terça-feira, 9 de julho de 2019

PRAIA GRANDE E SUA HISTÓRIA

DE BAIRRO VICENTINO 

À FUTURA METRÓPOLE REGIONAL

DALMO DUQUE DOS SANTOS 

Membro fundador do Instituto Histórico e Geográfico de Praia Grande



Casas de veraneio da Vila Matilde, do então bairro vicentino de Praia Grande na década de 1950. 
Acervo: Claudio Sterque.

ORIGENS, EMANCIPAÇÃO E DESENVOLVIMENTO


A história de Praia Grande foi o último capítulo da sucessão de desmembramentos territoriais da antiga Capitania de São Vicente. Da Vila Afonsina oficializada em 1532 surgiu primeiramente a Vila de Santos, dividindo a área insular em duas partes e que resultaria nos séculos seguintes uma incrível paisagem de conurbação. O turista ou o forasteiro comum não conseguem distinguir visualmente as duas cidades, a não ser quando é alertado por placas de trânsito. 

Depois  de Santos surgiram as vilas do Planalto, fundadas inicialmente por João Ramalho e pelos padres jesuítas; e depois pelos desmembramentos das mais antigas: São Paulo, Santo André, São Bernardo e mais recentemente São Caetano; também as dezenas de municípios no grande entorno da Capital e no interior. 

No litoral sul os desmembramentos ocorreram da mesma forma, com a separação de Itanhaém, Mongaguá e Peruibe. Da Vila Santos, que conquistou o titulo de cidade 1839,  em  ressurgiu a própria Vila de São Vicente, submetida ao porto santista; desmembrou-se Cubatão (que pertencia a São Vicente até 1824), Guarujá e mais recentemente Bertioga. Ainda existem na região sonhos, projetos e tentativas de emancipação, porém sofrendo as regras impostas pela lei complementar de 1º de novembro de 1967, com suas atualizações, limitando a criação de novos municípios

Publicação da revista santista Flama, em janeiro de 1939. Acervo: Fundação Arquivo e Memória de Santos.


CAMINHO DA PRAIA DE BANHOS EM ÁGUAS SALGADAS


Essa antiga matéria de jornal do início do séclo XIX e reproduzida Flama em 1939 pela revista revela uma interessante parceria entre o estado e iniciativa privada em 1807. Ela marcou o início da exploração de terrenos no litoral sul por meio de uma estrada ligando Santos, São Vicente, Praia Grande e Itanhaém. A estrada teria como base de traçado um antigo caminho aberto pelo Sargento-Mor Manoel José da Graça e que seria concluído por essa nova obra. A iniciativa partiu de cidadãos da região, na condição de contribuintes particulares, e teve o apoio do senador José da Costa Torres, sugerindo a contratação de mão-de-obra e equipamentos, bem como a indicação do Tenente Coronel Engenheiro João da Costa Ferreira para comandar as obras. 

Certamente essa campanha tinha como meta a ocupação de lotes públicos na orla, com a finalidade futura de comercialização de chácaras e terrenos, marca empreendedora responsável pelas principais tranformações urbanas em toda essa região e que perduram até hoje. 

Era também o início da mudança de costumes, com a fuga da agitação e artificialidadae da vida urbana com a busca de ar puro e outros confortos traquilizadores proporcionados pela natureza. Essa nova modalidade de lazer, que antes se restringia ao refúgio em sítios e chácaras seria estendida nas décadas seguintes aos banhos "terapêuticos" e diversões esportivas das praias. O novo costume seria a base da expansão dos negócios imobiliários que, no século seguinte, seria também a causa do desmembramento de territórios políticos da Ilha de São Vicente.  

A alteração dos limites e divisas territoriais geralmente eram estimulados pelos negócios de obras públicas, transportes e principalmente de empreendimento imobiliários. A divisa da Ilha de São Vicente entre os municíos de Santos e São Vicente foi alterada diversas vezes, primeiramente pelas linhas e estações de bondes. Num segundo momento o principal fator de mudança foi a construção do Cemitério de Areia Branca, na zona noroeste, fazendo com os limites santista avancessem sobre o território vicentino. O processo acontecia inicialmente pela autonomia parcial de distritos, depois com formação de loteamentos e arruamentos e finalmente pela emancipação, como ocorreu com Itanhaém, Peruibe, Mongaguá, Praia Grande e Bertioga. O rápido crescimento populacional está na base dessas mudanças, estimulado pelo turismo atraindo crescentes fluxos migratórios em busca de mão de obra. Todas as cidades da Baixada Santista (imitação da expressão geográfica Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro) sofreram intensas alterações demográficas nas primeiras décadas do século XX em função desses dois fatores. Segundo dados do IBGE, Praia Grande tinha em 1970, três anos após sua emancipação, cerca de 19.704 habitantes. Nas décadas seguintes saltou para 66.011 (1980), 123.494 (1990) e 193.582 mil habitantes. Esse crescimento exponencial teria continuidade na virada para o século XXI, com a super-oferta de unidades imobiliárias do segmento turístico na orla, acompanhada de uma intensa ocupação de terrenos próximos às áreas de mangue seguindo em linha paralela à ocupação da orla. Em 2010, por meio de uma revisão censitária, a população praia-grandense já era de 262 051 habitantes e, também na projeção do IBGE, esse número atingiria em 2020 a quantia de 330 845 habitantes.


OS PRIMEIROS HABITANTES 


AVENTUREIROS, EXPLORADORES E SITIANTES


As origens mais recentes de Praia Grande, entre meados do século XIX e as primeiras décadas do XX, revelam  a presença de sitiantes de lazer, vicentinos e santistas, que ultrapassavam os limites do Japui e desfrutavam as belezas naturais da orla, do mangue e da mata continental para caça, pesca e banhos em águas salgadas. A preocupação desses primeiros empreendedores era abrir uma estrada que pudesse  facilitar o acesso e ao mesmo tempo ampliar os negócios de ocupação, geralmente compra e venda de terras. O transporte terrestre na região era feito por antigos caminhos abertos pelos próprios ocupantes ou então, na maior parte do ano, pela areia da praia, mesmo quando o trajeto passou a ser feito por automóveis e jardineiras que levavam passageiros de Santos a Itanhaém. 

Os posseiros - alguns fixos e outros nômades, que se deslocavam para os locais mais distantes quando seus recursos de sobrevivência se tornavam escassos ou quando incomodados por outros ocupantes. A hidrografia vicentina, insular e continental era composta por dezenas rios, riachos e nascentes em perfeito estado natural e que depois foram canalizados e extintos pela urbanização. Nem é preciso imaginar a diversidade da fauna e da flora nessa imensa reserva atlântica. 

Os sitiantes. Havia também, desde o período imperial, os sitiantes fixos, pequenos agricultores e criadores - proprietários negociantes que transportavam sua produção por meio de embarcações fluviais, tendo como pontos de ligação os portos fluviais e marítimos. Alguns desses núcleos são os mais lembrados por serem a origem mais remota de muitos bairros  e vilas atuais, divididos geograficamente entre a orla (sítios de praia) e o mangue, que em alguns mapas aparecem com a denominação de "pântanos de águas salgadas" :


O SÍTIO DO ITAIPU, da encosta do maciço próximo ao Morro do Xixová até a ponta de praia que, segundo alguns autores antigos era o local onde desaguava o rio Piaçabuçu, área que pertenceu ao vicentino José Gonçalves Aguiar (1711-1843) - último Capitão Mór de Portugal na região. No recenceamento de 1823 o Capitão Mór Aguiar aparece como com proprietário de 200 alqueires e grande produtor de farinha de mandioca. Sua propriedade no Itaipu posteriormente foi adquirida pelo Exércido e transformada nas fortalezas militares de proteção da Barra de São Vicente e do Porto de Santos. Também faziam parte dos sítios dessa região as propriedades do Japui, depois cortadas pela avenida Tupiniquins, ocupados pelos bananais de Luiz Antonio Barreiros; pela Pedreira Itapoã, de Moacyr Lapetina; e pelo Curtume Cardamone, já próximos do porto de travessia e depois Ponte Pênsil  Saturnino de Brito. 


Sítio do Campo, à esquerda; e o sítios do Japui, cortados pela avenida Tupiniquins. 


SÍTIO PAI FELIPE no antigo  Caminho do Coquepoçú;

SÍTIO MOMBOATUBA, de Francisco Miranda Tavares;

SÍTIO GUARAMAR,  de Francisco Antonio da Silva- com registro de 30 de maio de 1856, sendo somente a terça parte dessa extensa área, segundo o registro paroquial, e que fazia frente ao Rio Pequeno e ao Porto Pequeno. Depois pertenceu a João Antunes Santos, sucedido já século XX, por  Manoel Alves e sua esposa Deolinda Alves Caneca. 

SÍTIO SÃO SEBASTIÃO, parte do Sítio Guaramar. 

SÍTIO TAPERINHA – Propriedade de João Azevedo Cunha, parte do antigo SÍTIO BOGUASSU (Jardim Guilhermina), adquiridos mais tarde pela família Guinle (homenageando Guilhermina Guinle), então sócios-propietários do Porto Organizado de Santos e também proprietários do hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. 

SÍTIO PORTO DO CAMPO – pertencente  originalmente a Agostina Rosa de Aguiar, depois subdividido em propriedades menores. 

E o também conhecido SÍTIO SÃO GONÇALO. 


FAMÍLIA BASTOS

Entre os antigos sitiantes da área continental  da orla vicentina identificamos os Bastos, uma  família de origem portuguesa  que habitava a extensa área que ia do Japui ao atual Sítio do Campo, faixa de terras entre a praia da Guilhermina e o Mar Pequeno. Ali situava-se também o Porto do Rei, estabelecimento colonial e depois imperial  cuja nomenclatura indicava a circulação de mercadorias e posto de arrecadação  alfandegária. Entre os seus membros mais antigos aparecem nos documentos vicentinos figuras como António Teixeira de A. Bastos, produtor de àgua ardente; e Cezário Bastos, advogado promotor de justiça, nascidos e moradores de sítios no Porto do Rei. 

Os Bastos provavelmente viviam de rendas de arrendatários e também eram conhecidos bacharéis formados em São Paulo muito atuantes em Santos e São Vicente. 

Tude Bastos nasceu de São Vicente em 9 de abril de 1914. Ingressou na Escola Politécnica da USP em 1932 e graduou-se como engenheiro civil em 1937. (Os arquitetos da Poli: ensino e profissão em São Paulo. Sylvia Ficher, São Paulo: Fapesp; Edusp, 2005). 

Magino Bastos tornou-se um venerado político vicentino, como demonstra esse pequeno texto biográfico que justificava a denominação de uma rua no bairro Catiapoã (leis municipais de 1949 e de 1958):

“São Vicente produziu, em era pretérita, um varão ilustre, dos mais dignos, dos mais conspícuos e altaneiros que um solo pode conceber. Chamou-se Dr. Magino Bastos, filho do Dr. Tude Bastos. Magino Bastos foi o primeiro vicentino formado pela Faculdade de Direito de São Paulo. Em 1907 desempenhou as funções de vigilante do tradicional colégio de Direito. Indicado para vereança em 1911, foi o primeiro vereador eleito por grande esmagadora maioria de votos, apesar de pertencer à oposição, fato inédito naquela época em que o sufrágio não era secreto e que as consciências e os eleitores eram severamente vigiados pelos partidos a que pertenciam. Era casado com  a Sra. Maria Emília Caramuru Bastos, com quem teve o filho Tude Bastos (neto), um dos fundadores do IHGSV. Faleceu em 1937”. (Narciso Vital de Carvalho. São Vicente. Conheça as ruas de suas cidade, 1978)

Na mesma Praia Grande vicentina, o casal de antigos sitiantes  José da Silva Bastos e Maria Plácida da Costa Bastos, que moravam num Sítio no Porto do Rei, tornaram-se  em 14 de setembro de 1849 pais do menino José Cesário da Silva Bastos, que se tornaria importante  figura da vida pública paulista.   

"O dr. José Cesário da Silva Bastos foi dos maiores chefes políticos do Município ou o maior deles, segundo a opinião insuspeita de observadores de ontem e de hoje. Segundo comprova Costa e Silva Sobrinho, em 'Santos Noutros Tempos', nasceu ele em São Vicente em 16 de setembro de 1849 e [foi] batizado nesse município em 17 de novembro do mesmo ano, sendo seus padrinhos o padre Manoel de Ascensão Costa, que ministrou o batismo, e d. Mariana Benedita de Faria Albuquerque, sogra do Marquês de São Vicente". (Almanaque de Santos, 1971)


O senador José Cesário da Silva Bastos

O Dr. José Cesário da Silva Bastos  é nome de praça em São Vicente e da primeira escola pública de Santos. A Escola Estadual Barnabé, em Santos, também foi fruto da sua iniciativa de ampliação do ensino primário.  Cesário talvez tenha sido o membro mais importante e influente dessa família praia-grandense. Depois de cursar a Faculdade de Direito de São Paulo tornou-se promotor público em Araraquara, ingressando posteriormente nas lides republicanas e cuja carreira repercutiu na  intendência e câmara municipal de Santos. Posteriormente torna-se senador na  Assembleia Legislativa de São Paulo:

"Em 1894, foi eleito senador do Estado na 3ª legislatura republicana, servindo à alta Câmara paulista de 1894 a 1897, para a qual foi reeleito por mais duas vezes, exercendo, portanto, o alto cargo de 1900 a 1910. Após a reforma constitucional, o dr. Cesário Bastos ainda voltou ao Senado estadual, na primeira legislatura, que se desdobrou de 1922 a 1925, figurando ao lado de Reinaldo Porchat, Galeão Carvalhal, Antônio Carlos da Silva Teles e outros. Jornalista, orador consagrado, chefe político de talento e inteligérrimo defensor das causas justas, o ilustre homem público foi coadjuvador de instituições assistenciais, culturais e sociais, com inestimáveis serviços prestados à Santa Casa e à Beneficência Portuguesa. Desta última, foi orador em várias solenidades e dedicado defensor de interesses econômicos junto aos governos da União e do Estado, sendo sócio honorário em 1906 e sócio benemérito em 1910" ( Almanaque de Santos, 1971)

Cesário Bastos também é nome de uma conhecida avenida em Santo André, cidade que escolheu para viver após a revolução de 1930 e onde faleceu em 8 de outubro de 1937.


OS EXTRATIVISTAS: MINERADORES E LENHADORES

Além das atividades de ocupação legais e ilegais, assim como nos processos de extração mineral, ocorreu no litoral vicentino, durante décadas, o desmatamento intenso e sistemático por meio da extração predatória de madeira, principalmente como fonte de combustão (lenha e carvão) utilizada em diversos segmentos da indústria e serviços de hotelaria, restaurantes e residências particulares. Como também informa a pesquisa citada a seguir, a extração dessa vegetação de mata atlântica facilitou a expansão, ocupação e transformação dessas áreas e novos loteamentos  próximos aos manguezais e aos rios. 

“Terrenos originalmente recobertos por vegetação de restinga, a partir da década de 1960, foram tomados por construções. Conforme a Prefeitura da Estância Balneária de Praia Grande (2002) e Souza (2010), os primeiros bairros localizavam-se próximos à orla. Entre 1972 e 1996, a urbanização consolidou-se nos bairros mais antigos e estendeu-se para o interior do continente. Entre 1996 e 2005, a urbanização ocupou áreas adjacentes àquelas urbanizadas anteriormente e preencheu vazios existentes entre os loteamentos (Hidroconsult, 2006). Verifica-se também que a urbanização seguiu em direção às Áreas de Preservação Permanente (APP) dos rios Boturoca e Piaçabuçu. A área ocupada por manguezais também sofre com o crescimento da urbanização. Com o objetivo de proteger esses ambientes, foi criado o Parque do Piaçabuçu, através da Lei Complementar n.152, de 26/12/1996 (Luz, 2006). Além da retirada de parte da vegetação de restinga para a implantação do setor urbano, a ocupação da Planície Costeira também resultou no aparecimento de áreas com solo exposto e manchas de vegetação rasteira. Destaca-se ainda a existência de antigas minerações que alteraram significativamente as características originais da área. “Baixada Santista uma contribuição à análise geoambiental”. 

Cenira Maria Lupinacci da Cunha Regina Célia de Oliveira(orgs.). Editora Unesp, 2015.


As terras de Praia Grande, desde a década de 1930, sofriam o  desmatamento  e também de conflitos agrários entre antigos sitiantes e exploradores de recursos naturais e loteadores. Esse período de ocupação marcou época em São Vicente, sobretudo na área continental, e era muito comum encontrar estampados nos jornais de grande circulação os editais do poder judiciário convocando publicamente as partes envolvidas para prestação de contas e atos.   


INVASÃO DE TERRAS FOI DENUNCIADA NA JUSTIÇA EM SANTOS


A denúnica e defesa dos proprietários do antigo Sítio Guaramar contra o invasores foi feita pelo célebre advogado José de Freitas Guimarães contra "Tude Bastos e seus camaradas", se referindo à invasão, cercamento, desmatamento e comercialização ilegal de lenha de propriedades particulares. José de Freitas Guimarães foi "provecto advogado, literato, escritor de renome e antigo promotor público da Capital, tendo exercido também o cargo de subprocurador geral do Estado. Em 1915 abandonou a procuradoria em São Paulo e voltou a Santos para dedicar-se somente à advocacia, profissão que exerceu até a sua morte, em 1944. Freitas Guimarães é nome de rua no bairo Boa Vista, em São Vicente.



 O advogado José de Freitas Guimarães e o edital sobre as terras do Sítio Guaramar. O edital publicado pela Vara de Santos no jornal GAZETA POPULAR em 31 de dezembro de 1935 descreve por meio de uma petição judicial um conflito agrário; e também  a organização primitiva de Praia Grande através do sítios desde o século XIX e que seriam transformados e bairros e vilas após a emancipação da cidade.




EDITAL de citação de ausentes com o prazo de sessenta dias

COMARCA DE SANTOS - CARTÓRIO DO 8º OFICIO

Escrivão: - Michel Alca

Eu, o dr. Euclydes de Campos, Juiz de Direito da 2.a Vara Cível e Commercial desta comarca de Santos, do Estado de S. Paulo, na forma da lei.

FAÇO SABER aos que o presente edital virem, dele conhecimento tiverem e interessar possa que por parte de Manoel Alves e sua mulher dona Deolinda Alves Caneca, me foi dirigida a petição do teor seguinte:

- Ex mo. Sr. Dr. Juiz de Direito de Vara: Por seu advogado e procurador infra assinado, em procuração inclusa, dizem Manoel Alves e sua mulher D. Deolinda Alves Caneca aqui residentes, que é esta para expor e requerer a V. Excia, o seguinte:

1º - Os suplicantes adquiriram dos herdeiros do João Antunes dos Santos, pela inclusa escritura (doc. n.o 1), as partes componentes do Sítio Guaramar, da Praia Grande. Município de S. Vicente, desta Comarca, isto em 21 de Outubro de 1931, tendo sido a respectiva transcrição feita, quinze após sob o n. 4.264, no L. 3-3 do Transcrição de Imóveis, a fls. 293, no Cartório do Registro Geral e de Hypothecas da 1ª Circunscrição,  documento junto,nº 2.

