terça-feira, 9 de julho de 2019

SEMPRE SÃO VICENTE - Paulo Miorim



SEMPRE SÃO VICENTE 


Saímos de São Vicente, mas São Vicente não sai da gente. Raízes são raízes, coisas que nos amarram, nos fixam à terra da qual nascemos. Lembranças de infância e adolescência inolvidáveis, que carregamos por toda nossa existência. Qual aquelas plantas que colocam em vidros com água flutuam e mostram suas raízes, assim somos nós. Flutuamos pela vida, mas nossas vivências nos guiam e servem de contrapeso para que não soframos um naufrágio. Hoje lembro de coisas que parecem nunca terem existido. 




O MANGUEIRÃO 

Ao lado da linha férrea, hoje linha do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), na altura da Rua XV de Novembro, ficava o Mangueirão. Era uma grande área rodeada por uma cerca de curral alta, de madeira, onde o gado destinado ao abate ficava após ser desembarcado do trem da antiga RFS (Rede Ferroviária Sorocabana) que os trazia. As composições com muitos vagões lotados de bois e vacas ficavam aguardando o desembarque por horas, o que era uma atração para a garotada. Sem a consciência ecológica de hoje, apreciar os pobres animais confinados em vagões de madeira tal sardinha em lata era uma distração. Muitas vezes um animal fugia ao desembarcar e causava correria na multidão que observava. E recapturar o bicho era difícil, as vezes demorava horas. 

A RUA BENJAMIN CONSTANT 

A Benjamin Constant era uma rua de terra, com pouco movimento, ideal para jogos de bola, rodar pião, bola de gude, andar de bicicleta, bike é pura frescura dos dias de hoje, e outras atividades hoje substituídas por vídeos games, celulares, tablets, etc. A maioria estudava no Grupão na parte da manhã, as tardes era só brincadeira. Vira e mexe aparecia uma mãe brava e levava o filho para casa fazer lição ou almoçar, no fim da tarde chamavam para tomar banho. Às vezes saia uma briga e lá ia o garoto chorando para casa. Logo apareciam as mães, cada uma defendendo seu rebento. Os pais tinham umas regras consideradas totalmente idiotas nos dias de hoje: apanhou na rua, apanha em casa; sempre revidar a qualquer agressão, verbal ou física; não levar desaforo para casa; ganhar uma briga era motivo de elogios. As mães não viam assim: consolavam os filhos; pediam desculpas às outras mães, acolhiam os perdedores e criticavam os agressores. Algumas seguiam as orientações dos maridos e brigavam com as outras mães. As ruas eram os locais onde as crianças se socializavam a aprendiam a conviver com pessoas de todos os tipos, faziam amizades que perduravam por toda a vida e inimizades que nunca iriam desfazer. 

ESFIHA, O QUE É ISSO? 

Na mesma calçada da Rua Martim Afonso em que ficava a Sorveteria São Paulo, havia uma pastelaria de um chinês. Um dia, ao pedir um pastel, vi, na vitrine sobre o balcão, uma espécie de bolo de massa assada, fechado. Perguntei o que era e o chinês respondeu: “- Esfirrará comida turcará.” Pedi uma para experimentar e na primeira mordida virei fã da nova iguaria. Fui muitas e muitas vezes com meu amigo Detter comer esfiha. O recheio de carne com pimentão e tomate era molhadinho, uma delícia. Nunca comi esfiha igual. 

CHINELO DE DEDO 

Lá por 1960, apareceu uma moda que iria se perpetuar: o chinelo de dedo de borracha, importados e usados na praia por pessoas de fino trato. Contesto que a Havaianas inventou esse tipo de chinelo em 1964, conforme Atestado de Registro de Patentes. Muito antes disso, eu e meus amigos, moleques de rua, íamos à Praia do Itararé roubar chinelo de dedo, pois não havia para vender no comércio. Funcionava assim: em uma primeira observação, víamos onde estavam pessoas que usavam os poucos chinelos de dedo. Esperávamos a pessoa ir ao mar e então um de nós passava, encaixava os pés no objeto de desejo e saia andando normalmente. A gente se afastava e, então era a vez de um de nós que não “adquirira” o chinelo, apanhar o seu. Mas isso durou até o dia que o Zé Guardinha encaixou um chinelo nos pés e saiu com o monte de roupas a reboque. A dona havia passado uma cordinha em todos seus pertences e ninguém havia visto. Zé Guardinha soltou os chinelos e, com a mulher gritando, saiu correndo. Voltamos para a casa, passamos um bom tempo sem ir à Praia de Itararé. Nunca mais roubamos chinelos de dedo. Hoje só se fala Havaianas. 

31/03/2020 



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CAÇANDO RÃS 


Dias de chuva, à noite, equipados com lanternas de carbureto e fisgas, que eram garfos tirados de casa tornados retos com marteladas e amarrados com arame em cabos de vassouras, íamos caçar rãs nas valas de São Vicente. Os garotos mais abonados usavam lanternas de pilhas e fisgas compradas em loja, que tinham pontas como anzóis. A lanterna de carbureto possui dois compartimentos, um superior e outro inferior, ligados por uma rosca, semelhantes a cafeteiras. O superior destina-se a água e, no fundo deste, há uma pequena válvula regulável que interliga internamente com a parte inferior. O compartimento inferior é aberto em cima. Ligado a parte superior ha um pequeno refletor cônico, no meio deste um bico de um tubo de pequeno diâmetro com a outra ponta no fundo do compartimento. Coloca-se pedras de carbureto de cálcio no compartimento inferior e enche-se o superior com água. Abre-se então a pequena válvula que regula a entrada de água na parte inferior. O carbureto reage com a água, formando gás acetileno e hidróxido de cálcio, que é sólido. O acetileno sobe pela pequena tubulação, saindo no meio do refletor. O operador cuidadosamente acende uma chama e o acetileno queima iluminando, o refletor amplia a luz. A intensidade da chama é regulada pelo fluxo de água, mais água, mais gás, mais fogo e, finalmente, mais luz. 

Nós andávamos dentro das valas, descalços, seguindo o coaxar das rãs. Todos os garotos silentes, quem falasse algo levavam broncas e os menores levavam cascudos para aprenderem a ficar calados. Localizada a rã, o cara do lampião ou lanterna fixava o facho de luz no batráquio, que ficava imóvel, como que hipnotizado. A seguir, desferia uma certeira fisgada e, com animal agitando as pernas, colocava-o em um saco. Não era tão simples assim. O sujeito da fisga era sempre escolhido, pois havia alguns insucessos. Ao perceber o movimento, a rã saltava para a escuridão e não a víamos mais. As fisgas de garfo, por terem pontas lisas, requeriam cuidados para a rã não escapar, Portanto a eficiência e precisão dos movimentos eram fundamentais. Voltando à casa do Zé Guardinha, deixávamos o saco de rãs em um tanque. Dia seguinte, todos limpando as rãs, caso dona Antonia, mãe do Zé Guardinha, não limpasse. Cortá-se a cabeça da rã, coloca-se um raminho de vassoura na medula da coluna vertebral para eliminar os movimentos e tira-se a pele como um vestido ou capa. Cortam-se as pontas das patas e se limpa as vísceras. Pronto, a rã pode ser preparada para fritar, assar, grelhar ou outra maneira de cozinhá-la. Como sempre, aquela molecada comia as rãs encima de uma folha de jornal colocada sobre um caixote. Verdadeiro banquete. 


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LEMBRANÇAS DO CURSO PRIMÁRIO 



Grupão de São Vicente, 1956. Recém-chegado do rio Grande do Sul, tive que refazer o terceiro ano primário. Os programas escolares diferiam de estado para estado, principalmente nas matérias Geografia e História. Minha vida escolar havia começado no Grupo Escolar Onofre Pires em Santo Ângelo, Rio Grande do Sul. Matriculado na então Escola Estadual Ziná de Castro Bicudo, hoje Grupão, guardo recordações maravilhosas dessa época. Ao lado do edifício principal, onde ficavam as salas de aula, secretaria, salas de professores, havia uma grande área coberta onde eram formadas as filas das classes. Ali era também o local do recreio, haviam muitos bancos para cinco ou seis lugares encostados nos pilares. Era no recreio que se faziam as amizades, os meninos jogavam Jogo das Pedrinhas ou Cinco Marias, as meninas jogavam queimada ou pulavam amarelinha. Outros ficavam conversando nos bancos ou comendo lanche trazido de casa. Todas as classes de cada período formavam filas ali, separadas por classes e série. Alinhadas em duas colunas, ordenadas por alturas dos alunos, os mais altos na frente e baixinhos atrás. Antes de entrar na sala de aula, cantava-se hinos conforme a data, Hino do Brasil, República, Bandeira, Independência. Muitas vezes eram declamadas poesias, para isso eram escolhidos alunos que tinham boa dicção e falavam alto. O menino ia até a frente da fila de sua classe, subia em um banco grande e declamava a poesia ensinada e decorada, para que todos os alunos do período ouvissem. Após um aviso ou um sermão da diretora, a classes entravam nas salas obedecendo uma ordem decrescente, primeiros os quartos anos, depois os terceiros e sucessivamente. Hoje vejo que esse cerimonial nos dava uma visão geral da escola e fazia nos sentirmos um participante da mesma. Belo dia, a professora me convocou e, no dia certo, subi no banco e declamei uma poesia em homenagem ao pintor Vitor Meireles. Lembro-me só de uma frase: “-Quero ser Vitor Meireles, quero ser pintor!”. Nas classes, cada um no seu lugar e a chamada era feita por nome, só no ginásio eram dados um número para os alunos. A merenda não existia como refeição, havia um lanche. Se bem me lembro, havia um consultório dentário, em que o dentista examinava as bocas e executava pequenos procedimentos. As aulas eram coisa séria, a maioria dos alunos ficava quieta embora, é natural, muitos eram terríveis. Tinha comunicação aos pais, suspensão, expulsão. Todo ano aparecia um fotógrafo e registrava fotos das classes e aluno por aluno. Voltávamos para casa a pé, em um grupo de quatro ou cinco meninos atravessando tranquilamente uma São Vicente bem diferente de hoje. Muitas vezes passávamos na Sorveteria São Paulo para degustar o melhor sorvete que conheci: o picolé ou palito de salada de frutas com pedacinhos de banana e mamão. Isso quando um de nós ou mais tinha dinheiro. No quarto ano, cabulei várias aulas ia com amigos para chocar carona nos bondes. Até o dia que cai do bonde 32 em plena Praça Barão do Rio Branco e fiquei ao lado da roda. Um imenso susto. Cheguei em casa lambuzado de graxa, uniforme imundo de ralar nos paralelepípedos. Nova surra de Dona Zeny e até disso sinto saudades dela. 

01/04/2020 


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SÃO VICENTE ERA ASSIM 



E.C. TUMIARÚ ANOS 60. Cito abaixo as pessoas, não lembro do nome mas das pessoas lembro com muito carinho. Em pé, ao fundo: Sizoca, Paioli, Duda, Betinho Comunista, Ubiratan de Moura(de touca). Em pé, segunda fila: Tereza Pinto, Maria Helena,Nicomedes de Barros, Anjo,Alvaro, Sérgio Heleno, Celso Fioravanti, Paulo Miorim, Zé Paioli, Célio Fioravanti, Tiãozinho Bombeiro, Ursão, Ursinho, Mirabeli, Totonho. Baixinhos em pé: primo do Enio, Enio Farias, Paulo Marcos, Anadir, Mazaropi, Netinho, Chiquinho Paioli, Bona, Américo Mergulhador, Zeca Pinto, Sidnei.

Quem anda por São Vicente nos dias de hoje e presencia aquele movimento frenético no centro, cheio de lojas, pessoas andando rápido atrás de produtos com bom preço, um shopping center sempre lotado, filas enormes nas agências bancárias, congestionamentos nas ruas, nem suspeita que há 50 ou 60 anos atrás era uma cidade muito diferente. Para ilustrar, vamos dar um passeio por essa cidade que não existe mais. 

Chegado à cidade, o passageiro descia do onibus na Praça Barão do Rio Branco, onde havia uma agência do Expresso Brasileiro de um lado e uma da Viação Cometa no outro. Para comprar um jornal, havia uma grande banca de jornal com uma imensa variedade de revistas. Era a Banca do Walter. Walter era um cara muito trabalhador, ficava na banca o dia todo, sério, cuidando do seu comércio. A molecada começava a folhear uma revista, ele aguardava uns minutos e perguntava se ia comprar. Se não, pedia “gentilmente” para não mexer mais. Era firme, sem ser arrogante. Conforme íamos ficando conhecidos, Walter era um cara atento aos clientes e dava a impressão de conhecer todos os habitantes da cidade. Hoje há uma estátua dele na praça. Havia um restaurante “Ao Amigo Campos”, uma das primeiras pizzarias de São Vicente. A pizza de de muzarela, com uns 2cm desse queijo como cobertura era uma delícia. Eu tratava meus dentes com o dr. Osvaldo Guapo, irmão do Lica que era da nossa turma na Pracinha ( Praça João Pessoa ou da Matriz).Seu consultório ficava encima de onde é hoje as Casas Bahia e aos sábados ele marcava minha consulta para as 11:00h. Depois de me atender a gente sentava no Amigo Campos e tomava um drinque chamado Jarreta: pinga, vermute e fernet. Eu tinha uns 15 anos e adorava essas ocasiões. 

Se o visitante fosse à Praça do Correio, passava pela Rua Martim Afonso, onde haviam vários pontos marcantes: 

• A Sorveteria Paulista, onde eu comprava o melhor sorvete que já saboreei: picolé de salada de frutas, só de lembrar me dá água na boca. Na parte de baixo havia uns pedacinhos congelados de mamão e banana. Havia um outro chamado pezziduri que era de massa e vinha em copo de papel. Esse era caro e eu só tomava quando meu tio Leonel vinha do Rio de Janeiro e pagava. 

• Vizinha à Sorveteria Paulista ficava uma farmácia que parecia uma cristaleira: todos os armários do chão ao teto e balcões de madeira envernizada com portas de vidro trabalhado, pé direito direito de cinco metros.Dava a impressão de estarmos no começo do século passado. 

• Tinha o Cine Anchieta no meio da quadra. Após as sessões, a saída era por uma ruela lateral que não existe mais. 

• Havia também um salão de snooker que não me lembro o nome, com várias mesas. Ali ficavam os amantes de sinuca, muitos ganhavam dinheiro com essa atividade. Era assim: jogavam duas ou três fingindo que eram “patos”, e quando a aposta crescia rapavam o freguês. 

• Na esquina da Praça Barão com Martim Afonso era havia o Serviço de Alto Falantes Royal, no Edifício Zuffo. Com potentes alto falantes, a Rádio Royal, como os vicentinos chamavam, animava o centro com músicas e o carnaval popular em grande tablado de madeira. Informava as últimas notícias, dentro das limitações da época, como o término da Segunda Gerra Mundial.Na parte de cima passava filmes aos domingos a noite. Uma multidão ficava ali, assistindo cinema. Em pé, mas grátis. 

• A Praça Coronel Lopes ou Praça do Correio, assim chamada devido a agência dos Correios da cidade estar localizada em seu centro, era muito diferente de hoje. Era bem arborizada com canteiros, tipo boulevard , em um nível acima das alamedas internas. A praça, por sua vez, era local de vários pontos notáveis da cidade. 

• Escola de Datilografia Acosta, onde os jovens aprendiam a escrever em velhas máquinas (ASDFG, ASDFG, ....), uma habilidade que os pais achavam importante; 

• A escola do Major Passos, onde fiz um dos dois anos que paguei escola na vida: o 5º ano ou Curso de Admissão ao Ginásio. A escola era uma casa grande, nossa sala de aula era a garagem. O major era uma figura, diziam que era neurótico de guerra. Adorava dar tapas ne cabeça dos alunos. Merece um texto à parte.Ali estudei com um rapaz chamado Mário Potássio, que a gente chamava de Monstrinho devido ser muito inteligente e, na época dava umas aulas para o cientifíco. Anos depois passou no vestibular da Escola Politécnica e do ITA (Intituto Tecnológico de Aeronaútica), ambos em primeiro lugar. Escolheu cursar o ITA. Marinho foi engenheiro e consultor de computadores, trabalhava para a NASA. Nos deixou há uns anos atrás. 

• O Clube de Regatas Tumiarú já se localizava no mesmo endereço de hoje, e era o point da rapaziada. Tinha 2 quadras de basquete e, todos os dias, a garotada jogava 21 ( de basquete). Sábado à noite, tinha uma “boatinha” que a gente dançava. Aos domingos, dali saía um ônibus que transportava os associados até a séde de campo, localizada no Japuí. Ali tinha piscina semi olímpica e um campo de futebol que era motivo de grandes disputas. Eu, muito ruim de bola, ia direto para a piscina. 

• Ainda tinha o Grupo Escolar Municipal (Grupão), a casa do Longarina, os pontos de ônibus para a Praia Grande. Eram umas jarreteiras azuis, que viajavam lotadas, após longas esperas dos passageiros. 

• A Veranista, loja de calçados do seu Emílio, depois herdada pelo Emilinho. 

• A Coletoria Estadual, local onde se pagava tributos. 

• Na esquina de Martim Afonso com a Padre Anchieta havia um terreno onde sempre se instalava parques de diversão. 

• O restaurante Itapura, ficava aberto a noite toda e nunca tomei vitamina mista igual. 

• Casa Nico, papelaria. 

• O Restaurante Gaúdio já era um point. A gente ficava parado vendo as moças passarem. Era a paquera de finais de semana.Ali se reuniam os “boys”: Miguel Bola, Gerônimo, um par de gêmeos muito gozado chamados de Mapas do Inferno e vários outros que não me lembro. 

• Na Igreja Matriz e o Mercado Municipal situam-se na Praça João Pessoa e se interliga pela Rua Erasmo Schetz à Praça Bernardino de Campos, a Pracinha da minha infância e parte da adolescência. 

• Na décadas de 50 e 60, havia a companhia de bondes, a SMTC ( Serviço Municipal de Transportes Coletivos), cujos veículos atendiam Santos e São Vicente, uma vez que as duas cidades formam um só bloco urbano. 

• Os bondes de número 02 e 22 passavam pela Marques de São Vicente, dobravam à esquerda na Av. Capitão Mór Aguiar e seguiam até um pequeno largo próximo ao São Vicente Praia Clube. Essas duas linhas atravessavam a região que chamávamos de Pracinha. 



