terça-feira, 15 de março de 2016



O Editor


DALMO DUQUE DOS SANTOS. Professor Efetivo de História da Rede Estadual de Ensino de São Paulo (E.E. Margarida Pinho Rodrigues). Professor de Humanidades da Faculdade São Vicente-UNIBR. Mestre em Comunicação e Cultura pela UNIP de São Paulo.  Bacharel e Licenciado em História pela PUC de São Paulo. Licenciado em Pedagogia pela FAFIS de Presidente Venceslau. Membro do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico de São Vicente.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Os "mistérios" de São Vicente


A história de São Vicente merece ser mais pesquisada. Por falta de informações apuradas, muitas histórias sobre os primeiros tempos desse núcleo de povoamento permanecem obscuras, transformadas em lendas. É o que conta Hernâni Donato, neste artigo publicado na edição 63 da Leopoldianum - Revista de Estudos e Comunicações da Universidade Católica de Santos, em abril de 1997.

Hernâni Donato (*)

Certeza que me acompanha e me espicaça é a de que São Vicente reserva para os pesquisadores suficientemente curiosos um elenco volumoso quanto precioso de assuntos a serem transformados em palpitantes revelações históricas. Não, propriamente, novidades para os veteranos. Porém, tópicos merecedores de serem retirados ao silêncio e ganharem versões definitivas. Para ganho geral.

Pois ali se concentraram pessoas e circunstâncias que em outros países, a exemplo dos Estados Unidos, da Alemanha, da Inglaterra etc., teriam promovido a felicidade autoral e editorial de muitos interessados. Dizem respeito não somente à crônica regional. Uns quantos desses mistérios por aclarar, podem, até, levar o refazimento da história continental.

Nesse caso está o tema de Peabiru. De São Vicente saía o vetor principal. Este, depois de enovelar-se pela serrania litorânea, de atravessar o chão piratiningano, atufava-se pelo sertão hoje paulista-paranaense e lá em Cuzco, já no Peru, inseria-se no extraordinário sistema viário incaico. Não seria, em solo brasileiro, estrada de primeira classe no rol das andinas. Percorreria, então, nestas partes, território a ser futuramente incorporado ao império. De todo modo, a primeira via transcontinental Atlântico-Pacífico, funcionando - e sabe-se que bastante bem - antes de Colombo e de Cabral. Dias em que local vicentino acomodava porto, povoação, gente vinda da Europa e do interior do continente. Quem? Quanto? Como? Fazendo o quê?

Se ligarmos essa situação, sobre a qual discretearam, sem maior detalhamento, autores do porte de Taunay, Washington Luís, Batista Pereira, Sérgio Buarque de Holanda, Aluísio de Almeida e outros, ao fato de que precedentemente ao ano 1500 aquele sítio era conhecido pelo nome de Porto dos Escravos, não é preciso inflar a imaginação para aceitar como verdadeira a afirmação de que portugueses e outros navegantes conheciam e traficavam bem antes de 1532 na que é hoje São Vicente.

A documentação é clara. Abasteceram-se ali as frotas de Cristóvão Pires em 1511; Estevão de Frois, 1512; Nuno Dias de Solis, 1515; Fernão de Magalhães, 1519; Jean de Parmentier, Rodrigo de Acuña, Jofre de Loaysa, Diogo Garcia, Sebastião Caboto, 1525. E outros e outros. Um centro muito ativo, portanto, de produção e de comércio.

São muitas as atividades. O padre Viotti ("O anel e a pedra", página 350) refere que logo em 1525 vicentinos estão na expedição de Salvador Correa de Sá e Benevides. Foram "prestar o seu concurso militar à restauração da cidade (Rio de Janeiro), deixando provas de audácia, destreza e valor".

E a Guerra de Moschera? Trata-se de convite excitante para os que poderiam iluminar de vez esses nichos de aventura onde poucos penetraram com estudos responsáveis. Quem localizaria (não me consta hajam localizado o lugar da vila de I-Caa-Para fundada pelos espanhóis subidos de Buenos Aires sob o comando de Ruy Garcia de Moschera).

Ao redor dessa vila e entre ela e São Vicente travou-se a primeira guerra de brasileiros contra invasores estrangeiros. Foi isso de 1534 a 1536. Dura e nem sempre bem sucedida campanha com vicentinos em armas defendendo sua vila, vencendo e perdendo, padecendo o saque e o incêndio da povoação. Também a isso, São Vicente sobreviveu. Acontecimento de tamanha magnitude, com significado não apenas local mas também nacional, sendo muito pouco o que se tem de certo a seu respeito.

