terça-feira, 15 de março de 2016

O CLUBE DE REGATAS TUMYARU





"A história do Clube de Regatas Tumiaru data de uma época em que São Vicente era considerada apenas cidade de estilo colonial. O turista ainda não havia descoberto seus encantos e apenas jovens aqui radicados tomavam conta das praias, sem que houvesse uma entidade recreativa onde fossem proporcionados momentos alegres de estreito convívio da coletividade. 

Assim, um animado grupo de rapazes, imbuído de ardente vontade, resolveu fundar uma agremiação náutica, a fim de possibilitar sua participação nas regatas disputadas em Santos, entre os clubes de regatas Santista, Internacional de Regatas e Saldanha da Gama, agremiações que ainda hoje, como a entidade calunga, ostentam respeitável patrimônio histórico e esportivo. 

Com essa finalidade, reuniram-se na manhã de 22 de dezembro de 1905, segundo consta, em local onde funcionava o antigo rinque de patinação vicentino, os srs. Salvador Malaquias Leal, Manoel Geraldo Forjaz Júnior, Manoel da Costa, Mário da Cunha Nogueira, Gaspar Manga, Henrique Wright, Luiz Hourneaux, Leopoldo Magalhães de Matos, João da Silva Santos, Bloen Martins e Olegário Herculano Alves. Foi aclamado para presidir os trabalhos o sr. Mário da Cunha Nogueira, que convidou para secretários os srs. Antero Bloen Martins e Manoel Geraldo Forjaz Júnior. Estava assim fundada a primeira agremiação esportiva de São Vicente. 

Segundo proposta do sr. Salvador Malaquias Leal, foi escolhida a denominação da sociedade: Clube de Regatas Tumiaru, homenagem ao local onde iria ser erguida a sua primeira sede, no porto de São Vicente, que naquela época era assim denominado. 

Quanto ao vocábulo Tumiaru, existe uma controvérsia entre historiadores, não sendo até hoje conhecida ao certo sua origem. Alguns afirmam ser "nome antigo e tradicional de nossa toponímia dos tempos de colonização. Era designativo da zona fronteira à ilha de São Vicente". No entanto, nenhum estudioso afirmou ao certo a origem da denominação daquela área compreendida na Vila de São Vicente. 

A primeira sede do clube foi inaugurada no ano de 1906, por ocasião do primeiro aniversário, sendo construída pelos próprios fundadores, em local próximo à cabeceira da Ponte Pênsil, do lado da ilha. 

Ali esteve sediado o Clube de Regatas Tumiaru até o ano de 1931, quando foi constrangido a transferir sua garagem de barcos para outro local, após atravessar diversas crises financeiras. 

Assim, em 1932, quando se comemorava o IV Centenário da fundação da cidade, outro grupo de jovens, cuja maioria ainda pertence ao quadro associativo tumiaruense, inaugurou a sede do Japuí, hoje transformada em instalações de campo e recreativas da entidade, onde está construída a primeira piscina oficial de São Vicente. 

Depois disso, ante o surgimento de novas crises financeiras, o Tumiaru esteve prestes a desaparecer. Todavia, o trabalho hercúleo do mesmo grupo de sócios abnegados conseguiu, em 1939, adquirir um terreno na Praça Coronel Lopes, onde foi construída a quadra de bola-ao-cesto. Mais dez anos se passaram e o alvinegro calunga sentiu necessidade de ampliar suas instalações, adquirindo, então, o terreno anexo, que faz esquina com a Rua Expedicionários Vicentinos. 

Dessa época até nossos dias, o Tumiaru foi crescendo satisfatoriamente e galgando a esplêndida linha de progresso que hoje todos conhecem. 

Construída a sede social, as instalações esportivas passaram a ser criadas e ampliadas, transformando a antiga agremiação do Japuí em expressiva força no esporte da Baixada Santista e de todo o Estado de São Paulo. 

Enumerar os feitos esportivos tumiaruenses é tarefa desnecessária. No entanto, seria injustiça não rememorar o reide São Vicente-Buenos Aires, efetuado em 1934, pelos remadores Antonio Rocha e José Ferreira de Andrade, no barco Bandeirantes. Essa a maior vitória obtida pelo Tumiaru, secundada por muitas outras, dentre elas a de Wlamir Marques, esportista militante nos quadros de bola-ao-cesto do alvinegro calunga, que inscreveu o nome do clube vicentino no plantel sulamericano e mundial." (A Tribuna, 22 de dezembro de 1960 ) 

Esportes - Depois do remo, foi para a natação. O polo aquático foi, igualmente, introduzido, trazendo para o clube vicentino inúmeras glórias e projetando entre outros: Rui Ribeiro Rato, Olimpio Azevedo Filho, Luiz Martins Viana, Irany de Carvalho, Gilberto Jordão Ribeiro, Saulo de Castro Bicudo, Ari Gardon, Gastão Moreira do Amaral, Alberto Junior, Durval Martins Duarte e José do Carmo Neves Filho como seus maiores valores. 

Nessa modalidade conquistou o título de vice-campeão dos Jogos Abertos do Interior de 1939. Mais tarde, surgiram novos valores como: Silvio A. de Castro, Irineu de Carvalho, Lauro Azevedo, Edison Teles de Azevedo Filho, Pedro Corvelo, Francisco Schneider, Armando Lichti Filho e outros. 

Em sua galeria de campeões destaca-se as figuras de Vilibaldo Mello Leite, campeão brasileiro de natação - 1952; Isabel Ribeiro Morais e Silva, campeã brasileira de natação; Wlamir Marques, vice-campeão mundial de bola ao cesto - 1954; Noé P. Vaz, campeão brasileiro de 1952, modalidade bola ao cesto juvenil e Milton Almeida, campeão brasileiro de 1953, na mesma modalidade. 

