quarta-feira, 3 de junho de 2009

NA ONDA DO SURF


O SURF CONTAGIANDO O LITORAL PAULISTA I


Em 1964 viajamos diversas vezes para o Rio de Janeiro, pois tínhamos amigas na Cidade Maravilhosa e meu tio morava no Flamengo, onde eu podia me hospedar. O Rio de Janeiro, parecia outro país: os programas de televisão, as músicas, a moda, os ídolos, o futebol, era tudo muito diferente da Santos. A aldeia global não estava implantada. Cada viagem, feita em um maravilhoso Fusca com rodas tala larga e um equipamento inimaginável hoje: uma vitrola Philips instalada entre os bancos da frente tocando músicas dos Beatles o tempo todo. Só tocava disco compacto e a troca só podia ser feita em segunda e quarta marchas. Não tinha quinta marcha, a Globo não existia, algumas viagens eram feitas pela antiga rodovia Rio-São Paulo, a Rodovia Dutra seria duplicada em 1965. Íamos em quatro pessoas: o Antenor da Colégio Anwer, o Sérgio Heleno de copiloto, eu (Paulo Miorim) e o Dagoberto Batochio. Às sextas feiras saíamos lá pelas dez ou onze da noite do Colégio Canadá direto para a Cidade Maravilhosa, onde tínhamos onde ficar (casa da Ana Amélia em Copacabana e apartamento de meu tio no Flamengo). E foi no Rio que vimos pela primeira vez uma prancha para “pegar onda em pé” e, no Arpoador uns poucos rapazes pegando onda. Eu e o Sérgio Heleno vivíamos correndo ondas de peito na praia de Itararé em São Vicente. Nosso amigo Gregório Stipanich era fabricante de barcos de pesca em um estaleiro da família no Japuí, próximo à sede náutica do C. R. Tumiarú. Juntando o estaleiro do Gregório com o que vimos no Rio, somado à uma reportagem da revista Manchete trazida pelo Antônio Di Renzo Filho sobre a nova mania dos cariocas, descobrimos para que eram usadas aquelas pranchas grandes: SURF, uma prática dos reis do Havaí, divulgado por um nadador olímpico havaiano chamado Duke Kahanamoku, que se preparou para a Olímpiada de 1912 “cavalgando ondas em pranchas de madeira”. E imediatamente buscamos maneira de fabricar pranchas para nosso uso. Gregório fabricou a primeira prancha tipo caixa de fósforo, que batizamos de Ripple (“ondulação”, em inglês). Hoje analisando essa explosão do surf em Santos, acredito que parte se deve ao dia da estreia da prancha. Era janeiro de 65 ou julho de 64, só sei que era um mês de férias, e praticamente toda a equipe de natação do Internacional e mais agregados participou desse evento, totalmente informal e anárquico. Fomos em três carros: a Vemaguete do meu pai, o DKW do Moa (Moacir Rebello dos Santos), e o carro do Canarinho. Um total de 14 caras. Fomos direto para a Praia de Pernambuco, que estava deserta, pois era uma tarde chuvosa. A chuva era forte e o mar muito mexido. Uma prancha, 14 caras em volta. Jogamos na água, flutuou. Deitei em cima afundou um pouco mas dava para se locomover. Fui em direção ao fundo, passei a rebentação e tentei ficar em pé. Não durou dois segundos e ocorreu a primeira vaca de Guarujá, fui eu. Um a um, todos nós tentamos permanecer em pé e nada. A prancha era lisa e ninguém sabia que precisava usar alguma coisa para criar atrito entre o surfista e a prancha. Muito frustrados, mas certos que era apenas um princípio, saímos entusiasmados da experiência. Passeamos por Guarujá, a prancha apoiada em cobertor verde do Exército (meu pai era capitão) e bem amarrada no teto da Vemaguete. Tenho certeza que esse fato instigou diversos rapazes a ir atrás de fabricar uma prancha, pois uma semente de surf havia sido plantada em cada um. Que eu me lembre, participaram desse banho inicial da nossa prancha: Canarinho, Piolho, Jair Bala, Moacir, Sérgio Heleno, Di Renzo, Paulo Miorim (eu), Marcino, Vladi (talvez), Dagoberto Batochio e outros. Descobrimos que o melhor antiderrapante era parafina, como havia muitas velas utilizadas em despachos de umbanda na Praia de Itararé, era só catar os tocos e passar na prancha. Essa foi a única facilidade que encontramos. Como o homenageado deste ano Cocó (Eduardo Fangiano) falou, ao contrário do Rio de Janeiro o surf na Baixada Santista foi inventado por diversos amantes do então novo esporte, pois ao contrário do Rio, éramos mais simples e não possuíamos as mesmas informações dos cariocas. Cada nova descoberta de como fabricar equipamento objeto do nosso desejo era divulgada e imitada. Quando não havia acerto, a prancha era deixada de lado e começava-se a fabricar outra com novas tecnologias. Eu mesmo testei diversas pranchas de isopor que depois de pouco tempo quebrava ou se partia em diversos pedaços. O Manoel dos Santos fez uma prancha com uma ripa no meio. Ao pegar uma onda a madeira quebrou, e as pontas de madeira quase feriu o Manoel. Lembro de um dia de ressaca no Itararé que o Nei Sobral, homenageado deste ano, caiu e montou a cavalo na prancha. A prancha virou ficando com a quilha para cima e cortou a parte interna da coxa provocando perda de sangue. Nei saiu da praia para o Pronto Socorro. Por hoje é só, Aloha!!


Paulo Miorim 29/01/2019




PIONEIROS DO SURF - 1960, O MEIO



                                                            GABRIEL DAVI PIERIM




A vitrola Philips do fusquinha estava tocando I Fell Fine dos Beatles. O toca-discos era uma das atrações inusitadas do Volkswagen invocado do Antenor. Às dez horas da noite daquela sexta-feira, Antenor, Dagoberto e Sérgio Heleno esperavam Paulo Miorim na porta do Colégio Canadá, em Santos. De lá pegariam a estrada para o Rio de Janeiro.

As viagens para a cidade maravilhosa se repetiam aos finais de semana. A antiga capital do país mantinha seu aspecto cosmopolita. Era a porta de entrada para as novidades do mundo inteiro. Naquele ano de 1964, a turma de santistas acompanhou a duplicação da Rodovia Dutra. No Rio se hospedavam na casa de parentes e amigos.

O sábado de primavera amanheceu ensolarado na capital carioca. Os rapazes foram dar um passeio pela praia de Ipanema até chegar ao Arpoador. Do alto de suas pedras, vislumbraram surfistas descendo as ondas de pé sobre suas pranchas. Ficaram impressionados.

Quando chegaram a Santos, contaram para os amigos sobre a nova mania dos cariocas. Um deles, Antônio Di Renzo Filho, recordou que tinha guardado uma revista Manchete que trazia uma reportagem sobre o surfe, uma prática dos nativos havaianos que deslizavam sobre as ondas. Lembraram do amigo Gregório Stipanich, fabricante de barcos de pesca. A família de Gregório tinha um estaleiro no Japuí, em São Vicente. Da ideia para a fabricação de uma prancha foi um pulo.
 
Com as referências que possuíam, Gregório fabricou a primeira prancha tipo “caixa de fósforo”. Ela foi apelidada de Ripple (Ondulação). Paulo Miorim ia diariamente ao estaleiro acompanhar o andamento da produção.

A prancha ficou pronta e as férias chegaram. A turma resolveu fazer do batismo uma experiência única. A estreia em grande estilo foi na Praia do Pernambuco, no Guarujá. O dia estava chuvoso, o mar mexido e a praia deserta. Eles chegaram em três carros: a Vemaguete do pai do Paulo Miorim, o DKW do Moacir Rebello dos Santos e o carro do Canarinho. Estavam ali reunidos toda a equipe de natação do Clube Internacional, entre outros. Uma prancha, quatorze rapazes.

Paulo Miorim tomou a iniciativa e colocou a prancha na água. Ela flutuou. Passou a arrebentação com dificuldade, pegou a primeira onda e com ela o primeiro capote. Ficar de pé por alguns segundos foi o maior dos desafios do dia.

A frustração não diminuiu o entusiasmo dos jovens. Os dias se seguiram e a diversão continuou na praia do Itararé. Naquele ano de 1965, outros grupos de rapazes praticando o surfe e construindo novos modelos de pranchas começaram a aparecer nas praias santistas. A juventude ia tomando gosto pelo esporte.

Na manhã de 21 março de 1965, José Carlos Paioli se preparava para a Travessia da Baía de São Vicente. Na última edição da competição, o nadador tinha alcançado a 8ª posição. Ele se tornou um dos favoritos ao título.

No início da prova de Travessia, José Paioli se desviou da rota, corrigiu, recuperou o tempo e ultrapassou os concorrentes. Com o tempo de 12 minutos, o jovem de 15 anos conquistava a Travessia pela primeira vez.

A aptidão pela natação era uma herança de família. Seu pai, Carlos Paioli foi seis vezes recordista paulista. Ao se tornar técnico do Saldanha da Gama quebrou a hegemonia de mais de vinte anos do Clube Internacional, ganhando o campeonato santista infanto-juvenil.
A intimidade com as águas das piscinas e do mar conduziu José Carlos para o surfe. No final de 1964, ele folheava um exemplar da revista O Cruzeiroquando encontrou uma reportagem sobre o esporte que se difundia nas praias cariocas.