2º - As divisas de tal imóvel como se vê na aludida escritura, as seguintes: "A Oeste, confronta com terra do Sitio Momontuba, por uma linha reta que parte do marco de pedra existente junto uma Árvore de murta, (marco remotamente conhecido como marco da murta) e vai até o rio Porto Pequeno, atravessando um morrinho um pouco à direita do seu cume do Marco da Murta. Por outra linha reta, do rumo a encontrar outro marco antigo na margem do velho Caminho do Coquepocu, em terras do Sítio Pai Fellipe, reta essa que termina na linha do Telegrapho, Nacional. Nos fundos, com a linha do dito telegrapho, que divide o Sitio Guaramar com as terras dos sítios que fazem frente pana Praia Grande, como sejam o dos sucessores de João de Azevedo Cunha, o Sítio Taperinha, parte do antigo sitio Boguassu, hoje Jardim Guilhermina, e outros. A leste, por una linha parallela a do lado do Sítio Momboatuba, a qual, partindo da linha do Telegrapho Nacional,  vai até encontrar a divisa entre o Boguassú e o Porto do Campo, e daí por outra linha reta, paralela à do lado do Momboatuaba, dividindo o Sitio Guaramar das terras do sítio do Porto do Campo até chegar à margem do Rio Porto Pequeno

3) - Essas divisas concordam plenamente com as da certidão do registro parochial do Sítio Guaramar (doc, no. 3), registro que feito em 30 de Maio de 1856, por Francisco Antonio da Silva, declarando este, ali, "que possuía uma terça parte nas terras do Sítio Guaramar, as quais fazem frente no mar pequeno em um rio de embarque chamado Porto Pequeno, e pelo lado esquerdo dividem com D. Agostinha Rosa de Aguiar (Sítio Porto do Campo) e seus herdeiros, e pelo direito com terras denominadas Momboatuba, então pertencentes aos herdeiros de Francisco de Miranda Tavares, hoje dos suplicantes em sua quase totalidade), e, pelo centro (fundos), com terras de João de Azevedo Cunha, tal como ficaram figuradas na planta inclusa (doc, no. 4), levantada em obediência aos registros paroquiais dos diversos atlas então existentes na região, tanto os fronteiriços à Praia Grande como os que se achavam atrás deles, com frente para o mangue ou mar pequeno.

4) - Tais divisas nunca foram assinaladas judicialmente em demarcação regular, e isto tem dado lugar a contínuas desinteligências entre os vizinhos conflitantes, que por mais de uma vez as têm violado, estabelecendo-te dentro delas, como ainda recentemente o fez Tude Bastos que a invadiu com grande aparato de força, e ali  se acha derrubando matas que lhe não pertencem, pois são do sítio dos suplicantes: - e por que querem estes fixar definitivamente as linhas verdadeiras do Guaramar, que compraram pelo doe. 230. 1.

5) A planta que oferecem (doc, no. 5) traça perfeitamente as confrontações daquele sitio, na escritura juntada (doc. no. 1), figurando as linhas divisórias como haverão ser demarcadas judicialmente, sem prejuízo do nenhum dos conflitantes, as quais são o referido Tude Bastos e os diversos proprietarios estabelecidos em terras dos sítios antigos da Praia denominados São Gonçalo, Tapérinha, Pai Fellipe e Boguassu, cujos nomes o oficial de Justiça fácilmente colherá no local.

6) - Devido à falta de sinalização das divisas do sitio demarcando, Tude Bastos, e outros com ele e a seu mandado, invadiram o Guaramar, e ali continuam derrubando as matas do imóvel, como se estivesse em sua própria casa, produzindo e vendendo a lenha que lhe não pertence a fazendo ouvidos moucos às constantes reclamações dos Suplicantes,

7) - Por todos estes motivos, querem os suplicantes demarcar o referido Sítio Guaramar e haver a restituição dos terrenos invadidos, onde se acham o dito Tude Bastos e seus camaradas, pelo que é esta para requererem a V. Excia, se digne mandar citar aquele e os demais invasores que se acham, bem assim todos os outros confrontantes do imóvel conhecidos, com suas respectivas mulheres, se casados, cujos nomes o oficial de Justiça poderá colher com facilidade no local, e por editais, com o prazo de sessenta dias os desconhecidos, nos termos do art. 681, I "b". do Código do Processo Civil e Commercial do Estado, todos eles para virem em primeira audiência em que a última citação for acusada falar aos termos de uma cerca demarcatória de assinalação de limites, cumulada com a de reivindicação, afim de que as divisas verdadeiras do sítio mencionado sejam devidamente assinaladas, condenados os réus invasores restituir aos suplicantes os terrenos usurpados e os respectivos rendimentos, desde a contestação da lide, tudo de conformidade com a leis, as penas nela estabelecidas.

Sendo certo que Tude Bastos não possui bens imóveis que garantam o pagamento do valor equivalente ao das matas que está derrubando, requerem, outros, nos termos do disposto no art. 386, IV, do citado código, se faça o sequestro da lenha que for sendo cortada e seja a mesma vendida, depositando-se em juízo o preço da venda para os fins de direito. Para os fins fiscais, dão a esta o valor de 10.000$000.

Nestes termos,  pedem D. esta e A. esperam receber deferimento.

Santos, 21 de Novembro de 1935.

José de Freitas Guimarães 


 
Sítio do Campo nos anos 1960, exatamente no local onde seria construído o terminal rodoviário Tude Bastos.


INDÍGENAS E CAIÇARAS 

Não era raro encontrar nesse extenso território rural alguns núcleos indígenas,  habitando choupanas espalhadas e próximas aos rios e manguezais. Os remancescentes dessas etnias pré-coloniais, como em quase todas as regiões do Brasil,  foram se deslocando para regiões fora do alcance da civilização e desaparecendo aos poucos, restando na região poucos núcleos localizados em Itanhaém e Peruibe. Seus herdeiros mais diretos são os caiçaras, caboclos mamelucos que sobreviveram porque se misturaram e  se adaptaram ao contato e costumes dos novos povoadores. Sobre esse grupo indígena de habitantes primitivos, há registros fotográficos desses núcleos no início do século passado, sempre em número muito reduzido de povoamento.   

Os caiçaras são tipos caboclos caipiras - caçadores, pescadores, cletores e agricultores-  que habitavam as terras mais  próximas aos rios e da Mata Atlântica; ou então os praianos que formavam comunidades nômades de pescadores sazonais com suas embarcações rústicas e  enormes redes estendidas sobre as areias. Essa figura tradicional do caiçara, morador de choupana sobre a vegetação do jundú, existiu praticamente em todo o litoral e, por não ter vínculos sólidos com a terra, foi desaparecendo na medida em que ocorriam as ocupações de forasteiros veranistas e dos loteadores. 


Cabana indígena no Porto do Rei no início do século XX, cartão postal do historiador Waldir Rueda, cedido ao site Novo Milênio.


Apesar de nômade, a cultura caiçara, herdada dos indígenas, deixou influências marcantes na região: primeiramente no tipo humano e nos seus costumes simples como o linguajar, a vestimenta despojada, a culinária exótica, o temperamento servil  e que resulta numa identidade comum na população litorânea. Alguns dos seus remanescentes, há alguns anos, ainda eram vistos no pequeno comércio de orla nos quiosques rústicos ou então  como ambulantes vendendo bebidas e iguarias de peixe e camarão.  Caiçara hoje é apenas memória de um tempo remoto, quando Praia Grande era um extenso deserto de areia, águas límpidas e ondas solitárias. Deu nome a uma pequena vila, na época muito distante e primitiva, e que se tornou o bairro populoso e base de desenvolvimento  daquela parte da cidade. Quase todos os foram sendo substuídos pelos migrantes nordestinos, cujo estilo de vida era muito parecido com os caboclos litorâneos. Curioso e necessário lembrar que Praia Grande, como a maioria das cidades do litoral, incluindo Santos, dão a seus habitantes o apelido genérico de "caiçara", um gentílico de forte tradição popular. A única cidade que possui apelido diferenciado é São Vicente, que chama seus filhos de "calungas".


A pesca no Canto do Forte em 1927. Imagem de Antonio Augusto de Sá Lopes, um dos pioneiros de Praia Grande.


NORDESTINOS

A presença nordestina na região é mais recente, motivada pelas históricas retiradas do sertão. Os grandes fatores de atração dos nordestinos estão ligados à demanda de mão de obra permanente  no porto de Santos, nas obras das rodovias da Serra do Mar-Planalto Paulista, no polo industrial de Cubatão e principalmente ao setor da construção civil. Em Praia Grande a presença nordestina é dominate nos bairros do setor 3. Pressões demográfica em Santos e São Vicente a partir de 1980 também forçaram a busca dessa região como alternativa de moradias de baixo custo. O mesmo fenômeno regional ocorreu no Guarujá. Em Praia Grande os nordestinos e seus descendentes, com exceção dos que se integraram no médio e alto sistema econômico dos setores 1 e 2, habitam predominantemente uma extensa faixa de habitações horizontais - paralela à verticalização da orla- onde levam um modo de vida próprio e estável, trabalhando nas cidades próximas, porém, em sua maioria, atuando na informalidade do mercado turístico ou prestando serviços nos estabelecimentos comerciais diversos e nos condomínios residenciais da orla. 

MILITARES

Nota da revista santista Flama em 1940 noticiando um evento cívico no Forte. Acervo : FAMS


Outros ocupantes antigos desse bairro vicentino foram os militares, quando da instalação das Fortalezas do Itaipu, formando ali uma vila  de efetivos do Exército Brasileiro.  O Forte  construído na Barra de São Vicente  (denominação geográfica usada oficialmente pelo Exército ) teve como função principal proteger o Porto de Santos, ação que se acentuou no período da II Guerra Mundial. A comunidade militar, mesmo tendo a maioria do seu efetivo em trânsito, tornou-se referência de autoridade federal na cidade, tendo a sua alta oficialidade exercido intervenções nos destinos políticos da cidade. Por esse motivo muitos grupos e segmentos cultivam, de forma cultural e ideológica, a presença dos militares como um fator de segurança e proteção  social. Muitos oficias que serviram no Itaipu permaneceram em Praia Grande e na região após darem baixa na vida militar, dedicando-se à diversas atividades civis. 

A Fortaleza de Itaipu e a Vila Militar, desde a sua construção em 1906, tornam-se um patrimônio e fonte de orgulho local por ser o estabelecimento oficial mais antigo da cidade. Em quase todas as famílias que viveram na região nas últimas seis décadas encontramos algum membro que prestou serviço militar ou se aposentou na Fortaleza. O exemplo mais lembrado e símbolo principal desse vínculo cívico entre as cidades da região e a Fortaleza é um dos brasleiros mais famosos de todos os tempos: Pelé, ídolo nacional e mundial do futebol, cuja família morava nesse período no Voturuá, bairro simples de São Vicente. Na época em que completou 18 anos, Edson Arantes do Nacismento prestou serviço militar no Forte incorporado ao 6º GACosM. Segundo a revista Verde Oliva (edição 173-2002), "Iniciou assim o período de caserna do soldado 201-Nascimento, que, no próprio quartel, representou sua unidade em diversas competições esportivas."  


PONTA DO MACIÇO JAPUI-XIXOVÁ-ITAIPU, península que sistema de defesa militar denominou oficialmente de "Barra de São Vicente", base das fortalezas construídas a partir de 1906 para a defesa do Porto de Santos. O primeiro ocupante conhecido dessa região foi o Capitão Mór Aguiar, dono do sítio Itaipu. Ele foi o último capitão mór do período colonial e deixou inúmeros descendentes em São Vicente. Imagem: dronefaviano68.



O Forte, segundo o memorialista Claudio Sterque, recebeu durante a Guerra Fria a visita do General George Marshal, em missão de alinhamento contra o expansionismo soviético. Marshal visitou todos os quartéis considerados estratégicos, desde o extremo-sul até as bases do norte-nordeste.  


Cidade de Santos. Domingo, 10 de novembro de 1968.

 

Nove líderes estudantis que foram presos dia 12 de outubro passado quando tentavam realizar o congresso da ex-UNE em Ibiúna e que desde o dia 16 estavam na fortaleza do Itaipu foram transferidos ontem para as delegacias Sul e Oeste da capital, onde aguardarão para serem ouvidos no inquérito da 2ª Auditoria Militar.

Vladimir Palmeira, Luís Travassos, José Dirceu de Oliveira, Marco Aurélio Ribeiro, Luís Raul da Mata Machado, Franklin Martins, Antonio Guilherme Ribas, Walter Covar e Omar Laino saíram da fortaleza às 16 horas num carro-cárcere da Força Pública.

O pedido de transferência dos estudantes, segundo informou o ten. cel. Antonio Erasmo Dias, comandante do Forte do Itaipu, foi feito pelo secretário da Segurança Pública do Estado de São Paulo, Hely Lopes Meirelles. Desde as 13 horas, a escolta que deveria levar os estudantes para São Paulo era esperada pelo comandante, que por causa disso teve que impedir a visita de alguns familiares que foram ao forte ontem para vê-los, inclusive de Ana Maria Palmeira, esposa de Wladimir.

Não gostaram - O tte.-cel. Antonio Erasmo Dias disse ontem que os estudantes não gostaram quando foram informados que seriam transferidos para São Paulo. "Desde anteontem que eu já sabia da transferência dos moços. Por isso, hoje de manhã providenciei um exame médico e dentário para eles". Depois da ginástica habitual, os estudantes tomaram banho, almoçaram e foram arrumar suas coisas. Às 16 horas o caminhão da Força Pública chegou e os estudantes embarcaram.

O comandante informou que durante os 23 dias e meio que os estudantes passaram naquela unidade militar, foram submetidos a interrogatórios informais, que não serão juntados ao processo a que terão de responder, na Justiça Militar.



Prisão de José Dirceu em Ibiuna e sua ficha no DOPS
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Uma figura militar de destaque que residiu no Forte de Praia Grande foi o general Osvaldo Muniz Oliva, nascido em Santos em 1925 e ingressante na Academia das Agulhas Negras em 1945. Na sua biografia do CEPDOC da Fundação Getúlio Vargas, consta  a sua rápida trajetória de promoções e serviços em importantes unidades técnicas do Exército: "Cursou a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais entre fevereiro e novembro de 1955, quando foi para o Grupo de Artilharia da Costa, em São Vicente (SP)". Foi oficial de gabinete do então ministro deo Exército general Artur da Costa e Silva e depois assessor-chefe da Secretaria Geral do Conselho de Segurança Nacional, onde ficou até 1970. Nesse mesmo ano tornou-se comandante do 6º Grupo de Artilharia Motorizado, em Praia Grande.

 


General Osvaldo Muniz Oliva

 

Do seu casamento com Iara Mercadante Oliva, teve seis filhos, "Um deles, Aluísio Mercadante, deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT), de São Paulo, na legislatura 1991-1995 e a partir de 1999, candidato derrotado à vice-presidência da República na chapa encabeçada por Luís Inácio Lula da Silva, nas eleições de outubro de 1994 e a vice-prefeito na chapa encabeçada por Luísa Erundina à prefeitura de São Paulo, em outubro de 1996, e senador eleito em 2002". O General Oliva declarou em entrevista que, mesmo sendo consevador, era apartidário e que sempre votou no filho. Encerrou suas carreira em 1990 como um dos mais influentes diretores da ESG, Escola Superior de Guerra. Na reserva atuou como consultor e tornou-se comentarista de jornalismo da Rádio Trianon, em São Paulo. 


PREFEITO MOURÃO SERVIU EM SÃO VICENTE

"No Dia do Soldado presto minha homenagem a todos aqueles que servem nossa Pátria. Tive a honra de servir o exército, no Batalhão de Infantaria Leve (BIL), em São Vicente. Sonhava em em ser marinheiro, só que precisei ajudar meu pai no comércio que ele tinha, mas acredito que de alguma forma estou contribuindo para o nosso País e nossa sociedade Lembro-me até hoje do dia que fui me alistar, em Santos, na Rua Paraná junto com meu amigo Escobar, irmão do historiador Claudio Esterque. O sargento nos perguntou se queríamos servir o quartel e como eu estava cursando a faculdade ele achou que poderia atrapalhar e me sugeriu fazer o curso de oficial na reserva do Exército. Fiz a prova física e intelectual, concorri para uma das 20 vagas, passei e fiz o curso. Sai como aspirante a oficial e depois voltei para fazer o estágio para servir a patente de segundo tenente. Aprendi ainda mais sobre disciplina, respeito e cidadania. Anualmente milhares de jovens se alistam para servir o Exército no 2º Grupo de Artilharia Antiaérea (2º GAAAe) – “Grupo José Bonifácio e Fernando de Noronha”, na Fortaleza de Itaipu (Canto do Forte), que engloba um sítio histórico onde estão situados os Fortes Duque de Caxias, Jurubatuba e General Rego Barros. (Publicado em página pessoal de rede social em 25 de agosto de 2021)






Desfile cívico-militar no Forte Itaipu em 1949. Registro da revista santista Flama.


 PIONEIROS PAULISTANOS,  PAULISTAS E GAÚCHOS



O nascimento da Guilhermina em 1930. A direita na orla o primeiro hotel de Praia Grande, o Hotel dos Alemães.


O Jardim Guilhermina é um dos bairros mais antigos de Praia Praia Grande e nasceu do interesse de famílias aristocráticas que já visualizavam uma possível expansão urbana no litoral sul, em função dos projetos ferroviários já existentes e futuramente os rodoviários. Sua origem mais antiga remonta o período imperial, quando ali existia o sítio Nova Escócia ( que revela a presença de sitiantes ingleses de radicandos em Santos e São Vicente), voltado para plantação de bacaxi e melão. O nome do bairro é uma homenagem a Guilhermina Coutinho Guinle, nascida em Pelotas-RS, casada com o empresário gaúcho Eduardo Guinle, nascido em Porto Alegre. O casal teve sete filhos, cinco meninos e duas meninas. Guilherme Guinle foi o filho que teve maior influência nos negócios da família. Era afilhado de batismo do também gaúcho e grande amigo da família, Cândido Gaffrée, nascido em Bagé.  A amizade familiar e sociedade de Eduardo Guinle com Cândido Gaffrée explica historicamente a presença na região quando os dois venceram a concorrência para as obras de modernização do Porto de Santos e consequentemente a criação da Companhia Docas, que obteve o direito de exploração do porto por um período de 100 anos. De olho no futuro balneáreo turistico, os Guinle adquiriram a extensa faixa de terras entre a orla e o Sítio do Campo, onde seria criado o loteamento e construído o famoso Hotel dos Alemães. O mesmo aconteceu com a criação do Balneário do Guarujá, fundado pela família Prado e associados. Com a morte de Eduardo Guinle, entra em cena o principal herdeiro e gestor da família, que dá um redirecionamento aos investimentos, passando a dedicar-se com mais intensidade às obras de beneficência, de uma forma ou de outra ligadas aos negócios privados. O irmão de Guilherme, Arnaldo Guinle, volta-se para o ramo imobiliário, associando-se com Heitor Sanchez, dando origem em 1925 ao loteamento e à vila que leva o nome de sua mãe. A ideia da nomeação do novo bairro foi inicialmente  uma generosidade de Heitor Sanchez.  O mesmo aconteceu ao nomear o loteamento da Vila Matilde. Essa sociedade dos Guinle com Heitor Sanchez não ficaria amistosa e foi parar na justiça, que deu causa favorável ao pioneiro de Praia Grande, após uma tentativa de espoliação por parte dos Guinle.   A fortuna deles nas primeiras décadas da concessão do Porto de Santos atingiu a soma que hoje equivaleria a cerca de 24 bilhões de dólares. O cálculo e estimativa foi feito pelo históriador Clóvis Bulcão, biógrafo da família. Ele também explica o crescimento exponencial dos Guinle como um efeito natural da expansão  do capitalismo industrial e financeiro, que exigia o controle monopolista e investimentos em vários setores interligados. Era um vale tudo, que segundo o mesmo biógrafo, teve no caso do porto santista a interfência da ordem maçônica, a qual Gaffrée era filiado. As terras em Praia Grande, o porto, o Copacabana Palace, o financiamento de pesquisas científicas em saúde pública e a construção de hospitais beneficentes - estes últimos já na gestão de Guilherme Guinle-  entraram nesse círculo de inversão de capitais em parceria com o Estado. É desse período que surge também projeto sanitário de Saturnino de Brito, com os canais de Santos e o duto de esgoto ligando a Ilha de São Vicente  à area continental do Itaipu: 

"Foi por isso que, quando funcionários adoeceram com malária durante a construção de uma hidrelétrica em Ipatinga para abastecer o Porto de Santos, os sócios Gaffrée e Guinle buscaram ajuda do sanitarista. Oswaldo Cruz enviou seu braço direito e discípulo, Carlos Chagas, e dali surgiu uma amizade que viria a ser muito importante (...) O glamour e o luxo que envolvem o nome da família de certa forma apagaram esse legado, o Copacabana Palace é um nada se comparado a todo o restante", diz Bulcão. Guilherme, que nunca se casou nem teve filhos, morreu aos 78 anos, em 1960. A partir disso, os negócios começaram a entrar em decadência — o Porto de Santos foi prejudicado pela ditadura que teve início em 1964, o Banco Boavista (que se tornou um dos principais empreendimentos da família) faliu em 1999 e o próprio Copacabana Palace quase foi demolido porque, com a proibição de cassinos, deixou de ser lucrativo". (Marília Marasciulo. De São Paulo para a BBC News Brasil. 30 setembro 2020)


Residência da família Toschi no Jardim Matilde em meados da década de 1940. Acervo Suely Sanches Toschi.