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O MORRO DOS BARBOSAS 



Paralelo à Rua Marquês de São Vicente fica a Rua do Colégio, que costeia o Morro dos Barbosas. O nome provavelmente se deve ao fato de a Escola do Povo, fundada em 1893, ter seu primeiro endereço na hoje Praça João Pessoa, antigamente chamada Largo Batista Pereira, a uma quadra do Morro dos Barbosas. Posteriormente, a Escola do Povo tornou-se Grupo Escolar, mudando-se para a Praça Coronel Lopes e hoje é chamada de “Grupão”. Para uma turma de garotos muito ”ativos”, que andavam pelas ruas de São Vicente todas as tardes, O Morro dos Barbosas era uma floresta amazônica, com fauna e flora completas. Tinha pássaros de inúmeras espécies, tinha bicho preguiça. Para quem não conhece, o bicho preguiça alimenta-se quase exclusivamente dos frutos da embaúba, de nome oficial cecropia. E embaúba não faltava no Morro dos Barbosas. A gente subia por uma trilha próxima de casa e encontrava um paraíso: tinha cavernas, pés de ingá, goiabeira, coco brejaúva, cajueiros e várias outras frutas. Tinha uma tubulação de uns cinqüenta centímetros de diâmetro que era adutora de água de São Vicente, captada no Rio Branco. No topo do Morro situava-se a Estação de Tratamento d´água de São Vicente. Nosso acesso ao morro era, preferencialmente, por uma estreita trilha só utilizada por conhecedores, que começava no encontro da Rua Visconde Tamandaré com o Morro dos Barbosas. A gente iniciava a subida e logo chegava a um conjunto de grandes rochas de granito que formavam uma pequena caverna. Ao lado havia uma ingazeira, onde normalmente fazíamos uma parada e comíamos alguns ingás. A ingazeira produz umas bagas semelhantes a vagem e dentro delas cresce as frutas que chamamos de ingá. É uma pequena fruta com polpa, de origem amazônica, mas existe praticamente em todo o Brasil. Seu nome de origem indígena significa embebido ou ensopado, devido a textura meio aquosa, de sabor adocicado e muito saboroso. Pesquisas atuais indicam que a fruta do ingá possui inúmeras propriedades nutritivas, previne diversas doenças, aumenta a imunidade do organismo. Esse pé de ingá era parada obrigatória. Nós sentávamos na pequena caverna e apreciávamos as frutas. Continuando a subida, tínhamos a sensação de sermos desbravadores e cada visita ao morro era repleta de descobertas de plantas, pássaros e pequenos animais. Cada um com seu estilingue, quase todos feitos pelo Cadão, cometíamos o pecado de caçar passarinhos. Catar coquinho brejaúva era uma operação trabalhosa. O coqueiro é cheio de espinhos e normalmente a gente cortava um galho com uma forquilha na ponta, encaixava esta na haste do cacho e torcia. Após muito trabalho, o cacho caia e o apanhávamos. Na maioria das vezes o coqueiro ficava em uma ribanceira e até apanhar o cacho era trabalhoso. No retorno, íamos a casa do Zé Guardinha e, após limpar e assar os passarinhos, servíamos junto com os cocos em um jornal colocado encima de caixotes. Fico triste ao recordar aqueles pequenos passarinhos depenados e assados em uma fogueira. 

Outra atividade era deslizar por um longo talude de terra solta,, que chamavámos de barranco, dentro de caixas de papelão. ,Aquilo tinha uns vinte ou trinta metros de extensão e, ao final a pessoa caia da caixa ou capotava e rolava na argila. Final de tarde, chegava em casa vermelho de barro e ,inevitavelmente , levava uns tapas.Mas era muito bom. 

18/09/2020 


GUAMIUM. Um dos bairros periféricos mais antigos de São Vicente no início do século XX. Era composto de chácaras de famílias tradicionais e residências de pescadores. Nos anos 1980 o bairro sofreu uma grande transformação com a abertura da Av. Cap. Luiz Antônio Pimenta e a construção da ponte de acesso à Praia Grande, como alça da Rodovia dos Imigrantes. Esse fato trouxe para o Guamium, Bitaru e Vila Margarida a formação de favelas nas margens do Rio da Vó, da Maré e o México 70, altamente populosas e violentas. Em primeiro plano a avenida Capitão Mor Aguiar; na sequência o Mar Pequeno e a Serra do Mar. 

6

TEMPOS DE MOLEQUE 



Esse negócio de “raízes” é fogo. Carregamos dentro de nós o lugar que nascemos, as pessoas que conviveram conosco, os fatos que aconteceram e, mesmo que não tenhamos consciência, isso tudo é que nos faz sermos como somos. Sempre me pego lembrando dos amigos de infância e juventude, das estórias escutadas, de uma cidade chamada São Vicente, que era tranquila. Saia do Grupão e bolava aula passeando numa Praça do Correio (Coronel Lopes) bem arborizada sem artigos importados, pegava carona de bonde da linha 01 que retornava na Praça Barão do Rio Branco e me deixava de volta ao Grupão. Levei um tombo e cai quase em baixo do bonde 32 em frente às Lojas Pernambucanas na Praça Barão do Rio Branco e poderia não estar aqui escrevendo. Onde hoje é o México 70 era um matagal e minha turma ia caçar passarinhos, catar goiaba e pitanga no pé. Próximo onde é hoje o Centro de Convenções situa-se o campo do Guamium, hoje Rua Japão Guamium Futebol Clube. Era um campo com pouca grama, junto ao mangue e perto de buracos de caranguejos. Mas tinha duas traves oficiais de futebol, uma cerca de madeira ao redor, caindo aos pedaços. Um lugar mágico para a molecada da qual eu fazia parte. Quase todas as vezes que joguei lá era dia de chuva e céu encoberto. Começava o jogo e minutos depois todos estavam encharcados com os uniformes cheios de lama do mangue, o que não diminuía em nada a vontade de jogar futebol. Outra atividade era caçar siris. A gente pegava restos dos peixes comprados pelos fregueses da Peixaria Yamaúti, que na época ficava no começo de onde é hoje o início da Rua Japão, amarrava junto com uma pedra dentro de um puçá ligado a uma corda. Jogava na maré e aguardava um tempo e começava a vistoriar os puçás. Catava os siris com a mão com muita prática e colocava os maiores em um saco, soltava os pequenos. A turma era composta de uns dez garotos, idades variando de nove a quatorze anos: Zé Guardinha, Cadão, eu, Luiz Victor, Joninho, Luís (irmão do Zé Guardinha), os irmãos Cury (Sandoval, Junior e Nash) e alguns eventuais como o Frankinho, Tímanca, Durvalino, Benê, Eli, Lica e outros. Nossas atividades eram incessantes, todos os dias inventava-se alguma coisa, a criatividade inesgotável. Fizemos uma vaquinha e compramos um barco, se é que se pode assim chamar um resto de embarcação muito usada, com dois metros de comprimento, construída com tábuas velhas e cheia de rachaduras. Com muito piche (asfalto) e corda, calafetamos o nosso novo meio de transporte e o resultado foi assustador: não é que aquilo flutuava e fazia muito pouca água! A seguir um pescador nos deu uma canoa velha escavada em um tronco, toda rachada e pintada de preto. Nova operação de calafetar, muito asfalto e corda preenchendo as rachaduras e também funcionou! Ao final dos trabalhos de recuperação da canoa, fizemos uma guerra com o asfalto e eu fiquei com o cabelo todo grudado. Ao chegar em casa, fui direto ao salão do Benézio (Ebenezer, filho do sr. Brígido) e rapei a cabeça. Minha mãe apareceu quando eu, ainda pelado, estava saindo do banho. Partiu para cima de mim de chinelo em riste, muito brava. Segurei as mãos dela o quanto pude, mas seus gritos me fizeram soltá-la e correr escada acima, com Dona Zeny em meu encalço. Foi hilário: um moleque careca correndo pelado e levando chineladas. Voltemos à navegação. Nossa frota, composta de dois barcos, ficava apoitada próximo aos fundos do São Vicente Praia Clube. Nas marés baixas os barcos ficavam apoiados no mangue e tínhamos que empurrar as embarcações até atingir o mar. Cheios de lama, remávamos por toda a região compreendida entre a Ponte Pênsil e o Rio Branco, chamada de Mar Pequeno. Em baixo de onde passa a Ponte do Mar Pequeno, ficava a coroa, uma grande área de areia que só aparecia nas marés muito baixas. A gente usava como praia, encalhava os barcos ali e nadava em uma água bem mais limpas do que as de hoje. Nós pescávamos com linha de mão e. nos pós trovoadas, íamos caçar caranguejos, pois reza a lenda que eles saem das tocas nessas ocasiões. Descíamos do barco, nos besuntávamos de lama para mosquito não picar e começava a caçada. Tinha que observar se havia algum caranguejo, correr atrás dele. Muitos se escondiam nas tocas e era necessário se deitar no mangue, enfiar a mão e puxar o bicho. Essa operação requeria uma técnica de modo a não perder um naco da mão com uma mordida dos ferrões em forma de pinças. Sempre umas das garras é bem maior que a outra e se a mordida for com o ferrão grande pode causar problemas. Eu não tinha essa prática e tratei logo de arrumar uma luva de lona bem grossa que me protegia. Chegar em casa cheio de lama mesmo após um banho de mar era uma loteria: a surra podia ser de cinta ou de chinelo. O melhor de tudo vinha no dia seguinte ou no mesmo dia: comer o que havíamos pescado ou caçado, na casa do Zé Guardinha que tinha um terreno vazio ao lado. Aquela turma de moleques sentava em volta de um caldeirão e se banqueteava. 

06/02/2019 


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UM REVEILLON SEXUAL 


Essa história aconteceu na noite de réveillon de 1977 para 1978. Todos de nossa turma foram à minha casa, onde rompemos a ano. Após meia noite, fomos para a boate Pirata, na Iha Porchat, conforme havíamos combinado e reservado lugares. Éramos vinte pessoas. 

Subindo de carro a Ilha Porchat, o edifício Embaúba é ultimo antes de chegar ao topo. A seguir existe uma curva à direita e, continuando na Alameda Paulo Gonçalves, inicia-se a descida que acessa a parte mais baixa, oposta ao acesso e de frente para o mar, que acaba no Condomínio Seven Seas, onde há um “cul-de-sac”, ou seja, um balão de retorno. No começo dessa descida há uma bela edificação que foi construída para moradia e possui uma grande sacada debruçada para o mar, de onde pode se apreciar uma vista maravilhosa da entrada da Baía de São Vicente. Essa curva acompanha uma reentrância da formação geológica da ilha, de modo que o Edifício Embaúba fica praticamente frontal a sacada, e por ficar em um plano mais baixo, oferece uma ampla visão para quem se encontra na sacada da casa acima, na época transformada em boate e danceteria Pirata. Era um dos locais mais freqüentados de Santos e São Vicente, onde as baladas iam até amanhecer o dia. Boa música, boa comida, boa bebida, bom ambiente. Era uma delícia ir à Pirata e usufruir de inesquecíveis momentos com amigos, e, para os solteiros, uma excelente oportunidade de paquerar e conquistar um novo amor. Mulheres bonitas e bem produzidas, homens bem arrumados, alguns com carrões, chegavam lá pelas onze horas de noite e curtiam muito a noite, dançando e se divertindo. 

Chegados à Pirata, nos acomodamos nos lugares reservados, pedimos as bebidas e acompanhamentos, em um clima festivo, próprio das noites de réveillon. Uma turma animada, de grandes amigos, imediatamente as conversas e brincadeiras começaram e seguiram com muitas risadas. A alegria era geral em toda a Pirata, todos eram amigos devido a essa mágica de uma data festiva, que transforma as pessoas. Uma verdadeira Confraternização Universal. Lembro que, saindo da minha timidez, dei um verdadeiro show de humor brincando com meus amigos e todos riam das minhas palhaçadas. 

A sacada era uma atração irresistível, e as pessoas iam contemplar o luar e o mar, ficando por ali uns momentos maravilhosos. Era uma noite de lua cheia, repleta de estrelas, com uma magia inesquecível. Até então. Ao lado, a fachada do edifício Embaúba totalmente apagada com suas vidraças amplas do chão ao teto. 

Lá pelas duas horas, acende-se forte luz de uma das janelas imensas do Edifício Embaúba, entra um casal aparentemente apaixonado e, com grande sofreguidão, inicia um verdadeiro embate amoroso, trocando beijos e carícias. O clarão, aparecido repentinamente, chamou a atenção de quem estava na sacada, pois era a única janela acesa de todo o prédio. O visual captou a atenção e a hoje chamada de “pegação” do casal continuou, cada vez mais apaixonada, seguindo a seqüência natural de quem está entre quatro paredes. Por ser no andar superior do edifício, praticamente ao nível da sacada, os freqüentadores da Pirata acompanhavam detalhadamente o desenrolar do embate amoroso-sexual que ocorria no edifício Embaúba, como se fosse uma tela de cinema. A notícia se alastrou e, em alguns minutos, praticamente toda a boate estava na sacada brigando por um espaço que lhe permitisse acompanhar aquela bela cena de um casal jovem e cheio de energia dar vazão aos seus hormônios sexuais de maneira tão espontânea, como se não houvesse no mundo nada além da cama e do parceiro. Ficaram nus, ambos com corpos perfeitos, se jogaram na grande cama de casal e alternaram muitas carícias sexuais antes de consumarem o ato principal (odeio utilizar a palavra consumar, mas não me ocorre outra). E assim prosseguiram totalmente expostos e mostrando competência no que estavam fazendo. Já haviam se passado mais de meia hora do acender da luz, e o espetáculo continuava, com a platéia da sacada atenta a cada ato. Acredito que muitos aprenderam muita variações, pois o casal possuía um amplo cardápio de carinhos. 

Não sei se por inveja ou para avisar, alguém iniciou a assobiar gritar e bater palmas. O casal, totalmente focado na atividade sexual, demorou a perceber que estavam dando um espetáculo amoroso. O rapaz levantou a cabeça, saiu da cama e fechou as cortinas. Como se tivessem assistido um ganhador do Oscar, a platéia aplaudiu freneticamente. Pelo jeito, os dois continuaram a se amar, agora entre quatro paredes. 

09/09/2020 

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CHATO, O NAVEGANTE INVOLUNTÁRIO 


Memórias que trago de uma época mágica de minha vida. O período entre 1956 e 1967 marcou-se por muitas mudanças, foram onze anos que, em minhas recordações, dariam material para inúmeros livros, caso tivesse intenção de registrar o que aconteceu nessa minha transformação de um garoto de dez anos em um jovem casado, iniciando um curso de engenharia na Universidade Federal do Paraná. Tudo começou com a mudança de nossa família para a casa de número 78 da Rua Marques de São Vicente, no centro de São Vicente. Rapidamente fiz amigos e vivi muitas situações curiosas. Situações essas que aconteciam uma atrás da outra, pois a Turma da Pracinha, como nos autodenominávamos,era formada de garotos, rapazes e adultos de todos os tipos e classe social. Foi uma convivência totalmente socializada, em momento algum presenciei discriminação de raça, credo, cultura, etc. De dia, a turma jogava futebol na Praça Bernardino de Campos. À noite a galera se encontrava na Praça João Pessoa, uma quadra distante da primeira, a ali rolava muita conversa sobre todos os assuntos possíveis. Essa convivência ocorria de maneira tão natural como nunca mais vi. Não havia competição entre as pessoas, o que ocorria eram zombarias sem ofensas e poucas discussões. O normal era uma roda de conversas, em que cada dava sua opinião ou contava suas experiências. Formavam-se também pequenos grupos quando o assunto era de interesse específico dos participantes. Essa história aconteceu nos tempos da Pracinha. Entre os indivíduos mais simples que freqüentavam a Pracinha havia um negro que se apelidou de Chato. Até hoje não sei o motivo desse cognome, pois não tinha nada de chato. Era uma pessoa humilde, que vivia de pequenos serviços diversificados, tais como capinar quintais, carregar malas na rodoviária para turistas, engraxar sapatos e outros biscates sem um preço definido, pois Chato aceitava qualquer valor que a pessoa pudesse lhe dar e, se o cliente não tinha dinheiro, seu trabalho ficava de graça. Chato tinha uma alma pura e de uma ingenuidade única, sempre de bom humor, incapaz falar mal de uma pessoa. Vivia o dia a dia, e muitas vezes lhe convidavam para comer. Chato não entrava nas casas, pedia para lhe trazer um prato com comida. Fazia sua refeição e devolvia, agradecido, o prato e os talheres para o amigo. Entre suas especialidades, uma era catar mariscos, Chato sabia os locais nos quais esses frutos do mar estavam mais graúdos e onde não se podia catar porque os mariscos eram novos e pequenos. Era normal encontrar nosso amigo com sacos de mariscos encomendados por um freguês. Enfim, Chato era uma pessoa prestativa, que todos gostavam, e sempre que possível, ajudavam-no. 

Uma das senhoras conhecidas de Chato encomendou grande quantidade de mariscos. Chato prometeu entregar o pedido em dois dias. Dia seguinte, ao raiar do dia, Chato pegou o barco de um amigo foi catar os mariscos encomendados, cheio de expectativa, pois iria receber um bom dinheiro pelo trabalho. O barco, se é que pode assim ser chamado, era feito em casa, com tábuas comuns, calafetado com cordas embebidas em asfalto, totalmente inseguro. Uns quinhentos metros da saída da baía de São Vicente há um rochedo pouco aflorante em frente às obras de um edifício abandonado, cujo nome seria Porta do Sol. O mar estava como se fosse um lago, totalmente sem ondulações. Chato pegou o final de maré vazante e, usando um remo tão tosco quanto o barco, navegou até a Porta do Sol. Havia levado dois maços de cigarro e dois litros de cachaça para aquecê-lo nos intervalos dos mergulhos na catação dos mariscos. Devido à maré baixa o rochedo estava todo acima da linha d água, e Chato colocou o barco simplesmente apoiado nas pedras. Como era de costume, abriu um maço de cigarros e um dos litros de cachaça, bebeu uns bons goles de cachaça e, inadvertidamente, deixou cair na água a caixa de fósforos, que foi levada pelas águas de maré enchente. Ainda com sono devido ter acordado cedo, triste com a perda dos fósforos e o efeito do álcool, Chato dormiu dentro do barco por umas horas, tempo suficiente para a maré desprender o barco do rochedo e deixá-lo à deriva. A maré vazante iniciou e levou o barco fora da barra. Dizem que Deus protege os bêbados, e Chato foi beneficiado por um mar calmo que, ajudado pela maré, levou o barco em direção ao alto mar. À tarde, o nosso agora herói, acordou e viu somente duas coisas: céu e mar. Olhou o cigarro apagado e, sem o remo que havia ficado nas pedras, constatou que nada havia a fazer. O melhor seria permanecer a deriva, sem inventar nada a não ser aguardar. Acabou com o primeiro litro de cachaça e voltou a dormir mesmo desesperado por uma caixa de fósforos que lhe permitisse fumar. Em seu profundo sono alcoolizado, sonhou que lhe estendiam uma caixa de fósforos novinha, que pegou com sofreguidão a acendeu um cigarro. Acordou, já de noite, levantou-se do fundo do barco e olhou em volta e, dessa vez, viu um céu com muitas estrelas, o clarão do reflexo da Lua e... Nada mais. Abriu o segundo litro de cachaça, tomou muitos goles, voltou a olhar desesperançado para o cigarro apagado. Era uma noite fria, Chato dormiu todo encolhido aquecido pelo álcool. Voltou a acordar de madrugada e nada havia mudado: infinitas estrelas, o rastro do brilho da Lua no mar saindo do barco. Desta vez bebeu um pouco de cachaça, agora com medo do que poderia acontecer com ele naquela imensidão, parecia ser o único ser humano no Universo. Voltou a dormir. Acordou o sol já ia alto e queimava sua pele. Apesar daquele calor intenso, não havia como acender o cigarro que estava em sua mão ha um dia. Apagado. Acabou com o segundo litro de aguardente e novamente adormeceu. Sonhou com o cigarro, com a cachaça, com os mariscos, com a mulher lhe esperando, com o dinheiro que iria receber. E o cigarro, aceso, soltando aquela fumaça inebriante, tentadora. Sentiu que estava com a raspadeira, tirando os mariscos da rocha, mas não era ele que fazia o movimento. Alguém o cutucava, o sacudia. Abriu lentamente os olhos e, ai sim, sentiu que realmente alguma coisa batera no barco. Olhou para cima e viu duas silhuetas na proa de um barco pesqueiro chamando-o pelo nome. Fixou o olhar e reconheceram os pescadores, funcionários dos Umbuzeiros. Levantou-se, ficou em pé no seu barco minúsculo e perguntou: 

-Vocês têm fósforos? 

