domingo, 28 de julho de 2019

ÍCONE CENTENÁRIO


























Ponte Pênsil fotografada do Morro do Japui. Ao fundo o Morro dos Barbosas, o Guamium e a Serra do Mar.


Para simbolizar e representar a mais antiga cidade do Brasil nada mais emblemática do que a centenária Ponte Pênsil. Construída originalmente entre 1911 e 1914 como equipamento de transmissão do esgoto de Santos e São Vicente em direção ao então bairro de Praia Grande, a ponte fez parte do projeto de saneamento da Ilha de São Vicente, juntamente com os canais, organizado pelo engenheiro Saturnino de Brito. Junto ao sopé do Morro dos Barbosas, foi construída a segunda estação elevatória de esgoto em São São Vicente, tendo sido a primeira construída junto à praia do Gonzaguinha, entre as atuais avenidas presidente Wilson e Antônio Rodrigues. 





quinta-feira, 11 de julho de 2019

TITULAÇÃO HISTÓRICA



Detalhe do Marco Padrão dos 450 anos da fundação da Vila de São Vicente (1532-1932) 



CELULLA MATER DA NACIONALIDADE 


A primeira vila da América Portuguesa, fundada por Martim Afonso de Sousa conforme ordens do rei de Portugal, dom João III, em uma ilha descoberta na expedição de Gaspar de Lemos, em 1502, que a batizou em homenagem a São Vicente Mártir (de acordo com registros de Américo Vespúcio). 



CIDADE MONUMENTO DA HISTÓRIA DA PÁTRIA 


Lei nº 4.603 de 20 de março de 1965, aprovada pelo Congresso Nacional, em Ato da Presidência da República, assinado pelo Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, às 12 horas, no Palácio das Laranjeiras, Rio de Janeiro. 



BERÇO DA DEMOCRACIA DAS AMÉRICAS 


Em 22 de agosto de 1532, ocorreu a primeira eleição da América, em que foram escolhidos os primeiros oficiais da Câmara, atualmente equivalente ao cargo de vereador.



MEMORIAL DESCRITIVO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO 


São Vicente – Remanescentes da Vila Colonial e Porto das Naus

Os Remanescentes da Vila Colonial e Porto das Naus, em São Vicente-SP, foram tombados por sua importância cultural.

IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

Nome atribuído: Vila Colonial de São Vicente: remanescentes

Localização: Parte Continental – São Vicente-SP

Número do Processo: 0514-T-51

Livro Histórico: Nº inscr. 308, vol. 1, f. 051, 17/01/1955

Observação: A Vila Colonial de São Vicente foi erigida em Monumento Nacional pela Lei nº 1.618-A, de 06/06/1952.

Descrição: Remanescentes da antiga Vila Colonial, particularmente a Igreja Matriz, compreendendo as obras de talha e imagens antigas.

Fonte: Iphan.




























Largo da Matriz e Praça João Pessoa, antigo Largo de Santo Antonio. 



CONDEPHAAT – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico

Nome atribuído: Remanescentes da Vila Colonial e Porto das Naus

Localização: Parte Continental

Número do Processo: 00373/73

Resolução de Tombamento: Ex-Officio em 30/03/1982 (Sem publicação no D.O.E.)

Livro do Tombo Histórico: Nº inscr. 162, p. 36, 30/03/1982

Descrição: 

A origem de São Vicente remonta à época do início da colonização do Brasil, quando era ainda feitoria. Foi a primeira vila oficialmente fundada no Brasil, em 1532, com a chegada de Martim Afonso de Sousa. Os remanescentes da Vila Colonial de São Vicente, Porto das Naus e Igreja Matriz, localizam-se, respectivamente, na parte continental, em uma área definida pela cumiada do morro do Japuí (linha de fundo), ribeira (linha de frente), perpendicular baixada do pegão da Ponte Pênsil (lado direito) e perpendicular baixada do sopé extremo do Japuí (lado esquerdo); e na parte insular. O tombamento das ruínas do Porto das Naus, em pedra e cal, incluiu o espelho d’água que acompanha toda a linha de frente, continental, acima determinada, com 1 km de largura. A igreja matriz, reconstruída em 1757, em pedra e cal, possui ainda vestígios da construção do século XVI, como colunas, sacrário e imagens em terra-cota, entre elas, Nossa Senhora da Conceição e a de Santo Antônio, de autoria de Gonçalo Fernandes, de 1560.


 Marco Antonio Lança. 
Arquiteto e Memorialista.
























Bairro continental do Japuí, avenida Tupiniquins e ruínas do Porto da Naus, na década de 1950

O COLETIVO




CALUNGAH - Coletivo dos Historiadores de São Vicente foi uma iniciativa do organizador  para a reunião de autores e publicação dos seus textos inseridos nesta obra cuja finalidade é divulgar e preservar a história e a memória de São Vicente-SP. 



AILTON MARTINS

AFONSO SCHMIDT

ALESSANDRO JOSÉ PADIN FERREIRA

ANTÔNIO LIMA DE ANDRADE 

ANTÔNIO TELEJINSKY 

ARMANDO JAGUARY 

BEATRIZ PICCOLOTO SIQUEIRA BUENO 

BENEDITO CALIXTO 

CARLOS EUGÊNIO MARCONDES DE MOURA 

CARLOS PIMENTEL MENDES 

CLÁUDIA VARELA 

COSTA E SILVA SOBRINHO

DALMO DUQUE DOS SANTOS 

EDISON ELOY DE SOUZA

EDSON TELLES DE AZEVEDO 

FERNANDO MARTINS LICHTI 

FRANCISCO HENRIQUE MIORIM

FRANCISCO SODERO TOLEDO

FREI GASPAR DA MADRE DE DEUS

HELDER DOS SANTOS OLIVEIRA

J. MUNIZ JR 

JAIME MESQUITA CALDAS 

JOSÉ DO CARMO NEVES 

JOSÉ MIGUEL WISNIK 

PE. JOÃO LEONIR DALL’ALBA

JORGE CALDEIRA 

JORGE ELBEL 

JORGE MACIEL 

JÚLIO VASQUEZ FILHO 

LUIZ ANTÔNIO PIRES 

LUIZ D’ALINCOURT

MÁRCIA REGINA SILVA DO VALE

MARCO ANTÔNIO LANÇA 

MARTINIANO J. SILVA 

NOEMI FRANCESCA DE MACEDO 

OSVALDO LESCRECK FILHO 

PAULO DELLA ROSA 

PAULO SETÚBAL

PEDRO TAQUES DE ALMEIDA PAES LEME

RAFAEL FRANÇA 

REINALDO "DRAGÃO" ANDRAUS

REINALDO MACHADO 

RICARDO BISPO 

ROBERTO CONDE GUERRA

SÍLVIA DE CASTRO BACELLAR DO CARMO

SILVIO ELIZEI

SIMPLÍCIO BRANDO

UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES

VICTOR LOPES VELEIJE 

VICTOR MIRANDA 

WERNER VANA 

WILSON VERTA





SUMÁRIO



INTRODUÇÃO 

A SÍNTESE VICENTINA.
A MADRUGADA DO BRASIL.
A CIVILIZAÇÃO DOS PORTOS.
CINCO SÉCULOS DE HISTÓRIA.
OCUPAÇÃO E INTERIORIZAÇÃO.
O PORTO TIBIRIÇÁ NO SERTÃO.
O PORTO REGIONAL E OS CICLOS ECONÔMICOS.
A POLÍTICA E A AUTONOMIA DAS CIDADES.
TURISMO E AS NOVAS ÁREAS DE POVOAMENTO.
A NOVA OCUPAÇÃO CONTINENTAL VICENTINA. 

O PORTO DOS ESCRAVOS - SÃO VICENTE PRÉ-COLONIAL 

CRONOLOGIA 3.000 AC -1.1531 DC 

O PORTAL DA MONTANHA DE PRATA.
OS "MISTÉRIOS” DE SÃO VICENTE.
O BACHAREL DE CANANÉIA. 

O PORTO DO AÇÚCAR -SÃO VICENTE COLONIAL 

CRONOLOGIA 1532 DC -1821 DC 

A ARMADA DE MARTIM AFONSO.
A CÉLULA MATER DA NAÇÃO.
DONATÁRIOS DE SÃO VICENTE.
AS VILAS DA CAPITANIA DE SÃO VICENTE.
O ANTIGO LARGO DE SANTO ANTONIO.
A VILLA PRIMITIVA. OS PRIMEIROS VICENTINOS.
OS HOMENS DO AÇÚCAR.
JOSÉ, JOSEFA E SEUS SETE FILHOS.
MARGARIDA INCENDEIA CORAÇÕES E A CÂMARA.
ONDA GIGANTE DESTRÓI A VILA.
A VILA PRÉ-AFONSINA.
A TERCEIRA BARRA OU BARRA SUL.
A LENDA DE ITAÍRA.
ORIGEM VICENTINA DO EXÉRCITO.
O PRIMEIRO RICO DE SÃO PAULO.
THOMÉ DE SOUZA VISITA SÃO VICENTE.
A PRIMEIRA MOEDA VICENTINA.
O CACIQUE TIBIRIÇÁ.
CONFISSÕES DE JOÃO RAMALHO.
CAPITÃO VICENTINO FUNDOU LAGUNA-SC.
O FREI GASPAR DA MADRE DE DEUS.
A CALÇADA DO LORENA. A ILHA DO MUDO. 


O PORTO DO CAFÉ E DAS FERROVIAS - SÃO VICENTE IMPERIAL 

CRONOLOGIA 1822 DC – 1888 DC 

D. PEDRO II EM SÃO VICENTE.
SÃO VICENTE E A VILA DE SANTOS.
O ARROJO DOS BARBOSAS.
JUCA MORGADO, O INDUSTRIAL VICENTINO.
TOPOGRAPHIA DA VILLA DE SÃO VICENTE DE 1852.
JOÃO E O MORRO DOS BARBOSAS.
O BECO DO MACHADO. SÃO VICENTE EM 1873.
A CASA CARAMURU.
A AVENIDA ANTÔNIO EMMERICH.
ABOLIÇÃO EM 31 DE OUTUBRO.
A PRINCESA ISABEL E O CONDE D’EU EM SÃO VICENTE.
A BIQUINHA DE ANCHIETA.
PAINEL DE 50 ANOS DECORA A BIQUINHA.
RIOS VICENTINOS.
OS CALUNGAS. 


