quarta-feira, 10 de julho de 2019

AS PINTURAS E PHOTOGRAFIAS DE BENEDITO CALIXTO



Fundação de São Vicente.


CALIXTO E A COMEMORAÇÃO DO PASSADO VICENTINO


Uma pintura histórica que representasse o desembarque do navegador português Martim Afonso de Souza e a fundação da capitania vicentina era planejada por Calixto desde 1892, conforme sinaliza a carta enviada a ele por Victor Meirelles em 8 de junho daquele ano. Além do estímulo à conclusão da pintura, o pintor catarinense enviou uma sugestão para o plano compositivo. 21A celebração do IV Centenário do Descobrimento foi a oportunidade encontrada por Benedito Calixto para concretizar sua interpretação artística a respeito do episódio solene da história vicentina. A elaboração de uma pintura histórica em grande formato, além de contribuir à projeção da carreira do artista em fins do século XIX, combinava com o intento das elites locais em promover simbolicamente o litoral sul paulista mediante a presidência do Estado de São Paulo.

É provável que a encomenda da tela tenha sido acordada no início de 1899, pouco antes da primeira publicação n’O Estado de São Paulo. As condições foram detalhadas nas cartas enviadas por Calixto em 3 de julho de 1903 a José Leite da Costa Sobrinho e a Antônio Militão de Azevedo, respectivamente o primeiro secretário e o tesoureiro da Commemoradora. 22. Ambas tinham conteúdo idêntico: cobrar os dez contos de réis que lhe eram devidos pela (já extinta) associação. É precisamente por isso que Calixto se vê obrigado a enunciar as obrigações que lhe foram atribuídas e, elucidando as condições de encomenda de Fundação de São Vicente. Tomemos como exemplo a carta enviada a Militão de Azevedo:


Illm. Snr. Antonio Militão de Azevedo,


A bem de meus direitos rogo a V. S., na qualidade de sócio-fundador e thezoureiro da “Sociedade Commemoradora do IV Centenário do Descobrimento do Brazil, em S. Vicente”, me declare ao pé desta, o seguinte:

1º. É verdade que esta Sociedade logo que iniciou os seus trabalhos, me encommendou um quadro historico “Fundação de São Vicente”?

2º. É verdade que foi previamente tratado esse quadro pela quantia de dez contos de réis (10:000$000), ficando eu obrigado a prestar os meus serviços gratuitamente a esta Sociedade como de facto prestei, não só na organização e auxilio do plano do monumento commemorador que se heregio, formando os desenhos dos múltiplos detalhes, indo repetidas vezes a S. Paulo, afim de fiscalizar a execução dos diversos passos ornamentaes, a officina do esculptor e fundição do Snr. J. Niel, cada vez que se tratava de modelar e fundir as diversas secções do monumento?

3º. É verdade que, de acordo com um tracto, eu formei ainda gratuitamente, os desenhos para diploma, timbres, medalhas etc, prestando-me ainda a fazer as ornamentações e placas decorativas para o salão do Rink e do Theatro Guarany, todas as vezes que celebravam-se conferencias publicas?

4º. É verdade que, por ocasião das festas inaugurais, prestei igualmente os meus serviços gratuitos a Comissão de Festejos, formando desenhos e trabalhando por muito tempo, quase dois meses consecutivos, nesses serviços?

5.º É verdade que prestei os meus serviços igualmente para a instalação da Exposição Archeologica que então se effectuou na Escola do Povo, formando plano e trabalhando em tudo de accordo com o enviado do Governo do Estado, o Snr. Alberto Loefegren e com a respectiva Comissão?

6º. Cumpri satisfactoriamente todas as clausulas a que me obriguei para com a dita Sociedade, em virtude de tudo que fiz?

7º. Quanto finalmente attingio a importância que esta Sociedade me entregou, por conta do pagamento do dito quadro?

Pesso a autorizar-me a faser da sua resposta o uso que me convem.

Com respeito e consideração,

Benedicto Calixto

S. Vicente, 3 de julho de 1903



No contexto de montagem da exposição histórica da sala A-10 por Afonso Taunay, a tela foi apropriada como parte essencial de um conjunto de mapas históricos e documentos oficiais que pretendiam subsidiar uma narrativa sobre a formação do Brasil a partir dos acordos diplomáticos, do século XVI ao XX. Se a ideia de “cellula mater” permanece reatualizada desde a Sociedade Commemoradora, a fundação da capitania de São Vicente adquire um novo sentido relacional às expansões pelas bandeiras paulistas do século XVII, como a “antessala” da epopeia bandeirante. A condição de encomenda da obra, por isso, colabora ao mapeamento do contexto e das pressões enfrentadas pelo pintor Benedito Calixto, bem como de seus agenciadores: a doação e posterior aquisição pelo governo do Estado permitem inferir a dinâmica dos grupos de interesses no fim do século XIX a partir da pintura histórica musealizada, em que a elite santista e vicentina se pretendia fazer representar no regime republicano ainda engatinhante, mobilizando a história local como um recurso simbólico para a reafirmação de seu lugar político.




Fundação de São Vicente na sala A-10, em 1937. Acervo do Museu Paulista da USP. Foto: Helio Nobre.

Fundação de São Vicente, de Benedito Calixto, pintura incorporada ao acervo do Museu Paulista após as comemorações vicentinas do IV Centenário do Descobrimento do Brasil. Recobram-se, para tanto, os processos de sua encomenda, doação e aquisição definitiva, bem como os sentidos de sua exibição nas exposições elaboradas por Hermann von Ihering e Afonso Taunay para o Museu Paulista.

