ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô ...
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô …
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matá minha sede
Oô …
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no Sertão
Sou de Ouricuri
Oô …
Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente …
Dona Mary merecia todas as
flores e todos os louvores. Foi assim que, ao visitar minha madrinha, no
Catiapoã, tive a ideia de pedir jasmins de seu jasmineiro, para ofertar à
querida mestra. Não quis poucos. Quis muitos e muitos. No dia seguinte, levei
aquele ramalhão (meu aumentativo de ramalhete) para a escola. Ela agradeceu e
colocou-o num balde, ao lado de sua mesa. Pouco tempo depois, o perfume era
tanto que já nos causava tontura. Certamente, ela teve dor de cabeça. Resolveu
colocar as flores do lado de fora da sala. Na saída, para não fazer desfeita,
levou-as. Será que as deixou pelo caminho?
Novembro chegou! Naquela época,
muitos eram os feriados. Tínhamos aula de segunda a sábado. Às vezes, os
feriados eram precedidos de ponto facultativo. Assim sendo, o dia primeiro de
novembro, “Dia de os Todos os Santos”, emendava com o “Dia de Finados”. Depois,
Quinze de novembro, “Proclamação da República”. Dezenove, “Dia da Bandeira”.
São datas importantes, eu sei. Só não entendo o “Dia de Todos os Santos”.
Durante o ano, todos os dias são dedicados a alguns santos. Aí, resolveram
juntar todos para uma confraternização geral. Atualmente, aboliram a
comemoração.
Novembro é um mês muito
importante para a classe estudantil. Nós nos
preparávamos para as
provas finais. Para mim, nenhuma dificuldade, mas não deixei de ficar
apreensiva e ansiosa. Penso que soubemos o resultado no início de dezembro. As
aulas iriam até o dia oito.
Num belo dia, encontrei vários
coleguinhas na porta da escola. ---Mirtes, você passou em primeiro lugar!---
Demorei para atinar com aquilo. Lembro-me, até hoje, de que entre aquelas
crianças estava o menino mais bonito da classe, o mais comportado, o mais bem
vestido, enfim...o primeiro lugar só poderia ser do Antônio Silveira. Pois
é...mas fui eu a que tirou 9,9. A professora devolveu as provas para todos,
comentando os erros de cada um. No meu caso, errei ao ordenar uma oração. Em
vez de escrever: Eu o vi, escrevi : Eu vi-o.
O prêmio que recebi foi
maravilhoso! Adorei ganhar o livro Bambi, da Cia. Melhoramentos. Para uma
criança que nunca tivera um livro de história, meu livro era digno de ser
colocado num pedestal. Ele continua lá, ao lado da professora Mary.
As férias chegaram. Só
brincadeiras e algum servicinho doméstico. Pouca coisa ainda, além de tomar
conta da caçula, que tinha dois anos. Meu irmão logo faria quatro, e a Neuza já
tinha completado seis anos.
Naquele tempo, nada sabíamos
sobre Jardim de Infância e Pré- escola, muito menos, Creche. As crianças se
criavam soltas nos quintais. Há pouco, soube de conhecidos que fizeram Jardim e
Pré. Residiam no Centro, e estudaram em escolas particulares.
1955- Volta às aulas, novamente
no salão “Primeiro de Janeiro”. Eu sabia, meio nebulosamente, que ali
funcionava um salão de baile. Não tinha profundidade para perceber mais do que
isso. Só na velhice, digo, agora, meu colega Ozório disse-me que era baile de
gafieira. Gafieira? Umbigada? Fiquei pasma. Como? De onde vinham as pessoas? As
ruas eram de breu, pois não havia luz elétrica. Só dentro de casa, mas eram
lâmpadas incandescentes, geralmente, de quarenta e sessenta Watts. A população
era de trabalhadores e donas de casa.--- Vinham da Vila, ele me respondeu. Da
Vila Margarida. Ele sabia. Morava lá.
Alonguei-me, pronto. Voltando às
aulas, meu primeiro dia foi aguardado, ansiosamente. Basicamente, a mesma
turma, excetuando os reprovados. Talvez houvesse alguns colegas novos. A
professora era outra. Maria Cecília Lapenna. Ela logo se apresentou. Depois,
perguntou o nome de cada um. Era simpática, mas séria. Não podia abrir a guarda
para aquela turma falante e curiosa.
Aqui, surge uma dúvida que eu já
deveria ter esclarecido, mas que persiste. Minha classe pertencia ao “Matteo
Bei”, porém minha amiga Odiléia disse que escrevíamos “Sexta Escola Municipal”
no cabeçalho. Não me recordo. Só me lembro de que era Primeiro ano misto,
Segundo ano misto. Continuo não sabendo o certo, até hoje.
Bem...para estudarmos,
precisávamos ter o material escolar. Como era fevereiro, os pais deveriam
providenciá-lo o mais rápido possível. Em março, começaríamos a utilizá-lo.
Além do básico: duas brochuras,
caderno de linguagem, caderno de desenho e de caligrafia, foram acrescentados o
segundo livro e dois volumes da Professora Déborah de Pádua Mello Neves: um, de
História e Geografia e outro de Ciências. Tinham pequenos textos e perguntas.
Penso que as respostas eram escritas nos mesmos.
Agora, um parágrafo especial
para a estrela do segundo ano primário: a caneta de pena, para a escrita a
tinta. Para isso, também foram solicitados o tinteiro e o mata-borrão.
Muitos desconhecem a tal caneta.
Para esclarecer, devo dizer que era uma haste de madeira, com uma pena de
metal, que se danificava a cada queda. Sempre era preciso ter uma pena de
reserva, para acoplá-la à haste. Hoje, é peça de museu, parecida com a que a
Princesa Isabel assinou a Lei Áurea. A grande diferença é no que se refere à
haste. A dela tinha uma pena de ouro na extremidade, semelhante à pena de uma
ave, em vez da haste de madeira.
No primeiro bimestre, só
utilizamos o lápis, para escrever. A partir do segundo, foi introduzida a
caneta de pena. No início, quantos borrões! O mata-borrão morava ao lado do
caderno. Descobrimos, também, que o giz podia ser usado para secar a tinta. No final
da aula, a professora distribuía uns pedacinhos. Eles “chupavam a tinta”.
O tinteiro-----O tinteiro era um
caso à parte. Tínhamos que transportá-lo, diariamente. Não recordo qual o nome
da tinta. Parker? Pilot? Nebuloso cérebro!
As carteiras duplas, que
utilizávamos, tinham uma cavidade no meio, recoberta de metal. Ali colocávamos
um pouquinho de tinta, todos os dias, para imergirmos a ponta da pena metálica.
Fazendo isso, várias vezes, conseguíamos escrever o texto. No início, enfrentamos
alguma dificuldade. Muitos eram os pingos de tinta a manchar o papel, além das
letras ficarem desiguais: umas muito finas e outras, muito grossas. Com o
tempo, fomos adquirindo habilidade.
