quarta-feira, 16 de novembro de 2011

OS ASTROS DO BASQUETE VICENTINO


O NOSSO "PECENTE"





Pedro Vicente Fonseca, o Pecente, apelido formado pela aglutinação de sílabas de seus dois primeiros nomes, um dos grandes nomes do basquete brasileiro, com marcante passagem pelo XV de Piracicaba e Seleção Brasileira, reside em Piracicaba, interior de São Paulo.

Natural de São Vicente (SP), onde nasceu em 21 de janeiro de 1935, Pecente conquistou o Mundial de Basquete de 1959 no Chile, no time que contava com Wlamir Marques, Rosa Branca e Amaury Passos, entre outros, além dos campeonatos paulistas de 1955, 1956 e 1957.

E, curiosamente, o começo de carreira de Pecente foi dividido entre o basquete e o futebol. Ele foi um grande goleador nas categorias de base do Comercial de São Vicente. onde atuou ao lado de Pepe, o que lhe credenciou a atuar pelo Santos Futebol Clube, a convite do treinador Lula.

Porém, após disputar um torneio de basquete na Argentina, Pecente decidiu fazer sua carreira esportiva com as mãos, e não com os pés.

Sua história ganhou uma belíssima narrativa feita por uma de suas filhas, a agrônoma Sonia Barreto, que lançou em 09 de junho de 2018 o livro "Nosso Pecente - A Vida de um Grande Campeão", com prefácio de Wlamir Marques, em evento que aconteceu no Sesc de Piracicaba. (Marcos Júnior Micheletti )


Pescente foi convocado para a seleção brasileira de basque após ser indicado como talento admirável pelo técnico do Harlen Globe Troters, em excursão pelo Brasil. Ele se referiu a Pecente com " O Número 7 do Santos". 

















No famoso time do XV de Piracicaba. Pecente - com os dedos sobre a bola - e atrás dele, em pé, o também astro vicentino Wlamir Marques.

O DIABO LOIRO



Lenda viva do basquete brasileiro, Wlamir Marques fala do que sente sobre a modalidade e a história que construiu nela.



Nesta sexta-feira (30), a Seleção Brasileira de basquete entra em quadra por mais uma partida pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2019 contra a República Dominicana. Pela primeira vez na competição, a equipe irá atuar em São Paulo, no ginásio Wlamir Marques, do Corinthians, no Parque São Jorge. Mas quem foi Wlamir Marques?

Hoje, no alto de seus 81 anos, com dificuldade para andar por um problema no pé esquerdo, oriundo da época que ainda atuava pelas quadras brasileiras, Wlamir Marques é um senhor que pode passar desapercebido para a grande maioria das pessoas. “As vezes, quando venho ao Corinthians, vejo algumas pessoas perguntando se Wlamir Marques foi um goleiro do time de futebol”, comenta o próprio.

O fato é que Wlamir Marques foi um dos grandes nomes da história do basquete mundial. Chegou ao topo do planeta pela Seleção Brasileira, conquistando o bicampeonato Mundial, em 1959 e 1963, e com clubes, conquistando o mundo com o Corinthians. O “Diabo Loiro”, como ficou conhecido, é a maior estrela e a lenda viva da modalidade no país.

“A emoção do Corinthians ter dado o meu nome ao ginásio é a maior homenagem que eu poderia ter recebido pela minha vida esportiva, principalmente porque recebi ela em vida ainda. Desconsiderando as medalhas olímpicas, mundiais, mérito esportivo, porque isso não se compara”, comentou Wlamir Marques.

Foram 10 anos vestindo a camisa cinco do Corinthians, de 1962 a 1972. Década em que o time paulista teve um grande time de basquete e conseguia, com isso, trazer grandes equipes da modalidade no mundo para a cidade, como aconteceu quando o Timão enfrentou o Real Madrid, então bicampeão europeu, em 5 de julho de 1965, no ginásio que hoje leva o nome de Wlamir Marques.

“Tínhamos um grande time, com grandes jogadores, mas o maior jogo nosso foi contra o Real Madrid, em 1965, quando vencemos de 118 a 109. Foi o meu maior jogo na carreira (Wlamir marcou 51 pontos) e eu desconfio que o meu nome no ginásio se deve a essa partida” disse Wlamir.

A pulada de muro que mudou o basquete brasileiro*


Nascido em São Vicente, no litoral de São Paulo, Wlamir Marques entrou pela primeira fez em uma quadra de basquete aos 10 anos de idade, em uma quadra próxima de sua casa. “Um dia eu estava em casa e meus amigos me chamaram para jogar em uma quadra que ficava nos fundos da minha casa. Pulei o muro de lá e fui”, disse Wlamir.