Fonte: Fundação de São Vicente, de Benedito Calixto: da encomenda à exibição no Museu Paulista (1898-1939). EDUARDO POLIDORI




Praia do José Menino




























Itararé, 1894


























Pedra dos Ladões. Riacho e Praia do Itararé























Praia Mahuá, Morros dos Barbosas, Morro do Japui e Xixová.































Biquinha de Anchieta



Guamium, Mar Pequeno.




















Ponte Pênsil, lado ilha





















Pedra do Mato Mahuá

























Chegada de Martim Afonso




















Morro e Praia do Itararé

























Casa de veraneio no Itararé.

























Passeio no Itararé





















Pedra do Mato e Baía de São Vicente


Itararé e Santos


























Ponte Pênsil, lado continental  Japui





















                                                   Pedra do Mato e Praça 22 de Janeiro

























Baia vista do Morro dos Barbosas.



PHOTOGRAFIAS

ACERVO DO MUSEU PAULISTA




Antiga viela entre as ruas Martim Afonso e XV de Novembro, atual Travessa Ana Pimentel. Ao fundo a Igreja Matriz.

"SÃO VICENTE POR VOLTA DE 1902. PEQUENA RUA QUE LIGAVA A RUA MARTIM AFONSO À RUA DIREITA, HOJE 15 DE NOVEMBRO. NA FOTO, OS FUNDOS DA MATRIZ COM O SEU TELHADO ORIGINAL, HOJE DESAPARECIDO. O SOBRADO EM FRENTE A IGREJA ERA DO 'SEU GONÇALVES' QUE TINHA A ÚNICA SAPATARIA DE SÃO VICENTE. O CASARÃO À DIREITA COM JANELAS EM ARCOS, FOI A PRIMEIRA CASA EM SÃO VICENTE QUE RESIDIU BENEDITO CALIXTO, E QUE ALI RESIDIU ATÉ CONSTRUIR EM 1915 SUA RESIDÊNCIA PRÓPRIA, NUMA CHÁCARA NA RUA MARTIM AFONSO ONDE RESIDIU ATÉ SUA MORTE EM 1927." Acervo de Benedito Calixto. Museu on line da USP.


Em 1881, residindo em Santos,  Benedito Calixto recebe uma bolsa concedida pela cidade para se instalar na França. Ali toma conhecimento das inovações tecnológicas e tendências da pintura e registros paisagísticos. No final da sua estadia retorna ao Brasil e vai residir em São Vicente, ocupando uma casa na rua Martim Afonso, em uma viela próxima à Igreja Matriz (atual viela Ana Pimentel).  Depois se muda para  uma chácara, na mesma rua Martim Afonso, entre as atuais José Bonifácio e Jacob Emmerich. O pintor havia trazido da França um equipamento fotográfico, fartamente usado por um dos seus filhos, tanto como objeto de registro do lazer familiar como de lugares, paisagens e cenas que se transformariam em quadros.

Segundo Tadeu Chiarelli, “Calixto é um dos raros artistas que, em São Paulo, nas primeiras três décadas do século XX, usa a fotografia como base estrutural para seus trabalhos (....) É notável como a fotografia ajudou em muito a pintura a refletir sobre sua especificidade de plano bidimensional. No entanto, essa não foi a lição que Calixto aprendeu com essa nova tecnologia de produção de imagens. De maneira instrumental, ele a usou para reafirmar seu conceito de mundo como teatro, como espaço para a encenação da vida e de seus fatos".

É desse período que resultou esse acervo de imagens fotográficas guardado pelo Museu Paulista, da Universidade de São Paulo. A parte vicentina do acervo registra cenas de uma São Vicente bucólica e provinciana, já freqüentada por turistas em suas casas de veraneio, porém ainda sem as construções que mudariam totalmente a paisagem nas décadas seguintes. Nessa época – das primeiras fotos-  não havia a Ponte Pênsil nem os edifícios altos que tomariam toda a orla da antiga praia Mahuá (lugar mais alto em tupy) e que seria rebatizada de praia do Gonzaguinha. 


Monumento da Praça 22 de Janeiro




Pedra do Mato e Praia do Mahuá, futura Gonzaguinha






























Família Calixto na orla vicentina. Casebres no Morro dos Barbosas, próximo ao Porto Tumiaru.



Calixto em seu atelier na rua Martim Afonso.






Família Calixto na antiga Biquinha de Anchieta.
Calixto com a família no canto da Praia Mahuá, na Pedra do Mato. 

Retrato do pintor no quintal da chácara. 

O pintor com a sua esposa Antonia Leopoldina, filhos e netos.

FOTOGRAFIA FEITA EM 1925 NO TERRAÇO DE SUA CASA EM S. VICENTE. EM PÉ MARIA JÚLA, JOSÉ ALBERTO E BENEDITO CALIXTO, FILHOS DE FANTINA. DEPOIS, NA MESMA ORDEM, AYRTON, GILBERTO, IONE E JOÃO BATISTA, FILHOS DE SIZENANDO."






























Jardim frontal da casa do pintor na rua Martim Afonso.



Passeio na Pedra do Mato e na recém inaugurada Ponte Pênsil.






























Família de Benedito Calixto na primeira sede náutica do E.C. Tumiarú onde seria construída a Ponte Pênsil.























Família de Benedito Calixto na Travessia para Japui. O serviço era explorado por pelos irmãos portugueses Antão e Antero de Moura, conhecidos empresários e politicos de São Vicente.
E, na foto abaixo,  na primeira sede náutica do E.C. Tumiarú onde seria construída a Ponte Pênsil.