Eu tinha um problema ao
transportar o tinteiro de casa à escola e vice-versa. Desatenta, não atarraxava
a tampa direito. Resultado: o avental cheio de tinta. O trabalho era de minha
mãe, que tinha que alvejá-lo e lavá-lo para o dia seguinte. Ainda não tínhamos
a famosa Cândida. A mancha era coberta com sal e limão. O avental era exposto
ao sol, se houvesse. Depois, fervura com folhas de mamoeiro, que cultivávamos
no quintal. Sem o avental, não se frequentava as aulas.
No segundo ano, as brincadeiras
na hora do recreio continuaram. Girávamos no corrupio e cantávamos cantigas de
roda.
Nossa! Esqueci-me de uma
novidade! Minhas aulas de bordado começaram. A professora pediu para que as
mães das meninas providenciassem uma toalha de mesa, e linhas para bordar. Eu,
novidadeira, fiquei contentíssima!
Nossas aulas iam de segunda a
sábado. Então, aos sábados, levávamos o bordado para que a professora nos
ensinasse os pontos. Minha toalha era imensa (para mim). Não sei quem teve a
ideia de riscá-la com flores, flores e flores da planta áster; galhos, galhos e
mais galhos; folhinhas e mais folhinhas! Os pontos eram corrente e haste. Eu
era principiante no uso da agulha. Frequentemente, picava o dedo, e o sangue
gotejava. Aí, tinha que parar para não manchar o tecido. Minha mãe aconselhava
o uso do dedal. Difícil demais! E, assim, levei um ano para terminar o bordado,
que só ficou pronto para a exposição, em dezembro. Isso, porque houve alguma
ajuda externa.
Por mais que tente, não consigo
me recordar do segundo livro.
Aprendemos a escrever
bilhetes no primeiro semestre. Foi uma
festa! Escondidos da professora, rasgávamos um pedaço da última folha do
caderno e escrevíamos mensagens, uns para os outros. Quase sempre, eram do
tipo: fulano(a), o beltrano quer namorar você. O sicrano vai ser o padrinho.
Eram muitos risos e muita raiva, também.
Certa vez, chegando em casa,
passei a tarde toda brincando com meus irmãos, no quintal. Esqueci-me da lição
de casa. Só me lembrei dela, à noite. Aí, coloquei o ensinamento em prática.
Escrevi um bilhete à professora, como se fosse minha mãe, explicando que a
filha não pôde fazer a lição de casa, porque estava com dor de garganta.
Bobinha, escrevi com minha letra. A professora percebeu, na hora. Enviou um
bilhete para minha mãe. A tarde toda, fiquei segurando aquela batata quente,
com medo de apanhar. À noite, mostrei o caderno. Minha mãe disse: ---Que seja a
última vez---E foi!
No segundo ano, as dificuldades
aumentaram. Operações aritméticas, exigência de tabuada afiadíssima, gramática,
ditado e conhecimento elementar dos acontecimentos pátrios. Meu Deus!
Distinguir José Joaquim da Silva Xavier e Joaquim Silvério dos Reis! E o Largo
da Lampadosa? Para mim, sempre pareceu uma lâmpada gigante, com cabeça e
pescoço, versão aumentada daquelas que havia lá em casa.
Sempre que eu aprendia algo
novo, corria para casa, a fim de contar para minha mãe. Atravessava a
varandinha de madeira, toda ornamentada de vasinhos feitos com lata de óleo,
que ela pregava na parede do chalé. Ela cultivava onze-horas de variadas cores,
repolhudas como rosinhas. Encontrava minha mãe fazendo o almoço, sempre ouvindo
a Rádio Nacional, com o programa de Manuel de Nóbrega. Nessa época, o jovem
Sílvio Santos (Senor Abravanel) começou a trabalhar na Rádio. Foi apelidado de
“peru que fala” porque, tímido, ficava vermelho com os aplausos que recebia.
Hoje, coincidentemente, 17/8/2024, todos os veículos de comunicação aplaudem
Sílvio Santos, que acaba de nos deixar. Para mim, foi o maior comunicador de
todos os tempos, porque alegrava todas as faixas etárias, sempre sorridente e
animado.
Apenas uma lembrança triste eu
tenho do segundo ano. O motivo era a inimizade gratuita que uma colega de
classe tinha por mim.
Naquela época, as crianças
xingavam umas às outras. Geralmente, quando queriam ofender, diziam que tal
professora era de meia-pataca, o que significava: sem valor algum.
Patacas eram moedas
da época colonial. Éramos do tempo do Cruzeiro. Pois bem. Minha coleguinha não
se contentava em me ofender verbalmente. Durante nosso curto trajeto da escola
para casa, empurrava-me ou puxava meus cabelos compridos. Eu tentava me desvencilhar.
Era franzina. Não podia lutar com ela. De nada adiantaram os rogos de minha mãe
às suas responsáveis: avó e tia. Durante o primeiro semestre, volta e meia eu
chegava assustada.
O primeiro semestre letivo
estava terminando. Fomos surpreendidos com uma notícia alvissareira: de agosto
em diante, estudaríamos no “Matteo Bei”. Que alegria!
Findas as férias escolares de
julho, nossa autoestima se elevou. Agora, fazíamos parte de uma escola
propriamente dita. Minha professora continuou sendo a mesma.
Pausa para o acontecimento
histórico:
Há anos, a Neuza e eu resolvemos
fazer uma pesquisa sobre os assuntos publicados no dia dos nossos nascimentos.
O jornal escolhido foi A Tribuna. Encontramos as publicações dos nós
três, menos a da Neuza. Ela nasceu em uma segunda-feira, 22/11, dia em que não
havia publicação. Então, consultamos o jornal do dia 23/11/1948. Para minha
sorte, encontrei a notícia da “ futura construção de um prédio, no populoso
bairro do Parque São Vicente, que serviria como Escola para incrementar a
instrução primária e de adultos, com doação feita pelo saudoso Matteo Bei . O
terreno tinha 20 metros de frente por 40 metros de fundos, situado na esquina
formada pelas ruas Frei Gaspar e Carijós.” Só um adendo: populoso bairro?
Nosso querido Grupo Escolar “Matteo
Bei” nasceu com a Neuza. Na mesma data de sua concepção, ela abria os olhos
para a vida. Sete anos mais tarde, encontrar-se-iam! Ainda sobre a escola: encontrei na Poliantéia
Vicentina, editada pelo Sr. Fernando Martins Lichti, a seguinte menção:
“instalada em 1950, em terreno doado por Matteo Bei, emigrante italiano aqui
radicado. A construção dessa escola se deve a Aurélio Ponna, juntamente com a
vizinhança, esforçaram-se na construção do prédio, onde foram instaladas a 1a.e
2a. Escola isolada Matteo Bei.”. (p. 157). Copiei o texto, integralmente.
Quando fomos, em 1955, para o
“Matteo”, já havia quatro salas de aula. Graças ao empenho do Sr. Aurélio
Ponna, a Neuza e muitas outras crianças puderam lá ingressar.
Recordo-me de um novo material
didático: uma coleção de temas infantis, de papel grosso, formando um bloco. De
vez em quando, a professora mostrava uma daquelas gravuras e pedia para que formássemos sentenças. Talvez, primeiro,
fizéssemos a descrição. Depois, aprendemos a fazer a composição, formando uma
pequena história. O quadro ilustrado de que mais me lembro, nesse bloco, é o
desenho de uma menina tentando subir em uma cerca, fugindo de dois gansos. As
aves puxavam a barra de sua saia.