Aquela reportagem foi uma luz na vida de José Paioli. O desejo de ficar de pé sobre uma prancha tomou conta do seu pensamento. Alguns dias se passaram, Zé Paioli estava na praia do Itararé, quando viu o Paulinho Montenegro com uma prancha de madeirite. Ele correu ao seu encontro e perguntou como a prancha foi feita. Paulinho falou como arranjar uma tábua de madeirite, descreveu o desenho para fazer o outline e orientou que procurasse uma marcenaria para fazer o corte e colocar a quilha.
Zé Paioli se juntou ao amigo Geraldo Faggiano Junior. Juntos invadiram o canteiro de obras de um prédio em construção na avenida Presidente Wilson. Os garotos surrupiaram duas tábuas de uma pilha de madeirites.

No dia seguinte, Zé riscou o outline nas tábuas. A marcenaria ficava na rua Marechal Deodoro a poucos quarteirões de sua casa. Com a ajuda do pai e na companhia do amigo, ele colocou as tábuas sobre o fusca e foram até a oficina. O corte foi feito e, em casa, Zé fez o arredondamento das bordas e a pintura da prancha.

O dia de estreia estava chuvoso, mas Zé estava radiante. Ele foi com o pai e o irmão Chico Paioli para o canto do Itararé, mas só ele entrou no mar. Durante duas horas, o jovem garoto insistiu até ficar de pé sobre a prancha. O ritual mágico iria se repetir durante o ano de 1965.

Outros garotos do Itararé, entre eles os irmãos Argento, também começaram a se divertir com os madeirites, para desespero dos construtores dos edifícios de uma cidade em expansão.


      MUITO PRAZER, PAULO MIORIM


Sou um cidadão de uma região chamada Baixada Santista, que engloba as cidades do litoral sul do estado de São Paulo. Nasci numa casa da Praça Barão do Rio Branco, ponto central da cidade de São Vicente. Eram onze horas da noite e, nos trabalhos de parto, minha mãe ouvia a música de encerramento da última sessão do circo instalado no terreno em frente onde morávamos (local hoje ocupado por edifícios). Ela sempre contava isso e talvez daí venha meu fascínio pelo extraordinário, pelo humor, pela alegria e, lógico, por música. Nascer com música de circo é um privilégio. Nascido em dezembro de 1945, logo após a 2ª Guerra Mundial, eu era o terceiro filho e fui caçula até os 05 anos. Em 1951, nasceu minha irmã Maria Luiza, com síndrome de Down. Lembro bem do dia em que a Luiza nasceu. Estava na quadra jogando futebol e vi minha mãe passar dentro de uma van do Exército a acenar. Sabia que ia ter um novo membro na família.

Meu pai era militar e, desde criança, mudanças são uma constante em minha vida. Vivi meus primeiros quatro anos na Fortaleza de Itaipu, Praia Grande. Os oficiais tinham direito a morar em casa do Exército, dentro do terreno onde fica o Forte. Eram casas amplas, bem construídas, com enormes quintais, muito confortáveis. Pelo menos essas são lembranças que tenho dessas casas. Uma vida maravilhosa para uma criança, meu pai pescava grandes garoupas, sargos (de beiço e de dente), peixes galo e sempre tínhamos em nossa casa um bom estoque. Não havia geladeira e conservávamos o pescado no sal. Em 1949 meu pai foi transferido para o Rio de Janeiro onde fez um curso de moto mecanização, especializado em veículos militares. Nós moramos em Cascadura, bairro da Zona Norte. A cidade já era grande e minha mãe desenvolveu uma espécie de pânico, tal era a preocupação com meu pai, que utilizava o Trem da Central, famoso pelos acidentes e problemas que nele ocorriam. Todos os dias à tarde ela ficava a espera do meu pai, apavorada para saber se havia noticia de algum acidente. Lembro de uma forte chuva de granizo que forrou nossa rua com uma camada bem grossa de pelotas de gelo, da descoberta de uma fruta chamada cajá manga e dos primeiros jogos de futebol em um campinho que as traves eram feitas de bambu. Na época, descobri-me apaixonado por café com leite e pão com manteiga. Meu pai foi transferido para Santa Maria, Rio Grande do Sul. Uma ano depois mudamos para Santo Ângelo, uma pequena cidade . Descemos do trem no dia em que minha irmã Ieda completou 15 anos, nove de dezembro de 1951. Assustamo-nos com a pequena cidade manchada de barro vermelho.  Quatro anos depois, com a aposentadoria de meu pai, viemos morar em São Vicente. Depois de uma estada de seis meses na Praia Grande, em casa de meus avós maternos, para freqüentar o terceiro ano primário, vim morar com meus pais no bairro do Catiapoã e, poucos meses depois, mudamos para um casarão que havia na esquina das ruas XV de Novembro e Benjamin Constant, centro de São Vicente. É nessa época que começam minhas lembranças de uma cidade que não existe mais, que era tão nossa e hoje se transformou num frenético centro de consumismo. O maior clube da cidade fazia fundos com nossa casa. Era o Clube de Regatas Tumiarú, que já, naquela época tinha uma notável tradição em várias modalidades esportivas, sendo que seu maior orgulho era ter revelado Wlamir Marques, um dos maiores jogadores de basquete da história. O espaço do clube era notável, a sede social compunha-se de um salão de baile na parte superior e, no térreo, havia um bar, sala de carteado, uma pista de dança. Mas o que atraía a garotada eram as duas quadras de basquete onde passávamos os dias jogando “21” um jogo que ocupa meia quadra e pode ser jogada por equipes de um a três jogadores. Assistíamos aos jogos de basquete masculino e feminino, de futebol de salão e de vôlei do campeonato santista, torcendo pelo Tumiarú, sentados em umas arquibancadas de madeira. Essa convivência com muitos garotos foi muito rica e até hoje conservo alguns desses amigos. Lembro-me de outros, dos quais não sei que destinos tomaram, com muitas saudades e carinho. Alguns já não se encontram entre nós, mas deixaram boas lembranças.

 


Da esquerda para a direita: Antonio Di Renzo, Gregório Stipanich, Paulo Miori, Lúcia Hele, Márcia Algodoal e Márcia Magra. 


O INÍCIO DO SURF EM SÃO PAULO


1964 - Eu, Sérgio Heleno, Dagoberto Batocchio e o Antenor , filho da dona de uma escola chamada Anwer ( ficava perto da Faculdade de Letras, quase em frente à igreja da Pompéia, em Santos), íamos quase todos os finais de semana para o Rio. O Di Renzo apareceu com uma revista Manchete que trazia uma reportagem sobre um novo esporte da moçada do Rio: chamava-se surf. Gregório Stipanich fabricava barcos, nós vimos diversos caras no Rio pegando ondas com pranchas de fibra. Daí a fabricar uma prancha ôca de madeira com 2,40m, em agosto de 1964 ( mais ou menos) foi um pulo. Em seguida o Gregório fabricou outra prancha listrada de vermelho e branco com 2,80. Não havia cordinha, as pranchas enchiam de água. Muitas vezes, essa água ia para a parte da frente da prancha, ela mergulhava e o empuxo fazia com saltasse violentamente para trás.. Era um perigo. Nessa época já havia umas pranchas de Madeirit roubada das obras e a molecada tentava pegar onda, alguns com pés de pato. Raramente alguém permanecia de uns instantes de pé. A estréia da prancha foi em grande estilo na Praia de Pernambuco, com uns quinze nadadores, em três carros, numa tarde fria e nublada, onde descobrimos que sem parafina ninguém ficava em pé. 

1965 – Em maio eu e Sérgio Heleno demos baixa do Exército e pudemos 

dedicar esse período pós caserna para voltar a vida normal e surfar muito. Era um frisson, uma febre. Dia e noite falando de surf, de Havaí, hang five, hang ten e o escambau. Surf, surf, surf. Uma batalha constante com os salva-vidas do Corpo de Bombeiros. Por diversas ocasiões fomos obrigados a sair d´àgua porque o mar estava impróprio. Tínhamos que explicar que éramos nadadores, que quanto maior as ondas melhor para surfarmos. Nenhum dos salva vidas tinha sequer ouvido falar nessa nova moda: o surf. O Di Renzo nadava noCorinthians e nos finais de semana chegava louco para surfar Quando passou o filme “ Mar Raivoso”, então, ficamos alucinados. O Di Renzo assistiu quinze vezes, eu e o Sérgio Heleno umas doze. E o assunto era um só: surf. 

Começaram a aparecer vários adeptos do novo esporte: Fernandão, os gêmeos Dudu e Carlinhos (que fundariam a marca de surf wear TWIN), os irmãos Fangiano, Fernando Quizumba, Sandoval, Miro, Italiano (vendia amendoim e depois virou um bom surfista), Sidnei Negão, Timó, Nelson Caríca, Eduardo Falcão ( irmão do Charles Möeller, produtor e diretor de musicais), Nei, Detter, Barreto, Nelsinho Axel ( que morreu atropeldo quando ia surfar no Guarujá), e inúmeros outros. A grande maioria morava nas imediações da Praia de Itararé em São Vicente. O Emissário Submarino não existia, seria construído em 1975, mas em Santos começou a aparecer um pessoal. O Eduardo Nogueira (Piolho), 

grande amigo nosso, começou a surfar e se sobressaiu, é dessa época. 

1966 – O Ilha Porchat Clube patrocinou o primeiro campeonato realizado no estado de São Paulo. Tirei terceiro lugar, mas no dia da premiação não compareci e não recebi a medalha. Trouxemos o Mudinho, campeão do Rio de Janeiro e ficamos maravilhados com sua performance. Nessa época estudei com o Homero, que começava a surfar e fabricar pranchas. 

1967- Com apoio da Prefeitura de Guarujá e do Jornal da Tarde (Grupo de O Estado de São Paulo), realizamos de um campeonato no Guarujá, que realmente foi muito bem organizado e marcou para sempre como início doe surf como esporte em São Paulo. Nós fomos juízes e participantes. Piolho foi campeão, Fernandão em segundo. Daí pra frente todo mundo sabe. . 