Paulo Miorim 



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DOMINGUEIRAS DO PRAIA CLUBE 



Aos domingos à tarde realizavam-se domingueiras dançantes no São Vicente Praia Clube, que se localiza no final da Avenida Capitão Mór Aguiar, ao lado do Quartel do Corpo de Bombeiros. Literalmente, era onde os bondes 2 e 22 faziam seu ponto final em um retorno de linhas férreas. Isso na década de 1960. Os rapazes, as mocinhas e os já não tão novos se programavam para o evento. Saído da infância, ir a um baile era desafio novo para mim. Dançar, então era uma habilidade misteriosa. Tocava uma música, os rapazes se levantavam e, em passo apertado, se dirigiam à moça que haviam escolhido para convidar a ser sua parceira naquela dança. E, aqueles que não eram recusados, ou não levavam “táboa”, saiam abraçados rodopiando pelo salão. Dava a impressão que havia combinado antes, tal a harmonia dos rodopios. Eu ficava ali, apreciando os pares no salão desenvolvendo suas habilidades, matutando que estranha linguagem corporal havia no dançar que eu nem de longe conhecia. O ginásio onde nós jogávamos basquete era preparado para esses bailes, as tabelas e cercas removidas, transformando-se em um grande salão de baile. Havia um palco ao fundo e muitas vezes uma orquestra tocava. Mas nem sempre. Sem orquestra, embora o encanto diminuisse, as coisas não mudavam muito: Ray Conif (“Aqueles Ojos Verdes”, “Quiçás, quiçás, quiçás”, “Mujer”, etc.), Nat King Cole, um negão com voz de veludo (“Moonlight Serenate”, “Adelita”), Nelson Gonçalves (““ Maria Betânia”,” Deusa do Asfalto”, “A Volta do Boêmio”) e outros cantores e orquestras da época eram reproduzidos nos toca-discos do Praia Clube. Aos poucos fui me envolvendo com esses bailes e resolvi que aprenderia a dançar de qualquer jeito. Primeiro, ter uma noção de como eram dados os passos de modo a não esmagar os pés da dama: um passo pra lá, um passo prá cá, dois pra lá, um prá cá, dois prá lá e dois prá cá, uma volta, ir à frente, dançar indo prá trás, etc. Depois, treinar com uma amiga, para depois ousar convidar alguém para dançar. Eu me sentia um filhote de águia aprendendo a voar: só dançava com uma moça conhecida que havia ido ao baile para dançar com os bons dançarinos e eu ficava atrapalhando suas intenções. Mas entre um e outro paquera (na época, “flerte”), uma amiga fazia uma caridade e me concedia um treino em um bolero, que era o que consegui aprender, pois samba e outros rítmos eram para uma instância superior. Às vezes, creio que para se livrar de mim, fazia com que outra dançasse comigo. Como minha coordenação motora sempre foi razoável, aos poucos fui dominando a arte de dançar boleros, na base de dois prá lá, um prá cá. A seguir, o mais difícil para vencer a timidez: convidar uma desconhecida para dançar. Desenvolvi uma logística para isso: entrava no clube, ia direto ao bar, tomava um álcool. Primeiro era Cuba Libre (Coca Cola com rum), depois o Samba em Berlim (Coca Cola com cachaça), que era muito mais barato de dava mais “barato”. Uma coca dava para fazer uns quatro Sambas. Vinha a coragem de ir ao salão e perdia o medo do mico que poderia acontecer. Começava uma música e, antes de tudo, precisava reconhecer que era bolero,depois era procurar uma moça, que, pelo jeito de olhar, aceitaria dançar. Eu tinha certeza que ninguém queria dançar comigo de tanta recusa que levei. Mas, aos poucos fui evoluindo, aprendendo a dançar outros rítmos, sem precisar beber antes. Aprendi que, além de dançar, era possível paquerar e conversar com novas amizades femininas. Tinha uma nissei linda, com nome japonês, que foi meu par constante por muito tempo. Conversamos muito pouco, mas era chegar ao Praia Clube, trocar olhares com ela, e na próxima contradança saíamos dançando. O Paulo Santos era um grande “pé de valsa”, não perdia uma. Chegava próximo a moça, com um sorriso irrestível, e saía dançando com grande desenvoltura. Eu morria de inveja. Quando era uma orquestra que animava a domingueira, eram tocadas “seleções”, um conjunto de música de um mesmo rítmo de modo a não desafiar as habilidades dos dançarinos. 

Final, de tarde, já escurecendo, anunciava-se que era a última seleção. Muita gente já havia ido para casa. Eu ficava até o último acorde. Saia “no lixo” como se fala na Bahia, quando já estão limpando o salão. Saía do Praia Clube, voltava para a vida real, morava a uns dois quarteirões. Ma s já pensando na domingueira do próximo domingo. 

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ANOS DOURADOS 



Lembranças aleatórias de uma época inesquecível, de grandes mudanças sociais e tecnológicas. 

Era a época dos bailinhos nas garagens dos prédios ao som de uma Sonata, aparelho composto de um toca discos e duas pequenas caixas de som, que se transformavam em uma mala para transportá-los. As músicas da orquestra de Ray Conniif, (“Besame Mucho”, irresistível!) eram ansiosamente aguardadas para dançar juntinho. Também eram cultuadas muitas músicas italianas (Io Che Amo Solo Te-Sergio Endrigo; Champagne - Peppino di Capri; Amore Scusami - John Foster; maravilhosas!). Uns anos antes Sam Phillips, um produtor musical americano havia declarado: “- Me dêem um branco com voz de negro e moverei o mundo!”. Em 1954, contratou um jovem de nome Elvis Presley. Deus havia atendido seu pedido. Cada vez mais o rock tomou seu espaço e elegeu Elvis seu rei. Nos bailinhos das garagens havia muitos adeptos do rock e os passos de Elvis eram imitados. A seguir apareceu o Twist, uma variação do rock que virou febre e todos dançavam. Em 1964 surgiu um conjunto de Liverpool chamado The Beatles que revolucionou o mundo musical. A música brasileira também sofreu uma revolução com a invenção de uma nova maneira de cantar samba, onde a batida, diferente da usada na época, era valorizada. A Bossa Nova foi a contribuição de nossa música para os anos hoje chamado de Anos Dourados (período compreendido entre fins dos anos 50 e a década de 60). Não houve outro período na história recente que a música atraiu tantos jovens e muitos adultos como os Anos Dourados. A música fazia parte das conversas e do dia a dia das pessoas como nunca. Havia muito contra a Bossa Nova, outros não suportavam rock, muitos apreciavam tangos e boleros. Na verdade todos os ritmos possuíam admiradores e havia espaço para todas as vertentes, desde que houvesse qualidade. No Brasil, a época que precedeu a bossa nova foi que gerou o aparecimento de muitos bons artistas. Nossa música contava com grandes arranjadores, muitos deles contratados por produtores norte americanos para trilhas sonoras de vários clássicos do cinema. 

Em São Vicente, a época de férias era aguardada. Na região do Gonzaguinha os jovens se aglomeravam e a paquera rolava solta, as mocinhas andavam entre o Restaurante Gaúdio a Praça da Biquinha e os rapazes ficavam parados e apreciavam esse ir e vir, muitos aguardando o retorno de alguma moça com qual trocara olhares. Em todas as turmas havia um ou outro afoito que tomava a iniciativa de puxar conversa. Normalmente as mocinhas apressavam a passo, exceto quando já estavam de olho no rapaz. 

Em muitos bairros haviam moças “mal faladas”, aquelas que despudoradas que falavam e faziam outras coisas com os rapazes. A vizinhança cuidava muito da vida dos outros e havia muita fofoca. Eu lamentava que as mal faladas nunca fossem assim chamadas por minha causa. 

Outro ponto de reunião era a praia. A praia do Gonzaguinha era mais popular e a juventude curtia a Praia do Itararé. Havia turma de praia e vicentinos e paulistas faziam amizades. Um personagem inesquecível era o Dudu, o homossexual mais aguardado na praia. Chegava com um enorme chapéu e uma imensa bolsa de palha no braço, tamancos altos e sunga mínima. Mas com uma postura firme de uma pessoa assumida nas suas opções. Não era caricato, era original mesmo. Alguém que ousasse dizer uma gracinha. Dudu tinha uma resposta adequada. 

Na praia do Gonzaga em Santos, nas férias era montado um parque de diversões. Um belo programa paquerar no parque e usufruir dos equipamentos ofertados. Roda Gigante, Montanha Russa, Mexicano, barracas de tiro ao Alvo, carrinhos Bate-Bate, e uma infinidade de atrativos. 

Domingos à noite, ir ao cinema em Santos assistir filmes com Elvis Presley, Frank Sinatra, Ankito, Grande Otelo, Oscarito, Sophia Loren, Kirk Douglas, Tony Curtiss, Elizabeth Taylor, Robert Mitchum, Stewart Granger. Após o filme, comer uma grande novidade em uma loja da Praça da Independência: Hot Dog, servido em uma caixinha papelão com batatas fritas. A seguir tomar um café no Café do Gonzaga, onde a maior atração era a maneira de servir o cafezinho. O balcão era grande em formato de “U”, que vinha do fundo do Café até a frente. Nele eram colocados milimetricamente alinhadas uma infinidade de xícaras de café com a boCa para baixo. O freguês pagava, recebia um vale e aguardava o barman servi-lo. O cara vinha com um bule enorme, dava um toque na xícara que caia em pé e colocava o café. Era um local que vivia lotado, cheio de gente. Se fosse só para ver o cara servir o café já valia a pena pagar. 

Por hoje é só. 

 04/08/2020 

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O SURFISTA FRUSTRADO 


Assim como ser rico não é só gastar muito dinheiro comprando carros maravilhosos, roupas de marcas, viajar pelo mundo, etc., surfar não é só dar umas remadas, levantar-se e usufruir de uma onda, deixando-se levar e executar manobras mirabolantes. É muito mais do que isso. É necessário muito preparo físico, muito esforço e resistência, muita habilidade e muita, mas muita, coragem. Um sentimento que beira a irresponsabilidade, e uma autoconfiança enorme. O surfista quando entra no mar em dia de ressaca, sabe que vai encontrar uma pedreira. A onda te empurra, o cara fica em pé e a prancha pula para lá e para cá como se fosse um cavalo bravo. O cara tem que olhar a onda, a prancha, o mar, resolver em instante que manobra fazer, até onde prosseguir, e, na medida do possível, sair da onda ou levar um tombo o menos vergonhoso e sem consequências possíveis. Surfar é um esporte, é uma arte, é equilíbrio, é fascinação de enfrentar uma das maiores forças da natureza. Requer preparo mental, físico, espiritual, foco total no momento, poder de decisão imediato. E amor ao surf. 

Lá por 1965, eu havia dado baixa do Exército e fiquei na vagabundagem uns meses. Já contaminado por esse esporte maravilhoso, eu dormia, sonhava, comia e bebia surf. Hoje, que há muitos praticantes, uma imensidão de revistas especializadas, um universo de acessórios e roupas, campeonatos, e uma globalização do surf o interesse por notícias sobre surf é grande, nem se consegue imaginar que busca incessante os poucos praticantes daquele surf primitivo empreendiam para saber alguma coisa sobre a novidade chamada surf. Eu estudava à noite e tinha o dia inteiro livre para surfar. Nossa segunda prancha modelo “caixa de fósforos”, como chamávamos a prancha oca estruturada em madeira e revestida de compensado marítimo com mais ou menos 10 cm de espessura, tinha 2,80m e pesava 30 KG. Eu saia cedo de casa, na esquina de Av. Capitão Mór Aguiar com a Marques de São Vicente, caminhava três quilômetros, apanhava a prancha na garagem do prédio do Antônio Di Renzo, carregava até a praia de Itararé e surfava. Permanecia na água por umas quatro horas, guardava a prancha, e, lá pelas duas da tarde, chegava em casa muito cansado. 

Era dia de uma ressaca muito forte e, ao chegar em casa, estavam me esperando meu amigo Bebel e dois caras de São Paulo. Queria conhecer o que era surf, ver a prancha, saber como se praticava, etc. Eu, morto de cansado, não iria de jeito nenhum voltar ao mar. Mas, após muita conversa, aceitei mostrar ao Bebel o que era surf. Eles me trariam de volta a minha casa. Voltei ao mar, coloquei a prancha na água próximo à Ilha Porchat com Bebel na minha frente deitado com a recomendação de não se movimentar e remei mar adentro. Junto a Ilha Porchat, ocorre um remanso que, com relativa facilidade, o surfista alcança boa distância da praia. Ai, o camarada se afasta da Ilha e logo está na arrebentação onde espera a melhor onda. Até então Bebel era só alegria. Contente, se sentindo em segurança. Até aparecer a primeira série de ondas maiores, dois ou 3 metros, no máximo, de altura. Na hora acabou a alegria do meu amigo. Foi tomado por um pânico, começou a berrar “-Me tira daqui! Me tira daqui! Socorro!” e assim por diante. Dei uns três ou quatro tapas na bunda dele, falei para se acalmar e segurar na prancha que eu o levaria à praia com segurança. O cara chegou à areia quase chorando. 

Guardei a prancha, eles me levaram para minha casa. Nunca mais vi Bebel. 

Paulo Miorim 

12/12/2017. 

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MEU SERVIÇO MILITAR: MEU PAI ME “QUEBROU O GALHO”. 



Meu pai era militar, embora não fosse autoritário possuía orgulho de sua carreira e gostaria muito que eu seguisse seu exemplo. Era tudo que eu não queria, pois já tinha definido que cursaria engenharia, “sentar praça” não estava nos meus planos. Próximo à época de iniciar o serviço militar pedi ao Capitão Miorim que intercedesse junto a algum amigo para me colocar como excesso de contingente. Dias depois meu pai me levou a conversar com o capitão médico do então 2º Batalhão de Caçadores. Fomos muito bem recebidos e após meia hora de conversa com o médico, meu pai explanou meus motivos para não servir e solicitou que eu fosse liberado dos meus deveres para com o Exército. Escutamos que não haveria problemas e o capitão prometeu analisar a solicitação. Chegada à data de convocação, me apresentei aguardando ser dispensado. Não foi o que aconteceu. Incorporei na tropa, recebi a farda e iniciei os treinamentos de instruções, ordem unida, desmontar e montar fuzil, etc. Reclamei com meu pai. Disse que tivesse calma e aguardasse que eu seria liberado. Andar de farda era castigo para um jovem surfista, nadador e estudante acostumado a ter tudo à mão, com mamãe. Eu gostava de bailes, matinês dançantes no Praia Clube e Tumiarú em São Vicente e no Clube Internacional de Regatas em Santos, havia aprendido a dançar no famoso “dois pra lá, um pra cá”. Curtia os Beatles, samba e bossa nova. Dois amigos tocavam violão e nossa turma era convidada e visitar casas de amigas para curtirmos boa música regada a uísque e Cuba Libre, a moda da época. Era uma vida que a única preocupação era estudar, treinar natação, surfar. O resto era diversão. Passaram quinze dias e, após diversos rapazes serem dispensados, em uma ida ao ambulatório, perguntei ao capitão médico por que ainda não haviam liberado. Contrário ao comportamento afável da visita feita antes, o capitão me comunicou que como era um bom atleta e continuaria a prestar o serviço militar. Confesso que estava curtindo a experiência, pois desde criança freqüentei os quartéis em que me pai trabalhou e o ambiente não me era estranho. Cheguei em casa e protestei. Meu pai, com a calma que lhe era peculiar, explicou que seu amigo havia ligado e perguntou se haveria problema em que eu continuasse no exército. Respondeu que não tinha problema algum. E lá fui eu ser soldado, depois cabo. Foi uma experiência ótima, um ingresso na vida adulta, com as responsabilidades e deveres inerentes à disciplina militar. Em momento algum cogitei seguir carreira, mas guardo boas recordações em convivi com os mais diversos tipos de jovens, muitos com sérios problemas materiais. Lembro de alguns tipos inesquecíveis. 

Hugo era um preto que simpatizei no primeiro momento. Esperto e inteligente, tinha resposta para tudo e um senso de humor sem igual. Quando o Sargento Renato, instrutor de nosso pelotão gritava uma ordem,Hugo sempre completava:”-Ou mais!”. Só ele ficava sério, todos em volta riam a ponto de sermos chamados à atenção. Era assim: 

Sargento: “-Descansar!” 

Hugo: “– Ou mais!” 

Sargento: “–Pelotão, sentido! 

Hugo:”- Ou mais!” 

Era muito engraçado. 

Outro cara era o Erik, um cara ruivo cheio de sardas, filho de alemães. Magro, não tinha coordenação motora. No terceiro dia de caserna, foi chamado à Sargenteação (correspondente ao RH civil), onde lhe comunicaram que não era apto à carreira militar. O rapaz começou a chorar, falou que queria permanecer servindo, pois era consciente de suas limitações e o exército era sua oportunidade de melhorar tanto física como emocionalmente. Voltou à tropa contente após revogarem sua dispensa. Como a maioria do pessoal era louco para se safar do exército, escutou muitas gozações. 

José Maria, vindo do agreste nordestino era muito humilde e comia a comida do rancho com vontade. Uma vez comentei com ele que a comida era malfeita. Resposta:”-É ruim e é pouca!”. 