O PORTO DAS INDÚSTRIAS E DAS RODOVIAS -SÃO VICENTE REPUBLICANA 

CRONOLOGIA 1889 DC -2019 DC 

DE YATCH PARA PRAIA GRANDE.
DOIS CASOS DE POLÍCIA.
ABERTURA DA AVENIDA ANTÔNIO EMMERICH.
VILA ELEVADA À CIDADE. SERTANISTAS VICENTINOS.
O HISTORIADOR VICENTINO.
O TUMIARU E OS FEITOS VICENTINOS.
PEQUENA PIANISTA EM SÃO VICENTE.
SATURNINO DE BRITO E A PONTE PÊNSIL.
SANTOS E SÃO VICENTE EM 1913.
A TRAJETÓRIA DE IVANI RIBEIRO.
MIRABELLI ASSOMBRA SÃO VICENTE.
 O PELOURINHO NO MUSEU PAULISTA.
A CHÁCARA DOS INOCENTES.
OS CINEMAS DE SÃO VICENTE.
UM VIRTUOSE DO VIOLÃO.
A CRIAÇÃO DA PRAÇA BARÃO DO RIO BRANCO.
O LEGENDÁRIO CONJUNTO CALUNGA.
O FEITIÇO VICENTINO F.C.
A URBANIZAÇÃO DA ÁREA CONTINENTAL.
VICENTINOS NA REVOLUÇÃO.
O MARCO PADRÃO.
 ESPIÕES NAZISTAS EM SÃO VICENTE.
PEPE, O CANHÃO DA MOTA LIMA.
O 2º BATALHÃO DE CAÇADORES.
BUGRE, BUGRE, BUGRE!!!
NOITADAS NO BEIRA.
COMÉRCIO, INDÚSTRIA E AGRICULTURA.
ANDRAUS, UM PREFEITO EMPRESÁRIO.
UM GOVERNADOR VICENTINO.
MORADORA VIVE NAS DUAS CIDADES.
TAMBORES.
ESTOURO DE BOIADA.
VICENTINOS E SANTISTAS. CAIÇARAS E CALUNGAS.
PERDENDO OS LIMITES.
O CALUNGA QUE IA GOVERNAR SANTOS.
O PREFEITO ATLETA E ILUMINADOR.
A MOCIDADE SANTISTA DE PADRE PAULO.
KOYU, DEPUTADO. VICENTINO CONSTITUINTE.
A PRIMEIRA ENCENAÇÃO.
MOSTRA DE ARTE EM SANTOS.
EXTRATERRESTRES EM SÃO VICENTE.
BETO VOLPE E O HIPUPIARA.
UM NIEMEYER NA ILHA PORCHAT.
GUARANIS INVADEM PARANAPUÃ.
SHOPPING EM SÃO VICENTE.
O ASSASSINATO DE EMILY.
DESCOBERTA HISTÓRICA EM SÃO VICENTE.
ARQUEÓLOGOS NO PORTO DAS NAUS.
VANDALISMO NA ESTAÇÃO ELEVATÓRIA.
CESAR MARIANO VICENTINO.
ESTUDANTE MORTO A FACADAS.
100 ANOS DO HOSPITAL SÃO JOSÉ.
TERTÚLIAS HISTÓRICAS.
MEMORIAL DAS CADEIRAS DO IHGSV. 

SÃO VICENTE NA MEMÓRIA 

SÃO VICENTE EM 1952.
TEMPORAL E CALAMIDADE EM 1956.

MEMÓRIA DA DIPLOMACIA.
PRESIDENTE PORTUGUÊS VISITA SÃO VICENTE.

MEMÓRIA DA POLÍTICA.
A PRIMEIRA MULHER NA CÂMARA.
JORGE BIERRENBACH SENRA. 
EXECUTIVOS E VEREADORES DE SÃO VICENTE.

MEMÓRIA DO TRANSPORTE 
CAMINHOS DE SÃO VICENTE.
AS PONTES DE SÃO VICENTE.

MEMÓRIAS URBANAS.
TRANSFORMAÇÕES NA CIDADE.
A CIDADE ERA TODA VERDE.
TOPONÍMIA VICENTINA.
RUAS, AVENIDAS E LUGARES.
SÃO VICENTE ERA UM JARDIM.
MATA ATLÂNTICA NO HORTO.
MUSEU DA ESCRAVATURA.
SANTUÁRIO ECOLÓGICOS.
GRILAGEM DE TERRAS NOS 50.
CRESCIMENTO E DEGRADAÇÃO.
FAVELAS E REFAVELAS VICENTINAS.
PARQUE MUDOU A VIDA NO SAMBAIATUBA.
MEMÓRIAS PERIFÉRICAS.
CAMINHO DAS ÍNDIAS
AS TRANSFORMAÇÕES DOS BAIRROS VICENTINOS
AS INVASÕES E OCUPAÇÕES DA ÁREA CONTINENTAL
OS BAIRROS VICENTINOS
CIDADE MONUMENTO.
MUDANÇAS NA PAISAGEM.
A EXPLOSÃO IMOBILIÁRIA.
MUSEU À BEIRA DO OCEANO.
NÃO EXISTE MAIS.
SÃO VICENTE EM TRÊS TEMPOS, ARQUITETURA E URBANIZAÇAO INSULAR. COMIDAS VICENTINAS. 

MEMÓRIA DA IMIGRAÇÃO
DA FOME EM PORTUGAL AO SUCESSO EM SÃO VICENTE.

MEMÓRIA DA MÚSICA.
A ESQUINA DA SAUDADE.
O HINO DE SÃO VICENTE.
INSTANTÂNEOS DA MEMÓRIA MUSICAL VICENTINA.
A ALMA DA MÚSICA CALUNGA.

MEMÓRIA DA AVENTURA
WILLY AURELI DESCOBRE O RIO DA SOLIDÃO.
SÃO VICENTE E O PORTO TIBIRIÇÁ.

MEMÓRIA DO ESPORTE.
SÃO VICENTE E O SANTOS DE PELÉ.
O OPERÁRIO DO HIPISMO.
O CLUBE DE REGATAS TUMIARU.
COOPERAÇÃO DE SÃO VICENTE AOS ESPORTES DE SANTOS.
O INTRÉPIDO ANTONIO ROCHA.
TUMIARUENSES REMAM 1.134 MILHAS.
OS ARISTOCRATAS DO SANTOS GOLF CLUB DE SÂO VICENTE.
NA ONDA DO SURF.

MEMÓRIA DA EDUCAÇÃO. 
RECORDANDO ANTIGOS PROFESSORES.
DA ESCOLA DO POVO AO GRUPÃO.
ZINA DE CASTRO BICUDO.
ESTUDEI NO MARTIM AFONSO. 



INTRODUÇÃO E PRÓLOGO





























Ponte Pênsil e Morro dos Barbosas vistos da Prainha (continente). Óleo sobre tela do jovem pintor Sizenando Calixto, filho de Benedito Calixto, moradores da rua Martim Afonso, 112, em São Vicente.



A história de São Vicente não é apenas a narrativa cartorial e cronológica de uma localidade geográfica. São Vicente é a mãe fisiológica e ideológica de todas as cidades brasileiras, que rompeu registros e limites, como uma célula que se dividiu e multiplicou-se a partir de um típico núcleo marítimo-portuário da Europa do século XV. 

Contar toda a história de uma cidade de quase 500 anos é um trabalho que demandaria extensa pesquisa para reunir fontes e compor uma narrativa que ao mesmo tempo contemplasse a ciência histórica e a poética memorialista. 

Quando o tema é grandioso e extenso, todos os historiadores agem com o devido respeito e cautela porque sabem da complexidade e da dificuldade para elaboração da síntese, que não é apenas um resumo vulgar e sim a essência desse tipo de narrativa científica. 

E não foi por outro motivo que a maioria dos grandes eruditos que escreveram sobre a capitania vicentina se limitaram a dizer que produziram somente alguns fragmentos de memória, para que a tarefa fosse complementada posteriormente. 

Este trabalho não é diferente. 

Reunimos aqui neste coletivo de historiadores e memorialistas alguns documentos que julgamos necessários e suficientes para essa conjuntura. Para tanto, como base norteadora, abrimos uma sequência cronológica ilustrada, para que as lacunas sejam futuramente preenchidas pelos nossos sucessores, assim como nos valemos do precioso trabalho dos que nos antecederam. 

                                                                                                                      O ORGANIZADOR 





Marco do Porto das Naus (Porto dos Escravos) e ruínas do Engenho de Jerônimo Leitão.


A MADRUGADA DO BRASIL 


DALMO DUQUE DOS SANTOS 


São Vicente é uma das localidades mais citadas nos livros e artigos históricos sobre a formação do Brasil. É quase impossível falar da origem e raízes do nosso país sem se referir a São Vicente. Quase nenhum escritor, artista ou sociólogo consegue expressar ou explicar a nossa brasilidade sem lembrar dos elementos culturais europeus, indígenas e africanos que se misturaram nessa ilha e depois se espalharam pelo Brasil afora. Érico Veríssimo, o grande literato gaúcho, ao descrever o cenário paradisíaco e dar vida a Tibicuera, o seu personagem mítico, indígena e atemporal, chamou a experiência acontecida em São Vicente de “A madrugada do Brasil”. 

Uns falam dessa Gênese vicentina e brasiliana com orgulho, outros apenas como reconhecimento científico óbvio; e outros reconhecem, porém escondem um certo quê de inveja e despeita por não aceitar que um lugar tão simples - como uma célula ou um casebre familiar rústico - pode gerar descendentes tão diversos e lugares imensamente maiores do que a semente original do qual foram gerados. Ao tentar desconstruir a historicidade de São Vicente, minimizando os fatos e desprezando causas e efeitos, acabam chamando a atenção dos curiosos que querem saber mais e mais sobre o porto e a vila onde nasceu o Brasil. Parece que São Vicente lembra o Éden onde João Ramalho e suas mulheres nativas andavam nus, pecaram e formaram as primeiras gerações de mestiços ou mamelucos. 

Ainda hoje as pessoas não entendem porque, ao passar por São Vicente (que tinha outros nomes) Martim Afonso não parou para anunciar sua chegada ao Brasil , se dirigindo para a Argentina, tentando penetrar na Bacia do Prata. Só na volta decidiu fundar a vila e tomar as providências da sua função política. 

Todas as viagens da expansão marítima européias eram pautadas pelos negócios mercantilistas e repletas de estratégias de conquista e segredos sobre as descobertas e posses territoriais. A maioria dos navegadores, sempre acompanhados de auxiliares náuticos de prestígio, partiam das cidades litorâneas européias sem revelar seus destinos; e quando revelavam, logo desconfiava-se de que se tratava de um blefe para despistar os espiões espalhados por todos os portos europeus, a serviço de reis e grandes mercadores. 

O objetivo de Martim Afonso era encontrar caminho para explorar ouro, prata e diamantes. Sua presença em São Vicente foi uma espécie de prêmio de consolação pelo fracasso na sua busca original, restando tomar posse oficial a um porto já existente , estabelecer o sistema de colonização e dar continuidade à sua prospecção de negócios aliados ao rei de Portugal. Tanto que foi embora poucos meses depois da chegada e nunca mais retornou ao Brasil. 

Nessa outra missão ele não fracassou. 


A CIVILIZAÇÃO DOS PORTOS 

A civilização que os portugueses fundaram em São Vicente foi a cultura marítima milenar do Mediterrâneo, a mesma que eles herdaram dos fenícios que colonizaram a Península Ibérica há mais de dois mil anos. Herdaram o porto e as práticas das trocas nas quais o comércio de escravos ocupava o ponto alto das transações. O Porto de Lagos, o maior entreposto comercial do sul da Europa, especializado no tráfico de escravos, foi o grande modelo de expansão comercial dos portugueses. Ele foi reproduzido no Brasil logo após o descobrimento pelas expedições costeiras e implantado no Porto Tumiaru (das Naus) pelos primeiros degredados aqui deixados em 1502. O degredo era a atividade mais eficiente de prospecção e exploração dos novos territórios pois funcionava como motor das bases empreendedoras do império comercial português. A prática reduzia riscos e garantia o desenvolvimento econômico da operação portuária. Gonçalo da Costa, Cosme Fernandes, Antonio Rodrigues, Duarte Chaves, Francisco de Chaves e João Ramalho fizeram esse papel precursor da colonização. A unidade portuária era a verdadeira céllula mater da expansão marítima. 