Antonio Di Renzo (de costas) e Gregório Stipanich com uma Glaspac.


O PRIMEIRO DIA DE UMA PRANCHA MUITO ESPECIAL. 


Conto para vocês como foi colocada na água a primeira prancha que pode ser considerada como prancha de surf da Baixada Santista após a época do Osmar Gonçalves, o pioneiro desse maravilhoso esporte. 

Eu, Paulo Miorim, e o Sérgio Heleno servimos o exército no 2º Batalhão de Caçadores, em São Vicente, em 1964 e 1965. Éramos nadadores do Clube Internacional de Regatas. Devido o horário dos treinos terem se limitado às folgas do quartel, passamos a dedicar todas as horas de folga a pegar ondas de peito na Praia de Itararé, uma vez que morávamos em São Vicente. O Antonio Di Renzo Filho era nadador do Corinthians (era época do figuraça Vicente Mateus, que agradecia à Antarctica pelas brahmas e dizia que o Sócrates era invendavel, inegociável e imprestável), seus pais moravam em São Vicente e toda sexta feira vinha de São Paulo. Normalmente ficava em minha casa. No domingo visitava seus pais e retornava a São Paulo. Para completar a turma, o Gregório Stipanich, cujo pai construia barcos de pesca em um estaleiro no Japuí (São Vicente) e o Carlos Detter que tocava bossa nova ao violão. O Di Renzo era nadador da seleção brasileira e imediatamente aderiu a nossa mania de pegar ondas de peito. O Sérgio Heleno namorava a Ana Amélia, que morava no Rio de janeiro, na rua Sá Ferreira, posto 6, Copacabana. Quase todos finais de semana íamos para o Rio. Eu ficava na casa de meu tio no Bairro do Flamengo e o pessoal ficava na casa da Ana Amélia. Todas as sextas feiras a gente saia do Colégio Canadá em um fusca equipado com um toca disco: eu, Sérgio Heleno, Dagoberto Battochio e o Antenor, que era o dono do carro. Essas viagens eram embaladas ao som dos Beatles, cujos discos eram tocados na vitrola Philips. Foi nessas idas ao Rio e uma reportagem da revista Manchete que descobrimos uma nova maneira de pegar ondas. Chamava-se Surf. Temos de levar em conta que a comunicação há 50 anos atrás, nada tinha a ver com os dias de hoje, que sabemos detudo que acontece instantaneamente no mundo todo. O que acontecia no Rio era totalmente diferente do que acontecia em São Paulo e Santos. Músicas, filmes, roupas, moda em geral, costumes. Tudo diferente. O surf carioca começara uns anos antes e já havias vários praticantes, e alguns se destacavam. A gente via esse pessoal passar com suas pranchas e decidimos que faríamos uma prancha. Fibra de vidro e poliuretano eram totalmente desconhecidos por nós. Teria que ser uma prancha de madeira. 

Procuramos o Stipanich, contamos que queríamos fazer uma prancha e se seria possível fazê-la. Stipanich projetou uma prancha com cavername e tudo, escolheu um lugar escondido em que seu pai não veria a sua obra. Fizemos várias visitas e acompanhamos a gestação de um sonho. No meio de vários cascos de barcos pesqueiros em construção, havia uma pequena estrutura de madeira que era nosso objeto de desejo. Cada viagem ao Rio reforçava nossa vontade de surfar e a ansiedade de ver a prancha pronta. O bico e a popa eram dois pedaços de madeira maciça trabalhada e o revestimento de compensado marítimo. Pintada em cinza alumínio, com um raio vermelho no meio e com o nome escrito: “Ripple”, ondulação em inglês. Tinha 2,40 m de comprimento, 60 cm de largura, pesava vinte quilos seca e muito mais quando cheia d´àgua, tinha uma bolina que hoje chamamos quilha e um bujão que desenroscávamos pra esgotar a água infiltrada. 

Para colocar aquela joia na água pela primeira vez, escolhemos a Praia de Pernambuco e um dia de semana chuvoso. Fomos em três carros: a Vemaguete do meu pai, o DKW do Moacir Rebello e um terceiro carro que não lembro de quem. Fomos em doze ou treze nadadores, a prancha amarrada encima da capota do meu carro forrado com um cobertor para não estragar a pintura. Da prancha, é lógico. 

Chegados a praia de Pernambuco, que estava deserta, debaixo de forte chuva, colocamos a prancha na água, sem ter a menor idéia de que era um passo marcante para implantar um esporte que viria a ser uma febre. Mas, para nossa tristeza, salvo poucos instantes em pé, ninguém conseguiu pegar sequer uma onda. Motivo: não sabíamos da necessidade de passar parafina e garantir o atrito entre os pés e a prancha. Amarramos a prancha no carro e voltamos depois de umas duas horas de tentativas frustadas. Era época dos Beatles e a contestação, a mudança de valores e revolucionar padrões sociais eram a tônica da juventude. E a nossa turma, a maioria nadadores do Internacional, seguia essas diretrizes. 

Dias depois, em nosso reduto, que era a praia de Itararé em São Vicente, descobrimos que a parafina resolvia o problema do atrito pé e prancha. Passamos a usar as velas deixadas na praia para despachos de umbanda,ou comprávamos maços de vela para passar na prancha. 

Paulo Miorim 07/02/2019 


A ENTREGA DA PRANCHA NA GLASPAC


Foi exatamente do jeito que contei, salvo alguns detalhes esquecidos pois já se vão uns aninhos... Meu pai tinha uma Vemaguete ( perua da DKW) 1962 e a emprestava para irmos surfar. Naquela ápoca não havia rack, e o jeito era forrar o teto do carro com cobertores velhos e amarrar passando as cordas pela janelas, e rezar para a prancha não soltar com o vento. No dia em que íamos entregar a prancha TIKI para a Glaspac, que serviria de modelo para as pranchas fabricadas em série, foi na Vemaguet do meu pai que levamos. Porém, meu pai não poderia sequer desconfiar que eu iria a São Paulo com o carro dele. Saímos após o almoço, eu, Sérgio Heleno e o Di Renzo, pegamos a prancha no Japuí, próximo à Ponte Pensil, amarramos no teto do carro e subimos a via Anchieta ( a Rodovia dos Imigrantes seria executada uns dez anos depois). A Glaspac ficava na avenida Santo Amaro, já perto da São Gabriel. Era uma empresa pequena, um dos donos era pernambucano criado numa colônia inglesa e tinha um sotaque de um inglês nato. Entregamos a prancha e exigimos que a mesma fosse devolvida dois dias depois, prazo suficiente para fazer um molde da prancha Tiki. Era uma segunda feira, marcamos de buscar o modelo na quinta e retornamos. Ou melhor, começamos a viagem de volta pela avenida Santo Amaro, fomos parar na Avenida Jabaquara para pegar a rua Vergueiro e sair na Via Anchieta. Mas, como tudo que se faz escondido, ocorreu um sério imprevisto. Não havia semáforo na Praça da Árvore e um carro atravessou na minha frente. Não pude evitar a colisão. Descemos do carro para ver as avarias: para-choque amassado, vidro do farol direito quebrado, para-lama direito amassado. Foi terrível. Imediatamente formou-se um tumulto em volta dos carros. O outro carro era dirigido por uma senhora que trazia os filhos da escola. Ela me acusando de estar errado, eu, que vinha numa preferencial, com certeza de estar certo. Mas, imaginemos a cena: uma senhora com dois filhos no carro e três caras queimados do sol, muito fortes, discutindo com ela. A galera se voltou contra nós, a senhora disse que ia sair com o carro. Sentamos no chão na frente do carro da mulher e apareceu um cara grandão muito justo que começou a falar: “- Eles são moços, podem ser play-boys, mas estão certos. A senhora desculpe, mas está errada.” Em momento nenhum faltamos com o respeito para com a senhora, mas éramos superduros e não poderíamos nem pensar em pagar o conserto do carro. A multidão parou de nos acusar. Liguei para o marido dela, que veio ao local e se prontificou pagar o conserto do carro. E, após acertarmos os detalhes, seguimos viagem. Foi difícil encarar meu pai e contar que a batida havia sido em Santos. Dias depois, eu e meu irmão fomos a São Paulo e recebemos o valor do conserto. As primeiras pranchas entregues a nós eram ocas, somente com uma madeira longitudinal como estrutura (longarina) e não foram aprovadas. Nova negociação e a Glaspac fabricou a prancha que se tornaria campeão de vendas na época: com poliuretano e manta de fibra de vidro, que hoje encontramos em vários museus de surf no Brasil. Acredito ter sido um marco para desenvolvimento do surf no estado de São Paulo. 






Paulo Miorim e Sergio Heleno - últimos à direita - no primeiro campeonato de surf de SP em 1967, na praia de Pitangueiras, em Guarujá.






Campeonato Aberto do Ilha Porchat Clube - 1968 


A Ilha Porchat constitui-se como um marco geográfico da região. No início da colonização identificava a entrada da vila fundada por Martim Afonso. Em meados de 1800 pertenceu à conceituada família Porchat, que lhe passou a denominação.

A primeira propriedade foi o Grande Cassino de Jogos e Diversões que daria lugar em 1964 ao famoso Ilha Porchat Clube. A instituição, recém fundada, foi a patrocinadora do 1º Campeonato Aberto de Surfe de 1968. Na organização estavam o delegado regional de Educação Física, Geraldo Faggiano, o esportista Carlos Paioli e o diretor do Ilha Porchat Reynaldo Tersitano.