E finalmente pioneiros paulistanos e interioranos paulistas, turistas frequentes que foram permanecendo por longas temporadas e depois se estabelecendo como moradores fixos. Estes foram atraindo de forma crescente e sucessiva levas amigos, parentes e conhecidos adquirindo sítios, chácaras e principalmente lotes residenciais para construção de casas de temporada. Essas famílias de classe média, de origem no planalto e na interlândia paulista, geralmente descendentes de europeus e também membros da tradicional pequena burguesia proprietária - formada por funcionários públicos, pequenos comerciantes, profissionais liberais- foram os primeiros habitantes emprendedores dos núcleos de negócios imobiliários, comércio e de hotelaria turística na futura estância balneária de Praia de Grande. Enquanto as massas operárias desciam a serra e retornavam aos seus afazeres diários após os fins de semana, eles permaneciam  em perídos mais longos desfrutando do seus pequenos patrimônios de lazer que aos poucos se tornavam residências fixas após a aposentadoria. Até hoje estão presentes e exercem importante influência social na cidade. Seguiram a tradição veranista dos avós e dos pais e já vislumbram seus netos e bisnetos perpetuando  a tradição  das famílias descendo a serra para usufruir de intalações e uma infra-estrutura completante diferente de quando Praia Grande era um imenso estacionamento de milhares de automóveis populares e centenas  ônibus de excursões dos fins semana.  A cidade do Netuno, de Iemanjá e dos tão conhecidos "farofeiros" sempre teve um grupo mais aristocrático, de melhor formação e poder aquisitivo e que se instalava  nos recantos mais valorizados dos bairros. Ao contrário dos paulistanos e planaltistas de classe média alta que frequentavam Santos, São Vicente e Guarujá - e que depois migraram para as praias do litoral norte - os de Praia Grande permaneceram fiéis aos seus antepassados, substituindo  - com orgulho de pertencimento e conquista - seus imóveis simples e até rústicos dos anos 60 e 70 pelos luxuosos apartamentos nas grandes torres que hoje se mulplicam nas proximidades da orla. Esta foi uma transformação  rápida e surpreendente para quem viu há apenas algumas décadas uma cidade de aparência caótica e informal tornar-se um dos metros quadrados mais valiosos da Baixada Santista. 

LAGOSTA, O SÍMBOLO DE UMA ÉPOCA



Antigo Lagosta, um marco para o desenvolvimento de Praia Grande


Com a inauguração em 1914 da Ponte Pênsil, foi estabelecida a ligação terrestre de Praia Grande com a Vila de São Vicente, abrindo caminho para o desenvolvimento. O primeiro loteamento Jardim Mathilde, foi planejado com ruas amplas, destinadas a receber casas de veraneio para a elite paulistana, em um local até então exclusivo.

O empreendimento foi um sucesso, atraindo para o local grandes empresários, artistas e personalidades políticas da época. No próprio loteamento, os lotes de frente para o mar foram reservados para ocupação comercial, que se concretizou em 1952 com a inauguração do Restaurante Lagosta, um marco para o desenvolvimento imobiliário de Praia Grande.

Localizado no bairro Canto do Forte, na esquina da Rua Tiradentes com a Avenida Castelo Branco, hoje tem um Edifício Residencial que recebeu o mesmo nome do famoso restaurante.

Fundado por Heitor Sanches e projetado pelos arquitetos Tinoco e Bicatelli, o restaurante era contemporâneo e ganhou destaque na mídia da época. As linhas do projeto davam início ao conceito de arquitetura moderna. Um dos seus traços marcantes era a torre de aproximadamente 5 metros de altura.

Mais que um efeito decorativo, ela tinha também uma função inovadora: era um imenso reservatório de água da chuva, utilizada para limpeza do local em épocas de escassez. Isso porque, em 1950, não havia água encanada em Praia Grande. Para o restaurante, era necessário buscar água em uma bica na base do Morro do Xixová, hoje, Parque Estadual Xixová, ou dentro da Fortaleza de Itaipu.

Os tempos de ouro do Restaurante Lagosta foram aqueles com eventos badalados, grandes jantares e muito glamour. Mas, após 45 anos de sua inauguração, o Lagosta fechou suas portas definitivamente. A família Sanches seguiu por outros caminhos e, depois de passar por alguns locatários, o prédio acabou ficando abandonado. A família decidiu vender o imóvel. Hoje, onde estava localizado o Restaurante Lagosta, há três prédios residenciais.

Daqueles tempos em que o Restaurante Lagosta em Praia Grande era o ponto de encontro predileto da elite paulista, restaram apenas as memórias, fotografias, alguns documentos e publicações pertencentes ao Patrimônio Histórico do Município e um vídeo da inauguração do restaurante.

Quando a família Sanches inaugurou o Restaurante Lagosta, filmou tudo em uma câmera caseira de tecnologia Super 8. Eles não imaginavam, mas, mais do que um simples documentário de família, aqueles rolos de filme são, hoje, considerados registro de um marco histórico para a cidade de Praia Grande.



O vídeo foi convertido para DVD e disponibilizado gratuitamente aos interessados em conhecer melhor a história da cidade. O vídeo está no estande de história oral do Museu da Cidade, no Palácio das Artes, na Avenida Costa e Silva, 1.600. A visitação é gratuita e pode ser feita de terça a quinta-feira das 14 às 18 horas, sexta e sábados das 14 às 20 horas e domingos, das 14 às 18 horas.

O Restaurante Lagosta fez parte da história de muitas pessoas que frequentaram Praia Grande na década de 50 e está ligada a um pedaço da trajetória do Município que pouca gente conhece.

DEPOIMENTOS

Ede Martini- 11/06/2020

Em 1973 conheci a linda moça que seria minha esposa e mãe de meus dois filhos neste belíssimo restaurante. Pena que a mentalidade brasileira não valoriza patrimônio histórico e cultural como este verdadeiro ícone.

Almir Reis - 21/06/2020

Eu fui criado em Praia Grande, cheguei com 7 anos e sai com 26 para morar no Rio de Janeiro em 1994. Viajo o mundo, sou fotógrafo de arte e também pintor. Minha memória do Lagosta, era de uma arquitetura Art Deco, como as de Miami Beach. Estou aqui de férias visitando família e fiquei decepcionado de ver que o restaurante não mais existe. Acho que deveria ter sido tombado, aquilo era pura arquitetura ( modernista ) não Art Deco como eu tinha na memória, porém infelizmente foi abaixo, um verdadeiro assassinato a um marco da cidade. Seria como demolir o Copacabana Palace no Rio, um ícone carioca . Muito triste.

Marcelo Sanches - 09/10/2020

Passei uma parte da minha adolescência no edifício ao lado do Lagosta, chamado Edifício Roncador, que existe até hoje.

Um crime terem demolido o Lagosta para construir um prédio sem graça em seu lugar.

Sérgio Carbajo - 31/10/2020

Conheci o restaurante Lagosta em 1964, quando pela primeira vez fui para a Praia Grande / Forte. Eu então tinha 10 anos e, sinceramente admirava a arquitetura do restaurante – ele era meio suspenso da areia, imponente. Não sei se era por não ter “nada em volta”.Mas, sinceramente, por mais que tenham construído três prédios em seu local, imaginem o valor do restaurante hoje em dia se tivessem mantido a construção / tivessem um bom serviço.

Fonte: Site da Imobiliária Negocial




AVIAÇÃO : CLUBE E CORREIO AÉREO INTERNACIONAL

Um descampado marca, no início do século XXI, o local onde funcionou o Aeroclube de Santos e um aeroporto, e que deu nome ao bairro Aviação.

Um dos tradicionais bairros de Praia Grande tem o nome de Aviação, em razão de ali ter funcionado o campo de pouso da empresa francesa Latecoère (que daria origem à Air France), em área que seria depois usada como escola de pilotagem e clube aéreo.

O AEROCLUBE DE SANTOS ERA AQUI 

Fundado a 1 de novembro de 1936, o Aero-Clube de Santos orienta desde 20 de outubro de 1940 a Escola de Pilotagem, que tem a finalidade de formar pilotos para a aviação civil, comercial e reserva da Aeronáutica, operando na Praia Grande, desde 1947.

O Aero-Clube de Santos deu hábeis pilotos à aviação comercial e militar. Registra mais de 30.000 horas de voo.

Seus principais fundadores: João Carlos de Azevedo, Cássio Muniz de Souza, Carlos Agnese, Athos Votta, Benedito de Castro Simões, Ismael Coelho de Souza, Hugo Pacheco Chagas, Athié Jorge Coury, João Pacheco Fernandes, Caio de Barros Penteado, Eduardo Vitor De Lamare, Estevam José de Almeida Prado, Luiz Soares de Andrade, Rubens Ferreira Martins, Antônio Moura Andrade, Gervásio Bonavides, Esculápio César de Paiva, Antônio Iguatemi Martins, Bernardo Browne, Homero Leonel Vieira, Hugo Pacheco Chagas, Otávio Moura de Andrade e Pedro Peressin. Foi seu primeiro presidente o eng. Ismael Coelho de Souza.

A TRIBUNA EM SÃO VICENTE

Matéria publicada no jornal santista A Tribuna, coluna A Tribuna em São Vicente, na edição de 1º de maio de 1956, página 8 (ortografia atualizada nesta transcrição):

Nossa reportagem, num voo no Rio Piracicaba, a convite do piloto vicentino José Maximino – Em estado lastimável, o campo de pouso, na Praia Grande – O prejuízo causado ao município – O estado das aeronaves – Brevetados 196 pilotos – Por que as autoridades vicentinas e estaduais não subvencionam o Clube dos Aviadores Civis? – Ainda o Mangueirão no Boqueirão de Praia Grande – Centro Cultural dos Homens de Cor – Câmara Municipal – Caixa Escolar do Grupo Municipal – Mateo Bei – Sociais

Nossa reportagem foi honrada com o convite do piloto aviador, José Maximino, diretor de material do Aero Clube de Santos, para um vôo na Paia Grande. Residindo em São Vicente, esse piloto, há 29 anos, aceitamos, desde logo, o agradável convite.

Subimos no Rio Piracicaba, prefixo PP-GIR, tipo PA-18, mais possante que o Paulistinha, e sobrevoamos a nossa encantadora cidade, depois de admirar Praia Grande, com o seu imenso mar. Satisfeitos com o passeio, retornamos ao campo de pouso.

O estado precário da pista – Durante a rolagem sobre a pista do campo da Praia grande, tanto na decolagem, como na aterrissagem, notamos o seu péssimo estado. Com as últimas chuvas, existem vários buracos que podem causar não só acidentes pessoais, como aos próprios aparelhos. O campo já esteve em piores condições. Lembramo-nos que o mesmo não permitia aterrissagens e que a Real lá deixou de operar. Justo, entretanto, salientar o interesse dos pilotos Nelson Carvalho e Antonio de Barros, que conseguiram com as companhias de café, que têm aviões baseados na Praia Grande, auxílios para a melhoria, pondo o campo em condições de uso. Essas iniciativas foram particulares, numa demonstração do patriotismo de dedicados pilotos civis.

O prejuízo causado ao município – O nosso município deixou de receber e embarcar passageiros, diariamente, pela Real, em vista das condições precárias do campo na Praia Grande, o que, como é evidente, causou grande prejuízo. Com a falta daquela via aérea de comunicação, ficaram prejudicados o turismo e o comércio.

Melhoremos o campo de pouso – Com os requisitos que está a reclamar, poderá ser um campo de emergências para as companhias que estão operando nas linhas Sul: Paranaguá, Curitiba, Santa Catarina e Florianópolis. O desejo dos que ali vão aprender a arte de voar, para a maior grandeza do Brasil (pois os pilotos civis são considerados reservas da FAB), seria a construção de uma pista de concreto ou asfalto, com o balizamento para pousos noturnos. Com este importante e necessário melhoramento, acreditamos, voltariam o Consórcio Real-Aerovias e outras empresas aéreas a operar em nosso campo. Além disso, o local é ponto estratégico-militar, por estar próximo à Fortaleza de Itaipu (5º G. A. C.).

O estado das aeronaves – Constatamos que, no hangar, ultimamente remodelado e com uma oficina mecânica ao lado, estavam 9 aviões, que fazem parte do patrimônio do Aero Clube, porém, somente dois em condições de uso, e isso com grande sacrifício. Um avião é para a praticagem e outro para os pilotos brevetados. Isso veio dificultar, por demais, a Escola de Pilotagem, funcionando na Praia Grande.

Não podemos deixar de destacar o estímulo que vêm dando aos alunos e pilotos, o presidente do A.C.S., cap. Capelão Edmundo Cortez e o major Salema, comandante da Base Aérea de Santos, grande entusiasta da aviação civil. Outro abnegado que merece encômios, pela sua perseverança, é o sr. Ricardo Stringer, sócio-fundador do A.C.S., trabalhando como mecânico-chefe, há mais de vinte anos, ex-piloto reformado da R.A.F.

O nosso apelo – A situação, como está, não pode perdurar. Devemos cuidar com melhor atenção, de início, da melhoria do campo de pouso, o que seria de grande vantagem, não só para a pilotagem civil, como para a nossa gloriosas FAB e companhias comerciais. As autoridades municipais e estaduais poderiam cooperar nesse sentido, em vista do Aero Clube não estar em condições financeiras de arcar com as despesas desse imprescindível e urgente melhoramento. Na Câmara local, deve a nossa edilidade ventilar o palpitante assunto, e, oxalá, surja um projeto de lei, subvencionando a Escola de Pilotagem do A.C.S., para melhoria do material aéreo e da pista.

Auxílios valiosos prestados pelo A.C.S. – Os pilotos do A.C.S. prestam relevantes serviços, tais como a localização de afogados e o transporte de enfermos no litoral paulista.

196 pilotos brevetados – a diretoria – O Aero Clube de Santos, fundado em 1 de novembro de 1936, iniciou a brevetagem de pilotos em 1938. Desde esta época até o ano passado, receberam seus brevetes 196 pilotos aviadores, e se esse número não foi aumentado, deve-se ao desinteresse dos poderes competentes.

A diretoria da A.C.S. está assim constituída: presidente, cap. Capelão Edmundo Cortez; vice-presidente, Mazilon Freitas Passos; 1º secretário, Ciro Campos Melo Filho; 2º secretário, Francisco Teófilo de Almeida; 1º tesoureiro, Afonso da Cruz Ferreira; 2º tesoureiro, Odenir Porto; 1º diretor técnico, Antonio de Barros; 2º diretor técnico, Anibal Teófilo de Almeida; diretor do material, José Maximino; diretor de campo, Eugênio Blagal. […]

DEPOIMENTO

Mario de Aguiar Leitão - 19/10/2012 – Site Novo Milênio

 

Vista do histórico hangar que pertenceu à Latecoere, mais tarde Air France, foi usado pela Vasp, Real e pelo Aero Clube". Foto (e legenda) enviada a Novo Milênio por Mario de Aguiar Leitão


Como é do conhecimento de todos, a cidade de Santos nunca teve oficialmente um Aeroporto civil, nem tampouco outras cidades do litoral paulista, onde as companhias aéreas pudessem manter uma frequência de voos regulares.

Não obstante, na década de 50, o Aero-Clube de Santos recebia duas vezes por semana e duas vezes ao dia a visita dos pequenos aviões da BOA (Brasil Organização Aérea) sediada em Londrina, Paraná e que voavam até Praia Grande (Santos), procedentes de Curitiba, Paranaguá, Florianópolis e demais cidades dessa região.

Era uma frota de monomotores "Cessna 170" para até 3 passageiros e era fácil identificá-los visto que seus prefixos começavam com PP-BOA e iam até PP-BOH, mudando tão somente a 3ª letra. Transportavam também pequenas cargas, principalmente amostras de café, embaladas em sacos de 3 a 5 quilos, além de correspondências. Portanto, deduzimos que o destino dessas amostras e desses passageiros eram a "Bolsa Official de Café", situada no centro da cidade de Santos.

Para transporte dos passageiros do Aero-Clube até o centro de Santos e vice-versa havia um taxista contratado, cujo apelido era Bolão, visto ser uma pessoa obesa. Por ser uma pessoa muito engraçada, eu e meus primos ajudávamos a carregar ou descarregar os aviões só para estar próximo a ele e nos divertirmos com suas brincadeiras.

Na mesma época em que a BOA ainda estava em atividades em Londrina e região, a TAM (Transportes Aéreos Marilia) adquiria um "Cessna 170" para início de suas atividades. Isto ocorreu em 1961.

O tempo passou, me afastei dos aviões e de Praia Grande e somente voltei a me interessar pelos aviões por volta de 2004, quando fiquei conhecendo as futuras instalações do Museu da TAM em São Carlos, SP.

Em 2011 foi publicada uma foto no site do Museu, mostrando um "Cessna 170", como sendo a mais nova doação ao acervo. Imediatamente reconheci seu prefixo: PP-BOE. Nada mais nada menos que um dos integrantes da frota da BOA dos tempos de antanho, embora descaracterizado, pois estava pintado de forma diferente da original. Telefonei ao Museu e fui informado de que o avião seria restaurado mais uma vez e repintado com suas cores originais e seria exposto como o 1º Cessna 170 da TAM. E assim foi feito.

Estive recentemente no Museu. Imaginem minha emoção em poder tocar e fotografar este avião mais de 50 anos depois. Ainda vou querer voar nele algum dia, pois está em plenas condições de voo e com seus registros atualizados.

Hangar da  Latecoére em 1920 em Praia Grande



PILOTOS FAZEM EXPEDIÇÃO AO PASSADO

Franceses estarão em maio na área conhecida como Campo da Aviação, em Praia Grande, para refazer rota de antigos aviadores


CÉSAR MIRANDA 
DA REDAÇÃO

Um grupo de sete pilotos franceses visitará em maio o terreno conhecido como Campo da Aviação, em Praia Grande, para refazer a rota de antigos aviadores da pioneira empresa de correio aéreo, a Compagnie Générale Aéropostale, que, durante as décadas de 1920 e 1930, foi responsável por entregar cartas entre a Europa, África e América do Sul.

Os franceses, que estarão na região dia 7, trabalham na aviação civil daquele país e integram o Raid Latécoère, uma espécie de rali pelos ares, que apoia projetos ligados a essa história.