Seguindo o modelo de Lagos, a missão dos navegadores era encontrar um lugar geograficamente adequado para estacionar navios, plantar cana-de-açúcar nos arredores, aprisionar e vender escravos e trocar mercadorias necessárias e valiosas. Lagos tornou-se no século XV o maior centro da exploração marítima portuguesa. A famosa frota D. João I, que conquistou Ceuta em 1415, foi reunida no Porto de Lagos antes de partir para a África. O Infante Henrique Navegador viveu a maior parte da sua vida em Lagos e também foi dali que D. Sebastião partiu para nunca mais voltar na sua Cruzada contra Kasr El Kibir, no Marrocos, em 1578. Muito antes da ascensão de Lisboa, navios carregados de especiarias e mercadorias fluíam para Lagos, cujos marinheiros eram os principais entusiastas da captura de escravos africanos, vendidos e dispersos em toda a Europa, trazendo lucros altíssimos à monarquia e comerciantes de Portugal. O Porto da Mina, base portuguesa na costa africana, exportou mais de 35 mil escravos para o Novo Mundo. O Conde Francisco Ferreira dos Santos, naturalizado no Rio em 1808, foi considerado o maior traficante traficante de escravos, exportando mais de 11 mil africanos para o Brasil, milhares deles desembarcados em Santos. O príncipe Henrique patrocinava e captava um quinto de toda a venda de escravos introduzidos por navios de sua bandeira. Em 1450 a demanda por escravos no Porto de Lagos era tão alta que os trazidos da Mauritânia davam lucros de até 700%. Foi por esse e muitos outros motivos comerciais que ao chegar ao Brasil, Martim Afonso tratou logo de expulsar os “donos” do Porto das Naus e tomar posse da próspera praça comercial que já existia no Tumiaru. 

O porto era, como ainda é hoje, o termômetro dos negócios. É assim há séculos e continua sendo a atividade econômica mais importante do mundo e do litoral paulista. 

O Brasil só se tornou Brasil por causa do Porto das Naus, ideia que foi levada pelos vicentinos para Cananéia, São Francisco do Sul, Rio de Janeiro e muitas outras regiões do litoral brasileiro. Tanto as Entradas como as Bandeiras, nada mais eram do que um Porto Seco, uma interiorização e extensão do porto marítimo fora de Portugal. São Bernardo do Campo, Santo André e São Paulo continuaram sendo locais de abastecimento do porto vicentino, até que o núcleo dos Cubas ampliasse a base portuária vicentina no valongo da Vila de Santos, com autorização da governadora da Capitania, Ana Pimentel. 

É por esse motivo que, em todas as épocas da vida portuária regional, encontramos vicentinos em meio aos negócios de Santos, Guarujá, Cubatão e São Sebastião. O comerciante Mansuetto Pierotti é um exemplo típico: nasceu em Barretos, veio para São Vicente ainda criança, estudou em escola pública e depois tornou-se um dos mais importantes fornecedores de navios no Porto de Santos; tão importante que se tornou até prefeito da cidade portuária de São Sebastião. Ele e seus amigos, vicentinos e santistas, celebraram essa irmandade portuária fundando em São Vicente o “Feitiço Futebol Clube” no ano 1950. 

Muitos outros vicentinos, geralmente descendentes de europeus, se tornaram influentes comerciantes, profissionais liberais e burocratas aduaneiros, sobretudo na época do Porto do Café. Sem esquecer-se dos milhares de estivadores e carregadores de sacas, a grande maioria descendentes de índios e africanos, que deixavam diariamente os subúrbios vicentinos para transitar durantes décadas entre os navios e armazéns do cais. Não era diferente no Porto do Açúcar e nem foi diferente no período do Porto das Indústrias. A Vila de São Vicente e o velho Porto das Naus nunca deixaram de povoar as lembranças do passado e os sonhos de futuro dos trabalhadores do porto. 

Ruínas do Porto das Naus, entrada do Mar Pequeno, no Japuí. Reprodução colonial do Porto de Lagos. 


O PORTO DOS ESCRAVOS 

São Vicente respira história há cinco séculos. Pouco tempo para os habitantes de outros continentes, porém um tempo intenso na experiência dos povos que construíram o Novo Mundo. História dos nativos e dos degredados europeus que aqui chegaram nos anos seguintes ao descobrimento; história da primeira vila fundada em 1532 e das demais que lhe seguiram o modelo colonial, como por exemplo, Santos, São Paulo, Cuiabá, Laguna e Rio de Janeiro (todas fundadas por vicentinos); história das Entradas e Bandeiras Vicentinas, da Capitania, da Província e Estado de São Paulo; uma parte importante da história da metrópole mercantilista portuguesa e finalmente a história do Brasil nas suas três idades políticas. 

O nome oficial São Vicente foi dado em 1502 pelo navegador Américo Vespúcio, a serviço de D. Manuel I, que seguiu a tradição católica do santo do dia (22 de janeiro), substituindo as identidades já conhecidas pelos antigos moradores e visitantes marítimos. Nessa expedição estava a bordo Cosme Fernandes (o Bacharel), degredado que foi deixado em Cananéia e que depois viria a São Vicente para empreender seus negócios. 

A expressão Primeira Cidade do Brasil, atribuída a São Vicente, virou conceito histórico popular e ganhou múltiplos usos entre artistas e intelectuais, com as três marcas etnológicas do seu povo: tumiaru (indígena); vicentina (ibérica) e calunga (africana). 

Nenhum arraial, lavoura, engenho, igreja, porto, estrada e serviços domésticos existiriam se não houvesse o trabalho escravo dos índios e negros; os primeiros, capturados e comercializados pelos mamelucos nas matas, e os outros, seqüestrados na África e mantidos no Brasil sob a vigilância severa e violenta dos feitores e capitães de mato 

Não se sabe se eram apenas escravos indígenas ou se também já havia em São Vicente escravos africanos, pois o entreposto vicentino era amplamente conhecido entre os traficantes e navegadores da época. Era muito comum encontrar jovens indígenas seqüestradas no Brasil e nos Andes sendo exploradas como mercadorias exóticas nos bordéis de cidades do litoral da França nesse e em outros períodos. Tanto a captura e oferta de índios como de africanos era possível e habitual nas rotas marítimas e portos da América do sul, central e do norte. Francisco Adolfo Varnhagem - historiador e pesquisador dos arquivos coloniais em Portugal – relata que em 1531 Martim Afonso de Souza desembarcou na Bahia alguns escravos encontrados na Caravela Santa Maria do Cabo. A caravela havia sido aprisionada e incorporada à sua esquadra. Uma parte desse mesmo lote de africanos foi trazida para São Vicente, em 20 de janeiro de 1532, para trabalhar na lavoura de cana-de-açúcar e no chamado Engenho do Governador. Varnhagem informa também que, em 1535, o donatário Duarte Coelho importou para os engenhos de Pernambuco os primeiros escravos negros, quando de sua chegada. 

OCUPAÇÃO E INTERIORIZAÇÃO 

Intimamente ligada ao contexto da fundação do Brasil, a história de São Vicente teve períodos bem distintos desde a sua origem mais remota no início do século XVI. 

Primeiramente serviu de base para a ocupação e expansão territorial entre o litoral e o interior, assistindo o povoamento e as primeiras explorações de riquezas como o pau-brasil, a cana de açúcar e a mineração. 

Num segundo momento, não mais como capitania hereditária e colônia portuguesa, até chegar ao século XIX, São Vicente passa por um longo período de declínio. A vila-mãe, isolada e esquecida pela Corte imperial, testemunha a formação do Estado Nacional, com a definição de um novo mapa político-territorial. Nessa fase acontece a expansão cafeeira na então Província de São Paulo, da qual ainda fazia parte o atual estado do Paraná. 

E finalmente o terceiro período, o século XX do Brasil republicano, na qual São Paulo se expande novamente para o interior, por força das ferrovias, derrubando matas, abrindo fazendas e fundando inúmeros patrimônios e municípios. 

Há que se lembrar que nesses três períodos a presença portuguesa foi marcante na vida vicentina, sobretudo nos momentos em que a vila passa por fases difíceis. Enquanto alguns dos seus moradores nativos se conformaram ou se acomodaram às crises, muitos imigrantes, sobretudo os ibéricos de espírito empreendedor, passaram a enxergar nesses contextos oportunidades de superação. Econômicos e modestos, eles buscavam na simplicidade urbana vicentina preços mais módicos para suas despesas pessoais e início dos futuros negócios na região. Naturalmente, sempre inquietos e afeitos à liderança, logo se envolviam nas questões sociais, assumindo responsabilidades políticas e comunitárias. 

O PORTO TIBIRIÇÁ NO SERTÃO 

Outro detalhe importante dessa trajetória e que não poderíamos deixar de relatar na cronologia e na memória vicentina contemporânea. No final do século XIX, mais da metade do território paulista ainda era despovoado. O Oeste civilizado ia somente até a Serra de Botucatu. Dali em diante a vida ainda era selvagem. “Sertão distante”, como dizia os antigos vicentinos. Esse cenário só iria mudar nas primeiras décadas do século XX, quando o governador Jorge Tibiriçá, alinhado com a expansão ferroviária, ordenou e concluíram as medidas políticas de ocupação daquele vasto território que terminava nas margens do rio Paraná, divisa com o então único estado de Mato Grosso. Essa ocupação, por meio da empresa colonizadora Diederichsen-Tibiriçá - mais tarde Companhia de Viação São Paulo - Mato Grosso - se deu nos mesmos moldes da expansão vicentina dos tempos coloniais. Um dos sócios da CVSPMG era o comerciante santista Frederico Ernesto de Aguiar Whitaker Júnior. E tal feito foi obra de dois exploradores paulistas: o capitão Francisco Whitaker e o coronel Paulino Carlos, ambos descendentes de famílias da antiga capitania, estabelecidas em Santos e no Alto Tietê. Eles chefiaram uma derradeira “bandeira vicentina”, navegando em batelões pelos os rios Tietê e Paraná e se tornaram os fundadores do Porto Tibiriçá, em 1907. Esta foi, nesses moldes, a última localidade a ser fundada no estado. Estes, sim, foram os últimos bandeirantes, salvo os descendentes de João Ramalho e Bartira, que rumaram em franca aventura para as terras do Norte entre anos 1950 a 1970; ou os irmãos Aurelli, sertanistas vicentinos criados no Catiapoã e que foram precursores dos também famosos irmãos Vilas Boas. 

O PORTO REGIONAL E OS CICLOS ECONÔMICOS 

Quando se fala sobre o litoral paulista, sobretudo na Capital e no interior, quase ninguém conhece as diversas cidades da Baixada Santista, cada uma com as suas características, particularidades, problemas e vocações. Antes era tudo São Vicente. Hoje tudo é Santos. 

Santos, a cidade mais rica da região, está com a população estagnada desde a década de 1970, segundo informação recente do jornal A Tribuna (janeiro de 2015). Impedida de ocupar espaços urbanos mais simples, a população de baixa renda santista migrou para cidades vizinhas e junto com ela migraram o comércio e os serviços populares. Os morros, cortiços e favelas ainda abrigam muitas famílias santistas carentes. São Vicente, Guarujá, Praia Grande e cidades do litoral sul, apesar de terem poucas áreas de classe média e classe alta, cresceram nas periferias e continuam sendo a opção viável de moradia para as classes baixas da região. 

São Vicente caminha para se tornar o maior centro comercial da área insular e muitas empresas de serviços buscam o município por causa da localização e dos baixos custos de instalação e funcionamento. A área continental vicentina também cresce de forma impulsiva. Santos se verticaliza cada vez mais para atender a especulação imobiliária, porém isso preocupa muito alguns setores que dependem da mão-de-obra barata e do consumo das classes populares e médias. 

O porto federal e regional de Santos, a cuja história São Vicente e todas as cidades da região se vincularam economicamente, também foi testemunha de todas essas transformações. Ele foi a ferramenta principal de desenvolvimento da região sudeste, mudando e renovando economicamente a antiga cultura vicentina e paulista. Este foi também o período da industrialização no eixo Capital, região do ABCD, Cubatão e grandes cidades do interior. Nessa segunda metade do século XX, São Vicente passou a compor a Baixada Santista (com mais sete municípios), experimenta o declínio ferroviário e ao mesmo tempo a ascensão gradual das rodovias, criadas para atender principalmente os negócios aduaneiros. 