Hino - Adamastor F. Pereira compôs para o clube a marcha "Tumiaru", hino oficial da agremiação vicentina (Polianteia) 


O TUMIARÚ E OS FEITOS VICENTINOS 


O Clube de Regatas Tumiarú foi o fundador da Federaçao Paulista das Sociedades de Remo. O Remo nasceu em São Vicente através de dois grupos que tinha dois barcos: a turma do “Marina”, que formada por por Olimpio Azevedo, Antonio Militão Júnior, Luix Horneux e Adauto Félix de Lima; e a equipe do “Jurema”, compostas pelos irmãos Manoel e José Leite Forjaz e um grupo de amigos. Foram esses homens que tendo o o capitão-tenente Theodureto Souto (foto) como líder, fundaram o Tumiáru em 1905. Em 1907 foi fundada a Federação Paulista das Sociedades de Remo. O primeiro presidente e idealizador da federação foi o capitão-tenente Theodureto Souto. O Tumiaru deu mais dois presidentes para a federação, que foram: José do Carmo Neves e Walter Amaral. A primeira regata Oficial realizada em São Vicente, foi em 1907, na qual o Tumiaru foi o vice-campeão. As guarnições tumiaruenses foram formadas dentre outros por Artur Ratto, Nestor Moura, Almiro Rodrigues, Hermano Câmara, Luiz Horneux, Armando Plácido Trigo e Guilherme Emmerch. O primeiro grande feito do Tumiaru foi o primeiro “ride” inter-estadual São Vicente-Rio de janeiro. A saída deu-se em São Vicente, no Japuí, no dia 25 de fevereiro de 1933 e a chegada no Rio de Janeiro, na rampa do Clube de Regatas Flamengo, no dia 13 de março de 1933. Essa conquista foi realizada no canoé “Itararé”, pelo remador Antônio Rocha. O maior feito de remo do mundo, que se tem notícia, foi o “ride” São Vicente-Buenos Aires, feito pelos remadores Antonio Rocha e José Ferreira Andrade. Foi feito no duble-canoé “Bandeirantes”, no período de 2 de abrail de 1924 a 21 de outubro do mesmo ano, com saída do Jaupuí e chegad em Buenos Aires, na rampa do Clube de Regatas “La Marina”. 

(...) Durante todos os anos em que os barcos do Tumiaru iam para a “Raia” do Valongo, Ponta da Praia, São Vicente e São Paulo (Tietê), o “patrão” sempre foi Dídimo de Souza Santos... 

C.R. TUMIARU EM 1944 


NO CLUBE DE REGATAS TUMIARU - O Clube de Regatas Tumiaru, de São Vicente, está revivendo suas fases de brilhante atividade esportiva e social, realizando belas reuniões, que têm assinalado o maior êxito. Os clichês que publicamos representam aspectos apanhados durante uma das últimas festas na sede do querido grêmio vicentino, atualmente dirigido por esportistas como Jorge Elbel e Francisco Sá Júnior, que tudo vêm fazendo pelo progresso do Tumiaru" 

Fotos e legenda: revista Flama, maio de 1944 (ano XXIII, nº 5) 




"Fotografia tirada na sede do Clube de Regatas Tumiaru, de São Vicente, no dia 18, após o almoço que os cronistas esportivos ofereceram à diretoria do querido grêmio calunga" 



A cooperação de São Vicente aos esportes de Santos 


S. Vicente e Chanteclér, nos tempos antigos - Hoje, muito entusiasmo, muita vibração - O Tumiaru, o clube mais antigo da terra de Martim Afonso de Sousa - um legítimo patrimônio de glórias 

Por José do Carmo Neves 

Não andaram com acerto, prezados amigos da A Tribuna, querendo de mim algumas linhas sobre a cooperação de minha terra - o município de São Vicente - aos esportes da bela Santos, sua comarca. Faltam-me forças para corresponder à exigência de tão alta missão, que encontraria por certo em outro conterrâneo meu quem a cumprisse com maior brilho e mais elevação. Só mesmo um acontecimento todo excepcional, que constitui motivo de grande júbilo, é que poderia me obrigar a consentir que se apagasse de mim o pessimismo. Triunfou a ordem dos meus bons Amigos, porque com ela me é proporcionada a gratíssima oportunidade de falar dos esportes de minha terra e, ao mesmo tempo, de saudar A Tribuna, na data festiva de seu jubileu. 

Venho dizer, numa sincera efusão de simpatia, que A Tribuna é para os vicentinos, tanto quanto para os santistas, um clarão que durante meio século vem iluminando todos os recantos por onde passa. Jornal que nasceu com a cidade em plena formação, com ela progride e como ela se renova, aperfeiçoando-se e sempre se distinguindo no cenário da boa imprensa brasileira. Sua existência, toda dedicada a recolher os mil aspectos da vida para logo depois transmiti-los aos milhares de seus leitores, tem sido sempre venerada porque só tem sido vivida para simbolizar o bem! E nós, os que mourejamos nos esportes, temos sido pródiga e fidalgamente aquinhoados. Constitui, portanto, motivo de imenso prazer o encontrarmos oportunidade para manifestar de público o nosso profundo reconhecimento pelo muito que de bem ela nos tem feito. 

Enobrecido pela grande e imerecida distinção que me foi conferida, vou procurar dizer aos caríssimos leitores da A Tribuna qual tem sido a cooperação de minha terra aos esportes de Santos. 

Começando pelo futebol, esporte que se tornou o mais popular de nossa Pátria, preciso voltar aos belos tempos em que o nosso glorioso São Vicente Atlético Clube só nos enchia de orgulho, levando aos gramados santistas o seu "onze" valoroso e muitas vezes vencedor. 

O clube de Armando Trigo foi fundador da extinta Associação Santista de Esportes Atléticos, entidade que era na época a dirigente do futebol amador de Santos. Pouco depois, fundava-se em São Vicente o Chantecler Futebol Clube, outro grande colaborador incansável e que sob a orientação de Francisco Sá, levava aos campos de Santos a sua turma disciplinada e forte, emprestando aos campeonatos oficiais santistas o mesmo brilho e o mesmo concurso do seu companheiro de lutas, o São Vicente Atlético Clube. Hoje, o futebol amador da terra de Martim Afonso tem sua entidade própria, e seu campeonato oficial, disputado por clubes de valor, como o Beira Mar, União, Feitiço, Beija Flor, Itararé etc., cujos quadros se unem com os dos clubes de Santos em jogos amistosos e festas civis, comemorativas e de beneficência. 