O Maciel viera de Mato Grosso do Sul e, como havia se alistado em São Vicente, teve que servir no 2º B. C.Em 1984 encontrei-o em Cuiabá, era marqueteiro político. 

Tinha o Paes, que quando chamava o numero dele, dava um berro: “-Paaaeeeeeeessss!”. 

O Nogueira do clube Bandeirantes, morava ao lado do cemitério do Saboó. 

Ferreira era uma figura,muito engraçado. 

Meus amigos nadadores Luiz Rodolfo Ortiz, Sérgio Heleno e Eduardo Schieleman (Piu-Piu). 

Meu pai era um sábio. 

22/07/2020 



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O SURF PRIMITIVO E OS GUARDAS VIDAS 




Após iniciarmos a praticar nosso primitivo surf em 1964, durante meses não se via outras pessoas surfando. Depois da exibição do filme “Mar Raivoso” no final do ano, surgiram muitos praticantes, além do pessoal da Praia do Itararé em São Vicente, que aderiu ao novo esporte tomando-nos como exemplo. Mas nesse período de alguns meses entre a estréia de nossa primeira prancha oca de madeira e o aparecimento de outros praticantes ocorreram muitos incidentes com os bombeiros Guarda Vidas. A prancha tipo “caixa de fósforos” comparada às pranchas de madeirit era um equipamento muito mais adequado. As pranchas de madeirit, não ofereciam flutuabilidade e era necessário grande esforço e muitas tentativas para ficar em pé. Alguns praticantes usavam pés de pato, que embora favorecessem a entrada na onda, dificultavam ainda mais tomar posição em pé. Meu pai tinha uma Vemaguete, perua da DKW Vemag, e nós varríamos as praias desde Bertioga até Praia Grande buscando ondas. Logo após a primeira prancha ser testada, o Stipanich fabricou outra maior, com 2,80m de comprimento que, embora mais pesada, flutuava mais e entrava na onda com mais facilidade. Era uma prática solitária. Do nada, um cara ficava em pé no meio do mar e era embalado por uma onda, e isso chamava atenção de quem estava na praia. Muitos se encantavam com o novo esporte e buscavam maneira de obter pranchas, uma delas era pegar folhas de madeira compensadas ( Madeirit é uma marca dessas folhas) das obras e montar sua prancha. Assim foram iniciados muito futuros grandes surfistas. Com muito sacrifício pegava uma ou outra onda. Mas o modelo hoje lembrado como “caixa de fósforos” permitia entrar na onda e surfar, sem a maneabilidade das pranchas de fibra de vidro, que eram o sonho de todos nós. Aguardávamos com ansiedade os dias de ressaca e, quando ocorriam, cedo íamos para o mar. Além das pessoas que admiravam, os guardas vidas se apavoravam com a fato de um camarada estar no meio das ondas em dias de mar bravo. Prontamente, entravam na água e iam “socorrer” o maluco antes que ele se afogasse. Diversas vezes fui abordado após a rebentação por um salva vidas exausto me intimando para sair d`água. Geralmente eu explicava que era um novo esporte chamado surf e que não se preocupasse, que era nadador. Na maioria das vezes o camarada voltava à praia. Muitas vezes ocorrências mais graves aconteciam. 

Dia de ressaca, ondas enormes na região do curvão da Itararé. Eu e Di Renzo havíamos combinado de começar a surfar cedo. Chego à praia e nada do mau amigo. Ao longe vi nossa prancha em costada na parede do posto de salvamento. Chegando lá, encontro o Guarda Vidas discutindo com o Di Renzo e ameaçando chamar a viatura para registrar uma ocorrência. Eu conhecia o guarda Mariano e perguntei o que acontecia. Mariano explicou que a prancha estava apreendida e meu amigo detido pois havia discutido com ele, Mariano. De outro lado, o Di Renzo muito bravo, dizendo que ele podia mostrar que era nadador e desafiava o guarda a cair na água com ele. Aos poucos consegui intermediar e Mariano liberou nós e a prancha. 

Outra ocasião, já com as pranchas Glaspac, fomos em três até a arrebentação, parte do mar entre a Ilha Porchat e a Praia das Vacas. Belas ondas, e estávamos curtindo muito pois na “rebenta” as ondas são longas e aquele dia estava muito bom. Ao longe, noto que um catamarã a remo saia de Praia do Gonzaguinha. Vinte minutos depois, chega até nós esse barco com três guarda vidas muito bravos, já ameaçando cair na água para nos “salvar”. Argumentamos que era um novo esporte, mas não teve jeito, eles nos obrigaram a sair sob pena de apreender nossas pranchas. Voltamos para a nossa Praia de Itararé. 

Paulo Miorim 10/07/2020 

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MEU BAILE DE FORMATURA DO CURSO CIENTÍFICO 


Essa história aconteceu em fins de 1966 ou início de 1967. Eu havia concluído o curso científico (um segundo grau destinado a quem gostava de ciências exatas) no Instituto de Educação Canadá ( em Santos) e haveria um grande baile de formatura no Clube Atlético Santista. Como formando, eu tinha direito a levar convidados. Meu pai possuia uma maravilhosa Vemaguete (uma perua, da marca DKW Vemag marca que não existe mais) de cor bordô com teto branco. Dirigir era uma experiência maravilhosa, numa época que nem todos possuiam carro. Assim que recebi os convites, falei com meu pai que iria utilizar a Vemaguete para ir ao baile. Após vários dias, minha mãe expôs as condições para ir ao baile usando o carro do papi: teria que levar três amigas minhas indicadas por ela, minha mãe. 

Nós morávamos em São Vicente, na esquina de Rua Marques de São Vicente e a Avenida Capitão Mór Aguiar. Meu pai, capitão do exército aposentado, tinha um armazém de “secos e molhados” ( que será que quer dizer isso? Nunca descobri) no mesmo local. Eu trabalhava no armazém e ficava olhando as mocinhas do Colégio Naçõe Unidas. Na frente de casa passavam os bondes das linhas 2 e 22, que tinham ponto final na Av. Cap. Mór Aguiar, a uns cem metros do Praia Clube. 

Em frente à nossa casa morava uma morena bonita chamada Vera e minha mãe era amiga da D. Osvaldina, mãe de Vera. Aos finais de semana eu observava a moça ir ao cabelereiro, se arrumar toda e sair com as amigas. Acho que com a Vera aprendi a ver que a vaidade e os cuidados com a beleza são inerentes às mulheres . Antes de morar nesse endereço, havíamos residido na Rua Jacob Emerich na parte alta de dua casas sobrepostas. Embaixo, moravam três irmãs de origem polonesa, se não falha a memória, de nome Wyslava ( que chamávamos Vigia), Olga e Irene que possuiam uma pequena loja de aviamentos (acho eu) onde seria a garagem da casa. Eram pessoas de ótimo nível, educadíssimas e estabelecemos uma amizade que até hoje guardo com muito carinho. Batíamos longos papos sobre assuntos diversos, sempre voltados para o lado da cultura, da educação. 

Voltando ao baile de formatura, a condição para eu utilizar o carro era levar a Vera Gil, a Olga Tulik e a Irene Tulik ao baile. Apesar de ter uma amizade e grande consideração por elas, eu tinha 20 anos. Queria ir ao baile sózinho, tinha umas paqueras engatilhadas para encontrar e não estava em meus planos ir ao baile com amigas. Por se tratar de pessoas especiais, aceitei e agendamos tudo para irmos ao baile. 

Chegado o dia, apanhei a Vera Gil, passamos na casa das irmãs Tulik e fomos para o baile. Chegados ao clube, estacionei o carro e marcamos de nos encontrar após o baile. O baile foi muito bom para mim, mas, devido estar com amigas, procurei não beber muito, mas me diverti bastante. 

O Atlético localiza-se na Av. Washington Luiz (canal 3), na pista em direção ao centro de Santos. Saindo da avenida da praia, pega-se uma reta até o cruzamento com outra grande avenida, a Afonso Pena. Nesse local, existe uma curva acentuada, em forma de “S”. Hoje o local é cheio de semáforos, bem sinalizado. Naquela época o pavimento era paralelepípedo a curva era uma assustadora surpresa para quem não conhecesse o local. Nada de sinalização. Na pista contrária, sentido centro- praia, armavam uma barraca de frutas, que ficava na calçada beirando a pista. 

Terminado o baile, dia amanhecendo, entramos no carro. Lembro que as moças engrenaram um papo animado sobre com quem tinham dançado, contando cada uma sua impressão sobre as roupas e outros assuntos femininos que, em nada, interessam a um cara de 20 anos, surfista e nadador, preocupado em chegar em casa e estar na praia até as 10 horas para pegar ondas. Liguei o carro e acelerei ao máximo cada marcha, até chegar na quarta. E na curva, quando o velocímetro atingia 80km/h. A curva do canal 3! Apareceu de repente e eu, motorista sem grande prática, segurei firme no volante, aliviei o pé do acelerador. A Vemaguete cantando pneu, as meninas gritando, e o carro indo ao encontro da barraca de frutas. Tudo isso em fração de segundos. Passei “lambendo” a barraca de frutas, quase atropelei o barraqueiro, mas consegui controlar o carro e colocá-lo na reta em direção à praia. Acho que foi a maior sensação de alívio que senti na vida. Ufa! 

Após isso, fêz-se um silêncio sepucral no carro. Não se falou mais nada e entreguei cada uma em suas casas assustadas mas inteiras. Graças a Deus. 

Paulo Miorim 

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RECORDAÇÕES DA TURMA DA PRACINHA 


Sou de São Vicente, SP. Estas lembranças referem-se a um período de minha vida que tenho um grande prazer em recordar. “Pracinha” referia-se à Praça Bernardino de Campos. No final da década de 50, início dos anos 60, de praça era só o nome mesmo. Tratava-se de um terreno gramado, mas sem manutenção, de modo que grama era alta, com uma trilha no meio, e alguns grandes eucaliptos. Era ali que se reuniam moleques de todos os lados da cidade, com idades variadas de 10 a 20 e poucos anos. Haviam vários subgrupos, e indivíduos com as mais diversas características. Uma outra praça, a João Pessoa, fica a uma quadra da pracinha e ali também se reuniam os frequentadores dessa comunidade. A Praça João Pessoa tinha iluminação e ali, à noite, rolavam as conversas sobre os mais variados assuntos. O tema recorrente sempre era o futebol. Hoje a praça Bernardino é onde se realizam exames dos candidatos a motorista para obtenção de carteira de habilitação. A Praça João Pessoa transformou-se na Vila de São Vicente, reprodução histórica da cidade em seus primeiros anos. Ali se situa a igreja matriz e, na época, havia um Seminário. À noite na Praça João Pessoa ficava uma galera debatendo, conversando e brincando. Fumar era uma novidade para nós, que nem fazíamos idéia dos males do tabagismo, e era um tal de “filar” cigarros um do outro, pois a maioria não comprava cigarros, por falta de dinheiro. Às sete da noite o pessoal ia chegando, formando pequenos grupos e rolavam os mais diversos assuntos. Um destaque era o bar do Abel, que vivia cheio de pessoas, muitas de nossa turma, para tomar um cafezinho. O ponto alto do Abel era um misto quente inigualável, que até hoje nunca saboreei outro igual. Quando tinha um dinheirinho a mais estufava o peito e pedia: “- Abel, faz um misto quente!!” . Dali uns minutos vinha aquela sanduíche, o queijo prato bem amarelo derretendo e caindo pelas bordas, muito presunto. Pronto , a noite estava completa. Um pingado ou um guaraná para acompanhar. As conversas eram interrompidas quando passava os bondes 2 e 22. Esses veículos tinham uma campainha ou sino que servia de buzina e muitas vezes o motorneiro vinha bimbalhando para a ninguém ficar na frente. O melhor era a diversidade de pessoas que frequentavam o local. Tinha o Cardim que havia sido expulso da Aeronáutica, o Milton Luiz da Silva (Marreco) o melhor zagueiro que já vi e depois virou professor e político, o Ondamar filho do seu Bizoca e irmão do Sérgião e do Sivaldo que era bom de bola, Célinho Lopes, Luiz Victor ( grande Victor Lopes!). Marquito, Eli, Timanca, Zé Guardinh, Dudu, Naije, Sandoval, os Del Vechio ( Jhony, Winston, Valter, Frank era menor), Lica, Saci, Adilson, Calota, Jaime Maluco e um monte de outro 


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O PÃO DE COCO DA MEIA NOITE




Compartilhei com meu amigo Clodoaldo, da Pracinha, uma experiência inesquecível, ou melhor, repetimos várias vezes essa experiência. Em 1965 transferi-me do Instituto de Educação Martim Afonso, em São Vicente, para o Colégio Estadual Canadá, em Santos, freqüentando o período noturno. O nome Canadá foi adotado em homenagem à Cia. City de bondes, doadora do terreno onde se edificou o colégio. Cursava o segundo ano científico e prestava o serviço militar no então 2º Batalhão de Caçadores, hoje 2º BIL. Essa mudança possibilitou treinar natação nos finais de tarde no Internacional e surfar na Praia de Itararé às quartas feiras, dia de meio expediente no Exército. Às sextas feiras, na saída das aulas, meus amigos Antenor, Sérgio Heleno, também vicentino e Dagoberto Battochio, me aguardavam e íamos para o Rio de Janeiro passar o fim de semana. E assim foi o ano todo. Em 1966, agora no terceiro secundário, freqüentava o Curso ENGO, cursinho preparatório para vestibular de Engenharia, das duas até as seis horas da tarde. Saíamos do Engo, e junto com um amigo nissei, ia a pé para o Canadá, onde fazíamos um lanche. As aulas começavam as dezenove e terminavam às 23 horas, onze da noite. Ou seja, normalmente saía das aulas com fome. Só foi possível freqüentar o Engo depois de um acordo com meu pai: abriria o armazém todos os dias às sete da manhã e trabalharia até meio dia, pois o cursinho era pago. Aliás, em toda minha vida só estudei dois anos em escola particular. Era um ritmo pesado. Após o armazém, mal tomava um banho, almoçava e apanhava o ônibus Ana Costa, Circular 03 da Viação Santos São Vicente Litoral Ltda., e chegava ao Engo no começo das aulas. Não tinha tempo para mais nada.

Um amigo de infância da Pracinha, o Clodoaldo, freqüentava o Curso Clássico do Canadá e passamos a tomar a mesma condução na Av. Conselheiro Nébias, o Circular 02. Em São Vicente, o ônibus entrava na Av. Presidente Wilson, seguia pela Rua Benjamin Constant até a antiga estação da Estrada de Ferro Sorocabana, onde dobrava a esquerda na Rua campos Salles. Nós descíamos na esquina da Campos Salles com a Rua frei Gaspar, em horário próximo da meia noite. Nessa esquina havia um estabelecimento misto de boteco e padaria.

Certa noite, eu e Clodoaldo, ambos com fome, resolvemos comer algo antes de chegar em casa. Aquela região de São Vicente, na época não tinha iluminação noturna e, devido ao horário, não era segura. Entramos na parte onde era padaria e O Clodoaldo escolheu entre várias opções, um pão comprido, recoberto de coco ralado, de massa semelhante ao que chamamos ao que, nós da Baixada Santista, chamamos pão de cará. Sem grandes pretensões, também escolhi esse pão de coco e um pingado, copo de café com leite que na padaria considero bem melhor que o de casa. Na primeira mordida, saboreei uma verdadeira iguaria. Olhei para o Clodo, e sinalizamos aprovação. O pão era muito saboroso, molhadinho com leite de coco, perfeito. Viramos fregueses e, todas as noites, passávamos na pequena padaria para degustar aquela delícia. Após esse lanche, ficávamos conversando mais uma ou duas horas em frente à casa de Clodoaldo. Às vezes, Clodonéia, irmão do Clodoaldo, abria a janela, olhava para nós, e fechava. Era sinal para irmos para casa. Durante todo o ano letivo, repetimos esse saboroso ritual. Só de lembrar aquele pão de coco fico com água na boca.

24/09/2020 


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TRAVESSIA DA BAÍA DE SÃO VICENTE



1962 ou 1963. Aconteceu comigo na Travessia da Baía de São Vicente. A saída era ao lado de Ponte Pensil, a chegada no Gonzaguinha. Acontecia uma fortíssima maré de vazante. A saída da prova era em uma pequena praia vizinha à Ponte Pensil, do lado Praia Grande. E a preocupação dos organizadores e atletas era a forte maré acima citada. Uns queriam adiar a prova, outros achavam melhor aguardar a virada da maré para autorizar a largada. O Duda ( José Eli, que saudade, onde anda?) era o nosso técnico. Eu, uns anos antes, moleque, vivia mergulhando e pegava cavalos marinhos para vender nas barracas de “souvenires”, e aquele mar era uma espécie de meu “habitat”. Fiquei observando os comentários, as opiniões de cada um dos envolvidos na prova. 

Os nadadores discutiam qual o melhor trajeto, a maioria dizendo que o ideal seria nadar paralelo às margens e só mudar o rumo próximo a ponta do Porta do Sol ( um edifício), aí sim cortando a baía em direção à chegada em ângulo reto. Eu não era nadador de distância, escutava as conversas. Nicomedes Pacheco de Barros, Sérgio Heleno ( que já havia vencido a travessia passada), Sebastiãozinho, e um monte de nadadores optaram pelo trajeto acima. Como conhecia bem o local, pensei: “vou cortar reto, a maré vai parar e virar”. Parti e nadei a prova sózinho, pois praticamente todos seguiram o traçado combinado. Como ninguém havia levado em conta minha opinião, minha estratégia deu certo, ganhei a prova e cheguei uns dois minutos na frente do Sérgio Heleno Oliveira, do qual eu era freguês em águas abertas. Lógico que fiz muitas gozações com o fato. Abraço fraterno a todos.