São Vicente viveu nesses diferentes tempos, juntamente com suas filhas vizinhas, os grandes ciclos econômicos do Brasil e de São Paulo: o porto dos escravos, com os degredados e aventureiros europeus do período pré-colonial; o porto do açúcar, com os engenhos no período afonsino e os herdeiros de Ana Pimentel; O porto do café, com as fazendas escravagistas e exportadoras do Império; o porto da indústria e do agronegócio, na república do século XX. E agora, provavelmente, o porto do pré-sal, no século XXI, contexto no qual toda a Baixada vislumbra a possibilidade de uma nova economia que se organiza na chamada Bacia Petrolífera de Santos. 



Casa da Frontaria Azulejada, antiga residência e depois armazém do Porto do Valongo, em Santos. 



A POLÍTICA E A AUTONOMIA DAS CIDADES 

A história do Brasil e da suas regiões sempre foi marcada pelas lutas políticas entre o poder centralizador, impondo e mantendo o controle e o monopólio; e a reação do poder localista, reivindicando novos espaços e a autonomia das vilas, distritos e municípios. 

No período colonial as capitanias hereditárias representavam de um lado a liberdade autônoma para o desenvolvimento dos negócios ultramarinos. As vilas e câmaras municipais representavam o localismo e, por outro lado, a instalação do Governo Geral passou a representar a intervenção pode poder central metropolitano. O pioneirismo vicentino logo foi desbancado pela fundação de novas vilas, sobretudo no Planalto de Piratininga, que passou a o ser o centro político regional e não mais da colônia. 

No período imperial esse jogo foi representado pelo localismo das províncias (câmaras municipais e assembléias legislativas) e pelo centralismo da monarquia imperial na Corte. Esse braço de autoridade chegava até as localidades por meio da Guarda Nacional (sob domínio da aristocracia rural escravagista) e suas patentes militares, cargos públicos federais estratégicos e de controle. Por isso em algumas épocas vemos São Vicente e cidades da região governadas por coronéis, capitães e tenentes e outras patentes militares. 



Ponte Pênsil, projeto sanitário do início do século XX que interligou três cidades e estimulou a autonomia de Praia Grande. 


Na República o poder central é inicialmente apropriado pelas forças armadas e logo transferido, central e localmente, para os coronéis ou oligarquias do café, já em franca decadência. Esse cenário mudaria radicalmente com a Revolução de 1930, surgindo uma nova elite econômica que vai dar ao Estado uma orientação industrial, modificando totalmente os atores do jogo político. Assistimos nas primeiras décadas do século XX ao desmanche da estrutura oligárquica, o surgimento de uma nova economia e a fundação de incontáveis números de municípios junto aos patrimônios ou estações ferroviárias. 

Foi assim que São Vicente foi aos poucos recuperando sua autonomia perdida no período colonial. Enquanto isso, Santos perdia em 1931 o domínio sobre Guarujá (a outra margem do porto) e Cubatão, pólo petroquímico e siderúrgico de interesse político mais amplo. Perderia também, nos anos 1980, o domínio sobre Bertioga. Mesmo o Porto de Santos, apesar da presença da iniciativa privada nos negócios aduaneiros, se mantém até hoje como território federal, controlado pela Alfândega, Forças Armadas e Polícia Federal. 

São Vicente também perderia Mongaguá e Itanhaém, pela força dos negócios dos bananais e do turismo imobiliário. Não foi por outro motivo que o empresário paulistano Roberto Andraus foi eleito prefeito de São Vicente e depois deslocou seus interesses de negócios imobiliários, assim como tantos outros do mesmo ramo, para o bairro vicentino de Praia Grande. Ao construir a Cidade Ocian, Andraus já estava dando sinais de uma antiga luta pela autonomia de Praia Grande, conseguida no final dos anos 1960, agora sob influência do regime militar. Nessa mesma época, em 1968, assistimos a uma histórica briga entre o poder local, de vontade popular; e o poder central, representado pela ditadura: o deputado vicentino e morador santista Esmeraldo Tarquínio, crítico e combatente da autonomia praia-grandense defendida por Andraus, foi eleito prefeito de Santos e impedido de tomar posse, pois seu mandato de deputado e direitos políticos haviam sido cassados pelo regime militar. 

E finalmente, no início dos anos 2.000, com a ocupação demográfica explosiva e intensa especulação imobiliária, surgiu como tendência – até pelo crescimento do contingente eleitoral - a sonhada separação e autonomia dos bairros da Área Continental de São Vicente. 

O TURISMO E AS NOVAS ÁREAS DE POVOAMENTO 

Regionalmente e nesse mesmo período dos últimos 100 anos, a antiga vila desfruta de uma particularidade que também marcaria a vida das cidades vizinhas: o empreendimento balneário. Submetida longamente ao domínio político de Santos (a filha mais velha), São Vicente encontra nesse costume turístico uma nova vocação econômica e faz dele um motivo para reaver sua autonomia e prosperidade. 

No final do século XIX a cidade já era um refúgio de veranistas paulistanos e do interior, cujas famílias abastadas adquiriam chácaras e edificavam grandes casas de lazer e de residência fixa. A beleza natural e a tranqüilidade da orla vicentina também atraiam famílias ricas e de classe média que atuam em serviços públicos e nos negócios portuários e industriais da região. Essa característica de lugar belo e aprazível, tão bem retratada nas telas de Benedito Calixto, vai realçar São Vicente como estância natural e histórica, sem dever nada aos balneários já famosos da região sudeste. 

Nas primeiras três décadas do século XX os bairros centrais e as praias de São Vicente são tomados por casarões de luxo e sobrados pequeno-burgueses. A partir de 1930 a orla passa a ter destaque como atração turística, despertando o interesse hoteleiro e gastronômico. É o início da ocupação vertical que vai avançar nas décadas seguintes e que dura até hoje. Essa ocupação fez desaparecer antigas edificações horizontais e surgir inúmeros edifícios de apartamentos na região central e nas praias do Gonzaguinha e do Itararé. 

Entre 1950 e 1970 São Vicente chega a rivalizar com o Guarujá em prestígio e empreendimentos imobiliários para temporadas de verão, obrigando Santos a empreender enormes investimentos de ornamentação artificial de suas praias, “de areias duras e cinzentas”, no dizer de um famoso jornalista paulistano. Foi durante esse período de expansão do turismo balneário de massa que São Vicente perdeu seu domínio territorial sobre Praia Grande, que se tornaria a mais destacada cidade balneária popular do litoral, com destaque para o turismo religioso e a construção de dezenas de colônias de férias de sindicatos e associações de classe. Nesse mesmo período, o lado oposto da orla, antigas áreas de mangue, foi sendo invadido e posteriormente fatiado, aterrado e transformado em novas áreas residenciais de periferias. O mesmo ocorreu nas áreas divisórias com município de Santos, na chamada Zona Noroeste, a qual os vicentinos reclamam até hoje a ocupação indevida de suas terras pelo município santista. 

Nas décadas de 1970 e 1980, São Vicente novamente perde seu brilho e status de estância de classe média alta e enfrenta um novo período de decadência. A cidade adere também ao turismo de massa com a construção de edifícios altos e unidades de imóveis baratos e com poucos metros quadros. Foram as décadas da explosão populacional de baixa renda, causada pela migração nordestina, atraída pela construção civil, a expansão do pólo petroquímico de Cubatão, bem como a construção da primeira pista da rodovia dos Imigrantes. O crescimento de Praia Grande e a limitação de fluxo de veículos da Ponte Pênsil demandam a construção da ponte do Mar do Mar Pequeno, empreendimento que provocaria intensas mudanças nos municípios do litoral Sul. A ponte, ligada ao complexo Anchieta - Imigrantes e negócios de construtoras e incorporadoras paulistanas, foi responsável pelo crescimento acelerado do novo município vizinho. Ocorrem lá no continente e aqui na ilha, uma nova onda de ocupações de bairros periféricos nas áreas de mangue e uma intensa especulação imobiliária na orla, atingindo também Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe. 

A NOVA OCUPAÇÃO CONTINENTAL VICENTINA 

Ao passar por São Vicente, as extensões ou braços de acesso rodoviário ao complexo Anchieta - Imigrantes provocaram também duas importantes mudanças na estrutura urbana vicentina na década de 1980 e 1990: a ocupação acelerada da área continental, até então isolada e com baixíssimo contingente populacional; e na área insular a separação social centro-bairros periféricos. 

No local onde haviam sido instalados os acampamentos das empreiteiras que construíram a ponte do Mar Pequeno, surgiu a antiga e então pequena favela México 70, que se estenderia até os bairros da Vila Margarida e do Bitaru, próximos ao centro da cidade. 

Na área continental (na região dos rios Branco e Negro) e da antiga estação ferroviária Samaritá (hoje diversos bairros) são construídos dois complexos prisionais e uma unidade da Fundação Casa (então FEBEM.), para menores infratores. Ali também ocorre uma rápida e desordenada ocupação e formação de núcleos habitacionais, dando uma nova configuração urbana à periferia vicentina. Essa ocupação emergente e caótica forçou o desmembramento de grandes áreas para loteamentos e pressões para a construção de uma ligação rodoviária, feita ao lado da ponte ferroviária do Canal dos Barreiros. A ocupação prosseguiu de forma rápida e violenta, surgindo os bairros Jardim Irmã Dolores (e suas pequenas vilas) e, mais recentemente, também a chamada Fazendinha, ambos com alta densidade populacional de baixa renda. O mesmo fenômeno aconteceu nos morros e na periferia de Santos, do Guarujá (Vicente de Carvalho), nas cidades do litoral Norte e Sul. Essa grande movimentação demográfica é liderada pelos novos retirantes nordestinos, agora com apoio de laços de parentesco já estabelecidos no Sudeste. É uma espécie de retorno dos nossos ancestrais das bandeiras vicentinas que ocuparam os sertões nos século XVI e XVII, descritos por dois autores clássicos: 

“Segundo o que se colhe em preciosas páginas de Pedro Taques, foram numerosas as famílias de S. Paulo que, em contínuas migrações, procuraram aqueles rincões longínquos e acredita-se, aceitando o conceito de um historiógrafo perspicaz, que o «vale de S. Francisco já, aliás, muito povoado de paulistas e de seus descendentes desde o século XVII, tornou-se uma como colônia quase exclusiva deles». São naturais por isto que Bartolomeu Bueno, ao descobrir Goiás, visse, surpreendido, sinais evidentes de predecessores, anônimos pioneiros que ali tinham chegado, certo, pelo levante, transmontando a Serra do Paranã; e que ao se reabrir em 1697 o ciclo mais notável das pesquisas do ouro, nas agitadas e ruidosas vagas de imigrantes, que rolavam dos flancos orientais da Serra do Espinhaço ao talvegue do Rio das Velhas, passassem mais fortes talvez, talvez precedendo as demais do descobrimento das minas de Caeté, e sulcando-as de meio a meio, e avançando em direção contrária como um refluxo promanado do Norte, as turmas dos «baianos», termo que como o de «paulista» se tornara genérico no abranger os povoadores setentrionais. (Euclides da Cunha -Os Sertões- jagunços: colaterais prováveis dos paulistas) 



A Ponte do Canal dos Barreiros, originalmente ferroviária,  ligando a ilha de São Vicente aos bairros da área Continental. Foto: Cesar Morgado/Prefeitura de São Vicente 



Em síntese, temos hoje, quase na terceira década do século XXI, uma Grande São Vicente, que divide a ilha com Santos e se estende no continente, da Serra do Mar ao Planalto Paulista. A cidade continua mantendo suas antigas características e desafios de superação: não tem fonte suficiente de arrecadação, vive basicamente de impostos municipais; é uma cidade-dormitório e de passagem viária, cuja população em sua maioria é formada por migrantes de outras regiões que atua como mão-de-obra de serviços, aqui e nos municípios vizinhos. 