Passando para os esportes aquáticos, evoco as saudosas tardes domingueiras em que o Valongo se engalanava para receber festivamente as delegações dos clubes paulistas e, muitas vezes, os cariocas e nortistas que aqui vinham disputar com santistas e vicentinos as mais lindas regatas que ainda hoje são lembradas com vibração e entusiasmo. Embarcações de todos os tipos, remadas valentemente por atletas de fibra, singravam as águas do nosso belo estuário, em porfia leal e vigorosa, na ânsia de darem ao pavilhão de seu clube a palma da vitória. A bordo de rebocadores ou de grandes lanchas, reuniam-se as nossas famílias em verdadeiras festas de requintada elegância, nas quais imperavam a mais perfeita sociabilidade e a mais legítima esportividade. 

Assistia-se à disputa dos páreos e cumprimentava-se o vencedor com a mesma alegria e a mesma satisfação com que se dançava nos intervalos das corridas. Azulões, Papagaios, Vermelhinhos, Calungas e Vascaínos, unidos e coesos, completavam o sucesso dessas memoráveis festas que tanta saudade nos trazem. 

E ao evocar esses belos feitos do remo santista, sinto-me levado ao Japuí, àquele lindo recanto banhado pelas águas tranqüilas do Mar Pequeno, onde o Clube de Regatas Tumiaru mantém suas principais instalações. O Tumiaru é, presentemente, o clube mais antigo de S. Vicente. Foi fundado a 22 de dezembro de 1905 e vem desde essa data prestando seu inteiro e incondicional apoio a todas as boas iniciativas do esporte santista. 

No remo é fundador da extinta Federação Paulista das Sociedades do Remo, que teve como seu primeiro presidente o saudoso Teodureto Souto, oficial distinto da Marinha Brasileira e grande incentivador dos esportes aquáticos em nosso Estado. É igualmente, fundador da atual Federação do Remo do Estado de São Paulo, à qual continua filiado. 

Em natação e pólo-aquático, é também fundador da Federação Paulista de Natação e da Liga Santista de Esportes Aquáticos, das quais é membro efetivo e disputante dos campeonatos oficiais pelas mesmas patrocinados. 

É ainda fundador da Liga Santista de Basketball, a cujo quadro pertence, e, finalmente, filiado à Liga Santista de Voleibol. Nestas duas últimas modalidades, basquete e vôlei, São Vicente tem se feito representar oficialmente nos campeonatos da cidade de Santos, por intermédio do Clube de Regatas Tumiaru, na divisão principal e do São Vicente Praia Clube, na segunda divisão de Basquete e na primeira divisão de Voleibol. O Tumiaru já obteve o título de vice-campeão das segundas turmas, assim como o São Vicente Praia Clube o de vice-campeão, em basquete. 

Como se vê, o Tumiaru é o clube que há mais tempo e em mais setores vem participando da vida esportiva de Santos, conhecendo-lhe muitos dos acidentes de sua inconstante existência. Palmilhando desertos ou atravessando prados floridos, segue o Tumiaru a sua marcha de batalhador incansável que só deseja, como seus co-irmãos, elevar bem alto, dentro e fora do município, o bom nome dos esportes vicentinos. 

São de meu ilustre conterrâneo, o dr. Paulo H. de Moura, as seguintes palavras com que encerro esta desataviada crônica: 

"O Tumiaru é um legítimo patrimônio de glórias da terra de Martim Afonso. Ostenta-se há 39 anos e há de por certo conservar-se sempre como o baluarte impávido das tradições de que tanto se orgulham os vicentinos. Remo, natação, pólo-aquático, vôlei, basquete. Turmas de atletas de ambos os sexos. Muitos campeões nas várias modalidades dos esportes que ali se praticam, eis o que São Vicente apresenta como resultado positivo de sua boa política de aproximação e de cordialidade junto às Entidades e aos clubes esportivos de Santos". 



























“Zéquinha (treinador) foi um grande homem e educador, impunha disciplina rígida sem deixar de lado a afetividade por todos da sua equipe. Formou inúmeras equipes infanto-juvenil, e em todas forjou campeões que na maturidade foram campeões na vida”. Lauro Clasen Moura 

Nomes que marcaram a natação do C.R. Tumiarú: 

Vilarinho, Marlene Antunes, Deise Fischetti, Sonia Neves, Suzel, Matilde Parada, Jiro, Rudye Dennis Kochel Camargo, Manoel Carlos Castro Navarro, Nelson Gonçalves, Hermes Antonio Oliveira, Nicomedes Pacheco de Barros, Jorge Dib, Danilo Malagoli, Rudy Von Emmerich, Roberto Mario Mortari, Mario Cerqueira Leite, Manoel Blaz Rodrigues, Antonio Lima, Gatão, Osny de Lima Carvalho, Anadyr Carvalho, Antonio Di Renzo, Ruggero Malagoli, Celso Politi, Ciro Politi, Edmundo Dias Garcia, Luiz Antonio Freitas Umbuzeiro, Luiz Ernesto Umbuzeiro Horneaux, Luiz Dias Garcia. 

O INTRÉPIDO ANTÔNIO ROCHA



Foto do remador do Clube de Regatas Tumiaru Antonio Rocha publicada na capa da revista argentina El Gráfico em 1934, quando da sua chegada em Buenos Aires com o companheiro José Ferreira de Andrade.


O remador do Clube de Regatas Tumiarú nunca teve medo do mar. Sozinho ou acompanhado, causava verdadeiro frisson ao desembarcar no Rio de Janeiro (onde era recebido com festa no C.R. Flamengo) ou em Buenos Aires, após dias desafiando ondas e tempestades. Era o Rei dos "rides" náuticos nos anos 1930. Tentou três vezes chegar sozinho em Belém do Pará. Não conseguiu. Na última tentativa, em 1961, sua canoa "Itararé" espatifou-se num recife da praia de Saquarema-RJ, onde morreu afogado.

Tumiaruenses remam 1.134 milhas


Os grandes raides em embarcações a remo- Interrompida em nossa cidade uma tentativa de Angelú e Hungria - Antônio Rocha e José Ferreira de Andrade empreendem o mais sensacional raide já conhecido no continente - Os dois remadores do Tumiaru remam de Santos a Buenos Aires, percorrendo 1.134 milhas!