O torneio recebeu surfistas de São Paulo e do Rio de Janeiro. A grande sensação foi o carioca Carlos Roberto, o Mudinho. O surfista foi o campeão da categoria Seniores e deu um verdadeiro espetáculo nas águas do canto da Ilha na Praia do Itararé.

O campeonato começou na sexta-feira, dia 12 de abril, reuniu 140 surfistas e foi assistido por um grande público, incluindo autoridades, como o interventor estadual em São Vicente, Jorge Conway Machado e o comandante do 2º BC, coronel Lauro Roca Diegues.

No sábado entrou uma forte ressaca na ilha e as grandes ondas ajudaram no desempenho dos surfistas. Nas finais de domingo o mar diminuiu um pouco e Mudinho precisou de apenas uma onda para mostrar toda a sua habilidade e superioridade. O carioca pegou uma grande onda na linha da arrebentação com a sua prancha Hawaii Model A, realizou uma série de manobras e terminou no raso fazendo malabarismo sobre a prancha para delírio dos espectadores.

Os primeiros colocados da categoria Seniores foram: 1º Carlos Roberto, o Mudinho – 28 pontos; 2º Odailton Silva (Itararé) e Nando Gouveia (Santos) – 17 pontos; 3º Nelson Feitosa (Itararé) e Luiz Carlos Frigério (Big Kahuna/Santos) – 15 pontos; 4º José Carlos Paioli – 14,5 pontos; 5º Miroel Couto (Itararé) – 13,5 pontos; 6º José Roberto Fernandes, o Lacraia (Santos), Jô Hirano e Paulo Miorim (Itararé) – 11,5 pontos.

O melhor juvenil foi Carlinhos Argento. O surfista do Itararé alcançou 18,5 pontos. Fernando Mittelman, primeiro campeão estadual, ficou com a 2ª posição com 17,5 pontos. Os demais colocados foram: Eduardo Faggiano, o Cocó, Eduardo “Dudu” Argento, Francisco “Chico” Paioli, Nelson Ferreira da Silva, Francisco Paulo Fargiorgio e Marcelo Guimarães, o Pardal.

A categoria infantil foi dominada pelos cariocas. Os primeiros colocados foram Ricardo Fontes de Souza e Moacyr Castro, ambos com apenas 15 anos de idade. O campeão Ricardo de Souza se tornaria o conhecido Rico de Souza, vitorioso surfista brasileiro. O competidor do Itararé, Odmar Fernandes Aguiar, o Timó, ficou com a terceira colocação. As demais posições foram ocupadas pelos santistas Antônio Carlos Soares, Álvaro Luiz Inocente, Sérgio Melo Bertran, Fernando Lima e Valdemar Oldakji.

A disputa da prova feminina ficou entre três participantes: Silvia Helena Lage, Elizabeth de Campos Marsiglia e a paulistana Fernanda Maciel Marinho, primeira colocada.

O campeonato terminou às 16 horas do domingo, dia 14, com um brinde de champagne aos vencedores. Os prêmios para os primeiros colocados foram entreguem em um baile realizado no salão do Ilha Porchat Clube. Foi o primeiro campeonato da história do surfe em São Vicente.

Por Gabriel Pierin





SÃO PAULO ANOS 60 

O Segundo Grande Polo do Surf Nacional

REINALDO DRAGÃO ANDRAUS


O surfista Chicão Brasileiro na Ilha de Urubuqueçaba na divisa de Santos com São Vicente. Acervo: Patrícia Young


Influenciados pelas pranchas de madeirite do Rio,

 os paulistas encontram o seu caminho.



O surf em São Paulo se desenvolveu com suas peculiaridades. De forma diferente do Rio de Janeiro, que teve um foco central no Arpoador, na vasta costa do Estado de São Paulo, com ondas propícias para os iniciantes, o surf se desenvolveu em três regiões principais. Ubatuba ao norte, Guarujá (Ilha de Santo Amaro) e o berço original: Santos e São Vicente. Como vimos no primeiro capítulo do livro a Cidade de Santos, a maior do litoral paulista, foi o cenário dos primeiros registros do surf em território brasileiro. Após um breve hiato o surf se re-estabeleceria ali de forma definitiva.

OS PIONEIROS PAULISTAS

Depois que Osmar Gonçalves foi morar no interior, Thomas e Juá Hafers foram para os EUA, Margot Rittscher ainda continuou deslizando sobre as ondas. No meio dos anos 40, teria a arte do surf (de pé) sido abandonada nas praias paulistas?

Talvez haja um elo perdido nesta história, mas até que ele seja encontrado, vamos trabalhar com o que temos de concreto.

Conversando com o professor Francisco Alfredo Alegre Araña (Cisco), que há duas décadas comanda a Escola Radical, localizada no Posto 2 em Santos, shaper, atleta de chegada desde os eventos da década de 70 e um verdadeiro mestre e estudioso do surf, ele me passou nomes de uma série de pessoas que podem ter informações chave nesse desenvolvimento do surf no Estado de São Paulo. Muitas ainda serão procuradas...

Cisco começou a surfar em 1968 com um pranchão francês Barland/Rott 9’8”, que comprou da família Hirano. Ele conta: “Antes disso cheguei a surfar com modelos de prancha caixa de fósforo e também madeirite, antes de ganhar a minha de fibra. Ainda na década de 60 tive uma segunda prancha de isopor, embalada com celofane.”

Cisco tem guardada em sua casa uma prancha de madeirite original de 1964 fabricada por Geraldo Faggiano, pai do Cocó. Suas maiores influências foram Homero Naldinho e Horácio Cocada. Mais tarde o Flávio La Barre. Através de indicação de Cisco cheguei a Manoel dos Santos, que completará 75 anos em fevereiro de 2014, hoje ele dirige duas escolas de natação e academias em São Paulo.


MANOEL DOS SANTOS JUNIOR


Manoel dos Santos Júnior, um dos responsáveis pelo renascimento do surf em São Paulo.


Nascido em 22 de fevereiro de 1939 em Guararapes no interior de São Paulo. Em 1957 mudou-se para Santos e treinando no Clube Internacional de Regatas com os técnicos Adalberto Mariane e depois com o japonês Minoru Hirano, fez parte da seleção brasileira de natação para os Jogos Olímpicos de Roma, em 1960, conquistando a medalha de Bronze nos 100 metros – nado livre. Em 1961 bateu o recorde mundial nesta prova, mantendo-o por três anos. No início dos anos 60 mudou-se para São Paulo, finalizando a sua carreira no Esporte Clube Pinheiros.


“Morei em Santos de 1957 até 1960, fui para lá para treinar. Depois do término de minha carreira na natação, minha noiva era de Santos, eu descia todos os finais de semana e ia surfar em Itararé (São Vicente). Eu surfava junto com Roberto Hirano, que era o filho do meu técnico e tinha mais ou menos a mesma idade que eu. Na época em que eu treinava natação cheguei a morar na mesma casa que ele.

Juntos fabricamos umas pranchas de isopor, com reforço (longarina) de madeira. Isolávamos a prancha com fitas, várias voltas, para poder aplicar a lã de vidro com a resina. Nós fazíamos toda a forma da prancha, às vezes exagerávamos na curva, ficavam tortas demais. As longarinas (às vezes duas separadas) que davam a envergadura, era um serviço de marcenaria.

A ideia veio de nossa cabeça, depois de vermos filmes de Hollywood, nos quais apareciam surfistas. Foi no verão de 1958 para 1959 que decidimos fazer as primeiras pranchas. Elas mediam de 2,30 a 2,40 metros. Eram iguais às que havíamos visto nos filmes, apenas diminuímos o tamanho para aumentar a resistência, pois quanto maiores, elas quebravam mais fácil. Essas pranchas eram muito pesadas. Quando colocávamos muita lã de vidro e resina elas ficavam pesadas demais, e se diminuíamos elas perdiam a consistência e se partiam. Não havia uma espuma certa para isso, usávamos o isopor e este não tinha resistência nenhuma. Primeiro fizemos pranchas com uma longarina, depois duas e ficaram um pouco mais resistentes. As pranchas não duravam nem dois meses, mesmo se surfássemos apenas nos finais de semana. Quando percebíamos que elas iam quebrar... Já estávamos fazendo um modelo diferente, mais reforçado. O Hiraninho deve ter feito umas 15 a 20 pranchas nesse período. Passávamos vela para não escorregar.

Nosso foco principal era treinar a natação, mas nos dias que apareciam ondas boas, não era sempre, eu e o Hiraninho íamos para a praia. Não tinha mais ninguém, éramos só nós dois, no início. Nos finais de semana chegava a amontoar gente na beira da praia para nos ver surfar. Surfávamos mais no inverno, por ter menos gente. Quando perdíamos a prancha era perigoso acertar alguém na beira.

Depois eu fui para o Havaí em 1961, fui para nadar, tirei muitas fotos do pessoal surfando em Waikiki, das pranchas e trouxe isso para usarmos de base. Em 1961 as pranchas do Havaí já eram de fibra de vidro.

Preferíamos a praia de Itararé porque as ondas eram mais longas. O Hiraninho era menor do que eu e com isso era mais prático, fazia mais manobras, até o spinning (giro do corpo sobre a prancha), mas basicamente íamos nas ondas e subíamos e descíamos um pouco na parede, não fazíamos cutbacks, íamos seguindo na onda.

A partir de 1962 para 1963 deixei de ir para Santos e a turma de surfistas não chegava a dez pessoas. O Hirano continuou surfando, chegou a mandar vir pranchas do Havaí, já começaram a aparecer vários outros surfistas. Lembro que uma vez fui para o Guarujá, em 1963 para 1964 e já tinha uns trinta surfistas, lá na praia das Astúrias.”