Os vicentinos de hoje, como antigamente, aventuram-se em outras regiões, em busca de prosperidade, como fizeram seus ancestrais que fundaram Santos, Itanhaém, Cubatão, Bertioga, São Paulo, Rio de Janeiro, Cuiabá, Laguna e inúmeras cidades que não caberiam nessas poucas linhas. 

Ainda assim, o antigo Porto dos Escravos e a Vila colonial permanecem vivos como referência para os que precisam se reconhecer no passado, agir no presente e se projetarem para o futuro. 


CRONOLOGIA - O PORTO DOS ESCRAVOS



SÃO VICENTE PRÉ-COLONIAL



























 Porto de Naus, retratado na obra de Carlos Fabra – Acervo Casa Martin Afonso


3.000 AC – Provável chegada em Rondônia dos formadores do tronco Tupi. 

Estudos demonstram que os tupis teriam habitado originalmente os vales dos rios Madeira e Xingu, que são afluentes da margem meridional do rio Amazonas. Estas tribos, que sempre foram nômades, teriam iniciado uma migração em direção à foz do rio Amazonas e, de lá, pelo litoral para o sul. Supõe-se que esta migração, que teria também ocorrido pelo continente adentro no sentido norte-sul, tenha principiado no início da era cristã. 

Encontro com os europeus 

Quando os navegadores europeus começaram a frequentar a costa brasileira, no século XVI, passaram a estabelecer relações de comércio com os tupis que a habitavam. Alguns grupos tupis, como os tabajaras, os tupiniquins e os temiminós, se aliaram aos portugueses. Outros, como os tamoios, caetés e potiguares, se aliaram aos franceses. Isto valeu, aos tamoios, sua aniquilação quase total por parte dos portugueses. O conflito passou à história como Confederação dos Tamoios. Em 1574, o último foco de resistência tamoia em Cabo Frio, no atual estado do Rio de Janeiro, foi vencido pelos portugueses com um número incalculável de mortos e com a captura de cerca de 10 000 escravos nativos americanos. O confronto com os portugueses também foi funesto para os caetés, que foram totalmente escravizados pelos portugueses.  Houve uma grande miscigenação entre tupis e europeus. Muitos dos bandeirantes paulistas do século XVII, por exemplo, andavam descalços e mal sabiam falar a língua portuguesa, preferindo utilizar a língua tupi. A mestiçagem física e cultural entre tupis e portugueses gerou as culturas cabocla, caipira e sertaneja. (Wikipédia) 



2.000 AC – Povo Jê chega ao Nordeste. 

1.100 AC – Cultura Ananatuba introduz o milho na Ilha de Marajó. 

1.000 AC– Os Kaingang e Xokleng (PR, SC, RS) se separam do tronco Jê. 

500 AC – Dispersão dos Tupi rumo ao Médio Amazonas e Bacia do Paraguai. 

300 AC – Povos Macro-Jê chegam ao Centro-Oeste do Brasil. 

154 DC – Roma conquista a Luzitânia. 

100 – Os Aruaki chegam na Amazônia. 

450- Cultura Marajoara (Marajó- PA) 

467- Queda de Roma. 

1.000 – O navegador viking Leif Erikson chega na América do Norte. 

Leif Ericson (970), explorador marítimo islandês, ficou conhecido como o primeiro europeu a descobrir a América do Norte e, mais especificamente, a região que se tornaria o Canadá. Era filho de Eric, o Vermelho, um fora-da-lei que, após ter sido expulso da Noruega e da Islândia, desembarcou na Groenlândia (descobriu-a) e lá fundou duas colônias nórdicas, a Colônia do Oeste e a Colônia do Leste. Leif tinha boas noções de navegação e, por volta do ano 1000, acreditando em uma história de que havia terras além da Groenlândia, partiu daí para o sul para encontrar terras onde o frio fosse menos intenso.



ÍNDIOS DO BRASIL. O mapa identifica a nossa raíz mais próxima - do tronco-tupi - e também o Peabiru, estrada inca pré-colonial usada pelos nossos ancestrais, e que começava (ou terminava) na área continental de São Vicente. Brasil 500 anos. Atlas Histórico Isto É. 



1094 – O rei Afonso VI de Castela e Navarra doa o condado Portugalense para Henrique de Borgonha. 

1.139- Afonso Henrique I proclama-se rei de Portugal. 

1275 – Marco Polo chega a Pequim. 

1.300 – Os Tapajós chegam ao Amazonas. 

1307- Fundação da Universidade de Coimbra. 

1325- Fundação da cidade de Cuzco (Peru). Início da expansão Inca. Peste Negra assola a Europa. 

1357- Pedro I, o Cruel, rei de Portugal. 

1360 – Mapa Mundi de Ranulf Nyggeder que se conserva no British Museum da Inglaterra onde se assinala a posição da Insula Brasil. 

1375 – O rei da França, Carlos V, manda ao Vaticano um cartógrafo de máxima capacidade e confiança para essa missão que faz uma cópia do Mapa Mundi de Ranulf Nyggeder. 

1384 - O legista João das Regras faz a defesa das pretensões ao trono de D. João, Mestre de Avis nas Cortes de Coimbra. 

1385- Revolução de Avis funda uma nova dinastia real em Portugal, ligada aos empreendimentos marítimos. D. Nuno Álvares Pereira, cavaleiro e herói da Ordem de Avis da Revolução de Avis. Após anos da dinastia de Borgonha no poder, o trono fica ameaçado com a morte de D. Fernando, que não deixa herdeiros homens. Sua filha, Dona Beatriz, é casada com o rei de Castela, D. João I. Se ela ficasse com o trono, Portugal voltaria a ser um condado de Castela. 

A nobreza apoiava a decisão de se aproximar novamente de Castela, enquanto a burguesia considerava que haveria perda de autonomia, logo seus interesses comerciais seriam prejudicados. Estes resolveram apoiar D. João, Mestre da Ordem de Avis, que era irmão do monarca falecido. Castela não reconhece a coroação de D. João e invade o país. Com o apoio da nobreza, D. João I luta contra a burguesia, a pequena nobreza militar e o restante da população para tentar anexar o país. Em 1385 na batalha de Aljubarrota, os castelhanos são derrotados e a independência de Portugal foi assegurada. Essa vitória ficou conhecida como Revolução de Avis e iniciou-se a Dinastia de Avis, que foi a grande responsável pela expansão marítima de Portugal no século XV. Essa vitória ficou conhecida como Revolução de Avis e iniciou-se a Dinastia de Avis, que foi a grande responsável pela expansão marítima de Portugal no século XV. (Historitura) 

1415 – Fundação da Escola de Sagres em Portugal. Tomada de Ceuta, na África 

1419 – Portugal toma a Ilha da Madeira. 

1431-Ocupação portuguesa nos Açores. 

1441- Portugal lança ao mar a primeira caravela. 

1436 – Mapa de Andréas Bianco insinua em uma inscrição que tal ilha está a cerca de 500 milhas imprecisas do Cabo Verde. 

1446- Ordenações Manuelinas, o primeiro código de Portugal. 

1454- Portugal ocupa cabo Verde. 

1474 – João Vaz Corte chega ao Mar do Norte, na Terra do Bacalhau. 

1486- Bartolomeu Dias dobra o Cabo da Boa Esperança. 

1490 – Nascimento de Gonçalo da Costa. 

Veio para São Vicente provavelmente em 1510. Casou em 1520 (provável) com uma das filhas do Bacharel, morando em São Vicente por 20 anos. Percorreu todo o sul da costa do Brasil, sendo um dos maiores conhecedores do Rio da Prata. Morreu provavelmente em 1559, a serviço da Espanha, vítima de um temporal nas proximidades da Ilha de São Domingos. (Boletim IHGSV) 

1492- Cristóvão Colombo chega à América. 

1493–Nascimento de João Ramalho em Vouzela, Portugal. 

1494- Tratado de Tordesilhas renovas antigos acordos entre Portugal e Espanha. 

1497- Nascimento de Pero Lopes de Souza, irmão de Martim Afonso de Souza e cronista do diário de navegação da expedição de reconhecimento e posse da costa brasileira. É dele os primeiros relatos oficiais dos antecendente e da fundação de São Vicente. 

- Conversão forçada de judeus e muçulmanos em Portugal (cristãos novos). 

1498- Em dezembro uma frota de oito navios, sob o comando de Duarte Pacheco Pereira, atingiu o litoral brasileiro e chegou a explorá-lo, à altura dos atuais Estados do Pará e do Maranhão. Essa primeira chegada dos portugueses ao continente sul-americano foi mantida em rigoroso segredo. Estadistas hábeis, os dois últimos reis de Portugal entre os séculos 15 e 16 - D. João II e D. Manuel I - procuravam impedir que os espanhóis tivessem conhecimento de seus projetos. 

- Vasco da Gama Chega a Calicute, na Índia. 

1500 – Nascimento de Martim Afonso de Souza. Capitão-mor e primeiro governador das terras do Brasil, nomeado por D. João III. Donatário da Capitania de São Vicente, vila que fundou em 22 de janeiro de 1532, era ainda alcaide-mor de Rio Maior, senhor do Prado e de Alcoentre, primo de Tomé de Souza, 1º Governador Geraldo Brasil. 


-Pedro Álvares Cabral, fidalgo, comandante militar, navegador e explorador português desembarca no Brasil, em local denominado Porto Seguro, na Bahia. 

Nomeado para chefiar uma expedição à Índia, seguindo a rota recém-inaugurada por Vasco da Gama, contornando a África. O objetivo deste empreendimento era retornar com especiarias valiosas e estabelecer relações comerciais na Índia — contornando o monopólio sobre o comércio de especiarias, então nas mãos de comerciantes árabes, turcos e italianos. Aí sua frota, de 13 navios, afastou-se bastante da costa africana, talvez intencionalmente, desembarcando no que ele inicialmente achou tratar-se de uma grande ilha à qual deu o nome de Vera Cruz (Verdadeira Cruz) e a que Pêro Vaz de Caminha faz referência. Explorou o litoral e percebeu que a grande massa de terra era provavelmente um continente, despachando em seguida um navio para notificar o rei Manuel I da descoberta das terras. Como o novo território se encontrava dentro do hemisfério português de acordo com o Tratado de Tordesilhas, reivindicou-o para a Coroa Portuguesa. Havia desembarcado na América do Sul, e as terras que havia reivindicado para o Reino de Portugal mais tarde constituiriam o Brasil. A frota reabasteceu-se e continuou rumo ao leste, com a finalidade de retomar a viagem rumo à Índia. 


1501 – Expedição de André Gonçalves. Partiu do rio Tejo em 10 de maio com o intuito claro de explorar amplamente a costa do Brasil. 

Foi assim que ele tornou-se o responsável pelo comando da primeira expedição verdadeiramente exploradora da costa brasileira, que traria consigo o navegador italiano Américo Vespúcio, no auxílio técnico da expedição. Sua expedição foi composta de três naus que chegaram à costa brasileira no dia 7 de agosto, ancorando os navios a 5º3’41” de latitude sul, defronte do lugar hoje chamado Arraial do Marco, situado no vértice da costa do estado do Rio Grande do Norte, distante do Cabo de São Roque, cerca de 45 milhas, segundo descreveu nos escritos. 

1502 - Em 20 de janeiro passou pela vila o navegador Américo Vespúcio, em direção a Cananéia, levando o Bacharel Cosme Fernandes. Mais tarde, o Bacharel retornou à Vila de São Vicente e realizou obras importantes, tornando-se um líder do local. Cosme Fernandes, degredado judeu-espanhol, funda o porto de tráfico de escravos índios. 