Por Jorge Elbel – A Tribuna – 26 de março de 1944

Em janeiro de 1932, quando se comemorava com imponentes festas o 4º Centenário da fundação de S. Vicente, partiam do Rio de Janeiro três remadores do Clube de Regatas do Flamengo, tripulando uma iole-franche a 2 remos, com destino a Santos. Era o primeiro grande raide marítimo que se efetuava por esportistas do remo. Eram eles, os seguintes remadores: Ângelo Gamaro (Angelú), Antonio Rebelo (Engole Garfo) e Alfredo Corrêa (Boca Larga). Precedidos de reclamos de toda a espécie, amparados pelo entusiasmo popular e por um grande diário carioca, iniciaram o raide. Seis foram as etapas, sendo que a primeira com cerca de 16 horas de viagem, e, afinal, ei-los chegados a Santos, a 20 de janeiro de 1932, dois dias antes da comemoração dos festejos de S. Vicente.

O que foi a chegada dos destemidos remadores a esta cidade, o carinho que os nossos esportistas lhes dispensaram e as homenagens que receberam, tanto aqui como no Rio, por ocasião do regresso, são de sobejo conhecidos. Após o brilhante feito dos cariocas, era voz corrente entre os remadores paulistas que essa visita deveria ser retribuída, mas de forma que fosse, senão suplantada, pelo menos igualada.

Muitos palpites e projetos foram então discutidos mas ninguém se animava a levar avante a idéia, já por acharem uma temeridade enfrentar o mar numa frágil embarcação de regatas, se não também pela falta de um todo apoio por parte dos clubes de remo desta cidade.

Pelo início do ano de 1933, discutia-se numa roda de remadores as possibilidades de retribuição da visita aos cariocas, quando, inopinadamente, aparece um moço bastante conhecido nos meios náuticos santistas, propondo-se a realizar um raide ao Rio de Janeiro, num simples canoé. Os presentes olharam abismados e incrédulos para o moço e sorriram, como que desmerecendo as palavras que acabavam de ouvir. Esse moço era o conhecido remador Antônio Rocha, nessa ocasião pertencente ao Internacional de Regatas.

Antônio Rocha, rapaz de fibra e de uma força de vontade ímpar, não desanimou enquanto não conseguiu um barco para a efetivação do seu desejo. O feito dos remadores cariocas calara fundo no seu espírito de intrépido remador, que passou então a conjeturar a possibilidade de uma retribuição à visita. Sondara os dirigentes dos clubes sobre a possibilidade do empréstimo de um canoé, mas todos recusaram, pois receavam um fracasso no raide e a possível perda do barco. Não desanimou, porém. Acercou-se dos dirigentes do veterano Clube de Regatas Tumiaru, expondo a sua idéia e os planos que concebera.

Alguns receberam o pedido com indiferença, outros com entusiasmo, entre estes José Vicente de Barros, que prevendo uma certa resistência de seus colegas de diretoria, prontificou-se, em caso de insucesso do raide, a adquirir um novo barco para o clube. Diante da atitude nobre e desassombrada de seu dirigente, a diretoria deliberou ceder a Rocha o barco de que o mesmo necessitava. Rocha, então, tratou de adaptar o barco para a longa travessia. Escolhera o barco Itararé. O Tumiaru mandou construir um castelo sobressalente, mais alto, para resguardar o tripulante contra uma possível agitação do mar, impedindo assim, de certo modo, a entrada de água na parte central da embarcação.

Enfim, a 25 de fevereiro de 1933, às 18,30 horas, compareciam à sede do Clube de Regatas Tumiaru, no Japuí, em São Vicente, os diretores srs. José Vicente de Barros, cap. Luiz Antonio Pimenta, cel. José Rites, Jorge Elbel, Leopoldo Caiafa, Leopoldo Dietrich e o redator da A Tribuna, Antônio Guenaga, para apresentarem as despedidas ao intrépido remador.

Minutos antes, justamente no momento em que o barco ia ser lançado à água, o cap. Pimenta, num comovente improviso, saudou Antônio Rocha, afirmando manter a convicção de que o raide seria bem sucedido, porque admirava a coragem desse esportista bem intencionado, que outro propósito não tinha senão levar aos seus irmãos da Guanabara um fraternal amplexo.

Rocha respondeu com breves palavras, dizendo que nem mais um minuto desejava permanecer ali. A simplicidade do ambiente, a singeleza da despedida, chocaram-no profundamente.

O Itararé foi, então, pelos presentes, transportado até o mar. Rocha acolheu-se, amarrou os sapatos no finca-pé e deu a primeira remada, que o reduzido número de testemunhas recebeu com calorosos aplausos. E assim, vigorosamente impelido, remou firme em direção ao poente, para fazer a primeira etapa que tinha por meta a Bocaina. No dia seguinte, às 4,05 horas da manhã, Rocha deixava a sede do C. R. Santista, onde pernoitara, e acompanhado por dois remadores do Internacional rumou pelo rio Bertioga, em direção ao mar.

No dia 27, os jornais estampavam a alvissareira notícia da chegada de Rocha a São Sebastião. Depois de sua saída da Bocaina e após remar cerca de 3 horas, Rocha se defrontava com o oceano. Às 7 horas, pois, o ousado navegante solitário avistava a costa brasileira, tomando então rumo do canal de São Sebastião, em cuja localidade chegou cerca das 12 horas.

Estava, pois, vencida galhardamente a 2ª etapa.

A 28, telegrafava de Ubatuba, participando sua chegada às 14,30 horas. Saíra de São Sebastião às 7 horas da manhã. Esta etapa foi vencida com cerca de sete horas de remo. De Ubatuba seguiu para Parati, porto do Estado do Rio. Esta etapa percorreu-a no dia 3 de março. Por essa ocasião tinha vencido cerca de 142 milhas no espaço de 6 dias. Para atingir a Baía de Guanabara restavam ainda 92 milhas.

No dia 6 de março, por volta das 14 horas, Rocha chegava a Mangaratiba, bastante gripado e febril, após uma travessia penosa e num mar muito agitado. A sua permanência em Mangaratiba foi de cinco longos dias, que trouxeram os seus adeptos em constante apreensão. Atendido com todo desvelo nessa localidade, a 11 de março partia para Pedra Guaratiba, já em águas do Distrito Federal. Por essa altura, na capital do país faziam-se grandes preparativos para uma condigna recepção ao intrépido remador santista.