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O CASARÃO DA RUA XV COM BENJAMIN CONSTANT



Quem sai da Praia de Itararé pela Av. Presidente Wilson, chega, ao término desta, na Praça do Correio e, seguindo em frente, desce pela rua Benjamin Constant, aos fundos do Clube de Regatas Tumiarú. A primeira esquina é o cruzamento com a rua XV de Novembro, uma das ruas mais movimentadas de São Vicente. Ali hoje há um grande edifício, e, em frente, um movimentado supermercado. Nem sempre foi assim. Nessa esquina foi, durante muitos anos, a sede do Esporte Clube Beira Mar, cujo distintivo era vermelho e preto, escrito com letras brancas “E. C. Beira Mar”, para os frequentadores mais assíduos, o “Bera”. Antes de ser sede do Bera, era uma ampla casa dentro de um terreno enorme, que ia da rua XV até os fundos do Tumiarú. Ao lado direito ficavam os fundos das casas da rua Expedicionários Vicentinos, onde moravam algumas ilustres figuras vicentinas, entre elas a família do prefeito Luís Beneditino Ferreira ( pais dos meus amigos Paulo e Heitor Ferreira), os Detter ( Carlos, meu amigo até hoje) e outras. Na realidade eram duas casas. De frente para rua XV o muro era alto e a entrada era feita por um portão verde de duas folhas. Havia então uma escadaria com degraus curvos corrimão de alvenaria e uma varanda grande. Coisas que já não vemos mais, com essa exigüidade de espaço atual. Ao lado, junto à rua Benjamin Constant, um quintal espaçoso com anormes pés de jaca. Após um muro interno, era a segunda casa, onde moravam os proprietários, um casal de alemães já idosos. Meu pai alugou a casa da frente e fomos morar nesse pequeno paraíso, perto do Grupão, onde eu estudava, e do Tumiarú, onde eu e meu irmão passávamos as tardes jogando basquete. Eu devia ter uns dez anos, era 1955 ou 1956, por aí. A proprietária falava um português arrastado e era a encarnação da senhoria rigorosa e implicante. Vivia bisbilhotando nossa vida. Uma pentelha. O mais interessante eram os cachorros que ela tinha: uma cachorra chamada Neli e um cachorro chamado Tupi. Neli era uma cachorra marron de pelo liso e curto. Tupi, um grande pastor alemão de pelagem escura, que me apeguei assim que o vi. Eu, cachorreiro desde que nasci, fiquei fascinado com o cão. Foi o cachorro mais folgado que já vi. Tinha mania de deitar em nossas camas quando achava a portas do quarto abertas. De repente, do nada, aquela enorme figura, deitava do seu lado. Era cada susto! 

Durante a época que moramos ali aconteceram coisas inesquecíveis, que trago sempre na lembrança. Paulo Ferreira era uma figura. Chamado de Paulo Maluco, sempre inventava algo que agitava a vizinhança. Explodiu uma bomba feita por ele no quintal de sua casa,e foi uma confusão geral. Tirou brevê (carta de habilitação para pilotar aviões) e passou voando sob a Ponte Pensil em um dia de maré baixa. Teve a habilitação cassada. Anos depois, eu, ele eo Heitor fizemos uma viagem a Belo Horizonte, que foi muito divertida. Era um cara do bem, divertido, do qual guardo boas recordações. Morreu poucos anos depois dessa viagem. 

Nossa casa era uma espécie de quartel general da família. Meu tio Manoel, irmão de criação da minha mãe, havia casado com a Ivone e ela estava grávida. Foi ter nênê em nossa casa. Lembro mais ou menos como foi. A parteira chegou toda de branco e se trancou com a minha mãe, a irmã da Ivone e, lógico, a própria Ivone. Eu nem imaginava quem era ou o que fazia aquela mulher. Só lembro que, após umas horas, ouvi o primeiro choro do meu primo Carlinhos. Entendi o que havia acontecido, mas nem fazia idéia como essas coisas funcionavam. Era outra época, e como os bêbês vinham ao mundo não era do meu conhecimento. 

De outra feita ( outra feita é ótimo!) meu pai deu o endereço para um cidadão de São Paulo e o cara apareceu com mulher e duas filhas. Após uma semana, meu pai chamou o cidadão em um canto e deu-lhe um ultimatum: teria de sair dia seguinte, pois nossa casa não era hotel. . Acho que, por êle, estaria morando com a gente até hoje. E muitas outras estórias aconteceram nessa época. 

Até que, belo dia, os alemães venderam a propriedade para E.C. Beira Mar. Fomos morar em outro canto. 



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GREVE DOS PROFESSORES DO MARTIM AFONSO


1963 ou 64. Eu, Sérgio Heleno, Chicão e Carlinhos Detter nos reuníamos na casa do Chicão. Fazia-se uma vaquinha e comprava-se um litro do melhor uísque da época: “King´s Archer”. O melhor que podíamos comprar, é lógico. Detter e Chicão tocavam violão, cantavam músicas da bossa nova, o Sérgio Heleno tentava ser segunda voz. Eu, sem nenhum talento musical além de ser um amante da boa música, escutava e bebia. Entre uma música e outra rolava um papo muito bom sobre tudo que era assunto, principalmente lançamentos musicais, o Chico Buarque era o cara do momento com Pedro Pedreiro, Ela Desatinou e outras musicas maravilhosas. Tinha também Maria Bethânia com “Carcará”, Nara Leão, Tom Jobim, Vinícius de Morais e o inventor da bossa nova: um baiano chamado João Gilberto, que viera de seu estado para integrar um conjunto de vozeirões e descobriu que cantando baixinho causou uma enorme reviravolta na música popular brasileira. Até hoje não houve nada parecido, tanto em qualidade como em criatividade. De corações feridos, dores de cotovelo, mágoas, rancores, vingança, castigo, etc. os novos músicos passaram cantar o amor, a flor, os barquinhos, o Corcovado, o cotidiano. Como sempre o novo provoca grandes resistência do “status quo” da época, havia muitas críticas à nova música. Mas uma parte da rapaziada aderiu a esse novo gênero musical. E meus amigos eram requisitados para tocar um violão em diversos locais. Eu ia sempre que podia, pois invariavelmente as mocinhas adoravam bossa nova. E a gente adorava as mocinhas. Sempre havia um grupo de meninas nas reuniões musicais, servia-se umas bebidinhas, dava-se muitas risadas. Era uma época de ouro.

Voltemos à casa do Chicão. Certa ocasião estávamos sem aula há alguns dias devido greve dos professores e, já animados pelo King`s Archer, começamos a passar trote por telefone. Embora hoje seja uma prática abominável, na época achávamos muito divertido. Os professores estavam reunidos em assembléia na sede do Tumiarú para definir a continuidade ou não da greve. O líder dos mestres era o professor de educação física Clóvis e estava dirigindo a assembléia. Nossos alvos preferidos eram personalidades vicentinas, políticos, comerciantes mais conhecidos, etc. Até que resolvemos dar trote no professor Clóvis. Chicão ligou para o Tumiarú, tampou as narinas com os dedos e se identificou numa voz anasalada com sotaque alemão: “ –Aqui é Borowski. Monsenhor Borowski. Preciso falar com o professor Clóvis”. O telefone era longe do local da reunião. Passados uns minutos, professor Clóvis atende ofegante: “-Pois não Monsenhor.” Iniciou-se então um diálogo insólito. Monsenhor Borowski era o chefe da paróquia de São Vicente e figura proeminente na cidade. Chicão solicitava em tom sacerdotal que a greve terminasse, que os alunos não podiam ficar sem aulas, que “os criancinhas nom podiam se prrejudicarr” e assim por diante. A cena era hilária. Chicão muito sério dando um sermão no professor, quase podíamos ver Clóvis suando para justificar sua posição. Depois de uns quinze minutos e a promessa do professor Clóvis de se empenhar para terminar a greve, Chicão desligou. Nós estávamos sem fôlego de tanto rir. Tenho certeza que o professor Clóvis nunca soube que tinha levado um trote.



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O Sanduíche de Mortadela do Cine Maracanã



O Cine Maracanã, na rua Campos Sales. 


Domingo era dia de matinês nos cinemas, antigamente. Os pais davam um dinheirinho para a entrada e um pouquinho mais para um doce ou drops (muitos nem sabem o que é isso). Os meninos e meninas almoçavam, tomavam um banho (após uma hora para não dar congestão!) vestiam roupas bonitas e... bora pro cinema que a sessão começa às duas horas. Invariavelmente eram dois filmes e um seriado. O primeiro filme geralmente era ruim, o segundo era bom e o seriado poderia ser:

• Flash Gordon e suas aventuras no espaço.

• Nyoka, A Garota das Selvas conhecida por Nyoka The Jungle Girl,uma heroína criada para o cinema por Edgard Rice Burroughs em 1941, o mesmo criador de Tarzã.

• Bomba, uma espécie de Tarzã menos famoso, era um loirinho, gordinho com cabelo encaracolado.

• Arqueiro Verde.

• O Misterioso chinês Fu Man Chu.

• Tarzã, o Rei das Selvas.

• Os Três Patetas.

• O Zorro, seu amigo inseparável índio Tonto, e seus cavalos que também eram personagens. Nas primeiras versões, década de 1930, Zorro montava um cavalo preto chamado Tornado, depois outro de nome Phantom, finalmente um cavalo branco que ficou como uma marca registrada do herói: Silver. O cavalo de Tonto sempre se chamou Escoteiro. Nos momentos de emergência, Zorro montava e gritava: Aiiiiô, Silver!!!! A garotada urrava.

Mais que assistir aos filmes, os garotos levavam pilhas de gibis (revistas em quadrinhos) do Roy Rogers, Hopalong Cassidy, Flecha Ligeira, Mandrake, O Fantasma, O Cavaleiro Negro, Buck Roger, etc., para vender ou trocar por outros que ainda não haviam lido. Pelo menos era assim no Cine Maracanã, em São Vicente. Ficava ali na Rua Campos Sales, onde hoje funciona a Igreja do Poder de Deus.

Entre o primeiro e o segundo filme havia um intervalo que a molecada pegava uma senha e saia do cinema para comprar doce na padaria em frente ao cinema. Era uma gritaria e uma correria. O dono da padaria colocava uma dessas vitrines de salgados em uma mesa na calçada, repleta de sanduíches de mortadela. Era um pão sêco, uma fatia transparente de mortadela no meio e só. Mas era o objeto de desejo da maioria que estava no cinema. Uma briga danada para conseguir uma preciosidade daquelas! Depois de muita cotovelada, gritos, empurra-empurra, você conseguia sair com seu sanduíche na mão, sem guardanapo. Os mais abonados compravam um refrigerante, a maioria comia o sanduba e achava ótimo. Tocava uma campainha e a molecada voltava correndo para o cinema. O segundo filme era de primeira qualidade. Burt Lancaster, Kirk Douglas, Charlton Heston, Tony Curtiss, Elizabeth Taylor eram os astros mais notórios. Eu gostava muito do Robert Mitchum, não perdia um filme com ele. Os Dez Mandamentos de Cecil B. De Mille foi o que mais me impressionou. Era uma época dourada, grandes épicos do cinema, faroestes incríveis que se tornaram clássicos, filmes de guerra fantásticos, Após o filme principal, começava o capítulo do seriado, sempre relembrando a situação de extremo perigo que o herói estava sujeito e que a garotada havia ansiado a semana inteira para saber qual seria a saída (os heróis nunca morriam). A platéia gritava, batia os pés, torcendo para o mocinho. Terminada a matiné, todo mundo para casa assistir a TV Tupi (PRF3, nunca soube por que), Pirani a gigante do Brás, desenhos do Pica-Pau, as peças de teatro passavam ao vivo na TV, etc..

Mas o sanduíche de mortadela era inesquecível. O do Mercado de São Paulo, com 400 gramas de mortadela não chega aos pés.


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O TREM PARA SANTO ÂNGELO



Eu tinha cinco anos. Meu pai havia concluído o Curso de Moto Mecanização do Exército, no Rio de Janeiro. Ele fora transferido para Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul. Gaúcho de Alegrete, meu pai gostou de voltar a morar no seu estado natal. Fiquei torcendo, na minha ótica infantil, para mudar logo e conhecer novos amigos e nova cidade. Por incrível que pareça, eu tinha experiência em mudanças, havia morado em Santa Maria, no Rio de Janeiro, na Praia Grande e em São Vicente. Perder amigos que custara tanto a fazer já havia me causado desespero algumas vezes. Quando somos crianças, amigos fazem parte de nós mesmos, e quando tomei consciência de que mudar implicava em deixar amigos, chorei muito e até hoje me lembro da tristeza que senti quando deixei o Rio. Mas as crianças são ligadas no instante em que estão vivendo e, ao contrário dos adultos, não ficam remoendo mágoas. 
Faríamos a viagem de trem, em duas cabines leito interligadas, com duas camas superconfortáveis cada e banheiros privativos. Um deslumbramento para uma criança. Hoje, só vemos isso em filmes sobre épocas antigas, tipo Orient Express, onde os trens parecem cristaleiras de tanto brilho. Cada leito tinha uma luzinha própria que se acendia com uma pequena alavanca de metal brilhante, torneiras de metal luzindo e tudo muito bem cuidado. Embarcamos na Estação da Luz, uma maravilha arquitetônica, projeto do arquiteto britânico Charles Henry Driver (1832-1900), renomado arquiteto de estações ferroviárias em várias partes do mundo. Hoje perdida no meio da selva em que se transformou a cidade de São Paulo, a Estação da Luz merece uns momentos para ser apreciada. Foram aplicados vitrais na estrutura metálica, mistura inédita para a época em que foi construída. Inaugurada em 1901, conserva a imponência e beleza originais com belos pilares de granito trabalhado, uma torre com um grande relógio. Além de abrigar o Museu da Língua Portuguesa. Mas nós, brasileiros, não damos o valor que esses monumentos merecem. 


E lá se fomos para Santo Ângelo. Uma viagem prevista para três dias e três noites. Sinto ainda o cheiro da lenha queimando na caldeira da locomotiva tipo, ouço o schulep schulep do rodar do trem e o vento batendo quando colocava o rosto para fora da janela, empurrando o cabelo para trás e obrigando a fechar um pouco os olhos. Ás vezes ouvia-se um longo apito característico, avisando que a composição se aproximava de curvas, de trechos perigosos e das estações. À noite, podiam-se ver brasas saindo da chaminé da locomotiva. O traçado das nossas ferrovias era projetado para atender grandes fazendas e pontos de interesse comercial, o que fazia com que as ferrovias fossem extensas. Nossos governos optaram por transporte rodoviário, e a malha ferroviária brasileira diminuiu muitos nos últimos 60 anos.
A viagem atravessaria os estados de São Paulo, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Partindo de São Paulo, o trem da antiga Estrada de Ferro Sorocabana percorria o ramal de Sorocaba, até Itararé, que era a cidade da divisa de São Paulo e Paraná. Uma locomotiva da Rede Viação Paraná Santa Catarina assumia a tração, e nosso comboio passava por Sengés, Jaguariaíva, Ponta Grossa e seguia até União da Vitória de lado paranaense e Porto União em Santa Catarina. Essas cidades ficam separadas pelo Rio Iguaçú. Atravessava o estado catarinense parando nas cidades de Caçador, Tangará Herval, chegando a Marcelino Ramos, já no Rio Grande do Sul. Ali ocorre a junção do rio Ibicuí com o rio Uruguai, cujas águas por serem de cores diferentes, demoram para se misturarem.Daí seguia por Erechim, Passo Fundo e Cruz Alta, onde havia baldeação para o ramal de Santo Ângelo.

Muito me impressionaram as mudanças de sotaque, roupas, pessoas e paisagens que se apresentaram no percurso. Em cada parada ofereciam os mais diversos produtos, andando ao lado das janelas do trem. No Paraná e Santa Catarina vendiam queijos, salames, doces, etc. No Rio Grande dos Sul ambrosias, um pão delicioso chamado cuque ou cuca de origem alemã, e frutas como melancias melões e bergamotas. Pela primeira vez escutei tangerina ser chamada de mimosa no Paraná e bergamota no Rio Grande do Sul. 

E, finalmente, chegamos a Santo Ângelo, uma pequena cidade, capital dos Sete Povos das Missões.
Mas isso fica para outra história. 



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O GRUPÃO DE SÃO VICENTE


“A história do Grupão começou no dia 10 de junho de 1893, no armazém de secos e molhados do capitão Antão Alves de Moura, onde um grupo de cidadãos vicentinos decidiu fundar a Escola do Povo. A maioria pertencia à Loja Fraternidade de Santos, que auxiliou no trabalho de construção do prédio. A unidade chegou a funcionar provisoriamente na Praça João Pessoa (antigamente conhecida como Largo Batista Pereira) e na Rua XV de Novembro, antes de se transferir definitivamente para a Praça Coronel Lopes, em 1898. Em 1913, a Escola do Povo passou a ser administrada pelo Governo do Estado, que resolveu ampliá-la, construindo um prédio em forma de U, dando fundos para a Avenida Padre Anchieta. Passou a ser denominada, então, Primeiro Grupo Escolar de São Vicente, com oito classes.” (Copiado do site “Histórias e Lendas de São Vicente”) 

Em 1956, minha família, vinda de Santo Ângelo, Rio Grande do Sul, voltou a morar na minha cidade de São Vicente. Meu pai alugou uma casa no então despovoado bairro do Catiapoã, lá pela quarta ou quinta rua paralela à linha férrea. As ruas eram de terra, quando chovia ficavam cheias de poças d´água, e fui matriculado no Grupo Escolar de São Vicente. Todas as salas de aula ficavam no corpo principal do prédio, do lado direito havia uma grande área coberta onde se formavam as filas para entrada em classe e os alunos passavam a hora do recreio. Não lembro de ter ficado em fila de espera ou alguma outra dificuldade para efetuar a matrícula. Aos poucos fui me integrando com os alunos e fazendo amigos. 

Encontrei algumas dificuldades em geografia. Em Santo Ângelo aprendíamos sobre o Rio Grande do Sul e agora o objeto era o Estado de São Paulo. Mas as instalações eram muito boas, periodicamente os alunos eram encaminhados ao dentista em um consultório dentro do Grupo Escolar. O prédio era muito bem cuidado. Lembro que havia grandes bancos de madeira, pintados de verde, que eram utilizados para os declamadores e para a hora do recreio. Ocorre que antes de iniciar a aula, os alunos entravam em forma em ordem decrescente de altura e, cantavam hinos brasileiros conforme as datas e, muitas vezes, eram escolhidos pelas professoras os alunos que, subindo em um dos bancos, declamavam um texto ou uma poesia. Sempre havia um pequeno ritual e após, entrávamos em sala. 

Minha família mudou para um casarão na esquina das ruas XV de Novembro e Benjamin Constant e tudo ficou mais fácil: pertinho da escola, do Tumiarú, região cheia de novos amigos. 

Certo dia a professora me escolheu para declamar uma poesia em homenagem a um pintor chamado Vitor Meireles. Acho que eu era muito falante, mas nem imaginava quem seria esse tal de Vitor Meireles. 

Dois ou três dias depois chegou a minha vez de subir no banco e, em altos brados, declamei, sem consultar o texto, o longo poema. Havia decorado tudo e, apesar de nervoso, cheguei ao final sem grandes problemas. 

Merenda, na hora do recreio era servido um mingau ou algo parecido e mesmo assim não lembro se era todos os dias. 

Na saída não havia a organização da entrada, e os alunos saiam correndo com uma gritaria generalizada. Não tinha nada de papai vir buscar, cada um ia para casa sozinho ou em grupos de colegas. 