Durante a infância e parte de sua adolescência, Wlamir Marques teve uma vida voltada para o esporte, praticou atletismo, natação, vôlei, basquete, futebol e mais alguns outros esportes. Contudo um problema médico obrigou com que ele optasse por somente um deles.

“Por volta de uns 13, 14 anos eu tive um problema de excesso de fadiga muscular. Pelo fato do meu coração ser muito dilatado, fui orientado pelo médico que diminuísse a quantidade de esportes praticados. Por conta da medalha de bronze nas Olimpíadas de 1948 conquistada pelo Brasil, acabei optando pelo basquete, que era também o que eu tinha mais facilidade”, comentou.

Depois da escolha, tudo acabou acontecendo rápido. Com 16 anos, Wlamir Marques já integrava a Seleção Brasileira adulta de basquete, onde foi reserva apenas em uma partida, a primeira. Depois desse jogo, os demais jogadores falaram com o técnico que ele não poderia ficar no banco.

De 1959 a 1970 o Brasil teve sua época de ouro no Basquete, participando de três edições dos Jogos Olímpicos e de quatro Campeonatos Mundiais, conquistando seis medalhas. Wlamir Marques foi o capitão da Seleção Brasileira durante 10 anos nesse período. “Foram bons anos, conseguíamos treinar, se preparar e jogar. Tenho dois ouros, duas pratas em Mundiais e dois bronzes em Olimpíadas, mas no Brasil só falam do bicampeonato, porque segundo lugar aqui é o primeiro perdedor infelizmente”, disse o ex-jogador.

Medo do futuro da modalidade

Capitão da equipe brasileira que colocou o Brasil em evidência mundial no Basquete, Wlamir Marques vê o cenário atual e futuro da modalidade com muito receio. “Estamos mal, não temos estrutura. A base não está bem, não temos um técnico presente no país por falta de verba para manter ele aqui. O NBB é nivelado por baixo, sem um time dominante. Precismos recomeçar, mais uma vez, em vários aspectos, houve melhora mas ainda falta”, finaliza Wlamir Marques. (Paulo Chacon 29 de novembro de 2018 – Olimpíada Todo dia)


Wlamir Marques daria outra pulada de mudo que ficaria famosa. Foi quando estava na concentração para o o Campenonat Mundial do Chile, isolado em quartel do Exército, em Volta Redonda. Seriam dispensados para passar o Natal de dezembro de 1958 casa. Mas no dia 20 soube da que sua mulher iria dar à luz. Pediu dispensa, mas teve licença negada pelo técnico Kanela. Diante da recusa, comunicou a um membro da comissão técnica que iria embora. “Nosso quarto dava para a rua, então pulei a janela de madrugada e fui para a rodoviária, pegeui um ônibus para São Paulo e lá para Piracicaba (cerca de 500 quilômetros ao todo). Quando o Kanela soube, na hora ele me cortou. Fui avisado e falei’Bom, eu não posso fazer nada’. Meu filho nasceu na madrugad de 21 para 22. Então não me arrependo. No dia 24 recebi um comunicado, o Kanela pedia que eu me reapresentasse. Ele voltou atrás, e eu volte para Rio no di 26. Não tivemos nenhum tipo de conversa. Vltei como se não tivesse acontecido nada. Foi um ato de rebeldia. Concordo que deveria ter sido cortado, mas foi tudo de cabeça pensada. Não me arrependo. Depois que ganhamos o Mundial e estávmos voltando ao Brasil, o Kanela sentou ao meu lado no avião e me disse: ‘Alemãozinho quase jogamos tudo isso fora’. (Folha de São Paulo, 19/01/2019- Fuga de Wlamir Marques marcouo 1º título mundial do basquete brasileiro) – Nota do Organizador. 



Wlamir Marques em visita á quadra do C.R Tumiaru, para uma homenagem e reportagem da ESPN, em 2015.

Do bola ao cesto ao basquete

Ubirajara Rancan



1970: 10 pra 11, 4o. ano, temor diário das reguadas e gritos de Dona Elza. Longe de excessiva, sua “didática” ajustava-se a atitudes e orientações do casal que comandava o velho Grupão: ele, seu Elias; ela, dona Neusa. De um lado, bigodinho sinistro, cara bolachuda e oleosa; de outro, óculos medonhos—mas sintonizados com o conjunto que rematavam—e postura correcional em uníssono com a melodia macabra dos recém-repovoados porões da ditadura.