No dia seguinte à sua chegada a Pedra Guaratiba, tentou transpor a última etapa, não o conseguido devido à fúria do mar. Finalmente, a 13 de março de 1933, aportava à rampa do Flamengo, verificando-se a sua chegada às 11,30 horas. A notícia da chegada de Rocha ao Rio foi recebida em São Vicente com demonstrações de grande entusiasmo, tendo sido organizada pelos associados do Tumiaru uma passeata à noite. Diversas homenagens lhe foram tributadas na capital do país, pelos esportistas cariocas, sendo entusiasticamente recebido na sede do Clube de Regatas Flamengo, onde ficou hospedado. No Rio, Rocha foi recebido pelo então ministro da Marinha, almirante Protógenes Guimarães, que o felicitou pelo êxito da prova. Durante um almoço que lhe foi oferecido, Angelú, remador flamenguista, expôs a Rocha o seu projeto de realizar um raide, em double-canoé, ao Rio Grande, e possivelmente a Montevidéu. Disse que a maior dificuldade na execução do empreendimento estava em encontrar um remador de fôlego, e, assim, convidava Rocha para seu companheiro nessa jornada, sendo pelo mesmo aceito o convite. A realização desse raide ficou assentada, em princípio, para data que seria oportunamente fixada.

Toda a imprensa paulista e carioca se manifestou entusiasticamente sobre o grande feito do remador vicentino.

Das homenagens recebidas por Rocha, a que mais impressionou foi a que recebeu de Angelú, um dos tripulantes da yole Flamengo que, desejando testemunhar a sua grande admiração pelo valor do raide, mandou cortar ao meio a linda medalha de ouro que lhe tinha sido ofertada pelos esportistas de Santos e com a metade presenteou Rocha.

A Federação Paulista das Sociedades do Remo, em sessão do Conselho e por proposta do representante do E.C. Corintians Paulista, deliberou homenageá-lo, ofertando uma rica medalha de ouro, concedendo-lhe o honroso título de sócio honorário, inaugurando ainda o seu retrato na galeria da entidade.

19 de março, devido ao seu precário estado de saúde, Rocha regressava a Santos, sendo recebido na gare da S.P.R. por seus familiares, diretores e associados do Clube de Regatas Tumiaru e esportistas locais. Foram então levadas a efeito inúmeras homenagens em sua honra.

Com o fito de premiar o bravo remador, foi aberta uma subscrição popular, o que veio provar o interesse que despertou o raide entre os esportistas de Santos.

E, assim, terminou o seu primeiro empreendimento.


Manchete do Correio de São Paulo narrando o feito do vicentino Rocha quando realizou sozinho o raide Santos-Rio de Janeiro em 1933.

O Raide Rio-Buenos Aires


A 15 de fevereiro de 1934, cumprindo a promessa feita, de efetuar um grande raide ao Sul do país, partiam do Rio de Janeiro, tripulando um double-canoé, que fora batizado pela sra. Osvaldo Aranha com o nome de Tudo nos une..., Ângelo Gamaro (Angelú) e Edgard Hungria.

Esse raide, patrocinado pelos poderes governamentais, teve a ajuda do sr. Sabbado D'Angelo, saudoso industrial paulista, que mandou construir o barco. Seria realizado o raide em homenagem ao general Justo, então presidente da República Argentina.

Onze dias levaram esses remadores para cobrir as 215 milhas do Rio a Santos. Fizeram este percurso em quatro etapas, chegando a Santos no dia 26 de fevereiro. Nessa data, por uma interessante coincidência, festejava o Clube de Regatas Tumiaru o primeiro aniversário da partida de Antônio Rocha para o Rio no canoé Itararé.

Reuniam-se, assim, todos os diretores do clube vicentino no Café Marreiros, para um jantar comemorativo, e foi com indizível satisfação que o grupo recebia, depois, a adesão de Angelú e Hungria, convidados a fazer parte do ágape oferecido pela diretoria do Tumiaru.

Foram os remadores cariocas, depois de terem guardado o barco na garage do Clube de Regatas Santista, recebidos entusiasticamente pelos esportistas ali reunidos, saudando-os, em feliz improviso, o cap. Luiz Antonio Pimenta.

De ambos os remadores, foi Hungria o que mais sentiu o esforço desprendido com a travessia. Pois chegou com os dedos das mãos intumescidos, ressentindo-se ainda dos músculos dos bíceps. Os calos, disseminados por toda a palma da mão, rebentaram com o constante movimento do punho do remo.

Em vista do seu precário estado de saúde, foi Hungria submetido a rigoroso exame médico, sendo-lhe aconselhado um repouso de alguns dias para poder prosseguir no grandioso raide.

No dia 8 de março, os jornais anunciavam a contristadora notícia de que o raide do Tudo nos une... tinha fracassado. Hungria já seguira para o Rio, e Angelú, seu companheiro, pretendia fixar residência em Santos.

A atitude dos remadores cariocas, após 10 dias de luta contra os elementos, no trajeto do Rio-Santos, após tantos sacrifícios, é tomada em resolução extrema, devido à falta de recursos.

Aqui chegados, Angelú e Hungria foram abandonados pelos poderes governamentais, que patrocinavam o raide, de nada valendo as providências postas em prática no sentido de poderem concluir o arriscado empreendimento, garantidos pelos recursos que se faziam necessários.

Noticiado que foi a interrupção do raide, a Folha de Santos invocou o auxílio de Antônio Rocha, ante a desistência de Hungria, na consecução final da arrojada tentativa e conseqüente efetivação da homenagem que se prestaria à República Argentina.

Paulista brioso, numa prova de seu ânimo e valor, Antônio Rocha não hesitou em aceitar a perigosa incumbência que se lhe ofereciam. E, incontinente, procurou a redação daquele vespertino para dizer que estava disposto a acompanhar Angelú no Tudo nos une..., até Buenos Aires.

Para que Rocha e Angelú pudessem levar a efeito o que tencionavam, tornava-se necessário um esforço conjugado dos clubes da cidade e dos esportistas em geral.