Uma das primeiras referências a São Vicente encontra-se no Atlas de Kurstman, publicado entre 1502 e 1504. Na indicação das rotas marítimas para o sul, estão registrados os nomes “Rio de São Vicente” e “Porto de São Vicente”. Já Cananéia aparece, em 1527, em relatos de uma expedição espanhola ao rio da Prata. Ao retornar, os espanhóis embarcaram em São Vicente cerca de 800 índios comprados do bacharel de Cananéia. Era o primeiro registro da prática que se tornaria a principal atividade dos habitantes de São Vicente: a escravização dos nativos. (Terras Paulistas- História, artes e costumes - Os paulistas em movimento) 



1503 – Organização da colônia de Porto Seguro, na Bahia. 

1504- Carta de Américo Vespúcio identifica o Bacharel Cosme Fernandes com fundado do Porto Tumiaru ou Porto dos Escravos, futura Vila de São Vicente. 

Pouco depois, em 1504, numa carta de Lisboa para Paris, dirigida a Lorenzo di Pier Francesco dei Médici, Vespúcio fez a apreciação da natureza do país que visitara. E, finalmente, em sua primeira carta, cujos trechos principais transcrevemos, e que constitui o seu verdadeiro “Diário de Viagem”, Vespúcio declara haverem trazido em uma das naus da expedição um “bacharel” degredado por Dom Manuel a cumprir pena na nova terra, e que esse “bacharel” foi deixado por eles em Cananor (ou Cananéia atual). (Boletim do IHGSV) 

1507 - Mapa mostra a costa do Brasil por Martin Waldsee Müller figurando a localização de São Vicente nessa data onde se assinala como Portus S. Vincête em letras góticas. 

1509- Primeiras plantações de cana-de-açúcar no Brasil. 

1510- Naufrágio de João Ramalho em São Vicente. 

João ramalho nasceu em Vouzela, distrito de Viseu, em Portugal, entre 1485 e 1493 e faleceu em São Paulo, por volta de 1580. Segundo suas palavras, teria chegado ao Brasil aproximadamente em 1512, não se sabendo se foi um náufrago ou um degredado. Porém, alguns estudiosos acreditam que poderia fazer parte das expedições de João Dias Solis ou de Fernando de Magalhães. Foi o primeiro europeu a subir a serra, então chamada de Paranapiacaba (lugar de onde se vê o mar), em direção ao planalto, onde estabeleceu contato com os índios guaianases, sendo aceito pelo cacique dessa tribo, Tibiriçá, que, simpatizando com ele, oferece sua filha M´bicy (Flor de Árvore), também conhecida por Bartira ou Portira, como esposa, presumivelmente em 1515, com quem teve inúmeros filhos. 

1511–Entre essa data e 1525 o Porto dos Escravos abastece diversas embarcações européias: Cristóvão Pires; Estevão de Frois, 1512; Nuno Dias de Solis, 1515; Fernão de Magalhães, 1519; Jean de Parmentier, Rodrigo de Acuña, Jofre de Loaysa, Diogo Garcia, Sebastião Caboto, 1525. São Vicente era um centro muito ativo, portanto, de produção e de comércio. 

1512 – Indícios da presença na Capitania São Vicente de João Ramalho, Cosme Fernandes e de Antônio Rodrigues. A Capitania tinha cerca de 2.500 léguas quadradas na soma de suas duas porções - uma desde Paranaguá ao sul até Bertioga e outra, da foz do rio Juqueriquerê até a foz do Macaé, ao norte, tendo encravada entre as duas a Capitania de Santo Amaro, de Pero Lopes irmão de Martim Afonso. 

1515 - As primeiras notícias das águas da fonte do povoado, que viria a ser a atual Biquinha de Anchieta. O Morro de Tumiaru (Outeiro de São Vicente, Morro Santo Antônio, Morro dos Padres e atualmente Morro dos Barbosas), junto à Praia Mahuá (Gonzaguinha). 

1516- Chega à Vila o Capitão Pero Capico, transformando São Vicente na sede da Administração da Costa Brasileira, até 1526, quando foi substituído por Antônio Ribeiro e que promoveu grandes transformações em São Vicente, o que propiciou um grande desenvolvimento no local. Aleixo Garcia naufraga na Ilha de Santa Catarina, ao sul, e passa a viver entre os índios carijós. 

1524–Descoberta do Peabiru. Acompanhado de alguns náufragos como ele e centenas de carijós, Aleixo Garcia Viajou cerca de 2.600 quilômetros a pé e de canoa, abrindo para os europeus o Peabiru (Caminho de São Tomé), a vasta rede de trilhas indígenas que ligava o litoral brasileiro ao Rio Paraguai. 

Desbravou florestas e pântanos e enfrentou índios hostis. Depois de um ano e meio chegou a Cochabamba, na Bolívia, a 150 quilômetros da mina de prata de Potosí, hoje esgotada. Descobriu o império do rei inca Huayna Capac, menos branco do que se supunha, guerreou contra tribos sob o seu domínio e saqueou peças de ouro. Embora tenham sido mortos antes de retornar, seus mensageiros voltaram a Santa Catarina e confirmaram os relatos indígenas. Da Europa, foram mandadas expedições para refazer seu caminho. Assim, deu-se início à colonização dos rios da Prata, Paraná e Paraguai. (Super Interessante) 

1526- O veneziano Sebastião Caboto é enviado pela Espanha; depois de parar na Ilha de Santa Catarina, conhece os relatos sobre Aleixo Garcia e procura o Peabiru por quase dois anos, mas não achou nada. Encontra outro navegador Diego Garcia, que também retornou à Espanha, em 1530, sem encontrar o que tinha ido procurar. No mesmo ano, Portugal enviou ao Brasil o fidalgo Martim Afonso de Sousa, o primeiro governador das novas terras. O objetivo da viagem era encontrar a rota de Aleixo Garcia. Os portugueses buscavam o acesso ao território inca por terra. 

1527 - Comandando uma expedição, partida de Corunha em 1526, com o fim de explorar o Rio da Prata, Diogo Garcia chegou a S. Vicente. 

A 15 de janeiro de 1527 – cinco anos antes de Martim Afonso – e, narrou ter encontrado o bacharel e seus genros, aí moradores "mucho tiempo ha que ha bien 30 años". Deles comprou um bergantim, se abasteceu de água, lenha e todo o necessário para a viagem, contratou um dos genros por língua (intérprete) até o Rio da Prata. De acordo com todos os seus oficiais, contadores e tesoureiros, fez com esse bacharel e seus genros um contrato para transportar nos seus navios, quando de volta, 800 escravos para a Europa [1]. "Nesse porto estava muita gente chamada tupi, em companhia dos cristãos, mas comedora de carne humana" (Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil., vol. 15 pág. 9). 

1528 – João Caboto e Diego Garcia, guiados pelo português Gonçalo da Costa, sobem o rio Paraná em busca de informações sobre a região. 

1530- Tornando do atual Rio da Prata, Sebastião Caboto ancorou defronte da ilha de São Vicente, e aí permaneceu mais de mês. 

Num de seus navios estava o cosmógrafo Alonso de Santa Cruz, que escreveu: "Dentro do Porto de São Vicente há duas ilhas grandes, habitadas por índios e, na mais oriental, na parte ocidental, estivemos mais de mês. Na ilha ocidental tem os portugueses um povoado chamado 'S. Vicente' de dez ou doze casas, uma feita de pedra com seus telhados, e uma torre para defesa contra os índios em tempo de necessidade. Estão providos de coisas da terra, de galinhas de Espanha e de porcos, com muita abundância de hortaliça. Têm essas ilhas uma ilhota entre ambas de que se servem para criar porcos. Há grandes pescarias de bons pescados. Estão essas ilhas orientadas NO-SE com dez léguas de comprimento e quatro de largura" (Islário de Alonso de Santa Cruz, Ed. de F. R. von Wieser, pág. 56). 

Quando saiu de Portugal, Martim Afonso de Sousa, o primeiro governador do Brasil, já estava muito bem informado sobre a aventura de Aleixo Garcia. Viajava com ele o português Henrique Montes, sobrevivente do naufrágio de 1516 em Santa Catarina, que voltara à Espanha em 1526, e depois mudara-se para Portugal, ganhando o título de Cavalheiro da Casa Real. (Super Interessante) 

- A expedição de Martim Afonso de Souza, que partiu de Portugal nessa data, torna-se a base do sistema de colonização. O fidalgo de sangue real recebe poderes de vida e morte, inclusive de doar sesmarias e posses. Vêm com cinco naves, 400 homens, sementes e mudas de cana. 

1531- Martim Afonso chega a Cananéia, no litoral sul de São Paulo. 

De lá, envia o capitão Pero Lobo e oitenta homens para seguir o caminho de Aleixo Garcia. Todos foram mortos pelos índios. Mais tarde, mandou outra expedição, de trinta homens, incluindo Henrique Montes, para subir o Rio Paraná. Apesar do esforço, o governador também voltou a Portugal sem encontrar a cobiçada serra de prata. Ao saber da chegada de uma armada ao porto de São Vicente, o cacique Tibiriçá, capitaneando mais de 500 sagitários, com João Ramalho à frente, desceu do planalto para ataque, que não se realizou porque esse seu genro, reconhecendo que a armada era de Martim Afonso, de compatriotas conseguintemente, negociou e estabeleceu a paz entre os aborígines e os portugueses, por essa forma facilitando a colonização no Sul da América. 

- Expulsão de São Vicente do bacharel Cosme Fernandes. 

PORTAL DA MONTANHA DE PRATA 


São Vicente era a defesa contra a tomada do Peabiru 







































Rota principal e alguns ramais do Peabiru ligando litoral do Brasil aos Andes.


Por que os portugueses fundam as duas primeiras vilas do Brasil justamente em São Vicente e Piratininga? 

Os portugueses e espanhóis também souberam, pelas diferentes tribos indígenas, que um caminho que saía de Cananéia, do litoral de Santa Catarina e de São Paulo ia até o “reino da montanha de prata”. Esse caminho chamava-se, entre os tupis, Peabiru (palavra tupi, pe – caminho –, abiru – gramado amassado) e, de fato, ia até o local, à beira do rio Paraguai, onde hoje está Assunção. 

Dali era possível alcançar a “montanha de prata” com relativa facilidade. Assim, a preocupação de Martim Afonso ao fazer a Coroa portuguesa fincar pé em São Vicente e no Planalto de Piratininga era guardar o acesso ao Peabiru e defendê-lo do assédio de outros europeus. 

Com o que, a ocupação efetiva do Brasil começou pela defesa do caminho para uma mítica “montanha de prata” que, no final das contas, existia de fato! 

Foi essa a razão de Martim Afonso ter enviado uma expedição de Cananéia ao interior pelo Peabiru, mesmo antes de se dirigir ao rio da Prata. Era como se quisesse apostar uma corrida entre a expedição por terra e outra pelo rio, para ver quem chegava primeiro aos tesouros do continente. O fato é que a expedição por terra foi dizimada pelos índios guaranis perto das Cataratas do Iguaçu e a expedição pelo rio fracassou com o naufrágio da nau em que o chefe português estava. 

Outra razão para a escolha de São Vicente pode ter sido o fato de que, não muito ao sul dali, passava a Linha de Tordesilhas, que, por um acordo internacional, deveria limitar as posses do reino de Portugal e da Espanha nas novas terras descobertas. 

Assim, era prudente que Portugal garantisse seus domínios já nas bordas do seu território, evitando que os espanhóis futuramente avançassem sobre ele. 

Mais uma vez, um mapa pode ser consultado para a identificação dos locais citados, chamando a atenção para o “Planalto de Piratininga” e a relação do termo com o relevo da região. 