O filão vai mais além. Há mais convites sugestivos para um atraente e de certo compensador mergulho nesse passado que só é distante porque o deixaram afastar-se e embuçar no esquecimento. Sabe-se, por exemplo, que no combate de 13/5/1560 contra os franceses, no Rio de Janeiro, o fogo mais eficiente lançado sobre as posições gaulesas foi o disparado por um bergantim vicentino. Até onde, vicentino? Quem o tripulava? Que fim o levou?

No século XVI, São Vicente foi também sinônimo e sítio de fartura. Sarmiento de Gamboa escreveu (1582) nas Memórias que em Buenos Aires "não havia abundância de gêneros e vitualhas para serem vendidos e nem mesmo para si próprios. Em Assunção... tudo era impossível". Vale dizer, penúria, quase a fome. Mas em São Vicente, fartura total.

Ali, ele, Gamboa, escamba (a metade paga com roupas, vinhos, calçados) a seguinte lista de gêneros: 341 arrobas e 22 libras de carne de vaca seca; 2.654 arrobas e 30 libras de carne de vaca salgada fresca; 371 arrobas de toucinho; 5.636 alqueires da farinha de mandioca; 9.774 libras de tortinhas de farinha de mandioca biscoitadas; 26 alqueires de arroz beneficiado; 70 alqueires de arroz em casca; 9 arrobas de sebo; 193 tábuas.

Tábuas quer dizer serraria; tortinhas biscoitadas, fornos e padeiros; arroz beneficiado quer dizer maquinaria especial; o volume da carne quer dizer pecuária desenvolvida e abatedouro e salgadouro. E todo esse rol para uma frota. Imaginemos o movimento industrial e comercial da região, à época.

Esse dispor comercial e jogar com tanta comida em tempo e lugar de escassez torna mais fascinante a hipótese levantada por cronistas e autoridades castelhanas do Prata, conforme o levantado e analisado por Duílio Crispim Farina, de que tais conveniências faziam parte da política portuguesa de enfraquecer a posição espanhola. Os vicentinos chamariam para si, a fim de alimentá-los e curá-los, "os membros das guarnições castelhanas flagelados pela fome (e) os contendores dos bandos rivais, em rixas (...) na ilha de Santa Catarina e somente os deixava sair, para dirigirem-se a Assunção. Com isso tudo, iniciava-se o fim da guarnição de Santa Catarina".

Claro, estes pontos e mais alguns não são de todo inéditos. Mas têm sido apenas aflorados. O que pretendo, neste espaço, é deixar uma provocação: quem sabe, entre os jovens santistas e vicentinos, haja uns quantos dispostos a aprofundar pesquisas e nos brindar com algo mais sobre fatos e pessoas assim decididamente referenciais.

Nem é o caso de evocar a primeira Câmara Municipal das Américas, as feitorias, os engenhos, a introdução do gado e de vegetais. Ou mais, ou menos, tais assuntos mereceram consideração.

Porém, e a notável referência a que na São Vicente dos dias iniciais tenha funcionado um cenáculo (Academia seria pensar demais) literário brasileiro? Há quem diga terem alguns dos encontros de padres, nobres, funcionários, aventureiros e seus comentários versado nada mais nada menos do que A Divina Comédia. Sim, aquela de Dante cujo volume teria ido de mão em mão trazido pelo nobre genovês Adorno.

Claro, sei que por aquela altura do calendário quinhentista não se fazia conhecer pelo título atual, mas simplesmente, Comédia. Ou A Comédia de Dante. Mas, quem conhece o título que lhe davam os comentadores vicentinos? Trata-se, é certo, de pesquisa especialmente difícil. Mas qual, das que valeram a pena o terem sido realizadas, mostrou-se fácil?

Vamos a elas, em nome de São Vicente?


(*) Escritor e historiador, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Membro da Academia Paulista de Letras.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Arqueólogos descobrem vestígios de engenho do século XVII em São Vicente

Os objetos foram encontrados no Bairro do Japui, logo após a Ponte Pênsil.

REJANE LIMA - O Estado de São Paulo -15 de julho de 2011 SÃO VICENTE -

Uma descoberta arqueológica em São Vicente está ajudando a elucidar um período pouco documentado da história brasileira: o início do ciclo da cana-de-açúcar no País, que começou com os engenhos do litoral paulista.