Numa reunião havida na redação da A Tribuna, deliberou-se que o raide seria reiniciado dentro de oito dias. Constituiu-se uma comissão de esportistas para tratar das medidas preliminares e estudar a possibilidade de seu prosseguimento. Solicitou então essa comissão do sr. comandante Mário Linhares, delegado da diretoria do Lloyd Brasileiro nesta cidade, que respondesse a um questionário formulado com referência ao raide em apreço e, diante da resposta dada pelo ilustre homem do mar, ao questionário, a comissão concluiu pela sua não realização naquela época do ano.

E assim, mais uma vez, fracassava o importante empreendimento.

Antônio Rocha, entretanto, não desanimou. Procurou, com carinho, um companheiro para o importante raide. Encontra em José Ferreira de Andrade o elemento de que necessitava. Vai a São Paulo e obtém do sr. Sabbado D'Angelo o barco que os remadores cariocas trouxeram até Santos.

Obtido o double-canoé Tudo nos une..., Rocha deliberou que ele passasse a denominar-se Bandeirante. Aquele industrial subscreve então a importância de Cr$ 1.000,00, iniciando uma subscrição, a fim de financiar as despesas do raide Santos-Buenos Aires.

Os clubes de São Paulo declaram apoiar incondicionalmente o interessante raide, tanto mais que se tratava de uma realização que traria novas glórias para o esporte bandeirante.

Rocha e Andrade traçam a rota a seguir, com etapas determinadas, sem a preocupação de tempo, visando de preferência a realização segura de cada uma.

Todos os preparativos foram procedidos calculadamente e assim toda a imprensa, no dia 31 de março, anunciava a partida do Bandeirante para o dia 1º de abril.

No dia seguinte, uma bela manhã de domingo, às oito horas, sob aplausos da multidão, que se comprimia no cais, junto ao pontão das barcas do Guarujá, deixou o nosso estuário justamente à hora marcada, singrando as águas deste porto, o double-canoé Bandeirante, rumando à Ponta da Praia, sendo acompanhado por cerca de cinqüenta embarcações de todos os nossos clubes de remo.

Chegando à Ponta da Praia, os remadores fizeram uma pequena parada, descendo para uma rápida visita de despedida ao Clube de Regatas Saldanha da Gama e Clube de Regatas Vasco da Gama.

O ex-Tudo nos une..., ostentando bandeirinhas argentina, paulista e brasileira, é alvo da curiosidade do público. Sobre o seu castelo de proa estão vistosa e artisticamente pintados os pavilhões da Argentina, de São Paulo e do Brasil.

Após a visita, Rocha e Andrade são cumprimentados pelos esportistas e grande número de amigos, todos confiantes, com fé, no êxito da arrojada tentativa. Tomam lugar no Bandeirante, ouve-se troca de hurras e aleguás, vivas aos clubes santistas, ao Tumiaru e ao esporte paulista.

O Bandeirante movimenta-se, avança entre as embarcações que coalham aquela parte do estuário, apresentando belíssimo espetáculo. Duas lanchas acompanham também o Bandeirante, que vai se distanciando sob palmas e mais palmas, às 10 horas, precisamente.

Transposta a ponta do Itaipu, o Bandeirante avançou em sua rota. Entretanto, o mar grosso, àquela hora, exigia dos remadores um esforço duplo, castigados ainda pelos raios solares.

Uma parada foi então feita no Japuí, em São Vicente, sede do Clube de Regatas Tumiaru, sendo a prova reiniciada na madrugada do dia 2, quando Rocha e Andrade seguiram rumo a Itanhaém. Partindo às 4,30 horas, do Japuí, aportam em Itanhaém com 9 horas de remo, completando assim auspiciosamente a primeira etapa.

Devido à forte agitação do mar, os remadores permanecem até o dia 7 em Itanhaém, quando iniciam a segunda etapa, alcançando Guaraú, com 4 horas de remo e 17 milhas percorridas. De Guaraú, Rocha e Andrade dirigem-se para Bom Abrigo. No dia 8, recebem-se notícias de Iguape, comunicando que tinham completado em uma única etapa desde Guaraú, em 12 horas de remo, cobrindo a distância de 39 milhas de percurso, completando assim a terceira etapa. Nessa localidade, foram recebidos com grandes demonstrações de carinho por parte da população.

De Iguape, seguem para a quarta etapa, que é Cananéia, onde chegam no dia 10. Este percurso, de 32 milhas, foi coberto em oito horas. Dessa localidade recebem-se notícias da partida do Bandeirante com destino a Paranaguá, onde chega depois de 18 horas de remo para um percurso de 36 milhas, com fortes ventos Sul contra.

A 26, partem Rocha e Andrade de Paranaguá diretamente para São Francisco. Ficaram, portanto, retidos naquele porto durante 14 dias, devido ao mau estado do mar. De São Francisco comunicam que com 15 horas de remo cobriram a distância de 42 milhas, tendo feito uma pequena parada em Caiobá. Essa foi uma das mais penosas etapas.

No dia 3 de maio, completam a mais longa etapa, atingindo Itajaí, tendo remado 55 milhas.

Às 8 horas do dia 12 de maio, deixam o porto de Itajaí rumo a Florianópolis, capital de Santa Catarina, onde chegam depois de um percurso de 50 milhas.

Como o mau tempo persistisse na costa Sul, ficam os remadores retidos em Florianópolis até o dia 29. Diante do estado do mar, que é péssimo, a Capitania dos Portos, ali, proibiu formalmente fosse continuado o raide. Rocha, porém, não se intimidou, telegrafando ao sr. ministro da Marinha, solicitando a devida licença, que por telegrama lhe foi concedida e, assim, no dia 29 atingiram Imbituba, penúltimo ponto de escala em Santa Catarina. No dia seguinte alcançavam o porto de Laguna, cobrindo 18 milhas em 4 horas. Esta etapa foi feita com um passageiro a bordo. Nesta cidade, foram recebidos com todo o entusiasmo pela população, ficando como hóspedes de honra do Clube de Regatas Almirante Lamego, que lhes dispensou todas as atenções possíveis, organizando-se grandes festas em sua honra.

De Laguna, Rocha comunica que pretende deixar aquela cidade às 12 horas do dia 1º de junho, com destino a Torres, já no Rio Grande do Sul, onde espera chegar no dia seguinte à tarde, fazendo, se possível, uma pequena parada no farol de Santa Marta.