Bem no início de agosto daquele
ano, a história se repetiu. Para ser exata, aconteceu no dia 5. Outra vez, vi
minha mãe chorando a cântaros!---A Carmen Miranda morreu!---Pois é, “A Pequena
Notável”, como era conhecida, nasceu em
Portugal, mas veio para o Brasil, em tenra idade. Tornou nosso país conhecido,
internacionalmente. Era uma cantora excepcional. Interpretava suas
apresentações, de maneira genial. Li, recentemente, na Wikipédia, que “sessenta
mil pessoas compareceram ao seu velório e que o cortejo fúnebre até o Cemitério
São João Batista foi acompanhado por cerca de meio milhão de pessoas”.
Em tempos de rádio, já que a
televisão era rara no Brasil, a comunicação estava em todos os lares,
instruindo, distraindo, divertindo.
A escola tinha algumas
auxiliares que cuidavam da entrada e saída, do comportamento dos alunos e da
limpeza do prédio. Lembro-me bem de dona Florentina, dona Izabel, dona Glória e
dona Ormezinda.
No pátio, eu brincava de
corrupio com minha inseparável amiguinha Nair. Às vezes, brincávamos de roda
com as outras colegas. A Nair era fluente na língua do P. Eu nunca tive essa
facilidade. Acho que quase ninguém a conhece. Não sei quem a inventou. Consiste
em colocar o p em cada sílaba que se pronuncia. Assim: peeu pevou pebrin pecar.
Eu vou brincar.
Penso que a classe ainda era
mista, mas não me recordo dos meninos.
O semestre transcorreu
tranquilamente. Finalmente, minha toalha ficou pronta. Lavada, engomada e muito
bem passada fez bonito entre outros trabalhos também bonitos. Foi feita a
exposição de todos os bordados. As mães foram prestigiar a apresentação e receber
os boletins com as notas finais. Não fui aprovada com louvor, porém, não fiz
feio.
Mais um ano terminado, tendo
cumprido meu dever.
---Não fez mais do que a sua
obrigação--- diria minha mãe.
Em 1956, iniciei meus estudos no
terceiro ano primário, e a Neuza, no primeiro. Éramos de horários diferentes:
eu, das oito às onze. Ela, da catorze às dezessete horas.
Iniciei o ano com a professora
Adilza de Oliveira Rosa. A diretora era a Sra. Rachel Requejo Ladessa. Não
demorou muito, e a Sra. Rachel deixou a Direção. Para substituí-la, a
professora Adilza foi indicada. Então, a professora Adelaide Simões Galo foi
designada para assumir o terceiro ano.
A professora da Neuza era dona
Dinah. Naquele tempo, chamávamos as professoras de dona. Se acaso fosse um
professor, de seu (senhor).
A Neuza tem boas lembranças de
sua professora. Era uma moça linda, educada, muito elegante e perfumada.
Enfim...uma deusa.
Ocorrências---No mês de março,
houve duas tragédias na Baixada Santista.As duas, ocasionadas por chuvas
torrenciais. A primeira devastou Santos. Houve alagamentos nas ruas e os morros
deslizaram, ocasionando desabamentos e mortes. O governador Jânio Quadros
esteve na cidade, para acelerar o atendimento aos flagelados, que perderam seus
entes queridos e suas casas, pelo desmoronamento das encostas dos morros. Nós,
crianças, não tivemos conhecimento desse acontecimento; porém, lá em casa,
fomos vítimas da segunda chuva torrencial, nos dias 25 e 26 .
Era domingo, 25/3. O dia virou
noite, tamanha a quantidade de água que o céu despejava. Lembro-me da
preocupação de meus pais, verificando o nível do alagamento que só aumentava no
quintal. Nossa casa ficava no lugar mais baixo da rua, numa encruzilhada. Toda
a água convergia para onde nós e alguns vizinhos morávamos. Anoiteceu. A chuva
caía em catadupas. A energia elétrica das casas foi cortada, talvez pelo
vendaval. Nas ruas ainda não fora instalada a luz elétrica. À noite, a água
inundou nosso chalé. Tudo virou um rio. Nós, crianças, assustadas, fomos
colocadas sobre a mesa da cozinha. Meus pais, com velas, tentavam salvar os
pertences. Tudo boiava. A louça do guarda-comida acompanhou a correnteza. Os
mantimentos, também. Eu já tinha uma certa altura. Minhas pernas ficaram para
fora da mesa e, rapidamente, atraíram as sanguessugas. Berrei, até não mais
poder. Tenho horror a elas. Percebendo a situação,vizinhos de lugares mais
altos correram para nos socorrer. Três de nós fomos levados para uma casa. Meu
pai, minha mãe e a caçula foram acolhidos por outros moradores.
No dia seguinte, não houve aula
no “Matteo Bei”, que acolheu os desabrigados. Aliás, não sei por quantos dias.
Aos poucos, fomos sendo
informados sobre a destruição. Vários mortos e feridos. Uma só família perdeu
cinco crianças soterradas, no sopé do morro do Itararé. Uma tristeza!
Por causa da enchente, meu pai
decidiu levantar o chalé. Já o fizera outras vezes. Aí, num belo dia, ao voltar
da escola, vi nosso chalé arriado. Entortou para o lado do vizinho; quase
tombou. Reflexos da tempestade de 1956, fechando o verão.
As aulas retornaram. Novamente,
aquela vidinha boa, com estudos e brincadeiras. Em casa, éramos livres, dentro
do espaço determinado pelos nossos pais.
Minha professora Adelaide era
casada, e já tinha filhos. Esforçava-se para que aprendêssemos.
Não tive dificuldade para
continuar a aprender, exceto as operações de multiplicação e, principalmente,
da divisão, que se tornava cada vez mais complexa. Lá pelas tantas, dona
Adelaide designou algumas alunas (inclusive eu), para irem à casa dela, todas
as tardes, para aulas de reforço. Enquanto cuidava dos filhos e da casa,
passava contas para nós e, depois, apontava os erros e corrigia. Com essa
ajuda, engrenei. Percebi o mecanismo da multiplicação e da divisão. Para tudo,
usávamos a prova real e, também, a prova dos nove. Usávamos o processo breve na
divisão.
Nesse ano, aprendi a calcular o
perímetro das figuras geométricas. Então, imitando José de Anchieta, que
escreveu poemas na areia, eu desenhava retângulos, quadrados e paralelogramos
no chão de terra, calculando perímetros imaginários. Fiz o mesmo quando aprendi
a calcular a área, no ano seguinte.
Na hora do intervalo, quantas
brincadeiras! Estátua, lenço atrás, cabra-cega, passa-anel,
corrupio...entrávamos afogueadas na sala de aula, mas logo voltávamos à calma.
Iniciei o relato do terceiro ano
pelas professoras. Esqueci-me de dizer que, dali por diante, as classes eram
femininas ou masculinas. Esqueci-me, também, de apresentar o prédio da escola,
onde eu já estudava por mais de seis meses, tendo ido para lá no segundo
semestre de 1955.
Como foi dito anteriormente, o
“Matteo Bei” nasceu com duas salas de aula.