Escavações nas ruínas do Porto das Naus descobriram dois tanques de caldo de cana e mais de 400 fragmentos de peças usadas no engenho de Jerônimo Leitão, construído em 1580 na área próxima ao primeiro trapiche alfandegado do Brasil. "Esses tanques eram utilizados para fazer melado e torrões de açúcar, que eram levados para Portugal. Acreditamos que tenham entre seis e dez deles nessa área", explica o arqueólogo Manoel Mateus Gonzalez, que comemora a descoberta das duas estruturas circulares feitas com grandes pedras com raios de 2,2 metros e de 1,5 metro.

Entre as peças encontradas, Gonzalez destaca os fragmentos de "formas de pão de açúcar" - peças de cerâmica com pequeno orifício na extremidade, onde o melado era colocado depois de cozido para passar por decantação. Delas saíam torrões de açúcar para então serem levados à "casa de purgar", onde eram limpos, purificados, divididos e classificados segundo a qualidade. História.

Relatos históricos contam que o engenho de açúcar de Jerônimo Leitão funcionou junto à área do Porto das Naus de 1580 até pelo menos 1615, quando corsários comandados pelo pirata holandês Joris Van Spilbergen incendiaram a Vila de São Vicente. Antes do engenho, o Porto das Naus consistia em um atracadouro de madeiras em estacas, que foi instalado oficialmente por Martim Afonso de Sousa em 1532, mas que desde 1510 já era utilizado por Antônio Rodrigues e João Ramalho, o "Bacharel de Cananeia". Em 1540, o porto perdeu a importância. Foi quando o chamado "maremoto" destruiu a antiga vila e assoreou a entrada da barra da baia de São Vicente, tornando-a inavegável para embarcações de grande porte.

O historiador da Prefeitura de São Vicente, Marcos Braga, afirma que o achado tem grande importância histórica, porque até então não havia provas materiais da existência do engenho. "Os documentos que existem são generalistas, dizem que Jerônimo Leitão construiu um trapiche, uma capela (Nossa Senhora das Naus) e a casa de purgar, mas os relatos não descrevem o engenho e não há desenhos, pinturas, fotografias ou plantas", afirma.

As escavações no Porto das Naus começaram em maio do ano passado e os tanques são a primeira grande descoberta do projeto, realizado pelo Centro Regional de Pesquisas Arqueológicas (Cerpa) em parceria com a Prefeitura de São Vicente. Segundo Gonzalez, que dirige o Cerpa, o Porto das Naus tem potencial arqueológico para dez anos de escavações. "Tem toda a área do entorno, do morro, e as escavações subaquáticas, mas que custam mais caro e para realizá-las precisaremos de parceiros", disse o arqueólogo, que acredita que embaixo do mar possam ser encontradas embarcações, ferramentas e equipamentos bélicos.

As ruínas ficam em área de mil metros quadrados, bem próximas à Ponte Pênsil, e são tombadas pelos órgãos de patrimônio municipal e estadual e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). "Havia vários desses pequenos engenhos no litoral paulista, mas esse é o primeiro de que temos comprovação. Temos o engenho dos Erasmos, em Santos, mas era um engenho real, movido por rodas de água, não por força animal como o do Jerônimo Leitão", explica o arquiteto do Iphan Victor Hugo Mori.



quarta-feira, 3 de junho de 2009

Peabiru em exposição

Instalação do Peabiru na exposição Terra Paulista realizada em 2005 no Sesc Pompéia, em São Paulo. Concebida pelos artistas-autores como um labirinto interativo, a peça foi construída também para servir de brinquedo para crianças, as quais podiam subir e descer nas cordas , lançando-se em redes de proteção. Fotos: Rodrigo Oliveira. A exposição foi produzida pelo CENPEC – Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária.




sexta-feira, 24 de abril de 2009

Rota São Vicente - Cuzco


Rota principal e ramais do peabiru entre São Vicente e Cuzco.


Fonte: Atlas Municpal Escolar Histórico, Geográfico, Ambiental. Rio Claro SP. UNESP - Laboratório de Ensino de Geografia e Ciências Naturais.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Peabiru na Escola

Porto Tumiaru, por Benedito Calixto


MODELO DE PROJETO INTERDISCIPLINAR – ENSINO MÉDIO E FUNDAMENTAL


TEMA: Peabiru, patrimônio cultural de São Vicente


1. DURAÇÃO: 2º e 3º bimestres de 2009


2. OBJETIVOS GERAIS

O projeto tem como objetivo geral investigar as diferentes dimensões do Peabiru, uma estrada pedestre utilizada pelos indígenas em vários pontos geográficos do continente.
Busca-se dessa forma, resgatar a memória d e um amplo período pré-histórico da região da Baixada Santista, denominada e abrangida durante a colonização portuguesa como Capitania de São Vicente.