Entre 1927 e 1933, período em que funcionou no Brasil, a companhia criou uma infraestrutura em 10 cidades escalas ao longo da costa, além de Praia Grande, que ainda não era município naquela época.

As outras pistas ficavam em Natal, Fernando de Noronha, Recife, Maceió, Caravelas, Vitória, Rio de Janeiro, Florianópolis, Pelotas e Porto Alegre e serão também visitadas pela comissão de franceses.

Todas eram equipadas com hangar, casa de pilotos e transmissão sem fio. As escalas foram etapas fundamentais, considerando que o tempo de um voo do Rio de Janeiro a Buenos Aires levava de 13 a 15 horas.

“Era importante porque eles voavam em calhambeques aéreos que não ofereciam tanta tecnologia para voar por tanto tempo, comparado com aviões atuais”, diz a pesquisadora Mônica Cristina Corrêa, de Santa Catarina, representante oficial da Associação Memória da Aéropostale no Brasil e da Fondation Latécoère, que fica na França.

Latécoère é o sobrenome de Pierre Georges, um dos responsáveis pelo desenvolvimento da aviação civil na França.

Entre 1927 e 1933, período em que atuou no Brasil, a Compagnie Générale Aéropostale criou uma infraestrutura em cidades-escalas ao longo da costa, entre elas Praia Grande.

Aviação

Durante as décadas de 1920 e 1930, a Compagnie Générale Aéropostale foi responsável por entregar cartas entre a Europa, África e América do Sul. o francês Pierre Georges Latécoère é um dos responsáveis pelo desenvolvimento da aviação civil na França e pela criação do correio aéreo.

Ilustração da capa de um livro sobre a rota sul-americana do correio áereo da companhia Latécoére.


SAINT-EXUPÉRY 

Graças ao desbravamento, o tempo de uma correspondência chegar ao País caiu de dois meses (antes era por navio) para oito dias. “Na época, foi um tremendo avanço. Os aviadores eram verdadeiros heróis”, afirma.

Autor do livro Pequeno Príncipe (1943), Antoine de Saint-Exupéry fez parte do quadro de pilotos da companhia. Segundo Mônica, O aviador-escritor esteve por várias vezes entre 1929 e 1930 na pista aberta pela companhia francesa. Radicado em Buenos Aires, ele fazia a linha entre a capital da Argentina, o Rio de Janeiro e a Patagônia.



A situação financeira da companhia foi afetada em 1931, em razão do quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque. Mesmo mantendo sua linha para a América do Sul, a empresa foi adquirida pela Scela, fusão de outras quatro companhias, que adotou o nome, depois, de Air France. Com a chegada da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), novas dificuldades. Sem o mesmo uso de outrora, inicia-se a degradação do antigo aeródromo e seus equipamentos.

Transferido de Santos em 1946, o Clube de Pilotos fez o local renascer e permaneceu no Campo de Aviação de Praia Grande até 2003, quando foram proibidas aulas teóricas de pilotagem que vinham sendo ministradas desde a desativação da pista, dois anos antes.

Sem ligação com Aéropostale, neste período, foram formadas diversas gerações. Hoje, o terreno com quase 39 mil metros quadrados pertence a duas construtoras que estudam a criação de um shopping. Antes, o espaço pertencia à União.



UNESCO

Entre outros objetivos da expedição, organizada pela Associação Aeroclube Pierre-Georges Latécoère, está a realização do inventário dos vestígios da antiga Aéropostale. A intenção é enviar um documento à Unesco, organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura em Paris, pedindo o tombamento como patrimônio universal.

A arquiteta Maria Dalva Orlando é testemunha ocular da história. Ela chegou a frequentar bastante o Campo da Aviação, entre 1982 e 1986, com amigos que faziam cursos de pilotagem. “Parte o coração ver que não existe nem mais a casa dos pilotos”. Em 2006, ela realizou um trabalho de pós-graduação em Restauro e Preservação Arquitetônica, na UniSantos, que defendia a implantação de um parque voltado à aviação com museu, biblioteca, teatro e conjunto memorial Latecoère/Aeropostale/Aeroclube. Ela lamenta que a ideia não tenha tido apoiadores. 



ESTUDANTES REFAZEM A ROTA USADA POR SAINT-EXUPÉRY

PRAIA GRANDE. Percurso inclui o Campo da Aviação, que está desativado desde 2001 por ordem do Ministério da Aeronáutica.

No dia 9 de abril de 2009, matéria publicada no jornal A Tribuna retratou a viagem de dois amigos franceses em um aeroplano ultraleve parare fazer a rota histórica da empresa pioneira de correio aéreo pela América do Sul. A Aéropostale tinha em seus quadros o famoso escritor Antoine Saint-Exupéry, au- tor do clássico O Pequeno Príncipe. Na ocasião, os jovens franceses estiveram em Praia Grande.

Como muitos jovens, os estudantes franceses Damien Van Eeckhout e Cyprien Andres sonhavam vivenciar grandes aventuras mundo afora. Mas, ao contrário da maioria, conseguiram concretizar pelo menos uma delas: sobrevoar a América do Sul, de ultraleve, para refazer o percurso da Compagnie Generale Aeropostale. Mais conhecida por Aeropostale, a empresa francesa de correios que cruzava o Atlântico, entre 1927 e 1933 para levar mensagens entre Europa, Africa e América, tendo em seus quadros nomes famosos da aviação como o escritor Antoine De SaintExupery, autor do clássico O Pequeno Príncipe. 

A viagem, que agora tem como foco o Campo da Aviação, em Praia Grande, começou em novembro do ano passado, quando os dois amigos, ambos com 23 anos, chegaram de navio em Buenos Aires, Argentina trazendo na bagagem na bagagem, roupas, utensilios e um ultraleve desmontado.

 "Tivemos grande dificuldade com a aduana argentina, porque o aeroplano chegou de navio. Se viéssemos voando, não teriamos tantos problemas", conta Damien, em uma combinação de Espanhol, Português e, quando necessário, Inglês. 

Ao recepcionar em Itanhaém os dois estudantes franceses e conseguir hospedagem para eles, em Praia Grande, a arquiteta Maria Dalva Orlando demonstra o interesse que tem pela história da aviação na Baixada Santista.


Loteamento na Aviação nos anos 1940.


Praia da Aviação nos anos 1960


PLEBICITO E EMANCIPAÇÃO COMO AFIRMAÇÃO  DE IDENTIDADE 




Este mapa de 1932 talvez seja um das mais antigos registros conhecidos da configuração histórico-geográfica de Praia Grande. Nele aparecem nomenclaturas dos bairros e vilas bem diferentes das que constam nas descrições e denominações atuais. São nomes desconhecidos pela maioria dos novos moradores fixos e turístas que frequentam a cidade: Vila Matilde, Pico do Itaipu, Parque Paris, Vila Sarita, Hangar Latecoere, Villa Tupy, Vila Oceânica, Vila Amabile, Villa Santa Tereza, Vila Beira-Mar, Parque Copacana, Vila Ostende, Vila Balneária, Vila Bopeva, Itinga. E também os acidentes geográficos: Porto Piaçabuçu, Porto do Rei, Boturoca, Cururú, Imburi e Imbuguaçu, localdades que caíram que foram esquecidas por causa do desaparecimento dos seus ocupantes pimitivos: os pescadores e caçadores caiçaras, caboclos herdeiros das antigas e poucas aldeias indígenas da região.

O mapa também revela as raízes políticas da formação de Praia Grande como município independente. Fragmentado em diversos núcleos de povoamento veranista, composto sobretudo por paulistanos e paulistas do interior, a imensa faixa de terras entre a ponta do Itaipu e Itanhaém permanceu longos anos sem unidade política e à espera de uma conjuntura favorável para reivindicar sua emancipação.

É muito provável que a maior influência ideológica do movimento emancipacionista de Praia Grande, além obviamente dos intesses locais e regionais, tenha sua raíz nos moradores da região do ABC , cujos municípios atingidos pelo desenvolmento da industrial da Grande São Paulo foram , num efeito dominó, sucessivamente se desmebrando das suas matrizes urbanas.

Apesar da antiguidade colonial de Santo André (fundada no século XVI por João Ramalho), foi São Bernardo do Campo que deu início a um contagioso processo emancipatório que acabaria atingindo os povoados e distritos litoral. Desligando-se de São Paulo em 1889, a Borda Campo passou a governar um grande território formado por distritos e que também foram sucessivamente se desligando das sua cidades-mãe: Santo André (1944), São Caetano do Sul ( 1948 ), Diadema (1953), Mauá (1953), Ribeirão Pires (1953) e finalmente Rio Grande da Serra (1963), emancipada da própria Ribeirão Pires.

Toda essa massa populacional da Capital e do Grande ABCD eram e ainda são frequentadores assíduos das temporadas veranistas e de férias sazonais no litoral sul; e não foi mera coincidência que as primeiras manifestações emancipacionistas de Praia Grande tenham surgido na década 1950, quando ocorreu uma febre de plebicistos, seguida da criação de municípios em toda região industrializada Planalto Paulista.

Não foi somente Praia Grande que se emancipou como perspectiva de desenvolmento, em função da economia turística e industrial, como ocorreu no Grande ABC: Cubatão (1949), Guarujá (1947) e Bertioga (1991, após tentativas em 1958 e 1979) libertaram-se de Santos, sendo que esta última havia sido o primeiro povoado a ganhar o status de vila ao separar-se de São Vicente em 1540. Movimento semelhante ocorreu também, a partir de Itanhaém e Mongaguá, na direção de Peruibe e Vale do Ribeira.

Atualmente, com o crescimento demográfico e desenvolvimento de uma grande faixa territorial entre a atual Via Expressa Sul a rodovia Padre Manoel da Nóbrega, Praia Grande tornou-se mais próxima da área continental de São Vicente, onde vivem cerca de 150 mil habitantes. Muitos desses bairros têm mais vínculos sociais de trabalho e consumo com Praia Grande e Cubatão do que propriamente com São Vicente, para eles muito distante para as suas necessidadaes básica e também de lazer. Na área contimental de São Vicente o assunto emancipação política é recorrente e já vem sendo ventilado desde quando o Distrito de Samaritá era isolado da área insular e ligada apenas por meio de uma linha ferroviária inconstante. Com o declínio desse sistema de transporte nos anos 1970-80, acentua-se o isolamento continental, que coincide com o início das intensas ocupações a partir das áreas próximas do Rio Branco, Rio Negro e Rio Mariana. Mesmo com a construção da ponte rodoviária, ao lado da ponte ferroviária, o isolamento persistiu ao longo das três ultimas décadas. Recentemente, com a notícia da instalação de um aeroporto de cargas próximo da linha divisória entre os dois munícipios, o assunto emancipação vêm novamente à tona. As duas áreas municipais estão numa localização estratégica do complexo Anchieta-Imigrantes e deve entrar definitivamente no mapa lgoística de transporte rodoviário no eixo São Paulo-Porto de Santos-Curitiba.

É preciso lembrar que a nossa história regional é repleta de episódios de conflitos e acordos politico-territoriais que mudaram a configuração de limites e divisas dentro e fora das cidades. Nos anos 1920-30, com a expansão das linhas des bondes urbanos, Santos alterou os limites divisórios da Ilha a seu favor e tentou anexar todo o território insular vicentino. Nos anos 1970 foi registrada uma tentativa de anexação do território continental vicentino por parte de aguns políticos e investidores de Praia Grande. O movimento sofreu resistência através de uma campanha encabeçada pelo Lions Clube de São Vicente.

Hoje existem três tendências para que seja possível um processo emancipatório dos territórios em questão, levando-se em conta a lei federal de limita a criação de novos municípios: a autonomia somente da área continental vicentina, cujo crecimento demográfico é acelerado e com alto índice de déficit habitacional; a emancipação da área continental vicentina, mais os territórios serranos e fluviais de Praia Grande; e a anexação de uma faxia da área continental vicentina ao município de Praia Grande mendiante acordo com o governo estadual, governo federal e grupos empresariais interessados em uma nova configuração político-administrativa da região.

A HISTÓRICA EMANCIPAÇÃO DE PRAIA GRANDE

"Praia Grande é livre, desde quinta-feira, e nenhum meio legal existe mais para tentar o contrário. Este jornal, que sempre se colocou em posição contrária à tese separatista, sente-se muito à vontade para desejar um futuro promissor ao novo município".   

São Vicente Jornal, 19, de janeiro de 1967.



1953 - Instante histórico em que o pioneiro Nestor Ferreira da Rocha, liderando o movimento, entrega ao deputado Pinheiro Júnior os documentos exigidos por lei, pedindo a emancipação. Na foto: Raul Pavão, com. Joaquim Monteiro, Júlio Secco de Carvalho, deputado Pinheiro Júnior, Nestor Ferreira da Rocha, Manoel Amazonas B. Silva, Otavio Banzatto, Orival Lima Cardoso e o tabelião José da Cunha
Foto: Informativo Cultural 25 (janeiro/1980)


Em 1953 a vontade popular pela emancipação já havia sido registrada em um histórico plebiscito no Distrito de Solemar. Entretanto, Praia Grande só deu o seu grito de independência em 1967, após uma longa batalha judicial de quase 30 anos e que atendia interesses não somente dos munícipes, que se sentiam abandonados pelas administrações vicentinas das primeiras décadas do século XX, mas também pelos empreendedores imobiliários, que viam seus negócios de loteamentos ameaçados pelos mesmos motivos.  Foram principalmente estes que, usando do poder financeiro e da influência política, conseguiram mobilizar os grupos insatisfeitos e os idealistas emancipadores, já que as forças de resistência tinham o mesmo perfil de interesses. Pesou muito no decreto federal de autonomia o apoio de oficiais de alta patente do Fonte Itaipu, cuja influência durante o regime militar conseguiu inibir as tentativas de retomada territorial por parte dos podêres de São Vicente. A cassação de mandato do prefeito Charles Dantas Forbes, em abril de 1966, enfraqueceu a resistência vicentina, abrindo caminho para os dois primeiros governos municipais sob a tutela do regime militar. O descaso e o sentimentalismo vicentino foram derrotados. Os deputados que destacaram nessa contenda foram Olavo Horneaux de Moura, de antiga e tradicional família vicentina, grande oponente na Assembleia paulista; Athiê Jorge Coury, ex-goleiro do Santos F.C., deputado federal, inicialmente opositor, por fidelidade aos seus eleitores vicentinos, depois mediador e apaziguador; Pinheiro Junior, com várias legislaturas, advogando por Praia Grande na Assembleia Legislativa; Itálo Fitipaldi, advogando por Praia Grande no Congresso; e Esmeraldo Tarquínio, advogado e jornalista, forte opositor, advogando por São Vicente na AL-SP desde as primeiras tentativas de emancipação. Esmeraldo foi eleito prefeito de Santos em 1968, tendo seus direitos políticos cassados e impedido de exercer o mandato. O pioneiro Josias Nunes da Silva assim se referiu à atuação do deputado vicentino (baiano criado na Vila Margarida): "Recordo-me perfeitamente quando Esmeraldo Tarquinio, de Santos, fez uma promessa, que se Praia Grande fosse emancipada ele viria de Santos a Praia Grande a pé: nós ganhamos e ele não cumpriu a promessa, veio tempos depois, mas de carro".

O primeiro prefeito de Praia Grande foi o interventor federal Nicolau Paal, em 9 de janeiro de 1967. No ano seguinte, no início de fevereiro, assume o segundo interventor, Paulo de Souza Sandoval. Esse arranjo político intervencionista, que prevenia uma possível reação vicentina ou qualquer outro tipo de retomada territorial, garantiu que a nova cidade tivesse um executivo municipal eleito por voto direto com forte teor ideológico emancipacionista.  A chapa escolhida foi encabeçada por Dorivaldo Lória Junior (prefeito) e Leopoldo Estásio Vanderlinde (vice), vencedores do pleito de 15 de novembro de 1968. Nesta eleição também formou-se o primeiro corpo com mandato legislativo, sendo constituída a Câmara Municipal com os seguintes vereadores: Cesário Reis Lima, Oswaldo Luiz Sanchez Toschi  -foi vereador vicentino, representando Praia Grande desde 1952 - "(...) lutador incansável, e um dos mais operosos representantes do povo calunga, em todos os instantes que ocupava a tribuna do Legislativo, cumprindo o dever sagrado de falar pelos munícipes de Praia Grande", texto da Gazeta do Litoral -, Aristeu Luz, Pablo Trevisan Perutich, Waldemar Murano, Luiz dos Santos Reis, Arnaldo Perticarati, Osmar Martinatti e Osvaldo Antonio Aranha. O primeiro presidente da Casa de Leis foi Cesário Reis Lima, o vereador mais votado nas eleições municipais. Oswaldo Luiz Toschi destacou-se nessa sessão histórica como autor do primeiro requerimento solicitando do novo prefeito a iluminação dos pontos de ônibus da avenida Tupiniquins (atual Ayirton Senna) e também uma contestação ao ato do executivo que autorizava a instalação de um parque de diversões na orla sem o devido licenciamento legal. 


MUNICÍPIO DE PRAIA GRANDE (Criado em 1963)



a) Divisas Municipais

1 - Com o Município de Mongaguá

Começa no oceano Atlântico, no ponto onde é cortado pelo prolongamento da divisa do loteamento Jardim São Paulo; segue por este prolongamento e pela referida divisa e ainda pelo seu prolongamento até o quilômetro 86 da rodovia estadual; alcança o contraforte fronteiro, pelo qual segue até o contraforte da margem direita do no Mongaguá; segue por este contraforte e pela serra de Mongaguá até cruzar com o espigão entre as águas dos rios Branco ou Boturoca e Cubatão.

2 - Com o Município de São Vicente

Começa no espigão entre as águas dos rios Branco ou Boturoca e Cubatão, no ponto de cruzamento com a serra do Mongaguá; segue pelo espigão Branco ou Boturoca - Cubatão até a cabeceira do ribeirão das Cabras, no morro do Pai Matias; desce pelo ribeirão das Cabras até sua foz no rio Boturoca ou Branco, pelo qual sobe até o pontilhão da Estrada de Ferro Sorocabana (ramal de Mairinque a Santos); daí, vai em reta ao pontilhão da Estrada de Ferro Sorocabana (ramal de Santos a Juquiá) sobre o rio Piaçabuçu, pelo qual desce até sua barra no Mar Pequeno; segue pelo Mar Pequeno passando ao Sul das ilhas até a barra do córrego que tem sua cabeceira na garganta entre os morros Xixová e Japiú; sobe por este córrego até sua cabeceira; alcança na contravertente a cabeceira do outro córrego, pelo qual desce até sua barra no Oceano Atlântico.

b) Divisas Interdistritais

1 - Entre os Distritos de Praia Grande e Solemar Começa no oceano Atlântico, onde é cortado pelo prolongamento do eixo da rua Angari, do loteamento denominado Aclimação; segue por este prolongamento até a rua Angari; continua pelo eixo da rua Angari, cortando a Estrada de Ferro Sorocabana (ramal de Santos a Juquiá), no km. 210,400, ate alcançar o rio Branco ou Boturoca; desce pelo rio Branco ou Boturoca; até a foz do ribeirão das Cabras, pelo qual sobe até sua cabeceira, no morro do Pai Matias; segue pelo divisor fronteiro até cruzar com o espigão entre o rio Branco, à esquerda, e o rio Cubatão, a direita; continua por este espigão até cruzar com a serra do Mongaguá, que é o divisor entre o rio Branco ou Vargem Grande e o ribeirão Bichoró.



Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo

LEI Nº 8.092, DE 28 DE FEVEREIRO DE 1964

Dispõe sobre o Quadro Territorial, Administrativo e Judiciário do Estado


EMPREENDIMENTOS E A SOCIEDADE CIVIL


A história das cidades sempre foi conduzida por duas vias políticas de organização: a dos empreendimentos econômicos e a dos interesses da sociedade civil, às vezes unidos num só propósito de desenvolvimento e muitas vezes desunidos quando a ganância pelos lucros afastam essas duas forças sociais gerando o declínio. Para mediar ou representar formalmente essa duas forças, logo aparecem os grupos políticos partidários para ocupar os podêres executivo e legislativo e que passam a lutar pelo controle do aparelho de estado municipal. As cidades da Baixada Santista são exemplos dessa dinâmica de desenvolvimento e retração. Santos cresceu por força do porto federal e da sua forte organização civil em defesa dos interesses locais, empreariais e sindicais. Mesmo assim, sofreu graves danos e perdas das suas antigas características urbanas e culturais. Nas demais cidades a sociedade civil, com alguns casos excepcionais, não teve a mesma postura de proteção local, deixando-se levar pelos interesses externos, sacrificando seu futuro e sua qualidade de vida em função de empreendimentos de duvidoso perfil de desenvolvimento. São Vicente teve nos últimos 40 anos uma rápida ascensão e idêntica degradação urbana pela ocupação desregrada da orla e desordenada das áreas periféricas da ilha, bem como da área continental. Esse modelo de ocupação da orla foi reproduzido em Praia Grande, porém a cidade preservou-se da degradação em função do turismo sazonal, deixando praticamente sua orla vazia fora das temporadas veranistas. Fora da orla, a cidade tem vida própria, regular e organizada, com problemas considerados “controláveis” por parte da administração municipal. Até 1967, Praia Grande era apenas um bairro de São Vicente e sua ocupação ocorreu durante pouco menos de um século, acelerada entre anos 1970 e 1990 pela emancipação e construção da ponte do Mar Pequeno.


O prefeito Leopoldo Vanderlinde observa os bairros do Boqueirão e os do Forte nos anos de 1970. Acervo: Museu da Cidade. 

DEMARCANDO TERRITÓRIOS POLÍTICOS 


Na disputa pelo controle das instituições municipais, as forças e lideranças costumam demarcar territórios, visando a conquista, manutenção e perpertuação dos seus objetivos políticos. O mesmo acontece nas demais esferas de poder constitucional. Uma das formas mais comuns dessa prática é dar nomes aos bairros, ruas, avenidas, praças e monumentos que identifiquem esses interesses.  De tempos em tempos essa peças da organização e decoração urbana mudam de nome, são revividos  ou então relegados ao abandono quando seus propositores perdem prestígio politico, seja pelo tempo ou alguma circunstância que foge do controle dos mesmos. Em Praia Grande esse fenômeno já acontecia eventualmente quando a cidade ainda era bairro vicentino, por meio de algumas homenagens, e passou a ser mais constante quando os interventores foram afastados e um líder local eleito assumiu a governança do município. Nesse caso específico foi o prefeito Dorivaldo Lória Júnior, "Dozinho", inaugurando na Praia Grande emancipada essa antiga prática de demarcação territorial por meio da denominação ideológica dos pontos geográficos. Dozinho assumiu o poder no auge do chamado regime exceção implantado em 1964 e endurecido pelo Ato Institucional nº 5 em 1969. Mesmo sendo eleito pelo voto direto e democrático, o prefeito que também lutou pela autonomia da cidade buscou manter um claro alinhamento cívico-ideológico com a ditadura militar que governou o país mais de 20 anos. Observando  as denominações dadas por ele aos antigos e novos pontos geográficos, e também aos monumentos, é notória a sua inclinação pelos heróis militares antigos e figuras dominantes do regime  de 1964. Outra característica desse prefeito foi a sua admiração, muito comum na época,  ao "Ameriacan way of life", culto ao modo de vida dos EUA, iniciado no Brasil em 1945 e acentuado durante a Guerra Fria, quando o General Eurico Gaspar Dutra assumiu o poder após a deposição de Getúlio Vargas. Dozinho era admirador da figura mítica de John F. Kennedy, presidente democrata americano e dono de uma das mais agressivas políticas externas contra a URSS e o Bloco Comunista. Kennedy, que também notabilizou-se pelo impulso ao programa espacial americano, foi assassinado em 1963, porém, antes da sua morte, foi um dos articuladores que colocou os militares brasileiros alinhados aos EUA no poder em 1964. A principal e mais extensa avenida de Praia Grande ganhou do prefeito Dozinho e do seu grupo o nome do presidente americano mais popular daquele contexto, que também seria marcado pela tragégia da morte do seu irmão e secretário de justiça Bob Kennedy em 1968.  Bob era o mais forte candidato à presidência para a sucessão de Lyndon Jonson. Nesse período também foram assassinados nos EUA líderes negros que lutavam contra a discriminação racial - uma bandeira assumida pelos Kennedy-  como o moderado e pacifista Martim Luther King e os radicais Malcoml-X e Fred Hampton (Panteras Negras). Em 1969, ano da eleição de Dozinho, ecoava no mundo e em Praia Grande a chegada do Homem à Lua, promessa de Kenendy feita oito anos antes num discurso em Berlim e concretizada na época que Praia Garnde elegeu seu primeiro prefeito.     


Fotos: acervo de Circe Sanches Toschi, publicadas em uma tese acadêmica sobre geografia e turismo.



A famoso restaurante Lagosta nas areias da praia do Boqueirão: ponto de encontro gastronômico e  cenário de negócios imobiliários. 


As imagens mostram a vida primitiva do balneário vicentino de Praia Grande (Vila Matilde) nos anos 1940 e 1950 e sua gradual ocupação pelos empreendimentos imobiliários, quase sempre em sintonia com o perfil dos moradores ligados a esses negócios e que se tornariam influentes e atuantes emancipacionistas nos anos 1950 e 1960.


Cartão promocional da Capela de Santa Matilde. 


CAPELA DE SANTA MATHILDE. Capítulo importante da história cultural de Praia Grande, na época ainda um bairro vicentino. A Capela Santa Mathilde, situada no loteamento Jardim Matilde, foi inaugurada em 27 de agosto de 1950 com missa campal celebrada pelo Bispo de Santos, Dom Idílio José Soares. Segundo Suely Toschi, neta do pioneiro praia-grandense, a capela foi idealizada por seu avô Heitor Sanchez em homenagem a sra. sua bisavó Mathilde e devota dessa Santa caridosa. Em ato solene realizado em meados de 1980 a capela foi doada à Cúria Metropolitana de Santos. Suely lembra também que todos os descendentes de Heitor Sanchez foram batizados na capela, netos, bisnetos e tataranetos, bem como casamentos de neta e bisneta.



Registro da capela em 2020, 70 anos depois da sua inauguração.



OCIAN,  UM DIVISOR DE ÁGUAS DA EMANCIPAÇÃO 




Folder do empreendimento "Cidade Ocian" dos anos 1950, comandado pelo engenheiro paulistano Roberto Andraus. O empresário na época enfrentou obstáculos políticos em São Vicente e Santos e, como reação estratégica, entrou na disputa eleitoral elegendo-se prefeito de São Vicente, governando num curto mandato entre janeiro de 1960 e abril de 1962. Renunciou para dar continuidade aos seus negócios em São Paulo e Praia Grande. Esse incidente marcaria a retomada do processo emancipacionista da cidade. 


Nos anos de 1960. O vereador Oswaldo Toschi e o Dr. Roberto Andraus, prefeito de São Vicente  e construtor de Cidade Ocian.








Acima, movimento durante a inaguração da Cidade Ocian em 1956




O Prefeito de São Vicente, Luiz Beneditino, cortanto a fita inaugural da Cidade Ocian ao 
lado do empresário Roberto Andraus. Abaixo, um anúncio de lançamento imóbiliário no Jardim Guilhermina publicado em em 1944 em jornal de São Vicente.

Anúncio de empreendimento imobiliário em Praia Grande em jornal de São Vicente no verão de 1944.
Abaixo um folder de vendas de lotes do balneário Flórida.
  
Acervo: Circe Sanches Toschi.





1968, VISITA DO GOVERNADOR

Em 1968, apenas alguns meses após a emancipação, o governador de São Paulo, Roberto de Abreu Sodré, visitou Praia Grande para conhecer os problemas e perspectivas do novo município paulista. A presença da comitiva oficial rendeu verbas e obras decisivas para a iplatção de uma infra-estrutura de saneamento básico. Nas imagens o governador aparece ao lado do interventor federal Paulo Sandoval





Em 1968 na Praia Grande, durante a visita oficial do governador Roberto de Abreu Sodré.
Ao fundo o "Trem das Onze" e o terreno onde foi construido o Paço Municipal da 19 de Janeiro. Claudio Sterque




Na rua Paraiba com Pernambuco em 1968, quando o governador Abreu Sodré esteve na cidade para anunciar 1 bilhão de cruzeiros novos para obras de água potável para a cidade.





O governador Abreu Sodré cumprimenta populares na rua Paraiba, Boqueirão, em 1968.



AS ARTÉRIAS URBANAS DE PG

A gigantesca extensão da orla de Praia Grande influiu histórica e geograficamente - e ainda influi - na formação e organização do município ao longo das primeiras décadas do século XX.  O sentido de ocupação e desenvolvimento ocorreu sempre na direção sul do litoral, selvagem e inóspita, à espera dos exploradores e investidores sempre atentos a novas oportunidades. 

Seguindo o fluxo dos antigos caminhos da época colonial e depois das ferrovias, surgiu primeiramente nessa perspectiva a famosa Linha do Telégrafo Nacional, instalada bem ao centro entre a orla e o Mar Pequeno cortando os sítios da região. O sitema de comunicação inaugurado por D. Pedro II em 1852 fez parte do processo de modernização do império servindo como tecnologia estratégica comercial, militar também judicial. O telegrafo já era utilizado pleo Ministério da Justiça na repressão ao tráfico de escravos. Antes do surgimento do rádio e da telefonia, o Telégrafo Nacional tinha 182 estações interligando diversas regiões (dados dos site da Biblioteca Nacional-RJ). 

A linha regional do Telégrafo Nacional foi aberta em Praia Grande também no sentido Norte-Sul e, depois depois de desativada, tornou-se  referência geográfica e marco divisório das antigas propriedades rurais (ver a citação de Tude Bastos e sitiantes no edital judicial da 2.a Vara Cível e Commercial da comarca de Santos- 1935) e nas décadas seguintes transformou-se na também extensa avenida Presidente Kennedy, entre a Vila Guilhermina-Tude Bastos e o Jardim Solemar, divisa com o município de Mongaguá.
   
No antigo  trecho da rodovia SP-55 (formada por Padre Manoel da Nóbrega, Cônego Domênico Rangoni e Doutor Manuel Hipólito Rego) na extensão da Ponte Pênsil e avenida Tupiniquins, surgiu a Via Expressa Sul,  entre a Guilhermina e a Vila Mirim (na Curva do S). A via possui duas avenidas marginais de sentidos opostos, interligando os bairros do setor 3 às avenidas Kennedy e  Costa e Silva: a Ministro Marcos Freire, setor 3 na direção norte-sul Mngaguá; e Dr. Roberto Almeida Vinhas, setor 2, sentido sul-norte São Vicente. Esse antigo trecho rodoviário existiu até o início da década de 2.000, sendo depois deslocado para a área serrana  - na altura da Vila Caiçara - para fazer parte do complexo Anchieta-Imigrantes. É também hoje um importante corredor comercial e logístico intermunicipal de ligação entre Cubatão, Santos, São Vicente, as cidades do litoral Sul, Vale do Ribeira e Curitiba-PR.


A AVENIDA PRESIDENTE KENNEDY EM DIFERENTES ÉPOCAS

ACERVO ICONOGRÁFICO: CLAUDIO STERQUE


Na década de 1960, ainda com poste do Telégrafo Nacional. 


"A Avenida Presidente Kennedy é um dos principais corredores comerciais de Praia Grande, com 21 quilômetros de extensão, passando pelos bairros Boqueirão, Guilhermina, Aviação, Tupi, Ocian, Mirim, Maracanã, Caiçara, Real, Flórida e Solemar. Mourão idealizou o projeto de tratamento paisagístico, incluindo ciclovia ao longo da via. A primeira fase das obras de reurbanização foi entregue oficialmente em 2008 e compreendeu o trecho de 3.200 metros, entre os bairros Boqueirão e Aviação. Após isso, foram realizadas intervenções nos demais bairros. As pistas da Avenida Presidente Kennedy foram alargadas para 7 metros e recapeadas. Contam com duas faixas de rolamento em cada sentido. Ao longo da via foram inseridos bolsões para ônibus e estacionamento de veículos (de 30 a 40 metros de extensão, comportando de seis a oito veículos). As calçadas ganharam nova cobertura de bloquetes intertravados de concreto. Também foi colocado piso podo tátil, instaladas rampas e guias rebaixadas para atender ao portador de necessidades especiais. Toda a Avenida conta com ciclovia, com 3 metros de largura, interligada ao sistema cicloviário já existente nas Avenidas Roberto de Almeida Vinhas e Castelo Branco". (Alberto Mourão http://albertomourao.com.br/)



Décadas de 1970 e 1980, ainda sem pavimentação e esgoto.


Década de 1990, crescimento do comércio, ocupação imobiliária, ampliação da pavimentação e infra-etrutura sanitária.



Aspecto noturno da avenida na década de 2020 a partir de uma imagem feita por drone



Vista áerea da Via Expressa Sul em direção ao centro comercial do Boqueirão. 


Início da Via Expresa e Marginais, ao centro na direção de Mongaguá; avenida Presidente Kennedy, avenidas Brasil e Mal. Mallet , à esquerda; e Avenida do Trabalhador, à direita. 


Vista aérea da orla e da avenida Castelo Branco na direção da Península do Itaipú. 


Painel de publicidade do loteamento do Jardim Guilhermina, na década de 1920.



Avenida Presidente Castelo Branco na década de 1960. 



Vila Tupy na década de 1950. 







A PONTE DO MAR PEQUENO E ACELERAÇÃO  URBANA DOS ANOS 1980



Ponte do Mar Pequeno e Ponte Pênsil, ambas em São Vicente com seus respectivos acessos à Praia Grande. Os dois empreendimentos foram responsáveis pelo desenvolvimento e emacipação da cidade. 


Até o final dos anos 1970 o único acesso rodoviário de grande contigente à Praia Grande era a Ponte Pênsil, inaugurada em 1914. A emancipação em 1967 deu autonomia ao novo município, porém o isolamento persistiu durante muitos anos e a cidade permaceu estática e repleta de problemas  de infra-estrutura. Essa realidade mudaria radicalmente quando o projeto da nova ponte, criado em 1965, saiu do papel e serviu como o empreendimento propolsor  do desenvolvimento do litoral sul. A ponte seria o ponto de recepção de veículos do sistema Anchieta-Imigrantes tornando-se um eixo de ligação rápida entre os minicípios do litoral sul e Vale do Ribeira. Essa obra atenderia também a demanda de novos emprendimentos imobiliários, com novos loteamentos, exigindo um plano diretor e um novo traçado urbano. O grande propulsor dessa tranformação foi o  então governador Paulo Salim Maluf, que já havia retomando o projeto de construção da ponte em 1972, quando ainda era secretário de transportes do governador Laudo Natel. Como governador,  e também particularmente como investidor, Maluf atualizou o projeto e abriu novas perspectivas dos negócios imobiliários, setor que se tornaria sólido e responsável pela expansão urbana nas décadas seguintes. Assim como aconteceu com alguns pioneiros - sobretudo com o empreendimento da Cidade Ocian - as administrações pós-ponte perceberam o potencial de crescimento desse setor  e passaram a influir diretamente nesse segmento, dando um direcionamento estratégico para a ocupação territorial. Surge a partir daí uma verdadeira indústria imobiliária, movimentada por inúmeros pequenos contrutores de casas geminadas, espalhadas nos bairros próximo e distantes da área central;  e também os grandes construtores de edifícios de apartamentos, cujo ritmo acelerado dura até hoje. De bairro vicentino isolado e muitas - vezes abandonado pela administração insular-   a munícípio emancipado, Praia Grande foi se transformando exponencialmente até se tornar no início do novo século a promessa de ser a próxima metrópole da região. Muito semelhante ao que aconteceu com Santos em 1540, quando criou sua própria vila e redimensionou sua vocação portuária. 

O TURISMO E O FLUXO FERROVIÁRIO E RODOVIÁRIO























Imagem do complexo Anchieta-Imigrantes na base da Serra do Mar e sua distribuição do fluxo de trânsito no litoral.

O TURISMO PREDATÓRIO E  A ALTERNATIVA  DAS COLÔNIAS DE FÉRIAS


O turismo sempre foi a base econômica das cidades do litoral, cuja geografia reúne numa só localidade três importantes e muito consumidos atrativos naturais: a serra do mar, os rios e mangues e principalmente as praias, que concentram o maior contigente de consumidores de lazer, pelos custos baixos e fácil acesso e retorno aos lugares de origem. 

A crescente demanda das temporadas e a hospedagem  em massa provocou uma  super oferta de imóveis de pequeno espaço e uso por cobrança diária, como alternativa popular à hospedagem hoteleira. O proliferação dos famosos "kitnetes" nos anos 80 e 90 foi tão alta que a prefeitura foi obrigada a solicitar  à Câmara uma legislação específica exigindo uma área mínima para construção de apartamentos. 

Outra ação controladora foi a proibição de estacionamento de ônibus na orla, que ocorria em total desordem, geralmente na faixa de areia das praias.  A ideia era conter os efeitos negativos do turismo predatório no qual os frequentadores não consomem durante sua rápida permanência, porém deixam ao retornarem, além do prejuízo econômico, toneladas de resíduos  e alta carga de detritos orgânicos. A lei surtiria efeito à médio e longo prazo transformando gradualmente o perfil social e aquisitivo dos empreendedores e  também turistas de Praia Grande.  

Uma marca importante da ocupação turística massiva da cidade foi aparecimento das colônias de férias, modelo alternativo da rede hoteleira e dos aluguéis de apartamentos e kitnetes. Esses estabelecimentos são empreendidos e administrados por associações e entidades de classe, sindicatos de trabalhadores e grandes empresas, recebendo durante o ano todo, em cerca de 60 unidades, um grande fluxo de turistas da Capital, região do ABCD e interior.  Com exceção de alguns bairros da orla, as colônias se concentraram na Vila Mirim, instaladas na conhecida avenida dos Sindicatos. 

    

Avenida dos Sindicatos, na Vila Mirim, ponto principal das colônias de férias em Praia Grande.


O TURISMO DA FÉ 

UMA CIDADE NOVA TORNA-SE CENÁRIO DE UMA NOVA RELIGIÂO



Festa de Iemanjá em Praia Grande - G1 Santos / Região - Bom Dia São Paulo - Catálogo de Vídeos



 Segundo o memorialista Claudio Sterque, uma das festas de Iemanjá realizadas nos anos 1970 em Praia Grande chegou a reunir mais de 1 milhão pessoas na orla, contando adeptos e curiosos que vieram de inúmeros lugares, sobretudo da Grande São Paulo, para celebrar e admirar um dos cultos mais populares do Brasil naquela época. 