O prédio escolar,
apenas térreo, ficava na esquina das ruas Frei Gaspar e Carijós. A frente ampla
de vinte metros, de frente para a rua Frei Gaspar, permitiu uma construção
larga, com recuo de ambos os lados, sendo que o recuo maior ficou à direita,
por onde os alunos circulavam até chegar ao pátio, nos fundos. O portão ficava
rente à rua, mas havia uma distância regulamentar entre ele e o prédio. O
terreno era murado. A escola foi construída bem alta. Havia alguns degraus
externos, em forma de meio círculo. A porta da entrada era larga e dava para um
espaço amplo. Tanto à direita, quanto à esquerda, havia uma sala com vidraça
larga, de onde se avistava a rua. A sala da esquerda era dos professores, e a
da direita pertencia à Diretoria. Atravessando o hall da entrada, havia duas
portas largas. Uma dava para a sala 1 e, a outra, para a 2.
As salas de aula eram grandes,
com vidraças na lateral. Eram claras e arejadas. Saindo das salas, para os
fundos, havia um bom espaço coberto, com os banheiros dos alunos e dos demais
funcionários, na época, só mulheres. A ampliação da escola seguiu o esquema da
sala 2. Foram construídas duas salas mais estreitas, com portas para o pátio.
Penso que havia uma pequena casa de caseiro nos fundos do terreno. O espaço
restante era grande. Comportava um tablado, de onde as professoras supervisionavam
as filas dos alunos. Nos dias de festas cívicas, o declamador-mirim lá se
apresentava. Quase todos os dias, a diretora estava presente para acolher os
alunos, sempre, com o devido distanciamento autoritário. Quando precisava dar
avisos, subia ao palco.
Uma vez por semana, cantava-se o
Hino Nacional, sempre com a mão direita sobre o lado esquerdo do peito, em
sinal de profundo respeito. Não me lembro se, na entrada, a Bandeira Nacional
era hasteada diariamente ou, somente, nas datas cívicas.
Respeito, também, tínhamos que
demonstrar quando algum professor ou visi-
tante entrava em
nossa sala. Imediatamente, ficávamos em pé e em silêncio. Assim permanecíamos,
até que fosse dada a ordem para nos sentarmos.
Havia naquela época ,e ainda há,
um conteúdo programático a cumprir. Tudo era dosado numa linha de raciocínio,
para que pudéssemos sempre evoluir.
Eu gostava muito de Português.
Minha mãe, também. Embora com pouquíssima instrução ( um semestre letivo),
lançava-me desafios:---Mirtes, dê-me um ósculo e um amplexo.
Quando eu teimava em dizer: vi
ela, ela me dizia:
---Viela é uma via pequena.
---Qual a maior palavra da
Língua Portuguesa?
Sabendo que eu não sabia
responder, ela dizia, animada:
---Anticonstitucionalissimamente
!
Hoje, eu rebateria e, por certo,
ganharia o troféu. Pneumoultramicroscopicos-silicovulcanoconiótico. Para quem
não sabe, refere-se a uma doença pulmonar contraída por pessoas que inalaram pó
vulcânico.
Bem, já apresentei a escola que,
infelizmente, não foi preservada, nem tombada. Sua frontaria foi modificada,
dando vez a um castelinho, que nunca existiu em 1950. O local nunca foi
visitado por Martim Afonso de Sousa.
Não foi só na frontaria, a
mudança do meu querido Grupo Escolar. Com o aumento populacional dos bairros, e
com o ingresso, cada vez mais cedo, das crianças no ambiente escolar, houve o
desmembramento dos cursos. Assim sendo, no antigo prédio da Frei Gaspar,
frequentam, agora, crianças de três, quatro e cinco anos de idade. O nome é: U.
E. Matteo Bei II. A fase I do Ensino Fundamental, que vai do primeiro ao quinto
ano, concentra-se na E.M.E.F. “União Cívica Feminina”, na Praça Rui Barbosa,
s/n. Os alunos do sexto ao nono ano do Ensino Fundamental II, completam seus
estudos na E.M.E.F Matteo Bei, situada na Rua Carijós, 505. Penso que aquela
reportagem do jornal A Tribuna, que citava o “populoso bairro Parque São
Vicente”, adiantou, em algumas décadas, o momento atual. Como o bairro cresceu!
Agora, a merenda. Não me recordo
da existência de cantina, nem de pratos de sopa. Lembro-me de que começamos a
receber pão e banana antes de sairmos para o recreio. O pão era fornecido pela
Padaria Vicentina, situada do outro lado da Rua Carijós, com frente para a Rua
Frei Gaspar. Sempre havia um cacho de bananas na frente da sala. Provavelmente,
era doação de alguma professora ou de pais de alunos que possuíssem sítio. A
sociedade vicentina tinha beneméritos. Eu nunca aceitei a merenda. As bananas
eram gordas, aguadas. Causavam-me enjoo.
Continuávamos a aprender músicas
infantis. Hoje, dia dezenove de agosto de dois mil e vinte e quatro, o dia
amanheceu esplêndido! Azul, ensolarado e fresco. Saí à rua, cantando, baixinho,
aquelas músicas que aprendi há quase setenta anos.
O canto, por certo
É dote do céu
E traz alegrias
A quem as perdeu
Lá canta no bosque
Ditoso sabiá!
Seu canto, prazeres
Bem doces, nos dá!
Pra sempre, na vida
Não vos esqueçais
Quem canta, não geme
Tristezas, e ais !
Assim, meus amigos
Cantemos, também !
O canto consola
Distrai e faz bem!
Emendei, também, com outra canção:
Cachorrinho está latindo
Lá no fundo do pomar
Cala a boca, cachorrinho
Que o (a) menino (a)
Quer passar!
Cre--ou--la, la
Cre--ou--la, la, la, la
Cre--ou--la, la
Não sou eu que passo lá!
Meu potinho de melado
Minha cesta de cará
Quem quiser comer comigo
Abra a porta e venha cá!
Cre--ou--la, la
Cre--ou--la, la, la, la
Cre--ou--la, la
Não sou eu que passo lá!
As músicas remeteram-me a duas
situações distintas: à minha libertação e ao “Dia da Árvore”. Explico:
A libertação ocorreu quando eu
tinha 9 anos. Certo dia, estávamos subindo a rua, eu, a Neuza e uma coleguinha
dela, ambas com sete anos. De repente, surgiu correndo aquela inimigazinha que
me batia desde o ano anterior. Havia uma ruela sem saída. Corri para lá. Ela
foi atrás. O terreno ficava mais alto do que a rua, e era arenoso. Nele, havia
um grande pé de mata-cavalo. Para quem não sabe, é uma planta espinhuda, tanto
no caule como na nervura das folhas. Dá um fruto que fica vermelho, quando
maduro, e tem a aparência de um tomate. Foi naquele espaço que nós duas nos
engalfinhamos. Eu perderia a luta, facilmente, se não tivesse a ajuda das
fadinhas. A Neuza jogou punhados de areia no rosto da menina. A coleguinha dela
encontrou um pedaço de pau e golpeou a briguenta. Com aquela demonstração de
força, a fúria da coitada arrefeceu. Saiu de lá toda arranhada pelos espinhos e
desgrenhada, sem a fita do cabelo. Levantei-me, estupefata. Tudo fora tão
inesperado que, só muito mais tarde, compreendi o sentido da frase: “A união
faz a força.” Dali por diante, a briguenta sossegou. Passávamos, uma pela
outra, como duas desconhecidas.