Daqueles tempos na antiga “Escola do Povo”, do Pré-Primário às portas do Ginásio, duas professoras permanecem ainda hoje entre minhas mais caras recordações: Dona Dóris e Dona Lúcia, que—obra de um encantatório acaso—eu reencontraria 31 anos depois, no dia em que, à frente do “Boca santa”, coral que fundara dois anos antes na UNESP, em Marília, eu me apresentava na Basílica Menor de Santo Antônio do Embaré, em Santos, dezembro de 2001.

Durante aquele ano, antes ou depois da consagração futebolística em Guadalajara, saía mais cedo da aula, um dia por semana, e ia com minha mãe ao catecismo, na Matriz vicentina, a menos de um quilômetro da escola; conosco, o colega Augusto. Altos, míopes, gordinhos e dentuços, formávamos uma dupla e tanto... Concluído o ensino dogmático, a Irmã nos liberava para um pingue-pongue ultrarrápido, petisco de cachorro pela encheção imposta... Esse, o único esporte que eu praticava, e que só reencontraria no fim do colegial.

Se Santos tinha Pelé [natural de Minas], ídolo em duas copas, São Vicente tinha Wlamir, herói do bicampeonato [59 e 63] mundial de bola ao cesto [“basquete” seria pra mais tarde], autenticamente calunga! Dona Hermelinda, sua mãe, apelidada Lindinha, era prima de meu avô materno, o que me tornava primo [em quarto grau...] do então craque do basquetebol corintiano.

Ao contrário de meu pai, que praticara atletismo e remo no “Club de Regatas Saldanha da Gama”, e por aquela época ainda jogava tamboréu, eu começava a seriamente correr atrás de sustenidos e bemóis em partituras cabeludas, já então sob a orientação de Souza Lima.

Mas eis que um amigo de meu pai, o advogado e vereador Dr. Alberto Lopes dos Santos, considerando que eu devia diversificar minhas atividades, “demasiado cerebrais”, insistiu com ele para que eu fosse ao “Tumiaru” e jogasse bola ao cesto. Afinal, era como se o esporte estivesse no sangue! Meu avô, entusiasmado, articulava uma reunião familiar em que eu viesse a ser apresentado a Wlamir, que me incentivaria etc. etc.

Alheio a esse planejamento todo, o dia chegou. Em companhia de meu pai e Dr. Alberto, fomos os três ao clube. Deles ouvindo que Wlamir começara ali mesmo onde eu poria os pés, lá cheguei, desengonçado e distante, na mesma praça Coronel Lopes em cujo lado oposto ficava o Grupão frequentado desde 66. Ao entrar no “Tumiaru”, lembrei-me do salão principal em que tocara piano aos 5 anos, e no qual estivera em muitas ocasiões para ouvir o “Coral Vicentino” dirigido por meu pai. Mas, agora, o lado da praça era outro, outra a parte do clube em que eu fora—deixado. Sim: porque papai e seu amigo já se tinham ido...

Avisado por Dr. Alberto, membro da Diretoria do clube, o treinador vem até mim, com ele os rapazes que, íntimos de espaço, bola, regras de jogo, mundo que me era completamente estranho, constituíam a turma da qual eu deveria fazer parte. Não conhecendo ninguém, a primeira coisa que ouvi do técnico—gritada a menos de um metro de mim—soou como ordem pra eu tirar a roupa inteira: “Garoto: deixa ‘o’ óculos e vem pra cá!” “Pelado”, fui com todos ao centro da quadra. “Rapaziada: o garoto aqui é primo do ‘Diabo loiro’! Vai começar com a gente, mas já tem tudo no sangue! É ou não é, garoto?!”

Aquele compreensível incentivo [às avessas], que me identificava como potro de raça, foi mal recebido pela turma subitamente desvalorizada, sem pedigree. Desconhecendo o apelido famoso do “primo” Wlamir, literalmente impronunciável por quem concluía o catecismo, também imaginando quão mais dolorida seria a reguada daquele professor..., recuperei os óculos e dei meia volta.


Quase cinco décadas depois, meu filho de 12 anos, com a mesma altura [1,85m] do treinador do time em que joga, também a do “Diabo loiro”—e com óculos apropriados...—, dá continuidade à tradição esportiva de uma parte de seu “sangue”. Sabendo do [distante] parentesco ilustre, revelou-o a seu técnico que, dia desses, perguntou-me: “Então você é primo do Wlamir?!” Ao que eu, de bate-pronto, completei: “Em quarto grau! Em quarto grau!”