A TURMA CRESCE COM AS MADEIRITES

Hiraninho, ou Jô Hirano, como ficou conhecido pela maioria da turma de surfistas de Santos e São Vicente, já faleceu, mas seu nome é citado por diversos pioneiros de Santos que surfam até hoje. Podemos colocar o ano de 1963 como instrumental para que o surf desabrochasse com força no Estado de São Paulo. Dos primeiros praticantes na praia de Itararé, em São Vicente, o surf foi se alastrando por Santos, depois Guarujá, chegou a Ubatuba e foi até o litoral sul. As ondas de São Paulo, como todos sabem, são muito diversificadas e excelentes para a prática do surf, desde o nível para experts, como a praia da Paúba em São Sebastião, às tranquilas ondas do Canal 3 em Santos.

A praia de Itararé com suas ondas que aparecem lá fora, quebram, formam e reformam diversas vezes, propiciando longos passeios buscando paredes abertas em seu percurso formavam o cenário perfeito para extrair o máximo daquelas pranchas de madeirite.

A evolução foi muito rápida, tudo acontecia em meses e as novidades surgiam trazidas cada vez por um adepto diferente. A maioria destes primeiros surfistas era composta pela turma dos nadadores: Jô Hirano, Di Renzo, os irmãos Paioli - José e Francisco... Cocó – Eduardo Faggiano, e seu irmão Geraldo Faggiano Junior, amparados pelo pai, Geraldo fabricaram pranchas primitivas, pesquisaram e ajudaram muito na evolução do surf paulista.

Praticamente todos estes garotos que começavam a surfar com 11, 12, 13 anos acabavam fazendo as suas próprias pranchas. Vou me valer de alguns relatos que tenho gravados para desenhar (esboçar) esta história.

Zé Paioli, o mais velho dos irmãos, nascido em 1949 conta:

“Comecei a me interessar pelo surf pois eu era nadador, foi vendo uma reportagem da revista O Cruzeiro, com o pessoal do Rio de Janeiro, que já havia começado. Eu ia para a praia em São Vicente, mas não havia visto ninguém surfando. Depois disso vi dois irmãos, que eram da família Montenegro. Eles estavam com uma prancha de madeirite, na praia de Itararé, então fui lá e perguntei como eles haviam feito a prancha. Eles me disseram para pegar uma tábua de madeirit de construção e levar numa marcenaria, desenhar o outline, fazer um rasgo para colar uma quilha com o formato da de um tubarão e colar com Araldite.

Isso foi em 1964, eu era amigo do irmão do Cocó, o Geraldo Junior, fomos à noite numa obra que tinha na Av. Presidente Wilson (havia uma pilha de madeirites lá) e pegamos duas tábuas. Levamos em uma marcenaria lá perto no dia seguinte e cortamos. Nem lembro de ter reparado na prancha dos Montenegro se ela tinha envergadura, só atentei ao detalhe da quilha. Demos uma arredondada na borda e pintei a prancha. Naquela época o material das tábuas de madeirite era muito superior aos de hoje, ele não desfolhava, era mais grosso. A qualidade era muito melhor.

Quando ela ficou pronta pedi para meu pai me levar na praia, era um dia chuvoso, eu não sabia de parafina, de vela, não sabia de nada. Eu era um bom nadador, fui para a água e fiquei nadando com a prancha até um certo ponto. Fiquei uma a duas horas na água e consegui ficar em pé em uma onda. Caramba! Maravilhoso. Eu tinha 15 anos. O Chico tinha 13, ele nem surfou nesse dia. Não tinha mais ninguém na praia. Depois de um tempo descobrimos como envergar a prancha esquentando o madeirite. Logo em seguida o Chico começou a ir comigo. Nós entrávamos na onda estourada e como a onda de Itararé abre uma parede mais para o raso, começamos a cortar as ondas. Aos poucos foram aparecendo mais surfistas e foi tudo muito rápido, depois soubemos que amigos nadadores como o Sergio Heleno e Paulo Miorim haviam trazido as primeiras madeirites. Nós estávamos ainda com madeirite, quando Di Renzo e outros nadadores amigos nossos apareceram com umas prancha caixa de fósforo, que haviam feito no Estaleiro Stepanich. Foram as primeiras pranchas ocas que vimos.”

Recentemente o shaper Eduardo Argento (1951~2013), que infelizmente faleceu neste ano, produziu uma réplica destas pranchas dentro do Museu Brasileiro do Surf, em Santos (atualmente em fase de remodelação). Estive conversando com seu irmão gêmeo TWIN, Carlos Argento Junior, nascido em 15 de março de 1951. Carlinhos também tem uma bela experiência deste início:

“Estávamos aqui no Itararé, onde morávamos e um dia meu irmão falou, vamos até ali perto da Ilha Porchat ver um pessoal surfando... E eu nem sabia o que era isso. Era uma turma pequena, os irmãos Paioli, Di Renzo, Jô Hirano – os nadadores... Menos de dez surfistas.”

Os irmãos Argento se lançaram na produção de pranchas. Primeiro de madeirite, depois as caixas de fósforo, Carlinhos destaca que a maior vantagem delas é que boiavam. Outra tentativa foi trabalhar com pranchas de isopor revestidas com tecido morim. Depois começaram com as Pranchas Eduardo Argento e Carlos Argento Junior. A nova marca foi a NÃO Surfboards, visando afastar o crescente número de pidões que queriam emprestar suas pranchas. Culminando com as Twin, já próximo aos anos 70.

A marca Twin se tornou lendária e pioneira. Fizeram a primeira surf shop em Santos, depois inauguraram o polo de Moema com uma loja na rua Imarés. Quando começaram a buscar material para fabricação de pranchas no Rio, aproveitaram para trazer algumas camisetas (tipo Hang Ten). Na garagem do prédio deles funcionava a fábrica de pranchas e uma “lojinha”, mas isto será assunto para capítulos futuros.

Ao entrevistar Carlos na TWIN, estava de passagem por lá um outro surfista dessa geração de precursores de São Vicente:

JACKSON CARDIM STAMATO BERGAMO nascido em 19/9/1950 tem a sua história:

“Comecei vendo o Cocó surfar em 1963. Esse pessoal que começou a surfar com madeirites, os nadadores Di Renzo, irmãos Paioli, Hirano, o Carioca (Nelson Feitosa - que já faleceu)... Eles sabiam manobrar com as pranchas de madeirite.

Chegou um ponto que até pensávamos assim: ‘Não precisamos de pranchas que flutuam, pois conseguimos fazer tudo aqui’. Aqui em São Paulo, os que usavam pé de pato era apenas no pé de trás, pois o da frente atrapalhava muito, não dava. Eu particularmente nunca usei. Um olhava o que outro estava fazendo – ‘Ah que legal você fez isso, deu certo?’

QUILHA – pedi para um cara que tinha ferramentas, escavar com uma tupia fazendo um buraco na prancha e encaixava aparafusando do deck para a quilha. Não tinha umas cantoneiras que alguns tentaram usar. Uma outra curiosidade foi que já na primeira prancha utilizei uma tocha para esquentar perto do bico e envergar. As madeirites quebravam, cheguei a fazer longarinas de peroba para colocar em baixo delas.”

Jackson Bergamo se considera o primeiro skatista do Brasil, descendo sozinho as ladeiras da capital paulista, sem ter visto ninguém antes, desmontando patins, laminando o shape – isso em 1967, com base no que havia visto nas revistas americanas. Jackson acrescenta que, “as REVISTAS eram a maior e única referência, se não fosse por elas não teríamos base nenhuma.”

Jackson também foi mencionado no capítulo seis. Foi ele que seguiu para o Rio, Guarujá e Santos num Fusca com Paulo Issa para afixar os pôsteres do primeiro Festival Nacional de Ubatuba em 1972.

Os adolescentes que queriam se aventurar no surf tinham que se virar para começar no esporte.

MAIS PIONEIROS

Outra galera que tem se organizado para lembrar os bons tempos do surf é o Clube dos Pioneiros de Santos, uma turma grande. Tive o prazer de encontrar com três deles para captar histórias destes tempos, no apartamento de Walter Theodosio Junior encontrei Sant’Anna e Edinho, aqui vai um aperitivo de seus relatos.

JOSÉ LUIZ SANT’ANNA - 10/1/51

“Comecei a surfar com 12 anos em 1963. A primeira vez que vi alguma referência ao surf foi numa revista Seleções da Readers Digest, a matéria chamava: ‘Cavaleiros das Ondas do Mar’. Pelo que pude ver nas fotos da revista as pranchas pareciam ser de madeira. Eu fui na Serraria Brasil comprar uma placa de cedro para fazer uma prancha maciça que flutuasse.

O segundo passo foi uma madeirite, ao arrancar uma placa da cerca da obra do Hotel Brickman, que estava em construção junto com meu amigo João derrubamos metade do tapume. Saímos andando com as futuras novas pranchas quando aparece na rua uma viatura da Polícia Marítima. Era plena era da ditadura e achamos que estaríamos ferrados, mas os guardas passaram reto.”

Sant’Anna lembra de ter visto Jô Hirano com uma prancha que flutuava. “Ele foi muito importante na evolução. Até 65 usei pranchas de madeirite. Mais tarde cheguei a fabricar pranchas de fibra durante muitos anos. Foi vendo aqueles filmes da série Beach Party que percebi que as pranchas tinham volume. O Jô era mais velho, professor de judô, falava muito pouco e não dava dica nenhuma para nós. Era um cara inacessível. Entrava para surfar com um chapelão estilo mexicano. O fato é que a prancha do Jô flutuava e as nossas madeirites afundavam. Ele sentava lá fora e nós ficávamos mais na beira.