As festas religiosas já aconteciam na cidade desde a década de 1950, mas o ápice desse culto aconteceu quando a televisão à cores começou a entrar nos lares brasileiros exibindo todas as nuances da religiosidade afro-indígena em novelas baseadas na obra de Jorge Amado e nas temáticas românticas da escravidão no período imperial (A Escrava Isaura, A Moreninha, Senhora, O Noviço). Um pouco antes desse período, no final dos anos 60,  Vinícius de Moraes e Baden Powell cantavam seus  "afrosambas". Em parceria com Toquinho, Vinícius recheou a trilha sonora da novela  O Bem Amado com temáticas do candomblé.  As escolas de samba aos poucos abandovam o ufanismo cívico do regime militar para mergulhar nos enredos de exaltação de temáticas africanas. O mercado fonográfico emplacou no rádio e na TV durante muitos anos os sucessos das canções caipiras místicas e afro-indígenas de Ruy Maurity e inúmeros outros compositores que flutuaram nessa moda da década de 1970.  A cantora Clara Nunes, que iniciou no samba-canção e na bossa nova, redirecionou sua carreira artística, seu repertório e visual tornando-se praticamente uma porta da voz nacional dessa cultura que despertou o orgulho e  auto-estima das classes baixas, quase sempre obrigadas a esconder as suas preferências e práticas religosas de terreiro. Este foi o Brasil, de sucessivos anos, que levava milhões de turistas e adeptos às praias nos fins de semana, nos dias de Iemanjá e principalmente nas passagens de ano  "pulando alegremente as sete ondas" para desejar e pedir boa sorte nos anos que começavam. Nunca a expressão "savará" foi tão utilizada e pronunciada  para saudar amigos e comemorar momentos de confraternização. Nas duas décadas seguintes seria a vez do "axé". Como muitas outras cidades litórâneas do Brasil, Praia Grande tornou-se o principal cenário paulista dessa celebração espetacular da religiosidade e do sincretismo religioso brasileiro.   

O SINCRETISMO COMO EXPRESSÃO E REFLEXO DA  MISCIGENAÇÃO

As religiões populares e informais no Brasil sempre encontraram resistência e obstáculos por parte da classe dominante e do clero católico, mas também sempre souberam criar atalhos e alternativas para a sua livre expressão e manifestação. O sincretismo é um desses atalhos mais admiráveis e históricos, sugerindo que as as crenças e religiões possuem muito mais pontos convergentes do que divergentes. Nessa perspectiva, é notório que o sincretismo estimulou o convívio, a integração e o afeto nas práticas inter-religiosas e também neutralizou a intolerância, o exclusivismo institucional e o sectarismo conflituoso. Esta foi a experiência secular que nasceu no período colonial, juntamente com a miscigenação étno-racial, e que marcou a nossa história nos 500 anos de formação da cultura brasileira. Ao catolicismo europeu trazido pelos jesuítas juntou-se de maneira mais ampla um conjunto de crenças e práticas religiosas de matriz africana e também de hábitos e ritos animistas indígenas. São elementos encontrados em todos os cantos do Brasil em forma de festas, alimentação, medicina natural, arte, artesanato, medicina natural, linguística, ética, religião e espiritualidade. 

Surgido como mecanismo de defesa dos cativos e adaptação social nos engenhos e nas vilas coloniais litorâneas nos primeiros tempos da exploração europeia, o sincretismo interiorizou-se com sertanismo e difundiu toda um diversidade de concepções e práticas de fé. Uma diversidade formada pelos contatos humanos e suas diferentes formas de manifestação e regionalidade. Na estrutura rural do engenho - o convívio da casa grande com a senzala- e nos primeiros núcleos urbanos, surge o candomblé com suas marcas originais da África e também as primeiras adoções dos ritos católicos como os santos, as missas, os sacramentos e celebrações sagradas de sincretismo. Era uma forma de resistência, distensão religiosa e convívio possível entre brancos, negros, índios, mamelucos, mulatos, cafuzos, pardos e de todas as expressões étnicas que foram surgindo a partir da miscigenação, no litoral e no interior. 

O processo de apropriação dos terriórios indígenas pelos brancos acelerou o sincretismo religioso sertanejo e, no decorrer do séculos, foi devolvido ao litoral e aos grandes centros urbanos as crenças mágicas e práticas curativas indígenas, já absorvidas pelos sertanejos. Estes, formando as massas de retirantes do sertão e também dos caipiras e caiçaras  migrados para os grandes centros, foram os fundadores da umbanda, como a mais nova e autêntica expressão religiosa brasileira. Nascida  como  movimento social no século XX (pois já era bem antiga e dispersa como prática e conceito),  a umbanda surge  como busca de uma identidada e unificação - juntamente com o fenômeno da urbanização nas periferias da cidades - como religião de consolo e também afirmação social das classes baixas e miscigenadas. Nesse contexto também  aparecem as manisfestações populares protestantes, de matriz pentescostal, destoando das agremiações mais tradicionais (batistas, metodistas, presbierianas e luteranas) que resultaria no evangelismo de massas. A maioria dessas novas igrejas pentecostais sofreram influência da umbanda  e do cadomblé quando muitos dos membros se converteram ao protestantismo, porém mantendo sincreticamente suas antigas práticas animistas. O mesmo fenômeno já havia acontecido nos grupos espíritas, influnciados pelos católicos e protestantes que passaram a seguir o kardecismo.  

Foi essa alternativa social de fé ao catolicismo, ao protestantismo tradicional  e também ao espiritismo, que se manifestou na Baixada Santista como movimento ao mesmo tempo religioso, folclórico e turístico; e que definiu e selou uma das marcas culturais mais importantes da vida balneária e cotidiana de Praia Grande. Uma cidade nova  e inicialmente sem identidade cultural própria, além das bases tradicionais religiosas,  acolheria não somente as novas coletividades mas também seus novos hábitos  e crenças. A presença da umbanda e candomblé em Praia Grande, diferente dos demais cultos religiosos que se instalaram espontaneamente na região, teria uma conotação socio-econômica, por meio de um grande evento cultural do calendário turístico regional. 


Festa de Iemanjá nos anos 1970. Novo Milênio. 


ANEXOS

A FESTA DE IEMANJÁ EM PRAIA GRANDE

"A importância das festividades em louvor a Iemanjá aumenta de ano para ano, e muitos estudos têm sido feitos para explicar o fenômeno. Alguns sociólogos explicam a devoção, baseados como significativo e motivação, de que o povo precisa de prêmios materiais e símbolos concretos. Quando Iemanjá chega às areias, vem com suas cores, suas comidas e promessas, representa o sonho da mulher bonita e mãe carinhosa, fazendo parte da trilogia pela qual o homem luta: beleza, afeição e dinheiro.

Histórico - Em novembro de 1969, o prefeito Dorivaldo Loria Júnior e o sr. José Moura, na época presidente do Conselho Municipal de Turismo, entraram em contato com várias federações, sobre a possibilidade da realização do culto nas areias de Praia Grande, pois a cidade recém-emancipada oferecia 2 condições essenciais para as oferendas: muito espaço (23 km de areia), a aceitação e a colaboração das autoridades do povo. Assim nasceu a realização da 1ª festa, que contou com aproximadamente 15.000 participantes.

Instituída pela Lei nº 244 de 3/3/1976 (autoria do ex-vereador Teodósio de Augustinis e sancionada pelo prefeito Leopoldo Estásio Vanderlinde), os crentes têm 7 dias inteiros para cumprirem suas "obrigações".

A lei veio não para dispersar, mas para disciplinar a descida de umbandistas, evitando assim as grandes concentrações. Mas, dia 8 é feriado no Município, tal a importância da festa que basta citar o desdobramento do pessoal do Serviço de Pronto Socorro, do Serviço de Salva-vidas e o recolhimento de crianças perdidas na praia, pela Organização Educacional e Esportiva dos Mirins, Círculo e Amigos do Menor Patrulheiro, orientados pelo SOS". Informativo Cultural, boletim informativo da Associação Centro de Estudos Amazônicos de Praia Grande (Aceam). Publicado em junho de 1979, no número 19 (ano VII). Fonte: Novo Milênio.

 
Festa de Iemanjá nos anos 1980. Blog Caiçara. Turismo Consciente. 

FESTA DE IEMANJÁ RECEBE DEVOTOS DE GUARULHOS



Durante a madrugada nos dias 2/3/4 e 09/10/11 de Dezembro 2011, grupos de umbanda e do candomblé de diversos municípios, incluindo de Guarulhos, espalharam-se em tendas montadas na areia para conduzir os rituais tradicionais, onde cada terreiro traz seus filhos, atabaques e montam praticamente um templo para fazer a homenagem. A Tenda de Umbanda Boiadeiro Rei das Matas e Baiano das 7 Pontas de Faca, da Mãe Dilma de Iansã, do Itaim Paulista, também se fez presente reunidos com seus filhos de santo moradores em Guarulhos. Rituais com velas, dança, música e oferendas a Iemanjá, considerada a “rainha do mar”, ocuparam cerca de 1,5 km da orla de Praia Grande (SP) durante os dias de festejos da 41ª edição da Festa de Iemanjá, onde reuniu aproximadamente 40 mil devotos.

História da Festa – A festa de Iemanjá em Praia Grande nasceu 1969, quando o então prefeito Dorivaldo Loria Júnior e o presidente do Conselho Municipal de Turismo, José Moura, em conjunto com várias federações, idealizaram sua realização nas praias da Cidade, pois o Município, recém-emancipado (19/01/1967), oferecia muito espaço, 22,5 km de orla, e a aceitação e colaboração das autoridades e da população.

Estátua de Iemanjá – Localizada na Praia de Vila Mirim, tem 8 metros de altura. A imagem fica sobre dois espelhos d’água: um junto à areia e outro suspenso, na altura do calçadão da orla. Em sua base há uma cascata e espelho d’água, dando a sensação de que Iemanjá está sobre o mar. Há espaço protegido para a colocação de velas. O sistema de iluminação, com luminárias submersas na lâmina de água, tem foco direcionado à estátua. O espaço é ladeado por 16 coqueiros que representam os orixás (deuses) da Umbanda.

Por Jornal REGIONAL G-News. 22 de dezembro de 2011. Acesso:09/08/2021


MOBILIDADE TURÍSTICA

Atualmente as cidades do litoral contam como via de acesso com uma ampla malha rodoviária para facilitar a mobilidade turística. Num passado recente dependia de outras formas de acesso como as ferrovias e os primitivos transportes feito por pequenas e médias embarcações nas travessias aquáticas. As primeiras décadas de ocupação em Praia Grande foram influenciadas pela construção da Ponte Pênsil, iniciada em 1910 e concluída em 1914. Antes a travessia da ilha de São Vicente para o continente era feita em pequenas embarcações, do Morro dos Barbosas até o Japuí, no início avenida Tupiniquins; e do Porto Tumiaru até Porto do Campo, pelo Mar Pequeno. A ponte foi uma obra pensada originalmente como duto do esgoto de Santos para a ponta do Itaipu, porém se tornaria a mola propulsora de transformação da região. Sua construção teve o mesmo efeito especulativo provocado meio século depois com a construção da Ponte do Mar Pequeno, atraindo todas as diversidades de negócios imobiliários, legais e ilegais,  em  todo o litoral sul.  



Imagens cedidas do acervo de reserva técnica do Museu da Cidade


Nas décadas de 1930 e 1940 o interesse pelos negócios imobiliários em Praia Grande eram estimulados pelo acesso rodoviário da Via Anchieta e também da linha ferroviária Mairinque-Santos (ramal Juquiá) que se estendia até Peruibe e Cajati, a partir da Estação Samaritá, em São Vicente.  Duas estações dessa linha estimularam o crescimento dos bairros próximo a Mongaguá: a estação da Vila Balneária e a Estação do Balneário Flórida. Isso explica o fato desses bairros, sobretudo Solemar, terem sido precursores do movimento politico emancipação de Praia Grande. Na época a propaganda imobiliária já ofertava terrenos usando como ponto de atração a facilidade de acesso pelos trens que passavam pela região em direção ao Vale do Ribeira.












Linha Santos-Juquiá. Trem passando na altura do então bairro vicentino de Solemar em 1960 em direção a Mongaguá, Itanhaém e Peruibe. Fonte: Novo Milênio.




Em 19 de janeiro de 1976, o prefeito Leopoldo Vanderlinde (ao centro) recebe os seus convidados para os festejos do 9º aniversário da emancipação de Praia Grande. Da esquerda para a direita, o prof. Negrão, Diretor da Educação, o prefeito Leopoldo Vanderlinde, Aristheu Bulhões, presidente da Academia Santista de Letras, Graziella Sterque, Cel. Estélio Telles Pires Dantas, comandante da Fortaleza de Itaipu, deputado Alex Freua Netto e o empresário João Gomes da Silva. Ao fundo na calçada, Helon Rodrigues de Mello Filho.

Imagem obtida da entrada do Paço na praça 19 de Janeiro. Arquivo dos Sterque.

 

VERTICALIZAÇÃO E UMA NOVA ELITE EMPRENDEDORA



Confluência das avenidas Marechal Mallet e Paris no bairro Boqueirão


 VERTICALIZAÇÃO E UMA NOVA ELITE EMPRENDEDORA

Nessas primeiras décadas predominou a construção de casas isoladas em terrenos amplos, de famílias de alto poder aquisitivo, como aconteceu na Vila Matilde e no Boqueirão nos anos 1950. 

Nos anos 70 surgiram os loteamentos de classe média, com casas menores, porém ainda isoladas, caso típico do Boqueirão e da Vila Guilhermina, esta última passando por uma segunda transformação. 

A partir da década de 198O, por influência da nova ponte, os loteamentos e as construções foram acelerados na direção da Aviação,Vila Tupi e da já existente Cidade Ociam (inicialmente com prédios de quatro pavimentos e pequenos apartamentos). Nos arredores surgem os pequenos empreiteiros de casas geminadas, dividindo terrenos menores, criando um modelo que seria reproduzido em todos os bairros - com exceção do Flórida, que era mais sofisticado - até o Solemar. 

Nesse período Praia Grande já tinha como elite dominante uma aristocracia de interesses políticos ligados à construção civil e que pretendia dar à cidade um direcionamento urbanístico proporcional ao crescente investimento desse setor. Seguindo os passos dos empreendedores pioneiros, principalmente de Roberto Andraus - que se tornou prefeito de São Vicente com o claro intuito de remover os entraves burocráticos e políticos aos negócios imobiliários no então bairro vicentino - surge uma nova elite nesse setor disposta a redefinir as regras empreendedoras.  Para empreender em Praia Grande, como em todos os lugares onde o negócio principal é a ocupação e uso do solo,  era necessário um lastro político que pudesse garantir uma expansão segura para os empreendimentos já em andamento e também aos projetos de desenvolvimento que certamente surgiriam a curto prazo, devido ao ritmo de mudanças que vinha se acelerando na região. O exemplo que melhor identifica esse novo segmento e contexto histórico é a figura emblemática de Alberto Pereira Mourão, paulistano nascido em 1954. Na época do seu nascimento só havia em Praia Grande  dois logradouros: a avenida Marechal Malet, na direção ao Forte Itaipu;  e a Avenida da Praia, ambas sem pavimentação e quase desertas. Estavam surgindo os primeiros edifícios nas vilas Guilhermina, Cidade Ocian e o loteamento da Vila Mar. Um ano antes havia ocorrido a primeira tentativa de emacipação, no bairro Solemar. O mais conhecido e lembrado de todos os executivos da jovem cidade iria mudar radicalmente o perfil e o destino Praia Grande. Em 1977 Alberto Mourão já era sócio de uma construtora familiar e daria início à uma rápida trajetória de liderança: na faculdade de Direito, depois como presidente da Associação Comercial, provedor da Santa Casa, vereador, presidente da Câmara, vice-prefeito e finalmente prefeito. Da pequena lista de 12 executivos, entre 1967  e 2020, Mourão exerceu cinco mandatos e elegeu dois sucessores. Teve também dois mandatos como deputado federal e a presidência do CONDESB, órgão colegiado de prefeitos da Baixada Santista.  Seu currículo como gestor criou, por meio de planos diretores, uma identidade urbanística marcada pelo fomento aos negócios imobiliários com regras modernizantes e inovadores projetos de infra-estrutura. Como destaque, criou uma rede de ensino fundamental de referência em instalações e gestão, esta última, fruto da sua experiência como secretário municipal da educação. A rede física de ensino, com unidades escolares sempre bem edificadas e equipadas, além de promever a vocação educativa, funcionou também como suporte e incentivo ao desenvolbimento urbano, atraindo para os entorno delas toda uma diversidade de investimentos como  moradias, estabelecimentos públicos e comerciais.  

A partir dos anos 1990, ocorre então uma nova ocupação da orla, caracterizada pela criação de três setores urbanos, dividindo a cidade entre as avenidas Castelo Branco (setor 1), Presidente Kennedy (setor 2) e a Via Expressa Sul (setor 3). 


Gráfico de revisão do plano diretor mostrando as fases históricas da expansão urbana.



Essa nova ocupação seria marcada pela intensa verticalização das edificações, sobretudo no setor 1 e o abairramento periférico na direção dos manguesais até a divisa com a área continental de São Vicente. Hoje essa região do setor 3 é cortada pela rodovia Padre Manoel da Nóbrega até o eixo da rodovia dos Imigrantes. Esse aumento de fluxo rodoviário ligando a Via Expressa Sul com o complexo Anchieta-Imigrantes-Padre Manoel da Nóbrega e Cônego Domênico Rangoni (acesso à margem esquerda do Porto de Santos e ao Guarujá) atraiu para os setores 2 e 3 de Praia Grande uma diversidade de novos negócios, sobretudo os grandes atacadistas de alimentação, auto-peças, transporte e logística. O fenômeno deu também uma nova configuração demográfica para a cidade. De um número inicialmente bem reduzido de núcleos e estabelecimentos, próximos e também distantes das divisas com São Vicente e Mongaguá, Praia Grande conta hoja com cerca de 32 bairros e 11 núcleos habitacionais ainda não oficializados.  O Censo de 2010 apontava uma população de  262.052 habitantes e que atingiu em 2020, segundo estimativa do IBGE, cerca de 330.840 mil habitantes. Esse crescimento teve como fatores mais influentes, além da infra-estrutura rodoviária, a pressão demográfica em Santos e São Vicente, causando a migração populacional para a área continental vicentina (hoje com 150 mil habitantes) e também para os bairros e núcleos praia-grandenses. Praia Grande tornou-se asim, com o passar dos anos, fortemente integrada à economia regional, tendo milhares de habitantes trabalhando na área insular de São Vicente e Santos, no polo petroquímico de Cubatão e também nas cidades do ABCD e do Planalto.  





A ERA MOURÃO


ANOS 1990

Na década de 90, a cidade de Praia Grande era considerada o pior lugar da Baixada Santista para alguém visitar. O município até conseguia ser manchetes de jornais, mas sempre por motivos negativos, como o esgoto que corria a céu aberto e o lixo espalhado pelas ruas. Muitos moradores tinham vergonha de falar que residiam no na cidade.

Quando Alberto Mourão assumiu a Prefeitura, em 1993, muitos perguntavam como ele tinha coragem de governar uma cidade que estava em estado de calamidade. A resposta nem sempre era justificada com palavras, mas sempre com atitudes. O novo prefeito não passava a maior parte do tempo olhando para o problema, mas sim para a solução. E para resolver a falta de desenvolvimento econômico da Cidade, ele sabia que só tinha uma alternativa: reativar o turismo.

Em 1993 havia falta de segurança, serviço emergencial de saúde, coleta regular de lixo e programações culturais, eram apenas alguns dos problemas a serem enfrentados pela Administração. Contudo, o prefeito recém eleito trazia um diferencial em sua atuação como político. Não carregava consigo o conformismo diante de determinadas situações, sua mente inquieta e observadora permitia que ele pensasse à frente de muitos outros políticos. Para o então prefeito, a revolução da sociedade da informação e do conhecimento, que mudou radicalmente a forma de relacionamento entre pessoas, empresas e governos, impõe novos paradigmas para gestão governamental.