O “Dia da Árvore” é, para mim,
uma bela recordação. Em 1956, as classes matutinas foram chamadas para
participar do plantio de uma árvore na frente da escola. Alguém cavou o chão.
Alguma aluna, ou professora, plantou a muda. Todos bateram palmas e se regozijaram.
Diariamente, víamos a planta e acompanhávamos seu desenvolvimento. Ela ali
cresceu, ao lado do mastro que sustentava a Bandeira Brasileira. Mesmo depois
que terminei o curso primário, continuei a ver nossa árvore. Infelizmente, ela
foi extinta na década de 1970, por estar atrapalhando a fiação, e por causa da
atração que poderia causar a algum raio. Viva está em minha lembrança.
Só não escrevi sobre o trabalho
manual daquele ano. Foi um panô, com bordado em ponto-arroz. Para quem não
sabe, panô é um pedaço de tecido que se fixa na parede, como se fosse um
quadro. O meu era retangular. O desenho já vinha impresso. Era um casal de
holandeses, com roupas típicas. Ele, com um macacão largo, calçando tamancos.
Ela, com um avental sobre a saia rodada, um chapéu típico holandês, meias e
tamancos. O homenzinho, chegando na cozinha, mostrava um peixe enorme para a
mulher. Ela estava na frente de um fogão a carvão, ocupado por panelas
fumegantes. Tinha um ar surpreso, com as mãos sobre a cabeça, demonstrando que
teria muito trabalho, já que não havia espaço para outra panela. Sobre o
desenho, um dístico, em formato de dois arcos: “Uma mulherzinha esperta/ Nunca
se aperta”.
Meu bordado foi uma obra de arte.
Cuidadoso, colorido. Engomado com o estilo Rita de ser, foi colocado na
exposição do final de ano. Dessa vez, não tive ajuda.
Durante muito tempo, o panô ficou preso à
parede, sobre o fogão. De tanto vê-lo, a frase nunca saiu de minha cabeça.
Todas as vezes em que me vejo em apuros, e encontro uma saída criativa, digo
para mim mesma: uma mulherzinha esperta, nunca se aperta. Mais uma canção para
alegrar meu ser:
Canta o passarinho
Para anunciar
Que a primavera
Breve vai chegar!
Rios e cascatas
Correm para o março
Que a primavera
Breve vai chegar!
Grilos bem alegres
Põem-se a saltar
Que a primavera
Breve vai chegar!
Flores perfumadas
Vão desabrochar
Que a primavera
Breve vai chegar!
Nos anos anteriores, aprendi que
se coloca m antes de p e b. Passando de ônibus, pela Frei Gaspar, vi um cartaz
com a palavra SANBRA. Fiquei indignada! Perguntei para minha mãe qual a razão
daquilo. Ela não soube responder. Simples. SANBRA é uma sigla, mais
precisamente, um acrônimo de: Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro. Teve
as atividades encerradas em 1993. Eu queria que minha mãe dirimisse todas as
minhas dúvidas. Impossível!
Aqui, uma pausa. Talvez o ônibus
citado tenha sido um papa-filas. Nós o tivemos por pouco tempo. Era uma carreta
grande, fabricada pela FNM (Fábrica Nacional de Motores), utilizada para
transportar passageiros. O ponto final ficava na Praça Cesário Bastos. O povo
simplificou a marca: fenemê.
Voltemos ao assunto anterior.
Houve, porém, algo que me encheu de orgulho no quesito filha.
Vários pais ficavam reticentes
na hora de ajudar a Caixa Escolar. Em casa, não havia indecisão. Com o pouco
dinheiro arrecadado dos que podiam colaborar, muito era feito. Prova disso é
que, certa vez, a diretora perguntou qual a mãe que costurava. Levantei a mão.
Havia a necessidade da confecção de um avental para uma aluna. Perguntei para
minha mãe, que respondeu sim. Mais tarde, recebi um embrulho contendo o tecido.
A menina foi à nossa casa para tirar as medidas. Rapidamente, a peça ficou
pronta. A ajuda foi benéfica. Evitou que a colega ficasse sem assistir às
aulas. Por certo, recebeu o material escolar e um par de calçados. Estudou e,
mais tarde, já moça, fez um curso de enfermagem. Foi ajudada e, também, ajudou
muitos necessitados. Por linhas certas e incertas, a escola educa!
Finalmente, o quarto ano! Muitos
hão de perguntar se era ano ou série. Era ano, até o quinto. O quinto ano era
opcional para quem quisesse se preparar melhor para os exames de admissão ao
ginásio. Era ministrado em pouquíssimas escolas. Eu desconhecia sua existência,
na época. Hoje, não mais existem primário e ginásio. Agora, é ensino
fundamental, do 1º ao 9º ano.
Em 1957, o Beto foi admitido no
primeiro ano, no Lar Vicentino, que ficava próximo ao “Matteo Bei”. Acho que
houve algum engano, pois completara seis anos naquele mês de fevereiro.
Frequentou as aulas durante uma semana, e foi dispensado, por não ter sete
anos.
Como sempre, na véspera do
início das aulas, eu ficava muito ansiosa. Estudaria no período matutino, mas
não sabia quem seria a professora. Tinha medo de ser aluna de uma professora
mais enérgica. Todas tinham uma postura que impunha respeito, mas uma ou outra
tinha fama de má. Já não havia a palmatória, utilizada na época do meu pai. O
castigo, para nós, era cumprido por tantas cópias ou tantas tabuadas, porém,
falava-se no livro negro. Quem fosse para a Diretoria era inscrito no tal
livro. O pai ou responsável era chamado para tomar conhecimento. Após algumas
admoestações (três vezes?), o aluno era expulso. Em casa, minha mãe reforçava
as recomendações. Eu era obediente; mesmo assim, temia.
O primeiro dia chegou! Filas
feitas no pátio e, finalmente, as professoras. Que felicidade para mim! A
professora Mary, que eu venerava desde o primeiro ano, seria minha última
professora do curso primário.
Não me recordo se foi na hora da
rematrícula, ou no início das aulas, que soubemos da necessidade de calçado
preto, fechado.Antes, cada criança ia de acordo com a possibilidade dos pais.
Eu ia de tamancos, daqueles que os portugueses usavam para trabalhar no cais:
base de madeira bem leve, talvez feita com a madeira da árvore chamada caixeta,
e uma tira larga de couro cru, marrom, sobre o peito do pé. Eu adorava!
Sentia-me quase descalça. Os tamancos eram tão reles, que eram vendidos em
vendas ou armazéns de bairros. Ficavam dependurados à espera do freguês, ao
lado das linguiças e dos fumos de rolo. Pois é... dali em diante, o uniforme
completo seria o avental branco, a fita branca no alto da cabeça, os sapatos
pretos e as meias brancas. O avental era mais parecido com um vestido
pregueado, abotoado nas costas. Algumas alunas usavam um saiote branco sob o
avental. Continuávamos a usar as tirinhas nos ombros, determinando o ano que
cursávamos. No caso, quatro tirinhas.Também não me recordo como era o uniforme
dos meninos. Não me lembro da presença deles.