Foi nessa época que encontrei uma matéria na revista Mecânica Popular, com uma série de materiais que eu nunca havia ouvido falar. Improvisamos usando isopor, Eucatex e minha mãe fez uma capa de lonita para isolar, arredondamos a borda só em baixo, pois em cima era reto por causa do Eucatex. Ao invés de resina usamos tinta a óleo e fincamos a quilha numa longarina de pinho. Aí sentamos ao lado do Jô. Ele não acreditou. Isso foi no Canal 1.”

WALTER THEODOSIO JUNIOR - 9/1/1953

“Morei no interior até os treze anos. Vim morar em Santos em dezembro de 1966 e vi o pessoal com pranchas de madeirite. A primeira prancha que fiz era reta, só descobri que ela precisava ter uma curva depois das primeiras embicadas. A quilha, no princípio, coloquei um reforço de madeira apenas de um lado, depois de arrancá-la algumas vezes cheguei à conclusão que tinha que colocar dois. Também já pintei esta prancha de azul. Depois comprei por Cr$ 5,00 uma prancha de madeirite branca, com a borda colorida que tinha o desenho da Pantera Cor de Rosa com uma piteira. Até 1967 fiquei com pranchas de madeirite, até que no meio do ano um colega meu da escola comentou: ‘Vamos fazer uma prancha à lá Tom Blake?’ Era uma caixa de fósforo. Nessa época estas pranchas eram feitas em dois lugares, ou na Carpintaria Guarany, ou com o Nelson da Morsa. Em maio de 68 fui encomendar uma prancha com o Coronel Parreiras, ela ficou pronta em agosto, dois meses eram apenas para curar a prancha.”

EDINHO – EDSON TADEU MARQUES DE ALMEIDA - 21/9/1953


“Eu morava no Marapé e com 11 anos de idade, em 1964 comecei a me interessar pelo movimento das madeirites, que eram tiradas de obras. Com meu vizinho Toninho fizemos duas pranchas, com uma única tábua de madeira. Estudei como eram envergadas. Para envergar usava um pano velho com álcool e colocava fogo em cima da madeirite. Isso danificava a madeira e algumas vezes quando tomávamos um tombo mais violento quebrávamos a prancha. Estudei no mesmo colégio do Cocó, que era dois anos mais velho. Foi com o pai dele, seu Geraldo, que aperfeiçoamos a técnica para envergar as pranchas. No campeonato da Ilha Porchat (1968) fui o único surfista que ainda competiu usando uma prancha do modelo caixa de fósforo. Depois criei uma marca de pranchas: Orca, até hoje ainda brinco com ela.”

Eduardo Faggiano, o Cocó, tem sua entrevista agendada para o início do próximo ano, ao lado de seu irmão Geraldo Junior (2 anos mais velho) e do pai o Sr. Geraldo Faggiano, formaram uma das mais importantes famílias pioneiras do surf paulista.

Em 1962 ele viu o surf pela primeira vez em uma reportagem da revista O Cruzeiro. Com 12 anos, sem outras referências a família produziu uma primeira madeirite. Cocó também cita Paulo Mansur, pai do ex-Prefeito Beto (96 a 2004), como a pessoa que trouxe a primeira madeirite do Rio para São Vicente. Seu Geraldo sempre incentivou e ajudou os filhos, produzindo pranchas, organizando (ao lado do pai de Zé e Chico Paioli) o primeiro campeonato de São Vicente em abril de 1968. Cocó foi o shaper original da Squalo ao lado de Paulo Issa, antes disso produziu madeirites, caixas de fósforo e pranchas de fibra, agindo por tentativa e erro – acertos. Os Faggiano introduziram inovações no Brasil, tiravam informações de uma revista Mecânica Popular em espanhol, tem recortes com manchetes tipo: ‘Grande roubo de tapumes na Cidade de Santos’. Hoje está morando em Paraty no sul do Estado do Rio de Janeiro.


PRIMÓRDIOS DO SURF NO ESTADO DE SÃO PAULO


Os irmãos José Carlos Paioli e Francisco Paulo Paioli são verdadeiras instituições do surf paulista, mais do que lendas vivas, são personagens folclóricos, carismáticos e surfistas inveterados adentrando os 60 anos de vida na ativa. Conhecer a história deles é cavar em busca de uma das raízes mais profundas do surf paulista.
























Todos sabemos dos atos pioneiros de surf em Santos nos Anos 1930, com Osmar, Thomas, Juá e suas pranchas estilo Tom Blake. Mas o surf em São Paulo começou a andar “de vez” apenas no início dos anos 60. Aqui temos diversas histórias, em praias diferentes, com artefatos distintos, pranchas construídas de forma diferenciada. Mas quando perguntamos a todos os pioneiros, sempre, os irmãos Paioli aparecem como referência.

Eles começaram a surfar quando moravam na praia do Itararé, em São Vicente e nunca deixaram de lado sua paixão da infância. Participaram do primeiro campeonato em São Paulo, em 1967 e até hoje não perdem os encontros para veteranos, ou as etapas do SP Contest.

Zé Paioli é um industrial, trabalha com um sistema de detecção de trincas em equipamentos fabris e tem casa na Barra do Una, São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, seu pico local é o canto direito da praia de Juquehy, onde muitos o consideram o “xerife” da área.

Chico por sua vez, sempre com uma atitude mais “flamboyant”, faz barulho em todos os lugares que chega, cumprimentando a todos e causando alvoroços. Além de ter se transformado em um atleta vencedor, campeão paulista e brasileiro de longboard máster, no final dos anos 80 e início dos anos 90 é considerado um dos técnicos de surf mais categorizados do ramo.

Eles mudaram de São Vicente para Moema, na capital paulista, em 1967. A Escola Paioli de Natação sempre foi um marco do bairro na esquina das ruas Pavão com Canário. O pai deles, Carlos Paioli, falecido em 2005, aos 85 anos, já era um atleta por opção, nadou no Rio Tietê quando ainda era limpo, os filhos se transformaram em exímios nadadores. Foi o pai deles que organizou, ao lado de Geraldo Faggiano, o primeiro campeonato de surf da Ilha Porchat em 1968, que contou com as presenças dos cariocas Carlos Mudinho e Rico de Souza.

Vamos conhecer como eles se envolveram com o surf, foi a partir de 1964.

ZÉ: “Comecei a me interessar pelo surf pois eu era nadador, foi vendo uma reportagem da revista O Cruzeiro, do pessoal do Rio de Janeiro, que já havia começado. Na reportagem falava da história do surf, do Hawaii, aquelas coisas todas. Mostrando como o esporte estava se desenvolvendo no Brasil e no Rio já tinha um pessoal praticando.

Eu ia para a praia em São Vicente, mas não havia visto ninguém surfando. Depois disso vi dois irmãos, que eram da família Montenegro. Eles estavam com uma prancha de madeirite, na praia do Itararé. Eu nunca havia visto uma prancha ao vivo. Então fui lá e perguntei como eles haviam feito a prancha. Eles me disseram para pegar uma tábua de madeirite de construção, cortar no meio e levar numa marcenaria, fazer o outline, fazer um rasgo para colar uma quilha com o formato da barbatana de um tubarão e colar com Araldite. Eles nos explicaram como fazer. Eram nossos vizinhos ali no Itararé, em São Vicente.

Isso foi em 1964, eu tinha 15 anos e era colega do irmão mais velho do Cocó, o Geraldo Faggiano Junior, fomos à noite numa obra que tinha na Av. Presidente Wilson, na esquina da rua da nossa casa (tinha uma pilha de madeirites lá) e pegamos duas tábuas. Uma para cada um. Levamos para casa e no dia seguinte fomos em uma marcenaria lá perto, na Marechal Deodoro, perto de onde hoje é a oficina do Delton Menezes – Classic Longboards.

Primeiro cortamos. Foi tudo de olho, fui orientando na hora. Nem lembro de ter reparado na prancha dos Montenegro se elas tinham envergadura, só o detalhe da quilha. Demos uma arredondada na borda, lixei e pintei a prancha. Naquela época era um compensado de madeirite bem melhor que os de hoje, ele não desfolhava, era mais grosso, a qualidade era muito superior. Em casa eu abri um rasgo, coloquei uma quilha, sem envergar. Pintei ela de preto. Depois de um tempo descobrimos como envergar a prancha, esquentando o madeirite.

O PRIMEIRO SURF

“Quando ela ficou pronta peguei meu irmão Chico, Paulinho nosso primo e pedi para meu pai me levar na praia, era um dia chuvoso, pavoroso, horrível. Foi todo mundo em um Fusca, nem lembro como chegamos na praia. Peguei a prancha... Só queria saber de experimentar ela. Eu não sabia de parafina, de vela, não sabia de nada. Fui lá para dentro do mar e remava, mas não conseguia entrar nas ondas.

Eu era um bom nadador, fui para a água e fiquei nadando com a prancha até um certo ponto. Fiquei uma a duas horas na água e consegui ficar em pé em uma onda. Nossa, quando eu consegui... Caramba! Maravilhoso. Foi a primeira experiência minha. Eu tinha 15 anos. O Chico tinha 13, ele nem surfou nesse dia. Não tinha mais ninguém na praia. Ninguém. Eu não via ninguém surfar no Canal 1, Canal 2. Mesmo aqueles irmãos Montenegro, eu nunca mais os vi. Depois o Chico começou a ir comigo”.

CHICO: “Eu acompanhava ele, pegava a prancha dele e surfava. A gente ia para o fundo e entrava na onda estourada. Aquela onda do Itararé tem muitas seções. A gente entrava na espuma e de repente abria uma parede, do nada, dava para cortar a onda. Foi fácil de aprender”.