Enquanto muitos governantes acreditavam que o Porto de Santos era uma solução financeira para região, o jovem prefeito de Praia Grande sabia que a economia de cada cidade deveria ter ida própria, pois a reorganização sistemática e racional de produtos estava se tornando um elemento essencial do desenvolvimento econômico. Sendo assim, a inovação e a acumulação de capital, fatores ligados aos empresários, responsáveis por movimentar os elementos estratégicos de uma cidade, por exemplo, dependiam das condições criadas pelo governo.

Quando um município apresenta infraestrutura pouco desenvolvida, os produtos e serviços podem encarecer, e as empresas não conseguem se estabelecer e se desenvolver adequadamente. Com isso, o ciclo econômico do Município é afetado negativamente, prejudicando toda a cidade. Investir nos serviços de infraestrutura atrai empresas e capital humano, aumentando a produtividade, proporcionando crescimento econômico.

Todas as estratégias da prefeitura nesse novo contexto eram pensadas de forma sistêmica, integrando assim diversas áreas. O ponto de partida do chefe do Executivo era a localização geográfica da Cidade. Por estar em um eixo central da Baixada Santista, Alberto Mourão compreendeu que poderia resgatar o respeito que a Cidade merecia. Entendendo o importante papel que a estabilidade econômica representava para os investidores, o prefeito começou a colocar seus planos em prática.

Com um planejamento urbano para revitalizar a orla da praia em mãos, mas sem dinheiro, Mourão conhecia bem a atitude que precisava ser tomada. Em uma reunião, com diversos empresários, ele mostrou o quanto o turismo podia mudar a realidade da cidade. Historicamente, o turismo já ajudou países da Europa, como Portugal e Espanha, a enfrentarem crises econômicas. Além disso, ele demonstrou como diversas cidades do mundo construíram suas histórias e conseguiram atrair turistas. Com essa referência,o prefeito conseguiu apoio de diversos empresários para patrocinar a reurbanização da Orla.

Mourão sempre acreditou que o turismo era a principal força para geração de emprego e renda, possibilitando a retomada da economia. O prefeito sempre viu os empregos que um imóvel de veraneio, por exemplo, pode oferecer. Um prédio precisa de porteiro, eletricista, encanador, faxineiro; isso sem contar os empregados que trabalham para administradora daquele edifício. Paralelo a isso, o turista que vai para uma cidade frequenta estabelecimentos como padaria, farmácia, restaurantes, mercados, pousadas, entre outros locais. Também enxergava na construção civil uma excelente oportunidade para geração de emprego. Quanto mais construções de veraneio Praia Grande tivesse, mais oportunidades de empregos seriam geradas. Em 2019, a construção civil representou 6,7 milhões de postos de trabalho. Isso era o equivalente a 7,3% de todos os empregos no Brasil. Ou seja, de cada 14 pessoas empregadas, uma trabalha na construção civil. Desde que Alberto Mourão assumiu o comando da Prefeitura, o número de imóveis de veraneio aumentou mais de 100%.

Os anos subsequentes foram desafiadores, pois o crescimento demográfico chegou a 6% ao ano. No período de 2005 até 2008, durante o segundo mandato do prefeito Alberto Mourão, esse desenvolvimento acentuou-se, com a realização de novas ações e obras. Com isso a imagem de Praia Grande, tanto comercial como turística, foi alterada, atraindo empresas e construtoras que já  procuram a Cidade para investir, criando novos postos de trabalho. O que forma um ciclo positivo e faz Praia Grande crescer ainda mais.

Obras importantes foram concluídas e outras iniciadas, como a urbanização da orla da praia e a construção da Via Expressa Sul, onde se localiza o Acesso 291 da SP – 55. Grandes investimentos foram feitos na área de infraestrutura, com a realização de pavimentação e drenagem de ruas. Com a conclusão do projeto piloto, a admiração pela bela estrutura que se formava naquele trecho da orla era inevitável, e o investimento de outros empresários também: vários deles passaram a procurar a prefeitura para se oferecer como patrocinadores.


Projeto Rumo. 

 

Dessa forma se concluiu a reurbanização dos 22,5 km de orla da praia, renovando a cara da cidade e a autoestima dos moradores, atraindo turistas e empresas, alavancando a economia, proporcionando a implantação de muitos outros projetos e consequentemente o crescimento de Praia Grande. Trouxe  para o Município o segundo maior shopping do Brasil, o Litoral Plaza Shopping. Com mais de 350 lojas, o empreendimento gera cerca de 4 mil empregos. O Atacadista Mackro também faz parte do grupo de empresas que estão instaladas no município. Para incentivar os grandes investimentos em Praia Grande,o prefeito sancionou um lei que permitiu a isenção do imposto territorial por um tempo determinado.

De uma cidade desacreditada,  Mourão conseguiu colocar Praia Grande entre os quatro destinos mais visitados do Brasil. Mas antes de toda essa metamorfose, o prefeito teve muito enfrentamento para retirar: barracas de praia feitas de madeira, mais de 200 córregos que levavam o esgoto da cidade em direção ao mar, construções irregulares em área de preservação ambiental, estacionamentos irregulares e tantas outras coisas que afastavam o turista da Cidade. Para chegar à bela paisagem que existe hoje, foi implantado um projeto de reurbanização que se iniciou a partir da aprovação da Lei Municipal 793, em 11 de Janeiro de 1993, que disciplina a circulação e estacionamento de ônibus de excursão provindos de outros municípios. A partir daí se iniciou uma campanha de conscientização para que moradores e turistas contribuíssem com a limpeza das praias.

Outras mudanças que impactaram a cidade foram as obras de captação das águas pluviais, eliminando os córregos nas praias; a pavimentação da orla, retiraram as barracas, que deram lugar aos quiosques padronizados feitos de alvenaria; o asfaltamento da Avenida Presidente Castelo Branco e a construção de um calçadão com equipamentos de lazer, segurança, escola de esportes, lojas de conveniência e a primeira ciclovia da cidade, que compreende os 22,5km de extensão das praias.

Investir nos serviços de infraestrutura atrai empresas e capital humano, aumentando a produtividade, implicando no crescimento econômico. Neste período finalizaram as obras da Via Expressa Sul, totalizando 10 km de estrada, e iniciado novo projeto de revitalização da Avenida presidente Kennedy, que totaliza 21,5 km.

Também foi realizada, parcialmente, a urbanização do Núcleo Caierias, no Bairro Tupiry, onde além da drenagem e pavimentação, a Prefeitura também vem executando a instalação da rede de esgoto. O projeto abrange 50 ruas (14 quilômetros) e já beneficia 10 mil pessoas. Foram executados 60, 3 km de pavimentação, beneficiando os bairros Tupiry (Caieiras) Melvi, Samambaia, Ribeirópolis, Melvi e Nova Mirim, onde residem, no total, cerca de 60 mil pessoas.

Todos os setores foram beneficiados, efeito do olhar visionário e empreendedor de alguém que enxergou no Turismo o caminho para  aquecer e desenvolver a economia local.  (http://albertomourao.com.br/realizacoes/desenvolvimento-economico/)


Prefeito Mourão em comício de de 2020 para eleger sua sucessora.  



ANEXOS

INFRAESTRURA VIÁRIA IMPULSIONOU DESENVOLVOLVIMENTO



Vista aérea da entrada de Praia Grande no final dos anos 1990, com extensão da Ponte do Mar Pequeno, construída dez anos antes. Abaixo o Portal da cidade na avenida Ayrton Senna em direção à orla e a Via Expressa Sul, construída a partir da antiga rodovia Acesso 291 da SP-55.



O portal de Praia Grande com acesso aos bairros  e cidades do litoral pela Via Expressa Sul.

Via Expressa Sul: último trecho em fase final

Sistema viário Xixová recebeu investimento de R$ 75 milhões
Jornal Perspectiva Construção

O último trecho da Via Expressa Sul, em Praia Grande, está em fase final e deverá ser liberado ao tráfego de veículos em dezembro de 2006. A pretensão da Prefeitura era entregar a obra no final de outubro, mas as chuvas do período atrasaram a conclusão do último viaduto da Via, que dá acesso ao complexo administrativo municipal de Praia Grande, no Bairro Mirim. Com o término da obra, Praia Grande encerrará a história do Acesso 291 da SP-55, marcada por acidentes, mortes e o excesso de lombadas.


Trecho tem 1.100 metros, entre a Curva do S e o antigo trevo do Bairro Mirim
Foto: Edmilson Lelo/PMPG

A inauguração do último trecho da Via Expressa Sul significa a conclusão do sistema viário Xixová, considerado um dos maiores investimentos nesta área na Baixada Santista, totalizando R$ 75 milhões desde 93, dos quais apenas R$ 10 milhões, o equivalente a 13,3%, vieram do Estado, por meio do Departamento de Apoio e Desenvolvimento às Estâncias (Dade).

"Só nesta terceira etapa da Via Expressa, que totaliza 3,2 quilômetros, foram investidos R$ 28 milhões, 90% dos quais provenientes do Município", informou o secretário de Obras Públicas, Luiz Fernando Lopes. "Além da duplicação, a Prefeitura construiu viadutos para pedestres e veículos e dotou as marginais de ciclovias e paisagismo beneficiando os bairros do Boqueirão, Guilhermina e Mirim."

A obra está sendo executada pela Termaq Construção Civil. Entre os parceiros, a Pedreira Mongaguá é fornecedora de brita. Este último trecho tem 1.100 metros e fica no Bairro Mirim, entre a Curva do S, na Rodovia Padre Manuel da Nóbrega, e o antigo trevo do bairro. No local foram utilizados 45 mil metros cúbicos de aterro, o equivalente a 4.500 viagens de caminhão tipo trucado. Para a contenção dos taludes foram construídos muros de 2,4 metros de altura nas duas margens.

Um dos destaques do trecho é o viaduto com duas passagens para veículos com até 4,5 metros de altura, o que permite o tráfego de ônibus, e 9 metros de largura (passeio de 3,5 metros e pista com 5,5 metros), na altura das Ruas José Borges Neto e Valter José Alves. Há também passagem para pedestres na altura da Rua Rosa Marly de Souza com 4 metros de largura e 2,5 metros de altura, permitindo a travessia segura entre os Bairros Mirim e Quietude. Neste local, está sendo finalizado o plantio de grama nos taludes, com início imediato do asfaltamento das pistas, cada com 8 metros de largura.

Complementam a obra duas alças de acesso na altura das Ruas Padre Manuel da Nóbrega (ligação com a Avenida Roberto de Almeida Vinhas) e Avenida Júlio Prestes de Albuquerque (acesso à Avenida Ministro Marcos Freire), em fase de acabamento. Com isso será finalizada a ciclovia. São pequenos trechos, com cerca de 5 metros cada um, localizados junto aos ramos de acesso à Avenida Roberto de Almeida Vinhas e Ministro Marcos Freire.


Via Expressa Sul: obra integra as cidades da Região Metropolitana
Foto: Edmilson Lelo/PMPG

Fonte :Jornal Perspectiva Construção -Edição 156. Site Novo Milênio. 



MEMÓRIA VICENTINA DE PRAIA GRANDE


O BAIRRO DE PRAIA GRANDE

Wilson Verta (1936) - Victor Lopes Veleije (1937)
Osvaldo Lescreck Filho (1939)- Júlio Vasques Filho (1938)
Reinaldo Machado (1934)- Antônio Lima de Andrade (1934)


Os bairros eram de baixa densidade populacional e se limitavam a Ilha de São Vicente.

Bairro localizado na área continental Lado Mar, antes da emancipação, hoje cidade de Praia Grande. 

No Canto do Forte existia um belo recanto e os moradores e turistas aguardavam a retirada de rede de pesca, que era puxada por bois.. 

Um dos desbravadores de Praia Grande foi o senhor Heitor Sanches, que loteou os Jardins Guinle, Matilde e Guilhermina e inaugurou o famoso Restaurante Lagosta. Família radicada e teve como genro Osvaldo Toschi que se tornou vereador representante daquela bela localidade. 

No Boqueirão da Praia Grande, esquina com a praia, existia a conhecida a Cantina do Vitorino; Bar e Mercearia do Pinheiros; o conhecido senhor apelidado de Açúcar, que era Presidente do E.C. Flamengo e pai do Rubens Sales, ex-profissional de futebol. 

E no bairro Solemar um morador muito conhecido chamado Júlio Secco de Carvalho, presidente do E.C. Solemar. 

Personalidades 

Consta que Oscar Niemeyer, arquiteto de projeção internacional, e que mais tarde projetou Brasília no tempo de Juscelino Kubtscheck, possuía uma casa de veraneio, a qual colocava à disposição dos seus arquitetos para se concentrarem em projetos arquitetônicos; também o famoso artista cômico chamado Mazzaropi e muitas outras personalidades.


Pescando na praia, 1940 a 1952. Este raro postal da casa Colombo é do tempo em que nas areias da Praia Grande circulavam apenas os pescadores com seu equipamento, e às vezes uma carroça e alguns bois. Cerca da década de 1940. Novo Milênio. 


HISTÓRIAS DO SEU EVARISTO


Um suplemento especial Tribuna de 24/04/1983) 




Comemorando seu 90º aniversário de publicação, o jornal A Tribuna, de Santos, publicou - em 24 de abril de 1983 - um caderno especial com uma grande entrevista com José Evaristo da Silva, residente em São Vicente, que nesse dia completava 93 anos de idade "e pode se gabar de ser uma das poucas pessoas a existir há mais tempo do que este jornal. Personagem que se tornou uma testemunha viva de acontecimentos históricos, dramáticos ou simplesmente pitorescos", como citou o matutino na capa desse caderno especial, que abrangeu também histórias de outras cidades da região.


Sobre Praia Grande, José Evaristo lembra que era um local quase deserto: "Não tinha quase nada antes da inauguração da ponte (N.E.: a Ponte Pênsil, de 1914). Tinha uma estradinha por onde eles traziam lenha de mangue para vender em São Vicente e Santos. Pouca gente morava por ali".


Mais, na matéria dessa edição especial de 24 de abril de 1983:


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"Praia Grande praticamente não existia. Não tinha quase nada antes da inauguração da Ponte Pênsil. Tinha uma estradinha por onde eles traziam lenha de mangue"


"Afaste-se da Fortaleza do Itaipu que virei bombardeá-la às 11,30 horas do dia 5".


Aviso aos corações temerosos: não se trata de uma nova revolução. Estamos começando a contar a história de uma praia tão grande que virou Cidade.

Um dia um major, de nome Carambert Pereira da Costa, que servia na Fortaleza do Itaipu, planejou o ataque à unidade, conforme relato feito por Graziela Dias Sterque em seu "Informativo Cultural", mensalmente editado em Praia Grande. Era o período da Revolução Paulista de 1932, que defendia ardentemente a Constituição. A luta era contra Getúlio Vargas, o mesmo Getúlio que esta semana foi alvo de diversas homenagens pela passagem do centenário de seu nascimento.

O aviso de ataque do major Carombert era para sua esposa, que morava na Fortaleza. E veio o bombardeio, com 48 bombas destruindo parcialmente as dependências tomadas pela 1ª Bateria.

A Fortaleza do Itaipu, assim como a Ponte Pênsil, sempre esteve ligada à história de Praia Grande, uma Cidade cuja atração principal são seus quase 27 quilômetros de faixa de areia de praia.

Estradinha - "Praia Grande praticamente não existia. Não tinha quase nada antes da inauguração da ponte. Tinha uma estradinha por onde eles traziam lenha de mangue para vender em São Vicente e Santos. Pouca gente morava por ali".

José Evaristo sempre viveu na Baixada e na verdade não exagerou quando disse que Praia Grande praticamente não existia. Além das praias só existia mesmo muita vegetação, a ponto de inúmeras pessoas saírem de Santos ou São Vicente para buscar lenha, utilizando pequenas carroças puxadas por burricos. 

O arquiteto Eliseu de Andrade Júnior, que também conhece muito da história de Praia Grande, lembrou que as terras interiores, como se chamavam os terrenos junto aos morros, eram utilizadas para a agricultura, principalmente no cultivo da banana. "Foi a fase áurea da banana, cujo maior consumidor era a Argentina. A faixa de areia de praia era para o tráfego, muito insegura". 

Praia Grande naquela época tinha características de final de região e a maior prova disso foi o sistema de saneamento idealizado pelo engenheiro sanitarista Saturnino de Brito para a Ilha de São Vicente. O despejo final era junto ao final do Morro Itaipu, utilizando um emissário que vinha pela Ponte Pênsil e depois pela Avenida Marechal Mallet. Há cerca de dois anos esse sistema foi desativado, mas curiosamente no final de 1982 voltou a ser acionado, desta vez para receber os dejetos da área central de Praia Grande. O efetivo surgimento do que hoje é Praia Grande começou em 1902, quando foi determinado o início da construção da Fortaleza do Itaipu. Logo depois, em 1912, começou a construção da Estrada de Ferro Santos-Juquiá, depois Estrada de Ferro Sorocabana e hoje absorvida pela Fepasa. A época levou inclusive o então presidente do Estado de São Paulo até Praia Grande, para presidir a solenidade de inauguração da estrada variante de acesso ao Forte, atualmente Avenida Marechal Mallet. A orla da praia, porém, apesar das estradas de ferro e de rodagem e do Forte, permanecia intacta. Segundo o arquiteto Eliseu, o maior entrave ao desenvolvimento era a falta de água. A rigor, a primeira efetiva utilização da orla ocorreu em 1936, quando um grupo de santistas fundou o Aeroclube de Santos, até hoje em pleno funcionamento. Com a construção da Via Anchieta, porém, deu-se a abertura do mercado turístico, já que a expansão da indústria automobilística possibilitou o êxodo semanal do Planalto à região, valorizando as terras da orla da praia em toda a Baixada Santista. Nessa altura, já se observava que Praia Grande era visualizada como estância balneária de recreio, principalmente pelo fato que em toda a área não havia população fixa. Eliseu de Andrade Júnior destacou que os grandes empresários da época logo perceberam a vocação da Cidade, partindo para os grandes empreendimentos.


Praia do Boqueirão e nos anos 1960. Ao fundo o maciço Xixová-Itaipu. 


O primeiro deles surgiu em Cidade Ocian, visando principalmente atender ao interesse dos turistas que procuravam casas para veraneio nos fins de semana. Esse processo termina com a instalação oficial do Município de Praia Grande, depois de muita polêmica com São Vicente. Começam, então, outras lutas, dentre elas a que prevê a construção de uma nova ponte sobre o Mar Pequeno. Era, como diziam as autoridades, a emancipação geográfica, a solução para que Praia Grande realmente pudesse desenvolver sua vocação turística.

Há grande preocupação no Município com a possibilidade de ser modificada a lei que impede a construção de altos edifícios na orla da praia

Grande parte da vegetação lembrada por seu Evaristo hoje não existe mais. Em seu lugar surgiram prédios, casas etc. 

A vocação para estância balneária de recreio foi respeitada? Qual a realidade de Praia Grande?

Pelo menos oficialmente as características foram respeitadas: "Estância Balneária de Praia Grande". A cada fim de semana centenas de turistas, do interior de São Paulo e até de outros estados, visitam a Cidade, à procura de momentos de lazer que façam, mesmo que temporariamente, esquecer o ritmo alucinante de trabalho. Há caso inclusive de pessoas, do interior do Paraná, que nunca viram o mar e quando chegam a Praia Grande correm pela faixa de areia como crianças inocentes.