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CARLOS MENDONÇA, UM MESTRE INESQUECÍVEL 


“Não se mede o valor de um homem pelas suas roupas ou pelos bens que possui, o verdadeiro valor do homem é o seu caráter, suas ideias e a nobreza dos seus ideais.”  Charles Chaplin 



Como já notaram, gosto de escrever. Levando em conta que sou engenheiro, é um hábito estranho para minha profissão. Em 46 anos de trabalho em empresas de engenharia, lembro raras exceções que confirmam a regra segundo a qual, os profissionais escrevem o mínimo necessário, limitando suas letras a cartas para clientes, preencher diário de obras, relatórios técnicos, especificações e coisas do tipo. Confesso não me considerar um escritor, mas gosto de escrever, talvez por não reconhecer minhas limitações literárias. Me pergunto o que leva uma pessoa a sentir necessidade de registrar em papel suas estórias, pensamentos, opiniões, etc. Evidente que o principal requisito é amar a palavra escrita, seja de sua autoria ou de outros. É preciso consciência e sensibilidade de que as letras têm um poder, transmitindo sentimentos, registrando fatos, contando a História, levando conhecimento, pedindo socorro, e tantas outras funções. Como se cria esse sentimento é inexplicável, mas tudo tem uma origem. Após ser aprovado no exame de Admissão ao Ginásio do glorioso Instituto Estadual de Educação Martim Afonso, em São Vicente, pertenci à primeira série “E” do ano de 1959. Dentre saudosos mestres de variadas matérias, um ou outro permanecem em minhas recordações por terem marcado indelevelmente meus conhecimentos. Dentre estes uma figura destaca-se sempre que lembro de meus anos de ginásio: Professor Carlos Mendonça, responsável por ministrar aulas de Português. Antes de tudo o professor Mendonça era um gentleman, e credito a ele boa parte desse meu gosto por ler e escrever. Verdadeiro mestre na matéria que lecionava, Mendonça não transmitia só conhecimento. Muito mais do que ensinar, Mendonça era uma pessoa que fazia nascer nos alunos aquela vontade de “quando eu crescer, quero ser como ele”, possuía uma postura de dignidade e seriedade em sua profissão únicas. Respondia às perguntas dos alunos com atenção, sem transparecer ou mostrar superioridade, apenas buscava esclarecer dúvidas. Com uma maneira muito clara de expor a matéria, Mendonça tornava nosso complicado idioma totalmente inteligível. A imagem que ficou em minhas lembranças foi de um profissional da educação capacitado, equilibrado, gentil e bem-humorado. Conquistava autoridade devido sua competência, pois não era autoritário. Lembrando desse mestre, entendo que cada palavra que escrevo tem um pouco dele. Mendonça nos deixou há alguns dias atrás, e, a nós, seus alunos, resta a lembrança e a saudade de um exemplo de professor íntegro e merecedor de todas as homenagens. Onde estiver, será recebido com Amor. 

29/08/2019

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JOGOS DE BASQUETE NO TUMIARÚ: O GUARDA CHUVA DO BUBINHO



Registro de jogada de Pedro Vicente Fonseca, o Pescente, astro vicentino do basquete e do futebol.  

O Clube de Regatas Tumiarú em São Vicente nas décadas de 1950-60, possuia duas quadras de basquete em sua séde social, no centro de São Vicente, Sã Paulo. Principal clube da cidade, já naquela época tinha grande tradição no esporte amador. As quadras eram descobertas, pois não havia ginásio esportivo. A quadra mais nova era onde aconteciam os jogos de basquete e futebol de salão, volei era mais raro. A participação do Tumiarú nos campeonatos da região era sempre destacada, suas equipes contavam com bons times e as rivalidades eram acentuadas entre as principais agremiações.  O Santos Futebol Clube, o Vasco da Gama de Santos, o Atlético Santista, o Clube Internacional de Regatas, O Saldanha da Gama, o Brasil futebol Clube, o Vila Souza Atlético Clube do Guarujá e, lógico, o Tumiarú, eram os destaques das competições. As pessoas sentavam em arquibancadas de táboas de madeira e torciam muito. Eram diversas categorias: infantil, juvenil, aspirante, principal, e havia equipes femininas e masculinas de basquete. No futebol de salão só as equipes masculinas disputavam, futebol ainda era coisa só para homens. Era uma geração imediatamente após o grande Wlamir Marques, que iniciou sua carreira no Tumiarú e transferiu-se para o XV de Piracicaba, na época o melhor time de basquete brasileiro, em 1953. Dizem que se não houvesse jogado basquete, Wlamir seria um goleiro excepcional. Outro grande astro seguiu seus passos em 1955: Pedro Vicente Fonseca,  o Pecente.  Pecente jogava basquete e futebol. Havia começado com outros dois vicentinos que se tornaram famosos, Pepe e Del Vechio. Pecente era um excelente ponta esquerda e Del Vechio era um bom jogador de basquete. Pepe e Del Vechio optaram pelo futebol. Pecente escolheu o basquete como o seu esporte. Os três jogaram no Santos, mas Pecente após uma excursão à Argentina, resolveu seguir no bola ao cesto. Portanto, São Vicente ainda vivia sob o clima do aparecimento dessas glórias esportivas. E surgiram outros grandes jogadores: Serjão, Jubal, os irmãos Cury (Nassir, Jarir, Omar e Altamir, o Bura), Lecomono são os que mais me recordo, mas tenho certeza que estou sendo omisso com excelentes atletas. Tinha muita gente boa. Do futebol de salão me lembro do Nando, que tinha um chute potentíssimo, e do Dinho, que tive o prazer de reencontrar em 2002. Passei longas horas com ele, em diversas ocasiões, recordando essa época da qual falo acima com muita alegria e cerveja. Demos muitas risadas juntos das passagens que ele recordava com muito humor. Dinho tinha menos de 1.60m, mas chutava a parte de baixo da tabela com saltos de uma impulsão rara. Há uns meses atrás soube que nos deixou para bater uma bola no céu. Nas minhas recordações essa foi uma época mágica. Vira e mexe o tempo fechava e ocorriam brigas homéricas, Por exemplo, jogar na quadra do Brasil era promessa de surra se a gente ganhasse o jogo. Seu Beto era nosso técnico, bravo demais. Quando o jogo era no campo adversário, ia aquele bando de garotos pegarem um ônibus para Santos.


Wlamir Marques (em pé à esquerda) e abaixo dele segurando a bola, Pescente na equipe do XV de Piracicaba nos anos 1950.


Quando o jogo era no Tumiarú, procurava-se saber se havia previsão de chuva. O Bubinho, amigo nosso, atleta do clube, levou um guarda chuva para, caso chovesse, ele estava protegido. O jogo era à noite e o tempo estava muito bom, com uma bela lua e sem uma nuvem no céu.  Começou uma gozação enorme com o Bubinho. Um dos gozadores cuspiu várias vezes no guarda chuva. Bubinho olhava fixo para o jogo não dando mostra de se importar com seu equipamento todo cuspido. Saída do jogo, nas escadas, Bubinho aproximou-se do cuspidor, saindo ao seu lado. Alcançada a calçada externa, Bubinho chamou o cara e simplesmente desferiu inúmeras guardachuvadas no sujeito, até ficar somente com o cabo e o varão do guarda chuva na mão. Formou-se uma confusão, logo acalmada pela sempre presente turma do deixa disso. Bubinho virou as costas e foi embora.

 

Paulo Miorim

17/05/2016

 

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UMA MIRAGUAIA NA PORTA DO SOL

Sempre considerei São Vicente uma cidade mais oceânica ou praiana que Santos. Talvez por ter vivido uma infância mágica, em uma época que os filhos eram criados mais soltos que hoje, na qual não havia esse pavor que nos acompanha e fazemos com que nossas crianças e adolescentes vivam 24 horas por dia vigiado, sempre com medo de drogas, assaltos, violência, bullying, seqüestros, etc., nossa turma tinha um convívo com o mar bastante intenso. E houve um período que nossa principal atividade era pescar com varas pequenas na litoral de São Vicente compreendido entre a Ponte Pensil e em frente às obras abandonadas do edifício Porta do Sol. Invariavelmente voltávamos para casa com vários peixes: bagres, salemas, pescadinhas, perna de moça, robalinhos e várias outras espécies. A casa do Zé Guardinha era o ponto de encontro de nossa turma: sete moleques que viviam inventando mil atividades, nem sempre elogiáveis, como brigas de turma, caçar passarinhos de estilíngues, pegar cavalos marinhos para vender, etc.. Mas era outra época e ninguém tinha a consciência que temos hoje.

Quase todas as vêzes que pescávamos próximo à porta do Sol faziámos a travessia até umas rochas que ficam a uns 20 ou 30 metros da costa nos dias de maré baixa. Era um pesqueiro ótimo, dava mais peixe que os outros lugares. Mas sempre ocorria de perdermos linhas com anzol e tudo, e muitas vezes quebrar as varas, devido a fortes fisgadas de peixes maiores que a capacidade dos nossos equipamentos, que não passavam de bambús cortados no Morro dos Barbosas, secados ao sol, com cabrestos feitos por nós. As linhas de nylon, pequenos anzóis e chumbadas a gente comprava no Bazar Boa Sorte, que ficava na Martim Afonso atrás da Igreja Matriz. O dono era um japonês muito sério que trazia suas vitrines muito organizadas e seu estabelecimento de uma limpeza notável. O filho do dono era um garotinho esperto que vivia ali no bazar e a gente gostava de falar com êle. Seu nome era Jiro. Jiro Hashizume.

Resolvidos a pescar o peixe que havia comido nossas iscas e quebrado algumas varas, fizemos um grande esforço e, com uma sacrificada vaquinha, adquirimos no Bazar Boa Sorte uma vara grande, um carretel de linha de aço, anzóis grandes, chumbadas compatíveis, e uma cordinha. Fomos para a casa do Zé Guardinha, que ficava na Marques de São Vicente em frente a minha casa de número 78. O quintal da casa era o lote ao lado, que era um território exclusivo nosso. Montamos o equipamento, compramos sardinhas para isca no Mercado Municipal de São Vicente, onde havia um comércio maravilhoso de pescados, e fomos à luta. Ou melhor, à pesca.

Só um comentário: que boa recordação essas peixarias que funcionavam no mercado de São Vicente! Você comprava peixe ou frutos do mar frescos de toda espécie, muito diferente do que vemos hoje ali.

Atravessamos a Ponte Pensil, um bando de moleques, carregando uma vara bem maior do que as usuais era motivo de gozações de muita gente. Mas fomos em frente. A maré estava baixa, atravessamos o canal, subimos na rocha e começamos os preparativos. Primeiro, por dica do meu pai, catamos um monte de mariscos que eram abundantes nas pedras, quebramos e jogamos no local onde iríamos pescar. Era para “cevar” os peixes, atraindo-os para aquela região. Colocamos a sardinha no anzol, amarramos a cordinha na vara e na cintura do cara que estava pescando e aguardamos. A cada 15 minutos havia uma troca da pessoa que estava pescando. Depois de várias fisgadas e iscas perdidas, ferramos um baita peixe, que puxou o Sandoval Curi (era o turno dele) para água e nós todos mergulhamos para garantir que o peixe não escaparia. Foi um alvoroço. Era moleque berrando de alegria e palavras de alerta para não perder o peixe. Depois de muito esforço conseguimos puxar o bruto para fora d água: era uma miraguaia enorme para nossos padrões. Recolhemos o material e voltamos para casa desfilando aquele tesouro, mostrando aos que haviam feito gozações e calando a boca deles. Na pesagem, feita em açougue, acusou 6,5kg. Uma enormidade. Quiseram comprar, mas não aceitamos. Novamente na casa do Zé Guardinha, limpamos o peixe, cortamos em postas, e congelamos. Domingo seguinte, 7 horas da manhã, levamos a miraguaia e condimentos para Itaquitanduva. A gente entrava na ruazinha do Cortume e atravessava o morro. Era boa hora de caminhada. Fizemos um fogo entre as pedras e preparamos o peixe com côco, segunda ensinado pela mãe do Zé Guardinha, nordestina e exímia cozinheira. Nunca comi nada tão delicioso.

NOTA. Miraguaia: Peixe de escamas também conhecido como piraúna. Corpo alongado, um pouco achatado, com focinho obtuso e reto em sua parte anterior, boca inferior. Coloração do dorso varia de cinza a marrom escuro ou preto, o ventre é mais claro. Os jovens são mais claros e apresentam 4 a 5 faixas escuras verticais, que se confundem com a cor geral, cada vez mais escura à medida que crescem. Alcança 1,7 m de comprimento total e 50 kg de peso.


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CONHECENDO SANTOS


Na época que minha família morava no Forte Itaipú, Praia Grande, visitar São Vicente era um acontecimento. Santos era uma longínqua cidade grande que raramente ouvíamos falar. Meu pai pescava nas horas de folga e era bem requisitado pelos pescadores que vinham ao forte. Tornou-se uma referência, e serviu de guia para muita gente. O Dr. Derosse*, eminente advogado santista e hoje nome de escola,era um grande amigo da família.Companheiro de pesca de meu pai, Derosse tinha um belo carro cupê bordô, de marca Nash. Cupê é um tipo de carro de duas portas com a cabine mais curva que o sedan e o vidro traseiro quase na vertical. A Nash Motors chegou a ser a quarta fabricante de automóveis dos Estados Unidos,mas hoje não existe mais. As visitas do Derosse eram muito alegres. Sempre sorridente, agitava a casa toda, descia do carro gritando para minha avó “- Dona Nenê e as buratas? Cadê as buratas?”. Todos davam muita risada. Ele entrava em casa, conversava com meu pai e meu avô, tomava um cafezinho feito na hora, me fazia cócegas e saia. Lembro certa ocasião que Dr. Derosse chegou e eu estava envolto em uma toalha, recém-saído do banho, no colo de minha mãe. Derosse me fez tantas cócegas, provocando aquelas explosões de risos que só as crianças conseguem dar. Despedia-se, entrava em seu belo carro, sempre esbajando alegria de viver, voltava para Santos. O assunto sempre eram as pescarias que faziam juntos. Dr. Derosse foi padrinho de crisma de meu irmão. Lembro com saudades de seu sorriso largo, da elegânciano vestir, de sua alegria contagiante. Foi meu primeiro modelo de um santista. Desenvolto, esclarecido, até hoje Dr. Derosse é lembrado com saudades por muitos como um ícone da cidade.

Uma grande amiga de minha mãe, dona Nair, morava na Rua Campos Mello, emSantos e, uma vez por mês a gente viajava desde a Praia Grande, então distrito de São Vicente, para visita e, passávamos o dia, geralmente domingo, na casa desse pessoal.Outras ocasiões a família de Dona Nair ia ao Forte nos visitar. Eles tinham uma filha chamada Yara que era minha grande companheira de brincadeiras infantis. Para mim eram oportunidades mágicas. As pessoas moravam em casarões com quintais. Lembro que, talvez pelo fato de viver em uma espécie de condomínio fechado sem limitações físicas, muros eram novidades para mim. Yara, uns vinte anos depois foi fazer Medicina em Portugal com um grande amigo, Marcino Ferreira Filho, que nadava no Internacional. Dizem que surgiu uma grande paixão entre os dois. Depois de formado, Marcino retornou ao Brasil, foi médico em Cubatão, e faleceu muito jovem. Yaraparece que ficou em Portugal e fez carreira por lá. O que aconteceu não se sabeao certo.

Essas viagens a Santos eram fantásticas para o meu imaginário infantil. Ana Costa, Conselheiro Nébias, Campos Mello, Gonzaga, Boqueirão, Ponta da Praia se tornaram nomes mágicos. Eu ainda não falava corretamente, devia ter uns dois anos, e chamava de “Meu colégio São Jojé”ao passar na frente do São José. Visitas ao Aquário, montar nas estátuas dos leões do Gonzaga, parquinhos de diversão, olhar as palmeiras imperiais da Ana Costa, passear no Jardim da Praia, experiências queme deixavam extasiado e até hoje me trazem doces recordações. Quem foi criança em Santos sabe o que é isso.

Vicentino de coração, acabei sendo “sugado” por essa cidade acolhedora. Estudei no Colégio Canadá, nadei no Internacional, cursei engenharia em Curitiba, andei por todo o Brasil morando e fazendo grandes obras. Tenho amigos nos lugares que passei. Em momento algum sequer imaginei fixar residência em outro canto. Louvada seja Santos, lhe sou eternamente grato.

NOTA DO CALUGAH



*Dr. Derosse José de Oliveira. Advogado que fez carreira brilhante em Santos, sendo também presidente da OAB. Na foto maior ele aparece ao lado de Mansueto Pierotti, na histórica reunião de doação do terreno do São Vicente Atlético Clube, cujos trâmites juridicos foram feitos voluatariamente ao clube.  No seu artigo "São Vicente: História e Memória" publicado no álbum "Poliantéia" em 1982, a narrativa memorial indica que nasceu ou viveu sua infância e juventude em São Vicente. 

31/05/2018


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O CENTRO DE SANTOS: A BIBLIOTECA MUNICIPAL



Ocasiões inesquecíveis de uma infância que adoro recordar. Visitas ao centro de Santos com minha mãe. Sempre moramos na Praia Grande ou em São Vicente. Quando pequeno, uma ou duas vezes por ano íamos ao centro comprar roupas. Minha mãe escolhia vários sapatos e acabava por não comprar nenhum, pois não gostara dos modelos. Após três ou quatro lojas, terminava por comprar. Eu morria de vergonha ver os vendedores ficarem contrariados. Havia uma loja de departamentos em um prédio de três andares, localizado atrás da Prefeitura: eram as Lojas Gomes. Tinha roupa para todas as pessoas, todos os tamanhos e idades. Invariavelmente, após as compras era obrigatório um lanche nas Lojas Americanas, o Mac Donalds da época. Em minha formatura do curso ginasial, minha mãe foi comigo comprar um terno e foi uma ocasião engraçada. Após as Lojas Gomes, seguindo pela Rua General Câmara, havia umas lojas que vendiam ternos. Experimentei vários ternos, como dona Zeny não gostara de nenhum, o vendedor trouxe um modelo em linho puro de cor azul claro. Minha mãe perguntou o preço, o vendedor falou “-Seiscentos”, um valor muito acima dos outros. Minha mandou marcar as bainhas e disse que levaria o terno de linho. Eu ainda tentei dizer a ela que era um absurdo comprar um terno tão caro. Minha mãe não deu bola, mandou embrulhar. O vendedor falou o preço, minha mãe, ficou irritada e brigou dizendo que ela tinha escutado duzentos, após um pequeno barraco, saímos da loja. Sem o terno.