Há um fato interessante do qual
não me recordo. Recentemente, conversando com uma colega, nove meses mais velha
do que eu, soube que não havia quarto ano na escola, para os alunos que
ingressaram no primeiro ano em 1953. Até 1955, os alunos do “Matteo Bei”,
aprovados, eram transferidos para a Escola do Povo (Grupão) ou para o Curso
Primário Anexo da Escola Estadual “Martim Afonso”. Creio que o “Matteo” só
passou a ser Grupo Escolar no ano em que cursei o quarto ano.
Devo registrar uma curiosidade:
mais tarde, o “Matteo” teve um hino, escrito pelo maestro José Jesus de Azevedo
Marques, que residia em nossa cidade. No final de década de 1960, os alunos
também cantavam uma linda música, dedicada ao Sr. Luiz Galvão Vieira, policial
militar, que trabalhou, durante muitos anos, organizando o trânsito na frente
da escola. Desconheço a autoria da mesma.
O material escolar continuava,
basicamente, o mesmo dos anos anteriores. O livro
de leitura tinha textos maiores, mas raramente
ultrapassavam uma página. Tudo era muito agradável de ser lido. Havia fábulas e
histórias edificantes, sempre com uma máxima reflexiva. Aqueles relatos
elevavam nossa alma. Volta e meia, no turbilhão do cotidiano, deles me recordo.
Os textos simples, curtos, trouxeram grande ensinamento para mim. Lembro-me,
especialmente, de duas: ”O cão e a sombra” e “A asssembleia dos ratos”. Muitas
vezes, diante dos acontecimentos atuais, repito para mim mesma: “Quem tudo quer,
tudo perde”. Se vislumbro uma ideia brilhante, porém de difícil concretização,
pergunto-me: quem será capaz de colocar o guizo no pescoço de Faro- Fino? Todos
deveríamos ler as fábulas do arquivelho Esopo.
Quando minha mãe levava o
material para casa, eu corria para fazer duas coisas: primeiro, encapar os
cadernos e os livros; depois, ler todos os textos, que chamávamos de lições.
Desde o segundo ano, eu já encapava meus cadernos com o papel impermeável pedido
pela professora. Colava as etiquetas, com goma-arábica, preenchendo o que era
pedido: meu nome, série e nome da mestra. Não me recordo se tinha que colocar o
nome da escola.
Quando falei em livros, incluí
os livretos da professora Deborah Pádua Mello Neves: Ciências, História e
Geografia, estas duas últimas conhecidas como Estudos Sociais. Soube que, em
alguma época, eram conhecidos como cartilhas. O formato era de um caderno de
linguagem pequeno. Tinham o texto informativo e um questionário. O aluno
respondia no próprio livro.
Tenho lembrança dos mapas do
estado de São Paulo e o do Brasil (contornos) em plástico, mas até aquela
altura o plástico não tinha entrado em nossas vidas. Quase tudo era
acondicionado em cartuchos de cor parda. O pacote do Açúcar União (5kg) era
vendido num cartucho bem grosso, na cor azul, costurado com uma trama de
barbante. O pão de meio quilo ou de um quilo era embrulhado numa folha de papel
retangular, de cor branca. O leite era vendido num frasco de vidro, que
levávamos de casa. Vendiam um litro ou meio litro, sempre medido à vista do
freguês. Em casa, precisava ser fervido. Na quitanda, as frutas e verduras eram
embrulhadas em papel de embrulho ou folha de jornal. Assim sendo, aqueles mapas
constituíam um acervo valioso para nós.
As aulas, no quarto ano,
aumentaram nossa responsabilidade de estudar. Diariamente, minha mãe perguntava
se eu tinha lição de casa. Fazía-me treinar as continhas, cada vez mais
difíceis, no papel de pão. Também era obrigatório fazer a prova real e a dos nove.
Eu tinha que ler e reler os pontos de Ciências, História e Geografia. Tinha
dificuldade em decorá-los. Afluentes da margem direita e da margem esquerda do
Rio Amazonas. Ossos da cabeça. Nas mãos, dedos: falange, falanginha, falangeta.
Nos pés, artelhos. Eu não sonhava em ser geógrafa, nem médica. Aliás, como
adorava minha professora, dizia que essa seria minha profissão. Mais tarde, o
magistério seria minha quarta opção. Sabia, vagamente, que continuaria os
estudos no ano seguinte, mas não imaginava como seria. Só sabia que aquele
seria meu último ano no “Matteo”.
Nos anos anteriores, aprendemos
a formar sentenças, a escrever bilhetes e a compor histórias à vista de
gravuras. No quarto ano, aprendemos a escrever cartas e a sobrescritar
envelopes. Naquele tempo, não havia o código postal (CEP). Os envelopes tinham listas
verdes e amarelas inclinadas, em toda a volta. Também vinha escrito na parte
posterior: “Par avion”. Sempre escrevíamos cartas, mas nunca tivemos o
prazer de enviá-las, nem de receber a resposta. Faltou isso para nos estimular.
Selos seriam necessários. Muitos pais, com certeza, não poderiam arcar com esse
luxo. Ficou faltando o telegrama, que a professora apenas mencionou.
Quando um caderno acabava,
podíamos adquiri-lo na padaria, em lojinhas ou até nas vendas (armazéns).
Havia, ao lado da escola, a Casa Rocha, do seu Getúlio, que vendia ferragens e
outras miudezas. Foi lá que adquiri, pela primeira vez, um rolo de durex (de má
qualidade). Antes, só havia a goma- arábica para colar. Havia a genérica,
ensinada pelas mães: arroz bem cozido e bem amassado, misturado à farinha de
trigo. Colava o papel de seda das pipas, ou papagaios, mas era um grude
rudimentar. Nessa época, conheci as decalcomanias, que enfeitavam livros e
cadernos. Faziam jus ao nome. Qualquer moeda que eu ganhava era para tal
aquisição. Que lindas! Era preciso colocá-las na água, para descolar a parte
colorida. Eram muito frágeis! Manuseá-las exigia perícia. Foram substituídas
pelos adesivos, mais tarde.
Esqueci-me de escrever sobre
algo muito importante: minha caneta Parker 51! Era azul, aristocrática.
Ganhei-a de meu padrinho, Evaristo Carlos Costa. Poucas crianças tinham uma
caneta-tinteiro. A maioria usava a vetusta caneta de pena. A caneta esferográfica
BIC ainda não existia no Brasil. Eu era uma rica menina!
Sempre invejei quem recitava no
palco, nas datas cívicas. Nunca fui escolhida, ou nunca me ofereci; não sei.
Sei que fiquei maravilhada quando li, talvez no livro de leitura, o poema
“Pátria”, de Olavo Bilac. Ele determinou meu grande gosto pelo Parnasianismo,
durante muitos anos.
As músicas também me deixavam
exaltada. Cantávamos sempre, antes das aulas, uma música de Villa-Lobos:
Vamos companheiros
Vamos todos trabalhar
Que onde se trabalha
A alegria há de reinar!
Bisávamos, com grande entusiasmo.