Em dezembro de 1981, quase 20 anos após a primeira reivindicação, A Tribuna documentava a inauguração do primeiro tabuleiro da nova ponte sobre o Mar Pequeno. Houve de tudo naquela festividade de caráter político, com vistas às eleições gerais do ano seguinte. Na opinião de inúmeras pessoas, com a nova ponte nada mais deteria o progresso de Praia Grande. Os mais otimistas falaram até na futura "Capital da Baixada Santista no prazo de cinco anos".

Problemas - Depois da implantação do empreendimento "Cidade Ocian", as construções foram surgindo nos mais variados pontos, concentrando-se prédios no Bairro do Boqueirão e as casas entre o Campo de Aviação e o Distrito de Solemar, na divisa com Mongaguá.

Na opinião do arquiteto Eliseu de Andrade Júnior, foi exatamente a partir das construções que começaram a aparecer os problemas, evidenciando a necessidade de se dotar o Município da infra-estrutura necessária a suportar a avalancha turística. "O maior problema é a drenagem, para escoamento das águas pluviais, já que as terras, como nos demais municípios da Baixada, são baixas".

Santos e São Vicente não suportam mais receber o número de turistas que nos fins de semana procura o Litoral para descanso. Praia Grande não conta com o mínimo de infra-estrutura necessária ao atendimento à população fixa, razão pela qual há necessidade de um grande planejamento para evitar que o caos se estabeleça por completo.

Depois da construção da ponte só se fala da "explosão" que ocorrerá nos próximos anos. Eliseu de Andrade Júnior alertou que o maior perigo é justamente o desenvolvimento a qualquer custo: "Já pensou quando todas as áreas estiverem ocupadas? Sem estrutura certamente haverá um desastre, principalmente se não forem resolvidos os principais problemas de drenagem".

Esgoto - Praia Grande, atualmente, não tem qualquer problema sério referente a abastecimento de água, mas quanto ao esgoto a situação causa preocupações, principalmente porque as perspectivas são de que a explosão imobiliária ocorrerá a curto prazo.

A proliferação de prédios e residências na orla colocará em risco justamente a maior atração da Cidade: seus 27 quilômetros de praias. Até agora, com muito sacrifício, foi implantada rede de esgoto apenas na área entre o Canto do Forte e o Campo de Aviação, numa extensão de aproximadamente três quilômetros. O sistema já está parcialmente em atividade, mas assim mesmo, naquele trecho, continua o despejo de dejetos "in natura".

O comprometimento da balneabilidade das praias coloca em risco a vocação turística da Cidade, razão pela qual, conforme o arquiteto, precisam ser adotadas providências urgentes. "A expansão acelerada pela ansiedade do público do Planalto tornou-se rápida e superficial, passando por cima de diretrizes de planejamento que jazem esquecidas sob o peso dos interesses imediatistas".

Para Eliseu de Andrade Júnior, a população flutuante ainda não se encontra sensibilizada pelos problemas do Município, preocupando-se apenas com o lazer durante o fim de semana.

Lado pobre - A área geográfica de Praia Grande é dividida quase que ao meio pela Rodovia Padre Manoel da Nóbrega, ligação entre a Baixada Santista e o Litoral Sul e Vale do Ribeira. Do lado direito da Rodovia está a outra realidade do Município: o lado pobre.

Em diversos pontos observam-se favelas ou residências construídas sem o mínimo de condições para uma vida com um pouco de dignidade. À direita da estrada os problemas são inúmeros, havendo até pequenos núcleos que não contam inclusive com água encanada.

Eliseu de Andrade lembrou que nos últimos anos centenas de pessoas, a maioria de Cubatão, transferiram-se para Praia Grande, provavelmente para fugir aos problemas decorrentes da poluição. Em razão disso começaram a surgir os grandes núcleos habitacionais, exigindo dos órgãos públicos, municipais e estaduais, atuação semelhante à que é imprescindível na orla da praia. Afinal, pelo menos em tese, todos são iguais.

A necessidade de se planejar o crescimento para os próximos dez anos é a única solução para que Praia Grande mantenha sua vocação turística e também para que sua população possa desfrutar da área que até pouco tempo, como disse seu Evaristo, praticamente era só mato.

"O planejamento integrado se impõe. A defesa do meio-ambiente é compromisso assumido". A afirmação é do arquiteto Eliseu de Andrade Júnior, curiosamente o atual diretor de Obras da Prefeitura de Praia Grande. Numa referência indireta à vitória do PMDB neste município, o arquiteto falou que está se iniciando um novo ciclo de trabalho, desta vez com a participação de todos os interessados. "A administração se abre para a comunidade e a convoca para participar efetivamente, mesmo porque deverão ser respeitadas as tradições vigentes e também a experiência comunitária".

Por coincidência, o principal assunto hoje na Cidade é o decreto número 750, que, além de preservar os morros, limitou a quatro pavimentos o gabarito máximo dos prédios na orla da praia. Na semana passada houve efetivamente a primeira participação de um setor do Município: o empresarial. Incorporadores, o prefeito Wilson Guedes e o diretor de Obras reuniram-se num restaurante para debater justamente a nova legislação sobre as construções. Sabe-se conforme os comentários, que a grande reivindicação é a alteração do artigo que veda as grandes construções na orla da praia, que não conta sequer com 70 por cento da infra-estrutura de que necessita. Como conciliar os interesses empresariais, que para muitos representam o progresso, com a vocação turística da Cidade?

Pressão danosa - Segundo Eliseu de Andrade Júnior, esse realmente é o problema: "A grande pesquisa que atualmente se efetiva é conciliar a expansão urbana dentro das reais vocações da região. Toda e qualquer pressão nesta fase será, de fato, danosamente irreversível".

Para o arquiteto há necessidade de se desenvolver uma consciência no sentido de que a faixa à beira-mar seja reservada para os melhores interesses comerciais: "Isso possibilitará que a orla se apresente como um grande boulevard; a força comercial instalada ao longo das praias possibilitará o equipamento necessário ao desenvolvimento do turismo, garantindo a vocação da Cidade".

Eliseu de Andrade Júnior revelou em seguida que já estão em desenvolvimento os estudos referentes à elaboração do plano diretor físico, de modo a preparar o futuro da Cidade. "Praia Grande foi escolhida pelo povo do Planalto como área de descompressão leve e também de recreação. O Município inseriu-se no contexto da Grande São Paulo, é hoje uma região de utilidade estadual".

Para o arquiteto, os prédios na orla da praia têm que ter características comerciais, abrigando no térreo, e até nos primeiros andares, bares, lanchonetes, restaurantes e lojas. Eliseu defendeu também uma idéia antiga: a implantação de self-containers, conjunto de apartamentos sob administração empresarial.

Esse sistema, além de propiciar recursos tanto na fase de construção como na de utilização, por intermédio do Imposto Sobre Serviços (ISS), evita a privatização da área defronte ao mar.

A importância do Estado - A manutenção da vocação turística de Praia Grande exigirá a realização de obras com custos elevados, principalmente no setor de saneamento. Além da execução da segunda e terceira etapas do sistema de esgoto, há necessidade de implantação de vários canais de drenagem, semelhantes aos existentes em Santos. Para o arquiteto, a construção dos canais é a única solução para evitar que no futuro Praia Grande enfrente sérios problemas de drenagem, em razão de sua área muito baixa, a nível do mar.

O fato de Praia Grande ser considerada uma área de utilização estadual por certo servirá como argumento para que o prefeito Wilson Guedes convença o governador Franco Montoro a investir na Cidade.

Paralelamente, a administração municipal pretende criar novas fontes de recursos para ter condições de atender ao visitante e também para melhorar a situação dos moradores à direita da Rodovia Padre Manuel da Nóbrega.

A idéia do prefeito Wilson Guedes é incentivar a instalação de indústrias não poluentes, numa área defronte da Cubatão-Pedro Taques, nas proximidades da divisa com São Vicente. A industrialização, além de gerar recursos, proporcionaria um desenvolvimento mais rápido da área à direita da estrada, o que melhorará as condições de vida da população carente.

Reprodução: Novo Milênio - Histórias e Lendas de Praia Grande

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STATUS QUO?  QUO VADIS?

A  FORMAÇÃO CULTURAL DA CIDADE



Numa cidade recém fundada e formada a partir da junção de outras culturas, fica sempre a impressão e sensação de que existe nela um vazio causado pelas dispersão e ao mesmo tempo a busca de raízes e da sua identidade norteadora. O ideal emancipacionista serviu e ainda serve como referencial nesse sentido, porém não é suficiente nem satisfatório porque sua marca essencial é a construção permanente. Tanto para os nativos quanto para os forasteiros que foram chegando, permaneceu o desejo de encontrar um ponto comum que pudesse preencher esse vazio cultural, que aliás ainda está bem longe de uma síntese.  As duas questões que os antigos romanos usavam para definir suas raízes e seus propósitos ainda são vivas em Praia Grande: “Status quo”? e “Quo vadis”? 

Não é difícil identificar os elementos culturais que compõem o coletivo em Praia Grande, nem os elementos específicos dos diversos grupos que somam nesse todo. Eles existem, se manifestam, porém ainda permanecem ocultos pela pouca idade e pouco tempo de convívio de construção cultural, quando comparado com as outras cidades de raízes e convívio mais antigos. Um agravante que torna lento essa manifestação é a permanente presença da cultura turística, sem relação sólida e aprofundada com os elementos locais. 

Para compensar essa lacuna surgiram no decorrer dos últimos 50 anos alternativas de aculturação civilizatória, contribuição de pessoas que vieram habitar a cidade que, ao perceberem o vazio de elementos e laços culturais na sociedade, passaram a empreender ações cuja função era despertar a sensibilidade e também provocar a tomada de consciência para uma identidade própria e autêntica do moradores. Elas surgiram em vários segmentos, cumprindo funções sociais comuns, mas com características e conteúdos diferenciados. Foi assim que  foram aparecendo as diversas manifestações de costumes, visões de mundo e os diversos elementos culturais presentes na coletividade praia-grandensse: nas comunicações, na educação, nos eventos cívicos, nos ritos religiosos e filosóficos, nas celebrações cívicas, nos cerimoniais das instituições públicas, no serviço privado,  no comércio e também nos clubes sociais e humanitários.


 Christiane Sterque e Luiz Biondo durante desfile do 7 de Setembro do início dos anos de 1970, em homenagem aos estados brasileiros. 


A imagem que vemos acima é de um desfile cívico em Praia Grande na década de 1970. Este foi um tipo de evento cultural que adquiriu um força cultural e ritualística muito expressiva na cidade, por causa do regime que governava o país naquele contexto e também, como já vimos, pela presença marcante da população militar das Fortalezas de Itaipu, instaladas décadas antes da emancipação ocorrida em 1967. A imagem mostra uma cena na qual desfilam na avenida, diante das autoridades e cidadãos de destaque social, um grupo de estudantes representando os estados da composição federativa do Brasil.  O tema cívico  dava o tom de unidade nacional  e sintonia com o regime político vigente. Uma das jovens desse pelotão dos estados carrega um pequeno vaso de cerâmica primitiva, representando o estado do Pará, a cultura amazônica e mais especificamente os costumes indígenas daquela longínqua e gigantesca região norte do Brasil.  A jovem estudante não está ali por acaso e nem era coincidência o fato dela estar representando um estado amazônico e portando na mão direita um objeto utilitário da cultura indígena daquela região. Ela é filha da família Sterque, oriunda  da Capital paulista, mas de origem paraense. A mãe da estudante é Grazziela Sterque e o pai um ex-militar aposentado e que resolveram mudar para a Praia Grande para iniciar uma nova vida, num lugar que estava dando os primeiros passos da organização e da autonomia política e territorial. A professora Graziella tinha um diferencial de educação e cultura que teria função dupla na construção histórica da recém fundada  Praia Grande: a observação do vazio cultural, que marcava o perfil da comunidade; e também a criação de ferramentas  de despertamento social. Folclorista e colecionadora de arte, Grazziela tornou-se referência na cidade e na região como ativista e promotora cultural. De simples moradora, passou a inspirar e provocar o surgimento de inúmeras outras ações nos segmentos e pessoas que tinham o mesmo gosto e a vocação que ela alimentava no seu lar e nas suas atividades comunitárias.

Elson Dias Sterque, fundador e presidente  do Instituto Histórico e Geográfico de Praia Grande-IHGPG,  explica a trajetória da sua mãe e como ela também impactou a cultura local regional com as suas ações . Dos filhos do casal Sterque, ele foi o único que nasceu no Pará e seguiu a carreira militar do pai, servindo na Aeronautica e depois trabalhando na aviação civil. Ao propor, juntamente com o imão Claudio, a criação do IHGPG, ele acredita que está dando continuidade aos projetos iniciados pela mãe e pelas pessoas que conviveram com ela . 




Grazziela Sterque, entre inúmeras ações culturais, foi quem denominou as ruas da Vila Tupy dando nomes indígenas aos logradouros, insistindo na ideia de memória da brasilidade e respondendo com argumento cultural aos que criticavam a ideia por acharem que as pessoas teriam dificuldade na pronúncia do nome das ruas: “Eles se acostumam”, dizia ela.   Foi dela também a iniciativa de publicação do Informativo Cultural - órgão do Centro de Estudos Amazônicos de Praia Grande; a criação da Casa da Cultura; o Salão de Artes Plásticas; a Casa do Poeta Brasileiro e da Biblioteca Jarbas Passarinho. Foi docente da cadeira de folclore da então Faculdade de Artes e Desenho Industrial de Santos ( hoje Universidadae Santa Cecília).  A professora Graziella também é patrona de uma das cadeiras da Academia de Artes e Letras de Praia Grande. A Câmara Municipal, por sua vez, mantém como reconhecimento e fomento à cultura  a concessão do Prêmio Grazziela Sterque para homenagaer figuras e ações de destaque no município. 



Dorivaldo Loria Júnior, Graziella Sterque e Alberto Mourão no final dos anos de 1980 na cidade.




Exposição de Arte e Artesanato Indígena organizada por Grazziela Sterque em 1976. 


Duas edições do famoso Informativo Cultural editado por Grazziella Sterque.


O Museu da Cidade possui um espaço denominando Grazzilela Sterque, que guarda peças do seu acervo particular de arte e artesanato indígena, incluindo a famosa coleção indígena que ela sempre disponibilizou em exposições públicas. Era uma forma que ele encontrou para desenvolver a auto-estima, identidade local e orgulho de pertencimento, que era muito escasso e difícil nos primeiros tempos da municipalidade.

 


Um dos efeitos da semadura cultural de Grazziela Sterque. Dia do Folclore do Brasil, Clube do Sirí no inicio dos anos de 1970. A homenagem foi realizada por alunos do Colégio Estadual de Praia Grande e envolveu muitos conhecidos hoje da cidade. Arquivo dos Sterque.




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Em casa, um museu indígena da Amazônia

Acervo particular é o maior do gênero fora da Amazônia

Matéria publicada no jornal santista A Tribuna, em 4 de maio de 1995. Fonte: site Novo Milênio.


Museu está fechado há 10 anos em PG

 A TRIBUNA. Da sucursal de Praia Grande

 


O Museu da Amazônia, em Praia Grande, reúne a maior coleção particular de objetos referentes às tribos primitivas do Brasil fora da Região Amazônica. São mais de 4 mil peças de artesanato (algumas com penas de animais em processo de extinção), 22 mil slides e 3.800 livros sobre a fauna, a flora e a economia da Amazônia. Apesar de sua importância, há cerca de dez anos o museu está fechado à visitação e não há previsão de sua reabertura.

A família Sterque, proprietária do museu há 32 anos, mantém a quase totalidade das peças empacotadas por falta de um local adequado para expor. Durante anos, elas ficaram expostas na própria residência da família, na Avenida Paris, 399, Canto do Forte. "Hoje não temos mais estrutura para manter o museu em casa", disse Carmen Diaz Sterque, uma das proprietárias.

Além de peças exóticas e raras, como uma borduna, um bastão feito em madeira de lei, entalhado com dente de porco do mato, e um cocar com penas de pavão do Alto Amazonas, o museu conta com uma biblioteca que chegou a ser ponto de referência para pesquisadores da região da Baixada Santista e também da Grande São Paulo.

Carmen diz que há livros sobre antigas expedições (alguns cotados em R$ 2.500,00), antropologia, arqueologia, folclore e arte amazônica. "Há livros sobre praticamente tudo referente à Amazônia". Fora isso, há uma hemeroteca, em processo de formação.

Animais - O museu tem ainda cerca de 30 animais empalhados. São oito espécies de Uirapuru, tucanos, papagaios, curicas, jaguatiricas e jacaré. "É muito triste ver todo esse acervo longe do público. A reabertura do museu daria um grande impulso ao setor cultural e turístico de Praia Grande e, por que não dizer, até da região".

Mesmo de portas fechadas, a família continua adquirindo peças em freqüentes viagens à Região Amazônica. Só para a manutenção do acervo, os gastos com produtos de conservação ultrapassam R$ 200,00 por mês.

Canadá - No final de 92, cerca de 1.200 peças - entre elas livros raros do século XVII – foram enviadas para Quebec, Canadá, para participar de uma exposição, e por pouco não retornam mais ao Brasil. Uma fundação estava disposta a pagar cerca de US$ 1 milhão por essa parte do acervo, com base em uma avaliação feita por uma equipe canadense, formada por um professor de Antropologia, um catedrático em História Indígena das Américas e um avaliador oficial.

Apesar da total falta de apoio oficial para a manutenção do acervo, a família optou pela permanência do museu, completo, em Praia Grande. "Temos o museu como um ideal. Não temos intenção de vender ou doar as peças. Buscamos apenas o apoio da iniciativa privada ou da Prefeitura para a obtenção de um espaço para expor as peças", disse Carmen.



A cada viagem a família adquire novas peças para o museu. Foto: Adalberto Marques, publicada com a matéria.

Casa da Cultura mostra parte do acervo


Uma pequena mostra do que é o Museu da Amazônia pode ser conferida até segunda-feira na Casa da Cultura de Praia Grande, onde acontece a exposição A Habilidade Artesanal do Indígena Brasileiro. Ao todo são 150 peças, muitas delas curiosas, como a língua do peixe pirarucu, utilizada pelos indígenas para ralar mandioca e bastões de guaraná.

Há também instrumentos musicais, objetos de cerâmica, artefatos de penas, adereços e armas de dez tribos da Amazônia: Tirió, Yauretê, Urubukarapor, Macuxis, Kalapolos, Carajás, Xavantes, Pakaa Nova, Yanomamis e Tucanos.

Entre as armas, a diretora da Casa da Cultura, Graziela Diaz Sterque, destaca uma flecha de ponta chata, para derrubar pássaros sem matá-los. "Os índios retiram as penas para fazer cocares, tangas e braçadeiras. Depois alimentam o pássaro, devolvendo-o à mata, para não quebrar a cadeia ecológica. Por menor que seja, um pássaro come de 200 a 250 insetos por dia".

Há ainda instrumentos musicais interessantes, como um tambor da tribo Pakaa Nova, com mais de 80 anos. Mas, segundo Graziela, o que mais atrai é a flauta dos índios Carajás, feita com fibras, linhas e penas. "É desta flauta que sai o som da Reserva do Xingu, ouvido nos documentários".

Entre os adereços, há peças feitas com miçangas pela tribo Tirió, que vive próximo à fronteira com a Guiana Francesa e frascos de essência, como o patioli, pau d'angola, janapa e sândalo.

Já visitaram a mostra mais de 1.000 pessoas em duas semanas. A Casa da Cultura fica na Rua Copacabana, 530, Jardim Guilhermina. Abre de segunda a sexta-feira, das 9 às 17 horas, com entrada franca.

 


O casal Ana e Ricardo Yamauti (ambos falecidos) na Casa da Cultura nos anos de 1990 com Graziella Sterque.