Tempos depois, fui diversas vezes ao centro de Santos, mas sozinho e tenho boas lembranças de Biblioteca Municipal de Santos. Ficava no piso térreo do edifício do Paço Municipal. Era o Pronto Socorro Intelectual dos estudantes, que para lá ocorriam para pesquisar trabalhos de colégio. Você chegava ali com um caderno e uma caneta na mão, uma grande apreensão para conferir se o tema de seu trabalho seria localizado. Subia as escadas do belo edifício do Paço Municipal, ao invés de dois guardas municipais de cara fechada, encontrava um porteiro que indicava a localização da Biblioteca Municipal. Seguia ao lado direito da escada do térreo, dobrava à direita e, à sua direita, por uma linda porta de duas folhas em madeira entalhada, alcançava um verdadeiro santuário da cultura da época. Prateleiras cheias de livros até o teto, você tinha a impressão de ter acessado outro mundo. Uma senhora lhe atendia atrás de um pequeno balcão e gentilmente lhe indicava: “-Cultura Maia? Procure no terceiro nível da prateleira três. Aquela ao lado da porta.” Ou qualquer coisa assim. Lá ia você entrar na História do povo Maia, suas lutas contra os espanhóis, suas lendas e seus reis. Escolhia dois ou três livros muito bem conservados e, com eles, se dirigia a uma das mesas. Lá podia fazer com tranqüilidade a pesquisa, anotar os principais pontos em seu caderno, copiar trechos dos livros, não havia um limite de tempo de permanência. Devolvia os livros no balcão e saia com suas anotações. Após as consultas que fiz à Biblioteca Municipal de Santos, eu tinha o hábito de olhar os títulos e assuntos de livros e muitas vezes pegava um ou outro para ler em uma das mesas. Mas, além dos livros, adorava apreciar as instalações. As prateleiras eram em madeira envernizada, todas iam do piso ao teto, tudo muito bem cuidado. E o silêncio era gritante, sugeria um microcosmo de estudo, cultura, ciência, artes, filosofia que estava aguardando a sua chegada para enriquecer seu espírito. Era como entrar em um mundo acima da escola e do que ensinavam os professores. Na saída, como que brindando a visita a um templo de cultura e retorno à vida real, um lanche nas Lojas Americanas era um prazer indescritível. Um suco de laranja, uma torrada ou um sanduíche, um sorvete de flocos. Comprava um saco de bananinhas de marzipã e saia realizado. Pegava o bonde dois e voltava à São Vicente. Na frente de casa o bonde fazia a curva para sair da Marques de São Vicente e entrar na Avenida Capitão Mór Aguiar, o que obrigava o motorneiro diminuir a velocidade. Eu descia do bonde em movimento e, correndo, entrava em casa. Era muito bom.


30/11/2020

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GUARDANDO CARROS


Houve uma época que, nas férias escolares, eu resolvi ser guardador de carros. Escondido de minha mãe ia para a Praça João Pessoa e aguardava os automóveis estacionarem. Oferecia meus serviços e conseguia ficar olhando um ou outro veículo na esperança de ganhar uns trocados. Sem malandragem,sem brigas, apenas para receber uma gorjeta. Quando o motorista não pagava nada, eu aceitava a negativa e aguardava outro carro. O máximo era cuidar do carro dos Yamauti. Um belíssimo Cadilac Fleetwood preto, pneus com faixas brancas, bancos de couro e direção bege claro, trincos e maçanetas prateados. O vidro das janelas era branco, pois não havia Insufilm, e a gente podia ficar apreciando o interior daquela maravilha. Os quebras-vento, eram acionados por duas pequenas maçanetas e o vidros eram elétricos, que chamávamos de automáticos. O carro era hidramático, freios hidráulicos, maravilhoso. Acho que era o único Cadilac de São Vicente. Seu Yamaúti descia do carro,olhava para aquele moleque e fazia um imperceptível sinal com a cabeça. Era só aguardar que duas ou três horas depois certamente vinha uma paga. Rapidamente minha mãe acabou com minhas pretensões. Ao passar pela Praça, dona Zeny me viu:

-Paulinho que você está fazendo?

-Guardando carros!

-O que? Está louco? Você não precisa disso!

-Mas, mãe...

-Já pra casa!!!

Obedeci e levei umas chineladas. A cena se repetiu e rendeu uma surra de verdade, que acabou com minha nova profissão.

19/12/2020



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ENCONTROS ETÍLICOS-FILOSÓFICOS-LETRÁRIOS-CULTURAIS-DANÇANTES

A laranja voadora.



Essa estória aconteceu na reunião da casa da Eneida. Realizados todos os sábados, os encontros da turma do Clássico, eram marcados por muita cultura, discussões sobre filosofia, literatura, poesia, música, etc. Alguns professores freqüentavam essas reuniões e nós, pobres mortais, curtíamos a sabedorias dos mestres. Totalmente dominadas pela alegria de encontrar amigos, amor à cultura, e entusiasmo de estar no primeiro ano secundário, essas reuniões eram muito prazerosas. Iniciar o secundário, na época, significava para a maioria dos jovens escolherem um curso que era o mais adequado para seus interesses e lhe desse embasamento para uma futura profissão. Muitos faziam testes vocacionais em consultório psicológico para se orientarem na escolha se cursariam o Científico, o Clássico ou o Curso Normal. Os cursos técnicos profissionalizantes eram poucos, como torneiro mecânico no SENAI ou químico industrial nas poucas escolas que ofereciam estas modalidades. Bom, voltemos à casa da Eneida. Regadas a muita cerveja e Cubas Libres, foi servida uma comida pela dona Nancy, mãe da Eneida, seguida de um café. Normalmente após o café era a hora de iniciar os debates e conversas sobre os mais diversos assuntos. Rolavam músicas da época na Sonata, tipo Ray Connif, Jhonny Mathis, Cauby Peixoto, Dick Farney e outros. Benedito resolveu convidar a professora Lídia para dançar e o resto da galera formou uma grande roda ocupando toda a sala. Benedito era uma figura, tinha fotofobia e usava uns óculos de lentes muito escuras e grossas.

Começamos a brincadeira da laranja. Quem iniciava a brincadeira segurava a laranja e durante alguns minutos iniciava a declamar uma poesia ou texto inventado na hora sobre algum tema qualquer. Normalmente os assuntos preferidos amor, saudades, beleza, solidão e coisas do tipo. Assim que o declamador julgava ter falado uma idéia completa, arremessava a laranja para outro participante por ele escolhido e quem recebia a fruta era obrigado a continuar filosofando com a última palavra dita por seu antecessor. Por ser totalmente de improviso e dependente da inspiração de cada um, o tempo de permanência da laranja nas mãos de quem estava falando variava muito e mais imprevisível era a direção na qual a laranja seria arremessada. Benedito dançava com a professora Lídia, musa de vários de seus alunos e presença obrigatória nesses eventos, e era o único casal no meio da sala. A laranja, jogada de um lado para outro da sala, era arremessada tomando-se o cuidado de não atingir os dançarinos. Por diversas Benedito e Lídia se abaixaram ou desviaram do projétil. E jogar a laranja de modo a passar raspando o casal passou a ser uma curtição. Até que o inevitável aconteceu: Benedito foi acertado pela laranja. Abaixou, recolheu a fruta no chão e começou a filosofar: “- Estou tão feliz na companhia de vocês todos, meus amigos. Se o tema é solidão com certeza irei sentir muito a falta desses encontros maravilhosos no futuro. Mas hoje, agora eu quero dançar com minha bela professora, e essa laranja atravessa a sala pra lá e pra cá. Eu vim a essa festa para distrair, não vim filosofar. Chega dessa brincadeira!”. Dizendo isto, atirou a laranja em qualquer direção. A fruta atingiu a janela da sala e quebrou-a. Dona Nancy era a calma personificada e nem se abalou. Mas o clima da reunião terminou ali. Cada um para sua casa.

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CAÇA SUBMARINA EM SÃO VICENTE, ANOS 60


Sempre tive uma forte ligação com o mar e com atividades aquáticas em geral. Em minha primeira infância a maior alegria era ir à Prainha dos Oficiais, no Forte Itaipú. Aos sábados e domingos era sagrado, meus pais e meus irmãos, íamos todos à Prainha e nessas ocasiões eu só saia depois de minha mãe me tirar a força da água. Eu era um garotinho atrevido e lembro de ter passado vários perrengues, quase me afogando. Mas nada me tirou o fascínio que o mar e a água exercem sobre mim. É uma coisa mágica. 

Mudamos para Santo Ângelo, Rio Grande do Sul. No quartel do meu pai haviam inaugurado uma maravilha: uma piscina! Foi aí que dei minhas primeiras braçadas. Comecei saltando nos cantos, indo de uma borda à seguinte, coisa de um metro de distância, e fui aprendendo sozinho dando uma ou duas braçadas e, logo estava nadando coisa de cinco ou seis metros. A piazada (molecada, em gaúches) escapava e ia a um rio que passa próximo da cidade e lá saltávamos de uma árvore na água. 

Anos depois voltamos a São Vicente e aquela atração pelo mar renovou-se. Praticava-se caça submarina no trecho compreendido entre o monumento ao quarto centenário e a Ponte Pênsil. Em pouco tempo, meu irmão Henrique enturmou-se com o pessoal e começou a praticar esse esporte e eu ficava torcendo para ele caçar um grande peixe. Tinha muita caratinga ou carapeba branca, robalo, sargo de beiço, sargo de dente, peixe galo, parú, uma ou outra garoupa, bagre, sororoca, etc. Ouvia-se falar de imensos meros e muita gente dizia que viu cação (tubarões pequenos, segundo a Superinteressante a diferença é que cação é o que a gente come e tubarão é o que come a gente) e como tudo do mar, haviam muitas estórias. 

Lembro de muitos amigos daquela época. Os irmãos Deo (Deuclides) e Jorge moravam na rua XV de Novembro e tinham uma oficina que fabricavam arpões acionados por tiras de borracha, depois aprimorados com tripas de mico (finos tubos de borracha usados para aplicar injeção na veia). Adilson, Saci, Suly Saboia e seu irmão, Carlinhos e Maurilio Valle, Neneto, Barreto, Bayard Umbuzeiro, Eliseu Andrade, David e outros, muitos outros. Bayard, Eliseu, David e Barreto se tornaram grandes mergulhadores e participaram com destaques de vários campeonatos paulistas e brasileiros. 

Enfim, a pesca submarina em São Vicente marcou época e formou bons atletas. Minha turma, todos mais novos que a maioria citada, era uma espécie de baixo clero, a gente ficava ali observando e torcendo para alguém sair da água e emprestar a máscara, o snorkel e o pé de pato. E foi assim que descobrimos uma lucrativa atividade da qual até hoje me culpo: apanhar cavalos marinhos e vender. Éramos uns seis ou sete moleques e poucos haviam conseguido ter o equipamento de mergulho. Nós passávamos as tardes mergulhando, pegávamos os cavalos marinhos, que eram vendidos em uma das barracas montadas em carrocinhas, na Praça da Biquinha, dividia o dinheiro e íamos para casa. Dava para pagar o cigarro, que todos já fumavam, tomar um álcool escondido dos pais. Havia um boteco na rua Martim Afonso, atrás da Igreja Matriz, que o dono vendia bebidas para nossa turma. Lá que eu descobri uma marca de vinho maravilhosa: Sangue de Boi. A gente sentava em uma mesa escondida e tomava algumas garrafas. Haviam umas “travessuras” que hoje seriam impraticáveis sem tomar um tiro da polícia: saltar da Ponte Pênsil, “inspecionar” uns cercados que os pescadores cravavam na maré como armadilha de peixe, e outra pequenas transgressões. 

Passou-se então a usar armas a gás, que a gente chamava de Coca-Cola, por usar um extintor pequeno de CO2 para impulsionar o arpão. Era a mesma coisa que dar um tiro dentro d´água, o peixe não tinha chance de escapar. Tanto que esse tipo de arpão foi proibido de ser usado em competições. Quando meu irmão ingressou na Petrobrás, comprou uma Vespa (uma marca de “scooter” da época) e nas suas folgas íamos em uma turma mergulhar em diversos lugares de nossa região: Perequê, Boracéia, Bertioga, Costão das Tartarugas, etc. Eu gostava muito quando a turma alugava uma catraia na Ponte do Práticos e ia pescar na Ilha das Palmas, Saco do Major, Ponta Grossa, Praia do Góis, etc. Normalmente a catraia levava até determinado local e ia buscar à tarde. Comprávamos pão, mortadela, refrigerantes e passávamos o dia. 

Eram vários colegas de trabalho: Ildo, Panchorra, Stefano Stefanovitch, Tanaka (hoje Tanah Correia, diretor de teatro). Uma turma animada e muito legal. Eu era o mascote e sempre fui bem tratado por todos. Cada uma tinha uma história de vida, mas sempre lembro do Stefano. Polonês, no primeiro salto de paraquedas foi feito prisioneiro. Fugiu e chegou a Paris. Foi “maquis” (integrante da Resistência Francesa) na Segunda Guerra Mundial e contava histórias que só vemos em filmes: explodiu um comboio ferroviário, o portão do Quartel General dos Alemães e outras missões. Eu adoro escutar experiências das pessoas e me deleitava com os casos dele. O Zequinha (José do Carmo Neves, grande e saudoso técnico de natação), promoveu um mês treinamento intenso (um tipo de “workshop”) na piscina do C. R. Tumiarú, no Japuí, em julho de 1960. Foi a oportunidade na qual resolvi ser nadador.


21/02/2019.


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O MISTO QUENTE DO BAR DO ABEL




Todos os dias da semana depois das 19 horas, a galera da Pracinha ia chegando à Praça João Pessoa, em São Vicente, onde hoje está a Vila de São Vicente, em frente à igreja Matriz. Era uma praça com jardins e no centro havia um busto do grande pintor, historiador, fotógrafo, cartógrafo Benedito Calixto, embora denominada João Pessoa, político sobrinho do presidente Epitácio Pessoa, que deu nome à capital da Paraíba. Na realidade a praça era o ponto de referência e local de encontro da turma, independente de horário. O pessoal ficava ali, conversando em pequenos grupos e rolavam os mais variados assuntos. A Praça João Pessoa é ligada à Praça Bernardino de Campos pela Rua Erasmo Schetz. Do outro lado, na mesma direção fica a Rua Henrique Ablas, que termina no sopé do Morro dos Barbosas . A casa da família Del Vecchio fica na esquina desta rua com a praça. Para quem não sabe, o filho mais velho dessa família era o Emmannuelle, vicentino e grande centroavante do Santos e da Seleção Brasileira. Em sua primeira partida profissional, Pelé entrou em campo substituindo Del Vecchio. Bicampeão pelo Santos em 1955 e 1956, jogou no Milan, Napoli, Boca Juniors, São Paulo, Bangu. Foi técnico de diversas equipes. Para nós, era o Meni, simplesmente. Personagem de São Vicente, que, em minha opinião, devia ser mais cultuado. Era genioso, tinha suas convicções, mas era um craque de futebol. Muito merecedor de todas as homenagens, estátuas, etc. Os outros irmãos eram Walter, Winston, Johnny e Frank . Todos bons de bola.

Em frente à casa dos Del Vecchio, do outro lado da rua, ficava o bar do Abel, onde a galera tomava um cafezinho ou um refrigerante. A maioria dos caras mais velhos trabalhava e podia dar-se ao luxo de tomar uma cerveja e comer alguma coisa como uma porção de salame com limão, linguiça calabresa com cebolas. Ao contrário do que ocorre hoje, menor de idade não bebia em bares e não comprava bebidas alcoólicas. Havia uma instituição chamada juizado de Menores que fiscalizava, multava e até fechava as portas de quem vendesse bebidas a menores. Eu, com uns treze ou quatorze anos, quando muito tinha dinheiro para tomar um refrigerante. Na época, não passava em minha cabeça comer fora de casa, a não ser em festas. Tomar café em um bar não tinha sentido. O Bar do Abel tinha balcão de mármore e estava sempre cheio de gente, muitos de nossa turma. Abel era um português simpático que atendia a todos e participava de muitas conversas com os clientes. Vez ou outra se irritava com alguém e dava uma dura no freguês. Mas, em minha memória, tudo que cozinhava era muito saboroso. Até que um dia ouvi o Osvaldo Assunto pedir um misto quente. Não dei muita bola, mas quando senti o cheiro do queijo prato derretendo na chapa fiquei prestando na feitura do lanche. Abel colocava uma generosa porção de grossas fatias que ele mesmo cortava de uma grande peça, jogava na chapa e ficava virando ate começar a derreter. Ao lado colocava um monte de presunto e virava alternadamente com as fatias de queijo. Pouco antes de ficar pronto, cortava um pão francês e o aquecia na chapa. Com a espátula, colocava o presunto quente na porção inferior do pão e, por cima, o queijo prato derretido. Assentava a metade superior do pão, prensava tudo e cortava em diagonal com a espátula. Usando a mesma ferramenta, colocava o sanduíche no prato. Trago até hoje na memória a visão daquele lanche com o queijo escorrendo pelas bordas, o presunto meio cozido e o pãozinho francês brilhando da gordura da espátula. Era comer, lamber os beiços e catar o queijo derretido que ficava no prato. Até hoje sou apaixonado por café com leite. Outra coisa inigualável era o pingado do bar do Abel.
“Comecei a apanhar cavalos marinhos para vender nas barracas de ‘Lembrança de São Vicente” e passei a andar “abonado”, quer dizer com dinheiro. Final de noite, sentava numa mesa encostada a uma parede e gritava “-Abel um misto quente e um pingado!” “-Já vai!”, respondia o português. Abel colocava o pedido no balcão, eu levava até a mesa, sentava e degustava aquela delícia. Era a glória.


26/02/2018


P.S.: Anos depois, entro em uma padaria próxima à Praia de Pernambuco, em Guarujá. O dono era o Abel, já mais velho. Reconheceu-me, conversamos bastante, perguntou de vários amigos do tempo da Pracinha. Onde estiver, que Deus o proteja.