ZÉ: “Tem uma história que quando nós roubamos a segunda madeirite, a notícia começou a espalhar na praia. E o pessoal começou a correr atrás e a pilha que tinha naquela obra começou a baixar. Aí o que acontece? Tinha uma turma indo lá de noite e os operários da obra pegaram os caras e levaram para a delegacia. Foram presos. Só que eram moleques. O problema é que quando começou todo mundo a querer saber, nós demos a letra de que era naquela obra que tinha os madeirites. Começou a baixar a pilha até que pegaram os caras. Isso já era em 1965, ainda surfávamos com pranchas de madeirite. Aos poucos foram aparecendo mais surfistas”.

CHICO: “Na verdade foi uma coisa muito rápida, que fica difícil você estabelecer: quem, como, quando”.

VAMOS CONSTRUIR PRANCHAS DE FIBRA

ZÉ: “A primeira prancha de fibra que a gente fez, foi depois que apareceu o Jô Hirano e o Manoel dos Santos, quando a gente estava surfando no Itararé com pranchas de madeirite, eles apareceram com duas pranchas ocas (de fibra). Uma cada um. Era oca e a envergadura dela parecia que era para baixo. Eles ficavam bem mais no fundo que a gente, pois as pranchas boiavam. Nós vimos aquilo e ficamos loucos”.

NOTA: As pranchas não eram ocas eram de isopor. O desenvolvimento do surf em São Paulo ocorreu em diversos focos e com iniciativas diferenciadas.

Em 1965 eles estavam com pranchas de madeirite. Nessa época apareceram as pranchas ocas “caixa de fósforo”, também de madeira. Em 1966 ouviram falar do Homero Naldinho (tenho entrevista ainda inédita com ele). Zé, depois de uns três meses que estava surfando viu uma prancha São Conrado, mas já estavam começando a produzir pranchas de isopor e fibra com o pai de Cocó (Eduardo Faggiano). Ainda estou procurando algumas peças deste quebra-cabeças para encaixar aqui. O fato é que Zé e Chico Paioli foram instrumentais no desenvolvimento do surf brasileiro. (Reinaldo “Dragão” Andraus – Histórias do Surf)


FABRICANDO PRANCHAS EM SÃO VICENTE




ARMANDO JAGUARY (1954-2015)


Nasci em Santos, mas o interessante é que sempre morei em São Vicente. Minha infância foi tranqüila. Aquela infância normal, de brincar na rua, jogar bola. Aquelas coisas que a gente fazia e não existe mais. 

As vezes eu ia mais para o surf do que para o colégio. Tanto é que as vezes eu faltava no colégio para surfar em Praia Grande porque estudava lá nessa época. Na volta, escondido dos pais, no mesmo ônibus eu encontrava a minha professora de inglês. Essas coisas. 

Dia de onda muito boa não tinha como não faltar. Tanto é que tinha uma prancha guardada na casa de um amigo em Praia Grande porque quando o mar estava bom era água. Mas conseguia conciliar muito bem. Só não fiz o curso universitário. 

Naquela época era meio difícil. Uma pela condição de meu pai ser funcionário público, era topógrafo em Santos, e não tinha condição de pagar uma faculdade. Na década de 1970 não existia essa competitividade, esse globalismo, essa ambição. A rapaziada era mais do paz e amor, os valores eram outros. Nós éramos desprendidos de bens materiais.

No esporte eu comecei no Tumiaru como nadador. Eu, meu primo Anadir Dias de Carvalho e algumas personalidades na época do esporte. 

Só que em 1968 eu conheci uma galera do surf. Comecei a ter mais contato com praia, porque eu vivia na piscina, e aí entrou o surf na minha vida. Tinha uns amigos que surfavam, eram os precursores do surf, que era o Longarina (Luis Fernando Longa), o Henry Torlai, Alberto Oto Ross, que era uma galera que já tinha começado o surf em São Vicente. Por intermédio desses amigos eu comecei a frequentar esse time, sempre no Itararé. Na época de férias, a gente ia segunda-feira para o Guarujá e voltava na sexta-feira, detalhe só com a bermuda e a prancha. Sem dinheiro, sem nada porque os amigos e amigas traziam as coisas para gente comer na praia. Nós passávamos a semana inteira pegando onda. A gente tomava banho escondido no Ferrareto Hotel.

Todo mundo queria ter uma prancha e era muito difícil você ter acesso ao material a informações. Era uma aventura você fazer uma prancha. Na época existia um único fabricante em São Vicente chamado Nelson que faleceu num acidente e foi o precursor nessa área. Nós fazíamos pranchas para os amigos, mais artesanal. A fabricação veio justamente pela dificuldade de se ter uma prancha. As boas eram só americanas e o pessoal engatinhava muito em relação a fabricação. 

O Luis Fernando Longa fazia pranchas na praça Coronel Lopes e foi com ele que eu tive as primeiras noções de fabricação. Aquela coisa do moleque que vai na casa do amigo que faz prancha. Os nossos pais eram muito amigos e foi aí que eu comecei. Se hoje eu sou um fabricante de prancha eu devo o meu aprendizado, o começo ao Luis Fernando Longa. 







































Luis Fernando Longa em sua oficina de pranchas.


A maioria das pessoas esconde a origem, principalmente na arte. Teve uma senhora, mãe de um amigo meu, que me deu dinheiro para fazer a minha primeira prancha. O nome dela é Noêmia Gertrude Losachi, mãe do Geraldo Losachi, amigo meu. Ele era filho de um classificador de café e comprou a prancha no Omero e eu não tinha. Ela me deu o dinheiro para comprar, fui para São Paulo na reforplas que era o único lugar no Estado que vendia material para prancha de surf e fiz a minha primeira prancha. Devo a ela isso. Se não fosse ela ter dado o dinheiro para comprar o meu caminho talvez fosse outro. Muita prancha eu fiz de graça para chegar lá. Você sempre tem um mentor, você sempre aprendeu com alguém. Essas pessoas quando atingem um patamar fazem questão de esquecer de onde vieram e quem foi que os induziu àquilo. Devo ressaltar isso. 

Profissionalmente eu passei a fazer no início da década de 1980. Anteriormente trabalhei em outras atividades, mas me dedicar a fabricação foi na década de 1980. O surf naquela época era marginalizado. Você ser surfista era ser vagabundo, drogado. Quando se falava em droga naquela época só se referiam a maconha. Mas todos os surfistas daquele tempo eram meio que renegados pela sociedade. Foi um começo difícil. Nós surfávamos por paixão, porque nós gostávamos. 

Nossa vida era complicada em relação à isso, mas nós sempre surfamos a vida toda. Nunca por interesse, nem por comércio e sim por paixão. No tempo de auge da fabricação eu conciliava os meus horários. Acordava as quatro da manhã para trabalhar até as quatro da tarde. Eu fazia uma parte da prancha que hoje são funcionários que fazem. As quatro da tarde, categoricamente, todo dia se tivesse onda era surf. Parava até no meio do caminho, no meio de um shape abandonava e ia surfar. Tinha o horário que era das quatro as seis e meia da tarde, no verão as vezes até as oito da noite.

O MERCADO DO SURF E OS PIONEIROS VICENTINOS 

Eu sou assumido um cara estouradão, tenho um temperamento horrível. Eu nunca consegui ser submisso a alguém e a fabricação de prancha na época para mim foi a liberdade porque não tinha patrão. Passei a viver só disso. Em 1986 foi o auge em que eu chegava a fazer 120 pranchas por mês, naquela época isso era muito. Foi o auge da minha carreira, meu nome foi lá em cima. Hoje mudou muito. A alguns anos atrás qualquer surfista que quisesse uma prancha ele pedia para o pai leva-lo a uma fábrica. Hoje está tudo direcionado para as lojas, motivo de eu ter aberto a loja. O mercado ficou diferente. Antes todo mundo ia numa fábrica. Está aparecendo em cada esquina um fabricante de prancha, porque ele leva a máquina, faz a parte de usinagem e a prancha vem praticamente pronta. Você dá o softwear para ele, ele passa na máquina e pronto.

No Brasil existe uma diferença em relação aos Estados Unidos e ao Havaí. Lá quanto mais velho o cara for na profissão dele, mais conhecido ele é. No Brasil não. Um havaiano, que tem oitenta anos, ele veio para a feira de surf em São Paulo e foi idolatrado. No Brasil isso não acontece. Nós temos o Omero e o Naldinho, que foram precursores na fábrica de pranchas. Hoje eles vivem praticamente das pessoas que têm consideração por isso, que são poucas. Profissionalmente eixaram o cara de lado.

Tenho dois filhos, um do primeiro casamento que tem 16 anos, chama-se Aran, e o segundo que é o Andreas, tem 12 anos agora. Não acredito que sigam o caminho do pai. O primeiro seguiu, porque eu toco guitarra, bateria, e o meu primeiro filho é baterista e canta numa banda. Apesar dos tios serem surfistas, ele não surfa. O Andreas está naquelas de surfar com o amigo, mas dizer sinceramente que ele goste do surf como eu gostava e eu me dediquei. É o que mais talvez possa ser um surfista.

O esporte hoje está tirando muitas crianças de caminhos errados. Há uma inversão de valores. Quando nós começamos nós éramos marginalizados, mas hoje o esporte serve para tirar muita criança do caminho errado. Virou uma ferramenta de inclusão social. 

O surf movimenta R$ 2 milhões por ano, virou uma coisa muito interessante para todo mundo. Quando você via uma firma multinacional interessada pelo surf ? Hoje todo mundo quer, o surf wear virou uma identidade para muitos jovens. 