Saindo de Laguna, os remadores paulistas rumaram na madrugada de 2 para o farol de Santa Marta, próximo ao litoral daquele porto, onde pernoitaram.

Na madrugada seguinte partiram do farol, rumo a Torres e, apesar de lutarem titanicamente durante onze horas consecutivas, os tripulantes do Bandeirantes apenas conseguem alcançar Araranguá, ainda na costa catarinense.

A 5 de junho os remadores paulistas logram cobrir mais uma etapa, atingindo Torres, primeiro ponto da costa rio-grandense, iniciando assim a mais difícil série de etapas longas.

Porto Alegre, capital gaúcha, que estava fora da rota do Bandeirante, é também visitada. Em Laguna e Torres, fazem-se portadores de mensagens especiais ao sr. Flores da Cunha, interventor do Rio Grande do Sul.

Para cumprirem a missão que lhes propuseram, tiveram os remadores que fazer o percurso pelas lagoas Itapeva e dos Patos, a fim de atingir a capital gaúcha, o que veio aumentar também a distância em milhas a percorrer. Para poderem atingir a lagoa Itapeva, tiveram os remadores que transportar o Bandeirante, numa distância de mais de cinco quilômetros, em uma carroça, que veio dificultar muito o seu transporte devido ao seu comprimento e peso.

Na grande capital sulina, foram hóspedes de honra do Clube Náutico Gaúcho, que lhes prestou toda a sorte de homenagens, assim como o Centro Paulista, daquela capital. O percurso percorrido de Torres a Porto Alegre foi de 74 milhas.

A travessia Porto Alegre-Pelotas foi bastante penosa para os remadores, visto o estado do tempo na Lagoa dos Patos. No dia 4 de julho, chegavam a Pelotas depois de terem passado por São José do Camaquã e São Lourenço.

Partem de Pelotas no dia 12 de julho, via Lagoa Mirim, com destino a Jaguarão. Dessa localidade seguem para Santa Vitória do Palmar, extremo Sul do país. Remaram portanto, em costa brasileira, 851 milhas.

Às 9 horas do dia 27 de julho os intrépidos remadores transpunham a Barra do Chuí, já em águas uruguaias, rumo a Montevidéu, e alcançam La Paloma, com 58 milhas percorridas. De La Paloma rumam a Punta del Este, onde chegam a 5 de agosto. Nessa altura do raide, grande é a curiosidade em Montevidéu e Buenos Aires, onde os clubes náuticos preparam festiva recepção aos remadores paulistas.

No dia 7 de agosto atingem Piriápolis, já dentro do estuário uruguaio. Pretendem seguir logo para Montevidéu, mas são impedidos pelo mau tempo.

Finalmente, no dia 10 de agosto, aportam na capital uruguaia, sendo otimamente acolhidos pelos esportistas, entidades e autoridades. São hospedados no Rowing Clube de Montevidéu. Os esportistas uruguaios souberam condignamente premiar com o seu sincero acolhimento o feito soberbo dos remadores brasileiros. Dispensaram-lhes toda a sorte de gentilezas e manifestaram o seu júbilo por aquela grandiosa conquista para o esporte sul-americano.

A 17 de agosto fazem-se novamente ao mar com destino a Sauce, mas devido a um forte temporal arribam à praia de Rincon del Pino, a 36 milhas da capital. Isso veio impedir que Rocha e Andrade consigam atingir a capital argentina naquele dia, como pretendiam.

Estando para ser coberta a derradeira etapa do grandioso empreendimento, em Buenos Aires cresce o interesse e entusiasmo pela chegada dos remadores àquela capital. Além da organização de numerosa flotilha para ir ao encontro dos destemidos tripulantes do Bandeirante, os esportistas cuidam também de promover carinhosa recepção.

Enfim, depois de 4 meses e 19 dias de constantes apreensões, recebe-se a alvissareira notícia da chegada dos intrépidos remadores a Buenos Aires, onde são recebidos com as honras que se dispensam aos heróis.

A última etapa do raide caracterizou-se por um fato interessante, como descreve La Razon, de Buenos Aires: "Resolvido estava que a viagem se reiniciasse durante as primeiras horas da manhã de 22, tão depressa se dissipassem definitivamente as últimas penumbras da madrugada e, como era natural, se o tempo fosse propício, de modo a não entorpecer o último capítulo da audaciosa aventura. Assim, na tarde de 21, horas depois do almoço, Rocha e seu companheiro subiram à embarcação que utilizaram no raide e se dispuseram a um passeio pelas imediações da costa uruguaia, de onde os seus movimentos e as suas remadas eram observadas por um grupo de curiosos, disseminados na praia.

"Tanto Rocha como Andrade levavam sua indumentária de passeio, de vez que os seus propósitos, segundo ficou dito, não eram tomar rumo de Buenos Aires. A certa altura, entretanto, o primeiro advertiu o seu companheiro da aproximação de um pailebot, que momentos antes havia deixado Colonia, e que iniciava lenta e pesadamente o trajeto ao porto de Buenos Aires. A proa da embarcação, singrando mansamente as águas, o adeus dos seus tripulantes e a magnificência do espetáculo, influíram no espírito dos remadores como um exemplo digno de ser imitado. Entreolharam-se, nenhum se atrevia a dizer: 'Vamos?' Apenas um gesto e como que iluminados pelo mesmo desejo, trocaram imediatamente suas roupas de rua pelas camisetas de listas e seus calções brancos e, um instante depois, um agitar de mãos dizia um improvisado adeus às praias uruguaias.

"Durante a primeira parte da travessia não encontraram os remadores outro obstáculo senão uma ligeira brisa do Sul, que soprou, depois, com maior intensidade, pela proa do Bandeirante, ao meio da tarde. A elegante e veloz marcha do barco encontrou, então, dificuldades de certo vulto, porém os braços vigorosos dos atletas paulistas eram mais fortes que a leve adversidade da tarde.

"A média de remadas alcançou, assim, 26 por minuto, quase exatamente o número das que empregaram no início da travessia. Mais tarde, começou a esboçar-se a costa argentina e o ritmo das remadas recrudesceu. Fez-se com outra energia. Rocha e Andrade aceleraram as remadas e já ao anoitecer, seguindo sempre a linha de pontos traçadas pelas bóias do estuário, encontravam-se a poucos quilômetros de nossa costa.