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CAPITÃO MÓR AGUIAR, ESQUINA MARQUES DE SÃO VICENTE



Meu pai havia adquirido o armazém “Ao Barateiro” do Sr. Abel Zeitoune, na esquina da Avenida Capitão Mór Aguiar com a Rua Marques de São Vicente, em 1962. O imóvel era um sobrado, na frente ficava o armazém e atrás era uma boa casa com dois quartos, sala, cozinha, banheiro, um pequeno quintal e uma garagem que servia de depósito dos produtos. Havia um portão ao fundo no lado da Mór Aguiar para acesso dos moradores. E minha família foi morar lá. Após nossa casa, na Mór Aguiar haviam três sobrados conjugados. Imediatamente aos fundos, no primeiro sobrado, morava a família carioca do Sr. João Chrisostomo, que trabalhava na Fronape como Imediato, um cargo importante. No sobrado do meio morava o Wilson Canalonga, renomado alfaiate, exclusivo dos jogadores do Santos Futebol Clube e da elite de Santos e São Vicente, casado com Éster, filha do Pastor Brígido, o casal tinha dois filhos. O terceiro sobrado era do Major Eduardo Falcão e de sua esposa Landa, gaúcha de boa cepa, com o filho Eduardo (Duda), as filhas Ingrid (“Guiga), Cristina e Rogério, na época um bebê. Anos depois, em 1967, nasceria o Charlinho, hoje diretor de teatro e criador de grandes musicais, de nome artístico Charles Möeller. O armazém tinha um triciclo com carroceria para fazer as entregas das compras. Foi uma mudança em nossa vida, pois passamos a ser vistos como sendo a família da “venda do seu Miorim”. Era uma época que havia fregueses de caderneta. A pessoa escolhia o que precisava e a gente anotava na caderneta. Final do mês, meu pai somava o valor que o freguês comprara e apresentava “a conta” para o cliente. Lembro de alguns acontecimentos interessantes. As famílias faziam compras para o mês inteiro, o que me obrigava a entregar em domicílios. Colocava as compras no triciclo e pedalava por S. Vicente levando os produtos adquiridos. Em uma das entregas, havia na casa uma ninhada de cães da raça Tenerife, uma espécie de Bichon-Frizé. Eram pequenas bolas de pêlos e o dona da casa me deu um de presente. Escolhi o mais lindo, coloquei no triciclo e levei para casa. Fiapo foi um dos mais queridos cachorros que tive. Só latia furiosamente quando alguém saia de casa, os estranhos podiam entrar sem problema.

Meu pai fechou um contrato de representante da Kibon (Sorvex Kibon, era o nome fantasia), e instalou um grande frízer no armazém. Passei a comer muito sorvete e meu pai teve prejuízo, acabando por desfazer a parceria. Mas foi muito bom enquanto durou. Chegava do treino de natação, almoçava e a sobremesa era um “tijolo” Kibon. Era Chica Bon o dia todo.
Eu precisava fazer cursinho vestibular para engenharia, pois o meu modelo era meu tio Leonel, engenheiro civil. Cursar escola paga era um tabu em casa, todos criticavam o Ateneu São Vicente por sua qualidade de ensino. Falei com meu pai sobre o assunto. A princípio ele não concordou, mas após uma longa negociação acordamos que ele pagaria o cursinho, mas eu teria que abrir a venda todos os dias às sete horas da manhã. Cada um cumpriu seu compromisso e entrei no curso Engo, que ficava no início Av. Ana Costa 32, próximo ao centro de Santos. Como as memórias importantes ficam em nossa mente, lembro do número do Engo sem consultar Google Maps! Junto ao Engo e do mesmo proprietário, Jorge Carlos Nóbrega, havia o Curso Med-On destinado aos pretendentes a cursar Medicina ou Odontologia.

Matriculei-me a tarde, minhas aulas começavam às quatorze horas e se estendiam até às 18 horas. Saia do Engo, eu e meu amigo Satoru Kubo, que morava em Cubatão, íamos a pé ao Colégio Canadá, conversando. Satoru era inteligente e a conversa fluía bem.

Essa experiência de abrir o armazém todos os dias, embora um pouco sacrificada por chegar do Canadá depois de meia noite e acordar às seis para cumprir o trato com meu pai revelou-se gratificante.
Depois conto mais.

28/02/2021


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ABRINDO A VENDA


A experiência de abrir a “venda” do meu pai todos os dias às 07h00minhrs da manhã revelou-se muito interessante. Considero-me tímido e, adolescente, era muito mais. Timidez, a meu ver, nem sempre significa calar-se ou ocultar suas opiniões. Mais que isso, é uma espécie de autocensura das palavras que percorrem o caminho do cérebro até as cordas vocais e, no momento de emitir sua opinião, você engole o que iria falar. Nesse momento, o ato de suprimir suas palavras chega a doer fisicamente, como um alimento que desce atravessado. Esse desconforto tem como conseqüência outros juízos deglutidos, e o tímido vai se calando ante muitas situações nas quais sua opinião seria fundamental como contribuição para realmente resolver sérios problemas, evitar situações muitas vezes desastrosas sem possibilidade de retorno. E o momento perdido não volta, tanto nos relacionamentos quanto na vida prática. Pior ainda é sensação de reconhecer que devia ter se pronunciado. Esse “material” desce goela abaixo e incomoda, às vezes pela vida toda. Em contrapartida, os que falam demais acabam falando bobagens. Portanto, reconhecer quando falar e quando calar é imprescindível.

E a venda do meu pai, que tem a ver com isso? Abrir as portas de enrolar era, a cada dia, uma nova experiência, como se eu transitasse da escuridão para a luz. O interior do armazém era escuro e, em cada uma das três portas, a claridade ia entrando. Eu me expunha ao mundo exterior e ficava imaginando a visão de quem estivesse do lado de fora. Uma porta subir e aparecer uma pessoa, de repente, com aquele bastão com um gancho na extremidade e atrás dela, um balcão, prateleiras, e, sobre um estrado, sacos de aniagem com variedades de feijão, arroz, farinha, fubá, milho, etc. Havia um local azulejado para insumos de feijoada, com carnes salgadas, toucinho (hoje só se fala bacon, beicon). Alguns rolos de fumo de corda, um armário de madeira envidraçado com doces e balas, prateleiras cheias de latas de conserva com salsichas, palmito, pêssegos, figos, leite condensado e muitos outros produtos. Vendíamos também bebidas: cachaças Cavalinho e Tatuzinho, conhaque Dreher, vinho São Tomé, cervejas Brahma e Antártica, Malzbier, refrigerantes como Guaraná da Brahma e da Antártica, Coca Cola, Pepsi Cola, Crush, Grapete, soda gaseificada para tomar com uísque e outros produtos. E lá estava eu a disposição da freguesia, em uma exposição pública que, aos poucos, fui me acostumando.
De manhã, na frente da venda passavam as mocinhas do Colégio Nações Unidas, do conhecido Professor Carlinhos. Vinham em grupos, alegres, e me transmitiam uma sensação de fé no futuro, de paz, mesmo com sua falação própria da idade. Eu conhecia muitas delas e as cumprimentava. Uma ou outra entrava para comprar chiclete Adams ou Ping Pong, bala, “Drops Dulcora, embalados um a um”, Maria mole, paçoquinha, cigarrinhos de chocolate, suspiros coloridos, pirulito de bananada, chocolate Teta de Nega, pés de moleque da Bela Vista, balas Toffe e muitas outras guloseimas. Ás vezes assistia minha querida amiga Vera Gil, moradora do outro lado da rua, sair apressada para a escola, com seu impecável uniforme do Martim Afonso, muito séria, acenava para sua mãe que estava na janela, e seguia para suas aulas. Aprendi a lidar com muitas pessoas, que prometo contar em outra estória.
21/03/2021

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BAILES E REUNIÕES DANÇANTES NO TUMIARÚ



 Na década de 60, aos sábados à noite realizavam-se reuniões dançantes no Clube de Regatas Tumiarú, em São Vicente.  Era o clube mais tradicional da cidade, localizado na Praça do Correio. Joguei basquete e nadei pelo Tumiarú, era frequentador assíduo. Servia de ponto de reunião da moçada da época e supria a falta de opções que a cidade oferecia. Durante a semana, não tinha o que fazer? Vamos ao Tumiarú. Queria ver bons jogos de vôlei, basquete, futebol de salão? Era no Tumiarú que aconteciam. Na maioria das vezes reuniam-se vários amigos e formava-se uma roda de bate papo que ia noite adentro. Havia, como em todo clube, várias turminhas e inúmeros casamentos aconteceram em decorrênciadessas conversas.  Era um primeiro papo, depois aconteciam as conversas em separado, e, tempos depois as pessoas apareciam de mãos dadas, já eram namorados. Dois ou mais anos passados, o que havia começado por uma troca de olhares e um bate papo virava coisa séria e formava-se uma família. Muitos e muitos casais se conheceram no Tumiarú. As reuniões dançantes começavam às 8:00 da noite e se estendiam atémeia noite. Eram realizadas a meia luz, às vezes com conjuntos musicais, outras na base do toca disco. As moças ficavam de um lado e os rapazes de outro. Era um ambiente meio que intimista, parecia uma reunião familiar. E rolava muita fofoca e trocas de informações sobre os moços e as moças. Havia uma aura de expectativa no ar, quem sabe seela ou ele aceite dançar comigo ou me convide para dançar.

Os bailes eram diferentes das reuniões. Aconteciam no pavimento superior, no salão destinado a eventos importantes como formaturas, apresentações e shows musicais. Em muitos bailes era obrigatório “passeio completo”, os meninos vestindo terno e gravata e as meninas com vestidos vistosos, maquiadas, cabelos armados com laquê e andando empertigadas como se estivessem desfilando, com um ar solene.  Na época, haviam uns dois ou três conjuntos musicais e orquestras  que dominavam o mercado dos bailes e reuniões. Lembro do Betinho do Vibrafone, do Modern Tropical Quintet, Blow Up, Oscar Guzella, Tambores Mágicos do Caribe, Show Musical New Zago, e outros. Nos intervalos entre seleções musicais, um papo na varanda e voltava-se para dançar. Os rapazes tomavam cuba libre e fumavam cigarros Minister, Hollywwod, Luís XV. Muitos ficavam na varanda bebendo.

De vez em quando, saia um atrito, uma briga. Eu nadava no Internacional e estudava no Colégio Canadá, tinha muitos amigos em Santos e em São Vicente.  Certa noite cheguei ao Canadá e encontrei um amigo descendente de árabes com olho roxo. Perguntei o que havia acontecido e me contou que havia tomado uma surra em uma reunião em São Vicente. Tinha perdido até o sapato na confusão. Foi paquerar no Tumiarú e o pessoaldo clube o expulsou do baile. Uma lembrança marcante que tenho é do Luiz Sérgio Domingues Mendes, grande amigo que partiu há tempos.  Sempre o encontrava nos bailes e reuniões musicais. Muito boa pinta, bom de papo, aonde chegava provocava atenção das mulheres. A gente ficava batendo um papo, ambos fumando e bebendo. Tínhamos um acordo tácito: não comentar sobre esses bailes nos treinos, nadador não podia fumar e beber. Sempre obedeci a esse acerto.

Certo sábado, chego ao Tumiarú e estava rolando um stress pesado. Os meus amigos do clube discutindo com o Luís Sérgio. O saudoso Juneca, que adorava uma encrenca,  era o mais exaltado, falava alto na frente do Luís Sérgio, ameaçando bater e dizendo para ele sumir do Tumiarú senão ia apanhar, etc..  Luís Sérgio, com a maior calma e educação explicava que estava me esperando e que não queria confusão. Para ilustrar quem era o meu amigo conto o seguinte: Luís Sérgio havia sido criado no Macuco, bairro pesado de Santos na época, bom de briga, e não estava intimidado, mas realmente a fim de dançar (dançava muito). Com minha chegada as coisas se acalmaram, meus amigos vicentinos pararam de instigar o Juneca. Para resolver o assunto sugeri que os dois conversassem na esquina da Benjamin Constant e assim fizeram. Passados uns dez minutos fui até o local e encontrei os dois conversando amigavelmente. Voltamos ao salão para dançar

Paulo Miorim.  

  

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A ÉPOCA DOS BOYS DE SÃO VICENTE



Em São Vicente, lá pela década de 60, a onda era ser “boy”. Ser boy era ser avançado, ousado, bom de porrada, bom de copo e, principalmente, ser um conquistador de sucesso com a “mina”. E precisava ter muitos outros predicados para realmente ser BOY!  Roupas de última moda, dançar bem, ter um grande repertório de gracinhas para falar nas orelhas da mina e, supremo atributo, ter um carro. Ou seja, boy verdadeiro tinha muito pouco. Mas, ser boy era, antes de tudo, um estado de espírito. Podia ser pobre, remediado, classe média, rico, etc., o negócio era posar de boy, fazer cara de boy, falar que nem boy, desafiar as pessoas como boy. Quanto mais superficial melhor, quanto mais diferente melhor ainda.

Eu olhava aqueles adolescentes querendo ser boy e ficava pensando por que eu não tinha a mínima aptidão ou vontade de ser boy. Minha turma curtia bossa nova, uísque, cuba libre, papos madrugadas adentro. Nossas preocupações eram bem diferentes de querer ser boy. Éramos observadores dos boys. Alguns amigos de infância, tanto da Pracinha como do Tumiarú se tornaram boys. Que eu me lembre, o Luiz Guapo, meu querido amigo Lica tornou-se boy e andava com um boy de verdade, o Arturzinho. Esse sim tinha carrões, família rica, ar de aristocrata, era gente muito boa. Outros que eu lembro: Paulo Cesar Batatinha, Monstrinho, Miguel Bola, Cuca, Jerônimo, gêmeos Mapa do Inferno (não faço a mínima ideia dos nomes), Verdi, Edgar Mil Milhas e outros, muitos outros. Edgar Mil Milhas era o apelido do Edgar de Mello Filho, que viria a ser administrador de Interlagos por muitos anos.

Foi uma época divertida, nada monótona.  Apareciam novidades a toda hora: fulano bateu o carro do pai, capotou o carro do amigo, começou a namorar fulana, brigou e bateu, brigou e apanhou. Nunca escutei dos boys que alguém havia se formado, ou iniciado a trabalhar, ou casado. Esses comentários não pegavam bem para um boy. Mas, os boys eram, de modo geral, amigos que haviam adotado esse comportamento, não eram maus, bem diferentes dos bad boys de hoje. Poucos eram violentos e ou consumiam drogas. Era um porre aqui, uma briga ali. Muitas festas, bailes, rachas de carros (a maioria com carro dos pais). Uma parte engraçada desse estado de espírito era os caras que queriam serem boys a qualquer custo, mas não entendiam a essência da coisa. Idolatravam os amigos boys, imitavam o comportamento deles mesmo se expondo ao ridículo. E os boys não perdoavam: faziam gozações impiedosas, inventavam brincadeiras de mau gosto e davam muitas broncas nos seus seguidores.

Lembro-me de algumas malvadezas. Um desses idolatrados combinou com dois desses falsos boys que iriam viajar às cinco horas da manhã e que iria apanhá-los em frente ao Restaurante Gáudio, principal reduto dos boys vicentinos. O detalhe era que todos iriam de sunga (na época calção de banho), descalços, sem camisa, em pleno inverno. De madrugada estavam os dois esperando ansiosos pelo boy, que nunca passou. Um frio intenso e os bobões de sunga. Ficaram lá até umas oito horas. Pior que acharam legal a brincadeira, coisa de boy. No pátio lateral do Gáudio ficava uma galera, conversando até altas horas da noite. Rolavam muitas gozações, combinavam-se novos programas. Certa noite um dos boys disse que havia aprendido uma nova brincadeira com o pessoal da rua Augusta, capital mundial dos boys, o que despertou interesse geral. Começamos (nessa ocasião eu estava lá) imediatamente a montar o esquema. Formou-se uma grande roda, e o líder dizia uma parte do rosto e passava o dedo no local citado no participante do seu lado. “Sobrancelha!” disse o líder e passou o dedo na sobrancelha do cara ao lado, que por sua vez passou adiante o gesto. Completada a roda, o líder falava, por exemplo, “Bigode!” e passava o dedo no buço do parceiro e a roda girava novamente. Aparentemente idiota esse jogo, mas um detalhe gerou ataques de riso em toda turma. De propósito, um dos boys se posicionara ao lado de um desses falsos não boys. No bolso, uma rolha queimada. A cada volta o camarada passava a o dedo na rolha e, com o dedo preto de carvão, marcava a cara da vítima.  Na terceira ou quarta volta o infeliz estava com o rosto cheio de marcas pretas e ria para acompanhar os demais, sem saber que estavam rindo dele. Quase acabou em briga. Lavada a cara, a conversa continuou.

Participei de alguns rachas no Canal 6, em Santos, como passageiro do saudoso amigo Gregório Stipanich, que pilotava uma Rural Villas. Lá pela meia noite, uma imensa quantidade de carros estacionava e começava um barulho intenso. O ronco dos motores de escapamento aberto, os boys combinavam o percurso, geralmente até o encontro da Av. Conselheiro Nébias com a praia e retornando até o canal seis, e partiam acelerando violentamente. Até chegar a polícia e acabar com a brincadeira irresponsável.

Confesso que fui um pouco boy.


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GUARIÚMA


A Turma da Pracinha tinha alguns locais de pescar e caçar, como muitos dos anos 50/60. Pescar era no costão de Itaquitanduva. Para nós, usuários frequentes, Quitanduva. Caçar e acampar era em um lugar longínquo, no meio da densa Mata Atlântica, próximo ao sopé da Serra do Mar, chamado Guariúma. Minha turma era a ala dos mais novos e ficávamos escutando as aventuras dos caras mais velhos que contavam mil estórias sobre animais que habitavam a mata, algumas horripilantes de vultos vistos na floresta, cobras, aranhas e uma infinidade de comentários sobre as incursões. A Cachoeira do Guariúma fica no sopé da Serra do Mar, hoje pertence oficialmente ao Bairro Jardim Melvi, município de Praia Grande e faz parte do Parque Estadual da Serra do Mar. Existem trilhas definidas, estrada de terra, pontes de madeira para pedestres, placas de sinalização. Ou seja, não possui o encanto de sessenta anos atrás.

De tanto ouvir falar nesse tal Guariúma, resolvemos conhecer esse local encantado. Se não me falha a memória , o único de nossa turma que já havia ido era o Luiz Victor Lopes, seu irmão Célio o havia levado em uma dessas aventuras. Foi nosso guia pelos caminhos da mata. Embarcamos cedo no trem do extinto ramal Santos-Juquiá, e, se não me engano, descíamos na Estação de Solemar ou Pedro Taques. Seguimos mata adentro uns 5 ou 6 quilômetros, por trilhas pouco conhecidas, até as proximidades da Cachoeira, onde havia um rancho abandonado, que servia de abrigo onde nossos amigos mais velhos utilizavam como pousada. Para alimentação, cada um levara um pão com qualquer coisa, o importante era ser grande para forrar a barriga o dia inteiro. Uns levaram bisnagas, equivalente a três pães franceses e outros um pão maior chamado de filão, que sumiu das padarias há tempos. Se as mães imaginassem onde estávamos seria um pandemônio seguido certamente uma boa surra de cinta.

Passamos um dia inesquecível. Meia dúzia de moleques de 12 a 13 anos embrenhados na mata em uma época que não existia celular, GPS, sem avisar as mães, em um lugar que pouca gente conhecia. Pudemos admirar aquele universo verde com poucos raios de luz, tomar banho de cachoeira, comer coquinho brejauva, e outras guloseimas que que a mata nos dava. Sem monitor, sem ninguém para atrapalhar nossa aventura.

Final do dia, exaustos e felizes, voltamos para São Vicente. Cada um para sua casa, sem comentar onde havia ido. Aliás, essa é primeira vez que conto essa experiência.

Paulo Miorim
24/09/2018