Nós temos vários atletas brasileiros que conseguiram despontar lá fora. Um deles é o Fábio Gouveia. Ele colocou o País numa posição no esporte lá fora que nunca havia sido conseguido. Ele foi um trampolim para que os brasileiros acreditassem. Foi um estímulo para muita gente. Essa garotada nova vai para os campeonatos no exterior, o WCT e WQS. Atualmente nós temos o Adriano Mineirinho, que é do Guarujá, representando muito bem o Brasil. Nós devemos a dois caras, o Fábio Gouveia e o Teco Padaratz. Só que antes deles, os precursores foram o Pepe, Ricardo Bocão, Roberto Valério, Jorge Patieli.


Nós tivemos vários atletas em São Vicente. Dizem que o surf começou em Santos com o Osmar. Mas eu acredito que tenha começado em São Vicente porque nós temos várias pessoas que têm mais de 50 anos de surf e nunca foram citadas. Tem o falecido Miroel Couto, que era um expoente do surf. Eu não posso esquecer de gente que foi tão famosa. O Omero era um fabricante de Santos e existia uma richa entre Santos e São Vicente, mas eu não posso deixar de citar o cara só porque ele era de Santos. Deixaram de citar vários surfistas de São Vicente de ponta. (Adaptado de entrevista ao Jornal Vicentino, 7 de outubro de 2006).





LONGARINA, 

A ARQUITETURA E A ENGENHARIA DO SURF



Luis Fernando de Oliveira e Silva, o "Longarina" ou "Longa" é uma lenda viva do surf vicentino e da região. Nenhum historiador ou memorialista desse esporte esquece seu nome como referência de pioneirismo e principalmente da sua atuação como mestre-artesão de pranchas. Ele é a memória de um tempo em que as praias do litoral paulista travavam uma luta entre a selva e a civilização, com a ocupação urbana irreversível. Os surfistas eram nessa época os hippies dos oceanos, mediadores entre a natureza e cidade, flutuando incrivelmente nas ondas. Eram semideuses marinhos, mistura de humanos e netunos, desafiando raios, trovões, marés, ressacas com as suas engenhocas deslizantes sobre as águas frias e salgadas. É uma confraria de "nativos", etermamente jovens, e se tratam como irmãos. Espíritos hawaianos nas orlas do Brasil. Longarina é um deles.

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Nasci em Belém do Pará, em 21 1 51. Meu pai é natural de São Vicente, fazia serviço militar lá;  minha é natural de Belém. Vim para São Vicente com três anos de idade onde me criei e vivi até 1992 hoje moro em Praia Grande. Meus pais e meus irmãos ainda moram em São Vicente, meu pai com 94 anos e minha mãe com 87.

São Vicente era uma cidade calma e tranquila passei a infância na vila São Jorge até os 10 anos depois mudamos para a praça do correio onde vivi pôr uns 12 anos ,fiz serviço militar, no Rio de janeiro fui para lá em 69 e voltei em 71 servi no regimento de infantaria Santos Dumont na brigada de paraquedistas do exército em Deodoro. 

O surf eu conheci através da revista Seleção quando tinha 11 anos o título era Cavaleiros das ondas do mar. E com 13 anos vi pela primeira vez no Itararé surfando num sábado de uma tarde de verão Sérgio Heleno, Di Renzo e Paulo Miorim com uma prancha modelo caixa de fósforo amarela. Desse dia em diante, comecei a fazer minhas pranchas de Madeirite junto com o amigo João Carlos Kubas, na casa dele, na rua Martins Fontes na descida da linha de trem.

Depois com o ir e vir da praia fui conhecer Eduardo Fargiano o Cocó, filho do professor Geraldo, que foi um dos pioneiros do surf vicentino em Madeirite em em seguida de Fiberglass

Daí começa a era de surf de São Vicente. 

Aprendi a arte de shape com Nelson Exel onde tinha uma sala na garagem de sua casa na rua Benjamin Constante e que já fabricava a Nel Surf Board que por sinal já era bem avançado para a época, isso acho que 1965. Nelsinho, como era conhecido, infelizmente veio a falecer num acidente de carro no Guarujá em 71 por atropelamento, onde estavam presentes Vicente Ferraro, Salvio, Geraldinho e eu.

Depois desse trágico acontecimento, houve uma dispersão do grupo  e cada um seguiu o seu caminho,  mas continuamos nos encontrando no mar na praia e a vida seguiu.

Eu continei fazendo minhas pranchas, onde morava na praça do Correio , até que mudamos para a rua do Colégio. Então comecei a trabalhar com Homero Naldinho. Sua oficina ficava na rua de trás da minha casa onde tinha o Mercado Municipal. Shapeei por sete anos na Homero onde ele fabricava sua própria espuma de poliuretano. Shapeava de 7 a 10 pranchas por dia na plaina. Uma vez fiz 20 shaps em um dia, das sete da manhã as oito da noite.

Continuei surfando e shapeando , até que sofri um acidente no mar que me afastou por mais de um ano do trabalho e do esporte chegando a abandonar por um bom tempo a ideia de surf . O acidente foi, acho, não lembro bem, em 78.

Voltei a trabalhar em casa no início de 80 onde recebi um convite para ir trabalhar na La Barre, em Itanhaém, onde fiquei por cinco anos. Depois fui para a Star Modelo, com o falecido Paschoal e junto com Delton Menezes onde eram sócios.  Fiquei uns três anos, não lembro bem. Voltei a fazer as minhas pranchas em casa por um bom tempo.

Na década de 90 trabalhei como shaper na Venezuela, na fábrica de um amigo, a Martim Surf Board. Depois voltei a trabalhar na minha própria oficina, até que fui convidado pelo Almir Salazar a trabalhar com ele na New Advance, também como shaper por um bom tempo, acho que uns cinco anos.

Na época em trabalhei na New Advance, shapeei algumas pranchas para Picuruta Salazar em especial Long board onde chegou a se consagrar campeão mundial pelo ISA World Games. Algumas pranchas para ele surfar nas pororocas também.

E durante o período que estive na G Zero shapeava para a família Pacelli em especial para Nicole Pacelli e seu Jorge Pacelli onde Nicole veio a se tornar a primeira campeã mundial de Sup no Hawaii.

Quando deixei a New Advance, fui chamado pelo Armando Jaguari, da Fluid Energi. para dar um apoio em um pedido muito grande que era da Vikings, e a partir desse trabalho, graças ao Armando, fui convidado a fazer parte equipe de shape da Vikings, onde fiquei acho que uns três anos

Saindo da Vikings voltei a trabalhar com minhas pranchas em casa onde tenho uma sala de shape . Até que, acho que em 2009,  recebi um convite através do Neco Carbone para trabalhar em Guarujá , na G Zero como shaper no começo da febre do Surf . Onde fiquei por sete ou 8 anos .

E é isso. Hoje estou com 69 anos de idade e 56 anos de surf . Casado com Helena Yara Barrella e Silva há 36 anos, tenho um casal de filhos  e moro em Praia Grande, onde tenho minha sala de shape onde continuo fazendo minhas pranchas artesanalmente.


OS HIPPIES E NETUNOS DOS OCEANOS

SURFISTAS VICENTINOS viajando para o Rio de Janeiro em 1978. Roteiro pelo litoral norte, de bicicleta. Fernando Longa com Antonio Elias e Clau. Avervo: Fergando Longa.




























SURFISTAS VICENTINOS NO ITARARÉ








Surfistas vicentinos reclamavam da proibição da prática de surf nas praias do Guarujá. Ai medida foi tomada pelo delegado de Policia daquele município, José Arary, em função de alguns acidentes ocorridos com banhistas. (Acervo de Marcos Braga)

A matéria foi publicada num jornal da região (não identificado) com depoimentos dos seguintes atletas:

Miroel Couto,residente na avenida prefeito José Monteiro , 770: “ Delegacia está certa em prevenir os acidentes . Mas a solução seria um aumento da área com cordas e boias. Só nos resta os domingos na Praia do Itararé, que é cheio de turistas. Mas vou falar com prefeito para demarcar com cordas a nossa área”.

Luis Costa Neto, morador da rua Fernando Costa, 78: “Sou contra a determinação da Delegacia do Guarujá, pois lá tem ondas de dois a três metros. Não deveriam tomar uma medida dessa e fazer um acordo demarcando um trecho para os surfistas , de preferência nas Pitangueiras, Pernambuco e Tombo”.

Joel Pereira de Souza Filho, o Alemão, residente à rua Emílio Carlos, 272: “ As melhores ondas estão no Guarujá e os surfistas poderão ir para Ubatuba, que é mais longe. Os banhistas não respeitam a área dos surfistas e por isso acontecem os acidentes. Muitas vezes perdemos a prancha e os turistas correm para pegar e, como fazem indevidamente, ficam feridos”.

Nicolau Fernandes Liparrelli, rua Claudio Luiz da Costa, 90, 2º andar, apartamento 6: “As autoridades podiam demarcar um trecho com cordas e boias”

Delton de Menezes, rua Quintino Bocaiuva, 1537, apartamento 2: “A mesma coisa deveria ser feita no Itararé pois o trecho que temos é praticamente sobre as pedras”

Bruno Caruso, residente à rua Franklin Roosevelt, 111, apartamento 27: “Nossa área fica sobre as pedras e podemos perder nossas pranchas aqui no Itararé. Quando tem ressaca nem podemos usar o nosso espaço”.

Gerson Dias, rua Dr. Fernando Costa , 524: “Com a proibição do Guarujá ficamos apenas com o Itararé, onde o trecho para a prática do esporte é muito pequeno. Antes tínhamos o trecho da Pedra da Feiticeira até o Posto Salva Vidas, mas foi diminuindo. Mesmo assim ninguém respeita a nossa área”.

Luis Paulo Amorim, José Augusto Navarro e Carlos Eduardo Hablitzel também foram entrevistados.