"E foi precisamente a orientação das bóias que extraviou os remadores, cuja rota equivocada os levou às proximidades da Dársena Sul, quando na realidade procuravam atracar no Yacht Club Argentino. Advertidos do engano quando estavam a poucos metros de tera, modificaram o trajeto e, meia hora depois, chegavam, finalmente, ao ponto de destino.

"Aportaram, portanto, no Yacht Clube Argentino, debaixo de estrondosa salva de palmas, às 20 horas do dia 21 de agosto de 1934".

Toda a imprensa paulista, brasileira e argentina abre suas colunas para exaltar o grande feito do remo brasileiro. As emissoras irradiam contínuas notícias com referência ao empolgante empreendimento, exaltando a grande prova de resistência.

Os remadores em Buenos Aires são recebidos pelas mais altas autoridades argentinas, sendo mesmo realizada uma imponente regata em sua honra. Nesta regata, tomam parte no grande desfile de embarcações, a fim de que o grande público presente possa apreciar devidamente o Bandeirante navegando.

São hóspedes de honra do grande Clube de Regatas La Marina, cujos associados e diretores lhes dispensam a mais cordial acolhida.A imprensa argentina publica em seus diários e revistas interessantes entrevistas com ambos remadores.

A importante revista portenha El Grafico, em seu número de setembro, estampa na capa em tricomia os retratos de Rocha e Andrade, transcrevendo uma grande entrevista com El Capitan, como apelidaram Rocha.

Foram recebidos em audiência concedida pelo presidente da República Argentina, o general Augustin Justo, que manteve cordial palestra com os remadores, comentando com grande interesse as principais fases do raide.

O embaixador brasileiro obsequiou-os com artísticas cigarreiras de prata, que ficaram como lembrança de sua visita àquela embaixada.

Nesse ínterim, uma comissão de esportistas em Santos, à cuja frente se encontravam José Vicente de Barros, Cipriano de Carvalho e Eugênio de Barros Queiroz, providenciavam para o regresso de Rocha e Andrade.

A Rádio Excelsior Sociedade, de Buenos Aires, homenageou, também, os remadores brasileiros, dedicando-lhes meia hora de seu programa. Iniciando esse número, a estação L.R.5, a cujos estúdio compareceram os remadores, acompanhados de várias autoridades do esporte náutico argentino, irradiou uma marcha brasileira. Falou, depois, o secretário da comissão do Tigre, enaltecendo o feito dos remadores e dizendo da grande satisfação que os argentinos tiveram em receber os nossos patrícios.

No dia 30 de agosto, embarcavam no vapor Monte Sarmiento, com destino a Santos, onde chegaram no dia 4 de setembro.Inúmeras foram as provas de simpatia e regozijo apresentadas aos remadores, quando da sua chegada a este porto.

O mundo esportivo local dispensou-lhes fraternal acolhida, sendo formado um extenso cortejo até o centro da cidade, onde foram ovacionados pelo grande público que estacionava nas ruas do percurso.

Belo gesto teve a firma Theodor Wille e Cia., agentes da companhia do vapor em que regressaram os remadores, dispensando a comissão promotora do pagamento do frete do Bandeirante até esta cidade. O Bandeirante ficou exposto por muitos dias nas lojas da firma Cássio Muniz e Cia., onde foi admirado pelo público santista.

Durante o percurso de Santos a Buenos Aires, os remadores foram premiados com 11 medalhas cada um, a maior parte de ouro, além de grande número de flâmulas, galhardetes, diplomas e distintivos dos clubes sulinos, uruguaios e argentinos, alguns deles destinados ao Clube de Regatas Tumiaru.

Foram inúmeros os ofícios e telegramas que o Clube de Regatas Tumiaru recebeu de todo o mundo esportivo nacional, cumprimentando-o pelo sucesso do raide.

Terminado que foi o raide, recebidos magnificamente nesta cidade, justo se torna realçar a figura de José Vicente de Barros, que foi, sem dúvida, o grande animador do raide, o incentivador constante daquela magnífica empresa e, ao mesmo tempo, o comandante seguro do financiamento das despesas.

Não se pode, entretanto, deixar de fazer uma referência especial àquele que mais decididamente influiu para a feliz efetivação do raide. Trata-se do conceituado industrial paulista, o saudoso sr. Sabbado D'Angelo. Depois de contribuir com elevada soma para o financiamento da construção do Bandeirante, ex-Tudo nos une..., esteve sempre pronto a contribuir financeiramente em favor do empreendimento.E assim terminou a maior epopéia do remo sul-americano, façanha essa que talvez jamais será igualada.

Dando mais uma vez expansão ao seu espírito aventureiro e ousado, que não mede o perigo nem sacrifícios, Antônio Rocha empenha-se em novo raide, desta vez ao Rio de Janeiro. Tendo partido no dia 12 de abril de 1935, pela madrugada, da sede do C.A.Santista, Rocha pretende cobrir a distância desta cidade à capital do país, em 6 dias. O barco utilizado em mais esse raide é o double-canoé Bandeirante, o mesmo que singrou as águas do litoral sul brasileiro.

Conduzem o Bandeirante, desta feita, Antônio Rocha e seu mano Álvaro, seguindo a bordo, como observador, Osvaldo Du Pain, cronista esportivo da Folha de Santos. São portadores de diversas mensagens de clubes desta cidade para os do Rio de Janeiro, e também para a C.B.D. e delegações de remo argentina e uruguaia, a quem é dedicado o raide, e que estão na capital do país, para disputar o campeonato sul-americano de remo.

Chegam ao Rio de Janeiro no dia 24 de abril e hospedam-se no Clube de Regatas Vasco da Gama, que lhes dispensa todas as atenções.

E, assim, terminam os audaciosos raides a remo levados a efeito por atletas decididos e corajosos, provando à posteridade o quanto vale a força de vontade, perseverança e dedicação.



NOTA DO ORGANIZADOR- Antônio Rocha morreu em 27 de abril de 1961, durante a realização de uma prova, ao tentar tentar pela terceira vez realizar a “raide” a São Vicente-Belém do Pará. O sinistro ocorreu quando seu barco espatifou-se num recife da praia de Saquarema, Rio de Janeiro.