CIVILIZAÇÃO DOS SAMBAQUIS 

Os Homens dos Sambaquis eram uma civilização especializada no lagamar e em aproveitar seus recursos: uma civilização marítima, por assim dizer. Mais uma curiosidade: saber que existiram outras civilizações, muito semelhantes a essa, que também edificaram suas “montanhas de conchas” pelo mundo afora. 

Elas se desenvolveram em muitas regiões litorâneas do globo (como o mar do Norte, na Europa, e o mar Negro, entre a Europa e a Ásia, por exemplo), cada uma em uma época diferente da história da humanidade. Finalmente, é importante frisar que essa civilização do litoral brasileiro sobreviveu durante nada menos que cerca de cinco mil anos! 

Observe e faça também os alunos notarem a beleza e a precisão de algumas das esculturas em pedra produzidas por essa civilização. No vídeo aparece a escultura de um tubarão, coletada em Sambaqui do sul do Brasil. A peça é extraordinária por sua economia de traços e ao mesmo tempo muito rigorosa na forma de retratar o animal que, provavelmente, seria um objeto de culto naquela civilização. 

OS TUPIS SALVARAM OS EUROPEUS 

Quem eram os tupis? Por que eles teriam uma cultura mais “sofisticada” que a dos Homens dos Sambaquis? 

Os tupis tinham dominado a agricultura e outras formas de adquirir alimentos – práticas que não existiam entre os Homens dos Sambaquis. Dentre as técnicas novas de caça, de pesca e de guerra, também desenvolveram, por exemplo, a poderosa arma que é o arco e flecha. 

É importante esclarecer dois aspectos sobre os tupis: um é a antropofagia – prática que, em geral, faz todo mundo se arrepiar. O fato é que, por alguma razão, ainda desconhecida, inúmeras civilizações arcaicas tiveram o hábito de realizar sacrifícios humanos; os incas e os astecas são exemplos, assim como vários povos antigos da África e da Oceania. O mesmo ocorreu na cultura judaica e na Grécia Antiga. A prova disso está nas narrativas míticas sobre Abraão (a quem Deus teria pedido que sacrificasse o próprio filho) e sobre Ifigênia, entre os gregos (a cujo pai os deuses haviam ordenado que sacrificasse a própria filha). Tanto judeus como gregos e romanos acabaram substituindo o sacrifício humano pelo sacrifício de animais. 

Entre os tupis, assim como em várias outras nações indígenas do Brasil, havia também o sacrifício humano, porém acrescido do rito da ingestão da carne do inimigo, dada uma tradição de valores míticos e religiosos muito peculiares à sua cultura. 

O outro aspecto a lembrar é que a grande maioria de nós, brasileiros, descende de índios, quer recentemente, quer remotamente, fato cientificamente comprovado. O mais interessante é que a nação indígena que, entre todas, certamente mais colaborou para a formação do povo brasileiro foi justamente a dos tupis, que ocupava quase toda a costa e entrou em contato direto com os europeus no século XVI. Aos tupis e às suas técnicas é que devemos, em boa parte, a sobrevivência dos europeus nos trópicos. 

SÃO VICENTE E O PAU-BRASIL 

Durante os primeiros 50 anos, a costa do Brasil teve praticamente uma única atividade econômica: a troca de pau-brasil por facas, machados, anzóis, espelhos e bugigangas trazidas pelos europeus. Por causa disso, essa época foi caracterizada como Ciclo Econômico do Pau-Brasil. No entanto, esse comércio parece ter sido mais desenvolvido por franceses do que por portugueses. Os franceses mantinham uma ligação constante da costa brasileira com os portos do norte da França, onde o pau-brasil era vendido para fábricas e artesãos, que usavam a tinta extraída da madeira para tingir tecidos que seriam vendidos por toda a Europa. Certamente, devia ser difícil para os índios cortarem grandes quantidades da árvore do pau-brasil, depois levarem as imensas toras até a praia e embarcá-las nas naus e caravelas. Mas é importante notar o que significava, por exemplo, um facão ou um machado de aço para quem só conhecia facas de osso e machados de pedra. Imagine o trabalho que era cortar uma grande árvore com um machado de pedra, ou abrir uma picada no mato sem um facão de metal. Nossos índios não conheciam a metalurgia, e essas trocas da madeira por objetos de metal foram decisivas para tornar possível o ciclo do pau-brasil. 

JOÃO RAMALHO, O PAI DOS VICENTINOS 

A origem e a vida de João Ramalho são misteriosas. Mas uma coisa interessante a lembrar é que, na costa do Brasil, mesmo antes de 1532, já habitavam diversos náufragos e degredados (incentive a consulta desses termos em dicionários), tanto portugueses como espanhóis e franceses. O espanhol chamado Bacharel de Cananéia, por exemplo, também viveu durante um tempo em São Vicente, além de Cananéia e Iguape. 

Aliás, assim que Martim Afonso de Souza fundou as vilas de São Vicente e Piratininga, o Bacharel, num ato de vingança, por ter sido ameaçado de prisão pelos portugueses, conseguiu destruir as duas vilas recém-nascidas e acabou por matar metade dos homens brancos que ali tinham se estabelecido. 

Outro náufrago famoso foi Caramuru, acolhido pelos tupinambás da Bahia de Todos os Santos, onde seria construída a primeira capital da Colônia: Salvador. Caramuru casou-se com a filha do chefe local, Paraguaçu, e, assim como o Bacharel e João Ramalho, jamais pensou em voltar a viver no Velho Mundo, embora tivesse, em certa ocasião, viajado com Paraguaçu até a França. 

Cabe uma pergunta interessante: Por que os náufragos e degredados da nossa costa jamais quiseram voltar para a Europa? 

Uma resposta possível a essa pergunta está esboçada na janela sobre Ramalho: por aqui não havia a opressão do Estado europeu e da Igreja Católica, com suas respectivas ameaças contra crimes e pecados. E, sobretudo, porque esses desgarrados das navegações eram quase sempre gente pobre e pouco instruída, embora viessem do grupo social dos servos, no Brasil eram tratados, pelos índios e outros liderados, como chefes, como verdadeiros “senhores” locais. 

Quanto a João Ramalho, entre todos, foi certamente o que mais teve filhos, netos e bisnetos, com incontáveis índias tupiniquins. Daí resulta que quase todas as famílias antigas da região de São Paulo, Baixada Santista e arredores sejam descendentes dessa espécie de grande “patriarca”. (O Porto de Santos e História do Brasil. Santos Brasil- Editora Neotrópica


OS "MISTÉRIOS"DE SÃO VICENTE 




Instalação de um Peabiru. na Exposição Terra Paulista no Sesc Pompéia-SP, 2005.

Hernâni Donato 


Certeza que me acompanha e me espicaça é a de que São Vicente reserva para os pesquisadores suficientemente curiosos um elenco volumoso quanto precioso de assuntos a serem transformados em palpitantes revelações históricas. Não, propriamente, novidades para os veteranos. Porém, tópicos merecedores de serem retirados ao silêncio e ganharem versões definitivas. Para ganho geral. 

Pois ali se concentraram pessoas e circunstâncias que em outros países, a exemplo dos Estados Unidos, da Alemanha, da Inglaterra etc., teriam promovido a felicidade autoral e editorial de muitos interessados. Dizem respeito não somente à crônica regional. Uns quantos desses mistérios por aclarar, podem, até, levar o refazimento da história continental. 

Nesse caso está o tema de Peabiru. De São Vicente saía o vetor principal. Este, depois de enovelar-se pela serrania litorânea, de atravessar o chão piratiningano, atufava-se pelo sertão hoje paulista-paranaense e lá em Cuzco, já no Peru, inseria-se no extraordinário sistema viário incaico. Não seria, em solo brasileiro, estrada de primeira classe no rol das andinas. Percorreria, então, nestas partes, território a ser futuramente incorporado ao império. De todo modo, a primeira via transcontinental Atlântico-Pacífico, funcionando - e sabe-se que bastante bem - antes de Colombo e de Cabral. Dias em que local vicentino acomodava porto, povoação, gente vinda da Europa e do interior do continente. Quem? Quanto? Como? Fazendo o quê? 

Se ligarmos essa situação, sobre a qual discretearam, sem maior detalhamento, autores do porte de Taunay, Washington Luís, Batista Pereira, Sérgio Buarque de Holanda, Aluísio de Almeida e outros, ao fato de que precedentemente ao ano 1500 aquele sítio era conhecido pelo nome de Porto dos Escravos, não é preciso inflar a imaginação para aceitar como verdadeira a afirmação de que portugueses e outros navegantes conheciam e traficavam bem antes de 1532 na que é hoje São Vicente. 

A documentação é clara. Abasteceram-se ali as frotas de Cristóvão Pires em 1511; Estevão de Frois, 1512; Nuno Dias de Solis, 1515; Fernão de Magalhães, 1519; Jean de Parmentier, Rodrigo de Acuña, Jofre de Loaysa, Diogo Garcia, Sebastião Caboto, 1525. E outros e outros. Um centro muito ativo, portanto, de produção e de comércio. 

São muitas as atividades. O padre Viotti ("O anel e a pedra", página 350) refere que logo em 1525 vicentinos estão na expedição de Salvador Correa de Sá e Benevides. Foram "prestar o seu concurso militar à restauração da cidade (Rio de Janeiro), deixando provas de audácia, destreza e valor". 

E a Guerra de Moschera? Trata-se de convite excitante para os que poderiam iluminar de vez esses nichos de aventura onde poucos penetraram com estudos responsáveis. Quem localizaria (não me consta hajam localizado o lugar da vila de I-Caa-Para fundada pelos espanhóis subidos de Buenos Aires sob o comando de Ruy Garcia de Moschera). 

Ao redor dessa vila e entre ela e São Vicente travou-se a primeira guerra de brasileiros contra invasores estrangeiros. Foi isso de 1534 a 1536. Dura e nem sempre bem sucedida campanha com vicentinos em armas defendendo sua vila, vencendo e perdendo, padecendo o saque e o incêndio da povoação. Também a isso, São Vicente sobreviveu. Acontecimento de tamanha magnitude, com significado não apenas local mas também nacional, sendo muito pouco o que se tem de certo a seu respeito. 

O filão vai mais além. Há mais convites sugestivos para um atraente e de certo compensador mergulho nesse passado que só é distante porque o deixaram afastar-se e embuçar no esquecimento. Sabe-se, por exemplo, que no combate de 13/5/1560 contra os franceses, no Rio de Janeiro, o fogo mais eficiente lançado sobre as posições gaulesas foi o disparado por um bergantim vicentino. Até onde, vicentino? Quem o tripulava? Que fim o levou? 

No século XVI, São Vicente foi também sinônimo e sítio de fartura. Sarmiento de Gamboa escreveu (1582) nas Memórias que em Buenos Aires "não havia abundância de gêneros e vitualhas para serem vendidos e nem mesmo para si próprios. Em Assunção... tudo era impossível". Vale dizer, penúria, quase a fome. Mas em São Vicente, fartura total. 

Ali, ele, Gamboa, escamba (a metade paga com roupas, vinhos, calçados) a seguinte lista de gêneros: 341 arrobas e 22 libras de carne de vaca seca; 2.654 arrobas e 30 libras de carne de vaca salgada fresca; 371 arrobas de toucinho; 5.636 alqueires da farinha de mandioca; 9.774 libras de tortinhas de farinha de mandioca biscoitadas; 26 alqueires de arroz beneficiado; 70 alqueires de arroz em casca; 9 arrobas de sebo; 193 tábuas. 

Tábuas quer dizer serraria; tortinhas biscoitadas, fornos e padeiros; arroz beneficiado quer dizer maquinaria especial; o volume da carne quer dizer pecuária desenvolvida e abatedouro e salgadouro. E todo esse rol para uma frota. Imaginemos o movimento industrial e comercial da região, à época. 