O “Hino do Estudante
Brasileiro”, cantado por Inezita Barroso, também me animava.
Estudante do Brasil
Tua missão é a maior missão:
Batalhar pela verdade
Impor a tua geração
Marchar, marchar para frente!
Lutar incessantemente
A vida iluminar
Ideias avançar!
E assim tornar bem maior
Com todo amor varonil
A raça, o ouro, o esplendor
Do nosso imenso Brasil!
Repetíamos a segunda e a terceira estrofes.
De vez em quando, a Inspetora da
Ensino visitava a escola e ia até as classes. Conversava com a professora,
sempre em voz baixa, para que não ouvíssemos. O nome dela era Marieta Garcia.
Visitáva-nos amiúde, também, o prefeito Luiz Beneditino Ferreira.
Voltemos ao início do ano. Como
sempre, tínhamos que providenciar um bordado, que seria exposto no encerramento
do ano letivo. Dessa vez, minha mãe foi boazinha. Boazinha ou econômica,.
Comprou o material que o dinheiro dava. Era uma pequena toalha, riscada com
flores em ponto cruz e com galhinhos que seriam bordados em ponto haste. As
folhinhas seriam preenchidas com ponto cheio. Ocorre que as cruzes eram
irregulares. Não simpatizei muito com a aquisição.
Quando solicitou a compra da
toalha, a professora disse que, se quiséssemos aprender a fazer frivolitê,
pedíssemos para a mãe comprar uma agulha navete. Logo me alvorocei. Pedi, pedi,
durante meses. Já no final do ano, minha mãe comprou-a, mas não havia mais
tempo para aprender. Não foi descaso dela. Realmente, não sobrava dinheiro para
uma aquisição extra. Não querendo plagiar Maria José Dupré, éramos seis! Hoje,
pesquisando, vi que a agulha custa R$ 13,00. Talvez, na época, uma agulha de
metal custasse bem mais. Imagine alguém que economizava centavos. Por anos, a
tal navete aguardou, calada, na gavetinha da máquina Singer (de correia).
Recordá-la faz parte de minhas frustrações.
Em julho, minha mãe já estava
inquieta. Urgia colocar-me para fazer aulas particulares, que me preparassem
para o ingresso no bem afamado Ginásio Estadual “Martim Afonso”. Na verdade,
era Instituto de Educação “Martim Afonso”, mas os alunos ainda usavam a sigla
“GEMA”, bordada no bolso da blusa ou camisa. Não sei quem indicou a professora
Cleide de Oliveira para ela. Então, foi até sua residência, situada na Rua XV
de Novembro, perto da Igreja Matriz. Era uma construção de dois andares, com
entrada pela loja de roupas “Nova Era”, que pertencia à família de dona Cleide.
Após o trato, minha mãe conversou com a mãe de minha amiguinha Nair, para que
estudássemos juntas. O pagamento sairia mais em conta.
A partir de agosto, às segundas,
quartas e sextas-feiras, nós estudávamos das 14 às 16 horas, na casa da
professora. Dona Cleide era muito simpática e risonha, além de paciente. Nós
não apresentávamos problemas de aprendizagem, porque as aulas eram um reforço
do que aprendíamos no quarto ano.
Nosso material era mínimo: um
livro, que englobava as quatro disciplinas exigidas nos exames de admissão ao
ginásio; uma brochura, lápis, caneta, borracha e régua. Não sei se usávamos o
compasso, que eu já utilizava desde o terceiro ano. Era uma peça rústica, de
metal, onde acoplávamos o lápis. Não tenho certeza, mas penso que nosso livro
chamava-se Programa de Admissão. Os autores eram: Aroldo Azevedo, Domingos
Paschoal Cegalla, Joaquim Silva e Osvaldo Sangiorgi. Todos, capacitadíssimos.
Nos dias do curso, eu saía do
“Matteo” e ia para casa. Almoçava com a família, tirava a toalha da mesa, após
o almoço, varria a cozinha, lavava os pratos e talheres. As panelas ficavam
sobre o fogão. Só eram lavadas à noite, quando ficavam vazias. Não tínhamos
geladeira.
Após um banho rápido, íamos, a
pé, até a casa da professora. O percurso demorava trinta minutos. Ríamos muito,
pois tudo era alegria. Ao voltarmos, também a pé, entrávamos no “Matteo”, para
pegar emprestado um livro da biblioteca. Todos eram encapados em papel pardo,
etiquetados. Nossa alegria durou pouco. A diretora proibiu-nos de pegá-los,
dizendo que tínhamos que nos dedicar aos estudos. Decepção! Podem pensar que
minto, mas é vero. Em casa, minha mãe tinha a mesma opinião.
Ainda no mês de agosto, uma moça
visitou nossa classe, oferecendo aulas de Catecismo. Seu nome era Maria Cecília
Fernandes. Penso que ainda vive. A moça perguntou se alguém queria se preparar
para a Primeira Comunhão. Eu não sabia o que aquilo significava. Sabia, apenas,
rezar a Ave-Maria, o Pai-Nosso e, também, um versinho:
Com Deus me deito, com Deus me levanto
Que a Virgem Maria me cubra com seu manto
Se eu coberto com ele for
Não terei medo nem pavor
Ah! Minha mãe me ensinara o
sinal da cruz, mas eu sempre me atrapalhava com direito e esquerdo. Às vezes,
trocava os lados.
Vai daí, que minha mãe aceitou a
oferta da catequista. ---Sim, vocês vão fazer a Primeira Comunhão!
Aos domingos, pela manhã, íamos
ao curso: eu, a Neuza, minha amiguinha inseparável e a irmã dela, amiguinha da
Neuza. As aulas eram dadas em uma sala da Casa Rocha. A professora mandava-nos
ler o texto, fazia perguntas e, se acertássemos, ganhávamos a gravura de um
santinho como prêmio. Era tudo o que queríamos. Era a gravura de um santo ou
santa, privilegiando as cores azul e dourada. As aulas eram enfadonhas. Um
decoreba total, mas voltávamos felicíssimas! Mais um troféu para guardarmos
dentro do Missal, que repousava sobre o criado-mudo, ao lado do tercinho que
cada uma possuía. Sei que, agora, o aparador tem uma conotação racista, mas na
época era assim que chamávamos aquele móvel.
De vez em quando, aos domingos,
íamos à missa. Era uma algazarra! Sem os olhos da mãe, tocávamos as campainhas
das casas, e corríamos. Quando o caminhão do gelo passava, deixando cair
pedrinhas, era um deleite! Ficavam com um pouco de terra, mas não ligávamos.
Naquele tempo, as ruas calçadas com paralelepípedos eram poucas. Só as do
Centro. São Vicente ainda era de terra, como no tempo de Cabral.
A missa era para os eleitos.
Nós, que só sabíamos português, não entendíamos o latim do padre. Lá na frente,
de costas para os fiéis, com sua batina preta e acompanhado do coroinha, ele
elevava suas palavras aos céus. São Vicente Mártir ficava em destaque no altar.
Havia cânticos celestiais. As paredes eram ornadas de lindos santos. O teto era
uma beleza! Todo pintado com quadros bíblicos. Às vezes, nós nos perdíamos em
devaneios, admirando-o. Depois de muito senta- levanta- ajoelha, a missa
terminava. Voltávamos tão ignorantes como na ida. A pé, sempre a pé.