O Peabiru foi construído no período pré-cabralino com uma trilha principal e inúmeros ramais interligados por diversas regiões do Cone Sul. Abrangia todo o litoral vicentino da capitania, o interior de São Paulo, norte de Santa Catarina e Paraná, parte do Paraguai, Argentina até atingir o Perú. Todas as fontes historiográficas antigas apontam a região de São Vicente como portal desse caminho pré-colonial.


3. OBJETIVOS ESPECÍFICOS

No aspecto educacional: as diferentes dimensões do Peabiru não permitem que o assunto seja investigado como um tema genérico e esgotável. Trata-se de uma temática muito ampla e que contempla o conhecimento em seus múltiplos aspectos disciplinares, devendo ser explorado como atividade lúdica e científica das áreas e nas respectivas séries do ensino médio e fundamental.
No aspecto histórico-cultural: criar oportunidades para o desenvolvimento de uma mentalidade de valorização do patrimônio histórico e turístico regional e local.


4. JUSTIFICATIVA

O Peabiru é um marco do patrimônio histórico regional e local, embora não tenha sido ainda encontradas provas materiais da sua existência em nossa região. A pesquisa e a difusão desse assunto podem estimular a busca de provas e a ampliação de informações sobre o tema. Trata-se também de um capítulo pouco conhecido da nossa história e igualmente pouco abordado na historiografia tradicional. Mas está diretamente relacionado com a história regional e local. No currículo das séries iniciais do ensino médio e fundamental esse tema é proposto como pesquisa de um elemento arqueológico ou da pré-história local. Conhecer e difundir o Peabiru torna-se não somente um incentivo à pesquisa científica em seus múltiplos segmentos, mas também a preparação para o cultivo da memória e o desenvolvimento do patrimônio histórico regional.


5. DESENVOLVIMENTO E AVALIAÇÃO

O assunto terá como ponto de partida o estudo sistematizado das fontes históricas disponíveis textos históricos, mapas, artigos publicados em revistas especializadas, entrevistas com especialistas, etc. Esse primeiro contato permitirá – nas respectivas séries e formatos adaptados pelas disciplinas – a apropriação desse conhecimento como um todo.

Como estratégia de identificação cultural, serão desenvolvidos elementos de comunicação visual: logomarca, bandeira, adesivos, medalhas, camisetas, bonés, etc, cuja confecção e custos serão feitas através de parcerias entre a APM da Escola e a iniciativa privada.

Num segundo momento, de acordo com as respectivas abordagens e séries, o tema será desdobrado em múltiplas atividades culturais (lúdicas e científicas). Aqui serão, portanto avaliadas, de forma contínua – parcial e específica por disciplina; e também de forma coletiva, as habilidades e competências previstas nos respectivos planos de ensino das disciplinas e séries participantes.

Os instrumentos de avaliação poderão ser aplicados pelos próprios professores – no caso específico de nota bimestral individual - e pela escola, como peso coletivo na mesma nota. Os quocientes serão definidos em reuniões pedagógicas específica para a avaliação e aplicação do projeto.


6. CONCLUSÃO

Como conclusão, propomos a realização de uma exposição visual em diversos formatos artísticos e comunicativos.
Propõe-se também a realização de um evento externo através de uma Caminhada Histórica entre a escola e um ponto geográfico local, para marcar a lembrança e o culto patrimonial ao Peabiru. O dia escolhido da caminhada e do culto poderá ser , inclusive, ser sugerido para as autoridades competentes como projeto de criação de um Feriado Municipal do Peabiru.


7. BIBLIOGRAFIA


Secretaria da Educação de São Paulo – CENP - Coordenação do Desenvolvimento dos Conteúdos

Programáticos e dos Cadernos dos Professores e dos Alunos - 2009

Secretaria da Educação de São Paulo – CENP – O Currículo na Escola Média -2004

Donato, E. 1997. Sumé e Peabiru: mistérios maiores do século da descoberta. SP, Edições GRD.

MEC – Parâmetros Curriculares Nacionais – Ensino Médio e Fundamental

http://peabirucalunga.blogspot.com/