Esse dispor comercial e jogar com tanta comida em tempo e lugar de escassez torna mais fascinante a hipótese levantada por cronistas e autoridades castelhanas do Prata, conforme o levantado e analisado por Duílio Crispim Farina, de que tais conveniências faziam parte da política portuguesa de enfraquecer a posição espanhola. Os vicentinos chamariam para si, a fim de alimentá-los e curá-los, "os membros das guarnições castelhanas flagelados pela fome (e) os contendores dos bandos rivais, em rixas (...) na ilha de Santa Catarina e somente os deixava sair, para dirigirem-se a Assunção. Com isso tudo, iniciava-se o fim da guarnição de Santa Catarina". 

Claro, estes pontos e mais alguns não são de todo inéditos. Mas têm sido apenas aflorados. O que pretendo, neste espaço, é deixar uma provocação: quem sabe, entre os jovens santistas e vicentinos, haja uns quantos dispostos a aprofundar pesquisas e nos brindar com algo mais sobre fatos e pessoas assim decididamente referenciais. 

Nem é o caso de evocar a primeira Câmara Municipal das Américas, as feitorias, os engenhos, a introdução do gado e de vegetais. Ou mais, ou menos, tais assuntos mereceram consideração. 

Porém, e a notável referência a que na São Vicente dos dias iniciais tenha funcionado um cenáculo (Academia seria pensar demais) literário brasileiro? Há quem diga terem alguns dos encontros de padres, nobres, funcionários, aventureiros e seus comentários versado nada mais nada menos do que A Divina Comédia. Sim, aquela de Dante cujo volume teria ido de mão em mão trazido pelo nobre genovês Adorno. 

Claro, sei que por aquela altura do calendário quinhentista não se fazia conhecer pelo título atual, mas simplesmente, Comédia. Ou A Comédia de Dante. Mas, quem conhece o título que lhe davam os comentadores vicentinos? Trata-se, é certo, de pesquisa especialmente difícil. Mas qual, das que valeram a pena o terem sido realizadas, mostrou-se fácil? 

Vamos a elas, em nome de São Vicente? 

Leopoldianum - Revista de Estudos e Comunicações da Universidade Católica de Santos, edição nº 63- abril de 1997.(*) Escritor e historiador, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Membro da Academia Paulista de Letras. 



O BACHAREL DE CANANÉIA
Paulo Setúbal 



                                           (Retrato de formatura do ensaísta Paulo Setúbal) 

Tenho constatado que ainda há gente que me lê. E tenho-o constatado com surpresa. Um escritor que há três anos (há três longos anos) evita, com paixão, a publicidade, e que, preconcebidamente, deliberou viver no seu modesto cantinho, isto é, viver na aconchegada e veludosa penumbra do seu lar, longe do fanfarreiro gritante dos jornais, é um escritor irremissivelmente condenado a não ter mais público. Pois vejo que me enganei. Estes despretensiosos artigos de domingo, com que o amável, mas irredutível diretor da "A Razão" me forçou a reaparecer na ribalta literária, têm provocado abundante messe de cartas, que, com espanto para mim, denunciam bem o número ainda envaidecedor de leitores que me seguem. Destaco hoje, dentre essas cartas, uma que me fez sorrir. Uma que vem assinada: "Velho Paulista". Encontrei nela este pedido: "… seria muito proveitoso que o Senhor explicasse, com o seu estilo fácil e com o seu jeito ameno de escrever a história, quem é esse bacharel que Martin Afonso encontrou em Cananéia. Nos tempos que correm não se tem mais tempo para ler trabalhos que tratem de assunto como este. etc. etc.". 

Li a carta e —’ confesso! — sorri do velho paulista. Sim, sorri do meu gentilíssimo leitor. O pedido que ele me faz, com tão bonita singeleza, mostra, à evidência, quanto o brasileiro anda afastado das coisas da sua história. Não fosse esse afastamento, esse incomensurável afastamento, certo não solicitaria o "Velho Paulista", com a sua saborosa singeleza, que eu esclarecesse quem é o bacharel de Cananéia. E isso por um motivo simples: essa questão, apesar de pequenina, é uma das mais intrincadas e das mais enigmáticas questões da História do Brasil e, particularmente, da História de São Paulo. O que já se não escreveu sobre isso! Quanta tinta já não correu em torno da tese! Pedro Taques, Frei Gaspar, Machado de Oliveira, Varnhagen, Galanti, Cândido Mendes. . . quanta gente, meu Deus, já não debateu o assunto! E nenhum deles, nem mesmo um historiador da estirpe de Varnhagen, conseguia ainda esclarecer quem era o misterioso bacharel. Não serei eu, está claro, quem vá esclarecê-lo. Não posso, querido Paulista Velho, satisfazer-lhe a curiosidade. 

Vou, contudo, fornecer a V. S. alguns dados sobre a personalidade do estranho personagem. V. S. quando já tiver amealhado o suficiente para viver sem trabalhar, poderá (eis uma linda ideia!) dedicar os dias de sua velhice em deslindar a impenetrável questão. Será — não acha? — uma bela e nobre maneira de encher os ócios de sua velhice: otium cum dignitate, como diriam os romanos. 

* * * 

Quando Martim Afonso de Sousa, em agosto de 1531, descia até o Rio da Prata, estacionou, por espaço de quarenta dias, no porto de Cananéia. Conta o Diário da Navegação, escrito por Pêro Lopes de Sousa, irmão de Martim Afonso de Sousa, que, durante essa permanência, fora enviada à praia, a fim de se entender com os selvagens, um certo Pedro Annes, piJoto da frota, que era grande conhecedor da língua tapuia. O piloto foi e voltou. Eis o que diz o Diário: 

"Quínta-feira, 17 dias do mez de Agosto, veiu Pedro Annes, piloto, no bargantim, e com elle veiu Francisco de Chaves e o bacharel, e cinco ou seis Castelhanos. 

Este bacharel havia trinta annos que estava degradado nesta terra, e o Francisco de Chaves era muy grande lingua nesta terra. 

Pela informação que delia deu ao capitam, mandou á Pêro Lobo com oitenta homens, que fossem descobrir pela terra adentro; porque o dito Francisco de Chaves se obrigava que em dez meses tornara ao dito porto com quatrocentos escravos carregados de prata e ouro". 

Eis em cena, Sr. Paulista Velho, o nosso homem famoso! 

Agarremo-lo pela gola e vamos destrinçá-lo. Não é, acentuemo-lo desde já, a primeira vez que o nome de tal bacharel vem à baila. É ele, ao contrário, pessoa muito falada nas crônicas. Parece mesmo, pelo que ressalta de velhos papéis, que se trata de individualidade muito conhecida dos mareantes que arribavam por estas paragens. Assim, Diogo Garcia, o piloto da expedição de 1527, trata miudamente do bacharel. Chegou mesmo a tratar com ele vários negócios. O bacharel, a essa época, não estava em Cananéia, mas sim em S. Vicente. Eis o que diz Herrera, na sua "Historia das índias Ocidentais": 

"El piloto Diego Garcia, português, fue a la bahia de San Vicente, adonde llegó a 15 de enero; y un bachiller, portuguez, le dió mucho refresco de carne, pescada, y vitualla de la tíerra…" 

O próprio Diogo Garcia, cm carta que escreveu ao Rei da Espanha, se refere abundantemente a tal bacharel. Vivia ele há trinta anos, em S. Vicente, com os seus genros; e, homens de negócios, contratara com o próprio Diogo Garcia, a venda de oitocentos escravos. Eis a carta: 

"1527. E de aqui fuemos a tomar refresco en San Vicente; alli vive un bachiller e unos yernos suyos ha bien 30 anos". . . "compre de un yerno deste bachiller un vargantin que mucho servicio nos hizo". . . "y este bichiller, con sus yernos, hicieron comigo una carta de fletamiento para que los truxese em Espana, con la náo grande, ochocientos esclavos"… 

Eis pois, Sr. Paulista Velho, as fontes que falam do Bacharel. 

Torna-se necessário, segundo elas, decifrar quem é esse homem, que, vivendo em S. Vicente no ano de 1527 e em Cananéia no ano de 1531, reunisse em si estes requisitos: ser bacharel; ser português; ser degradado; ter vários genros. 

Dos historiadores que se meteram a decifrar essa charada, dois merecem um destaque especial. Foram os que mais eruditamente se entranharam na matéria. Um é Varnhagen; outro, Cândido Mendes. Para Varnhagen o bacharel é um tal Gonçalo da Costa, que Sebastião Caboto encontrou no Brasil e levou para Portugal. Para Cândido Mendes, que defende o seu ponto de vista com largo entranhamento, o bacharel é o próprio João Ramalho, o patriarca de S. Paulo. 

Parece que ambos, apesar de muito doutos, não destrinçaram os fios dessa complicadíssima meada. Pois, com a maior justeza, assim critica o padre Galanti a teoria dos dois decifradores: Varnhagen quer identificar esse bacharel com um Gonçalo da Costa; Cândido Mendes, com João Ramalho. Em nosso ver, nenhum dos dois acertou. Não pode ser Gonçalo da Costa porque este, segundo Herrera, ao qual apela Vanhagen, não era bacharel, e em 3530 voltou para a Espanha com Sebastião Caboto, indo estabelecer-se em Sevilha, onde D. João III o mandou chamar, oferecendo-lhe segurança e mercês para que fosse a Lisboa. 

Isto faz crer que Gonçalo da Costa, era ou um degradado, ou algum desertor. Observe-se que Caboto esteve só uma vez no Brasil em 1526, e tocou unicamente em Pernambuco, e em Santa Catarina. Pois, se Gonçalo da Costa seguiu Caboto em 1526, e voltou com ele para a Europa em 1530, como, em 1527, podia estar em S. Vicente, e em 1531 em Cananéia? E como podia dizer a Martim Afonso que morava naquele lugar havia trinta anos? Isto é, pelo menos, difícil de conciliar. 

Nem se pode tão pouco identificar esse bacharel com João Ramalho, que era analfabeto, e por isso não era possível que fosse bacharel. Nem se diga que lhe davam o título de bacharel como alcunha, porque neste caso lho teriam conservado, e diriam: João Ramalho, o Bacharel. Afirmar com Cândido Mendes que esse bacharel, vivendo entre os selvagens, tinha esquecido tudo, e por isto parecia, analfabeto, cremos que é demais. 

A não falarmos no Frei Gaspar, cuja boa-fé em nossos dias é reconhecida como assaz duvidosa, todos admitem que João Ramalho veio a estas terras pelos anos de 1515, ao passo que o bacharel morava cá desde 1502. 

O bacharel tinha numerosos genros, e por conseguinte muitas filhas: as filhas de Ramalho foram apenas duas, Beatriz e Joana, as quais se casaram com Lopo Dias e Jorge Ferreira, portugueses vindos na frota de Martim Afonso. “O bacharel, sendo degradado, não podia preencher ofícios públicos, como os ocupou Ramalho, o qual embora de mau caráter, entregue a vícios baixos, etc, não era degradado”. 

O bacharel, pois (como vê o Velho Paulista) continua ainda enigmático. 

Quem poderá elucidar o problema? 

Não sei. Certamente não serei eu. 

Vamos deixar o caso para um desses historiadores beneméritos, carunchos de arquivos, que passam a vida entre papéis velhos a desvendar mistérios como esse. 

Quando for deslindada a questão, eu hei de garatujar, aqui nesta mesma coluna, para V. S., Paulista Velho, e outros como V. S., um artigo em que explique "com o meu estilo fácil e o meu jeito ameno de escrever a História", quem é o bacharel de Cananéia. 

Ensaios Históricos- São Paulo, 1925