E o tempo passava. Que pena! A
felicidade era plena nos bancos do “Matteo”. Como desconhecíamos a “vida
social”, a escola era tudo o que tínhamos para sermos inseridas na sociedade.
No quarto ano, minha professora
Mary continuava a mesma: entusiasta e cumpridora de seu dever.
Interessante: não me recordo das
classes masculinas. Na saída, só me lembro das meninas. Naquela época, algumas
nutriam antipatias por outras, creio que gratuitas. De vez em quando, víamos
alguma prometendo briga, dando um soco com a mão fechada na palma da outra mão.
Aí, na saída, formavam-se grupinhos de atiçadores. Duas meninas se
engalfinhavam, puxando os cabelos, uma da outra. Eu tomava meu rumo. Minha mãe
sempre me dizia: ---Direto para casa!
Finalmente, as últimas provas !
Já estava chegando a hora de nos despedirmos do querido Grupo Escolar.
Dezembro chegou! Nossa festa de
formatura foi marcada. Deveríamos providenciar luvas, para receber o diploma.
Devido à situação econômica, nem todas puderam comprá-las.
A data da exposição foi marcada.
Um dia antes, eu e minha amiguinha fomos, à tarde, ajudar a professora a
enfeitar a sala. Naquela época, havia uma planta rasteira, muito bonita, nos
terrenos baldios. Era toda trabalhada, recortada, como se fosse uma guirlanda
de Natal. A professora pediu para que fôssemos buscá-la. Ela juntou as mesas e
circundou-as com a planta. Foram várias idas e vindas até levar todos os
galhinhos para a mestra. Ela distribuiu os trabalhos das alunas pela sala.
Ficaram lindos! Alvíssimos, engomados, com cores vibrantes.
Minha toalha nem parecia a
mesma. Minha mãe pregou uma renda de algodão em toda a volta. Bordada,
disfarçou aqueles pontos irregulares. Certo é que não se via o avesso, cheio de
nós que mais pareciam grãos de feijão, mas para isso existem as máximas que aprendemos
nos livros escolares: “As aparências enganam.”
No dia da exposição, minha mãe
foi à escola para ver os trabalhos das alunas. Ela também prestigiou a
professora, enviando-lhe, por mim, um bonito lenço de seda, grande e colorido.
Caprichou na embalagem, fazendo um embrulho com um belo papel. Ornou o presente
com um galho florido de rosa coral, que ela cultivava com muito carinho.
Em outro dia, não sei quando,
houve a festa de formatura. No pátio, a presença de todas as professoras e dos
pais ou responsáveis. Discurso da diretora e de algumas autoridades. Presença
do benemérito, Sr. Aurélio Ponna e do prefeito, Sr. Luiz Beneditino Ferreira.
Logo após, pose para a foto na frente da escola; penso que foi tirada pelo
fotógrafo João Vieira. Além do diploma, recebi um envelope com a cédula de um
cruzeiro, emitida no ano do meu nascimento. Infelizmente, não a guardei.
Agora, veio-me à lembrança um
teatrinho feito pelos meninos. Sim, havia meninos, embora não me recorde deles
durante as aulas. Alguns apareceram enrolados em uma cartolina branca.
Lembro-me de que citaram o Sputnik. Hoje sei que foi o primeiro satélite artificial
da Terra, lançado pela União Soviética, em 4/10/1957. Então havia, entre
aquelas professoras, alguma tão apaixonada pelo espaço? Foi tão inusitado, que
nunca esqueci. Não parou por aí meu entusiasmo pela festa de formatura. Ainda
dentro dos festejos, houve uma confraternização entre as famílias.
Certo dia, ainda frequentando as
aulas, nossa professora distribuiu os ingressos para uma festa. Toda a família
foi contemplada: aluna, mãe e irmãos.
O encontro ocorreu no Jockey
Club, ou Hipódromo de São Vicente, situado na Av.
Senador Salgado
Filho, 360. Não recordo o dia, mas sei que foi após o término das aulas, em
dezembro.
Penso que a festa ocorreu em um
sábado à tarde. Chegando lá, ficamos admirados com o espaço. Havia
arquibancadas e uma enorme pista de corrida. Eu soube, anos depois, que o
Hipódromo era frequentado por pessoas da elite, tanto da Baixada Santista como
de São Paulo. Pessoas interessadas na corrida de cavalos ali se concentravam.
Às vezes, eram casais que lá compareciam. Senhores de terno e senhoras da alta
roda, muito bem vestidas e usando belos chapéus, desfilavam pelas
arquibancadas, dando um toque refinado aos eventos. As apostas eram
expressivas.
Nossa festa foi diferente,
composta por senhoras beneméritas da sociedade vicentina e por nós, que
representávamos a camada popular dos bairros.
Penso que a festa ocorreu das
catorze às dezessete horas. Cada um, com seu ingresso, recebeu um copo de
refrigerante e um sanduíche. No amplo espaço, havia pontos determinados para
brincadeira em grupo. Eu, afogueada, participei de várias: pular corda, corrida
do saco, corrida do ovo, dança das cadeiras, cabo de guerra. Os vencedores
ganhavam um prêmio. Que felicidade! Iam levá-lo para as mães.
A vida de muitas mulheres que
ali estavam era bem dura. Num tempo em que a prole era numerosa, só dava para
serem donas de casa. Aliás, até 1962, as mulheres casadas só podiam trabalhar
fora, com a anuência dos maridos. Eram propriedades deles, assim como os
filhos. Algumas trabalhavam em serviços domésticos para patroas. Outras
costuravam ou lavavam e passavam para fora, conciliando o lar, os filhos e o
serviço extra. Minha mãe era só do lar, o que significava ter muito trabalho.
Assim sendo, naquela tarde, pôde se distrair um pouco, conversando com outras
mulheres. Os dois menores, Beto e Zilda, ficaram sentados com ela na
arquibancada, só apreciando.
Após as brincadeiras, o momento
especial: a apresentação do palhaço e do mágico. Fenomenal! Rimos muito com as
palhaçadas. Ficamos estupefatos com os pombos brancos saindo da cartola do
mágico e voando sobre nossas cabeças.
O Beto se recorda, até hoje, da
magia que o impressionou tanto. É...o mágico fazia dinheiro. De uma simples
folha de jornal, ocorria o milagre: cédulas e cédulas de cruzeiros
espalhavam-se pelo espaço. Ele conta que, ao chegar em casa, embalde cortou folhas
e folhas de jornal. Nenhum pedaço virou cédula. Certamente, era preciso um dom
especial que só o mágico possuía. O
poder de ser rico não era acessível a qualquer um.
Talvez, no final da programação,
tenhamos ganho bexigas coloridas. Para muitas crianças, a recordação daqueles
momentos continua na memória. Idosos, hoje, reportâmo-nos à infância.
Lembranças que a escola tão lindamente soube imprimir em nossas mentes.
Para mim, o curso primário é inesquecível. É um orgulho ter estudado no meu querido “Matteo Bei”.
Mirtes dos Santos Silva Freitas
(12/12/2024)